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História Me before you - Capítulo 14


Escrita por: lexiens

Capítulo 14 - Capítulo XIII


Shay estava na beira da pista, correndo sem sair do lugar, com a nova camiseta Nike e o short grudando de leve em suas pernas suadas. Fui lá dar um alô e avisar que não ia à reunião dos Tratores do Triatlo naquela noite no pub. Felix estava fora e eu ficaria no lugar dele para cuidar das tarefas da noite. 

— É a terceira reunião do grupo a que você não vai.

— É mesmo? — Contei nos dedos. — Tem razão.

— Você precisa ir na próxima semana. São os planos de viagem para o Norseman Xtreme. E você não me disse o que quer fazer no seu aniversário. — ela começou a fazer alongamentos, levantando a perna no alto e apertando o joelho no peito. — Pensei em irmos ao cinema, que tal? Não quero comer muito, não enquanto eu estiver treinando.

— Ah. Meus pais estão planejando um jantar especial.

Ela segurou o calcanhar e apontou o joelho para baixo. Não pude deixar de reparar que a perna dela estava ficando estranhamente forte. 

— Isso não é exatamente uma saída, certo?

— Bom, ir ao cinema também não é. De qualquer jeito, acho que devo aceitar o jantar, Shay. Mamãe anda meio triste. 

Sarah tinha saído de casa no fim de semana anterior (não levou a minha nécessaire com estampa de limões — eu a recuperei na noite anterior à sua partida). Mamãe estava arrasada; na verdade, estava sendo ainda pior do que quando Sarah fora para a faculdade da primeira vez. Sentia falta de Kira como sentiria de um braço ou de uma perna amputados. Os brinquedos que enchiam a sala desde que ela era bebê haviam sido colocados numa caixa e guardados. Não havia mais dedinhos de chocolate no sofá, nem caixinhas de bebida infantil no armário. Mamãe não tinha mais motivo para ir a pé até a escola às três e quinze da tarde, nem alguém com quem conversar no curto trajeto de volta. Era a única hora em que mamãe realmente saía de casa. Agora, não ia a lugar nenhum, só ao supermercado uma vez por semana com papai.

Mamãe passou três dias andando pela casa, parecendo meio perdida, depois começou a fazer faxina com um vigor que assustou até o vovô. Ele resmungou quando ela passou o aspirador embaixo da cadeira onde estava sentado, ou bateu com o espanador no ombro dele. Sarah dissera que não viria em casa nas primeiras semanas da faculdade para que Kira pudesse se adaptar. Todas as noites, quando ela telefonava, mamãe falava com os dois e depois chorava meia hora no quarto. 

— Você tem trabalhado até tarde ultimamente. Quase não vejo você.

— Bom, você está sempre treinando. Mas é um bom dinheiro, Shay. É pouco provável que eu me recuse a ir dormir lá. 

Ela não podia discutir com isso.

Eu estava ganhando mais do que já ganhara em toda a minha vida. Dobrei a ajuda que dava aos meus pais; separei uma parte para depositar em uma poupança todo mês e ainda assim ganhava mais do que podia gastar. Em parte porque eu trabalhava tantas horas que nunca estava fora da Granta House quando as lojas ainda estavam abertas. O outro motivo era, simplesmente, o fato de eu não ser muito consumista. Comecei a passar as horas livres na biblioteca, pesquisando coisas na internet.

Havia todo um mundo à minha disposição naquele computador, página após página. Aquilo começou a exercer sobre mim um canto de sereia.

Começou com a carta de agradecimento. Alguns dias após o concerto, eu disse a Del que deveríamos escrever e agradecer ao amigo dela, o violinista.

— Comprei um lindo cartão no caminho para cá — expliquei. — Você me diz o que quer dizer e eu escrevo. Trouxe minha caneta boa. 

— Acho melhor não — disse Del.

— Como assim?

— Você me escutou.

— Você acha melhor não? Esse homem nos deu lugares na primeira fila. Você mesma disse que foi fantástico. O mínimo que pode fazer é agradecer a ele.

A mandíbula de Delphine estava dura, imóvel.

Larguei a caneta.

— Ou você está tão acostumada a ganhar coisas que acha desnecessário agradecer? 

— Niehaus, você não tem ideia de como é frustrante depender de alguém para escrever. A frase “escrevo em nome de” é... humilhante.

— É? Bom, melhor do que um imenso nada — rosnei. — Eu vou agradecer. Não vou mencionar você, se insiste em ser uma imbecil quanto a isso. 

