História Manjusaka - Capítulo 6


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Categorias Neo Culture Technology (NCT)
Tags Dowoo, Guilhotina, Johnjae, Markhyuck, Nct 127, Nct U, Spin-off, Wooyoung
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Palavras 6.232
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Festa, Lemon, Misticismo, Romance e Novela, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Homossexualidade, Incesto, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Hehehehe
Acharam que eu ia largar ela inacabada né?? vou não que eu tenho mãe kkkkkjjj
Gente, sério, mil perdões pela demora. Mil rolês, ser adulta e morar só não é fácil.
É isso aí, último capítulo aí vamos nós ~

Capítulo 6 - Florescer Fantasma


 O trabalho ocupava toda a manhã e algumas partes da tarde do barão. Dois meses depois, ele ainda não havia se acostumado com o título, mas havia algo de confortável naquela nova rotina. Taemin era uma companhia agradável e passavam uma boa parte do tempo livre tocando piano ou simplesmente conversando. Seu pai tinha tantas histórias incríveis acumuladas ao longo de anos viajando por aí que Jungwoo começou a incentivá-lo a escrever um livro.

Outro que não escapou da influência do ruivo foi Lucas. Quando as aulas de gramática e interpretação de texto começaram, o chinês tentava evitá-las a todo custo, inventando mil atividades para não ter que se sentar à mesa. Persistente como era, Jungwoo foi testando diversas estratégias até finalmente achar um método funcional.

As aulas eram, sobretudo, com a primeira luz do dia. Ambos eram bastante diurnos, logo quase sempre eram os primeiros a acordar. Lucas já levantava com fome então o barão ia dando pedaços de queijo e pão a medida em que o garoto ia respondendo as perguntas. Parecia cruel, mas era a única forma de fazê-lo prestar atenção.

Ele se distraía com absolutamente qualquer coisa: um trinado de pássaro; um inseto que passasse voando; o crepitar da lareira; às vezes até mesmo com o nada. Era comum levantar a vista para o garoto, depois de explicar uma norma, e pegá-lo absorvido fitando o rosto de Jungwoo.

– Você não estava prestando atenção, não é? – O ruivo perguntava, vendo Lucas começar a rir e levar um dos braços até as escápulas largas, coçando-as, ou então dando um bocejo.

– Estava sim... – O mais alto respondia vagamente, tudo para ganhar tempo.

– Então pode me dar um exemplo de metáfora? – Jungwoo insistia e seus olhos se encontravam antes de Lucas responder, precisamente:

– Ele é um diamante.

Sua habilidade com o idioma melhorou substancialmente. O chinês aprendia rápido e fazia comentários espertos sobre os livros que liam juntos quando os exercícios gramaticais acabavam. Entre uma página e outra, acabavam rindo ou se perdendo em algum assunto aleatório.

– Qual é o seu nome? – Jungwoo perguntou, arrancando algumas uvas do cacho sobre a mesa.

– Lucas.

– Não, espertinho. O seu nome de verdade. – O menor retrucou antes de comer, revirando os olhos e dando um sorriso mínimo. – Você é chinês, não? Lucas é um nome ocidental…

– Ah, não… Você vai rir de mim. – Ele comentou, rabiscando o cantinho do caderno.

– Não vou! Conta logo.

Com um forte suspiro, o garoto descansou o lápis e olhou para o mais velho. Tinham uma diferença mínima de apenas um ano, mas normalmente se tratavam como se tivessem a mesma idade.

– Huang Xuxi. – Lucas esperou a risada. Todos sempre riam quando escutavam aquele nome; diferente tanto dos nomes frequentes no Império quanto dos da América, mas a risada não veio.

Ao notar que Jungwoo ainda não estava totalmente satisfeito, o rapaz se ajeitou melhor na cadeira e continuou:

– Quer dizer “brilhante nascer do sol”.

O barão deu um sorriso e confirmou com um aceno de cabeça.

– Combina com você.

Lentamente, o rosto de Jungwoo voltou a ficar mais fofinho e saudável, conforme voltava a comer e a dormir direito. O tempo longe da poluição de York e, principalmente, longe de sua atmosfera socialmente nociva também ajudava a lhe fazer bem, mas a noite sempre chegava e o fazia recuar um passo.

Infelizmente, ainda era inverno, e as noites eram mais longas.

Foi Taemin quem o convenceu a trocar a decoração do quarto, alegando que manter as coisas de Doyoung intocáveis não era saudável para nenhum dos dois. Foi duro ter que concordar com a ideia, mas foi mais duro ainda colocá-la em prática. Trocar a decoração era como apagar a existência de Doyoung dali e aquilo doía como se estivesse arrancando a própria pele.

Foi um processo longo, ainda mais porque Jungwoo recusou a ajuda de todos. Não queria Lucas arrastando os móveis mesmo sabendo o quanto o rapaz era forte, não queria os conselhos sábios de Yerim, nem mesmo os toques de bom gosto de Taemin ou a serenidade de Sae que sempre o acalmava com seu jeito prestativo.

