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História Me mantenha por perto - Capítulo 24


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Notas do Autor


Olha lá quem vem virando a esquina é o autor depois de um século atualizando 🎶 🕺

Gente??? kakaka me perdoa, não tomei meu remédio hoje.

Como vocês estão? Bem, espero. E, se possível, bem quietinhos em casa. Lavando as mãozinhas com frequência e limpando os celulares com álcool, certo? Certo! Lendo muita fanfic também, eu sei !!!

Galerinha do bem, gostaria de avisar que estamos na reta final. Então, segue esse pedacinho. Dividi o capitulo em dois, para não ficar tão longo.
Beijos, boa leitura.

Capítulo 24 - Não se importar (Parte 1)


Um plano, pensou Delphine, precisava de um plano.

Ela girou as chaves no indicador, andando em direção a seu carro no estacionamento do colégio, pensando. Mas logo se deu conta de que era muito mais fácil falar, do que elaborar um.

Delphine nunca foi uma grande planejadora. As coisas simplesmente aconteciam e ela seguia com a corrente, como uma rolha sobre ondas. Em geral isso não era ruim. Na maioria das vezes ela era feliz e se sentia bem em relação a si mesma, embora aquela coisa de se sentir insegura às vezes a atormentasse.

Mas agora a aposta era um pouco mais alta. 

Os dados haviam sido lançados e era o momento de pôr as cartas na mesa. Apostar ou desistir. A partida poderia ser difícil, mas era hora de continuar. Era hora de rolar os dados. De "simplesmente agir".

Ainda que todos os clichês parecessem apropriados, Delphine ainda não sabia o que fazer.

Um plano.

O problema era que ela não sabia por onde começar. 

O que ela deveria fazer? Não poderia simplesmente sair por aí perguntando a data de nascimento de todas as pessoas que aparecessem em sua frente. As pessoas nascem em datas próximas, ou até mesmo na mesma data, essas coisas são comuns.

Não poderia simplesmente ficar analisando as características das pessoas ao redor, isso poderia nunca dar em nada. Afinal, eram bivitelinos. Sim, poderiam ser parecidos. Mas também poderiam não ter absolutamente nada em comum.

Um plano.

Delphine balançou a cabeça, ao se acomodar em frente ao volante. A pior parte disso tudo era que, com ou sem plano, ela estava só.

Sim, os amigos de Cosima não a ajudariam nisso e sabia que Felix tinha razão. Provavelmente era melhor não mexer nisso. Ela ficaria arrasada se discutisse novamente com Cosima. Não havia nem uma semana que tinham brigado. E alguma coisa lhe dizia que, talvez, Cosima não seria tão pacifica desta vez.

Mas o que fazer com sua curiosidade?

E se descobrisse algo? O que faria com a informação?

Enquanto dirigia em direção ao restaurante, para seu terceiro dia de trabalho, ela se deu conta de que afinal não era apenas um plano. Eram ao menos dois.

Um plano para descobrir quem era o irmão. Depois, se descobrisse algo, um plano para contar o que descobrira à Cosima e no fim das contas, Cosima poderia não gostar dela ter se envolvido nisso. 

Talvez devesse deixar isso para lá, pensou mordendo o lábio.

Mas parada ali no semáforo vermelho, ela se deu conta de que o que não podia suportar era a possibilidade de se sentir como se sentira nos últimos dias. Não tinha sido apenas frustração, por eles terem sidos abandonados e separados. Mas que tudo, ela sentia uma necessidade profunda de saber quem era. Pois, alguma coisa dentro de si dizia que essa pessoa estava próxima.

Contudo, apesar de toda a curiosidade, não é preciso ter pressa, pensou engatando a marcha e acelerando. Não precisava ir tão longe em nenhum plano elaborado. Não havia motivos para se precipitar. Era só deixar as coisas acontecerem dando um passo de cada vez.

Sabia que não era um grande plano, mas era o único tipo de plano que sempre fizera na vida: apenas deixar acontecer. Sem pressa, pensou. Se isso for algo que eu deva descobrir, eu saberei quem é com o tempo. 

***

– Uma massagem no pé? – perguntou Cosima, sem se dar ao trabalho de esconder sua incredulidade.

– Foi o que ela contou para Alisson ontem – Disse Felix, avaliando as unhas. Ele havia passado na oficina para calibrar os pneus do carro dos pais. – Você sabe, ela é mais amiga de Alisson e Ali gosta da francesa. Ligou pra ela ontem a noite, para saber como estava indo no trabalho. Papo vai, papo vem...

– Mas... uma massagem no pé? – Cosima o cortou, nem estava prestando atenção no que ele dissera depois disso.

– Temos que admitir que o menino tem talento – observou Caleb, tomando um gole de refrigerante da lata.

– Não foi isso que eu quis dizer – Cosima fez uma pausa, enfiando as mãos nos bolsos do macacão. Seu rosto assumiu uma expressão distraída, enquanto relembrava a conversar rápida que tivera com a namorada, por ligação, na noite anterior. E ela também não lhe falara nada sobre isso naquela manhã na escola. Provavelmente não lembrou, ou não achou que fosse relevante, deduziu Cosima. Caleb se inclinou para frente, começando a falar devagar:

– Olha, detesto dar más notícias, mas ele telefonou para avisar que vem aqui hoje.

Cosima retesou. Santo Deus, mas isso! Ah, hoje estava sendo um dia e tanto.

– E Richard ainda precisa do caminhão para buscar produtos – continuou Caleb – Você vai aprontá-lo, certo? É parte do meu contrato pessoal com a empresa deles, por isso é importante.

– Sim, vou. – Respondeu Cosima e despediu-se de Felix indo para dentro.

*

Um pouco depois das quatro, Cosima estava na parte de fora da oficina, balançando a cabeça pensativamente e fazendo o possível para não estrangular seu cliente.

E para não matar seu pai, por ter lhe empurrado esse cliente em particular. Assim que Paul Dierden havia entrado, Caleb subitamente se lembrara de dar um telefonema importante e sumira de vista.

– Você pode atendê-lo, não é, filha?

