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História Mala Suerte - Capítulo 13


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Notas do Autor


Olá novamente!

Passando pra avisar que esse capítulo deu uma atrasadinha por motivos pessoais novamente (minha casa está em reforma), e que os próximos capítulos também podem atrasar um pouquinho. Peço desculpas pelo inconveniente.

Até mais... <3

Capítulo 13 - Capítulo 12 - Algo Estranho.


 

         Tudo o que eu imaginava que nunca mudaria na minha vida, aprecia ter mudado naquele momento.

 

         Eu e Brian ficamos por mais um tempo em “meu” quarto. A sensação que eu tinha sobre meu próprio corpo (sobre não ser capaz de sentir como se fosse, realmente, meu corpo) também se manifestava nas coisas daquele quarto. Eu não sentia como se fosse meu. Sabia que era, mas não o sentia como tal. Até fiz um esforço para tentar me lembrar de alguns detalhes, enquanto Brian me explicava sobre certas coisas que provavelmente aconteceriam naquele dia, mas não deu certo.

         Sentia como se já morasse ali desde muito pequeno, sentia que conhecia aquela casa. E, ainda assim, sentia que tinha entrado pela porta há menos de cinco minutos. Era uma sensação estranha, como um deja-vu, mas, também, como amnésia. Uma sensação de que eu tinha passado grande parte da minha vida ali, e tinha vivenciado muitas partes importantes do meu crescimento, mas tinha me esquecido de tudo depois do incidente com a Cartomante.

         Enquanto Brian falava, deixei minha mente voar por um tempo. Ainda estávamos sentados na cama, e ele parecia particularmente interessado em falar sobre as provas que teríamos naquela semana – ou sobre seus jogos de basquete (dos quais eu passaria longe). Não o ignorei, para ser sincero, mas ainda estava muito confuso para prestar atenção em qualquer coisa. Fiquei comendo meu café-da-manhã, pensando em como voltaria para minha vida normal, e até pensando se gostaria de voltar para minha vida normal.

         Quero dizer, a Cartomante estava falando a verdade. Ela realmente me transferiu para um mundo diferente, aparentemente, ou me aplicou alguma substância ilícita e alucinógena. Eu não sabia qual era a diferença. E nem me importa. A única coisa que importava no momento era que eu sentia como se estivesse no meu mundo ideal. E, provavelmente, se a Cartomante realmente havia me enviado a esse novo universo, o motivo para tal também se concretizaria. Digo, segundo a mulher, foi a minha força de vontade que permitiu minha passagem para essa outra realidade alternativa (ou qualquer coisa assim). Se aquele mundo existia simplesmente para me dar o presente de ter apenas sorte, meu motivo para querer sair de minha vida antiga teria que ser eliminado.

         E parecia ter sido.

         Eu não tinha uma vida ideal, no outro mundo, mas também não era ruim. Meus pais tinham dinheiro suficiente para sustentar a casa e para algumas regalias. Minhas notas, no colégio, não eram ruins. Minhas amizades não eram perfeitas, mas suas imperfeições apenas acrescentavam mais humanidade em nossas relações. Era uma vida boa. Eu levantava, ia para o colégio, tirava boas notas e conversava com minhas amigas, voltava e socializava passivamente com meus pais, e repetia tudo no dia seguinte. Mas ainda faltava mais.

         Ainda faltava aquela coisa que quase todo mundo tinha, algo que eu invejava em segredo e tentava me convencer de que não precisava: alguém. Eu podia ter tudo o que precisava (uma casa boa, amizades, boas notas e pais gentis), ainda gostaria de dividir toda essa vida com alguém. Talvez, essa era minha grande busca na vida: achar alguém para compartilhar das minhas alegrias e coisas do tipo. E eu me apaixonava com muita frequência, para ser sincero, mas nada igual a meu sentimento por Brian.

         Desde quando o vi pela primeira vez, na festa da primeira edição do Mala Suerte, meu coração não parou de bater de uma forma diferente. Algo estranho surgiu em mim naquele dia, e não desapareceu. Apenas fraquejou quando ele me forçou a dizer a verdade sobre meus sentimentos, quando ele virou as costas para mim e decidiu que me tratar como um “problema” seria a melhor saída”. Talvez tenha sido aí, o momento em que decidi que gostaria de mudar de vida.

         Eu só não imaginava que realmente daria certo.

