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História Martelos me batam! - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Obrigada à @jaemean pela betagem. Sem ti, eu estaria perdida! Obrigada à @ladyangel pela capa. É uma obra de arte maravilhosa e sem ela, não sei o que seria desta fanfic. Obrigada à @ladysharingan- e ao povinho do Neotype pelo incentivo. Bem precisei.

Esta fanfic foi um parto. Começou bem, a meio eu perdi a inspiração, terminei na força do ódio. E vocês vão perceber isso com pequeno, mas subtil, plot-twist que há no final. Ha! Troll? Eu? Nunca.

Ainda assim, fiquei medianamente feliz com esta fanfic e foi bom escrever algo que não seja mais longo do que um capítulo. Espero que gostem também. <3

Nota: Esta fanfic é para o desafio ARRAIÁ DO NCTZEN FANFICS e a minha bandeirinha é a vermelha, cujo tema é "barraca do beijo".

Capítulo 1 - São João, São João, dá cá um martelo, para eu brincar



 

“Vamos ao São João”, dissera Taeyong. “Será divertido”. 

Doyoung não se estava a divertir. Poderia estar, se não estivesse a ser arrastado como um cachorrinho pela cidade, depois de três voos e um total de vinte e uma horas de viagem. Mas Taeyong estava entusiasmado demais para se sentir cansado, e Doyoung era um amigo consciente demais para o deixar deambular num país estranho sozinho.

A ideia de irem ali partira de Chenle, é claro. O ricalhaço conhecia todos os destinos turísticos interessantes do mundo — especialmente aqueles que, para um chinês endinheirado, tinham algum tipo de vantagem. E ser um cidadão chinês de viagem a Portugal tinha muitas vantagens, mais ainda se comprasse habitação lá. E claro que a família de Chenle tinha casas no país — pelo menos duas; uma no Algarve e outra no Porto. E era lá que Taeyong e Doyoung iriam passar os próximos dias. Ficariam uma semana no Porto, para celebrar as festividades típicas da época, e depois iriam atravessar o país — com uma breve paragem pelas belezas turísticas do centro — até chegar ao Algarve. No total, ficariam quatro semanas no país. O suficiente, assegurara Chenle, para verem os pontos principais e ficar com vontade de voltar. 

Taeyong parecia uma criancinha de tão entusiasmado. Já tinha uma lista inteira com os sítios que queria visitar no país e em cada cidade por onde passassem. E era uma lista bastante impressionante, que ele demorara a elaborar depois de várias horas ao telefone com Chenle e a esgotar todas as páginas do Google. Ele estava bastante orgulhoso da sua lista e iria defendê-la com unhas e dentes.

 

SÍTIOS PARA VISITAR COM O DOYOUNG

Porto

A Torre dos Clérigos

Estação de São Bento

Ponte D. Luís

Avenida dos Aliados

Livraria Lello 

Beira-Rio

Caves do Vinho do Porto

 

E isso era a versão resumida, depois de Doyoung o convencer a reduzir quinze pontos para metade. Taeyong até levara a sua varinha mágica de Harry Potter e o seu cachecol da Hufflepuff para quando visitassem a famosa livraria. Doyoung, pessoalmente, estava mais entusiasmado com a possibilidade de visitar a origem de um dos melhores vinhos do mundo.

Sim, eles iriam divertir-se, mas Doyoung precisava de uma cama primeiro.

* * *

Quanto mais se aproximava a festa, mais entusiasmado ficava Taeyong. Naquele ponto, ele já contava as horas. Já tinham passado por três lojas temáticas e o Lee estava mais próximo de parecer um participante do carnaval brasileiro do que de uma festa popular portuguesa com as suas pinturas faciais, acessórios coloridos e tiara de plástico. Doyoung tinha cedido em colocar uma flor de papel no cabelo, mas não mais. Agora, sentados à beira do rio num dos muitos restaurantes familiares que ladeavam a margem, comiam o que os locais chamavam de bifanas — uma especialidade lusitana que consistia em colocar pedaços de carne de porco, temperado com um delicioso molho típico, dentro de pão branco. Empurraram o petisco com cerveja (Taeyong) e cidra (Doyoung), antes de irem deambular um pouco mais pelo centro da cidade. 