Os Dierden's eram uma família dona de vários restaurantes espalhados pelos arredores, e dona de três deles dentro da cidade. Cada qual, especializado em um tipo de comida. O que os tornava uma das famílias mais ricas de Tobermory. Paul nunca nem pensara em trabalhar na vida, mas depois que Delphine começou a trabalhar no restaurante do pai dele. Ah... ai a história mudou. Cosima soubera, pela própria Delphine, que Paul passava todas as tardes no restaurante, e boa parte da noite. Ela tinha certeza, absoluta (ou quase), que Paul não decidira de uma hora para outra começar a trabalhar. Talvez fosse apenas sua raiva crescendo por ele, mas deduziu que aquilo era apenas para ficar ainda mais intimo da loira. Além disso, ficara sabendo mais cedo por Felix, que o filho da mãe havia até se oferecido para massagear os pés da loira depois do expediente, quando Delphine comentou que estava com os pés cansados. E agora Paul estava ali: lhe comendo o juízo.

E ela apenas balançando a cabeça.

Sua família era de longe a maior cliente da oficina, do tipo que pequenas empresas não podiam se dar ao luxo de perder. 

– Mais alto – dizia Paul, começando a ficar com a voz estridente – Eu disse que queria alto!

Paul se referia ao ronco do motor de seu Corvette Callaway recém-comprado. Ele o levara na oficina para Cosima "deixá-lo mais alto". Provavelmente para combinar com o sistema de som estéreo que mandara instalar. Paul iria com o carro para o festival de inverno que teria na cidade vizinha, na semana seguinte, com a esperança de seduzir o máximo de jovens que pudesse. Um rapaz realmente impressionante.

– Está alto – disse Cosima, tentando manter a voz baixa e calma – Mais alto do que isso é ilegal.

– Não é ilegal. – rebateu ele.

– Você será parado pela polícia - disse Cosima – Posso lhe garantir.

Paul piscou como se tentando entender o que Cosima dizia.

– Você não sabe do que esta falando, seu projeto de mecânica estúpida. Isso não é ilegal, ouviu?

– Mecânica estúpida – disse Cosima, balançando a cabeça – Entendi.

Duas mãos em volta do pescoço, os polegares no pomo de Adão. Era só apertar com força e sacudir.

Ela arrumou os óculos no rosto e Paul pôs as mãos nos quadris. Como sempre, usava um Rolex.

– Meu pai não conserta todos os automóveis de entregas e busca de produtos aqui?

– Sim. – respondeu. Paul ergueu as sobrancelhas.

– Ele não é um bom cliente?

– Sim.

– Não foi para cá que ele trouxe o Porsche e o Jaguar?

– Sim.

– Não pagou tudo sempre em dia?

– Sim.

Paul agitou os braços, exasperado, sua voz se tornando mais alta.

– Então por que você não deixou o motor alto? – gritou ele, irritado – Lembro que vim aqui e expliquei isso muito claramente. Eu falei que queria Alto! Para passear pela avenida principal! As garotas gostam do barulho! E não estou indo lá para me bronzear, ouviu?

– Garotas, nada de bronze - disse Cosima, concordando com a cabeça – Ouvi.

 Então faça com que fique alto!

– Alto.

– Sim! E quero o carro pronto amanhã! – exigiu – Tenho planos.

– Amanhã.

– Alto! Consegue entender isso, não é? Alto!

– Sim. – respondeu Cosima.

Atrás de Cosima, Caleb coçava o queixo. Assim que Paul saíra cantando os pneus do Jaguar, ela voltara para a oficina. Cosima ainda estava mexendo no motor, fervendo de raiva e resmungando, e não notara a presença do pai.

– Talvez você devesse deixá-lo mais barulhento – disse Caleb, com ar de riso – Estou me referindo ao motor.

– Essa droga já estava alta o suficiente – Cosima olhou para cima. Sua expressão não deve ter sido das melhores, pois o pai ergueu as mãos, bancando o inocente.

– Só estou tentando ajudar.

– Sim, sei. – resmungou ela –  Como o homem que liga o interruptor da cadeira elétrica. Por que me fez atender aquele... aquele moleque?

– Você sabe que não o suporto.

– Ah, e eu suporto?

– Talvez não. Mas você é muito melhor em negociar com ele do que eu. Lida com isso muito bem e sabe como a empresa do pai dele é um cliente que não podemos perder.

– Negociar – resmungou Cosima – Eu quase o estrangulei.

– Mas não estrangulou. E pense nisto: podemos lhe cobrar mais.

– Mesmo assim não vale a pena. – Cosima suspirou, voltando a mexer no motor. – Alto! Droga.

– Ah, filha, pare com isso. Você se portou como uma verdadeira profissional. Fiquei impressionado.

A menina ergueu os olhos, com a testa franzida.

– Ele me chamou de projeto de mecânica estúpida. – Disse ela, indignada.

– Vindo de Paul, você deveria encarar isso como um elogio – Caleb pôs a mão no ombro da filha – Mas ouça, se isso acontecer de novo, talvez deva tentar algo diferente. Para acalmá-lo um pouco.

– Amordaçá-lo, talvez?

– Não, eu estava pensando em algo um pouco mais sutil.

– Como o quê?

– Não sei – Ele fez uma pausa e começou a coçar o queixo de novo –  Que tal uma massagem nos pés?

Cosima ficou boquiaberta.

Às vezes odiava o pai.

*

Sexta-feira havia chegado, e para Cosima, aquela semana tinha sido torturante.

Delphine não apareceu na oficina para cumprimentá-la a semana toda, falaram-se pouco durante as manhãs na escola, não se viram nas noites daquela semana e as ligações eram rápidas, apenas para desejar boa noite. Delphine estava empolgada com o emprego, mas acima disso, cansada no fim de seu turno.

Está parte estava tudo bem. Ela entendi e estava verdadeiramente feliz pela namorada.

Contudo, a parte torturante era chegar na escola todas as manhãs e ver Paul e Delphine sempre juntos. Eles pareciam cada dia mais próximos, e o que lhe incomodava eram as provocações de Dierden quando Delphine não estava por perto.

