História Marked - Capítulo 2


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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Crossover, Drama (Tragédia), Ecchi, Famí­lia, Fantasia, Ficção, Ficção Adolescente, Hentai, LGBT, Magia, Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Saga, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Canibalismo, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 2 - Lithium


Fanfic / Fanfiction Marked - Capítulo 2 - Lithium

 

[Bellevue - Cidade de Washington, Estados Unidos; Ano de 2010]

 

Sai do consultório de mais um psiquiatra. Nem mais fazia questão de saber o nome dos médicos, eram tantos que já estava cansada. A doutora segurava em minha mão, logo fui entregue para meu pai. Segurei com força em sua mão, voltando olhar para a doutora.

- E então? – meu pai, Alan Yates, perguntou ansioso.

- Ela... – a doutora, loira de profundos olhos verdes, voltou a direção do olhar para mim – Podemos falar a sós? – perguntou ao meu pai.

- Querida... – meu pai agachou em minha direção, entrelaçou um de seus dedos entre os fios ondulados e castanhos de meu cabelo e então voltou a atenção para mim, com um sorriso cauteloso – Você pode esperar sentadinha aqui, só um pouquinho? – perguntou.

Assenti com a cabeça. Fui até uma das cadeiras da sala de espera e lá me sentei. Meu pai entrou na sala da mulher e a mesma fechou a porta para que eu não ouvisse nada.

Fazia um ano desde que a morte de minha mãe foi dada como um acidente. O caso havia sido encerrado sem mais nem menos, nenhum dos meus testemunhos foram levados a serio, pelo contrário, fui advertida por médicos e terapeutas como louca.

Não exatamente louca. Eles não podiam usar essa palavra descaradamente, mas eu sabia que queriam dizer isso. Todos eles tinham diagnósticos semelhantes: “transtorno de ansiedade generalizada, transtorno depressivo maior e síndrome pós-traumática. É receitado que a paciente, Alice Yates, inicie tratamento psiquiátrico com probabilidade de uma iniciação com antipsicóticos.”. Nenhum deles conseguia dizer com convicção se eu era ou não esquizofrênica.

Mesmo não tendo interesse em ouvir, eu consegui ouvi-la dizer algo. Ela não sabia falar baixo. “Ela criou esses personagens... Slender, Jeff e Toby para existir uma versão dela da morte, o subconsciente dela precisa que essa história seja concluída”, foi o que a mulher disse “Você sabe que esses nomes são conhecidos, não sabe senhor Yates?” ela perguntava “Eles são conhecidos como lendas urbanas, “Creepypastas”, ela deve ter lido em algum lugar e para justificar a morte acidental da mãe, ela assimilou as histórias ao ocorrido”, concluiu.

Sorri fraco. Ela era só mais uma que achava que eu era louca. Até mesmo eu acho que sou louca. Eu só tenho dez anos, são indefinidas as várias coisas que a mente de uma criança de dez anos é capaz de criar.

Não demorou muito para que meu pai saísse do consultório. Pegou em minha mão e começou a me guiar para casa.

Caminhávamos em meio a uma rua larga. Havia algumas árvores, carros trafegando e alguns estabelecimentos aconchegantes.

Andava de mãos dadas com meu pai. Ele era bem mais alto que eu, deveria ter por volta de um metro e noventa. Olhos castanhos acinzentados, gastos pelo tempo, onde eram auxiliados por lentes grossas de um óculos fundo de garrafa que usava. Cabelo bagunçado, castanho misturado com grisalho.

- Pai. – chamei baixo. Chutava pedrinhas de asfalto enquanto caminhava pela calçada.

- Sim? – indagou, ainda olhando para frente.

- Você acredita em mim? – perguntei – Acredita nas coisas que eu falo?

O mesmo ficou quieto por um momento.

- Não sei, filha. – disse relutante, com a língua travada entre os dentes dianteiros.

Abaixei a cabeça, mas logo a ergui novamente para continuar o caminho para a “nossa” nova casa.

- Você acha que eu sou esquizofrênica? – perguntei novamente, arriscando a dor da resposta.

- Não sei, filha. – respondeu novamente, dessa vez seco, pois não era um assunto que só me magoava, isso também era um ponto fraco de Alan Yates, a filha dele.

