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História Maldita Calamidade - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Chuva de pedra


 

Itadori Yuji, 22 anos, mortal. 

 

Eu ainda me lembrava do gosto da morte. Era amargo, primeiro ferve sobre a língua, mas logo depois queima sua garganta como ácido puro. Nunca pensei que os gostos pudessem ter sensações, para o meu eu de 9 anos fora uma surpresa nada agradável descobrir que comidas também poderiam machucar e pais também poderiam matar. 

 

Gostaria de poder me gabar dizendo que minha vida não fora miserável desde o começo, mas seria uma mentira contada em uma roda de inimigos porque a verdade é que desde que abri meus olhos diante do mundo e chorei por sentir meus pulmões arderem tive plena consciência que viveria como um porco numa fazenda precária. E esse era o fardo que me perseguia como se fosse alguma dívida do passado, a miséria se arrastava sobre meus ombros e se espreguiçava sobre meu corpo, tomava minha vida e se deliciava com a minha dor como se fosse uma espécie de teatro elegante. Fome, sede e dor eram algo que eu sentia dia após dia, principalmente depois de ter juntado meus panos e partido da casa dos meus pais muito novo, no entanto, eu não era um moribundo vagabundo que se queixava da vida que levava, na verdade, eu era inteligente e astuto o suficiente para sobreviver — e entenda que eu digo ‘sobreviver’ e não ‘viver’. Minha vida durante muito tempo se baseou em roubos e furtos, ser expulso de vilarejos e preso por conveniência, também já recebi ameaças das minhas mãos serem cortadas, no entanto, isso nunca me abalou, na verdade era divertido pensar que eu futuramente teria histórias para contar aos meus filhos. Pelo menos era o que eu tentava garantir. Minha reputação como ladrão de meia tigela se espalhava por todos os cantos, logo ver minha cara parecia uma ameaça aos camponeses e numa dessas ondas de desconfiança conheci, pela segunda vez em minha vida, o ódio. 

 

Era uma manhã, o Sol apesar de estar nitidamente nascendo parecia ofuscado pelas nuvens cinzas que indicavam uma tempestade, o vento se arrastava entre os becos, mas apesar disso era um clima agradável no pequeno vilarejo. Os mercadores abriam suas tendas mesmo com tantas dificuldades e eu compreendia, afinal, era uma necessidade trazer dinheiro para suas casas. Eu também estava fazendo negócios, se é que podia dizer assim. Com meu rosto escondido por um manto rasgado eu me mantinha afastado de tudo, apenas observando atentamente as ações de cada pessoa ali, notando seus passos e comportamento. Conforme as frutas, carnes, peixes e algumas jóias eram colocadas sobre a rua eu eu tentava formar um pequeno mapa mental em minha mente porque no momento que as pessoas surgissem em multidão seria a minha hora de sobreviver. Veja bem, não é como se eu quisesse viver uma vida daquelas, roubando de comerciantes, porém, não é como se eu me arrependesse também. Ninguém nunca me estendeu a mão ou me guiou para outro caminho senão esse, sequer tive educação básica em casa e meus pais não se deram ao trabalho de criarem um cidadão digno, então minhas ações não são nada mais do que os reflexos que criaram sobre mim. Um homem desonesto e sem futuro. 


 

