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História Malibu, A Way Of Life - Capítulo 4


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Notas do Autor


Olá
Boa leitura e relevem a demora, super esqueci de atualizar aqui também ;-;
Mil perdões

Capítulo 4 - Capítulo 4


 

Jennie

Nós estávamos tendo um almoço realmente muito agradável. Lalisa é o tipo de pessoa que não deixa nunca o clima ficar monótono ou a conversa perder o interesse. Os assuntos eram os mais variados e aquilo muito me agradava. Por mais que ela insistisse em saber mais sobre mim, minhas respostas eram, a maioria das vezes curtas e rápidas, talvez eu ainda estivesse chateada com o que aconteceu em sua casa, então não me sentia na obrigação de falar muito mais do que o necessário.

— Como surgiu o interesse? — ela me olhou de cenho franzido por baixo daquela franja que realmente precisava ser aparada. — A cozinha. Como surgiu o interesse de ser cozinheira como seu pai? — tratei de explicar e refazer a pergunta.

— Ah! Isso... — ela riu divertida. — Bom, eu já disse que cresci vendo o velho cozinhar, ajudando a lavar louças no restaurante quando ainda era em Santa Mônica, mas, vou te contar um segredo agora. — o sorriso se tornou travesso e os olhos da Manoban denunciavam perfeitamente sua jovialidade neste momento.

— Prometo guardar segredo. — falei entrando em sua brincadeira, o que fez Lalisa se aproximar, por a palma da mão esquerda em forma de concha, em frente aos seus lábios, como se realmente fosse contar um segredo apenas para mim e disse.

— Eu queria impressionar uma garota.

Foi impossível não gargalhar até ficar sem ar e ser acompanhada pela garota sentada ao meu lado, na mesa improvisada no deque. De todas as coisas possíveis, eu não esperava por algo do tipo. Tudo bem que ela é atirada e já se provou bastante experiente, se é que me entende. Mas a ideia dela ter realmente começado a cozinhar apenas para impressionar uma garota foi demais até pra mim.

— Ei, qual é! Não zombe dos meus motivos. Era a minha primeira paixão, poxa. — contestou fingindo estar emburrada assim que seus risos cessaram.

— Isso é sério? — perguntei estando um pouco mais calma.

— Muito sério. Primeiro tentei aprender sozinha e quase coloquei fogo em casa milhares de vezes, até realmente começar a ter aulas diretamente com meu pai. Foi assim que, uma noite, chamei a garota para ir até o restaurante comigo e, bom, os pratos que ela degustou aquele dia, foram todos feitos por mim.

— Own. Isso foi meigo e fofo.

— Eu sei. Mas levei um fora logo depois do jantar e nunca mais nos vimos.

— Por quê? Ela não gostava de você da mesma forma?

— Ah não, por que a comida estava ruim.

Puta que pariu!

Meu corpo começou convulsionando devagar, mas ao que me entreguei as risadas, com o tanto que ria, eu já estava quase caindo da cadeira. A garota de pele dourada me presenteava com o seu sorriso de canto enquanto apenas balançava a cabeça. Dessa vez, como a péssima atriz que era, Lalisa fingia estar desolada com a recordação do fatídico dia em que sua primeira paixão a deu um fora.

— Mas como eu sempre vejo o lado bom da coisa, a partir daquele momento, o meu amor foi transferido. Desde então, cozinhar tem sido o que faço de melhor na vida. — voltou a falar assim que enfim me recuperei da crise de risos, buscando minha taça com água e atenta a ela outra vez.

— Você é sempre muito positiva. Como consegue?

— Oras, Jennie. Quem complica a vida somos nós, então quando deixamos de encontrar desculpas, tudo se torna mais simples. — piscou e levantou da cadeira, recolhendo seus talheres e pratos, agora vazios, que trouxera com o que havia preparado para nós mais cedo.

Recebendo lição de moral de uma garota mais nova que você, parabéns Jennie!