Ela sentiu vontade de lhe dar uma boa de uma resposta quando ele perguntou: Como está se sentindo, agora que sua namorada passa mais tempo comigo do que com você? Quando escutou isso, lhe veio meia duzia de palavras na ponta da língua. Porém, preferiu se morder e não dizer nada, não iria descer ao nível dele e se tornar uma "pessoa escrota". 

Contudo, apesar de Paul ser um idiota com ela, era bem obvio que com Delphine ele era muito diferente. Parecia até gente perto dela. 

Sempre que via eles trocando sorrisos, em meio a conversas baixas pelos cantos da escola, tentava não se importar; dizia a si mesma que não havia motivo para isso. Confiava em Delphine e supôs que isso deveria bastar.

Mas pior era que, apesar da sua determinação de não se importar, ela ficara sabendo à poucos minutos, enquanto se despediam no estacionamento do colégio, que Delphine iria para uma espécie de happy hour com os colegas de trabalho depois do expediente, e isso incluía Paul.

Cosima fez o possível para se demonstrar feliz. E estava mesmo, por Delphine. Ela parecia empolgada, alegre e isso a deixava genuinamente feliz pela namorada. Contudo, após tantos dias sem se falar direito, ela havia imaginado que passariam a noite de sexta-feira juntas.

Depois que Paul saíra na tarde passada, ela trabalhou sem parar, na intensão de deixar tudo pronto para que na sexta pudesse voltar antes para casa e planejar uma noite confortável para elas. Sair para comer alguma coisa, talvez dar uma volta e depois ir ao cinema assistir um filme.

Havia se acostumado a ficarem juntas todas as noites e mais do que tudo, ela sentia saudade de Delphine.

Sentia falta de conversar com ela, de ver seu sorriso, ouvir sua risada. De observar o modo como no final da tarde, quando o sol estava na posição certa, seus olhos pareciam mudar de cor, de âmbar para um completo e vívido dourado. De ouvir sua respiração rápida, quando ela estava no fim de uma história engraçada. Até do modo como às vezes Delphine lhe dava socos no braço.

Agora, enquanto arrumava as prateleiras da oficina para ter o que fazer, ela pensava que teria que se adaptar a está nova mudança.Por ser estudante, o pai de Paul decidiu que daria o fim de semana inteiro de folga para Delphine e fora os poucos minutos que teriam nas manhãs entre os intervalos das aulas, eram os únicos dias que teriam mais tempo para ficar juntas.

– Cosima – chamou Caleb, a tirando de seus pensamentos – Você tem visita.

Cosima pôs a cabeça para fora do almoxarifado.

– Quem?

– Advinha.

Antes que pudesse responder, Lorde veio trotando para seu lado quase a derrubando quando pulou se apoiando com as patas dianteiras em seus ombros para lamber entusiasmado seu rosto.

*

– Tentei levá-lo de volta algumas vezes – disse Cosima, parecendo tão perplexa quando Shay – Mas ele não me seguia até lá fora, por mais que eu o chamasse. Cheguei a tentar atraí-lo com um pouco de carne-seca, mas ele não saiu. Pensei em arrastá-lo, mas, para ser sincera, acho que ele é que me arrastaria.

Shay olhou para Lorde, que estava ao lado de Cosima, observando-a com a cabeça inclinada de lado.

– Ainda está chateado comigo, Lorde? – perguntou Shay – É por isso que está agindo assim?

– Por que ele estaria chateado com você? – perguntou Cosima, juntando as sobrancelhas.

– Nós brigamos.

– Ah. – reagiu ela, tentando não rir.

– Você vai ficar sentado ai ou vem pra cá? – perguntou Shay.

O cão lambeu os beiços, mas não se moveu.

– Lorde, venha – ordenou Shay. – Ele continuou onde estava. – Junto! 

Embora Shay nunca tivesse dado esse comando, não sabia mais o que dizer, e quando pareceu que ela estava começando a ficar irritada, Cosima acenou para o cão.

– Vá, Lorde. Antes que você fique ainda mais encrencado.

Ao comando de Cosima, Lorde se levantou e, parecendo um pouco relutante, foi para perto de Shay. A loira pôs as mãos nos quadris, entreabrindo os lábios.

– Ah. Então agora você obedece a Cosima?

– Não me culpe por isso – disse ela, tentando parecer inocente – Eu não fiz nada.

– Não estou te culpando. Só não sei o que deu em Lorde – O cão se sentou ao lado dela e olhou para cima – Então, o que ele fez aqui a tarde inteira?

– Cochilou, roubou meu sanduíche de peru quando levantei para pegar uma bebida e foi lá para os fundos fazer suas necessidades. Foi como se ele tivesse se mudado para cá por um dia.

– Você o achou estranho?

– Nem um pouco. Fora estar aqui, pareceu bem.

– Não estava chateado?

Diante daquilo, Cosima coçou a orelha, sabendo que Shay considerava aquela pergunta séria.

– Bem, para ser sincera... – começou ela devagar – ele não mencionou nada, pelo menos não para mim. Quer que eu pergunte para meu pai? Talvez eles tenham conversado enquanto eu arrumava o almoxarifado.

– Está zombando de mim?

– Não, de jeito nenhum. Você sabe que eu jamais faria isso.

– Ótimo, porque, depois de quase perder meu cão, não estou com humor para piadas.

– Você não o perdeu. Ele estava comigo.

– Sim. E agora ele gosta mais de você.

– Talvez apenas sinta saudades de mim. – Cosima torceu o nariz, sorrindo – Sou meio viciante, sabe?

Pela primeira vez desde que chegara, Shay sorriu.

– Ah, é?

– O que posso dizer? – Cosima ergueu os ombros – Isso é uma maldição.

Shay riu, cruzando os braços.

– Deve ser difícil estar no seu lugar.

– Você não faz ideia. – respondeu Cosima, se recostando na bancada – O que vai fazer agora?

– Vou para casa, dar uma limpada por lá – respondeu Shay – E você? Quais seus planos?

– Nada, na verdade – disse Cosima olhando ao redor – Terminei todos os meus consertos ontem, não tenho nada para fazer aqui hoje. Acho que vou para casa, achar alguma coisa pra fazer.

