História Mate - Capítulo 3


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Categorias Histórias Originais
Tags Adolescente, Apocalipse, Delírio, Distopia, Jornal, Luta, Noticia
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Palavras 1.163
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Fantasia, Ficção, Ficção Adolescente, Ficção Científica, Literatura Feminina, Luta, Mistério, Sobrenatural, Suspense, Universo Alternativo
Avisos: Álcool, Drogas, Linguagem Imprópria, Nudez, Sadomasoquismo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Amei escrever isso daqui e espero que vocês também gostem de ler.

Capítulo 3 - Helena


Ei pai, você viu que o tio Valério saiu no jornal? Perguntei. O quê? O que houve? Ele pegou o jornal da minha mão e leu a última matéria, que estava na terceira página, inclusive, mas ele teve um tanto de dificuldade para achar e virar as folhas com suas mãos gordas.

- "Jovem de 19 anos falece em atropelamento durante passeata a favor do movimento..." Ah, pelo amor de Deus, tinha que ser um rebeldezinho revoltado. E o que teu tio tem a ver com isso? - Até aí ele sequer tinha terminado o lead, mas o que já vale é que meu pai não tolera nada do movimento. Na real, nem gosta de pronunciar o nome dele.

Tudo bobagem, é o que diz. Já eu, bem, não sei direito o que achar e minha mãe também não, ela só concorda com meu pai, mas deve ser por preguiça e ou ou por cansaço. Pelo que sei, as coisas, o país, tudo, sempre foram assim e até que davam certo, não? Quando a máquina de lavar aqui de casa quebrou, foi óbvio que seria muito mais fácil e barato concertá-la ou comprar outra do que inventar toda uma nova forma de deixar as roupas limpas, sem mal ter a certeza de que daria certo. Então sei lá, acho tudo justificável, mas toda essa ação se faz mesmo como a melhor forma?

- Olha o terceiro ou o quarto parágrafo - respondi. - O Val foi testemunha de tudo - Disse que o garoto estava absurdamente feliz enquanto conversavam e que - O carro sequer desacelerou ao chegar perto. Acho triste, pai, mesmo ele sendo um radicalzinho. Ninguém merece morrer assim.

- Eh, mas você tá se esquecendo de que o que eles tão querendo é algo que vai fuder com todo mundo, principalmente sua família - seus olhos já estavam apertados, naquele jeito de demônio que indica quando está com raiva. Meu pai é até que top em alguns pontos, mas é extremamente cabeça dura e um vidro de formol ficaria com inveja do tão conservador que ele é. Para ele nada precisa mudar, tudo é como se fosse time que está ganhando, e o pior é que o tudo dele se concentra somente em aspectos que atingem o seu próprio cu. "Principalmente".

Mordi o pão, seco, para calar a minha boca, me arrependendo de ter iniciado a conversa. Falar não adianta nada. Tem tanta gente que não cala a boca na Internet com milhares de supostos apoiantes e que, no fim, não possui nada na vida real, nada, apenas recebidinhos de propaganda. Por exemplo, tem aquela Juliana Fisgo, especialista em ficar toda hora denunciando maus-tratos a animais e divulgando campanhas, mas quando pediu para que quem a seguia ajudasse a pressionar o Congresso a ir contra a pesca de um peixe lá, ninguém, absolutamente ninguém, foi. Okay, na verdade foram umas dez pessoas, segundo o Estadão, mas, perto dos 300 e tantos seguidores, esse número chega a ser quase desprezível. Coitadinho do peixe, ninguém ligou para ele.

Mas nessa ele não está só, pelo menos. Na verdade a maioria das pessoas não liga para nada e minha família também está nem aí para o que eu penso. Não gosto de generalizações, mas, nas últimas semanas antes da paralização das aulas, a gente estudou o tal do silogismo e vou lançar mão de sua genericidade nesse momento: se o que eu sou é o que eu digo, e o que digo é irrelevante, o que eu sou é irrelevante, certo? Pelo que vivo diria que sim, e, sinceramente, às vezes prefiro não me dar motivo para me sentir ainda menor, diante de tanta coisa que vem acontecendo. Sem palavras, sem ressentimentos por ser ignorada - e é por isso que somente observo, como minha mãe, que agora só me olhava calada, com os olhos caídos, caídos...

Você deveria dar uma volta, Helena. Cadê suas amigas?

Não sei, lhe respondi, curto.

Não sei se as tenho, não sei onde estão ou estariam, não sei, não sei.

E a Carmem? Faz tempo que você não a...

- Eu gosto da Carmem, menina direita, pais decentes... - e mais uma de meu pai à minha mãe para a lista.

Inclusive, odeio chamá-los de "meu pai" ou de "minha mãe". Eles não são de fato meus, não os controlo, e chamá-los assim os resume a uma mera função - mas a estranheza da ausência de pronomes me impede de mudar. Talvez só não seja criativa o bastante para achar uma substituição. Angustiante, mas foda-se.

- Verdade, faz tempo que vocês não se veem.

É, faz mesmo.

- Vou mandar mensagem para ela, mãe.

Faz isso, ele completou. Vou chamar os pais dela para comerem um churrasco aqui com a gente. O que você acha desse domingo, Liana?

Domingo não dá. A gente precisa lavar a roupa acumulada da semana passada. 

A máquina quebrou faz duas semanas e mesmo assim você não deu conta disso?

Pingue, mais palavras, pongue, meu pai joga a bolinha, que escapa da linha e mais um ponto para minha mãe. Saco.

Cansei, me retirei da mesa e me joguei no chão do quarto. Inferno. Vida chata do caralho.

Acho que meu pai percebeu algo e veio ao meu quarto. Perguntou se estava tudo bem. Sim, está. Desculpa ter dito aquilo, ele soltou. Não, tudo bem.

Tudo bem, tudo sempre está bem, tem que, né? Senão a gente padece de vez. Presumi que o "aquilo" se referia a seu comentário anterior sobre o ocorrido na notícia. Valdo não é um monstro, só é conservador demais e pensa de menos, porque fala sem usar o cérebro.

- Você e a Carmem brigaram? - Minha mãe surgiu. Então é isso o que pensam de mim? Que me chateio por bobagem?

- Não, mãe, não houve nada. Nadinha. Eu só não dormi bem.

- E por que estava jogada no chão? - mais uma de meu pai para endossar a série de perguntas.

É que estava procurando o carregador embaixo da cama.

Alisando as dobras do tapete.

Pegando as roupas da gaveta de baixo.

Não sei, não lembro, falei alguma dessas coisas furadas aí, bem desculpinhas sujas, real, mas eles fingiram que acreditaram e eu recebi, na testa, um beijo da minha mãe, antes que fossem embora. No fim, ninguém liga de verdade. Diante de um problema, só vão para fingir que resolveram e, mesmo sabendo que não, limpam suas consciências com a ideia de que "pelo menos corri atrás". Superar barreiras é difícil demais, mas fingir é uma delícia.

Pego no celular, que estava embaixo das cobertas embolonhadas. Me arrependo, tudo hipócrita. Muito mais fácil também é acompanhar e divulgar nas redes socias os protestos e animar as pessoas a irem, mas nunca ir. Fiz minha parte, pensam. Foda-se. É assim, não? Me conecto, conecto as ideias... Tá. Tudo é passível de crítica e é por isso que faço nada.

Talvez eu devesse mesmo mandar mensagem para a Carmem.


Notas Finais


O que acharam?
O discurso indireto livre estava muito confuso?


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