Chegamos em “nossa” casa. Essa casa não é nossa. Depois que minha mãe morreu, meu pai não conseguiu mais pagar nossas contas. Minha mãe era a renda extra da família. Nunca tivemos muito dinheiro, estava até acostumada com isso, mas eu descobri depois de muito tempo de onde, as vezes, meu pai chegava com mais dinheiro.

- Querido! – ouvi a voz aguda da nova mulher do meu pai se aproximando até a porta, onde havíamos chego.

Ela me empurrou discretamente para o lado, ainda me fazendo cambalear pela força e abraçou rapidamente meu pai. Ela não gostava de crianças. Nem de pessoas. Ela era obcecada pelo meu pai. Isso me irritada.

- Como foi lá? – perguntou, dando um selinho nele.

- Ahn... – ele passou a mão na nuca, fechando a porta por trás – O mesmo de sempre... – falou com um sorriso desistente.

Fiquei ali do lado deles. Era constrangedor, mas eu acho que a situação era tão nojenta de melosa que me paralisou.

- Pirralha. – ouvi a voz de Thalia Hall, minha madrasta, me chamar – Quer convite para sair daqui? – perguntou ela.

- Pai. – a ignorei completamente – Posso ir para o quarto? – perguntei.

- Claro, docinho. – ele tentou se aproximar de mim, mas Thalia logo o puxou de volta para o abraço grudento – Qualquer coisa pode chamar.

Eu não vou chamar. Ela não deixaria você ir me ver de qualquer maneira.

- Tudo bem. – falei baixo, caminhando até as escadas.

Ainda pude ouvir de longe Thalia reclamando de mim.

- Essa garota só traz problemas, Alan! – ela reclamava de mim para o meu pai, como sempre.

- Dá uma chance para ela... – ele pediu, tentando não se irritar – Ela também é minha filha.

- Mas não é minha! – insistiu a mulher – Ela é tão arisca! Deveríamos tranca-la em uma jaula. – sugeriu.

- Deixe Alice em paz, querida... – Alan continuava insistindo.

Revirei os olhos e serrei os punhos com força. Subia as escadas pisando com força no chão e nem sequer percebia que estava tão irritava.

Aquela mulher me dava nos nervos. Ela me irritava apenas de respirar do meu lado. Tinha nojo de inalar o mesmo ar que ela.

Ela era uma mulher esbelta. Olhos castanhos claros, um mel ardente. Cabelo loiro da mesma cor que o ouro. Era mais nova que meu pai, mas era desgastada pelo tempo. Ombros bem largos e era alta. Estava sempre usando vestidos de tubinho, mostrando o corpo conservado que tinha.

Eu não podia fazer nada. Thalia era quem sustentava essa casa, meu pai ajudava minimamente nas contas, mas seu emprego nunca o pagou muito, por isso traiu minha mãe. Depois de muito tempo descobri que meu pai nunca gostara de Thalia, ele precisava do dinheiro dela. Muitas vezes levava um pouco de dinheiro para minha mãe para que ela pudesse comprar algo novo para ela mesma. Meu pai era apaixonado por Ava, e Ava agora estava morta.

- Parece que alguém está irritada. – ouvi a voz de adolescente na puberdade. Minha mão tremeu mais ainda de ódio.

- Não enche, Hector. – mandei.

Hector Yates. Ele era a prova viva de que minha mãe foi chifrada por muito tempo. Hector era meu meio irmão mais velho, eu tinha dez anos e ele já tinha doze. Ele me irritava sempre que podia, mas no fundo, eu até que o suportava.

- Você está bem? – perguntou ele, pulando da janela, onde estava sentado, vindo em minha direção – Como foi no psiquiatra? – me seguia.

- Como sempre... – respondi baixo. Se mais alguém me perguntasse sobre, eu acho que desabaria em choro.

Ele já era mais alto que eu. Tinha cabelo castanho claro, meio longo e bagunçado. Tinha os mesmos olhos da mãe. Ele era o que consideram de bonito.

Ele continuava a seguir meus passos até meu quarto, ou seja, o sótão. Thalia se recusou a me dar um quarto no mesmo corredor que ela, mas também ela não reclamou do jeito que arrumei meu quarto. Nem sequer entra nele.

Puxei uma cordinha do teto, logo caiu uma escada que dava até meu quarto. Subi e logo em seguida Hector também, puxando a escada para cima e a fechando.