Levantei e passei a ajudar a garota. Recolhi o que ela não havia conseguido empilhar nos braços e a acompanhei até a cozinha, onde juntas e em silêncio, lavei as louças sujas enquanto ela enxugava. Completamente diferente do silêncio desconfortável em que viemos até Malibu, o atual era confortável. Ainda gastamos mais algum tempo naquele cômodo, arrumando tudo o que ficou por guardar. Mesmo dizendo a Lalisa que eu poderia cuidar daquilo sozinha, que já tinha abusado demais de sua boa vontade e bondade, ela fez questão de só arredar os pés daquele lugar, quando tudo estava tão limpo que meu reflexo, turvo, podia ser visto no mármore do balcão.

Sabendo que não poderia mais protelar ou estender o nosso momento, era chegada a hora de ser sincera com ela sobre o que aconteceu. Lalisa é realmente alguém especial e não seria certo me aproveitar do que quer que a jovem queira me oferecer, não quando não posso oferecê-la nada além de sexo. Que por sinal, dois dias seguidos já eram demais. Me encostei no arco de entrada da cozinha assim que acabamos de organizar todas as coisas e aguardei com que ela soltasse o bendito avental, que ainda estava preso ao seu corpo, o colocando em cima do balcão.

— Nós precisamos conversar. — informei.

— Finalmente vou saber o que preciso saber, acredito. — comprimi os lábios em desgosto. Por quê ela sempre faz com que eu me sinta uma megera?

— Escute, Lalisa. Nossa química é realmente algo inegável, é incrivelmente boa e nós tivemos um sexo maravilhoso. Admito pra mim e pra você que tive uma noite muito boa com você, mas é apenas isso. Não posso realmente oferecer muito mais do que já tivemos. Nós somos de realidades completamente diferentes e o meu mundo gira em meio a todas essas limitações explicitas e implícitas...

— Jennie...

— Me deixe terminar de falar...

— Escuta, escuta. Tá tudo bem. De verdade. Eu não quero ter algo com você, ou ser algo pra você. Bom, ser amiga talvez. Isso seria legal e pra ser sincera, se tiver sexo, seria mais legal ainda. — ela sorriu, aquela carinha de pervertida, o sorriso de lado aumentando enquanto cerra os olhos. Maldita. — Voltando a seriedade. Não precisa surtar. Você ainda vai levar tempo pra se desprender de muitas coisas, entendo isso e você está certa. Nossas realidades são diferentes, mas pensa um pouco sobre as coisas que te falei, okay? Eu achei você uma pessoa legal, interessante e misteriosa, além claro, de uma grande gostosa, linda, uma completa perdição, mas conheço meus limites aqui. — piscou galante para mim e se aproximou buscando minhas mãos. — Obrigada por confiar em mim, obrigada pelo sexo maravilhoso e obrigada por me permitir cozinhar pra você, espero que não esqueça de mim.

—Aquela garota foi burra de ter ido embora. Você é uma boa pessoa, Lalisa. — é impossível alguém não gostar de você, era o que eu queria dizer.

— Eu sei. — bufei e rolei os olhos. Convencida demais. — E Jennie, me chame de Lisa. — soltou minhas mãos e deu um passo para o lado, se afastando de mim antes de realmente começar a andar em direção a porta de entrada da casa.

Um aperto de mãos, dois beijinhos no rosto e uma troca de sorrisos amistosos. Nos despedíamos na entrada do portão de madeira. Mesmo que tivéssemos transado a noite toda até perder os sentidos, mesmo que ela tivesse me fodido no balcão da minha cozinha, nesse momento, éramos como duas pessoas que nunca tiveram qualquer outra intimidade na vida além de sabermos nossos nomes.

— Obrigada por tudo, Lisa.

— Até a próxima sorte, Jennie.

Acompanhei todo o percurso que o jeep amarelo fez até sair da entrada do meu condomínio. No final eu não pude dizer todas as coisas que gostaria de ter dito, pois Lalisa, ou melhor, Lisa, como me pediu para ser chamada, foi ainda mais rápida. Não vou ser hipócrita e dizer que não fiquei com vontade de mantê-la por perto enquanto estou aqui, mas não. Não, Jennie!

Passei o resto do dia sentada no deque da casa, de frente para o mar, aproveitando a brisa marítima e o calor confortável que o sol me oferecia. Por um momento desfrutei de um romance achado na prateleira de livros que existia no escritório da casa. Não era de todo ruim. A forma como a autora me prendeu com sua narrativa já era o suficiente para elogiá-la caso alguém perguntasse meu parecer, mas confesso que me decepcionei com o enredo em si. O que dizer de uma pessoa que muda a vida toda apenas para viver um romance? Para viver algo que pode nem mesmo ter um futuro?