Escrevi o cartão e coloquei no correio. Não comentei mais nada. Porém, naquela tarde, as palavras de Del ainda ecoavam na minha cabeça quando eu me desviei rumo à biblioteca e, tendo visto um computador livre, acessei a internet. Pesquisei se havia algum acessório que Del pudesse usar para escrever sem ajuda. Em uma hora, havia achado três: uma espécie de software de identificação de voz; outro tipo de software, que funcionava com o piscar dos olhos e, como minha irmã tinha dito, um dispositivo que Del poderia usar na cabeça para teclar. 

Ela previsivelmente desdenhou do dispositivo para ser usado na cabeça, mas concordou que o software de voz podia ser útil e, uma semana depois, com a ajuda de Felix, instalamos o programa no computador dela e acomodamos Delphine de modo que, com o teclado do computador fixado em sua cadeira de rodas, ela não precisasse de mais ninguém para digitar para ela. No começo, ficou pouco à vontade, mas quando eu disse para começar tudo com a frase “Escreva uma carta, Srta. Niehaus”, ela superou a questão.

Nem a Sra. Cormier conseguiu encontrar algo do que reclamar.

— Se houver outro equipamento que você ache que possa ajudar — disse ela, os lábios apertados como se não acreditasse por completo que aquilo pudesse ser algo diretamente bom —, avise-nos. 

Olhava Delphine, nervosamente, como se ela estivesse mesmo prestes a arrancar o dispositivo de sua mandíbula.

Três dias depois, assim que saí para o trabalho, o carteiro me entregou um envelope. Abri no ônibus, pensando que fosse um cartão de aniversário adiantado, de algum primo distante. Estava escrito, em tipografia computadorizada:

"Cara Niehaus,

Para mostrar que sou mesmo uma egoísta imbecil completa.

E que agradeço muito os seus esforços.

Obrigada.

Del"

Ri tão alto que o motorista perguntou se eu tinha ganhado na loteria.

***

Depois de passar anos naquele quartinho, com minhas roupas penduradas num corrimão no corredor, o quarto de Sarah parecia um palácio. Na primeira noite que dormi lá, rodopiei com os braços abertos, apenas desfrutando o fato de que eu não conseguia encostar minhas mãos simultaneamente nas paredes. Fui a uma loja de bricolagem e comprei tintas e cortinas novas, além de um abajur e algumas prateleiras, que eu mesma instalei. Não que eu seja boa nesse tipo de coisa, acho que eu só queria ver se conseguia.

Passei a redecorar tudo e a pintar as paredes por uma hora, à noite, quando voltava do trabalho, e, ao final de uma semana, até papai teve que admitir que eu tinha feito mesmo um bom trabalho. Examinou um pouco a nova pintura, passou os dedos pelas cortinas que eu mesma instalei e pôs a mão no meu ombro.

— Você virou outra pessoa com esse trabalho, Cos.

Comprei também um novo edredom, um tapete e algumas almofadas grandonas — para o caso de alguém aparecer e pensar em descansar. Não que alguém fosse fazê-lo. O calendário foi para trás da nova porta. Ninguém o via, só eu. Ninguém mais teria entendido o que ele significava, de todo jeito.

Fiquei meio mal com o fato de que, quando colocamos a cama de armar de Kira ao lado da cama de Sarah no quartinho, não ter sobrado qualquer espaço no chão, porém depois racionalizei: eles não moravam mais ali de verdade. E o quartinho era um lugar onde iriam apenas para dormir. Não havia razão para o quarto maior ficar desocupado durante semanas. 

A cada dia que eu ia trabalhar, tentava pensar em outros lugares para onde pudesse levar Delphine. Não tinha nenhum plano geral, apenas me concentrava em cada dia sair com ela e tentar alegrá-la. Havia alguns dias — dias em que seus membros queimavam ou quando a infecção a atingia deixando-a devastado e febril na cama — que eram mais difíceis que outros. Mas, nos bons dias, consegui várias vezes levá-la para fora, para o sol da primavera. Eu já sabia então que uma das coisas que ela mais detestava era a pena que estranhos demonstravam, por isso levava-a de carro a lugares bonitos, onde, por uma hora mais ou menos, pudéssemos ser apenas nós duas. Eu fazia piqueniques e ficávamos no campo, aproveitando a brisa, longe do anexo. 

— Minha namorada quer conhecer você — disse a ela numa tarde, tirando com a mão pedaços de sanduíche de queijo e picles que lhe oferecia.

Eu tinha dirigido vários quilômetros para fora da cidade, rumo ao topo de uma colina, e podíamos ver o castelo do outro lado do vale oposto, separado de nós por campos cheios de ovelhas. 

— Por quê?

— Quer saber com quem tenho ficado até tarde da noite.

Estranhamente, ela achou a ideia um tanto animadora.

— A Corredora.

— Acho que meus pais também querem conhecer você.

— Fico nervosa quando uma garota quer que eu conheça os pais dela. Mas como está sua mãe?