As ruas já estavam cheias, mas era evidente que ainda estavam longe da hora da verdadeira festa. O sol ainda não se tinha posto, pintando o céu em tons de laranja e cor-de-rosa, refletindo-se nas águas tranquilas do rio e nas janelas das casas. A cidade estava decorada com todas as cores primárias: grinaldas de flores de papel penduradas nas varandas e por cima das ruas, ou a dar vida a gigantes esculturas abstratas, bandeiras de papel a criar cortinas coloridas que atravessavam a cidade. Luzes brilhantes indicavam o caminho aos turistas mais distraídos e músicas variadas bombavam dos bares e cafés escondidos nos nichos das ruas. Pessoas sentadas em mesas redondas comiam sardinhas assadas, caldo verde, bifanas quentinhas, churros, francesinhas. O próprio Taeyong estava, naquele instante, junto a uma rulote de farturas a comprar dois churros recheados, incapaz de resistir a qualquer tipo de doçaria. Quanto à francesinha… Doyoung provara no dia anterior e achara demasiado picante, mas o Lee limpara o seu prato.

Mais do que uma festa em honra de um santo padroeiro, aquela festa era uma ode à gastronomia portuense e a tudo o que representava o povo português. Das duas vezes que os dois amigos se tinham perdido nas ruelas antigas da cidade, fora facílimo encontrar algum habitante que falasse inglês suficiente para lhes indicar o caminho correto. Numa delas, o simpático senhor até os levara ele próprio ao local que procuravam.  

— A que horas são os fogos de artifício? — questionou Doyoung, impaciente. De onde estavam, conseguiam ver a beira-rio encher-se lentamente com turistas e habitantes ansiosos.

— À meia-noite. — Taeyong enfiou o último pedaço de churro recheado na boca e soltou um suspiro. — Quero mais.

— Já comeste dois, chega de doces. 

— Doces nunca são demais. 

Doyoung sabia que era um argumento perdido. 

* * *

Yuta tinha uma tradição. Não era das mais intelectuais ou das mais interessantes, mas era definitivamente divertida. Oriundo do país das festas escolares com todo o tipo de barraquinhas de desculpas para fazer um harém, Yuta decidira, aos dezesseis anos, que iria visitar todas as barraquinhas do beijo que encontrasse. E o Nakamoto era um festeiro nato, disposto a viajar milhares de quilómetros para ir a alguma festa especial em algum canto escondido do mundo. Sorte a dele que Johnny e Jaehyun estavam sempre dispostos a acompanhá-lo nessas aventuras. Até a uma ilhazinha recôndita da Noruega já tinham ido só por causa de um festival local. Portugal fora uma ideia de Johnny, que certo dia se lembrara de pesquisar sobre a origem de um dos seus vinhos favoritos (sempre um snobe, aquele americano) e descobrira sobre uma das festas mais importantes do país. Os bilhetes foram comprados na hora, as férias pedidas no trabalho, e meses depois… ali estavam. 

Jaehyun já tinha desaparecido há cerca de uma hora, perdido no meio das marchas populares e de uma filarmónica local. Yuta ia na sua terceira cidra de maçã e podia jurar que havia dois Johnnys com ele. Se calhar, devia ter comido mais daquelas sardinhas deliciosas antes de beber, mas… Festa é festa, não é mesmo? E falando em festa, precisava de despejar a bexiga antes de a verdadeira festa começar.

— Onde é que vais? — perguntaram os Johnnys com um ar curioso. Uau, pensou Yuta, estavam tão sincronizados. 

— Mijar.

Os Johnnys não protestaram quando Nakamoto foi em busca de uma casa de banho onde pudesse aliviar-se. As ruas começavam a ficar mais apertadas com a concentração crescente de pessoas a circular, mas eventualmente conseguiu encontrar um dos distintos contentores azuis que nunca pareciam higiénicos. Ao sair do cubículo, reparou na fila de barraquinhas do outro lado da praça. Bingo! Yuta estava num dia de sorte. 

Mandou uma rápida mensagem de texto aos Johnnys, contando que um deles lesse e entendesse a confusão de letras e números emaranhados do texto, e avançou rumo ao seu destino. Não devia ser difícil encontrar os amigos, certo? Mesmo que a cidade estivesse repleta de todo o tipo de pessoas de todo o tipo de países, Johnny e Jaehyun eram altos. E bastante distintos, também. O Jung estava outra vez numa fase de pintar o cabelo. Quer dizer, quantos asiáticos de cabelo cor de rosa poderiam existir numa festa ibérica? Exato: poucos.