Quando a noite chegou, trazendo consigo o véu de estrelas para iluminar o céu escuro e livre de nuvens, acreditei que seria desconfortável continuar por ali, lembrando que na noite anterior havia feito frio. Mas desta vez a noite não estava como a de ontem. O clima se tornou abafado, por mais que estivesse no litoral e aquelas ondas marítimas trouxessem brisas que deveriam ser frias, elas chegavam mornas até a costa.

Quando senti meus olhos pesando, entrei e rapidamente busquei um banho na tentativa de aliviar um pouco do calor que estava fazendo. Ao sair, vesti apenas uma calcinha boxe e um blusão. Deitei na espaçosa cama e por um breve momento me permitir lembrar de Lisa, do seu perfume de essência amadeirada, mas que ao inspirar, a memória que sobeja se torna doce. Lembrei do calor do seu corpo de pele dourada pelas horas que ela, com toda certeza, passa ao sol quando surfa. Lembrei do seu sorriso fácil, grande e que sempre me faz sorrir junto consigo, os olhos expressivos e belos, do seu corpo escultural, o tom da sua voz e de como ele muda ao falar coisas pervertidas em meu ouvido.

Merda, Lalisa!

[...]

Três dias haviam se passado e eu já havia criado uma rotina maravilhosa. Acordar depois das dez da manhã, fazer caminhadas nas areias da Surfrider Beach, ou apenas caminhar pela orla da Carbon Beach até chegar ao píer. No meu terceiro dia, resolvi dar outra chance ao Malibu Farm e dessa vez pedi uma mesa para apreciar um almoço leve. No quarto dia de estadia na casa de praia, resolvi tomar café na orla. A minha frente eu tinha a vista do píer onde conheci Lalisa. Olhar o quebrar das ondas na costa da praia, sentindo o aroma de água salgada por todos os lados, a beleza das areias douradas que só existiam nas praias de Malibu, de alguma forma me traziam paz.

Não vi ou falei com a surfista cozinheira durante os dias que se passaram, mas com alguma frequência me peguei sorrindo ao lembrar das coisas que ela me contou sobre sua vida. Sorria ao lembrar dos infinitos sorrisos fáceis que sempre estavam naquele rosto cheio de vida e corado pelo sol. Mas ao lembrar que na noite anterior, acordei pela madrugada, frustrada por acordar do sonho pecaminoso que estava tendo com a garota, sonho este que me fez recorrer as minhas mãos para aliviar as necessidades que o meu corpo sentia no momento, fico furiosa comigo. Furiosa por me sentir como uma adolescente que acabou de descobrir o sexo. Furiosa com o fato de que, apenas em recordar a droga dos olhares cheios de luxuria que ela direcionava a mim nos momentos em que estivemos juntas, o meu corpo acendia outra vez.  

Voltei para casa assim que o sol começou a castigar a minha pele. Não tendo outra saída para o dia, resolvi que finalmente iria voltar aos meus hábitos antigos: cozinhar para mim. Já não lembro a quantos anos deixei de fazer coisas básicas como cozinhar uma refeição. Sempre que chegava em casa, depois de conseguir o meu primeiro estágio, os congelados se tornaram a refeição principal. Somente quando finalmente fui efetivada, como designer, após um puta golpe de sorte, - que foi realmente sorte - tendo em vista que de última hora, um dos meus desenhos fora escolhido para fechar uma coleção que não poderia atrasar (elas nunca podem), foi que a minha condição financeira melhorou e os restaurantes passaram a fazer parte da minha rotina alimentar, tornando-a mais saudável para a correria que passei a viver.

Decidi que usaria de todas as minhas habilidades adquiridas, nas aulas de culinária, de quando estudei na Nova Zelândia, para fazer um contra filé ao molho de provolone. Apesar de que levei um tempo considerável até decidir o que faria para acompanhamento, não demorou muito para ter um delicioso prato balanceado para comer. Se Lalisa estivesse aqui, o que ela diria do meu contra filé com molho provolone, endivas caramelizadas, uma deliciosa farofa de brócolis (que consiste em brócolis processado e refogado em azeite e alho) além das nozes torradas e picadas para trazer um pouco de crocância ao prato? Com certeza ficaria admirada com minhas aptidões culinárias e bom gosto.