— Igual. 

— E o trabalho de seu pai? Alguma novidade?

— Não. Estão dizendo para ele agora que será na semana que vem. Em todo o caso, meus pais perguntaram se quero convidar você para meu jantar de aniversário na sexta-feira. Tudo bem informal. Só a família, na verdade. Mas, tudo bem... eu disse que você não ia querer.

— Quem disse que eu não ia querer?

— Você detesta estranhos. Não gosta de comer na frente das pessoas. E não gosta da minha namorada. Não me pareceu uma questão difícil de responder.

Eu tinha conseguido. A melhor maneira para convencer Del a fazer qualquer coisa era dizer a ela que você sabia que ela não iria querer fazê-la. A parte dela que era do contra, obstinada, não suportava isso.

Del ponderou por um instante.

— Não. Eu vou ao seu aniversário. Isso vai dar à sua mãe algo em que pensar, se não servir para mais nada.

— Mesmo? Oh, Deus, se eu contar, ela já vai começar a limpar e esfregar tudo hoje mesmo. 

— Tem certeza que ela é sua mãe biológica? Não deveria ter alguma semelhança genética aí? Mais sanduíche, por favor, Niehaus. E ponha mais picles no próximo pedaço. 

A piada era apenas parcial. Mamãe entrou em parafuso só de pensar em receber uma tetraplégica. Suas mãos voaram para o rosto e ela começou a arrumar de novo as coisas no aparador, como se Del e eu fôssemos chegar minutos depois de eu ter contado a ela.

— Mas e se ela precisar ir ao banheiro? Não temos um no térreo. Eu não acho que o papai consiga carregá-la pela escada. Eu posso ajudar... mas ia ficar meio preocupada com onde colocar as mãos. Será que Shay pode fazer isso?

— Não precisa se preocupar com esse tipo de coisa. De verdade.

— E sobre a comida dela? Ela precisa que a comida dele tenha consistência de purê? Tem alguma coisa que não possa comer?

— Não, ela só precisa de ajuda para cortar as coisas para ela.

— Quem vai fazer isso?

— Eu. Calma, mãe. Ela é ótima. Você vai gostar dela.

E assim ficou combinado. Felix buscaria Dell de carro e voltaria duas horas depois para levá-la de volta para casa e cumprir as rotinas da noite. Eu me ofereci para fazer isso, mas os dois insistiram para eu “desligar” no dia do meu aniversário. Eles obviamente não conheciam meus pais. 

Às sete e meia em ponto, abri a porta de casa para Del e Felix. Del estava usando sua camisa chique e jaqueta. Não sabia se ficava satisfeita com o esforço que ela fizera, ou preocupada porque minha mãe ia passar as duas primeiras horas se atormentando por não ter se vestido adequadamente.

— Oi, pessoal.

Meu pai surgiu no corredor atrás de mim.

— Arrá. A rampa funcionou bem?

Ele tinha passado a tarde inteira fazendo uma rampa de compensado para a escada externa. 

Felix levou com cuidado a cadeira de Del até nosso estreito corredor.

— Muito bem — disse Felix, enquanto eu fechava a porta atrás dele.

— É ótima. Já vi rampas piores em hospitais. 

— Gene Niehaus. — Papai estendeu a mão para Felix e se apresentou. Estendeu-a para Del antes de retirá-la num súbito ataque de constrangimento. — Gene. Desculpe, hum... não sei como cumprimentar uma... não posso apertar a sua... — Papai começou a gaguejar.

— Uma reverência está bem — ironizou Delphine.

Papai ficou olhando e, ao ver que Del estava brincando, deu uma risada de alívio.

— Ah! — exclamou, e deu um tapinha no ombro de Delphine. — É. Uma reverência. Essa é boa. Ah!

Isso quebrou o gelo. Felix despediu-se com um aceno e uma piscadela e empurrei Del na cadeira de rodas até a cozinha. Por sorte, mamãe segurava uma travessa, o que a eximiu de enfrentar a mesma preocupação.

— Mamãe, esta é Delphine. Del, esta é Siobhan.

— S, por favor. — mamãe sorriu para ela, suas luvas refratárias indo até os cotovelos. — Que bom finalmente conhecer você, Delphine.

— Prazer em conhecê-la — disse ela. — Por favor, não interrompa o que está fazendo. 

Mamãe deixou a travessa numa mesa e pôs a mão nos cabelos, o que, em se tratando da mamãe, era sempre um bom sinal. Pena que ela se esqueceu de tirar as luvas antes.

— Desculpe — disse ela. — Estou fazendo um assado. Tudo depende do tempo no forno, sabe.

— Na verdade, não — respondeu Delphine. — Não sei cozinhar. Mas gosto de boa comida. É por isso que estava ansiosa por vir.

