1. Spirit Fanfics >
  2. Mão do Destino >
  3. Nas Sombras

História Mão do Destino - Capítulo 4


Escrita por:


Capítulo 4 - Nas Sombras


Não importa o quão indisposto Ivan se sentia, ficar deitado direto durante vários dias ainda era um martírio. Ele que sempre fora acostumado a estar aí para cima e para baixo, tinha que tido que ficar resignado somente a cama. Pior ainda era que o ferimento demorava a sarar muito mais do que o normal.

A ferida havia infecionado e mesmo uma semana depois de ser ferido, a ferida ainda nem curara como deveria. Sentado na cama do quarto luxuoso, tudo o que podia fazer era olhar a paisagem pela grande janela, ou se dar sono de tanto tédio com os livros que o pai lhe trouxera para ler.

Se Saya tivesse aparecido alguma vez, ele ao menos teria alguém para puxar conversa. Mas nem Fran lhe dera o ar da graça. Provável trabalho de Arlo, seu pai. Em sua mente, o homem era sério e severo, mas no fundo, ele sabia o quanto o pai se preocupava com ele, muito além do que se deixava demonstrar.

Após outra destas tardes entediantes, e cansado de ficar ali somente pensando na dor, e em como o ferimento não estava se curando devidamente, resolveu bancar o rebelde. Era um lado que já se encontrava dentro dele, então era fácil para si agir assim de novo. Lentamente, empurra as cobertas para longe de si. Firme os pés no chão quando se levanta. Leva um tempo para que ele consiga se acostumar com a sensação de dor e queimação toda vez que se move, e as fibras das faixas que o embalam repuxam.

Andando de um lado para o outro durante cerca de dez minutos, consegue se acostumar com a dor, a modo que percebe que conseguirá andar sem maiores problemas. Olhando envolta do quarto luxuoso, busca por alguma roupa que pudesse usar. As suas próprias haviam sido levadas e não mais retornadas, uma forma de seu pai o forçar a descansar como era devido. Não que fosse problema para ele para andar por aí com roupas de baixo, só não poderia tomar uma atitude destas estando dentro dos muros do rei.

Não havia muito no quarto, somente alguns móveis e nada que fosse significativo. Talvez, tenha sido inútil, mas resolveu se mover em busca de algo para se vestir. Procurando e procurando, acabou encontrando no acaso algumas roupas velhas e maiores do que ele dentro de uma gaveta antiga. As peças consistiam em uma calça formal, uma camisa de mangas longas com retalhos claros de que haviam sido feitos por traças e um longo casaco coberto de pó. Levou as peças consigo para a cama.

Procurou até encontrar uma faca pequena que serviria para ele ajeitar a roupa. Habilidosamente, cortou as mangas, retirando as partes rasgadas. Cortou as partes debaixo da calça, e dobrou a modo que pudesse caber em si mesmo. O casaco era de couro falso e ele não conseguiu cortar por não conseguir usar a devida força para ajustar a peça. Vestiu as roupas, tendo que ainda que apertar um pouco aqui e ali, dobrando as mangas até que dessem a ilusão de que servissem.

Quando terminou, olhou para si mesmo, estando satisfeito por ter conseguido fazer as peças caberem. Guardou a faca que achara no bolso da calça, e saiu do quarto se esgueirando lentamente entre os corredores, não tinha a menor intenção de ser encontrado pelos guardas reais.

Não era comum para ele estar dentro do palácio, sendo que não pertencia a realeza.

Provavelmente, seu pai havia conseguido este favor, o que deve ter custado algum tipo de preço alto. Não era tão incomum assim, afinal, ele era conselheiro do rei. Não seria estranho fazer um pedido destes a sua majestade, ainda que ele achasse desnecessário.

Ele desceu um pequeno conjunto de escadas, tentando encontrar a saída do palácio. Não conhecia e àquela área, e andar assim poderia dar problemas, mas ele queria se arriscar, não importando o que. Ivan caminha e caminha, sem conseguir encontrar uma única saída. Aonde ele estava era um longo corredor que continha muitos quartos que não conseguia saber qual era qual.