Provavelmente era meio-dia quando carroças começaram a parar pela estrada de terra, delas saíam comerciantes com aparências dignas de medo e com suas tão conhecidas carrancas. Normalmente tendiam a chegar mais cedo, alguns gostavam até mesmo de virarem a noite no ponto para poderem comprarem produtos de alta qualidade, contudo, todos eles vinham do Sul e era uma Sexta-Feira o que significava que eles deveriam deixar suas obrigações para glorificarem o Deus das Trevas até às dez horas da manhã. Uma vez eu tive o azar de ir para o Sul nessa época, me senti na obrigação de ir ao templo da tal divindade e preso pelos fiéis acabei fazendo uma prece, mas essa nunca fora atendida e tudo bem, eu esperava isso. Deuses não existem e, se por acaso, realmente fossem reais então haviam desistido da humanidade muito tempo atrás, assim como eu.
Voltando ao foco, os mercadores estavam se espalhando como abutres sobrevoando suas presas sedentos pelos melhores produtos, tamanha era animação e superlotação que acabavam por se empurrarem irritados com os concorrentes. Era nessa hora que eu agia. Me levantava da calçada em que estava jogado, cobria meu rosto o suficiente para não poderem identificar meu cabelo incomum e ia em direção ao povo. Por ter me colocado numa posição ideal, eu tinha um fácil acesso para as barracas em geral. Coberto também pelo tecido existia uma bolsa enorme onde eu guardaria comida, jóias e até mesmo o dinheiro dos mais desavisados. Já estava tão acostumado em furtar que parecia como falar, quer dizer, para aqueles que sabiam falar. 

 

A primeira vítima tinha sido uma vendedora de frutas, dela acabei pegando algumas maçãs; A segunda tinha sido uma barraca de jóias provavelmente baratas onde eu peguei no máximo quatro, provavelmente venderia pela estrada afora; O terceiro era um comerciante avulso com tudo por ter que lidar com seu filho mais novo, esse vendia jóias realmente boas que me fizeram encher a mão; O quarto vendia pães de qualidade duvidosa, portanto peguei só um para comer sozinho durante minha viagem ao desconhecido, no entanto, antes que pudesse atacar novamente meu ombro fora brutalmente segurado e alguém com uma força absurda me virou. Era um homem alto, barbudo, com fortes traços ocidentais e que não parecia nenhum pouco contente, em volta dele existiam outras pessoas paradas que me rodeavam tão furiosas quanto eles. Tentei manter a calma mesmo me sentindo exposto com todos aqueles olhos me encarando, não podia vacilar, como meus braços estavam fora de vistas girei a bolsa que estava amarrada em minha cintura para as costas. 

 

— Finalmente eu te achei, ladrão de merda. — O homem murmurou entredentes, pude sentir seu hálito de bebida. — Então é você que vem roubando dos mercadores durante todo esse tempo?

 

— Com licença? Você está me insultando dessa forma, senhor.

 

— Não ouse mentir! — Um outro gritou no fundo. — Puxem o manto, se ele tiver o cabelo rosa então é uma maldição! Uma maldição! O cabelo rosa diz que ele é uma maldição!

 

Tentei me esquivar da primeira mão que iria prontamente seguir a ordem dada do lunático, mas antes que isso ocorresse alguém por trás fez o favor de puxar o tecido o rasgando por completo. O problema não era minha identidade ter sido revelada, muito menos o fato de eu ter sido acusado de ser uma maldição, a questão ali era o tecido que caiu no chão de forma desonesta e fora brutalmente pisado. Aquela era a única lembrança que eu tinha da minha casa. Aquela era a única coisa que me lembrava de onde eu vinha, o porquê de eu continuar lutando para sobreviver todas as noites.

 

E ela simplesmente estava largada no chão como uma nada.

 

Antes que eu pudesse me queixar sobre isso recebi um golpe na boca do estômago que me fez cambalear para trás e cair nos braços do homem que tinha me descoberto, esse por sua vez me deu um chute próximo das dobraduras da minha perna me fazendo cair de joelhos. Naquele momento eu pude prever o que vinha. Não é como se eu não tivesse apanhado algumas vezes durante a minha vida, meu pai me ensinara perfeitamente sobre isso da forma mais cruel possível, contudo, existia uma diferença entre brigas de ruas e rodas de espancamento. Era impossível lutar contra eles, principalmente para mim, um homem desnutrido e fraco. O mercador atrás de mim puxou meu cabelo com suas mãos grandes, fazendo com que meu couro cabeludo ardesse.

 

— Pelo visto é ele, veja só essa merda amaldiçoada. — Seus dedos apertaram os meus fio talvez numa tentativa de arrancá-los. 