Jungwoo trocou os móveis de lugar, devolveu os livros para a biblioteca, doou as roupas e sapatos e jogou fora tudo o que não servia mais. Seus cabelos estavam ligeiramente úmidos de suor quando seu olhar caiu no baú, a última coisa que ainda não havia mexido.

Correu as mãos pelos cabelos, jogando-os para trás para tirá-los do rosto e então se ajoelhou no chão, abrindo a caixa devagar. Seu coração voltou a apertar ao ver a bengala ali, foi como se ainda pudesse ouvir seu som ritmado – como combinava com a risada do primo, pensou.

No fundo do baú encontrou mais alguns livros, não de ciência ou política, mas romances. Ora, ora, quem diria que o tão racional Kim Doyoung era dado aos prazeres culpados de romances shakesperianos.

– Peguei você.

Sorriu ao ler os títulos e se sentou no chão, abrindo um dos volumes.

 

“Depois de algum tempo você aprende a diferença,
A sutil diferença entre dar uma mão e acorrentar uma alma,
E você aprende que amar não é apoiar-se […]

E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e os olhos adiante,
Com a graça de um adulto, e não com a tristeza de uma criança
E aprende a construir todas as suas estradas no hoje,
Porque o terreno de amanhã é incerto demais para os planos,
E o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.
Aprende que falar pode curar dores emocionais
Descobre que se leva anos para construir uma confiança
E apenas segundos para destruí-la.
E que você pode fazer coisas em um instante,
Das quais se arrependerá pelo resto de sua vida […]

Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que o ame
Não significa que esse alguém não o ame com tudo que pode

Pois existem pessoas que nos amam
Mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver com isso.

Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém
Algumas vezes você tem que aprender a perdoar a si mesmo […]

Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido,
O mundo não pára para que você o conserte,
Aprende que tempo é algo que não pode voltar para trás,
Portanto, plante seu jardim e decore sua alma
Ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.
E você aprende que realmente pode suportar, que realmente é forte,
E que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais.
E que a vida realmente tem valor,
E que você tem valor diante da vida.
E você finalmente aprende que nossas dúvidas são traidoras
E nos faz perder o bem que poderíamos conquistar,
Se não fosse o medo de tentar...”

 

Ao virar a página, uma folha caiu do livro. Jungwoo pegou o papel, reconhecendo os traços de Doyoung. Era um desenho; um grande coração, cheio de veias e artérias, tão bonito que parecia pulsar. Ao redor do coração havia o esboço de um rapaz inconfundível.

O cabelo comprido de Jungwoo, as maçãs do rosto salientes, a boca carnuda…

Fechou os olhos e conseguiu visualizar Doyoung, sentado na escrivaninha em frente a cama, concentrado no desenho. O lápis se movendo milimetricamente no papel até ser traído pelos próprios pensamentos e a racionalidade dos traços afrouxar, o lápis perdendo força contra o papel, subindo, inconscientemente fazendo os traços de seu amado. Ao perceber o que havia feito em um instante de distração, Doyoung soltou um longo suspiro de cansaço e arrancou a folha do caderno, pensando que agora teria que recomeçar todo o desenho do zero. Ainda assim, foi incapaz de jogá-la fora. Acariciou ligeiramente os traços recém-desenhados de Jungwoo com um misto de saudades e impotência e enfiou a folha no livro de cabeceira, dizendo para si mesmo que precisava dormir.

A imagem ficou borrada e Jungwoo reabriu os olhos, encarando a penteadeira que havia colocado no lugar da escrivaninha. Sua imaginação começava a lhe pregar peças? Andava como um andarilho no deserto, vagando de miragem em miragem? Só então olhou para o desenho novamente, reparando em uma pequena frase que não tinha visto na primeira vez. Três palavras em latim, escritas na letra rebuscada de Doyoung, logo abaixo da imagem:

Ab imo pectore, do fundo do meu coração.

O coração de Doyoung, mas no peito de Jungwoo.

Levou a mão ao próprio peito, sentindo o coração bater compassadamente. Sim... Dividiam o mesmo coração e, enquanto ao menos um deles batesse, estariam juntos. Respirou fundo, sentindo o coração se aquecer e o corpo inteiro ser tomado de uma paz sublime e uma única lágrima caiu de seu olho esquerdo.

Jungwoo riu soprado ao sentir aquele toque quente no rosto e notou que, pela primeira vez na vida, chorava de alegria.

 

✥------- † -------✥

 

O cheiro das castanhas assadas e frutas vermelhas enchia o cômodo inteiro. Era o primeiro Natal que passava em Remanso, o primeiro verdadeiramente feliz. Não havia banquete, mas a mesa estava cheia; também não havia baile, mas dançavam no salão; os presentes eram simples, em sua maioria apenas lembranças ou coisas feitas à mão e nada poderia ser mais verdadeiro do que aquilo.