Aproximei-me de minha cama. Ela ficava ao lado de uma janela grande e inclinada, fazia parte do telhado, eu podia ter uma boa vista de lá. Era noite, então a luz da lua era o que  iluminava todo meu quarto. Havia alguns cactos ao lado da minha cama, no batente da janela. Cada um ficava em um potinho de cor diferente, tinham formatos diferentes. Eles eram uma boa companhia.

Virei a direção do rosto até uma caixa em cima da minha cama. Ela era toda furada. Mas antes que eu pudesse analisar melhor meus olhos foram rapidamente tampados e alguém me segurava por trás.

- É uma surpresa! – Hector disse, tampando meus olhos.

Reviraria os olhos se tivesse essa opção.

- O que você fez? – perguntei séria. Odiava que ele entrasse no meu quarto e mexesse em qualquer coisa, mas era inevitável, ele sempre fazia isso.

Ele me guiou até a cama e me colocou sentada na beirada.

- Fica parada ai. Não abre os olhos, você vai estragar a surpresa. – falou – Estende as suas mãos.

- Se for algo ilegal espero que sua mãe que seja presa. – falei com um sorriso.

- Engraçada você. – resmungou.

Ouvi-o mexer na caixa, logo pegou algo e se aproximou de mim.

- Está pronta? – perguntou ansioso.

- Pronta é uma palavra muito imediata... – tentei procrastinar, ainda de olhos fechados e com as mãos estendidas – O que você está fazendo? – perguntei.

- Você vai ver já, já. – disse – Está de olhos fechados, né? – assenti com a cabeça – Já! – ele jogou uma bolinha de pelos em minha mão.

Dei um grito quando senti que era algo vivo, mas não deixei cair no chão. Abri os olhos rapidamente podendo ver um filhote quase minúsculo de cachorro em minhas mãos.

- Surpresa! – Hector estava bem na minha frente, mexendo as mãos para fazer algum efeito – E ai? E ai? Qual vai ser o nome?

Não foi difícil de perceber. Parecia um rato. Era um Yorkshire Terrier. Era tão pequeno que cabia na palma de uma mão minha.

- É menina. – falei depois de analisar.

Ele assentiu com a cabeça.

- Sua mãe vai te matar. – falei entre os dentes – Ela odeia animais. E qualquer coisa viva também. – voltei o olhar para ele, com um sorrisinho debochado.

- Eu me entendo com ela depois. – respondeu – Achei que um filhote poderia te animar! Qual vai ser o nome?

- Queria que fosse menino para chamar de Loki. – falei baixo – Irmão de Thor.

- Que tal Nikky? – sugeriu ele.

- Que? – perguntei – Não tem nada a ver com o que eu falei. Você sequer estava me ouvindo?

- Eu gosto de Nikky. – ele continuava me ignorando.

- Nikky? – perguntei.

- Nikky. – insistiu.

- Nikky. – conclui – Né, Nikky? – perguntei para o cachorrinho em minhas mãos.

- Você está feliz? – ele perguntou meio sem jeito.

Virei para ele.

- Ahn...? Estou. – falei com um sorriso – Obrigada. – sorri gentilmente.

- É muito difícil te ver sorrir assim. – falou baixo – Eu queria poder ter ajudado antes.

Estranhei. Hector realmente ficava incomodado com meu humor deprimido de vez em quando, mas nunca foi tão extremista, ao ponto de se envolver em uma briga com Thalia por mim. No fundo, todos nessa casa eram paus mandados de Thalia.

- O que aconteceu? – perguntei inquieta – Alguma coisa aconteceu se não eu não estaria segurando esse filhote. – falei.

O mesmo engoliu seco.

- Sabia que ia perceber. – revirou os olhos se sentando no chão.

- Hector... – chamei sua atenção.

- Vamos ter um irmãozinho, Alice. – ele falou entre os dentes, queria ver minha reação e ao mesmo tempo queria evita-la.

- O que? – perguntei indignada.

- Alan e minha mãe... Você sabe. – tentou não ser tão estupido na fala, mesmo assim foi – Thalia está gravida.

Gelei.

- Mas... Mas meu pai não me disse nada! – protestei, ainda não soltando o filhote.

- Alice... – ele insistia – Tente não pirar, pelo menos dessa vez. – pediu – Você sabe que está sendo difícil para o nosso pai.

Nosso pai. Era a única coisa que compartilhamos de sangue. Eu não tinha o sangue de Thalia.

- Tudo bem. – abaixei a cabeça – Pelo nosso pai.