Sem caminho para seguir, ele apenas esperou. Quando já estava num corredor, viu alguns empregados conversando alto, carregando grandes cestos com roupas para serem lavadas. Eles andavam em direção a uma grande escada, no qual ele podia ver a luz da tarde. Esperou os empregados descerem as escadas, e os seguiu, descendo lentamente para não ser percebido por estes.

Já no andar de baixo, se escondeu atrás de uma porta para não ser visto. Somente depois que as vozes se afastaram o bastante para que tivesse certeza de que não seria visto, saiu detrás da porta. Aquele espaço também não era conhecido por si. Pior ainda era que aquele lugar dava de frente para uma grande floresta que ainda pertencia as terras do rei. Os empregados seguiram para o lado direito, aonde havia um córrego. Eles iriam mesmo lavar as roupas. Também havia alguns guardas passando ocasionalmente.

Ivan se esconde, conseguindo correr por entre as árvores para se afastar. Se sentia um verdadeiro fugitivo. Certamente que o senhor Arlo não ficaria nada feliz depois de saber que ele havia escapado mesmo que precisasse descansar. A tarde estava amarelada, com leves ares de um dia bastante quente, mas agora já estava um pouco frio. Foi sorte ele ter achado aquele casaco, afinal.

Caminhou por entre as árvores até chegar a uma pequena estrada de terra. Ivan apoiou a mão direita no local da ferida que começou a doer muito. Se encostou a uma árvore grande, fechando os olhos por alguns segundos. Apoiou a mão direita na perna, inclinando de leve o corpo para descansar.

Abriu os olhos quando ouviu o som de cascos de cavalos vindo ao longe. Ivan imediatamente se esconde atrás da árvore para não ser visto. Esticando o pescoço para ver melhor, reconheceu logo o cavalo negro que trotava calmamente pela estrada. O general estava sentado em seu imponente cavalo, sempre com roupas escuras, porém estilosas assim como ele vira na festa naquele dia.

O cavalo trota até alguns poucos metros à frente, sendo parado após um comando do seu mestre. O dono do cavalo virou a cabeça na direção da árvore em que Ivan se escondera. Atrás da árvore, ele tenta se fingir se não ser percebido.

— Se não quiser ser morto, se identifique agora!

Ivan engoliu em seco. O tom do homem era ameaçador, e deixava claro que não podia ser desobedecido. Respirando fundo, se retira detrás da árvore, ficando visível para o grande homem no cavalo. O rosto endurecido do homem é desenhado por um curto sorriso de lado quando o viu.

— Já está de pé?!

— Não sou tão fraco. — murmurou ele, orgulhoso de si mesmo.

— Oh, é mesmo?

O general desce do cavalo lentamente. O leque está em sua mão direita e, é aberto. Ivan não tinha percebido antes quão alto ele era. Mas ele era sim, muito alto, e carregava consigo um grande ar de imponência que chegava a ser fascinante. Ele o olhou de cima abaixo, o analisando com algum desdém. Ele também devolveu o olhar com a mesma arrogância.

A mão esquerda dele o tocou no peito, dando um peteleco. Ivan se curvou levemente, tendo que se conter para não expressar tanto a dor que ele sentiu com o toque. Os lábios do general se crisparam.

— Nem tanto assim.

Ivan cobriu a área ferida com a mão. A cabeça do general se inclina novamente para o lado, os lábios se juntam num leve bico.

— Aonde encontrou estas roupas?

— O que lhe importa?

— Deveria ter pedido antes de pegar roupas minhas e as cortar como se fossem suas.

Teve vontade de rir. Eram roupas muito velhas e manchadas. Não parecia ser o tipo de roupa que um homem belo e arrogante como ele usaria.

— Estava jogado lá. E está tão velho que nem sei porque se importa.

— Porque sim. — respondeu ele, dando um passo a mais a sua frente. — Não é certo pegar o que pertence aos outros, sabia disto?!

Ivan dá outro passo afrente, decidido a o desafiar também, assim como ele mesmo se sentia desafiado.