 

         Depois de alguns minutos, Brian retirou nosso café-da-manhã e sumiu pela porta do quarto. Aproveitei o momento para me levantar. Dei uma boa olhada no meu corpo, novamente, no espelho que havia em um dos cantos do quarto. Tentei focar nas coisas que reconhecia em mim (nos olhos e na cor dos cabelos), mas foi difícil. Eu passei tanto tempo da minha vida me vendo como um garoto, mas o reflexo que estava ali era de um homem. Eu parecia ter envelhecido alguns anos – o que, percebi, me caiu muito bem.

         Apenas não demorei muito com o reflexo no espelho porque não queria ficar estranho. Não queria que Brian entrasse no quarto e me encontrasse com uma fita métrica, vendo todas as partes do meu corpo que mudaram naquele novo mundo. Já estava vestido, então simplesmente saí do quarto.

         Não foi fácil achar o caminho. Não vou mentir, diversas vezes tive de voltar para trás, entrar em algumas portas de quartos estranhos – apenas para perceber que não me levariam a lugar algum. Quando finalmente parei de perambular pelo corredor, percebi que a havia uma escada à lateral, que levava para o andar de baixo. Eu nem sequer sabia que estávamos no segundo andar.

         Toda a decoração ao redor e o estilo da arquitetura dava a entender que a casa era, aparentemente, em estilo moderno. Não havia nenhum adorno na pintura, ou papel de parede. As cores variavam entre cinza frio, branco, cinza escuro e marrom. Os poucos detalhes que me permitiam ter uma ideia do resto da casa eram as lamparinas e o corrimão da escada.

         Tentei não descer muito rapidamente, primeiramente para não causar alarde. Senti que precisava me manter calmo – e precisava mostrar aos outros que me sentia assim. Não podia me desesperar. A última coisa que queria, realmente, era ser tachado como louco por ter inventado toda uma história sobre viagens entre mundos e cartomantes misteriosas. Eu não precisava que me internassem numa clínica de reabilitação (ou talvez precisasse, considerando as circunstâncias).

         E eu esperava encontrar quem quer que fosse. Esperava que a sala de baixo estaria repleta de pessoas que eu não conhecia, ou estaria lotada com coisas que eu não reconhecia. Mas, quando desci as escadas e pisei no térreo, não ouvi nada além do silêncio. O mesmo deja-vu que tive minutos antes, no quarto, agora se manifestou em forma de posição do meu corpo. Eu senti que não estava sozinho, mas também senti que não encontraria nada que já não tivesse encontrado antes.

         Brian veio andando até a mim. Ele estava com a mochila nas costas, parecendo apressado, e olhou para mim com um sorrisinho.

         O cômodo onde eu me encontrava era, aparentemente, a sala de estar. Móveis de aparência caríssima detalhavam o recinto e davam um ar de mansão. Me lembrava um pouco da minha própria casa, no “outro mundo”, mas ainda era muito diferente para que eu realmente me sentisse à vontade. Brian ainda estava olhando para mim, enquanto eu olhava em volta, ambos tentando descobrir se havia alguma coisa errada ali.

         — Vamos? — Brian disse. Olhei para ele, acordando do devaneio.

         — Vamos. — Respondi. — Eu só... preciso pegar minha mochila.

         — Não precisa. — Ele respondeu, me entregando algo que eu não tinha visto antes.

         Brian me entregou minha mochila e depois ficou olhando para mim com aquela carinha de cachorrinho sedento por atenção. Quase como uma retribuição pela gentileza, sorri e me aproximei dele. Um selinho foi mais do que suficiente para me fazer pensar em como nem hesitei sobre beijá-lo.

         — Vamos logo, então. — Brian disse. — Não podemos nos atrasar.

 

         O caminho para o colégio parecia o mesmo. Percebi assim que saímos de casa: a localização parecia a mesma. Tudo ao redor, todas as coisas que não pareciam girar em torno da minha vida... todas essas coisas pareciam as mesmas. Aparentemente, o fato de eu morar perto do colégio, mesmo no outro mundo, já era um golpe de sorte. Nenhuma magia precisava mudar aquilo.

         Fomos andando em silêncio. Eu podia sentir o calor gentil da mão de Brian na minha, podia sentir sua presença ao meu lado. Na verdade, ainda estava achando estranha toda aquela aproximação, mas não havia nada que eu pudesse fazer (ou quisesse fazer). Brian não acreditaria em mim, se eu contasse a verdade, e duvidei que eu mesmo teria coragem para contar alguma coisa.

         Conforme nos aproximávamos percebi que, sem sombra de dúvida, qualquer coisa que não relacionasse a minha vida pessoal (casa, Brian, amizades e família) simplesmente não mudaria naquele mundo. Foi o que deduzi, quando vi a mesma fachada do colégio, exatamente como a do “outro mundo”. As mesmas cores em tons de verde e azul decoravam o muro, o brasão com o entalhe de rosa pendia sobre o portão, e até mesmo os funcionários pareciam os mesmos. Fiquei tentado a descobrir mais sobre como aquela história de viagem entre mundos funcionava.

