História Make me feel like I'm living - Capítulo 10


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Categorias Gotham
Personagens Bruce Wayne (Batman), Comissário James "Jim" Gordon, Harvey Bullock, Jerome Valeska, Personagens Originais
Tags Gotham, Jerome Valeska
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Palavras 3.875
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Ficção, Ficção Adolescente, Hentai, Luta, Mistério, Saga, Suspense, Universo Alternativo
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Spoilers, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Acabei ficando meio ausente.
Precisei viajar, adoeci, resolvi ocupar minha cabeça comigo mesma e com isso, os dias foram passando. Senti falta das pessoas que leem minha história. Senti falta de quem realmente gosta disso que eu faço. E então voltei.

Capítulo 10 - Win something, lose something


Minha garganta começou a incomodar de tão seca e foi assim que eu despertei. Abri os olhos bem devagar, me acostumando com a luz. Mentalmente, chequei os lugares onde doía e descobri que não havia um único pedaço do meu corpo que não estivesse dolorido, mas alguns gritavam mais que os outros, como por exemplo os pulsos e a cabeça. Mal conseguia me lembrar de alguma coisa. E como eu fui parar numa cama estranha? As paredes ao meu redor eram todas de concreto, simples e assustadoras justamente por serem tão simples. O quarto em si não tinha quase nada: uma mesinha de ferro em um dos cantos, uma pia com um espelho pequeno na parede, um balde e a cama onde eu estava… amarrada. Meus pulsos doíam pelas cordas apertadas, a textura áspera abrindo a pele e prendendo meus braços nas barras de ferro da cabeceira. E o quarto… eu não conhecia aquele quarto, mas cheirava como…

    Um porão.

- JEROME!

    Mesmo com a garganta seca, continuei a gritar o nome dele até achar que ia engasgar. Lentamente os eventos começaram a voltar para mim, a pancada na cabeça e eu comecei a compreender. Jerome tinha me dado uma coronhada com a arma e me amarrado no porão da casa, o único lugar que eu não explorei. Sentia tanta raiva que achei que minha pele iria começar a queimar. Escutei passos, uma porta atrás de mim se abriu e mais passos desceram uma escada. Tentei virar o corpo com raiva e vi Jerome parado, a cara fechada e uma bandeja nas mãos com um copo d´água e uma caçamba.

    Ele pegou a água e levou a minha boca antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Bebi bons goles e, assim que ele afastou o copo, não consegui me conter.

- Mas que porra? - gritei, olhando pros meus pulsos e de volta para ele.

- O quê? Você não gostou do seu quarto novo? - ele sorriu para mim, se aproximando. Pousou a bandeja no chão ao lado da cama e sentou na beira da cama, colocando uma das mãos no queixo. - Acho que ele combina bastante com você.

- Jerome, fala sério. O que é isso? Por que isso?

- Eu não sabia que além de mal-agradecida, você também tem memória ruim. Digamos que… eu estou cuidando de você. Entende?

- Me desamarra agora.

- Se eu fizer isso, vai ser um desastre. Não quero ter que atirar em você.

- Por que…? Quer saber? Você é louco. Maníaco. Eu não vou argumentar. Só me desamarra agora.

- Já disse, Anne, eu não posso fazer isso - Jerome trincou os dentes, fechou o punho sob a coxa e me encarou, impassível. - Você não pode ir embora.

    Recapitulei o absurdo daquela situação na minha cabeça. Primeiro, eu não queria ir embora, mas como ele havia me ofendido, resolvi partir por indicação dele mesmo, Jerome entrou em desespero e me amarrou no porão. Eu só queria poder estar perto dele, mas ele usou todos os recursos orais para me mandar pastar. E depois… ele me mantém em cárcere? De novo?

- Espere - murmurei, olhando para minhas pernas e pensando freneticamente. Franzi o cenho para ele, encarando-o com firmeza. - Você sequer se lembra do que me disse na sala?

- O que quer dizer?

- Você me mandou embora.

- Não, eu não te mandei embora. Eu não dei essa ordem.

- Jerome, foi praticamente a mesma coisa.