— Se queria então que levasse, eu não te pedi nada.

— É assim que se deve falar com quem salvou sua vida? — Ivan ficou sem resposta. O leque se moveu ainda mais lentamente no rosto do general. — Nem mesmo para me agradecer. Seu pai de fato não lhe ensinou os modos devidos.

A mandíbula de Ivan travou na hora. Era teimoso e um homem de honra. Não gostava de ser repreendido, porém, também não era cego. Sabia perfeitamente que fora este general que lhe salvara a vida e mais ainda, evitar que o conselheiro Arlo tivesse problemas, talvez até mesmo Fran que poderia acabar se colocando em problemas que não deveria ter. Sabendo que estava errado em ser tão imprudente e grosso sem nem mesmo ter o agradecido ainda, engole o próprio orgulho por um momento.

Após um longo suspiro, se afasta alguns passos. Inclina de leve a cabeça em respeito.

— Tem razão. — Ivan se curva até metade do seu corpo. — Obrigado por ter salvado minha vida, senhor.

O general o observa cuidadosamente, sem demonstrar grandes emoções. Não era tão estranho para ele ter pessoas se curvando diante dele, mas era estranho o que ele sentiu com este jovem fazendo este movimento. O leque é fechado na hora com alguma agressividade de sua parte.

— Vai me dizer o seu nome?

— Deveria me dizer o seu primeiro, não!?

— Seu benfeitor pediu seu nome primeiro.

— Ivan. — Se endireita de novo, o olhando profundamente nos olhos.

O general encosta o leque no queixo.

— Sou Oskar.

Ivan se curva novamente, abaixando levemente a cabeça por poucos segundos.

— Obrigado por ter salvo minha vida, senhor. — repetiu com ainda mais respeito, como era costume para quando um militar de alta patente salva a vida de outra pessoa.

O general moveu a mão direita com o leque, o ordenando a se levantar. Ivan o faz, retomando a compostura arrogante de antes. Ele sabia ser respeitoso, mas só quando necessário.

— Não aja tão imprudentemente de novo. Será bom para todos. — fala ele, erguendo um pouco mais a cabeça. — Uma forma melhor de fazer isto seria descansar ao invés de ficar se aventurando por aí.

— O que faço não é de sua conta.

O general se move, seguindo para perto do cavalo.

— Certamente que não. — Ele pega as rédeas de cavalo, fazendo um leve carinho no pescoço do animal. — Mas, se o veneno voltar a circular no seu corpo vai morrer de todo modo. De uma forma dolorosa.

Ivan não responde, o olhando de longe.

— Suba, vou te levar de volta.

— Não preciso de sua ajuda.

— Sabe como voltar?

Teimosamente, e com raiva de si mesmo por ter que ceder ao fato de que estava de fato estar perdido e que provavelmente poderia acabar caindo em um mal-entendido se tentasse sair dali sozinho, aceita. Anda contragosto até perto do cavalo. Ele vai subir quando sua cintura é segurada firme, porém cuidadosamente pelo general que o pós na cela do cavalo. O próprio general sobe no cavalo em uma velocidade incrível.

— Se segure na cela do cavalo.

O general faz um movimento leve com as rédeas do cavalo que se move conforme as ordens do seu dono. Ivan queria ser teimoso e não se segurar na cela do cavalo. Porém, o animal passou a trotar muito mais rápido após a ordem de seu mestre. O movimento do lombo do cavalo quase o fez cair. O general o segurou firme pela cintura com a mesma mão com que segurava o leque.

— Essa teimosia imprudente vai acabar sendo sua ruína um dia. — avisou este, agora sem o mesmo tom de deboche de antes, mas sim um tom severo e duro, de quem dá um conselho óbvio.

Ivan o ignorou.

Encarou a mão que lhe prendia a cintura e o impedia de cair do cavalo, era grossa e com longos dedos que podiam segurar muito firmemente o leque e ainda o manter no lugar sem machucar. Eram mãos com unhas curtas, e cicatrizes pequenas por toda a sua base, era de fato, um homem de guerras. Um homem cuja a imponência era tão ilustre quanto a presença marcante.