         Isso, é claro, se fosse realmente verdade.

         Mesmo que não houvesse nada diferente (pelo menos superficialmente), eu ainda sentia aquela sensação de que havia alguma coisa errada. Brian estava ao meu lado, segurando minha mão, mas minha mente insistia em dizer que aquilo era errado. Era uma trapaça. Eu não tinha conquistado o garoto que me conquistou, mas entrado num mundo todo novo, simplesmente porque ele não me amava em nossa outra realidade. Além disso, a sensação de que eu estava dormindo, de que aquilo era um sonho, somente se intensificava com o passar das horas.

         Meu corpo parecia meio dolorido. Não havia percebido isso assim que acordei, mas, agora, podia sentir meus músculos cansados e minha mente bagunçada. Sentia como se tivesse acordado no dia seguinte a uma maratona. A fadiga era um dos fatores que não me deixava pensar que aquilo era real, além de também me esgotar ainda mais fisicamente. Mesmo que fosse um sonho, meu corpo parecia estar sofrendo as reações da vida real.

         Brian apenas parou de andar quando chegamos ao meio do pátio. Sua mão ainda segurava a minha e várias pessoas olhavam para nós. Me era estranha a sensação de segurar na mão de alguém em público, ainda mais a mão de outro garoto. Em especial, a mão dele. Brian era o tipo de garoto que eu, geralmente, mantinha distância – por dois específicos e detalhados motivos: primeiramente, porque sentia que nunca conseguiria ser alguém como ele, ter o mesmo corpo definido, o jeito para conquistar os outros; e depois, porque sentia que nunca conseguiria conquistar alguém como ele, por pressão pessoal e pública. Mas lá estávamos. Seus dedos se entrelaçavam aos meus enquanto os olhares atiravam na nossa direção. Mas o sorrisinho no rosto dele não me deixou ficar preocupado.

         — Você está bem? — Ele perguntou, quando se virou para me olhar nos olhos.

         — O quê? — Perguntei. — Sim, eu acho.

         — Não sei. Parece meio aéreo, desde que acordou. — Brian respondeu, dando de ombros. Se ter conversas sinceras com ele era uma dádiva de viver num mundo onde não havia azar, eu teria que descobrir o motivo disso. — Sei que não precisávamos ter exagerado ontem à noite, mas você não parecia cansado na hora.

         — Eu... — Parei no meio da frase, sem saber o que falar. Havia algo na voz dele, uma espécie de animação e excitação, como se tivéssemos passado a noite inteira seduzindo um ao outro. Agora, entretanto, eu não me lembrava de nada (e duvidava que o cansaço vinha de qualquer aventura que eu tive com Brian). — Eu estou bem. Só não consegui dormir direito. Eu acho.

         Ele deu um risinho quando viu que eu não conseguia sustentar seu olhar por muito tempo. Com um sorrisinho, seu rosto se aproximou do meu e sua mão me puxou para perto. Ele colocou ambas as mãos em meu quadril, colando seu corpo no meu, e me deixou entrelaçar meus braços atrás de suas costas. Os olhares ao nosso redor tinham se intensificado, e se intensificaram ainda mais quando Brian me beijou. Foi diferente de qualquer coisa que eu já tinha experimentado. E uma cena de filme se passava em minha mente, uma típica cena clichê romântica. Tudo em câmera lenta, os toques e o beijo... parecia, realmente, ter saído de um sonho.

         Então Brian se afastou novamente de mim e voltou a segurar minha mão, como se nada tivesse acontecido. E como já era de se esperar, assim que nos afastamos um pouco, fiquei novamente à mercê dos olhares das outras pessoas. Alguns alunos pátio olhavam para nós como se fôssemos estranhos, mas não de uma forma ruim. Fiquei tentado a acreditar que os olhares eram de empatia e consideração, mas já tinha sofrido o suficiente sob esses olhares para não acreditar em suas sinceridades. As expressões podiam ser neutras, mas o ódio podia estar fervendo dentro de algum ignorante ali.

         — Ah, ok. — Falei, respirando fundo, pensando em voz alta. Brian olhou para e soltou outro risinho.

         — O quê?

         — Essas pessoas... — Respondi. — Elas ficam olhando... como se nunca tivessem visto ninguém se beijando antes. Aposto que odeiam a gente.

         Brian fez uma cara de confusão e deu de ombros outra vez. Sua careta me dizia que falei uma das coisas mais estúpidas do mundo.