Brincava com o boneco soldado quebra-nozes que havia ganhado de Taemin enquanto admirava sua nova família. Engraçado como se sentia muito mais em casa ali e com aquelas pessoas do que no Palácio de York. Às vezes os laços de sangue não são nada se comparados aos amigos, a família que se escolhe ter.

Taemin tocava uma música animada no piano enquanto Yerim batia palmas e Sae dançava, seus longos cabelos pretos esvoaçando para todos os lados. Lucas implicava com Kun. Desde que o mordomo se mudara para Remanso os dois tinham desenvolvido uma forte amizade, alimentada com diversas implicâncias vindas da parte do garoto e era comum vê-los se engalfinhando pelos cantos da casa, o que sempre rendia boas risadas.

Foi depois de uma dessas brincadeiras bobas dos chineses que Lucas veio sentar-se ao lado do barão, timidamente. Jungwoo não fazia questão alguma de ser tratado com a formalidade do seu título, mas, de vez em quando, ainda notava que o mais novo ficava acanhado ao seu redor.

– Cansou de chamar o Kun de gordo? – Perguntou para puxar assunto.

Lucas apenas riu e negou com a cabeça.

– Você parece pensante… Comeu, veio para cá e ficou quietinho. Tudo bem?

O ruivo sorriu de leve, sentindo-se agradecido e importante ao notar a preocupação do outro rapaz.

– O certo é pensativo, Lucas. – Pontuou, vendo o outro abrir um daqueles sorrisos enormes que ele costumava dar. – Mas, estou sim, obrigado por perguntar. É só que, não sei, gosto de observar vocês brincando.

– Não é por causa do casamento? – O chinês questionou, meio desconfiado, como se estivesse com receio de ser intrometido demais.

O ruivo franziu as sobrancelhas, assumindo ainda mais aquele ar pensativo que Lucas havia mencionado, e então lembrou-se do convite que havia chegado há algum tempo. Mais uma correspondência da Corte convidando-o a ir para a capital novamente. Dessa vez não para buscar um corpo, mas para participar do casamento do príncipe Haechan. Deu um gemido quando se lembrou de que a festa estava próxima e se afundou no sofázinho.

– Você tinha mesmo que me lembrar disso?

Lucas levou a mão até a nuca, coçando-a de um jeito meio sem graça e então riu de leve, dando de ombros.

– Preciso preparar seu cavalo.

Detestava admitir, mas sabia que o moreno estava certo. Infelizmente a opção de simplesmente não ir à festa era inexistente. Em primeiro lugar porque seria uma enorme desfeita com John e Jaehyun, que sempre lhe mandavam presentes e cartas, querendo saber se estava tudo bem e se ele não precisava de nada. Em segundo lugar, conhecia bem o noivo. Mark tinha passados várias temporadas curtas em York e era uma companhia divertida para enfrentar os bailes chatos. Na verdade, preocupava-se com a ideia do amigo casado com alguém tão sombrio como Haechan. E, como se não bastasse tudo isso, continuava sendo estranho o pensamento de ter que encarar o príncipe que havia mandado matar Doyoung.

A ferida estava cicatrizando, mas ainda doía e o ruivo tinha receio que ela pudesse reabrir a qualquer momento. Precisava ir à festa, mas não conseguiria fazer isso sozinho. Despertou dos pensamentos ao ouvir Lucas cantarolando baixinho uma música boba em cantonês e suas sobrancelhas se ergueram ao mesmo tempo com a ideia que teve de súbito.

– Hn? – Lucas perguntou, notando a mudança de expressão do outro – Já decidiu? Posso selar o cavalo?

– Sele dois – Jungwoo sorriu de leve antes de afirmar – Você vai comigo.

 

 

✥------- † -------✥

 

O olhar do ruivo cruzou com o olhar do único que poderia dar sentido àquela viagem, aliás. Vê-lo ali era mais do que um sentido, era um alívio e um sinal de que mesmo nas piores coisas da vida sempre havia algo bom.

Sicheng sorriu ao reconhecer Jungwoo e acenou com a mão, convidando-o para ocupar o lugar livre ao lado dele. O barão cumprimentou a esposa do melhor amigo e então ignorou a formalidade, dando um abraço apertado, cheio de saudades no outro. Sempre trocavam cartas, sim, mas palavras nem de longe eram o mesmo do que ter alguém ao lado, fisicamente, para chamar de amigo.

– O que está fazendo aqui? Não deveria estar no altar como padrinho? – Jungwoo sussurrou.

– Então… Meu irmãozinho aceitou que organizassem a festa como quisessem com a condição de que ele pudesse escolher os padrinhos. – Sicheng respondeu no mesmo volume baixo, entre uma risadinha e outra – Resultado: chamou o Taeyong e o Yuta para assumirem esse lugar.

O ruivo não teve como esconder sua surpresa:

– Os criados? – Por mais que fosse alguém de mente aberta, jamais pensou que veria um casal de criados no altar, no casamento do príncipe do Império, deixando o irmão de sangue sentado em um banco de convidados, ainda que com toda honra possível já que ali também estavam os parentes mais próximos do rei John e do rei consorte Jaehyun.