*

Uma hora depois, Shay estava debruçada sobre a pia da cozinha esforçando-se para manter no lugar os panos de prato que amarrara às pressas na torneira quebrada e fazendo o possível para conter o fluxo de água que jorrava para o teto. Pegou outro pano, juntou os demais e o apertou com mais força, reduzindo um pouco o jato. Infelizmente, isso também fez a água esguichar em sua direção.

– Pode trazer meu telefone? – gritou ela, erguendo bem o queixo para a água não atingir seu rosto.

Lorde foi para seu quarto e um instante depois, com sua mão livre, Shay pegou o celular da boca do cão. Ela apertou a tecla com o primeiro número em sua lista de discagem rápida.

*

Cosima estava no sofá comendo Doritos, com os dedos cheios de pó cor de laranja e uma lata de refrigerante entre as pernas. Ao seu lado, tinha mais um pacote de salgadinho junto com o Big Mac que havia comprado (e comido) a caminho de casa, esse era seu lanche. Seus pais estavam trabalhando, e provavelmente o jantar sairia tarde. 

Alguns minutos mais tarde, Cosima foi arrancada de sua concentração no filme que assistia e se sobressaltou, quando o telefone na mesa ao lado subitamente tocou como um alarme. Sua mão se moveu para frente, enviando uma erupção vulcânica de Doritos em todas as direções e derramando refrigerante em seu colo. Agindo por instinto, tentou retirá-lo, mas só conseguiu deixar marcas cor de laranja em sua calça de moletom cinza.

– Droga – disse ela, pondo de lado a lata e o saco vazios. Sua mãe iria lhe matar pela bagunça que fizera na calça – e, pior, no sofá. Ainda bem que havia como limpar, pensou.

Estendeu o braço para pegar o telefone enquanto, com a outra mão, tentava limpar a mancha de refrigerante da calça. Mais manchas. O telefone tocou de novo antes que ela pegasse.

– Alô?

– Oi, Cosima – disse Shay, parecendo estressada – Está ocupada?

O refrigerante continuou a escorrer pelo tecido de couro sintético do sofá ensopando sua calça e ela mudou um pouco de posição, esperando ficar mais confortável. Imediatamente constatou que não foi uma boa ideia, porque o refrigerante escorreu até o fundo de suas calças. Agora estava com uma sensação de frio, em suas partes íntimas, que poderia dispensar.

– Não muito – respondeu.

– Você parece distraída. – observou Shay.

– Desculpe-me foi um pequeno acidente envolvendo meu jantar... quer dizer, lanche.

– O quê?

Tentando ignorar o desconforto, Cosima pegou o saco e começou a juntar os Doritos que caíra no sofá.

– Não foi nada sério – declarou – Ficarei bem. Então, o que houve?

– Preciso de ajuda.

– Precisa? – perguntou ela, parando de juntar os Doritos.

– Minha torneira quebrou. Minha mãe está na loja só chega depois das nove. Meu irmão não está em casa, e duvido que se estivesse ele fosse capaz de...

– Como isso aconteceu? – perguntou Cosima, a interrompendo.

– Como vou saber?

– Você a abriu com força ou fez alguma coisa?

– Não, só tentei usá-la.

– Ela estava solta antes?

– Realmente não sei. Você pode me ajudar ou não?

– Vou ai. Mas primeiro tenho que trocar de calça – disse ela, decidindo rapidamente.

– O quê? – perguntou Shay soando verdadeiramente confusa.

– Esqueça. – pediu Cosima – Chegarei em alguns minutos. Tenho que passar na loja de ferragens para comprar uma torneira nova.

– Não vai demorar muito, vai? – perguntou Shay, com a voz tensa – Estou presa, segurando um pano aqui, e preciso ir ao banheiro. Se eu cruzar mais as pernas, vou acabar torcendo os joelhos.

– Estou a caminho. – Disse Cosima desligando o telefone.

Na pressa de se arrumar para sair, e com a perspectiva de ter alguma coisa para fazer que não fosse ficar em frente a Tv, conseguiu cair apenas uma vez ao pôr as calças limpas. 

*

– Davy? – chamou Cosima ao entrar na casa.

Shay esticou o pescoço, aliviando um pouco a pressão sobre os panos de prato.

– Estou aqui, Cos. Mas acho que aconteceu alguma coisa. Parece que não está mais vazando.

– Eu fechei o registro de água lá fora. Não vai mais vazar água.

Após retirar a jaqueta e a deixar na entrada Cosima adentrou a casa, enfiou a cabeça pela porta da cozinha e uma coisa subitamente lhe chamou a atenção: seios.

Seios médios. 

Redondos. 

Firmes e aparentes sob o tecido da camisa azul clara. 

Transparente.

Shay estava ensopada e o contorno de seus seios, assim como os mamilos rijos, eram claramente visíveis. Com seus longos cabelos loiros molhados e a camisa colada, ela parecia uma daquelas garotas cobiçadas por rapazes arruaceiros nas férias de primavera, que acham que camisetas molhadas e competições de quem bebe mais cerveja são o ponto alto de suas vidas.

– Você nem imagina como estou grata por você ter vindo – disse Shay, suspirando aliviada. Ela sacudiu o excesso de água das mãos e tirou os panos de prato da torneira. 

Cosima mal conseguiu ouvi-la. Não olhe para os seios dela, disse a si mesma, faça o que fizer, não olhe para os seios dela. Ela é sua amiga e você não deve olhar. Você tem namorada e não deve olhar. Abaixando-se, ela abriu a caixa de ferramentas. Lorde se sentou ao seu lado e cheirou a caixa, como se procurasse petiscos.

– Não precisa agradecer – murmurou ela.

Shay começou a torcer os panos de prato, um de cada vez.

– Estou sendo sincera. Espero não ter interrompido nada importante.

– Não se preocupe com isso. – murmurou olhando para sua caixa, que de repente se tornara tão interessante.

Ao torcer o último pano, Shay afastou a camiseta de sua pele e olhou para Cosima.

– Você está bem? – perguntou.

Engolindo em seco, Cosima começou a procurar a chave articulada.

– Estou sim. Por quê?

– Parece chateada.