- Vai jantar? – Hector perguntou, descendo as escadas.

- Leo. – falei.

- O que?

- Leo. Eu quero que esse seja o nome do nosso irmão.

- Leonardo? – perguntou Hector.

- Não, apenas Leo. – respondi.

- Vou convencer Thalia. – Hector sorriu fechando a escada.

Suspirei fundo olhando para o filhote em minhas mãos. Eu devia já estar acostumada com a dor que sentia. Eu desenvolvi um distúrbio do sono, eu dificilmente conseguia dormir, por que sempre, a noite, quando olhava pela janela eu achava que alguém estava me olhando desde que minha mãe morreu. E quando percebia que não tinha ninguém do outro lado da janela, sentia como se estivesse sendo observada pelas costas, na parte escura do meu quarto.

- Nikky. Não é um nome tão ruim. – falei, pegando outro cobertor e colocando-a em cima. Era um filhote que acabou de ser desmamado, só dormia.

Levantei da cama e liguei um dos abajures, iluminava o quarto parcialmente com uma luz amarelada, mas era o suficiente. Observei na minha escrivaninha e gavetas. Eu sabia que tinha uma bolinha de tênis por aqui. Nikky poderia gostar.

Estava no alto de uma estante. Podia ver, mas era muito alto para mim. Nem mesmo com a ponta dos pés eu alcançava, então comecei a pular na ponta do pé. Até que bati com força na prateleira e a bolinha saiu rolando pelo chão até um canto escuro do meu quarto.

- Desgraça. – resmunguei, indo até lá. Era ao lado de meu guarda-roupa.

Enquanto caminhava para lá pude sentir o gelado do piso de madeira em contato com meu pé descalço. O ambiente parecia ter ficado mais denso.

A bolinha voltou na direção dos meus pés.

Voltei meu olho para a direção da parte escura, eu não conseguia ver exatamente tudo. Voltei o olhar para Nikky. Ela era um filhote, mas mesmo assim havia acordado e estava de prontidão.

Arqueei as sobrancelhas. O quanto louca o meu subconsciente quer que eu ache que eu sou?

Com o pé mesmo, empurrei a bolinha para o lugar escuro do canto de meu quarto. Ela foi rolando até lá. Não ouvi o barulho dela bater contra a parede, mas logo voltou na direção de meu pé.

Queria gritar e sair correndo, mas não podia. Primeiro porque eu paralisei de medo, segundo porque eu não conseguiria deixar a Nikky sozinha no quarto. Ela não andava direito ainda.

Eu não sabia o que fazer. Comecei a ter uma pequena crise de ansiedade enquanto não conseguia me mexer. Joguei a bolinha com o pé para lá de novo, e ela voltou.

Abaixei sem tirar os olhos do local e peguei a bolinha. Arremessei com força ela pro canto escuro, ouvi o barulho dela bater em algo, um resmungo, e logo em seguida a bolinha foi arremessada em minha direção, acertando certeiramente minha testa.

- Porra! – falei caindo no chão, com um galo na testa.

- Você também me acertou. – ouvi a voz grave de um homem em meu quarto, não era a voz do meu pai – Não sabe brincar? Nunca viu filme de terror? – perguntou.

Sentei-me rapidamente no chão, vendo o homem na minha frente. Era realmente perturbador olhar para ele. Era um palhaço, tinha pernas e braços longos cobertos com listras pretas e brancas. Um suspensório segurava sua bermuda preta. Tinha alguns panos enfaixados em seu abdômen, uma blusa cinza lisa e nos ombros largos tinha plumas negras e um colarinho de palhaço da mesma cor. Tinha cabelo médio e bagunçado, era pálido, tinha um cone listrado de preto e branco no lugar do nariz e um sorriso delineado de batom negro, ou era sua própria boca que era preta?

Novamente paralisei. A marca em minha costela feita por Slender há um ano doeu. Doeu como o inferno.

- Como vai? – o homem alto disse, se sentando de pernas cruzadas em minha frente – Me chamo Jack. Laughing Jack.

Gaguejei palavras, não consegui pronunciar nada.

- Imagino por que você não tem muitos amigos. – revirou os olhos – Você é assim com todo mundo?

Eu precisava sair dali. O mais rápido possível, de preferencia. Comecei a apalpar com a palma da mão o chão, procurando onde estava a escada, me jogaria de lá e gritaria por ajudar.