 

Como eu gostaria que ele os arrancasse. 

 

— O que vamos fazer? — Uma mulher gritou. — Vamos prendê-lo?!

 

— Ele é conhecido por fugir das prisões, senhora! E é uma maldição, onde podemos nos livrar de uma maldição?

 

— Se for o caso, amarrem ele na minha carroça já que vou para o Sul, o meu vilarejo também foi vítima de seus roubos. Vamos matá-lo no templo do Deus das Trevas e livrarmos esse mundo dessa podridão. 

 

— Espere! — Berrei. — Eu não fiz isso, eu não machuquei ninguém.

 

Outro puxão. 

 

— Como ousa dizer isso?! E os assassinatos que cometeu? Os roubos poderiam ser tolerados, mas todos nós sabemos como você é perigoso! Por onde passa carrega consigo uma onda de outros crimes.

 

— É típico de maldições, senhora!

 

— Vamos, amarrem.

 

A cena seguinte fora humilhante o suficiente para eu apagar da minha memória, só me recordo que em algum momento eu estava em pé com meus braços amarrados na carroça de um homem. Algumas pessoas ousaram me linchar, outras agradeceram pelo fim que eu iria tomar, mas quanto a mim só existia uma dúvida: Do que estavam falando? Realmente, eu não era um ser louvável e muito menos digno de compaixão, conhecia meus pecados e sabia que meu caminho, se é que existisse, era direto para o inferno, mas eu nunca havia matado ninguém! Nunca sequer manejei um objeto com  aquela intenção. Todas aquelas ofensas e acusações pareciam soltas em minha cabeça, eu ignorava toda a dor em volta para focar nisso, tentando me lembrar de qualquer mísero erro cometido, no entanto, antes que conseguisse raciocinar o mercador fez seu cavalo andar e logo depois correr. E eu descobri que pés podem ficar ainda mais em carne viva. 

 

———

 

Eu detestava o Sul. Era tudo escuro, sombrio e fedia mais do que deveria, os moradores de lá sempre estavam exaustos e carregavam consigo uma expressão parecida com de zumbis assustadores prestes a comerem a si mesmos, além disso, a escassez de comida, água e  educação eram gritantes. Fazia sentido ser representada por alguém que carregava as Trevas entre si, apesar de parecer ter sido abandonada até mesmo por ele. O clima também não era agradável, por algum motivo sempre nevava e isso só fazia com que os machucados recentes em meu pé ardessem. 

 

Quando chegamos na estrada Solli o cavalo pareceu se cansar e eu agradeci por isso já que tanto meus braços quatro pernas estavam machucados, seja pela corda ou por correr quilômetros como um animal estúpido. O frio fazia com que todo meu corpo congelasse aos poucos. Finalmente o mercador parou próximo à uma vila que cheirava peixe podre e saltou do seu cavalo, me lançando um olhar fuzilador antes de se enfiar para dentro. Tentei me soltar nesse curto tempo, mas a corda era forte o suficiente para que nem meus dentes conseguissem rompê-la. Pensei em orar também, mas para que Deus? Minha vida inteira fui ateu, nunca acreditei em benevolência, nunca fui fiel, nunca acreditei sequer em mim mesmo, então por que nesse momento oraria? Quando vi que uma multidão eufórica surgia com gritos concluí que era meu fim. 

 

E deixei meu corpo ser guiado. 


 

A carroça agora era seguida pela multidão de moradores, esses me jogavam frutas podres enquanto eu era obrigado a seguir o caminho por uma estrada de pedras. Os xingamentos variavam de ofensivos para ridículos, mas eu me perguntava honestamente de onde tiraram a ideia de que eu era uma maldição. Tudo bem, eu escutava isso desde os meus 2 anos de idade, mas ainda assim parecia doer mais agora, pela primeira vez compreendi que eu realmente era visto como a mais pura aberração, como algo criado do ódio e só. Talvez, em algum momento, eu tenha me tornado isso mesmo. Fazia tempos que eu não lembrava o que era afeto, carinho, toque, bondade, compaixão ou empatia, então fazia um pouco de sentido chamar alguém oco de maldição, afinal, não era isso que elas eram no final do dia?