    Eu planejava continuar falando, mas meus pensamentos foram inundados por uma voz.

“Talvez eu mudasse por você. (...) Você realmente pensou que isso iria acontecer? (...)  Por favor, me diga, você acha que porque dormimos uma noite eu vou me tornar uma pessoa melhor? Não, não me diga que é isso porque seria triste ter que rir na sua cara.”

    Fechei os olhos, deixando aquelas frases entrarem na minha corrente sanguínea e percorrerem todo o caminho até meu coração, contaminando cada vaso sanguíneo presente. Sorri amargamente, de olhos fechados.

- Fora daqui. - como ele continuou parado, repeti. - Agora! Eu quero ficar sozinha, fora!

      Jerome pareceu murchar, os ombros descendo, mas tão rápido quanto surgiu, sua expressão de desolação deu lugar a raiva. Pelo menos compartilhávamos da mesma sensação, ainda que por motivos diferentes. Se eu ia ser mantida em cárcere, não queria nenhum contato com ele após aquela enxurrada de palavras duras. Não queria Jerome perto para me lembrar da última conversa. E não queria a maldita sopa que ele havia preparado (o cheiro de cogumelos invadiu minhas narinas). Fui deixada sozinha. E os minutos pareciam uma eternidade naquele maldito porão.


 

Nenhum relógio contava o tempo, mas os passos me guiavam a pensar em quanto tempo estava se passando. Os passos iam e vinham da porta do porão, como se alguém do lado de fora fosse de um lado para o outro. Eu contava os passos como segundos em um relógio. Meu estômago roncava alto, mas era suportável. Não me lembrava da última vez que tinha comido. Me concentrei nos passos. Um tempo depois, a porta se abriu de novo e Jerome desceu sem cerimônia, aparentando uma falta de interesse imensa. Para minha surpresa, ele se aproximou dos meus pulsos e começou a desamarrá-los. Não tirei os olhos de seu rosto, uma página em branco que não expressava nada além do mais puro desinteresse. Quando fui solta, esfreguei os pulsos nos lugares onde a corda tinha cortado um pouco a pele, mas ainda assim não tirei os olhos de Jerome. E tão subitamente quanto tinha aparecido, como se fosse um produto da minha fantasia, ele subiu as escadas e desapareceu. Pisquei algumas vezes para tentar me convencer de que era real. Mas eu só saberia se saísse daquele porão. Subi as escadas e reparei que a porta não tinha sido trancada. Estranho. Eu estava livre?

    Ao passar pela sala, vi Jerome sentado no sofá de frente para a televisão. Ele continuava aparentando tédio e desinteresse. Como se eu não estivesse lá. Como se eu não fosse importante. E sim, era bem óbvio que ele sabia que eu estava parada bem ali no canto da sala, porém não demonstrava nenhum sinal de se importar. Pensei nas minhas possibilidades. Pegar o carro e ir embora sem nada era imprudente. Mas até pegar minhas malas, talvez ele mudasse de ideia e me prendesse de novo. Ainda assim, eu não podia ir embora de mãos vazias. Levar o carro também era algo arriscado. Se eu iria embora, se iria partir, não podia ter mais nenhum vínculo com Jerome que o fizesse vir atrás de mim, mesmo que fosse pela desculpa estúpida de buscar o carro. Ele roubou, era dele.

    Minha melhor chance era procurar minhas coisas com naturalidade e sair o mais rápido possível. Subi as escadas para o segundo andar e tinha certeza de que Jerome sabia todos os meus passos pelos rangidos da madeira, mas em nenhum momento ele apareceu. Peguei minha bolsa já pronta no chão e esvaziei um pouco, deixando algumas roupas sobre a cama. Meu olhar pousou na cama. Parecia fazer séculos desde que nós dois tínhamos…

    Não, não tínhamos nada. Foi só um erro de iniciante.

    Peguei a bolsa mais leve, desci até o pé da escada e contemplei Jerome parado na exata mesma posição no sofá, relaxado. Não quis dar adeus. Saí pela porta da frente com passos decididos, sem me importar em fazer barulho dessa vez. Jerome não se importava mais, se é que em algum momento se importou. Era difícil prever. Ele estava me deixando ir. Eu só não sabia bem para onde.