         — Não, Theo. Eles... — O garoto fez uma pausa para rir. — Eles são de boa. Não vão fazer mal algum.

         Abri a boca para responder novamente, para explicar que quem quer causar o mal não simplesmente demonstra isso. Queria explicar que Brian tinha se cuidar, que alguém ali poderia tentar alguma estupidez, mas o aperto na minha mão me fez mudar de ideia. Digo isso porque ele relaxou a mão, em vez de apertar. Se realmente estivéssemos num ambiente hostil (mesmo que Brian não acreditasse nisso), ele me seguraria com mais força. Em vez disso, ele me soltou e começou a andar.

         Segui o garoto pelo pátio, até um lugar ao lado da quadra poliesportiva. Agora, parecia mais bem cuidada e menos restrita. O quadrado se estendia até o muro do terreno e compreendia todo o espaço de uma piscina pequena e uma sala de ginástica. O local tinha acabado de sair da reforma quando entrei no colégio, então sempre foi restrito. Entretanto, as faixas que impediam a entrada de alunos não estavam mais lá.

         — Oi. — Brian disse para alguém. Acordei do devaneio e olhei para o grupinho que se estendia à minha frente.

         Era um pequeno grupo de outras quatro pessoas (além de mim e Brian). Uma menina de cabelos castanhos, alta e magra, mascava chiclete e olhava para mim como se eu tivesse saído de um livro de fantasia. Ao seu lado, um garoto baixinho e meio gordinho nem olhava na minha cara – ele, ao contrário do tom rosa da outra garota, parecia gótico ou algo assim, com piercings e tatuagens. Logo mais ao lado, um casal se abraçava romanticamente. O garoto, atrás da menina, era alto, branco e tinha o cabelo raspado. Parecia muito com um qualquer jogador de futebol americano. Agora, a garota, loira e meio sorridente, não me parecia estranha.

         — E aí? — O menino apaixonado respondeu, sem desgrudar da menina.

         Fiquei parado ao lado de Brian, enquanto todos me encaravam. Eu não reconhecia ninguém ali, pelo menos de primeira. Todos pareciam estranhos. Mas a menina loira, que estava sendo abraçada pelo menino apaixonado, se parecia muito com alguém que eu conhecia. E foi somente quando percebi quem era que, literalmente, quase caí para trás.

         — Amelia. — Falei. Ela olhou para mim, deixando o sorrisinho de lado.

         — O que foi? — A garota perguntou confusa.

         Olhei para seus olhos curiosamente familiares e tentei não mostrar que estava perturbado. Realmente era Amelia (os mesmos olhos, a mesma boca e as mesmas maçãs do rosto), mas parecia muito diferente. Seus cabelos estavam muito loiros, seu rosto estava coberto de maquiagem (até mesmo com cílios falsos) e toda sua roupa parecia diferente. Antes, Amelia se vestia como uma menina de classe média normal, sem chamar muita atenção para si ou algo assim. Entretanto, no momento, não consegui deixar de notar seu estilo diferente: a calça jeans colada, de cintura baixa, com um cropped preto e simples. Tênis de marcas repousavam em seus pés, enquanto ela se espremia contra o garoto de trás.

         — Nada, eu só... — Perdi as palavras.

         — Theo não dormiu muito bem nessa noite. — Brian interrompeu, passando um braço por trás de mim. Ele me apertou contra si e fiquei curioso para saber o sorriso.

         — Ah. — O menino apaixonado respondeu, insinuando a mesma coisa que pensei mais cedo. Provavelmente, agora todos achavam que eu e Brian fizemos sexo selvagem durante a noite inteira.

         — Não foi nada disso, Layne. — Brian respondeu logo em seguida, quase rindo. — Só ficamos bebendo.

         — Vocês estão na classe do novo professor de biologia? — A menina que mascava chiclete interrompeu. Eu não fazia ideia de quem ela estava falando, então simplesmente olhei para Brian. Ele intensificou o aperto na minha cintura.

         — Sim. — Disse. — Ele é realmente tão machista?

         A menina deu de ombros, agora cruzando os braços e enrolando uma mecha de cabelo entre os dedos. Alguma coisa na conversa do momento me fez ter uma visão de alguém que eu não conhecia: um homem, sentado em sua mesa de professor, olhando para as pernas de uma menina que foi, gentilmente, responder uma pergunta no quadro-negro. Ele achava que ninguém estaria olhando.

         Foi a mesma sensação que tive para saber onde ficava a porta do banheiro, no meu quarto, ou para saber a localização do closet da suíte. Então, meio que numa tentativa de me enturmar, respondi:

         — Você não tem ideia.