 

Só fui desamarrado quando finalmente chegamos ao templo do Deus das Trevas, mas estar solto de cordas não significava estar livre. Meu corpo fora enfiado para dentro entre pontapés e empurrões, me fazendo tropeçar no meio do caminho. Enquanto caminhava para dentro notei que o templo parecia um abandonado e quebrado, com estátuas quebradas e folhas se aglomerando pelo ambiente. Foi aí que eu notei.

 

Eles iriam me julgar em nome do Deus deles, mas sequer se lembravam dele. 

 

A caminhada durou até chegarmos num lugar onde existia um bloco de madeira. O homem que me levou até ali segurou brutalmente minhas mãos e as amarrou novamente, dessa vez numa corda mais forte ainda. Finalmente o desespero surgiu sobre meu corpo.

 

— Esperem! — Gritei enquanto a população formava uma fila. — Eu juro, eu juro por Deus, vocês entenderam tudo errado.

 

— Por qual Deus você jura? — Uma mulher grávida perguntou com desdém.

 

— Pelo meu Deus!

 

— E qual seria?

 

— Eu. — Engoli à seco. — Eu sou meu Deus. 

 

Eles reagiram aquilo como se eu tivesse falado alguma espécie de blasfêmia, mas não era mentira, não mesmo. Eu era meu próprio Deus, eu cumpri minhas próprias preces e cuidei de mim. Eu. Somente eu. 

 

— Eu não matei ninguém!

 

— Os boatos circularam, não minta. — Outro refutou. — Você é uma maldição.

 

— Eu não sou uma maldição, eu não sou! Eu sou  Itadori Yuji, nasci numa fazenda do Norte e passei pelo ritual da purificação como todas as crianças! — Não notei quando as lágrimas caíram muito menos quando me impus para frente sendo impedido de continuar apenas pelo pedaço de madeira que me mantinha firme. — Eu fugi de casa aos 9 anos depois que meu pai tentou me matar, mas eu nunca fiz nada de ruim! Eu só roubei e furtei, mas era sobrevivência. Eu sinto muito, eu só não queria morrer de fome, eu não queria….

 

Uma pedra atingiu meu ombro.

 

— Eu sei plantar! Eu aprendi a plantar, se vocês me derem um emprego eu posso plantar, eu juro que faço qualquer coisa. As pessoas nunca me contrataram, me ignoravam quando eu pedia por algo, mas eu juro que me comporto, eu posso ser útil. Eu faço o que vocês quiserem, eu juro que faço!  

 

Outra pedra. 

 

— Por favor, eu não quero morrer… — Sussurrei. — Se eu morrer, então ele vai ter conseguido. Eu não posso…

 

— Que nosso Deus elimine essa maldição desse mundo. — Uma senhora berrou.

 

E eu descobri que poderia odiar a neve, porém, eu odiava ainda mais chuva. 

Principalmente quando era de pedras. 

 

Naquele momento, quando uma pedra atingiu minha cabeça e eu caiu tive certeza que os deuses não existiam, principalmente o Deus da Treva porque minha única prece para ele fora: Me deixe morrer sorrindo, porém, quando eu engasguei com meu próprio sangue e deixei a neve congelar meu corpo meus olhos estavam cheios de lágrimas. Eu não sorri em momento algum. Desde os nove anos até os vinte dois nunca puxei meu lábio para um mínimo sorriso. Eu morri sem saber o que aquilo significava.

 

Eu não queria ter morrido.

 


Notas Finais


Bom, primeiro de tudo, obrigada por lerem minha fanfic! Eu tenho muito carinho por essa história e pretendo entregar algo bom.

Em segundo lugar eu gostaria de deixar claro que a minha história é inspirada em TGCF e MDZS, então, podem sim existir algumas semelhanças (e quem sabe referências).

O universo é original e as cidades também.


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