O olhar de Jungwoo caiu sobre Lucas, sentado ao seu lado esquerdo. O rapaz parecia tentar puxar papo com uma garota loira de queixo fino e olhos grandes, com cílios tão longos que pareciam os de uma boneca que estava sentada ao lado dele. Aliás, ela toda parecia uma boneca em seu vestido cheio de seda e renda. No final das contas, o barão havia trazido um criado para acompanhá-lo na festa real e isso o fez perceber que, talvez, compreendesse melhor o príncipe do que gostaria de admitir.

– Eles são mais do que isso, mas tudo bem, a vista daqui é bem melhor… – Sicheng respondeu, não parecendo se importar com o assunto, aproveitando para pegar a filhinha no colo – Assim podemos conversar um pouco também. Como as coisas têm andado?

– Agitadas, o papai é uma festa ambulante e, desde que o namorado dele chegou, ele anda ainda mais feliz e inspirado do que o habitual. Uma pena que vão embora nos próximos dias. Vou sentir falta deles.

– Não podem ficar mais um pouco?

– Ambos são muito boêmios. Se eu pedir, tenho certeza de que ficariam, mas iria me sentir culpado, sabe? Como se estivesse prendendo dois passarinhos em uma gaiola... Deixa eles irem, o mais importante é que finalmente nos achamos. – Respondeu, colocando o dedo indicador na mãozinha da menina que sorriu para o ruivo, fazendo um montão de baba em seguida – Eles sabem que podem voltar quando quiserem e que vão ser sempre bem-vindos.

Sicheng concordou com um aceno, pegando um paninho de algodão para limpar a boquinha da bebê.

– Fico feliz que tenham estabelecido uma relação tão bonita. Isso é amor de verdade. – O duque fez algumas caretas bobas para a menina, que deu uma risada fofa e apertou o dedo de Jungwoo na mãozinha gorducha. – Falando em amor… – Sicheng fez mais uma pequena pausa e então fitou o amigo – E quanto a ele?

Jungwoo respirou fundo e olhou discretamente ao redor. Lucas e a mocinha loira já tinham engatado uma conversa animada, o que era surpreendente já que ambos eram estrangeiros e falavam com um sotaque forte. Talvez por isso mesmo tivessem se entendido bem, de alguma forma. Todos ao redor também pareciam muito ocupados fuxicando entre si ou observando os detalhes suntuosos da decoração então não havia ninguém para prestar atenção nos dois.

Nesse momento, Jungwoo quis desabafar. Quis contar dos dias ensolarados que passaram juntos na vivenda, contar alguma das várias histórias de coisas engraçadas que Doyoung tinha feito ou falado, quis falar das manhãs solitárias e de como mergulhava incansavelmente no trabalho para conseguir desmaiar de exaustão à noite porque era só assim que conseguia dormir. Ou pior, o quanto se culpava por ter quebrado a promessa feita a Doyoung: estava novamente em uma igreja, mas não era para o casamento deles e nunca mais poderia ser.

Quis falar que, lentamente, o perfume de seu amado começava a se perder na sua lembrança olfativa, assim como alguns detalhes que jurava ter decorado para sempre; como o lugar exato das pintinhas que tanto amara beijar. Eram à esquerda ou à direita das costas?

Ainda assim, aquilo era nada perto do sentimento que ainda tinha no peito. Podia mascarar os vestígios dele na casa, mas não tinha como arrancá-lo de si.

Olhou para Sicheng, que ainda aguardava a resposta, e percebeu que tinham coisas que não era capaz de dividir. Nem mesmo com o melhor amigo. Foi por isso que o ruivo colocou um sorriso mínimo no rosto e respondeu da forma mais reservada possível:

– Reformei a casa, troquei a decoração e doei as coisas dele, mas não adiantou muito.

O mais velho concordou com um aceno de cabeça e deu uma batidinha no ombro do outro.

– Tudo a seu tempo.

Nesse exato momento as portas duplas da catedral se abriram ruidosamente e a orquestra começou a tocar o Concerto para dois violinos em A menor de Vivaldi. Os convidados imediatamente ficaram de pé para observar o pai de Mark entrar radiante na igreja.

– Parece até que é ele quem vai se casar. – Lucas comentou baixinho no pé do ouvido de Jungwoo, fazendo o ruivo rir brevemente, voltando a prestar atenção no pequeno cortejo. Após Taeil, foi a vez do casal real entrar. John e Jaehyun refizeram os passos de Taeil, tão lindos e majestosos como estrelas ao amanhecer.

Quando assumiram seus lugares, a igreja inteira ficou em silêncio por alguns instantes. As respirações presas. Uma ansiedade tão grande que enchia o ar com uma eletricidade palpável. O protocolo já havia sido quebrado. Não havia nenhum noivo esperando ao lado dos padrinhos, assim como nenhum pai havia ficado para acompanhá-los até o altar. Aos poucos a multidão presente ali se deu conta daquilo e, quando a curiosidade havia se tornado um balão prestes a estourar, as portas se abriram novamente, desta vez ao som da Ode à Alegria de Beethoven.

