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História Me Deixe Ficar - Capítulo 6


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Capítulo 6 - Deixe a verdade doer


Fanfic / Fanfiction Me Deixe Ficar - Capítulo 6 - Deixe a verdade doer

— E porque você tem medo dela?

— Porque ela sempre que fazer o mal para as outras pessoas, sempre é ela.

— Ela te machuca? 

— As vezes sim. 

— E o que te faz ter medo nela?

— O olhar, os pensamentos, o sorriso falso e a vontade de fazer coisas ruins. A voz dela me dando ordens também me assusta. 

Sempre gostei bastante daqueles ursinhos de pelúcia, eu tinha vários tipos de bichinhos e de variadas cores. Sempre ganhava de presente, e quem sempre me dava era meu pai. O meu favorito deles era um unicórnio com cores em tom pastel, e eu nunca desgrudava dele. Brincava e dormia com ele, e até levava na mochila para que ele me fizesse companhia na escola, mas morria de medo de que alguém quisesse tomá lo de mim, então o abraçava o mais forte que podia, para protegê lo. Mas também tinha uma vaquinha engraçada, essa eu também ganhei do meu pai no natal e quando abri a caixa com aquele presente eu não parava de rir, porque para mim ela era muito engraçada. Ela era branca com as manchinhas cor de rosa, e também usava um vestidinho amarelo meio rodadinho, e tinha um tipo de laço borboleta em seu pescoço. Nunca fui fã daquela pelúcia, e raramente a usava para brincar. Ela somente ficava guardada em um canto qualquer enquanto eu brincava com os outros. 

Porém em um passeio no parque, resolvi que levaria todos os que tinha inclusive a vaquinha. E depois de uma tarde inteira brincando, acabei me esquecendo dela, e a perdi para sempre. Na volta para casa chorei muito pedindo que minha mãe voltasse para buscarmos ela, mas não voltamos e eu nunca mais veria ela na minha vida. Isso significa que quando temos algo, não damos o devido valor, precisamos perder o que temos para sentir que realmente faz falta, que aquilo que você julgava não ter muita importância na sua vida é o que vai fazer você chorar quando perde lo. Para o meu pai eu era o seu unicórnio em que ele dava amor e carinho e o protegia, mas ele era a minha vaquinha, qual eu o ignorei e não valorizei. E assim como aquela pelúcia que eu não veria nunca mais, eu também não veria meu pai.

Quando recebi a ligação do hospital dizendo que ele estava internado em estado gravemente ferido, foi o mesmo que levar o tiro em um ponto vital do corpo, deixando tudo à minha volta em câmera lenta. Os ponteiros do relógio na parede do meu quarto se mexiam vagarosamente, e o barulho que ele fazia ao se deslocar adiante era tão audível quanto a minha respiração que se alterava com a sensação tomada em meu corpo e consciência pesada que ponderava sobre mim. Eu sentia meu coração bater tão forte, que por milésimo de segundos achei que poderia estar infartando e que morreria antes mesmo de voltar a minha própria consciência. Me guiei para fora do cômodo e me esforcei para não cair no chão do corredor vazio, tentando ir até as escadas e descer para o andar de baixo. Mas o resto de força das minhas pernas deixaram de existir e no mesmo instante inesperado que elas sumiram me desfiz no chão árduo e frio, caindo por escada abaixo. Tudo em minha volta girava sem parar e com o batente forte do meu corpo no chão tudo começou a escurecer, e sem forças para tentar me erguer para o alto e ficar de pé, me desfiz ali mesmo. A minha consciência apagou, me levando ao início de todo o verdadeiro pesadelo que era a minha vida.

— O que ela diz exatamente? 

— Para terminar o que comecei, e quando eu insisto para ela ir embora, ela me convence sobre o quão fraca estou. Mesmo eu já sabendo disso, ela repete tantas vezes e sem parar que eu não consigo me controlar. 

— De alguma forma você já tentou parar ela? 

A minha risada irônica ecoou por toda a sala, e sem desviar os olhos da mulher a minha frente com aquela pergunta tão óbvia, disse minha resposta:

— Já tentei e considerando meu estado atual provavelmente tentarei novamente. Mas eles nunca deixa, nunca. 

#

— E se colocar as gotinhas de chocolate, fica mais gostoso ainda. - Sorri para mamãe que estava me ensinando a fazer cookies de chocolate.

— Vamos poder levar para o parque? 

— Claro que vamos. Prometi a você, se lembra? - Sim, eu me lembro. Ela disse que me ensinaria a fazer os cookies, mas que eu não podia levar ao forno sem pedir ajuda a ela ou o papai, porque era perigo e podia machucar a minha pele. — Vá se arrumar, daqui a pouco estará pronto e então iremos. 

As tardes no parque eram bastante divertidas, minha mãe fazia meus lanches favoritos e quando não estava muito cansada ela brincava comigo. Eram os melhores momentos que tinha com ela, e eu jamais me esqueceria de todos eles. 

A luz branca e forte invadia  todo o meu campo de visão que lentamente ia se acostumando com a iluminação forte. Não entendi muito bem o que acontecia, pois minha cabeça latejava muito forte e meu corpo parecia ter adormecido por completo, meus sentidos não pareciam tão espertos e aguçados. Conforme o meu corpo ia se acostumando e minha mente voltava a realidade real.