E falando no diabo: ali estava o cabelo do dito-cujo. Yuta chamou-o, tentando soar por cima da cacofonia de vozes e músicas de múltiplas origens, mas Jaehyun não ouvia. Nadando por entre a multidão, dando e recendo cotoveladas e empurrões, o Nakamoto conseguiu aproximar-se. 

— Jae! — gritou. Mas o amigo ou estava surdo, ou estava a ignorá-lo deliberadamente. Ao lado do Jung, estava um rapaz asiático que Yuta não conhecia e que lhe lançou um olhar estranho. Seria coreano? Chinês? Onde é que Johnny e Jaehyun iam desencantar pessoas? Em cinco dias na cidade, o trio já tinha feito amigos de todas as nacionalidades. — Jaehyun, para de me ignorar!

O coreano parecia completamente absorto em fosse-lá-o-quê que estava a acontecer do outro lado da rua e o seu acompanhante continua a lançar olhares estranhos a Yuta. Por isso, o japonês fez a coisa mais inteligente que o seu cérebro embriagado conseguiu conjeturar: ergueu o seu martelo de plástico verde néon e desferiu um implacável golpe na cabeça de Jaehyun.

O amigo soltou um grito chocado e o rapaz ao seu lado arregalou os olhos de forma cómica. Depois disso, tudo aconteceu tragicamente depressa, entre o momento em que Jaehyun se virou e revelou não ser Jaehyun, e o instante em que Yuta tentou afastar-se e percebeu que o martelo estava preso no cabelo do rapaz. Quando percebeu a grande bosta que tinha acabado de fazer, deu um pulo para trás e puxou o martelo no processo, fazendo o desconhecido dar outro grito ao ter o seu cabelo puxado. O terceiro rapaz observava a cena com as mãos sobre a boca e um olhar chocado.

Oh. Meu. Deus! — gritou Yuta, tentando segurar o martelo de modo a não puxar o cabelo do desconhecido. — Eu pensava que eras outra pessoa! Eu peço imensa desculpa! 

A expressão chocada do rapaz desfez-se, dando lugar a uma expressão confusa. Ele pestanejou e só então Yuta percebeu que instintivamente trocara para a sua língua materna. Tapeando-se a si próprio mentalmente, buscou os resquícios de inglês que Johnny lhe tinha conseguido ensinar.

— Desculpe! — tentou novamente. — Eu pensar que tu era meu amigo! — depois tentou fazer uma vénia, mas o martelo preso no cabelo do rapaz não o deixou curvar-se tanto quanto gostaria e acabou por desistir. 

O desconhecido de cabelo cor de rosa pestanejou duas, três vezes, como se estivesse a processar tudo. Mas o seu companheiro parecia mais rápido, pois virou-se para a vítima e disse, em coreano:

— Tae, estás bem? Esse maluco magoou-te?

O rapaz de cabelo colorido virou-se e deu um sorriso tranquilizador ao amigo, antes de se virar para Yuta. O pobre japonês, por esta altura, estava tão aliviado por serem dois coreanos (o que é que ele faria se eles não falassem nenhuma língua que ele conhecia? O desastre!) que ignorou o insulto.

— Oh, Deus! Vocês são coreanos! — exclamou entusiasticamente em coreano. Os dois estranhos arregalaram os olhos em surpresa. — Eu peço imensa desculpa por isto! A sério! Eu pensava que eras o meu amigo e que me estavas a ignorar e… Não foi de propósito, eu juro!

O rapaz de cabelo cor de rosa irrompeu num ataque de gargalhadas, deixando o pobre Yuta num misto de confusão e choque. O amigo soltou um suspiro, passando a mão pelo rosto. 

— Quantas línguas é que falas? — perguntou por fim o rapaz de cabelos cor de rosa. Yuta foi apanhado de surpresa pela voz grave e profunda que saiu dos lábios dele. Porque, estão a ver, o rapaz era gloriosamente bonito. Modelo-de-alta-costura bonito. Capa-da-Vogue bonito. Esculpido-pelos-deuses bonito. Mas também tinha uns olhos grandes e meigos que contrastavam gravemente com a sua voz. 