- Se eu fosse você não faria isso. – ele logo viu meus movimentos e me repreendeu – Vão achar que você está pirando completamente. Você é a única que pode me ver. – sorriu doentiamente.

Gaguejei mais um pouco e logo fiquei em silencio de novo. Se ele fosse alucinação minha, Thalia daria facilmente um jeito de me internar em uma clinica psiquiátrica e me expulsar dessa casa.

- Quem...? C- Como? – tentei perguntar.

O mesmo pegou um doce de dentro de seu bolso. Era uma bala de cranberry, tinha uma embalagem rosa bem chamativa e convidativa.

Peguei a bala. Olhei para ele e a arremessei contra a parte de madeira da minha cama.

- Sai daqui. – mandei.

Ele me olhou com fúria pela primeira vez. Gelei completamente.

- Você é difícil. – suspirou ele, jogando o pescoço para trás em um suspiro e logo voltando a manter a calma – Eu só quero ser o seu amigo. – estendeu a mão em minha direção.

- Você é como eles. – falei baixo.

- Eles. – ele disse com um sorriso – Talvez. Também sou fruto da sua imaginação. – Jack insistia.

- Você sabe quem são eles. – falei, arriscando a possível chance de viver que ele estava me dando.

- Lógico que sei. – ele revirou os olhos, mexendo suas longas pernas impaciente – Eu disse, faço parte da sua mente.

- Como aquela bala era real então? – perguntei rapidamente.

- Existem perguntas para todas as respostas. – ele disse para mim com um sorriso, se levantando – Mas nem todas as perguntas tem respostas. – ofereceu sua mão para que eu me levantasse – Passe em frente de qualquer um, estarei do seu lado. Vamos comprovar que só você consegue me ver.

Assenti com a cabeça e levantei sozinha. Neguei sua oferta novamente. Ele apenas deu de ombros e me seguiu até a escada. Bati o pé com força e então a escada se abriu. Desci rapidamente já acostumada, ele bateu a testa na aresta da abertura do sótão. Não contive uma pequena risada. Ele sorriu desajeitado. Rapidamente fechei o rosto novamente.

- Hector! Hector! – comecei a andar pelo corredor, chamando por ele. Queria que ele visse Jack, queria poder provar que não sou tão insana assim. Queria que ele fosse real para os outros também – Hec...!

Fui empurrada contra a parede.

- Saia do meu caminho, pequeno embuste. – Thalia passou reto.

Ela não tinha visto Jack?

- T- Thalia! – chamei-a rapidamente.

Ela se virou surpresa. Acho que nunca havia me dirigido a ela tão diretamente. Olhei para o lado, Jack continuava parado ao meu lado. Ele era enorme, não era possível não ser notado.

- O que é? – perguntou ela.

- Você... Não percebeu nada? – perguntei incrédula.

A mesma me olhou desconfiada. Ela sabia que eu estava vendo algo que não existia. Ela usaria isso contra mim. Quando percebi isso, era tarde demais. Deveria ter falado com meu pai ou com Hector. Tremi.

- Alguma coisa de errado? – perguntou Thalia com um sorriso abusado. Aqueles lábios gordos borrados de batom vermelho sangue.

- Nada. – respondi.

- Parece que algo te incomodou. – insistia – Viu novamente algum dos assassinos da sua mãe? – deu ênfase nas ultimas palavras.

Jack parecia perceber meu incomodo. Ele percebeu que ela estava me colocando contra a parede com essas perguntas. Ele pensou rápido, era alto o suficiente para ir atrás de Thalia e mexer em uma das lâmpadas do corredor que ficava no teto, desatarraxando um pouco, fazendo com que a luz piscasse. No mesmo momento ele piscou em minha direção.

- Não vi nada. – continuei seria, voltando o olhar para ela – Apenas a luz. Era isso. – dei de costas e fui embora.

Jack voltou a me seguir e então passamos por Hector.

- Sua mãe está pirando de novo. – falei entre os dentes.

- Como sempre. – ele revirou os olhos – Não vai jantar?

- Estou sem fome. – respondi.

E então ele continuou seu caminho. Também não percebeu Jack.

- Eu não disse? – perguntou Jack, ao meu lado.

- Também não podem te ouvir, imagino. – falei baixo, entre os dentes para que não fosse pega no flagra.

- Finalmente está se mostrando uma garota racional. – sorriu.

Voltei rapidamente para o meu quarto, subi as escadas logo depois dele e puxei as escadas.