– Não estou.

– Você nem está olhando para mim. – observou Shay.

– Não estou olhando. – Cosima arrumou os óculos, com o olhar fixo na caixa.

– Foi o que acabei de dizer.

– Ah.

– Cosima? – chamou franzindo as sobrancelhas.

– Aqui está – disse ela de repente, dando graças a Deus pela oportunidade de mudar de assunto – Estava rezando para tê-la trazido. – falou avaliando a chave.

Com a pele arrepiada pelo frio que a água gelada lhe causara, Shay continuou a olhar para ela, intrigada com o comportamento estranho de Cosima.

– Acho que vou trocar de roupa – disse ela por fim.

– É uma boa ideia – murmurou Niehaus.

O trabalho deu a Cosima algo em que se concentrar e ela tratou de iniciá-lo na mesma hora, nem que fosse para tirar a imagem de Shay de sua mente.

Espalhou ao redor alguns panos que pegou no armário e enxugou a maior parte da água que escorrera para o chão. Depois esvaziou o gabinete debaixo da pia, pondo os frascos dos vários produtos de limpeza ao lado da porta. Quando Shay voltou do banheiro, Cosima já estava trocando a torneira. Só dava para ver seu tronco e suas pernas esticadas. Apesar dos panos, tinha partes das calças jeans molhada em vários lugares, por ter se ajoelhado no chão inundado. Lorde estava deitado ao seu lado, com a cabeça enfiada no armário escuro.

– Quer parar de ofegar? – queixou-se Cosima. Lorde ignorou esse comentário e Cosima bufou, tentando respirar pela boca.

– Estou falando sério. Você está com um bafo horrível. – Lorde agitou o rabo para cima e para baixo e a loira quase riu alto observando os dois – E me dê um pouco de espaço, está bem? Você está me atrapalhando. – ralhou Cosima. Shay viu ela empurra-lo – ou melhor, tentar empurra-lo.

Depois de toda aquela água gelada, ela ficou com frio, por isso vestira calças jeans e uma blusa de moletom leve. Ainda estava com os cabelos molhados, porém penteados para trás, afastando do rosto.

– Como está aí embaixo? – perguntou ela.

Ao som de sua voz, Cosima levantou a cabeça, batendo-a no sifão metálico da pia e resmungou baixinho pela dor. Além disso, sentia no rosto o bafo quente de Lorde e o cheiro fazia seus olhos lagrimejarem.

– Está quase pronto. – respondeu

– Já? – perguntou Shay, surpresa.

– Não foi muito difícil. Só tive que tirar algumas porcas para a torneira sair. – explicou ela, sua voz abafada embaixo da pia – Não sabia que tipo de torneira você queria, por isso comprei uma parecida com a antiga. Espero que goste.

– Está ótima – Disse Shay olhando para a torneira em cima da bancada.

– Posso voltar lá e comprar uma diferente se você quiser. Não seria problema.

– Não, desde que funcione, está perfeita.

Ela observou Cosima trabalhar com a chave articulada e, para sua surpresa, se pegou olhando os músculos dos braços dela se contraindo com os movimentos. Um instante depois ouviu o som de algo caindo no armário.

– Consegui – disse Cosima. Ela saiu de debaixo da pia e, ao ver que Shay havia trocado de roupa, relaxou. Assim era mais fácil. Por mais idiota que pudesse parecer, era menos ameaçador. Havia menos seios à vista. Cosima se levantou, desencaixou a torneira velha e a entregou a Shay.

– Você realmente a destruiu – observou, apontando para o grande buraco em cima – O que usou para abri-la? Um martelo?

– Não. Dinamite.

– Deveria usar um pouco menos da próxima vez.

Shay riu avaliando a torneira.

– Pode me dizer o que causou isto?

– Acho que a idade. Provavelmente é a torneira original da casa... – Disse Cosima, Shay assentiu deixando a torneira sobre a bancada – Só mais um minutinho e deixarei tudo em perfeitas condições, está bem?

– É claro. – a loira ergueu as sobrancelhas cruzando os braços, enquanto observava a agilidade da outra.

Cosima pôs a torneira nova no lugar, voltou para debaixo da pia e a fixou com as porcas novas antes de instalar a mangueira hidráulica. Depois, pedindo licença para sair da cozinha, desapareceu pela porta por um instante, com Lorde trotando atrás dela. Após religar o registro, voltou e testou a torneira para certificar-se de que não estava vazando.

– Parece que já pode usar. – Disse ela sorrindo, abrindo e fechando a torneira várias vezes.

– Ainda acho que você fez isso parecer muito simples – disse Shay suspirando com as sobrancelhas erguidas – Antes de vir, eu estava me perguntando para qual bombeiro poderia ligar se você não conseguisse concertá-la.

Fechando a torneira pela última vez, Cosima olhou para a loira e se fez de ofendida.

– Não posso acreditar que pensou uma coisa dessas, mesmo depois de todo esse tempo.

Shay deu uma risada descruzando os braços, e involuntariamente levou uma das mãos aos cabelos molhados, os colocando de lado. Sorrindo de canto, Cosima se agachou para começar pôr os produtos de limpeza no lugar.

– Ah, não! – exclamou a loira se aproximando – Deixe que eu faço isso – disse Shay, ajoelhando-se perto dela – Eu posso fazer alguma coisa.

Um minuto depois, elas haviam arrumado tudo e o armário já estava fechado. Os panos de prato, ainda pingando, haviam sido reunidos numa trouxa por elas. Shay levou-os para a lavanderia e Cosima começou a guardas suas ferramentas. Quando Shay voltou, foi direto para a geladeira.

– Não sei quanto a você, mas depois de toda essa agitação eu preciso tomar alguma coisa.

– Eu adoraria.

Shay pegou uma lata de cerveja e entregou uma de refrigerante para Cosima, nem se deu ao trabalho de perguntar se ela queria uma cerveja. Sabia que Cosima não bebia nada alcoólico. Após abrir os lacres, ela bateu com sua lata na de Niehaus.

– Obrigada por ter vindo. Sei que já disse isso, mas precisava dizer de novo.