— Err… — Yuta nem sabia em que buraco se enfiar. — Três e meia? O meu inglês é muito arranhado. 

— Ohh. — o rapaz anuiu. A situação era cómica demais, com o Nakamoto a segurar o martelo, ainda agarrado ao cabelo do moço, enquanto conversavam casualmente. — Estás perdoado. 

O suspiro que o japonês soltou foi tão teatral quanto genuíno, mas também um contraste com o rolar de olhos indiferente que o amigo do Deus-na-terra deu.

— Eu sou o Yuta. — deu por si a dizer. 

— Eu sou o Taeyong. — o rapaz sorriu e oh, que sorriso glorioso. Yuta podia ficar horas a olhar para aquele sorriso. — E o meu amigo é o Doyoung. Somos ambos coreanos. 

— Presumi que sim. — Yuta sorriu o seu sorriso-com-todos-os-dentes. — Eu sou japonês. Mas estou aqui na companhia de um amigo americano e um coreano. 

— Suponho que me confundiste com um deles?

— Oh, sim. Com o Jaehyun. Ele também tem cabelo cor de rosa. 

Taeyong anuiu levemente e o martelo repuxou o seu cabelo com o movimento. 

— Temos de te livrar disto. — observou Yuta, preocupado. 

Taeyong concordou e levou os dedos — longos, finos, calejados — ao próprio cabelo, tentando desfazer os nós presos ao objeto de plástico. O contraste das madeixas cor de rosa com o martelo verde faziam lembrar um videoclipe dos anos 80. Mas os esforços de Taeyong para libertar o seu cabelo revelaram-se em vão, quando dois minutos depois deixou cair os braços e soltou um suspiro cansado. Yuta, mordendo o lábio e sentindo-se um monstro, tentou continuar o trabalho do rapaz, mas os silvos de dor que este soltava por entre os lábios mostraram-lhe que não estava à altura da tarefa. Foi a vez de Doyoung tentar, e os seus dedos elegantes e treinados sem dúvida conseguiram fazer algum progresso na missão, mas não resolveu o problema. O martelo insistia em continuar preso ao cabelo de Taeyong.

— Sabes que mais? — o Lee soltou ao fim de longos minutos de labuta. — Vamos apenas encontrar uma tesoura e cortar o cabelo.

— Estás maluco? — exclamou Doyoung. — O Jungwoo mata-te se fizeres uma coisa dessas!

— Ah, ele sobrevive. Mas eu morro se tiver de ficar mais um minuto que seja com esta coisa presa no cabelo.

Yuta parecia um cachorrinho abandonado na mudança, pensou Taeyong, ao ver a forma como o outro rapaz se encolheu. O japonês era o perfeito arquétipo da culpa. Por isso sorriu, tocou-lhe modestamente no braço e disse:

— Acidentes acontecem, a culpa não é tua. É só meio chato, mas dá pra resolver.

O japonês anuiu lentamente, endireitando ligeiramente os ombros. Doyoung tinha um ar incrédulo, mas manteve-se calado. 

— Vamos lá procurar uma tesoura. — concordou por fim. 

Os três afastaram-se da zona, demasiado movimentada e populada, e tacitamente deslocaram-se para a fila de barraquinhas do outro lado da praça. Yuta virou-se relutantemente para Taeyong, torcendo os dedos uns nos outros com nervosismo. 

— Eu ainda não explorei esta zona — confessou. — Quero dizer, explorei, mas não prestei realmente atenção, eu estava… à procura das barracas das bebidas. 

Taeyong deu uma gargalhada divertida e Doyoung ergueu as sobrancelhas. Yuta achava-os um par curioso; dicotómico, onde o Lee era delicado, gentil e anguloso, e Doyoung era assertivo, reservado e sóbrio. Mas o par era uma dupla atraente, definitivamente. 

— Havemos de encontrar algo. — tranquilizou-o Taeyong. 

* * *

Era mais fácil falar do que fazer, pensou Doyoung amargamente. Não acreditava que estava a passar a sua preciosa noite a procurar uma alma generosa que os ajudasse a libertar o cabelo de Taeyong. Que tipo de sina seria aquela? Para piorar, nenhuma barraca parecida disposta a ajudar ou a ceder algum tipo de ferramenta para os auxiliar. Era um desastre. 