 

Seguindo a estrada por aproximadamente uma hora (uma boa caminhada no final da tarde), a primeira coisa que vi - e juro, parecia uma miragem - foi um bar. O letreiro piscava bem acima da porta. The Jack’s. Apesar da aparência e do nome brega, o estacionamento fora do bar estava lotado de carros. Casa cheia.

    Entrei sem me importar com ser vista pelas pessoas. Ninguém conhecia Anne ali. Ninguém se importaria. Procurei com os olhos por um banco vazio no bar, mas estavam todos ocupados, então apenas me aproximei e fiz um sinal pedindo duas doses do que estivesse sendo servido. Enquanto bebia, apoiada em um espacinho do bar, acabei decidindo que não podia beber além da conta. A solução dos meus problemas não viria no fundo de alguma garrafa. Além de gastar o meu dinheiro, eu não poderia garantir minha segurança. Estava sozinha. Com o canto dos olhos e o copo a caminho da boca, pensei ter visto um reflexo de cabelo ruivo no bar. Olhei melhor e era somente um homem moreno parado debaixo de uma luz, tornando curiosa a cor de seu rosto e seus cabelos. Estava paranoiando por causa dele. Por causa de Jerome. Em minutos, iria começar a ver seu rosto em cada pessoa ali. Precisava pensar nas minhas possibilidades dali pra frente. Poderia procurar Alyson, sim. Poderia inventar qualquer história e morar em sua casa por uns tempos. Ou poderia voltar ao meu antigo apartamento. Só que… Lá não parecia mais um bom lugar. Jerome havia poluído o lugar com lembranças ruins, boas, confusas. Talvez eu só vendesse aquela porcaria e procurasse por algo diferente. Iria limpar Jerome da minha vida. Como se ele também nunca tivesse existido.

    Mas não poderia fazer nada se continuasse enfurnada no The Jack’s bebendo como se estivesse em uma despedida de solteiro. Dei algumas notas amassadas para o garçom, ajeitei a bolsa em um dos ombros e comecei a andar para fora. O vento frio da noite acertou meu rosto e eu me encolhi. De dentro da bolsa, tirei um casaco e finalmente consegui me esquentar um pouco. Com as mãos nos bolsos, continuei andando pela estrada, na direção erma. Passando um pouco o estacionamento do bar, a estrada começava a ser margeada apenas por mato, árvores altas que quase se fechavam sobre minha cabeça, tampando o céu. Talvez se eu andasse mais rápido, conseguisse chegar em algum lugar seguro. Por duas vezes, pensei ter ouvido o ruído de passos me seguindo, mas ninguém estava ali. Segui em frente até escutar novos barulhos.

    Uma lata acertou o chão mais a frente e o som de risadas preencheu o ar. Homens. Apurei os ouvidos, tentando localizá-los porque com certeza eram mais de dois. Não me sentia na vantagem ali, em um lugar ermo, sozinha. Não me sentia segura. Mas precisava passar, nem que tivesse que contornar pelo mato. Prestei tanta atenção nas vozes a minha frente que só notei os reais passos atrás de mim tarde demais. Um homem baixo, porém forte se aproximou. Me virei o mais rápido possível.

- Boa noite, boneca - seu olhar desceu da minha cabeça até meus pés de forma nojenta. - Perdida?

- Não - respondi, neutra. - Obrigada.

- Por que não se junta a nós? Ei, Leonard! - ele gritou para trás de mim, erguendo um braço para acenar. - Olha o que eu achei.

    O que, não quem. Reparei na escolha de palavras dele, me amaldiçoando por dentro. O bar parecia bem mais acolhedor visto daquela perspectiva. Leonard e mais dois homens vieram da direção que eu seguia antes, me cercando.

- Realmente, um belo achado, Thomas. - Leonard respondeu para o homem antes de virar sua atenção para mim. - Está perdida?

- Já disse ao seu amigo que não.

- Agora você não está mesmo. E, olha que sorte... Acabou de arranjar companhia para a noite. Quatro companhias - um dos homens completou.