– Não é para isso que servem os amigos? – perguntou Cosima, sorvendo um gole de seu refrigerante.

– Venha – chamou Shay, acenando com a lata – Vamos nos sentar na varanda dos fundos. O tempo está bom demais para ficarmos aqui dentro.

Ela estava a se dirigir a porta quando parou de repente.

– Espere. Você disse que havia jantado? Quero dizer, quando telefonei?

– Era só um lanche – respondeu Cosima – Por que está perguntando?

– Porque estou morrendo de fome. Com toda essa confusão, não tive tempo de comer. Se não tiver planos, sabe... com Delphine... – Cosima negou lentamente com a cabeça – Bem, se está livre, que tal uma pizza? – Shay perguntou, torcendo o nariz.

– Parece ótimo.  – Cosima sorriu.

Shay pegou o telefone e, enquanto ligava para a pizzaria, Cosima se perguntou se Delphine de algum modo poderia ficar brava com aquilo.

– Que tal uma de presunto com abacaxi? – gritou Shay da sala.

Cosima engoliu em seco.

– O que você quiser está bom para mim.

Elas se sentaram nas cadeiras de balanço, com o calor de suas peles escapando para a noite fria. O sol enfim se pusera. Como ainda era inverno, o anoitecer chegava antes e os últimos raios refletiam do horizonte, brilhando entre as árvores. Lorde cochilava perto dos degraus, mas abria um olho de vez em quando, como se quisesse se certificar de que não estava perdendo nada. À luz que diminuía, as feições de Shay assumiram um brilho pálido. Cosima deu um gole no refrigerante, olhando para ela enquanto bebia. Em silêncio, Shay admirava a paisagem a frente. O sol sumia no horizonte deixando para trás seu último brilho daquele dia. Um brilho suave e alaranjado, que espalhava-se pelo gramado.

– Foi por isso que meu pai comprou essa casa – disse Shay com a voz suave, quebrando o silêncio – Pela quietude e, segundo ele, principalmente por causa dessa vista.

– É maravilhosa, não é? – Cosima perguntou desviando os olhos em direção aonde Shay olhava. A loira sorriu assentindo. A cerveja estava descendo com facilidade e Shay deu outro gole.

– Posso lhe fazer uma pergunta? – disse Cosima, após alguns minutos em silêncio.

– É claro.

Ela pigarreou, inclinando a cabeça para observar a loira novamente.

– O que aconteceu para o Edu te chamar para tomar alguma coisa no domingo passado? – perguntou suavemente – Ele não me contou o motivo, e eu preferi não insistir. Mas... meio que fiquei pensando nisso. Ele sabia que você estava namorando, não faria isso.

Desviando os olhos, Shay tomou mais um gole da cerveja e mudou de posição na cadeira, sentando sobre a perna e apoiando o queixo na mão esquerda.

– Ah, sabe como é... – disse ela, deixando a frase morrer no ar.

– Não, na verdade, não sei. – Cutucando a tinta branca que descascava do braço da cadeira, Cosima ficou em silêncio por um instante, antes de acrescentar – E você também não me contou como você e Sarah terminaram.

– Não havia muito para contar.

– Você sempre diz isso quando o assunto é ela. Mas qual é a verdadeira história?

Shay levou a lata aos lábios novamente, percebendo que era o último gole. Ela sorveu, engoliu, abaixou os olhos para o colo e ficou calada por um longo tempo, pensando. E então deu de ombros suavemente.

– Você não vai gostar de saber.

– O que ela fez? – perguntou Cosima, ligando os pontos – Traiu você quando sumiu e Eduardo viu?

Shay não respondeu, então Cosima soube que seu palpite estava certo. Ela suspirou pesadamente, sem saber o que dizer e sabendo perfeitamente porque Shay não lhe contara isso antes. Assim como ela conhecia Shay, a loira também a conhecia e provavelmente sabia que, no calor do momento, ela voaria na garganta de Sarah.

– Sinto muito por você. – Foi tudo que ela conseguiu dizer.

– Eu também. Ou pelo menos senti. – Ela soltou um suspiro delicado, e um instante depois, enquanto raspava a unha do indicador no jeans de sua coxa direita, começou a relatar o que Eduardo lhe contara – Não sei com quem foi, não quis perguntar para o Du. Tipo, não faz diferença. – concluiu Shay.

Cosima assentiu e tomou o resto do refrigerante, com sua cabeça trabalhando sem parar, então perguntou:

– Como você reagiu?

– Você quer saber se eu fiquei zangada? – perguntou Shay, sorrindo de canto – É claro. Mas, para ser sincera, a gente não estava dando certo mesmo – disse Shay colocando uma mexa de cabelo atrás da orelha – Não sei, mas parte de mim ficou aliviada em terminar com aquilo.

Ambas se calaram por um instante e, notando que o refrigerante de Cosima estava quase no fim, Shay perguntou:

– Quer outra lata?

– Provavelmente.

– Vou buscar pra você.

Cosima se levantou e afastou um pouco a cadeira para lhe dar passagem. Ao passar por ela, Shay não pode evitar sentir o calor que irradiava do corpo de Niehaus. 

Ao passar pela porta, Shay balançou a cabeça, tentando afastar o arrepio que lhe percorreu a pele. Era involuntário, mas isso não era permitido. Se Cosima estivesse solteira e tivessem comendo algo mais sofisticado, talvez pudesse perguntar se, alguma vez, Cosima já fora atraída por si, como Sarah insinuara, mas pizza e cerveja? Com ela namorando? Não, disse a si mesma, não estrague isso. Era apenas uma noite normal. Como tudo costumava ser antes, quando apenas sentavam ali e comiam uma pizza batendo bapo.

Ela voltou, lhe entregou a lata de refrigerante e se sentou de novo, abrindo o lacre de sua segunda cerveja.

– Eduardo também costuma dizer isso, sabia?

– O quê?

– "Provavelmente". – Shay sorriu sorvendo um longo gole da bebida –  Às vezes, em algumas ocasiões, quando eu ofereço outra bebida essa é a resposta.  Ele aprendeu isso com você?

– Provavelmente.

Shay riu mais longamente, sentindo os efeitos da cerveja.