— Tem de haver alguém, algures. — suspirou Taeyong. 

Doyoung quis rematar com algo malvado, mas deixou-se ficar calado. Ter um martelo de plástico agarrado ao cabelo já parecia ser, por si, uma experiência traumática. Especialmente com Yuta por perto, com as suas piadas secas, sorrisos demasiado grandes para o rosto e dentes perfeitos. A sério! Quem é que tinha dentes assim tão perfeitos? Tinha de ser uma farsa! 

As barracas já tinham sido todas exploradas, desde as de pastelaria até as de tecelagem, passando pelas lojas de bugigangas e pelos ateliers de arte. Ou eram dispensados quando pediam ajuda, ou eram considerados trolls — e depois dispensados. Um gerente de uma barraca de salgados até perguntou onde estavam as câmaras. Quem diria que encontrar uma tesoura poderia ser tão difícil? 

As buscas incessantes e infrutíferas por ajuda distraíram o grupo ao ponto de não olharem para o relógio até começaram os fogos de artifício. Os três congelaram no meio da rua, surpreendidos, os peões à sua volta não poupando as cotoveladas ou a ocasional mochilada nas costas. Depois de uma consulta rápida à hora, descobriram que a sua busca durava há muito mais tempo do que julgavam. Já era meia-noite e o céu estava a ser iluminado por milhões de estrelas e centenas de luzes, as cores vibrantes criando padrões na noite. Ouviram-se tambores, música, o sino da Torre dos Clérigos a protestar. Era meia-noite, São João estava a ser celebrado, e eles estavam perdidos no meio de uma multidão a tentar libertar um martelo de plástico. 

Deixaram-se ficar ali parados, tentando aproveitar ao máximo a vista dos fogos de artifício entre os telhados das casas e as copas das árvores. O barulho dos fogos misturado com a cacofonia do público criavam um ruído de fundo intoxicante — ou, se calhar, isso era só por causa dos vestígios de álcool no sistema de Yuta. Doyoung levou uma mão ao ombro de Taeyong, como se oferecesse apoio emocional ou como um gesto de gratidão por estarem ali, agora, juntos — mesmo nas circunstâncias menos ideais de como passar a data festiva. 

 

Yuta subitamente sentiu falta de Johnny e de Jaehyun e até dos amigos que deixara em casa. Era com eles que devia estar agora, a ver o espetáculo de fogo de artifício. Mas entre a espetacularidade dos fogos e a sensação confortável de viver um momento especial, só sentiu o impacto desses sentimentos quando o espetáculo terminou e o céu se apagou outra vez. O Nakamoto foi acordado com um cotovelada nas costas e uma profusão de palavrões portugueses (claro que ele tinha aprendido uma mão cheia deles, vocês sabem, para entender melhor a cultura do país e assim). 

— Deus! — exclamou. O japonês parecia ter acabado de ter uma epifania. Doyoung e Taeyong viraram-se muito rapidamente para ele, preocupados. — Os meus amigos! Não avisei os meus amigos. Eu disse que ia mi… à casa de banho, e nunca mais voltei. 

Doyoung, que durante o espetáculo inteiro tivera um ar sereno e pacífico, subitamente recuperou a expressão azeda de quem gostaria de não estar a viver aquela situação absurda. Taeyong, por sua vez, arregalou muito os seus olhos grandes. 

— Oh, isso não é bom. — observou, agarrando o bíceps de Yuta e olhando-o com uma determinação férrea. — Temos de os encontrar! 

Doyoung abriu a boca como se fosse protestar, mas foram os seus olhos que falaram, arregalado-se em choque quando olhou para o amigo. 

— O martelo! — exclamou, apontando para o cabelo de Taeyong. — Já saiu! 

Os outros dois rapazes apressaram-se a verificar isso e constataram que sim, o martelo tinha-se finalmente libertado do cabelo de Taeyong. Yuta deu um longo e dramático suspiro de alívio e o Lee abriu um sorriso. 

— Onde é que ele está? — questionou, procurando nas mãos de Yuta e de Doyoung. 