— Então... — Papai abriu a geladeira. — Como vamos fazer isso? Você tem um... copo especial para cerveja? 

Eu disse a Delphine que se papai tivesse sofrido um acidente, certamente providenciaria o copo para cerveja antes mesmo da cadeira de rodas. 

— Prioridades, certo? — disse papai.

Vasculhei a bolsa de Delphine até achar o copo especial.

— Cerveja está ótimo. Obrigada.

Ela deu um gole e fiquei ali na cozinha, subitamente me dando conta de como nossa casa era pequena e antiquada, com seu papel de parede dos anos 1980 e armários de cozinha gastos. A casa de Delphine era elegantemente mobiliada, suas coisas esparsas e bonitas. A nossa casa parecia que tinha noventa por cento de todas as coisas vindas de uma loja de 1,99. Os desenhos de Kira, feitos em papéis com as pontas amassadas, cobriam cada superfície livre de paredes. Mas, se reparou nisso, Delphine não comentou. Ela e papai descobriram logo um interesse em comum, que foi a minha total falta de habilidade. Não me incomodei. Isso fez os dois felizes.  

— Você sabia que uma vez ela deu marcha a ré em cima de uma baliza e jurou que a culpa foi da baliza...

— Você precisa ver quando ela abaixa a minha rampa. Eu sinto como se estivesse esquiando.

Papai rolou de rir. Deixei-os conversando.

Mamãe foi atrás de mim, agitada. Ela colocou uma bandeja com copos na mesa de jantar e então deu uma olhada no relógio.

— Onde está Shay?

— Ela vem direto do treino — respondi. — Deve ter se atrasado.

— Ela não podia deixar isso de lado pelo menos no seu aniversário? Esse frango não vai ficar bom se ela demorar demais.

— Mamãe, vai ficar ótimo.

Esperei que ela pousasse a bandeja, depois passei os braços em volta dela e lhe dei um abraço. Ela estava rígida de preocupação. Senti uma repentina onda de afeto por ela. Não devia ser fácil ser minha mãe.

— De verdade, vai ficar ótimo.

Ela se desvencilhou de mim, deu um beijo no alto da minha cabeça e esfregou as mãos no avental. 

— Queria que sua irmã estivesse aqui. Parece errado comemorar sem ela.

Para mim, não parecia. Eu estava gostando muito de ser o foco das atenções, para variar. Talvez parecesse infantil, mas era verdade. Adorei que Del e papai estivessem rindo de mim. Adorei que o jantar (do frango assado à mousse de chocolate) fosse só com meus pratos preferidos. E gostei de ser do jeito que eu quisesse ser, sem que a voz da minha irmã ficasse me lembrando de quem eu tinha sido. 

A campainha tocou e mamãe agitou as mãos.

— Aí está ela. Cos, por que você não começa a servir?

Shay ainda estava corada por causa dos exercícios na pista.

— Feliz aniversário, querida — disse, parando para me beijar. Tinha cheiro de loção corporal e desodorante e a pele morna de quem acabou de sair do banho.

— Melhor ir direto para lá — Acenei com a cabeça em direção à sala de estar. — Mamãe está histérica com a hora.

— Ah — ela olhou o relógio. — Desculpe, devo ter perdido a noção do tempo.

— Com o seu tempo você se preocupa, certo?

— O quê?

— Nada. 

Papai tinha levado a grande mesa desmontável para a sala. E, seguindo minhas instruções, também havia encostado um dos sofás na outra parede, de modo que Delphine pudesse entrar no cômodo sem obstruções. Del manobrou a cadeira de rodas para onde mostrei e elevou um pouco o assento para ficar à mesma altura que todos. Sentei-me à esquerda dele e Shay ficou em frente. Ela, Del e vovô se cumprimentaram com a cabeça. Eu tinha alertado Shay para que não estendesse a mão para Del. Quando me sentei, pude notar que Delphine observava Shay e pensei por um momento se ela seria tão simpático com minha namorada como tinha sido com meus pais. 

Del inclinou a cabeça para mim.

— Se der uma olhada na parte de trás da minha cadeira, vai ver que tem uma coisinha para o jantar.

Olhei e enfiei a mão na bolsa atrás da cadeira de Delphine. Ao puxar minha mão de volta, ela trouxe uma garrafa de champanhe Laurent-Perrier.

— Você sempre deve ter champanhe no seu aniversário — disse ela.

— Ah, olha só — disse mamãe, trazendo os pratos. — Que simpático! Mas não temos taças de champanhe!

— Essas servem — disse Del.

— Eu abro a garrafa — Shay pegou-a, retirou o arame e posicionou seus dedões embaixo da rolha. Continuou observando Delphine, como se ela não fosse quem esperava. 