- Vou recusar dessa vez - respondi, com um aceno de mão.

    Tentei recuar dois passos, mas não havia lugar longe deles. O cheiro de bebida chegava até mim e meu estômago dava voltas. Minhas pernas estavam bambas, enquanto eu processava a ameaça. Por dentro, queria muito fechar os olhos e sumir para qualquer outro lugar. Queria evaporar para longe dali. Não adiantaria gritar, ninguém ia ouvir. Mas eu gritaria de qualquer forma. E arranharia, morderia, chutaria até eles me deixarem ir embora. Thomas deu um passo para frente e cheirou o ar próximo ao meu pescoço. Tremi no lugar.

- Você a encontrou, Thomas. Talvez você queira ser o primeiro…? - Leonard deixou a frase no ar quando todos ouvimos o barulho de novos passos.

    Virei para a direita, observando a rua e quase engasguei com o seco que engoli. Os cabelos ruivos eram inconfundíveis. Jerome vinha descendo a rua, os olhos vagando entre o grupo e eu. Seu andar, o gestual, tudo indicava alguém relaxado e indiferente, talvez uma pessoa que fosse simplesmente passar direto, mas eu conhecia aquele olhar. Aquela fúria velada contida dentro das íris como se tudo ali dentro estivesse pegando fogo. Meu cérebro não queria computar que ele estava ali. Não era real. Ele estava em casa, há quilômetros de distância.

- Boa noite - sua voz preencheu não apenas meus ouvidos, mas meus vasos sanguíneos, meus pulmões, meu coração. Eu não estava imaginando coisas apenas para me tranquilizar quanto a qualquer coisa que acontecesse comigo em seguida. Ele estava mesmo ali.

    Os homens não deram nenhum sinal de que responderiam. Na verdade, pareciam bem putos de terem sido interrompidos.

- Eu acabei escutando a conversa de vocês. Sabe como é, rua deserta, eco, essas coisas - ele abanou a mão, se aproximando. Debochava com tranquilidade, mas ainda queimava de raiva por dentro. - É uma pena estragar a diversão de vocês, mas eu acho que quando essa mulher disse que não queria companhia… Bom, pareceu sério para mim. Era sério? - ele perguntou para mim, como se não me conhecesse.

    Não consegui concordar porque a situação era muito estranha. Leonard cruzou os braços, um misto de irritação com riso.

- Vamos fingir que você nunca esteve aqui se passar batido, rapaz. É só seguir em frente.

- Hm… - Jerome colocou uma mão no queixo para pensar, encarando o chão. Ergueu o rosto. - É, não vai rolar. Ela vem comigo.

    Os homens se entreolharam e voltaram o olhar para ele antes que os dois (cujos nomes eu desconhecia) começassem a rir.

- Você até que é engraçado, moleque, por isso estamos dando uma nova chance - um deles falou. - Vamos, vaza daqui.

    Jerome estava perto de mim. Eu não conseguia esboçar nenhuma reação. Era como se eu estivesse fora de meu corpo vendo a situação acontecer com outra pessoa. Por que ele estava ali e não em casa? Por que tinha me seguido? Por quanto tempo ele havia me seguido? Muitas perguntas começaram a se acumular na minha cabeça. Ignorando completamente os demais, Jerome estendeu uma das mãos para mim.

- Vamos?

    A mão de Thomas acertou o braço de Jerome, fazendo-o recuar apenas alguns centímetros.

- A mulher fica - Thomas declarou.

- Você também - Leonard interrompeu, apontando para Jerome. - Você também fica. Thomas - seu olhar caiu no homem baixo e no outro, loiro. - Juan, faz tempo que vocês não se divertem. Não é todo dia que um voluntário cai de paraquedas na nossa frente - comentou para os amigos, rindo. - Podemos testar um pouco os punhos. O que acham?

    Jerome foi tão rápido que não houve tempo para reação. De trás de sua calça, sacou uma arma e apontou para a testa de Leonard, o corpo rígido, o braço que segurava a arma bem esticado e a expressão séria.

- Vou repetir mais uma vez, para ela. - Jerome dirigiu sua atenção parcialmente para mim, sem se mover um centímetro. - Vamos?