                        (....)

O pincel passeava cuidadosamente pela tela em branco, fazendo o seu trabalho entre espaçadas curtas e solenes. A mão que o segurava era firme, e olhos muito bem concentrados no desenho que se formava; uma floresta com grandes árvores negras, em um céu azul-escuro sem lua e sem estrelas, tão obscuro quanto ele se sentia por dentro. As árvores detinham de contornos finos, com a cor preta sendo a predominante, dando um ar sombrio a bela floresta que ele se dedicava há algumas horas em pintar.

Não eram tão comuns os momentos em que vestido em seu robe preto, ele se punha a frente a uma tela branca e se dedicava a pintar aleatoriamente. De fato, ele nunca pensava no que estava pintando, apenas pintava, deixando que suas emoções fizessem todo o trabalho enquanto sua mente voava longe.

Era final de tarde agora.

As luzes de velas já se faziam necessárias quando seu quarto detinha de pouca luz solar. Não era totalmente escuro, porém ficava a oeste do castelo, aonde a luz quase não batia. Não era de propósito que lhe fora dado tal quarto. Visto que tivera que desistir do seu para aquele rapaz, resolvera escolher um mais simples, e que pudesse ter mais privacidade para pôr seus pensamentos em ordem.

Não estava se sentindo como ele mesmo ultimamente, e isto o vinha incomodando muito. Não conseguia mais saber qual decisão era mais correta de se tomar, e nem mesmo se poderia lidar com as consequências. Oskar não era um homem fraco. Não era um homem que duvidava de suas decisões ou ações. Ele era um general, acostumado a dar ordens. Mas, acima disto tudo, ainda era um homem que tinha seus momentos obscuros e este era um destes.

A razão era uma boa pergunta de se fazer. Ele simplesmente não sabia neste momento.

Este sentimento o acompanhara desde que trouxera aquele jovem egocêntrico de volta. O deixara sem se despedir e sem olhar para trás. Não era nada relevante, no entanto, desde que voltara estava com seu coração sendo emundando pelas dúvidas que já detinha quando recebera a oferta do rei, com pesos diferentes dos de antes.

O pincel parou no exato momento em que ele desenhava um rio junto as árvores enegrecidas. Uma solene, porém, leve batida na porta encheu seus ouvidos. Oskar observou a pintura que ele mesmo fazia com olhos vazios.

— Entre. — ordenou em um tom mais carente de emoções do que o quadro sombriamente triste que pintava.

A porta fora imediatamente aberta e Elias adentrou, se curvou brevemente diante de seu superior. Havia uma carta em suas mãos como Oskar observou pela visão periférica. Um profundo suspiro foi solto como o lamento de um lobo ferido.

— A resposta?

Elias estica a mão com a carta.

— Sim, senhor.

Há dias que ele estava esperando pela resposta de seus homens. Já sabia qual seria obviamente, mas a ter diante dele era diferente do que imaginar. A responsabilidade lhe pesava. O general recolhe a carta grossa selada com cera de vela vermelha da mão do seu subordinado. O pincel é posto delicadamente na mesa aonde estão as tintas ao seu lado.

A carta é aberta e ele a lê lentamente.

Elias observa o seu superior a lendo. O coração do jovem estremece quando vê o general pintando. Estava ao lado de Oskar de sua mocidade mais tenra. Seu talento lhe rendeu mais do que a posição de tenente e guarda pessoal do general, mas também a de um conselheiro próximo, embora esta função ele não se atrevesse a se empregar. Não havia muitos momentos em que ele vira o general pintar, mas sempre que via, sabia que o coração do mesmo estava sombreado pelas dúvidas e isto fazia o seu próprio coração estremecer.

O general termina de ler a carta, e a fecha.

Silencioso, ele se levanta e vai até a janela mais próxima de onde ele pode ter a visão das pequenas cidades ao pé do palácio. As mãos são acopladas atrás das costas. A resposta era de fato a que ele esperava. Na carta, o próprio general podia sentir a relutância de seus homens, mas era o bem maior desejado. A esposa de um de seus comandantes morrera em trabalho de parto, e as provisões estavam se tornando escassas, estavam todos cansados.