 Após o almoço tratei de organizar a cozinha. Vencida pelo tédio e vontade de saber como as coisas estavam no mundo louco lá fora, corri para o escritório da casa e liguei o macbook que havia deixado lá na noite anterior, para ler os e-mails que com certeza estavam acumulados. Conferi alguns sites de fofoca e fiquei aliviada em ver que até o momento, meu nome não aparecia em nenhum lugar além da cobertura do último desfile. Felizmente ainda não haviam descoberto por onde Jennie Kim, filha da grande designer e magnata Kim, estava. Os anos que levei tentando me desprender da imagem de minha mãe, foram para o ralo quando meu nome foi divulgado na lista de pagamentos da Chanel S.A. como funcionara efetiva. Foi então que todo o burburinho começou e nunca mais tive paz ou uma privacidade que me permitisse “respirar”.

Ainda dediquei um tempo para entrar em contato com minhas assistentes, apenas para saber se tudo estava ocorrendo bem no ateliê, principalmente se tudo estaria encaminhado para quando chegasse da viagem, mas me surpreendi com uma ligação inesperada.

— Essa é a primeira vez que você me atende de imediato. — a voz rouquinha e melodiosa do outro lado me fez fechar os olhos em saudade. — Onde você se enfiou, garota? Eu realmente queria marcar algo para fazermos agora que as coisas acalmaram um pouco para nós.

— Jichu, eu não estou em São Francisco. Resolvi viajar um pouco, mas não estou tão longe. — respondi surpresa com o interesse de minha amiga. Jisoo, durante o tempo que nos conhecemos na Coreia, nunca me procurou para diversões no geral. Era sempre eu a tomar as iniciativas, fossem chamadas, mensagens ou escapadas. Até mesmo o breve envolvimento amoroso que tivemos, o interesse partiu de mim. — É uma surpresa você me ligar, ultimamente só nos encontramos nos eventos. — comentei.

— Nos conhecemos desde a adolescência, Jendeukie. Sei que nunca fui boa em demonstrar sentimentos, mas você é minha melhor amiga.

— Aconteceu algo para você me ligar durante a madrugada em Seul?

— Não. Não aconteceu ainda. Mas agora que minha agenda para esse semestre com a Dior finalmente acabou, minha assessora permitiu com que tivesse uma folga, ou seja, poder viajar. Pensei em ir visitá-la em São Francisco. As coisas aqui na Coreia estão tão chatas. — ela falava rápido, num jeitinho totalmente dela e com toda certeza estava fazendo aquele biquinho característico que sempre faz quando está ao telefone.

— Que tal você me falar de uma vez o que não aconteceu ainda? — pedi enquanto saía do escritório e caminhava até o sofá da sala. Jisoo tem essa mania de nunca falar quando precisa de algo.

— Tem essa pessoa, que conheci durante o desfile, ela é a pessoa mais interessante que já conheci depois de você.

— Certo, você está interessada em alguém, mas não sabe o que fazer. É isto?

— Não apenas isso. A mídia aqui está fazendo críticas pesadas a minha imagem. Passaram a comentar grosserias sobre mim, sobre você, mesmo que eles apenas saibam que nos conhecemos. A sua imagem aqui ainda é lembrada com aquela foto da balada LGBTq.

— Não entendo o que tudo isso tem a ver com a pessoa que você passou a ter interesse?

— Ela é uma das jornalistas, Jennie. Nós bebemos alguns drinks no open bar e talvez eu tenha flertado com ela e, talvez ela tenha retribuído. Mas obvio que não deu em nada. Eu fui embora, ela também, mas descobri que a garota bonita, que fisgou meu coração, é uma das colunistas da Vogue Coreia e que escreveu coisas sobre mim. — a voz de minha amiga foi ficando baixinha e triste com o decorrer de sua resposta, o que apertou meu coração.

— Que merda, Jisso. — ela estava silenciosa do outro lado da linha. — Seus advogados já tomaram alguma providência?

— Esse é o problema. Eu não quero que façam nada. A garota deveria estar apenas fazendo o trabalho dela, mas eu sei que Haneul não vai deixar barato. Não quero estar aqui quando tudo começar a ficar estranho.