Os noivos entraram juntos, os braços dados e sorrisos um tanto tímidos no rosto. Caminharam lentamente em direção ao altar, pelo meio de uma chuva de pétalas de rosa que os próprios convidados jogavam aos seus pés. Mark deu uma leve cotovelada no mais novo que acabou rindo e retribuindo o gesto.

Ambos vestiam ternos mais leves do que a casaca completa, e os tons escuros deram lugar a tecidos de seda importada em branco e delicados detalhes em azul-claro.

A cerimônia foi breve. Nada muito além de uma bênção e da troca de votos seguida por mais um leve momento de suspense quando o padre perguntou se o príncipe Haechan aceitava Mark como seu esposo. Houve um curto silêncio que fez toda a expectativa se renovar e então um singelo “sim”, seguido por um sorriso mínimo que pode não ter sido visto nem mesmo na primeira fileira, mas foi o bastante para Mark. Ele ainda ria todo bobo quando o celebrante disse que os noivos podiam se beijar. Bom, ao menos foi isso o que ele diria, porque antes mesmo de terminar a frase, o príncipe agarrou o mais velho pela nuca, colando os lábios aos dele em um beijo no mínimo apaixonado.

O banquete após a cerimônia foi algo comentado por um século inteiro e mais um pouco. Não houve economia na diversidade de pratos, músicos e entretenimento para os convidados. Após uma quase guerra, aquela era uma atitude política para agradar os convidados e para simbolizar que aquela união seria um sinal de uma nova era, uma era de fartura e generosidade.

Jungwoo aproximou-se de Lucas, levando uma taça de um ponche colorido e borbulhante que havia encontrado em uma das mesas. Mal tiveram tempo de iniciar uma conversa quando um rapaz alto de cabelos negro e rosto quadrado parou em frente a Jungwoo, fazendo uma reverência educada.

– Milorde Kim. Peço perdão pela demora, deveria ter ido visitá-lo há muitos meses, mas não ainda não tive coragem de voltar a Remanso. – Ele explicou antes de endireitar a postura. O garoto tinha um ar extremamente aristocrata – Meu nome é Lee Jeno. Sou seu vizinho.

A boca de Jungwoo se abriu em formato de “o” e o barão ficou alguns instantes em choque antes de devolver a reverência.

– É claro. Eu também fui deselegante em não ter lhe feito uma visita em Olmedo e… – Acrescentou ligeiramente mais baixo – por ter recusado sua proposta de noivado também.

Jeno sorriu largo, fazendo seus olhos se transformarem em duas finas linhas e negou com um aceno de mãos.

– Eu compreendo. Perdi meus pais muito cedo e Doyoung era como um irmão mais velho ou até mesmo um pai para mim. Eu ainda não sabia que vocês gostavam um do outro na época do pedido. Fiquei até aliviado com a recusa quando descobri.

– Ele falava de você com um grande carinho também. – Jungwoo comentou com um sorriso, o clima rapidamente se suavizando e ficando confortável entre eles. Apesar da aparência sofisticada, o rapaz parecia ser alguém simples e de fácil convívio. – Mas agora acho que devo ajudá-lo a encontrar um bom partido. Acredite, sou bom nisso. Cresci em York. Qual seu tipo ideal? Meninos? Meninas?

– Ahn… Não ligo muito? Alguém gentil, com um sorriso bonito e que goste de cozinhar?

Jungwoo começou a repassar mentalmente toda a lista de solteiros do reino, pensando que precisava se atualizar um pouco com as fofocas. Talvez pudesse pedir ajuda a sua meia-irmã que estava logo à frente fofocando com algumas amigas. Foi então que uma nuvem suave de perfume passou correndo ao seu lado, parando à esquerda de Lucas com um aceno. Era a mesma garota loirinha com quem ele havia conversado mais cedo no casamento.

Jungwoo estreitou os olhos, vendo que a menina tinha um sorriso enorme e que quase não conseguia tirar os olhos de Jeno.

– Olá, olá. Qual o seu nome, senhorita? Não me lembro do seu rosto. – Perguntou Jungwoo

Foi então que Jaehyun apareceu meio esbaforido, interrompendo a fala da garota com um:

– Jasmin! Não corra no salão.

– Perdão. – Ela respondeu minimamente, o sorriso ainda ali, mas mais contido agora que estava na presença do príncipe consorte.

– Que bom vê-lo aqui, Woo. Olá, lorde Jeno, Lucas. – Cumprimentou-nos – Vejo que já conhecem a Jasmin. Essa peça aqui é minha irmã caçula. Mamãe mandou que ela viesse para conhecer o Império e passar uma temporada na Corte. Disse que se eu consegui ficar elegante, capaz que ela também consiga.

– Jae! – A garota protestou, fazendo os presentes rirem.