Eu não estava no parque comendo cookies com a companhia da minha mãe, ela nem ao menos estava ali ao meu lado. Era tudo um sonho, onde eu realmente acreditei que era a minha realidade, não em um quarto de hospital com vários aparelhos que mostravam meus batimentos cardíacos. Certamente algo me levou até ali, mas não sabia o que poderia ser, tampouco me lembrava de algo, e minha memória estava bastante confusa. 

— Ah, você já acordou. - Uma enfermeira disse ao entrar no quarto.  — Vou chamar o médico.

Na mesma rapidez que entrou ela saiu, me deixando sozinha novamente e perdida tentando ligar os pontos. Não sei quanto tempo já estava ali, mas tentei me recordar das minhas últimas lembranças. Me lembrava de levar uma bronca, e de chorar até dormir por causa de algo e depois acordar com o toque do celular e uma ligação sobre o meu pai. Mas nem ele estava ao meu lado. Não tinha ninguém ali.

— Bom dia. Como se sente? - Um homem caracterizado de médico entrou no quarto. Ele se aproximou de mim enquanto lia algo em uma ficha médica, que com certeza era a minha. 

— Porque estou aqui? 

— Não se lembra de nada? - Seu rosto não havia evidências de surpresa, mas como se estivesse concluindo algo.

Maneio a cabeça em negação. Não conseguia me lembrar de muita coisa, mas obviamente havia coisas que eu ainda não sabia.

— Você caiu da escada e bateu a cabeça, sofreu algumas lesões. Teve uma concussão, mas não houve ferimentos mais graves. - Explicou de forma lenta e paciente. — Vamos lá, sabe me dizer seu nome? 

— Sakura. Sakura Haruno. 

— Idade? 

— Fiz 18 anos a um mês atrás. Como vim parar aqui? acho que estava sozinha em casa. 

— Uma tia achou você e ligou para a emergência. Daqui a pouco vou pedir para que ela entre. 

— Meu pai também veio? - Perguntei enquanto tentava me levantar, mas meu braço esquerdo doía muito, o que me impediu de achar uma posição melhor. 

— Não faça muito esforço, daqui a pouco poderá receber visitas. 

Havia muito rodeio naquela conversa, e sem nenhuma resposta concreta resolvi que era melhor esperar. Assim que o médico saiu, não demorou muito para a mesma enfermeira de antes voltar e mexer no soro que tomava pela veia. Ela parecia adicionar algum tipo de medicamento e alguns minutos depois comecei a me sentir mais leve, mas lenta e sem noção do que acontecia. Era algum tipo de sedativo que ainda me mantinha acordada, mas lenta e sem ação. Me deitei e fiquei encarando o teto branco daquele quarto, meus pensamentos pareciam estar desligados e tudo que eu fazia era só olhar para cima. Mas nada ainda fazia sentido, não na minha cabeça. 

Consegui dormir por algum tempo, não sei exatamente o tanto que dormi mas foi o suficiente até que o efeito daquele possível sedativo passasse, e com certeza foi ele que me fez apagar por completo. Quando acordei, o médico já estava no quarto na presença de outra pessoa. Era a tia que ele disse que me encontrou e ao olhá la me lembrei dela. Yumi era irmã do meu pai, e eles eram gêmeos. Ela morava na mesma cidade que nós, mas seu bairro era um pouco mais distante e raramente nos víamos. Eu não sabia muito sobre ela e muito menos ela sobre mim, certamente ainda não tinha conhecimento do que estava acontecendo nos últimos meses. 

— Como está se sentindo? - O médico voltou a perguntar. 

— Um pouco melhor, mas ainda estou um pouco confusa. 

— Efeito da pancada e dos remédios, vai ficar assim por alguns dias até que seu corpo se acostume com os medicamentos. - Ele voltou a olhar a ficha médica, e depois começou a anotar algo na mesma. — Amanhã de manhã você terá alta, tente descansar e não fazer tanto esforço. 

— Certo, aonde está meu pai?

— Porque não tenta dormir mais um pouco querida? Não faça muito esforço. - Tia Yumi falou.

Não precisava dormir mais, já tinha feito isso o suficiente só queria saber aonde estava o meu pai. 

— Não preciso dormir mais, só quero meu pai. 

Yumi e o médico se olharam. Minha tia suspirou fundo e abriu a boca para falar algo, mas não disse nada. O médico também parecia meio incerto de dizer algo, mas ele foi o primeiro a dizer algo.

— Senhorita Haruno, seu pai foi trazido para o hospital muito ferido. Tudo indica que ele reagiu a um assalto e foi baleado, algumas testemunhas deram depoimento e a polícia está investigando no momento e provavelmente vão querer falar com você. 

Tudo começou a fazer sentido em minha cabeça. O desafio, o roubo, a briga e depois a morte. Me lembrei de ver ele saindo de casa tarde da noite e depois de receber uma ligação dizendo que ele estava no hospital, e depois de tudo eu acordei aqui. 

— Eu recebi a notícia, mas me disseram que você não tinha chegado ainda ao hospital. Então passei na sua casa e encontrei você desmaiada e com a cabeça sangrando. 

Cada palavra era um baque forte. 

— Quando eu vou poder ver ele? - Um fio de esperança ainda me restava.

— Eu sinto muito querida. - Yumi pegou na minha mão gelada. — Vou ficar com você para o que precisar. 

Comecei a entender o que tudo aquilo queria dizer. Mas me recusava a aceitar a verdade.

— Ele perdeu bastante sangue e já tinha chegado praticamente morto no hospital. Eu sinto muito pela sua perda.

Já não sentia mais nenhuma dor física naquele momento, a única coisa que sentia era culpa. Eu era a culpada.


Notas Finais




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