— Agora entendo. — mordi meu lábio inferior enquanto digeria tudo o que minha amiga havia acabado de me contar e infelizmente, era necessário fazer algo para que sua carreira não fosse prejudicada naquele País, que ainda era atrasado culturalmente.

— Se eu for até a sua casa em São Francisco, terá algum problema pra você? — perguntou após alguns segundos de silêncio.

— Para mim não, mas para você não seria ainda mais complicado se descobrirem que está em minha casa?

— Haneul sugeriu que eu saísse do País em um jatinho particular para o Japão, de lá pegaria um voo comercial para os Estados Unidos. — respondeu. A insegurança misturada a tristeza, ainda estavam presente no seu tom de voz.

— Vou pedir para Andy esperar você no loft, ela deixará tudo preparado. Me avise quando chegar e Jisoo?

— Dae?

— Qual o nome da garota?

— Park Chaeyoung.

Depois de combinar rapidamente com minha amiga, sobre sua viagem e sobre sua chegada, ficamos acordadas de nos encontrarmos daqui a duas semanas, que seria o tempo necessário para que todas as pendencias dela, com seus trabalhos menores, fossem resolvidos e, para que uma história convincente, fosse planejada para quando a descoberta de Jisoo em solo americano acontecesse.

Mesmo tendo me distraído com coisas que não deveria (trabalho) e a ligação com Jisoo, que definitivamente me deixou abalada, as horas custavam a passar, portanto, quando o relógio delicado em meu pulso acusou que já eram quinze horas da tarde, estava trocando minhas roupas por um biquíni e uma saída de praia. Havia uma movimentação nas areias próximo ao píer e lembrei das estruturas que estavam montando quando resolvi voltar para casa pela manhã. Tomei algum tempo passando protetor solar por toda a extensão do meu corpo e somente quando fiquei satisfeita com a escolha dos óculos de sol e chapéu de praia, foi que saí de casa.

Usando a escadinha lateral do deque da casa, destranquei o cadeado e suas correntes ganhando as areias particulares da residência até finalmente chegar à orla pública. O lugar estava realmente mais agitado que o normal conhecido por mim nos últimos dias, então caminhei até achar um bom lugar para sentar e acompanhar o que agora entendi ser um campeonato de Surf. Pelo folheto que recebi, nesse momento era a categoria amadora que estava no mar para dar início a primeira bateria competitiva. Estendi, abri a Eco Bag onde minha toalha estava, colocando-a sobre a areia quente para poder sentar. Assim que tive a oportunidade, pedi o aluguel daqueles guarda-sol gigantes para poder ficar devidamente protegida a beira mar.

A primeira bateria foi bastante calma, não houve uma disputa acirrada por pontos já que muitos desistiam no meio da onda que quebrava antes de sequer chegar próximo da areia. É, parece que o mar não quer deixá-los surfar esta tarde. Alguns bons minutos depois, felizmente o quadro reverteu, afinal Surfrider Beach é conhecida como a primeira reserva do Surf no mundo, sendo assim, logo as boas ondas chegaram, trazendo consigo emoções diferenciadas aos competidores e a plateia que os assistia, eu incluso.  Com a pausa das baterias para soma de pontos e anunciar quem partiria para as próximas etapas, resolvi me levantar e me refrescar na parte da praia que estava liberado para os banhistas não interessados em assistir uma competição.

Aproveitei da presença de uma senhora e sua neta, para solicitar encarecidamente que vigiasse minhas coisas, que consistia na toalha, eco bag, e ela não precisava saber que dentro da sacola estava meu cartão de crédito e chaves da casa. Com meu corpo ganhando caminho pela água de temperatura agradável, resolvi parar o percurso antes que metade do meu corpo ficasse submerso. A sensação da água fria contrastando com o sol que voltava a ficar quente, era uma mistura que a muito não sentia em minha pele, desde o dia em que voltei a morar na Coreia com meu pai e posteriormente vir morar na América do Norte com minha mãe.

Quando voltei a areia agradeci a senhora simpática que havia reparado meus pertences e me sentei em minha toalha, ainda estendida na areia, para voltar a assistir a nova bateria de competição, que agora era a feminina profissional. Algum tempo depois, cansada de esperar pelas novas baterias de competição, levantei e me dirigi a uma nova locação, mas não sem antes me despedir da senhora agradável e da criança agitada que era sua neta.