– Ele contou que vamos sair amanhã? – perguntou.

Cosima assentiu.

– Parece feliz e empolgado com isso – observou Cosima.

– Eu também.

– Tenho certeza disso. – disse Cosima sorrindo olhando na direção das sombras das árvores, que se tornavam mais escuras – Eduardo é uma pessoa boa. Na verdade, ele é ótimo. Você não poderia ter arranjado ninguém melhor.

Shay se recostou na cadeira, pensando em quanto havia gostado do que Cosima dissera.

– Você também é uma pessoa boa.

– Sim. Eu e um milhão de outras. Mas não como Edu.

– É claro que é. – Shay franziu a testa – Vocês nasceram na mesma cidade pequena, tem amigos em comum e gostam de fazer as mesmas coisas. Na maioria das vezes, Edu parece mais seu irmão do que Erick meu. Vocês são parecidos em muitas coisas. Exceto, é claro, pelo fato de que Edu jamais teria conseguido consertar aquela torneira. Ele não sabe fazer um simples reparo.

– Bem... – Cosima torceu o nariz – Uma torneira não é nada para mim. Eu sei desmontar um carro inteiro.

– Modesta você – Shay sorriu de canto, tocando de leve o braço dela – Mas... é verdade. E o mais importante – advertiu Shay, erguendo as sobrancelhas – Sabe remontar.

Cosima sorriu tomando um gole de sua lata. A distância, pequenos morcegos apareciam e sumiam num piscar de olhos, como se nunca estivessem estado ali.

Minutos depois a pizza chegou. Um adolescente cheio de espinhas e usando óculos de armação grossa examinou a nota durante um tempo estranhamente longo antes de gaguejar para a loira o valor a pagar.

Cosima ia pegar o dinheiro no bolso da calça quando Shay a afastou com uma cotovelada, já com a bolsa na mão.

– Nem pense nisso. Esta é por minha conta.

– Mas eu sempre como mais.

– Pode comê-la inteira se quiser. Vou pagar mesmo assim.

Antes que Cosima pudesse se opor, Shay entregou o dinheiro ao rapaz, dizendo-lhe que ficasse com o troco. Ele gaguejou uma despedida à Shay, que olhou para Cosima com as sobrancelhas erguidas assim que o rapaz saíra.

– Arrasando corações – provocou Cosima, com ar de riso. Shay revirou os olhos, depois levou a caixa para a cozinha. 

– Posso servir em guardanapos? – perguntou ela, olhando por sobre o ombro.

– Eu sempre como em guardanapos. 

– Eu sei – Shay sorriu, piscando um olho.

Durante a hora seguinte elas comeram juntas, conversando tranquilamente num tom familiar, como sempre fizeram. Falaram sobre a infância, sobre as vezes em que nadavam no lago da casa da avô Alicia, dos bolos de canela e das aulas de francês nas tardes em que passavam com ela, entrem outras coisas em que se lembravam e depois o assunto mudou para acontecimentos da cidade e as pessoas que conheciam. De vez em quando Lorde gania, parecendo se sentir ignorado, e Cosima lhe atirava um pedaço de pizza, sem interromper a conversa. De tênis e jeans, com as pernas erguidas e apoiadas no guarda-corpo da varanda, Cosima tinha um beleza simples e natural. Mas Shay sempre soubera disso.

Ficar na companhia de Cosima, refletiu Shay, não era como os encontros que tivera. Não havia nenhuma pretensão nisso, nenhum significado oculto nas frases que diziam, nenhum plano elaborado para impressionarem uma a outra. Embora sempre tivesse sido agradável ficar na companhia de Cosima, ela de repente percebeu que, no turbilhão das últimas semanas, quase se esquecera do quanto gostava disso.

Pensando nessas coisas, Shay tomou um pouco de sua água, observando Cosima comer, com os cantos dos lábios ligeiramente erguidos e lutando com os fios de queijo que se esticavam de sua boca para a fatia de pizza, fazendo aquilo parecer mais difícil do que era. Depois de dar uma mordida, às vezes ela se aprumava e se atrapalhava com o pedaço, usando um dos dedos para impedir que o recheio caísse ou o molho de tomate pingasse. Então, rindo de si mesma, limpava o rosto com um guardanapo, murmurando algo como "quase acabei com minha camiseta".

O fato de Cosima não se levar muito a sério, e não se importar quando ela também não a levava, fazia com que Shay sentisse por Cosima uma ternura que a lembrava de como imaginava que casais idosos se sentiam sentados de mãos dadas em bancos de parques. Ainda estava pensando nisso alguns minutos depois, quando seguiu Cosima até a cozinha, as duas carregando os restos do jantar, e a viu encontrar o plástico-filme na gaveta ao lado do fogão sem precisar perguntar onde estava.

Quando Cosima se encarregou de embrulhar a pizza e guardá-la na geladeira e depois, automaticamente, estendeu o braço para o lixo, notando que estava cheio, houve um momento, apenas um momento, em que a cena pareceu não estar ocorrendo agora, mas em algum momento no futuro, como se fosse apenas uma noite comum entre outras que Cosima passaria em uma casa, com uma esposa, cachorro e filhos correndo ao redor enquanto ela levava o lixo para fora.

– Acho que está tudo arrumado – disse Cosima lavando as mãos, olhando ao redor na cozinha.

O som de sua voz trouxe Shay de volta ao presente e ela sentiu uma estranha sensação de aperto lhe subindo pela garganta.

– Acho que sim – concordou engolindo em seco – Obrigada por me ajudar a recolher as coisas.

Durante alguns segundos nenhuma das duas falou nada. Percebendo que Shay parecia meio cansada, Cosima sorriu juntando as mãos depois de seca-las.

– Acho melhor eu ir andando. Tenho que acordar cedo amanhã.

Shay concordou com a cabeça.

– Eu imaginei. Talvez eu também deva ir para a cama. Na noite passada, Lorde me manteve acordada durante horas.

– O que ele fez?

– Ganiu, andou de um lado para o outro... quase tudo que pôde para me irritar.

– Lorde? – Cosima franziu as sobrancelhas – O que está acontecendo?