Yuta ergueu as palmas das mãos e Doyoung imitou-o, mas nenhum deles estava na posse do infame martelo verde. Perscrutaram o chão em busca do objeto, mas ele parecia ter evaporado.

— Que estranho... — observou Taeyong, confuso. — Ah, eu queria tanto vingar-me! 

Os três caíram na gargalhada, ignorado os olhares incomodados dos trausentes cujo caminho eles estavam a bloquear. Quando recuperaram, Yuta ficou sério outra vez.

— Mas sabem o que é mais estranho? Eu nem sequer lembro de ter um martelo até vos encontrar. Nem eu, nem os meus amigos tínhamos um. 

Doyoung e Taeyong entreolham-se de forma suspeita, confusos. Yuta tinha um olhar vazio de quem estava a perscrutar a própria memória. E ficaram nesse impasse até que um casal local empurrou o japonês e o “Ai!” incomodado dele despertou os três. 

— Bem, vamos lá procurar os teus amigos. — declarou Taeyong, determinado. Yuta anuiu com um olhar grato. 

Sem martelos misteriosos presos ao cabelo de ninguém e com uma determinação e urgências renovadas, os três embrenharam-se novamente na multidão para procurar os companheiros de Yuta. Taeyong e Doyoung assolaram o japonês com perguntas de despiste, antes de concluírem em uníssono que deviam começar as buscas pela zona recreativa à beira do rio. 

— Eles queriam ver os fogos lá, certo? — explicou Taeyong, arrastando Yuta atrás de si enquanto Doyoung abria caminho pela multidão. — E claramente são pessoas festivas, por isso faz sentido procurar onde está a diversão. 

Com a mão de Taeyong a segurar firmemente o pulso de Yuta e com os olhos atentos de Doyoung a perscrutar as imediações, chegaram à beira do rio em metade do tempo que o Nakamoto normalmente levaria — tanto porque o seu sentido de orientação era questionável, quanto porque o de Doyoung era excelente. 

— Como são os teus amigos? — perguntou este. Era apenas ligeiramente mais alto que os outros dois, mas Taeyong estava habituado a ser tratado por ele como se tivesse apenas metro e meio.

— O Jae tem cabelo cor de rosa, como o do Taeyong. O Johnny é alto, tipo, muito grande. Quando vires um coreano de dois metros vais saber que é ele. 

Taeyong deu-lhe um olhar confuso, mas nada disse. Nos minutos seguintes, os três dedicaram-se a procurar os amigos de Yuta. Muitos “É aquele?” e “E aquele ali?” depois, o japonês finalmente identificou a cabeça de Johnny acima da multidão. Entre europeus do norte e americanos aleatórios, encontrar o amigo revelara-se mais difícil do que imaginara, mas finalmente deram com ele junto ao rio.

Foram necessários dois berros e um beliscão no cotovelo de Johnny para que este finalmente entendesse que estava a ser chamado. Quando se virou, a sua expressão preocupada imediatamente se transformou em alívio ao encontrar Yuta. O grandalhão imediatamente abraçou o amigo, como se não o visse há anos. 

— Onde é que andavas? O Jae estava quase a chamar a polícia! — Johnny sacudiu Yuta depois de o libertar, como se quisesse ter a certeza que o amigo estava mesmo ali. 

— Ah, bem, houve um pequeno… acidente. E depois perdi-me. — o Nakamoto sorriu nervosamente, sentindo a presença do Lee e do Kim atrás de si. — O Taeyong e o Doyoung ajudaram-me a procurar por vocês. Onde está o Jae?

Só então Johnny reparou nos dois coreanos atrás de Yuta, arregalando os olhos de forma cómica e estendendo uma mão aos dois.

— Olá, eu sou o Johnny. Obrigado por me trazerem o Yuta de volta. — sorriu o seu sorriso charmoso de 300 megawatts. — Espero que ele não tenha dado trabalho.

Taeyong apertou a mão de Johnny e riu, enquanto Doyoung fazia uma careta cómica. O Seo parecia mais um pai do que um amigo, e a imagem mental que tinham construído dele desfez-se em pó.

— Sou o Taeyong. Ele não deu trabalho nenhum. 

— Fala por ti. — o Kim apertou a mão de Johnny. — Doyoung. 