— Se fizer assim — observou Delphine—, isso vai espirrar para todos os lados — ela levantou o braço mais ou menos um centímetro, num gesto vago. — Acho que segurar a rolha e ir girando a garrafa pode ser mais seguro.

— Eis uma mulher que conhece o seu champanhe — disse papai. — Faça isso, Shay. Girar a garrafa, foi isso que você disse? Bom, quem sabe?

— Eu sei — disse Shay. — Era o que eu ia fazer.

O champanhe foi seguramente aberto e servido, e brindamos ao meu aniversário.

Vovô gritou alguma coisa que bem que poderia ser:

— Ouçam, ouçam.

Levantei-me e fiz uma mesura. Estava com um minivestido amarelo dos anos 60, evasê, comprado no brechó. A vendedora disse que devia ser da Biba, embora alguém tivesse cortado a etiqueta.

— Que este seja o ano em que a nossa Cos finalmente cresça — brindou papai. — Eu ia dizer “que ela faça alguma coisa na vida”, mas parece que finalmente ela está fazendo algo. Preciso dizer, Delphine, que desde que começou a trabalhar com você, ela... bem, ela realmente amadureceu.

— Estamos muito orgulhosos — disse mamãe. — E gratos. A você. Por dar o emprego a ela, quero dizer.

— Sou eu quem agradece — disse Del. E olhou de relance para mim.

— À Cos — disse papai. — E seu sucesso.

— E aos membros da família que estão ausentes — disse mamãe.

— Caramba — exclamei. — Acho que eu deveria fazer aniversário com mais frequência. Nos outros dias, vocês só me perseguem. 

Eles começaram a conversar, papai contando alguma outra história contra mim, o que fez mamãe e ele rirem alto. Foi bom vê-los rir. Naquelas últimas semanas, papai parecia muito cansado, e mamãe estava de olhos fundos, distraída, como se estivesse sempre em outro lugar. Eu quis aproveitar aqueles momentos, vê-los esquecer um pouco os problemas, com piadinhas entre si e sentimento de união familiar. Apenas por um instante, pensei que eu não teria me incomodado se Kira estivesse lá. Aliás, Sarah também.

Estava tão perdida em pensamentos que levei um instante para notar a cara de Shay. Eu estava dando comida para Delphine enquanto dizia algo para vovô, dobrando uma fatia de salmão defumado com os dedos e colocando-a na boca de Del. Aquela era uma parte tão automática do meu dia agora que a intimidade do gesto só me surpreendeu quando vi o choque no rosto de Shay.

Del disse alguma coisa para papai e eu encarei Shay, querendo que ela parasse com aquilo. À sua esquerda, vovô comia com muito gosto, fazendo o que nós chamávamos de seus “sons de comida”: pequenos gemidos e suspiros de prazer. 

— Salmão delicioso — disse Del para mamãe. — Um sabor ótimo, realmente.

— Bom, isso não é algo que façamos todos os dias — disse mamãe, sorrindo —, mas quisemos que hoje fosse especial. 

Pare de encará-la, eu disse a Shay sem emitir som.

Por fim, ela captou meu olhar e olhou para outro lugar. Parecia furiosa. Dei a Delphine outro pedaço de salmão e, quando ela deu uma olhadela para o pão, também ofereci um pouco. Percebi então, naquele momento, que eu estava tão em sintonia com relação às necessidades de Delphine que eu nem precisava olhar para saber o que ela queria. À nossa frente, Shay comia de cabeça baixa, cortando o salmão defumado em pequenos pedaços e pegando-os com o garfo. Deixou o pão. 

— Então, Shay — disse Del, talvez percebendo meu desconforto. — Cosima me disse que você é personal trainer. Como é seu trabalho?

Queria que ela não tivesse perguntado. Shay entrou no seu linguajar de vendedor, falando sobre motivação pessoal e sobre como um corpo em forma constrói uma mente saudável. Então ela foi em frente com sua agenda de treinos para o Norseman Xtreme — as temperaturas do Mar do Norte, as taxas de gordura necessárias para a maratona, seus melhores tempos em cada área. Em geral, a essa altura da conversa eu desligava, mas tudo o que eu podia pensar naquele momento, com Delphine ao meu lado, era em como aquele assunto era inapropriado. Por que Shay não respondeu alguma coisa vaga e pronto? 

— Na verdade, quando Cos disse que você vinha, pensei em dar uma olhada nos meus livros e ver se há algum exercício que eu possa recomendar.

Engasguei com meu champanhe.

— Isso é um tanto específico, Shay. Não sei se você é a pessoa certa para isso. 

— Eu posso fazer treinos específicos. Sei trabalhar com lesões causadas pelo esporte. Tenho treinamento médico.