Ao vê-los lado a lado Jungwoo percebeu que a semelhança entre os dois era óbvia. Os mesmos olhos claros, cabelos cor de palha, os traços faciais delicados e ambos bem altos, com aparência de estrangeiros. Ao olhar para Jeno, viu que não era o único reparando em Jasmin e sorriu com aquilo. Talvez nem precisasse da ajuda da irmã com a lista de solteiros. Poderia muito bem dar uma forcinha de nada exatamente de onde estava.

Um pigarro suave soou nas costas do ruivo, que virou-se dando de cara com Haechan.

– Podemos conversar um instante?

Jungwoo não queria, mas também não tinha como recusar sem parecer um completo estúpido então viu-se caminhando até uma parte um pouco mais silenciosa do salão de baile. Os dois ficaram calados por alguns instantes tão constrangedores que pareceram horas. Ninguém sabia exatamente como falar, então Jungwoo ficou quase agradecido quando o primeiro movimento saiu de Haechan.

– Fiquei feliz por você ter vindo.

– Eu não queria, sinceramente falando. Mas achei que deveria fazer isso, pelos seus pais e pelo Mark.

Haechan concordou com um leve aceno de cabeça e disse:

– Vou cuidar bem dele. Prometo. Minhyung é especial… Hoje eu me entendo melhor e sou alguém melhor, muito disso é por causa dele.

– Então está tudo certo para a coroação? – Jungwoo perguntou, fitando as pessoas dançando apenas para não precisar ficar olhando diretamente para o príncipe já que isso o deixava nervoso.

– Hm, imagino que Sicheng não tenha tido tempo de lhe contar ainda, então vou estragar a graça dele. – Haechan deu uma risada, encostando-se em uma coluna de mármore branco – Papai acha que eu sou perigoso para o reino. Você sabe… Minhas provas me renderam uma reputação um tanto infame.

Jungwoo fitou o mais novo, meio chocado com a informação.

– Como assim? Então você se casou em vão?

– Bom, se fosse em outro momento eu teria pensado dessa forma, confesso. Mas, por mais estranho que possa parecer, eu realmente amo o Minhyung. – Ele deu um pequeno suspiro – Talvez Sicheng seja de fato uma opção mais correta. Ele é muito querido, é calmo, é justo. Tem uma família bonita.

– E o que você vai fazer da vida agora? – O ruivo assustou-se ao perceber que estavam tendo uma conversa normal. Sem partir para agressão verbal ou mesmo física.

– A família do Mark trabalha com vinhos. Pensei que seria uma boa opção ficar com ele um pouco, ficar no vinhedo, depois viajar um tempo, conhecer de fato o reino.

– Soa como uma longa lua de mel. – Jungwoo pontuou com um sorriso discreto.

– Soa, não? – Haechan sorriu de volta – Confesso que esses novos planos me animam até mais do que ser rei. Fora que, eu sempre terei um cargo de peso no conselho. E eu gosto mais de estratégia do que de operar, mas, mesmo assim, ainda não joguei a toalha. Quem sabe eu consiga fazer alguma apostinha com meu irmão, hm.

Jungwoo negou com a cabeça, e os dois acabaram rindo de leve. Velhos hábitos nunca mudam. O ruivo estava prestes a ir embora quando o príncipe o chamou de novo:

– Espera, tenho um presente para você. – Disse, tirando do terno um pergaminho enrolado, preso com uma fita vermelha. Ele ficou mais sério ao estender o pergaminho e olhou diretamente nos olhos de Jungwoo – Espero que possa me dar sua amizade, ou, ao menos, o seu perdão.

O mais velho pegou o pergaminho hesitantemente, abrindo-o com cuidado antes de passar os olhos pelo conteúdo. Era a lei de casamento, uma das mais antigas da Constituição.

– Eu não compreendo, é uma lei. Por que está me dando isso?

– É a nova lei, já aprovada pelo Conselho. A partir de agora o casamento entre pessoas do mesmo sexo está permitido no Império inteiro, não importa a classe social.

Jungwoo enrolou o papel novamente, prendendo-o com a fita antes de olhar para o príncipe e dizer:

– Você sabe que não foi classe social que me impediu de ficar com ele.

Haechan concordou antes de explicar:

– Sim, e infelizmente não há nada que eu possa fazer para mudar o passado ou trazer o Doyoung de volta para você. Mas tenho esperança de que com isso eu possa expandir suas possibilidades de ser feliz no hoje.

– Eu agradeço. – Jungwoo disse, ainda olhando para o papel com uma expressão ligeiramente confusa – Mas não vejo ninguém com esses olhos atualmente.

O príncipe deu uma risada e deu algumas batidinhas amigas no ombro do mais alto.

– Talvez devesse olhar com mais atenção então… – Disse o príncipe – Porque ele não tira os olhos de você.

Ao olhar na direção em que Haechan olhava, Jungwoo avistou Lucas parado, observando-o atentamente, como um cão leal prestes a atacar o príncipe no menor gesto de ameaça ao ruivo.