Abaixo desta explicação estava o resultado da votação, e ainda assim, expressavam claramente o desejo de cumprir quaisquer que fosse a vontade de seu general. Ou seja, embora fosse desejo deles de ter um lugar para descansarem e instalarem suas famílias, todos concordaram em aceitar qualquer que fosse a decisão final dele. Parecia fácil. Ele não queria ficar, e seus homens o ouviriam de todo jeito, poderia só ir embora então. Mas não era assim tão fácil. Muito longe disto, de fato.

Oskar sabia que sua decisão seria respeitada, não importava qual fosse. E isto deveria tornar tudo mais fácil, só que tornava tudo impossível. Não era somente por ele, mas por todos aqueles homens, mulheres e crianças de quem ele era responsável. Há muito que estes homens o seguiam, e lhe eram leais. A lealdade deles era tanta que havia rumores aos quatros cantos do mundo de como ele conquistou tal feito. A maioria dos rumores dizia-se que era pela força, que Oskar havia matado o líder anterior e os conquistado pela força.

Era um belo conto para um livro, mas muito longe da verdade.

A verdade era muito mais simples. Muitos daqueles homens o seguiam desde sempre, sempre lhe foram leais. E escolheram lhe proteger mesmo quando todos os outros lhe viraram as costas. Eram homens fortes, de guerra, mas com corações leais. Homens que o protegeram quando ele perdera tudo e quando Oskar se tornou forte, outros vieram e ele os aceitou, crescendo seu exército e suas responsabilidades. Com o tempo, se tornou seu dever como líder os proteger. Era seu dever como general garantir a segurança e a força deles.

E era aí onde morava seu dilema.

Sim, ele detinha de muitas posses e era um homem abastado. Se fosse somente para si mesmo, poderia viver uma vida plena de muitas riquezas. Porém, com tantas pessoas ao seu redor, ele não tinha condições de manter todos seguros em lugar só. A proposta do rei poderia ser o suficiente para nos próximos anos, ele ter meios o suficiente para construir uma cidade do zero para que seu exército e suas famílias pudessem se estabelecer. No entanto, Oskar não era ingênuo e nem sonhador.

Reconhecia a sua fama e respeito, tinha pleno saber de suas habilidades e embora seu exército fosse pequeno comparado ao do rei, ainda era um exército leal e forte, que faria tudo o que seu general mandasse. Este tipo de poder trazia ganância e paranoia. Não era de seu interesse tomar nenhum reino, nenhuma cidade, e poderia o fazer se assim quisesse. Sua força e a força do exército eram grandes o bastante para tal. A obscuridade no seu coração deveria ser o bastante também, mas não era.

Por isso, passaram tantos e tantos anos atravessando desertos e se estabelecendo em lugares inóspitos sem nunca conseguir permanecer em um lugar só por não terem condições de se refazerem e os meios sujos não eram os meios que ele queria usar. E ainda assim, estes homens o seguiam. No entanto, o tempo passou, e muitos detinham de famílias e envelheciam, precisavam de descanso, e este acordo poderia lhe fornecer isto.

Por outro lado, também poderia ser a sentença de morte deles. Oskar não temia pela morte ele mesmo, mas não queria carregar o sangue de seus homens em suas mãos. E se algo acontecesse com eles por sua causa, por causa de sua decisão seria assim que ele perderia tudo de novo. Por outro, se continuasse do mesmo jeito o resultado poderia ser o mesmo. Diante desta situação, o que poderia ser pior, se arriscar a cair nas armadilhas paranoicas de um rei de caráter duvidoso, ou deixar que todos perecessem com o tempo?

Cabia somente a ele tomar a decisão e depois arcar com as consequências desta.

Houve um dia em que todos o abandonaram, todo o exército do seu pai fora massacrado, ou desertara. Estes homens permaneceram ao seu lado sob o dizer de que verdadeiros soldados nunca abandonam seu general. E em seu coração era o mesmo. Um general nunca abandona seus soldados. Por isto ele não podia ser egoísta e pensar somente no que ele queria. O risco era calculado, mas sempre poderia ter coisas que davam errado.