Dessa vez, assenti com a cabeça. Mas meu alívio não durou. O homem loiro, Juan, deu apenas um soco na lateral do rosto de Jerome. Eu não estava prestando atenção em todos os homens, tal era a tensão entre Jerome e Leonard. Aparentemente, Jerome também não estava com bons reflexos naquele momento. Ele tomou o soco de mão cheia no rosto e caiu no chão, a arma escorregando pelo concreto. Os quatro homens se aproximaram e começaram a chutá-lo.

Lancei o corpo para a frente, tentando agarrar as costas do homem mais próximo a mim e tentando também puxá-lo para trás. Com apenas um tapa, Thomas me mandou para trás. Caída de costas no chão, apoiada nas mãos, observei Jerome, incapacitada. Ele era chutado de forma cruel e seu corpo se inclinava para os lados, seguindo o sentido de cada chute. Sangue saiu de sua boca e eu escutei barulhos  preocupantes vindo de seu corpo que fizeram meus olhos se fecharem. Apesar de toda a dor, ele ainda assim ria, deixando o sangue da boca escorrer pelo queixo. Não iria se dar por vencido. E iria morrer. Os chutes não paravam e eram violentos, cruéis, brutais.

Estivemos juntos em momentos ruins. Essa era uma repetição, um dejà vú conturbado dos policiais no apartamento. Iam matar Jerome e o que eu havia feito? Atacado-os. Ajudado Jerome a matar e escapar. Em muitos momentos, eu tive a oportunidade de entregá-lo, de fugir, até de matá-lo se quisesse. Em nenhuma dessas oportunidades fiz qualquer coisa. Apenas continuei agindo como queria e eu queria liberdade. Queria fazer minhas próprias escolhas, queria ele. Naquele momento, queria salvá-lo de novo, como antes. Um pensamento nublado se formou em minha mente. Se Jerome morrer, acho que eu morro. Não apenas porque provavelmente após matar Jerome, aqueles homens me matariam. Não. Mesmo que eu sobrevivesse, não iria conseguir… Tudo que era Anne desaparecia no momento em que eu lembrava de acordar nua ao lado dele. Anne desaparecia e virava a combinação de Anne e Jerome. Se essa conexão fosse desfeita, eu explodiria. Não existiria mais eu.

Escolhi Jerome acima do meu orgulho, acima das palavras ofensivas ditas por ele, acima do cárcere, do porão, acima de tudo. Escolhi Jerome.

E vi a arma.

A Anne que eu conhecia entrou no modo automático mais uma vez.

Minha versão mais nova, a que eu ainda tentava conhecer, assumiu.  

Rastejei até a arma e, com as mãos firmes, mirei na cabeça de Thomas. Primeiro tiro. O barulho assustou os outros três homens, mas eu não dei tempo de reação. Talvez eu sempre tivesse essa mira boa ou talvez viesse no pacote Nova-Anne. De toda forma, era incrível. Enquanto Thomas caía, mirei no homem cujo nome eu não sabia e não me importei com o sangue quando a bala transpassou seu peito. Juan foi o próximo, na cabeça, e Leonard ainda tentou se aproximar de mim, mas dois tiros em seu peito o fizeram recuar. O terceiro terminou o serviço. Ficando de pé, eu não sentia absolutamente nada. Estava vazia por dentro. O homem sem nome ainda engasgava com o próprio sangue, lutando pela vida. Me aproximei e dei o tiro de misericórdia. Havia bastante sangue. E isso era irrelevante.

    Jerome continuava no chão, imóvel. Ele estava de barriga para cima, os olhos fechados. Andei até seu corpo e me ajoelhei, largando a arma no concreto. Meus dedos correram por seu tronco e braços, checando as manchas de sangue escuro. Tateei sua cabeça, seus cabelos, seu queixo, seu nariz, tudo muito machucado e frágil.

- Puta merda - sussurrei, sem conseguir me conter. Jerome estava muito machucado. - Você precisa levantar - murmurei. - Preciso te levar… Não tenho um carro. Mas que merda!

    Ele não respondia. Jerome não respondia.