– Ah, ele está com uma mania de só querer dormir na minha cama agora. E não sossega até que eu deixe. Mas o problema é que ele dorme encima de mim. – Shay ergueu as sobrancelhas – Ele pesa quase o dobro do que eu peso.

– Foi por isso que brigaram hoje? – perguntou Cosima, sorrindo. – Isso vai ser um problema, Lorde. – comentou ela, olhando para o cão. Lorde girou ao redor de Cosima. Ela acariciou a cabeça e as costas do cão e depois coçou a parte de trás de suas orelhas enquanto falava – Logo sua dona vai querer dormir com outra companhia na cama. Trate de ser bonzinho, hein? 

Shay sentiu uma onda quente e rubra lhe subir pelo pescoço e chegar ao rosto. Quando Cosima parou o carinho, Lorde levantou e abaixou a cabeça, pedindo mais.

– Por hoje chega, grandalhão  – disse Cosima pegando sua caixa de ferramentas, a torneira que substituíra e a ergueu – Bem, obrigada por me chamar para resolver isso. Acredite ou não, fico feliz por ter ligado. Eu me diverti muito está noite.

Elas se olharam por um momento antes de Cosima desviar os olhos. Shay sentiu o ar saindo de seus pulmões. Não havia notado que prendera a respiração e, sem querer, viu-se observando Cosima andando à sua frente em direção a porta. Os jeans se ajustavam perfeitamente ao corpo dela e Shay sentiu seu rosto corar novamente, o sangue aflorando à superfície como a lama agitada no fundo do lago.

Elas andaram lentamente em direção a caminhonete, ambas imersas nos próprios pensamentos. Cosima estendeu o braço e abriu aporta da caminhonete, deixando a caixa de ferramentas ao lado do banco do motorista. Depois, deu um pequeno passo para trás.

– Ouça... – disse Cosima, levantando os olhos para olhar a loira – Quando você vai voltar a correr comigo? Eu... sabe, sinto sua falta.

Shay passou as mãos nos cabelos, e, delicadamente, soltou um suspiro desviando os olhos. Ela também sentia falta, mas não queria causar problemas a amiga. Cosima ficou em silêncio por um instante, ali na escuridão os olhos azuis de Shay eram cor de mar em meio a uma tempestade noturna e seus cabelos eram como uma cachoeira prateada ao luar. Observando isso, Cosima resistiu a tentação de dizer isso a Shay e preferindo não pressionar a loira, mudou de assunto.

– Gostei muito da noite de hoje, obrigada pela pizza – disse ela se aproximando, abrindo os braços e Shay se aninhou entre eles, como sempre costumava fazer. Cosima a puxou para junto de si, abraçando-a com carinho e Shay se apoiou contra seu corpo, sentindo-se confortável nos braços dela. Elas ficaram alguns segundos assim, abraçando-se com força sob a luz do luar e, por um instante, Cosima teve a impressão de senti-la tremer contra seu corpo.

Quando finalmente elas se afastaram, parada ali tão próxima diante de Niehaus, um pensamento repentino e louco passou pela cabeça de Shay: o de que Cosima fosse querer beijá-la. 

No mesmo instante percebeu também que isso era ridículo, absurdo. Uma completa besteira. Cosima jamais a beijaria. Cosima jamais a desejou de qualquer forma que não fosse apenas amizade. E estava tudo bem, Niehaus era uma pessoa importante em sua vida. Fazia muito tempo que já não se sentia assim perto dela e , naquele instante, odiou-se por dar ouvidos ao que Sarah disse. Com esse pensamento desviou os olhos, e antes que Cosima pudesse notar sua confusão, tratou de voltar ao normal, não desejando que a noite terminasse com algo que poderia ser desagradável.

– De nada pela pizza – Shay sorriu, cruzando os braços – obrigada pela companhia, odeio beber cerveja sozinha.

– Eu sei – Cosima sorriu e, se afastando, sentou-se ao volante – Eu não bebo, mas pense pelo lado positivo, Eduardo também gosta de tomar umas beritas. Alguém tem que se manter sóbrio para dirigir.

– É verdade – Shay riu, passando a mão nos cabelos, os colocando-os para trás.

– Bem... – Cosima suspirou, sentindo que seu corpo estava cansado – Boa sorte no seu encontro de amanhã – desejou ela, batendo a porta da caminhonete. – Vou dormir como uma anjo essa noite.

– Não vai ver sua namorada hoje?

– Acho que não – respondeu Cosima, olhando para frente – Ela saiu com os colegas do trabalho. Acho que só vamos nos ver amanhã.

Shay assentiu, mordendo a parte interna do lábio.

– O turno dela termina muito tarde?

– Não muito, as oito da noite. Mas não estamos nos vendo durante a semana, ela fica meio cansada. – Explicou Cosima, e mudando subitamente de assunto, disse – Diga um alô para o Edu amanhã. Tenho certeza que vai ser maravilhoso – Cosima sorriu e piscando um olho deu partida no motor. – Vocês farão um casal lindo.

Lembrando de tudo que falaram sobre Eduardo naquela noite, Shay sorriu e assentiu. Assim que Cosima começara a se distanciar, acenou para ela e, enquanto as lanternas traseiras da caminhonete desapareciam na curva da estrada, ela percebeu como ficara feliz com o que Cosima dissera. Niehaus sempre foi uma garota racional, e o fato dela nunca ter dito nada antes sobre seus outros pretendentes, e agora falar essas coisas sobre Eduardo, lhe fazia se sentir bem. Como se enfim tivesse feito uma escolha certa. Não conseguia ser precisa sobre o que estava sentindo. Não era como se uma luz tivesse se acendido subitamente. Ela e Eduardo sempre tiveram um contato muito intimo, sempre foram bons amigos, e parando para pensar na forma como tudo aconteceu, era mais como um alvorecer, quando, de maneira quase imperceptível, o sol fica cada vez mais claro até você perceber que a manhã chegou.

To be continued...

 


Notas Finais


Ah, autor! Fica um tempão sem aparecer, e quando aparece, não tem emoção nenhuma!

Calma amores, calma.

Não esqueçam que o feedback de vocês é importante para mim. Xeros.


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