Ao encontrar um bar que servia petiscos e drinks em acomodações na areia, resolvi pedir uma para mim. Do restaurante passei a degustar de coquetéis frutados, que por enquanto, eram sem álcool. Fiz pedido de alguns petiscos recomendados no cardápio do estabelecimento e agora aproveitava para continuar vendo a competição que se iniciava outra vez, porém, aproveitando a tarde com sombra, comida e água fresca, no meu caso coquetéis.

Notando ao longe, a presença de uma área dedicada especialmente para reportes e fotógrafos esportivos, voltei a pensar em tudo o que Jisoo havia me contado. Me senti terrivelmente atingida, principalmente quando meus pensamentos me levaram para as memórias com manchetes, onde o teor das coisas escritas ao lado do meu nome, eram semelhantes ao caso de minha amiga. Não dei mais tanta atenção para a competição que ainda acontecia e nem mesmo para as que ainda estavam por vir. Carregada pela onda de sentimentos ruins, pedi um coquetel com álcool e mais alguns petiscos para encerrar com “chave de ouro” a minha tarde, incluso a tentativa de esvaziar a mente.

O garçom, cerca de cinco minutos depois, apareceu com meu pedido e se retirou para que eu pudesse apreciar o pôr do sol que começava a tomar forma no céu, que antes era azul claro. As nuvens brancas passaram a ganhar tons alaranjados, acompanhando o seu amigo astro de luz própria e imponente, que se tornava cada vez mais fraco com o final do dia. Esse era o terceiro que assistia durante minha estadia, e estava sendo o mais bem aproveitado. O drink gelado aliviava o calor que o meu corpo ainda sentia, os petiscos saciavam a minha leve fome, os óculos de sol ainda protegiam os meus olhos da claridade, mas o chapéu praiano estava esquecido na areia, dentro da bolsa, aos meus pés.  

Distraída por longos minutos olhando o horizonte, fui despertar ao tomar um terrível susto momentâneo. Braços envolveram a minha cintura fazendo o meu corpo todo entrar em alerta, pular levemente na espreguiçadeira onde estive sentada, de pernas cruzadas uma sobre a outra, para depois relaxar ao ser invadida pelo aroma recém conhecido e que não havia deixado minhas lembranças. O perfume inconfundível. Os braços delicados e firmes envolveram ainda mais a minha cintura, puxando o meu corpo contra o seu, me aconchegando em si. Me permitir finalmente relaxar e tentei reprimir ao máximo a vontade de estapeá-la pelo susto desnecessário.

— Oi. — a ouvi sussurrar em meu ouvido.

— Você não imagina a vontade que estou de te enfiar a mão na cara por esse susto. — informei ainda sem olhá-la.

— Estive confiante de que você iria me reconhecer. — ouvi o som do seu sorriso contido e o enxerguei perfeitamente em minhas recordações.

— Como pode ter tanta certeza? — perguntei provocando. Virando o rosto para finalmente olhar a garota e me deparei com Lisa usando sua característica roupa de surf.

— Porque tomei o cuidado de deixar gravado em você todos os meus toques. — respondeu olhando-me dentro dos olhos, sem sorrisos, sem gracejos, sem qualquer disfarce que pudesse me impedir de reconhecer a sinceridade intensa que faz parte de si.

— Sempre convencida. — murmurei um tanto perdida.

— Sim, mas apenas o suficiente para manter o charme. — retrucou e selou seus lábios cheios em minha bochecha, me fazendo suspirar de olhos fechados pelo contato.

Droga! Eu não deveria estar bebendo. Álcool e Lalisa não são uma boa combinação.

— O que está fazendo por esses lados? — questionei tentando mudar de assunto e recuperar um pouco da minha dignidade, que ela educadamente fingiu não ver cair.

— Estive competindo na categoria feminina amadora. Para ter perguntado, imagino que não viu. — respondeu.

— Sinto muito. Muitas coisas na cabeça. — se eu soubesse, realmente teria ficado um pouco mais atenta as últimas baterias.