- Ei! - dei dois tapinhas em sua bochecha. - Não não não não não, ei! Jerome! Abre os olhos! - exclamei, segurando seus ombros e dando uma balançada. Não sabia o que fazer. - Por favor, por favor, por favor, por favor.

    Comecei a perder a noção do que era racional. Apalpava todos os lugares onde ele estava machucado. Senti as lágrimas rolando por minhas bochechas, mas não fiz questão de limpar. Algumas rolaram até Jerome e caíram em seu peito. Limpei com as mãos o sangue em seu queixo e olhei minhas palmas avermelhadas. O sangue de Jerome parecia a coisa mais limpa, perfeita e terrível que eu já havia observado. Voltei minha atenção para ele, pedindo, implorando, murmurando sozinha.

    Os segundos se transformaram em minutos e conforme o tempo ia passando, minha esperança de que ele abrisse os olhos ia diminuindo. Um buraco começou a se formar em algum lugar dentro de mim e comia meus órgãos devagar, de dentro para fora. Jerome não se mexia. Meus sentidos estavam me enganando, não conseguia decidir se ele estava respirando fraco ou se nem ao menos respirava. Nenhum sinal. Puxei sua cabeça para meu colo e fitei as árvores, divagando na escuridão da noite, além das folhagens, minha mente entrando em uma espiral de confusão, estranhamento, tonteira.

    Meu corpo marchava para sua própria auto-destruição. Eu sabia que isso aconteceria. Não tinha mais volta atrás depois que Jerome apontara a arma para mim, me fizera recuar para dentro de meu apartamento e eu não sentira medo. Não havia mais volta atrás depois do tempo juntos. Não havia mais volta atrás depois de todos os sentimentos confusos - a raiva, a tranquilidade, o companheirismo, o desejo. E o amor. Não havia volta atrás disso.

- Você não vai voltar, não é? - murmurei, afagando o rosto tão tranquilo e imóvel dele. Sorri, pensando que se Jerome abrisse os olhos, meu sorriso seria a primeira coisa que ele veria. Ainda assim, era falso. Forçado. - Jerome, por que não volta pra mim? Eu estou aqui, esperando. Abre os olhos.

    Não recebi resposta. Mordi os lábios, lutando para manter o sorriso e deter as lágrimas, fracassando em ambas as tentativas. A tristeza começava a virar raiva e a raiva virava desespero. Quando meu olhar saiu de Jerome e fitou os quatro corpos caídos na noite silenciosa, quis me levantar e abrí-los. Quis arrancar tudo que eles possuíam e oferecer para Jerome. Trazê-lo de volta para mim. Quis matá-los de novo, atirar mais. Queria que implorassem. Mas estava tudo terminado. Se ao menos Jerome tivesse ficado na porra da casa.

    Eu precisava quebrar o silêncio. Estava terminando de me comer por dentro e logo eu não me reconheceria. Desci os olhos para Jerome e tentei sorrir, tentei fingir que não estava me desesperando.

- Minha mira foi ótima, você perdeu - falei, como se contasse um segredo. - Aposto que ficaria orgulhoso de mim.

    De súbito, não consegui conter mais. Os soluços brotaram altos logo após um grito. Minha sanidade estava por um fio e aquele grito de dor que saiu de mim foi se espalhando pelas árvores, noite adentro. O grito não foi humano, foi de puro desespero. Meu corpo tremia com o choro alto, como uma criança perdida. Não adiantava falar com Jerome, pedir que me respondesse. Eu estava sozinha. Usei a manga do casaco para limpar meu rosto. E quando desci o braço, algo estava diferente. 

    O rosto em meu colo carregava a sombra de um sorriso nos lábios. Um sorriso de dor, fraco, mas lá estava. Meu coração voltou a bater e o choro baixo era então de alívio. Abaixei a cabeça até ficar com a testa próxima da dele, meus cabelos caindo como uma cortina sobre nós e sussurrei para Jerome, agora que eu sabia que ele estava ali comigo.

- Eu sabia que você não iria a lugar algum.


Notas Finais


Ah, esses dois...
Obrigada por ficarem até agora, pessoal. Estão gostando?


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