— Não se trata de uma torção no joelho, Shay. Mesmo.

— Há alguns anos, trabalhei com um homem que tinha um cliente paraplégico. Ele disse que hoje o cliente está quase totalmente recuperado. Participa de triatlos e tudo. 

— Interessante — disse minha mãe.

— Ele me mostrou uma nova pesquisa feita no Canadá, segundo a qual os músculos podem ser treinados para lembrar as atividades que realizavam anteriormente. Se você os trabalhar o suficiente todos os dias, é como uma sinapse cerebral, eles voltam a funcionar. Aposto que, se fizéssemos uma boa tabela de atividades, você notaria diferença em sua memória muscular. Afinal, Cosme disse que você era uma pessoa bastante ativa. 

— Shay— disse eu, alto. — Você não entende nada disso.

— Eu só estava tentando...

— Bom, não. De verdade.

A mesa ficou em silêncio. Papai tossiu e se desculpou. Vovô deu uma olhada geral, num silêncio precavido.

Mamãe fez que ia oferecer mais pão a todos, mas pareceu ter mudado de ideia.

Quando Shay voltou a falar, havia um leve tom de martírio em sua voz.

— Era só uma pesquisa que eu pensei que pudesse ajudar. Não falo mais nisso. 

Del olhou e sorriu, o rosto inexpressivo, educado.

— Com certeza vou pensar nessa pesquisa.

Eu me levantei para recolher os pratos, querendo fugir da mesa. Mas mamãe mandou que eu me sentasse, repreendendo-me.

— Você é a aniversariante — disse, como se algum dia permitisse que alguém fizesse alguma coisa. — Gene, por que não traz o frango?

— Rá-rá. Tomara que ele não tenha batido asas, não? — Papai sorriu, mostrando os dentes numa espécie de careta. 

O jantar seguiu sem qualquer outro incidente. Pude ver que meus pais ficaram completamente encantados com Delphine. Shay, menos. Ela e Delphine mal trocaram outras palavras. A certa altura, mais ou menos quando mamãe servia as batatas assadas (e papai, como sempre, tentava roubar batatas extras), parei de me preocupar. Papai estava perguntando de tudo para Del: sobre a vida que tinha antes do acidente e até como tinha sido o acidente; Del parecia estar à vontade o suficiente para respondê-lo sem rodeios. Na verdade, fiquei sabendo de muita coisa que ela nunca tinha me contado. O trabalho dela, por exemplo, parecia muito importante, apesar de ela não levá-lo muito a sério. Ela comprava e vendia empresas e garantia lucrar com isso. Acho que papai demorou um pouco para entender que, para Delphine, a ideia de lucro envolvia seis ou sete dígitos. Peguei a mim mesma olhando para Del, tentando ajustar a mulher que eu conhecia a que ela descrevia, uma implacável executiva da City, em Londres. Papai comentou com ela sobre a empresa que estava prestes a comprar a fábrica de móveis e, quando deu o nome, Del fez que sim com a cabeça, quase se desculpando, e disse que sim, conhecia a empresa. E que sim, ela provavelmente faria o mesmo também. O jeito como ela disse isso não soou muito promissor para o emprego de papai.

Mamãe apenas arrulhava para Delphine, toda cheia de preocupações com ela. Percebi, ao ver o sorriso dela, que, à certa altura do jantar, Del tinha se tornado apenas uma jovem elegante à sua mesa. Como era de se esperar, Shay estava irritada.

— Tem bolo de aniversário? — perguntou vovô, quando mamãe começou a tirar os pratos.

A pergunta foi tão clara e inesperada que papai e eu nos entreolhamos, pasmos. A mesa inteira ficou quieta.

— Não. — Dei a volta na mesa e dei um beijo nele. — Não tem, vovô. Sinto muito. Mas tem mousse de chocolate. Você gosta.

Ele concordou, satisfeito. Mamãe sorriu radiante. Acho que nenhum de nós poderia ter recebido melhor presente.

A mousse chegou à mesa com um enorme presente quadrado, do tamanho de uma lista telefônica, embrulhado em papel colorido. 

— Presentes, é? — perguntou Shay. — Aqui. Eis o meu. — E sorriu para mim ao colocar o presente no meio da mesa. Retribuí o sorriso. Afinal, não era hora de discussão.

— Vamos, abra o presente — disse papai. 