Johnny lançou um olhar inquisidor a Yuta, que lhe devolveu uma expressão culpada. 

— Quero ouvir tudo. Mas primeiro, vou chamar o Jae. Aceitam que vos pague uma bebida em agradecimento? 

— Não, eu é que devia pagar! — protestou Yuta. 

— Ninguém precisa de pagar nada. — Taeyong ergueu as palmas no ar, mas estava a rir. 

Johnny ligou a Jaehyun, que veio a correr e deu um soco no ombro de Yuta assim que o viu. As apresentações foram repetidas e o Nakamoto levou outro sermão de Jaehyun. Johnny convidou Doyoung e Taeyong para ficar um pouco com eles e os dois coreanos aceitaram. Duras horas mais tarde, quando os bares e barraquinhas começavam a fechar e as ruas a esvaziar, os cinco estavam sentados a beber limonada numa poucas das barracas ainda abertas, à beira do rio. A eles tinham-se juntado, entretanto, dois amigos portugueses que o grupo tinha conhecido nos dias que passaram na cidade. A história do martelo já tinha sido contada de todas as perspectivas dos envolvidos, outras histórias envolvendo a tolice de Yuta tinham sido partilhadas, a história de Doyoung e Taeyong já tinha sido resumida e Jaehyun estava a acabar de contar como é que ele, Johnny e Yuta se tinham conhecido, quando o japonês subitamente se levantou. 

— A barraca dos beijos! — exclamou, sobressaltando todos. — Eu esqueci-me totalmente da barraca dos beijos!

— O quê? — um dos portugueses fez uma careta confusa, o seu sotaque inglês muito arranhado. — Barraca dos beijos? Isso não existe aqui. 

Johnny traduziu para Yuta e o japonês sentou-se novamente, derrotado. Depois Jaehyun explicou a todos sobre a tradição de Yuta visitar todas as barracas do beijo em todos os países por onde passava. Taeyong mal conseguia respirar de tanto rir e até Doyoung se riu com a bobice da tradição. Os portugueses pareciam mais chocados do que divertidos, o conceito de se pagar para beijar alguém demasiado descabido para eles. 

— Se me quiseres pagar uma cerveja, eu deixo-te beijar-me a mim. — brincou Johnny, esticando os lábios para imitar um beijo. Yuta deu-lhe um pontapé por baixo da mesa e o grupo caiu na gargalhada outra vez. 

Quando o dono da barraquinha lhes pediu para sair, para poder fechar o negócio, o grupo deambulou lentamente pelas ruas até à zona dos hotéis. Números de telefone foram trocados durante o trajeto e um grupo de WhatsApp foi criado para combinarem de se encontrar novamente quando regressassem à Coreia. Os portugueses prometeram ir ao país no verão seguinte. 

Os dois portugueses separaram-se do grupo primeiro, seguindo para as suas residências. Depois Taeyong e Doyoung, que prometeram enviar uma mensagem quando chegassem a casa. Johnny passou um braço pelos ombros de Yuta e outro pelos de Jaehyun enquanto regressavam ao hotel dos três.

— Ainda bem que te perdeste, Yu — disse casualmente, arrancando um olhar chocado dos dois amigos. — Porque se não o fizesses, o Jae nunca teria conhecido o amor da sua vida. 

— Quê? — Jaehyun quase gritou, dando um soco no braço de Johnny. — Estás maluco! 

— É, eu também reparei — riu Yuta, recebendo um olhar mortal do coreano. — Jaehyun e Doyoung, sentados numa árvore, b-e-i-j…

— Calem-se os dois! Meu Deus, vocês são os piores amigos do mundo! 

Jaehyun libertou-se de Johnny e seguiu furiosamente em frente dos dois. O Seo e Yuta caminharam tranquilamente mais atrás, rindo e partilhando as suas previsões sobre a vida romântica do amigo.

De facto, ainda bem que Yuta se tinha perdido. E aquele martelo? O japonês jamais iria entender de onde é que ele tinha aparecido e para onde tinha ido. Mas estava-lhe grato pela noite que lhe dera e as pessoas que tinha conhecido. Caminhando abraçado a Johnny e rindo pela noite dentro, Yuta sentiu-se grato por muitas coisas. 


Notas Finais


Podem mandar vir as tesouras para me cortar a internet.


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