 

 

✥------- † -------✥

 

 

Quando a primavera chegou, Jungwoo estava bem. Conseguia comer e acordar descansado. As aulas com Lucas agora eram apenas desculpas para que os dois passassem algum tempo juntos, conversavam sobre bobagens, riam, às vezes liam algo juntos ou jogavam uma partida de baralho enquanto tomavam café. O restante do dia era ocupado pelo trabalho e era bom que fosse assim, pois o ruivo finalmente se sentia útil cuidando de negócios, mas, sobretudo, cuidando de pessoas.

Ele era necessário naquele lugar e, do dia para a noite, percebeu que aquela era a sua família e ali era a sua casa. Havia se acostumado o suficiente com a sua nova realidade, embora de vez em quando a saudade apertasse e um gosto amargo subisse para a boca. Pelo menos agora tinha amigos que o visitavam de vez em quando; Jeno, Sicheng e até mesmo Mark e Haechan passaram um final de semana em Remanso durante uma das longas viagens a negócios que faziam juntos. Negócios, aliás, que pareciam ir de vento em popa desde que Haechan se juntara ao ofício, para a felicidade de Taeil que agora podia curtir a tranquilidade de suas terras e ficar admirando os cofres cheios de ouro.

O rei ainda não havia decidido qual dos filhos assumiria o trono, mas a cada dia, a tendência era de que a população fosse se convencendo de que qualquer um dos dois seria uma boa opção. As pessoas têm memória curta e, se tudo está bem, a tendência era esquecer o passado.

Jungwoo não compartilhava desse tipo de memória curta. Ele procurava olhar com otimismo para o futuro, mas cultivava carinhosamente o passado. Não como algo pesado que o deixasse cheio de amargura e tristeza, mas com gentileza e gratidão às suas memórias. Desde que chegara em Remanso levava flores para Doyoung, subia a colina alta atrás da casa e jogava as pétalas no mar. No primeiro dia de cada mês, buscava as flores vermelhas na beira do lago e fazia aquele pequeno ritual. Havia escolhido o dia primeiro porque Doyoung havia nascido em um dia primeiro de fevereiro e procurava pensar nele sempre como alguém vivo, porém distante. Era sua forma de lidar com a ausência.

Estava com os braços carregados de flores quando se deparou com Lucas sentado no tronco de uma árvore, as pernas esticadas preguiçosamente sobre a grama e os braços atrás da cabeça.

– É curioso você levar justamente essa flor para ele. – O garoto comentou, os olhos pousando nas flores vermelhas que o ruivo levava.

– Lírio aranha? Por quê?

– O quê? Você não conhece a lenda?

Jungwoo olhou do amigo para as flores e então para a colina. Um pequeno atraso não faria mal. Dessa forma, aproximou-se de Lucas, sentando-se ao lado dele como em um pedido mudo para que contasse a história a que se referia.

– Era uma vez… – O chinês começou, fazendo Jungwoo sorrir – Dois duendes. Manju cuidava das flores, e Saka, das folhas. Os dois cuidavam de coisas igualmente importantes, mas diferentes, então não poderiam se encontrar ou trariam desequilíbrio à Natureza. O problema é que a admiração entre eles era realmente muito grande, então, certo dia, eles desafiaram as ordens da Natureza para se ver e então… É, apaixonaram-se imediatamente. – Ele fez uma pequena pausa, pegando um gravetinho do chão para brincar com a terra – Como punição por terem negligenciado as ordens e as tarefas recebidas, ambos foram condenados a passar o resto da eternidade sem se ver.

– Uma eternidade por alguns instantes juntos? Parece muito cruel… – Jungwoo comentou, recostando-se na árvore também

– Talvez aqueles instantes tenham valido a pena?

Os dois se entreolharam por alguns instantes, compartilhando um silêncio confortável, interrompido apenas pelo vento suave soprando pela copa da árvore.

– É, talvez seja melhor que nada. – Jungwoo deu um pequeno suspiro, observando os próprios pés contra a grama verdinha. – De onde venho essa planta também tem uma história.
Lucas observou o mais velho, fazendo uma expressão curiosa enquanto esticava as pernas compridas no gramado.

– Dizem que ela floresce na outra margem do rio, o rio que separa o nosso plano do plano espiritual.

– Como se pertencesse aos dois mundos?

Jungwoo confirmou com um aceno de cabeça. As flores tingiam a margem do lago com um vermelho intenso, dando um ar surreal à paisagem bucólica.

– Sim. Um símbolo de transição. – O ruivo falou, dando um pequeno sorriso ao fazer menção de se levantar para seguir seu rumo.

Foi então que Lucas o deteve, segurando-o sem força pelo pulso. Jungwoo o fitou com uma expressão ligeiramente confusa e esperou que o chinês dissesse o que queria.

– Eu admiro muito a forma como você zela pela memória dele até hoje. Não pense que não. É que eu...

– Lucas… – O ruivo tentou interromper, mas o mais novo emendou, ligeiramente mais alto:

– Eu preciso perguntar isso. Por favor.