Abri primeiro o deles, tirando o papel com cuidado para não rasgar. Era um álbum de fotos e cada página tinha uma fotografia de um ano da minha vida. Eu quando era bebê; eu e Sarah meninas bochechudas; eu no primeiro dia de aula no ensino médio, todos aqueles prendedores de cabelo e com uma saia maior que meu número. Mais recentemente, uma foto minha com Shay, aquela em que na verdade estou dizendo para ela não encher. E eu, de saia cinza, no primeiro dia do novo emprego. Entre as páginas, havia fotos da família tiradas por Kira, cartas que mamãe guardou das excursões na escola, minha letra infantil contando sobre os dias na praia, sorvetes perdidos e das gaivotas que gostavam de levar nossas coisas. Folheei o álbum, e apenas hesitei brevemente quando vi a garota com o cabelo preto, comprido, preso para trás. Virei a página.

— Posso ver? — perguntou Delphine.

— Não foi... o melhor ano — respondeu mamãe, enquanto eu passava as páginas diante dela. — Quer dizer, estamos ótimos e tal. Mas, sabe, as coisas são assim mesmo. Outro dia vovô viu um programa na TV sobre fazer seus próprios presentes e achei que isso era algo que poderia... você sabe... realmente ter um significado.

— E tem, mãe. — Meus olhos se encheram de lágrimas. — Eu amei. Obrigada.

— Vovô escolheu algumas fotos — disse ela.

— Isso é lindo — disse Del.

— Eu amei — repeti. O olhar de completo alívio que ela trocou com papai foi a coisa mais triste que já vi. 

— O meu é o próximo. — Shay empurrou a caixinha pela mesa. Abri-a devagar, sentindo-me levemente apavorada por aquilo poder ser um anel de noivado. Eu não estava preparada. Mal tinha conseguido um quarto só para mim. Abri a caixinha e, ali, no veludo azul-escuro, estava uma fina corrente dourada com um pingente de estrelinha. Era doce, delicado e não tinha nada a ver comigo. Eu não usava aquele tipo de bijuteria, nunca usei.

Pousei meus olhos ali enquanto pensava no que dizer.

— É adorável — falei, e ela se inclinou sobre a mesa e prendeu o colar no meu pescoço. 

— Estou feliz que você tenha gostado — disse Shay, e me beijou na boca.

Juro que ela nunca tinha me beijado daquele jeito na frente dos meus pais.

Del ficou olhando, o rosto impassível.

— Bom, acho que agora podemos comer a mousse — disse papai. — Antes que esquente. — Riu alto da própria piada. O champanhe o tinha animado incomensuravelmente.

— Também tem uma coisa para você na minha bolsa — disse Delphine, baixo. — Está na parte de trás da minha cadeira. É um embrulho laranja. 

Puxei o presente de dentro da mochila de Delphine.

Minha mãe parou, a colher de servir na mão.

— Delphine, você tem um presente para Cos? Isso é tão gentil de sua parte. Não é gentil, Gene?

— Sem dúvida.

O papel de embrulho tinha coloridos quimonos chineses estampados. Nem precisei olhar para saber que eu deveria guardá-lo. Talvez até inventar alguma coisa de vestir inspirada nele. Tirei o laço de fita, colocando-o de lado. Abri o papel, tirei o papel de seda que vinha dentro e, ali, olhando para mim, havia as estranhamente familiares listras pretas e amarelas. 

Tirei o papel de dentro do embrulho e, nas minhas mãos, estavam dois pares de meias-calças listradas de preto e amarelo. Tamanho adulto, opacas, de uma lã tão macia que quase escorregaram pelos meus dedos.

— Não acredito — falei. Comecei a rir, aquilo era uma coisa inesperada e alegre. — Céus! Onde você conseguiu isso?

— Encomendei pela internet. Você vai gostar de saber que dei as orientações para a moça pelo novo software de reconhecimento de voz. 

— Meia-calça? — perguntaram papai e Shay em coro.

— Apenas a melhor meia-calça do mundo.

Minha mãe deu uma olhada nelas.

— Sabe, Cosima, tenho certeza que você teve uma exatamente igual quando era bem pequena. 

Del e eu trocamos um olhar. Eu não conseguia parar de sorrir.

— Quero vestir agora — falei.

— Céus, ela vai ficar parecida com o humorista Max Wall numa colmeia — disse papai, balançando a cabeça.

— Ah, Gene, é aniversário dela. Claro que ela pode vestir o que quiser.

Corri e vesti uma delas no corredor. Estiquei o pé em ponta, admirando a simplicidade daquilo. Nunca um presente me deixou tão feliz. 

Voltei para a sala. Del deixou escapar uma pequena aclamação. Vovô batucou com as mãos na mesa. Meus pais riram sem parar. Shay apenas ficou olhando.

— Não consigo nem começar a dizer o quanto gostei — agradeci. — Obrigada. Obrigada. — Estiquei o braço e toquei atrás de um de seus ombros. — Mesmo.

— Tem um cartão junto — disse ela. — Abra em outro momento.