- Você costuma pular refeições? – ele perguntou, se sentando no canto da minha cama.

- Thalia não gosta que eu coma com ela. Ela diz que tem náuseas. – murmurei me sentando ao lado dele, com certa distancia – Quando você apareceu... – mudei de assunto – A minha marca doeu.

- Marca? – perguntou. Senti um tom de farsa em sua pergunta, como se já soubesse, o que eu não duvido, já que ele faz parte do meu subconsciente.

Levantei a blusa levemente, até a parte de trás de minha costela. Lá estava. A marca que Slender havia feito em mim com a garra no dia que minha mãe morreu. Não importa quanto tempo tinha passado, ela nunca cicatrizava, não inflamava e também não infeccionava. Ela continuava lá em carne viva, sem sangue, apenas minha carne avermelhada, marcada com um círculo com um “X” dentro. Em volta da marca tinha cicatrizes de arranhões.

- Você tentou arrancar a marca com as unhas? – perguntou ele, olhando na direção da ferida.

Assenti com a cabeça.

- Com lâminas, estiletes... Tudo. Não importa. Tudo cicatriza, menos essa marca. – disse baixo, envergonhada – A existência dessa marca que nunca some é a única coisa que não me faz achar que sou realmente louca. Eu estou marcada. Aquele dia foi marcado na minha pele.

Jack olhava de um jeito estranho para a marca. Parecia conhecer outras, mas nunca ver uma pessoalmente.

- O que isso quer dizer? – perguntei.

O mesmo olhou em minha direção e abaixou minha blusa com suas garras longas e afiadas. Quando a unha encostou em minha pele, arrepiei por completo.

- Você não é a única. – ele respondeu e não disse mais nada.

Sentei-me mais atrás, apoiando no batente da janela junto de meus cactos. Nikky estava do meu lado, tinha voltado a dormir. Segurei em minhas pernas e tive coragem de perguntar:

- Jack. – chamei-o.

O mesmo virou em minha direção com as sobrancelhas arcadas. Ele era o fruto da minha imaginação. Meu subconsciente materializado. Eu gostaria de saber o que ele pensa.

- Você acha que eu sou esquizofrênica? – perguntei.

O mesmo riu ainda sentado do meu lado.

- Não. – respondeu curto e com um sorriso.

- Minha mãe não morreu em um acidente, não é? – perguntei novamente, provocando mais respostas que eu sempre gostaria de ouvir – Ela foi assassinada, não foi?

Minha voz saia afobada. Estava ansiosa.

- Ela foi assassinada. – disse Jack, ainda sem olhar para mim.

Meus olhos se encheram de lágrimas. Um pouco de dor e um pouco de alívio. Comecei a derrama-las enquanto um sorriso de conforto com a resposta se formava em meu rosto.

Comecei a chorar. Depois daquele dia foi a primeira vez que chorei. Não por falta de vontade, mas simplesmente as lágrimas não saiam. Dessa vez eu chorava pela dor e pelo alívio. Eu não era louca. Meu subconsciente não achava que eu era louca.

Mesmo que isso pareça loucura, isso me deixava mais calma.

Apoiei meu rosto nas costas de Laughing Jack, comecei a chorar em suas costas. Eu conseguia toca-lo. Apenas eu podia ouvi-lo, vê-lo e toca-lo. Eu deveria estar desesperada por companhia.

Ele se assustou, acho que não esperava com que eu fosse procurar conforto nele, mas eu tinha ele. Entrelacei meus braços em torno das costas dele, afundando ainda mais meu rosto nele.

- A- Aquele dia aconteceu. – falei soluçando.

Ele continuava imóvel. Não parecia gostar de contato físico, mas dessa vez não me afastou.

Ele era assustador, mas não me dava tanto medo. Só precisava me acostumar com sua presença. Talvez por que ele seja o meu único amigo. O único que acredita em mim. Eu criei, aos meus dez anos, um amigo imaginário por medo de ficar sozinha e incompreendida.

- Por que você está chorando? – perguntou ele.

- Eu tinha medo... De enlouquecer. – falei.

- Se eu sou fruto da sua imaginação e você está me tocando, não acha que já está louca? – enfrentou minha resposta.

- Se eu já sou louca... – continuei – Do que eu teria medo agora? Nada daquilo jamais aconteceu. Não existiu. Eu sou louca.


Notas Finais


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