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História Me pelea - Capítulo 4


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Capítulo 4 - Tres


Quando completa uma semana que Asensio está de volta, ele não trocou mais que algumas palavras com os pais.

É tudo muito silencioso – Brahim fala, mas não tanto quanto Marco se lembra do menino conversador de sempre e ele não pode culpar o irmão porque entende o nervosismo do caçula, entende que a vontade de falar sobre o que carrega o silencia.

De Iker, as palavras vinham em sua maioria acompanhadas de raiva e isso doía muito mais que a mágoa silenciosa de Sergio.

Por isso Asensio entende que eles e os pais chegam a um acordo inconsciente de que não vão se falar corretamente até que estejam preparados para lidar com o assunto.

É também quando completa uma semana de sua volta que Marco percebe que Isco conseguiu ficar ainda mais irritante. Irritante, mas não do jeito convencional, e é impossível para Marco fugir do baixinho, porque quando Isco não está no mesmo ambiente que ele fisicamente, parece estar espiritualmente.

– Minha nossa, Asensio, como você perdeu a postura!

Marco revira os olhos, guardando o desejo de erguer o do meio para Isco porque já passou da idade de ficar fazendo aquelas coisas e seu padrinho está os assistindo, assim como seu pai. Ignora, momentaneamente, os olhares de Torres e Ramos e foca em Isco.

– Vai. Se. Foder. – Murmura pausadamente, vendo o sorriso de Isco aumentar a cada palavra.

– Você fica tão bonitinho irritado! Pena que a beleza não ajuda a aguentar o mau-humor! – Francisco continua a implicar. – Como andam as coisas por aqui? Reparei ontem que Brahim anda meio distante. Vocês discutiram de novo ou algo do tipo?

Asensio nega e atropela a fala seguinte de Isco com qualquer outro assunto que não seja a saída da noite anterior porque não quer falar sobre nada que remeta àquilo, apenas para não lembrar das coisas estranhas que havia sentido no bar da cidade vizinha que foram.

Certo que Marco já foi alvo de muitos olhares por causa de sua beleza, mas tinha desacostumado com toda aquela coisa de interação social e flerte, e ver essas coisas se desenrolando em sua frente era no mínimo constrangedor e amargo.

Havia algo implícito entre Nacho e Brahim que acabava afastando qualquer um que chegasse próximo deles, embora em alguns momentos da noite Marco tenha visto Ignacio flertando com algumas mulheres – ao menos tentando, porque todas não demoravam a perceber os olhos verdes de Nacho constantemente em Brahim e logo saiam –, e no fim Marco ficou de vela, assistindo Isco fazer a coisa mais Isco possível: iludir os outros.

Lembrava de ouvir pelos corredores do colégio que o grande esporte de Francisco era colecionar corações partidos e até hoje Marco não duvidava que fosse verdade porque nunca tinha visto Isco sequer mencionar estar apaixonado por alguém ou namorar qualquer pessoa.

Nunca entraram naquele tipo de conversa, somente quando Isco brincava que Marco o queria muito mais do que acreditava e seus pais riam da sua cara feia para aquilo, dizendo que não duvidavam que no fim os dois terminariam casados.

E, quando adolescentes, Marco não sabia bem se queria ou não Isco: era ambíguo demais a relação deles e quando se é novo nada é o que parece ser, porém, adultos, Isco definitivamente era o tipo que Asensio paqueraria numa sexta-feira a noite, sem compromisso algum.

Viu muitos fazendo isso na noite anterior e sentiu raiva. Raiva do atrevimento de todos os homens tentando a sorte com Isco, raiva de todas as mulheres que tentavam chamar a atenção do baixinho, enquanto ele permanecia na mesa fingindo que não estava vendo Brahim e Nacho se beijando.

– Você fugiu do assunto, Marco, não pense que não percebi. – Isco diz depois de um tempo. – Quer dar uma volta pelo haras? – Convida já andando em direção ao estábulo.