Por um breve momento, Oskar quase teve inveja daquele rapaz. Quando ele tinha a idade dele, já comandava um exército próprio, mas quando era mais moço, na casa dos quinze, ou dezesseis, também podia viver uma vida despreocupada, pensando somente em si mesmo e nas coisas que ele queria.

Em muito tempo, não pensava naqueles tempos, mas esta tarde, ele pensou e desejou poder voltar para quando tudo era mais fácil, e era somente um garoto que precisava se preocupar somente em melhorar sua pontaria, ou ir bem aos estudos com tutores.

Aqueles eram tempos longínquos e que nunca mais voltariam. Ele nunca poderia voltar a ser aquele garoto que se divertia atirando arcos em árvores, ou fugindo de seus tutores furiosos. Não. Agora, ele era um homem na casa dos trinta e poucos anos, um general e era sua responsabilidade tomar as decisões e arcar com as consequências, e era isto que ele faria.

— Senhor?

Todo este tempo, Elias permaneceu em silêncio, observando seu general com preocupação. Em seu coração, ele sabia quão grande era o fardo dele e se sentia terrivelmente mal de não poder partilhar.

O general se vira. O olhar decidido. O vazio em seus olhos havia retornado de maneira imponente. Elias reconhecia este olhar. As dúvidas haviam sido afastadas do seu coração, e a decisão havia sido tomada. Era o olhar de alguém que estava pronto para lidar com quaisquer que fossem as consequências do futuro.

— Vou anunciar a sua majestade que aceito a proposta dele. Peça uma audiência com o rei.

— O senhor...? — Elias o questionou, — algo raro. Estava preocupado com seu general, afinal, era sabido até mesmo por ele que esta além de não ser a decisão fácil, não era o desejo dele. Depois de tudo o que perdera no passado, Elias desejava que seu general encontrasse algo bom para si mesmo e fosse feliz, mas quanto mais tempo passava, mais ele se afundava num vazio profundo que o arrastava para as profundezas da infelicidade como uma baleia que encolhe um pescador.

— Só faça o que lhe digo. — ordenou solenemente. Estava decidido, afinal.

Elias se curvou brevemente, e se retirou do quarto.

Oskar voltou-se a sua pintura.

Seu coração estava ainda obscurecido e ele demonstrou isto ao pintar um rio avermelho abaixo das árvores. Não importava mais o que aconteceria. Ele teria que arcar com tudo, fosse as boas ou más consequências. E tudo bem para ele, afinal, era tudo o que ele tinha de si mesmo. Havia muito que o significado da vida havia lhe sido ofuscado e o exército pessoal era tudo o que ele tinha. Talvez, no final das contas, depois de mais de dez anos vagueando em meio ao nada, se acostumara a isto e não queria mais se estabelecer, mas pelo bem maior ele deveria fazer isto, ao menos por agora.

Se tudo desse certo, poderiam ficar pelos próximos três ou cinco anos, juntar ouro e todos os tipos de recursos. Poderiam partir quando este tempo acabasse e Oskar poderia finalmente dar um lar de verdade aos seu exército e suas famílias. Construiriam uma cidade para que vivessem em paz, e a protegessem. E se tudo desse errado, teria que arcar com as consequências por ele mesmo.

Era sua decisão e era seu peso.

O rei detinha de grandes ares de crueldade. A maior prova disto era de que mandara executar o criminoso que arruinara sua festa. No entanto, o rei também detinha de cinquenta vezes mais riquezas do que ele, cinquenta vezes mais homens em seu exército do que ele, e ainda detinha o orgulhoso filho que lhe trazia a cada ano mais conquistas militares e despojos de guerra para enriquecer o rei.

Era um terreno muito perigoso, qualquer passo em falso poderia trazer a paranoia e a ruina, mas também era um reino muito bem estabelecido e rico, poderoso, havia uma chance de tudo der certo se Oskar e seus homens se mantivessem a sombra, longe de todos.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...