— Sem problemas, Jennie. — disse e aproveitando da minha distração, fechou ainda mais os braços em volta de mim, fazendo meu corpo inteiro recostar no seu. Minha cabeça encontrou conforto em seu ombro esquerdo, uma de suas mãos entrelaçou-se com a minha e passou a fazer um carinho delicado por ali. — Você se importa se ficarmos assim um pouco? — perguntou baixinho. Sua respiração lenta e tranquila chegava até mim, a voz doce e suave, como se quisesse perturbar o menos possível os demais sons a nossa volta.

— Eu diria que sim, mas aqueles fotógrafos ali, por mais que não me apresentam nenhum risco no momento, me fazem ficar receosa com a presença deles. — respondi e senti a garota atrás de mim inspirar fundo antes de focar sua atenção para o mesmo ponto onde olhei.

— Se quiser, posso sentar na areia, só queria estar por perto, aproveitar a sorte de te encontrar outra vez...

— Lisa, fique. — pedi. — Apenas fique.

Não falamos nada mais, apenas relaxamos sentadas na espreguiçadeira. Vez ou outra sorvi alguns goles do meu drink e Lalisa me servia na boca, os petiscos que ainda não haviam acabado. Mas ao que ofereci da minha bebida para a garota, ela balançou a cabeça negativamente.

— Talvez eu deva pedir uma taça de vinho. — comentou.

— Qual é a sua com vinhos? — questionei curiosa.

— Além de ser a bebida menos prejudicial ao organismo, o ph de alguns vinhos, seja ele tinto ou branco, é semelhante ao ph das nossas vênus. — ela sorriu sugestiva. — Jennie, o vinho é a bebida mais sáfica do mundo.

Ah, não! Precisei fazer um esforço sobre humano para não rir daquilo tudo.

— Você está tirando com a minha cara?

— Não mesmo. Talvez eu tenha um certificado muito importante engavetado. A profissão de sommelier muito me agradava a princípio, mas a cozinha é algo que realmente me chama muito mais atenção. — respondeu séria.

— Certo, isso é novidade pra mim. Além de excelente cozinheira, tem um curso de sommelier. Eu deveria ter desconfiado quando vi você administrando o vinho na sua casa. — essa garota é uma caixinha de surpresas.

— Tudo bem, é algo que até mesmo eu esqueço de informar nos currículos de estágio que saio entregando por aí.

— Mas então quer dizer que você só toma vinho, por que é uma das bebidas mais sáficas do mundo? — perguntei para provocá-la. Mordi meus lábios segurando o riso que me queria escapar.

— Bom, se você sai sozinha e quer chamar atenção da crush no bar, sem que ela tenha dúvidas que você é do vale, o vinho é uma boa pedida. — respondeu e piscou me fazendo perder a compostura e me entregar a uma gargalhada alta e deliciosa.

— Puta merda, Lisa. Eu não acredito que você faça essas coisas. — consegui dizer já um pouco mais controlada.

— Já funcionou duas vezes. — informou com a sua expressão convencida.

— Você é impossível.

— Sou e você adora, Jennie.

— Será se você pode ficar calada? — pedi voltando a rir.

— Me cale. — e de repente a voz havia deixado de ser delicada e doce para ser, sexy e determinada.

Espertinha. Idiota. Abusada!

Virei o meu corpo, ficando em meio perfil a sua frente, agarrei firme o seu queixo com meus dedos e sem titubear, selei os meus lábios em sua boca. Um simples pressionar de lábios que deixou ambas desejando mais, tendo em vista que Lalisa permaneceu encarando minha boca após o contato ser quebrado. E eu? Bom, eu estava com fome daqueles lábios gostosos, mas precisava me segurar.

Sem envolvimentos é igual sem dor de cabeça e dramas, Jennie!

— Vai me deixar ver o pôr do sol em silêncio agora? — questionei ainda a olhando.

— Se eu puder continuar aqui, com você em meu colo, sim. — respondeu e aguardou minha permissão.

— Eu já disse que pode ficar aqui, Lisa.

— Certo.

Lisa depositou um beijo em meu ombro antes de me aconchegar novamente contra o seu corpo. Aproveitando do conforto sentido, voltei a repousar minha cabeça em seu colo e em silêncio acompanhamos o lindo pôr do sol em Malibu aquela tarde.

 

 

 


Notas Finais


Espero que tenham apreciado a leitura e até muito breve o/


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