         Todos olharam para mim. Fiquei confuso.

         — O quê? — Perguntei, envergonhado. — Ele já deu uma aula pra mim. No dia que Brian não veio. O cara ficou olhando as meninas durante a aula inteira, e ainda achava que ninguém estava olhando.

         — Mas você estava. — Brian disse, baixinho.

         — Eu estava.

         O menino apaixonado (que supostamente se chamava Layne) pigarreou de deu ombros novamente. Sua voz soou meio impaciente quando respondeu.

         — Temos sorte de ele não ser nosso professor, então. — Disse. — Eu quebraria a cara dele se o visse olhando para minha menina.

         Amelia sorriu, olhando para ele. Ambos se beijaram rapidamente e Brian engoliu em seco, ao meu lado.

         Toda a situação parecia muito sobrecarregada. Eu cheguei num momento que, deduzi, não era muito bom. Somente pelo silêncio de Brian, que parecia meio envergonhado no meio das outras pessoas do grupo, eu já consegui perceber que nem todos ali pareciam muito simpáticos. Minha teoria sobre a funcionalidade da viagem entre os mundos somente se concretizou ainda mais nessa hora: tudo o que era pessoal, para mim, era afetado (principalmente Amelia), mas todo o resto continuava o mesmo.

         — Enfim... — Brian disse, depois de um tempo. — Eu vou indo para a sala. Quer vir, amor?

         Levei um tempo para perceber que ele estava falando comigo.

         — Ah, acho que não. — Dei um sorrisinho fraco. — Acho que vou ficar por aqui por mais um tempo.

         — Ok. — Brian disse, me puxando para me dar um beijo entre minhas sobrancelhas.

         Ele, então, se afastou e levou consigo as outras duas pessoas do grupinho (aquelas que não estavam se pegando).

 

Fiquei sozinho com o casal apaixonado. Ambos estavam se beijando como se o mundo fosse acabar naquela noite, então simplesmente cruzei os braços e me afastei. Com passos lentos, me aproximei da grade da quadra poliesportiva e fiquei olhando para os alunos que passeava lá dentro. Minha criatividade e imaginação só podiam imaginar o tanto de coisas que haviam mudado depois daquela viagem entre mundos. Talvez muitas outras coisas tivessem mudado, ou talvez fosse só aquilo. Talvez tudo ainda girasse em torno de Brian e da minha aparência – como se eu precisasse apenas daquilo na minha vida, ironicamente.

Mas, também talvez, algumas outras coisas seriam diferentes. Eu não podia prever tudo o que mudaria, mas também não podia esperar que as mudanças permanecessem apenas no plano físico (a atração de Brian por mim, minha aparência muito mais atrativa, o novo estilo de Amelia). Também tinha que imaginar que as mudanças seriam, em minoria, internas. Talvez tenha sido isso que levou Layne a se despedir de sua namorada e de se aproximar de mim.

O garoto estranho parou ao meu lado, também olhando para dentro da quadra poliesportiva. Dei uma rápida olhadinha para seu rosto e percebi que ele realmente parecia ter saído de algum time profissional de algum esporte que eu nunca sequer praticaria.

— Oi. — Disse ele.

— Tudo bem? — Perguntei, meio simpático e incerto. O garoto, então, se virou de costas para a quadra, cruzando os braços. Ele se encostou na grade e fiz o mesmo.

— Acho que ainda não nos conhecemos. — Layne disse. — Você é o namorado de Brian?

Ergui uma sobrancelha e olhei para o garoto. Ele percebeu imediatamente a estupidez em sua pergunta e se apressou a consertar seu erro, rindo de si próprio.

— Ah, é claro. — Disse ele. — Brian estava te beijando até agora há pouco.

— Isso não o tornaria meu namorado. — Brinquei. O menino sorriu novamente.

— Não, realmente. Mas ele é, não é?

— Com certeza. — Respondi orgulhosamente, podendo falar em voz alta sobre meu relacionamento com Brian. Entre Amelia e Cora, eu não podia nem simplesmente falar que estava me apaixonando pelo garoto. — E você? Onde conheceu Amelia?

— Ela era da minha sala. — Layne respondeu. — Eu a conheci durante um exame de física.

— Romântico.

— Sim. — O menino sorriu orgulhosamente. — Mas, então, muito prazer. Você deve me conhecer através da minha irmã, Lisa.

Ele, sem nenhum aviso prévio, se virou para mim e entregou a mão num início de cumprimento. Olhei em seus olhos quando apertei sua mão, mas fraquejei quando sua voz me revelou seu verdadeiro nome.

— Sou Layne. Layne Matthews.



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