***

— Você nunca me disse que dava banho de gato nela.

Tínhamos ido para o apartamento de Shay, num prédio novo, nos arredores da cidade. Fora anunciado como uma “vista livre” embora as janelas abrissem para uma vendedora de carros e o prédio não tivesse mais que três andares. 

— Isso quer dizer que... você lava a buceta dela?

— Não lavo a buceta dela. — Peguei o demaquilante, uma das poucas coisas que eu tinha sido autorizada a deixar na casa de Shay, e comecei a esfregar o rosto para tirar a maquiagem.

— Ela acabou de dizer que você lava.

— Ela estava só provocando. Depois que você repetiu sem parar que ela costumava ser uma mulher ativa, eu não a culpo por isso.

— Então o que você faz? Está óbvio que você não me contou tudo.

— Às vezes, dou banho nela, mas ela fica de calcinha, e sutiã. 

A cara de Shay disse tudo. Por fim, desviou o olhar, arrancou as meias dos pés e atirou-as no cesto de roupas sujas.

— Seu trabalho não devia incluir isso. O contrato dizia não envolver cuidados médicos. Sem coisas íntimas. Não era parte das suas atribuições. — de repente, ele teve uma ideia. — Você pode processá-los. Alteração contratual, acho que é isso, quando eles mudam os termos de sua função.

— Não seja ridícula. E eu faço isso porque Felix nem sempre pode estar lá e é horrível para Delphine ter uma pessoa totalmente estranha, de uma agência, lidando com ela. Além do mais, já me acostumei. Isso realmente não me incomoda. 

Como eu poderia explicar para ela... que um corpo pode ficar conhecido? Eu era capaz de trocar os tubos de Delphine com hábil profissionalismo e passar esponja de banho na metade superior de seu corpo sem interromper a conversa. Eu nem sequer vacilava diante das cicatrizes. Durante algum tempo, fui capaz apenas de vê-la como uma suicida em potencial. Agora, ela era Delphine — a enlouquecedora, instável, inteligente e engraçada Delphine —, que era minha patroa e gostava de interpretar o professor Higgins para a minha Eliza Doolittle. Seu corpo era apenas uma parte do pacote completo, algo para se lidar de vez em quando, em intervalos, antes de voltarmos a conversar. Para mim, tinha se tornado a parte menos interessante dela.

— Eu realmente não posso acreditar... depois de tudo o que passamos... como você demorou a deixar que eu me aproximasse... e agora tem uma estranha de quem você gosta de chegar perto e ser íntima...

— Podemos não falar disso hoje, Shay? É meu aniversário.

— Não fui eu quem começou, falando em banhos de gato e coisas assim.

— É por que ela é bonita? — perguntei. — É isso? Seria bem mais fácil para você se ela parecesse um, você sabe, um verdadeiro vegetal?

— Quer dizer que você acha ela bonita.

Tirei o vestido pela cabeça e comecei a despir cuidadosamente a meia-calça, os resquícios do meu bom humor finalmente evaporando.

— Não acredito que você esteja fazendo isso. Não acredito que esteja com ciúme dela.

— Não estou com ciúme. — O tom era de desprezo. — Como posso ter ciúme de uma aleijada?

Shay fez amor comigo naquela noite. Talvez “fazer amor” seja um pouco forçado. Fizemos sexo, uma maratona na qual ela parecia decidida a mostrar seus dotes atléticos, sua força e vigor. Durou horas. Se ela pudesse se balançar num candelabro no teto, acho que teria feito isso. Foi ótimo me sentir tão desejada, ser o foco de Shay após meses de certo desinteresse. Mas um pedacinho de mim ficou distante o tempo todo. Desconfiei que aquilo não era para mim, afinal de contas. Entendi logo. A pequena exibição era por causa de Del. 

— Que tal, hein? — ela se enroscou em mim depois, nossa pele grudando um pouco com suor, e beijou minha testa. 

— Ótimo — falei.

— Eu te amo, querida. 

E, satisfeita, ela virou de lado, colocou um braço por baixo da cabeça e dormiu em minutos.

Enquanto o sono não vinha, levantei-me e fui ao andar de baixo até minha bolsa. Remexi, procurando o livro de contos de Flannery O’Connor. Quando tirei-o da bolsa, o envelope caiu. 

Olhei bem para ele. Era o cartão de Del. Eu não o abrira na mesa. Abri-o então, sentindo um estranho volume no envelope. Tirei o cartão cuidadosamente. Dentro, dez notas novinhas de cinquenta libras. Contei-as duas vezes, sem acreditar no que via. O cartão dizia: 

Gratificação de aniversário. Não se anime. É exigência contratual. D.

 

 


Notas Finais


Até amanhã!
Espero que estejam gostando :)


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