O moreno se levantou, segurando a mão livre do outro garoto enquanto o fitava demoradamente, como se buscando coragem ali para fazer a pergunta que o rondava desde o primeiro dia que havia colocado os olhos em Jungwoo.

– Você acha que algum dia, não importa quando… – Ele fez mais uma pequena pausa e umedeceu os lábios com a pontinha da língua – Você acha que poderia me amar?

Jungwoo sorriu de leve, soltando a mão da de Lucas para segurar o rosto dele delicadamente:

– Você encheu meu coração com a sua felicidade e leveza e eu vou ser grato a você pelo resto da minha vida por isso.

Lucas inclinou ligeiramente a cabeça em direção a mão do mais velho e continuou o escutando, sentindo o coração apertar um pouquinho:

– Mas eu estou bem assim. – Jungwoo falou, sentindo o vento suave passar pelos dois – Eu amo você, Xuxi. Mas não do jeito que você espera e merece ser amado.

O chinês olhou para baixo e sentiu vontade de chorar, mas não o fez. Jungwoo percebeu isso e anotou mentalmente mais uma coisa pela qual seria grato ao chinês, soltando-o devagar. Estava farto de lágrimas e não queria carregar a culpa de ter derramado lágrimas de Lucas também.

– Tudo bem, eu só precisava saber que fiz tudo o que podia – Disse o moreno, forçando um pequeno sorriso.

– E o que pretende fazer agora, senhor Wong?

– Colher laranjas para o almoço?

Jungwoo revirou os olhos e fitou o garoto novamente, arrancando uma risada dele.

– Não sei. Seguir a vida? Se me permitir pensei em construir uma casa pra mim mais ao sul, perto da floresta.

– Quer dizer então que vai ficar aqui?

Lucas confirmou com um aceno.

– É claro! Não troco a comida das meninas por nada no mundo.

Comida parecia um argumento sólido o bastante. Jungwoo fez uma pequena reverência e então deu um soquinho sem força no ombro do amigo, seguindo a estradinha que contornava a colina.

Sentia-se em um mirante sempre que ia ali. Podia avistar o casarão com suas nuvens gordas de fumaça saindo da chaminé, o lago de vidro e então a imensidão do mar revolto, com suas ondas arrebentando contra a encosta de pedra, lambendo a rocha com espuma branca.

Jungwoo respirou fundo, uma, duas, três vezes. Sentindo o oxigênio encher seu peito e o sol da manhã esquentar seu rosto. Sentia-se aliviado após a conversa com Lucas, como se tivesse resolvido o último grande problema que o inquietava. Bom, ou talvez um dos, porque ainda lhe restava mais um:

– Pode me perdoar? Por ter te deixado partir quando estávamos brigados?

Beijou as pétalas delicadamente e jogou o pequeno buquê no mar, vendo-o se desfazer parcialmente em meio às ondas.

Alguns salpicos salgados caíram no rosto do garoto e Jungwoo riu de leve, fechando os olhos por alguns instantes.

Ab imo pectore.

Um só coração. De nada adiantaria ter o perdão de Doyoung se ele mesmo não se perdoasse. Então, Jungwoo abriu seu coração e revisitou cada momento da sua vida. Perdoando, esvaziando a gaiola que havia em seu peito, deixando ir cada pequena mágoa, cada medo, cada decepção. Perdoou os rostos que apareciam em sua mente, seu padrasto, sua mãe, sua irmã, seus parentes distantes, o melhor amigo ocupado, o príncipe, Doyoung... Especialmente a ele. Só agora entendia que o moreno havia feito tudo o que podia pelos dois.

Quando pensou que não conseguia mais perdoar a quem havia lhe feito mal direta ou indiretamente, perdoou a si mesmo pela imaturidade e o imediatismo com os quais encarava a vida. Seu coração batia, leve e quentinho. Finalmente livre.

Encheu os pulmões novamente e ergueu a cabeça.

Estava vivo e era grato por isso.

– WOO, YERIM FEZ BOLO!!!

A voz de Lucas soou ao longe trazida pelo mesmo vento que trouxera as gotinhas de água salgada. Ao olhar para o mar, não havia mais traços de vermelho. O presente tinha sido entregue.

– Eu amo você. – Jungwoo sussurrou para o mar antes de se levantar com um pulo e espanar a terra da calça. – JÁ VOU!

E dito isso, o ruivo deu as costas para a baía, descendo correndo, tropeçando nos próprios pés, fazendo um coro de risadas se misturar ao latido alegre dos cachorros da fazenda.

O sol cintilou sobre o mar azul. Estava tudo bem. 


Notas Finais


EU PROMETI QUE ERA O ÚLTIMO CAP, PORÉM SOU VIADA!!!
Vejo vocês no epílogo, ta bom? É curtinho. Prometo.
Obrigado a todo mundo que me aguardou e me pediu atualização e que se apaixonou e sofreu comigo por causa desse couple. Essa fic cresceu muito e foi a mais difícil que eu já escrevi então é muito bom conseguir finalizá-la, mesmo com todos os atrasos. Perdão por isso, amores.
Beso <3


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