Marco entende mais como uma intimação que um convite e resmunga por todo o tempo que Isco leva para selar o cavalo. Começa a preparar os ouvidos assim que saem da beira dos estábulos, porque Francisco gosta de conversar e Marco nunca aprendeu um método de como o fazer se calar ou simplesmente ignorá-lo.

Mas responde com disposição tudo que Isco fala. Conta-lhe sobre como anda o treinamento de Hugo – muito mais fácil do que Asensio pensou que seria, inclusive –, e torce com todas as suas forças para o baixinho não tocar no assunto que ele tanto teme.

Uma hora tenho que falar sobre isso, só que a vergonha é demais. O arrependimento pesa nas costas de Marco como se ele carregasse milhões e milhões de pedras ao mesmo tempo e a vontade de poder voltar no tempo e fazer diferente cresce ainda mais.

Se concentra na paisagem, na área verde de toda a propriedade, absorvendo toda a calmaria que o galopar sereno de Michi o proporciona.

– No começo a gente pensou que nunca mais ia te ver. Ainda mais quando achávamos que aquele colar do Iker que você levou tinha um diamante mesmo.

O mais novo nega, o maldito colar, do qual Iker tanto falava e que parecia valioso demais, nada mais era que uma imitação muito boa de diamante que Marco percebeu com muita irritação que não valia quase nada.

– Era falso. Sem valor algum.

– Sem valor monetário. Você sabe a história dele? – Balança a cabeça em negação. – Peça aos padrinhos para te contarem então. Tem a ver com você. Você ao menos prestou atenção no colar antes de vendê-lo?

– Deveria? Eu queria dinheiro, Isco. Estava pouco me fodendo para as coisas. – Resmunga irritado. – Eu... achei que ia durar o dinheiro, sabe? Fiz alguns investimentos e tudo mais, mas a vontade de fazer farra foi maior e a gente acha que é coisa de filme que o dinheiro pode acabar de uma hora para outra, mas acabou. Em uma noite eu tinha tudo, na outra estava falido.

Como se estivesse apenas chamado Asensio para uma caminhada com o intuito de fazê-lo falar, quase sem perceber, Marco é compelido a desabafar; Isco faz as perguntas de forma tão serenas, sem julgamentos e o ouve tão pacientemente que por horas Marco só fala.

Não entra no campo do sentimentalismo – acha que aquilo sempre puxa mais para os lados dos irmãos, porém não economiza em contar tudo que passou em Madrid para Francisco e no final acabam sentados no capim abaixo da sombra de uma árvore, enquanto os cavalos pastam ao redor deles.

– Depois que eu fui despejado, fiquei desnorteado por semanas. O pouco que me restou, vendi para conseguir a passagem para cá. – Marco seca algumas lágrimas que escorrem por seu rosto, mantendo a cabeça baixa a todo instante, com medo do que pode enxergar nos olhos de Isco. – Estava conversando como Marcos sobre como vai ser temporário, vou pagar meus pais e sumir de novo da vida deles.

– Marco. – Isco ergue o rosto de Asensio, fazendo o mais novo o encarar. – Você não vai conseguir seus pais tão cedo.

– Como assim? O que você quer dizer? – Pergunta confuso.

– Bem, eu não sei se você lembra, mas eu sou o contador responsável pelas contas dos seus pais, então, sei exatamente a cifra que você levou daqui. Iker já me pediu para calcular tudo, o tamanho da sua dívida, com juros. Mesmo descontando todo mês do seu salário, vai levar muito, mas muito tempo para você pagar tudo. – Explica. – Vou te contar um segredo: eles nunca quiseram te cobrar. Até estranhei quando o padrinho veio me falar que ia fazer isso.

– Por que estão fazendo então?

– Para te manter perto, Marco. Porque você voltou arrependido e disposto a se redimir, e como você está disposto a pagar o que deve, eles sabem que não vai embora mais uma vez antes de cumprir isso. Estão te cobrando para não te perderem de novo.

Marco pisca algumas vezes, sem acreditar na veracidade da história, mas aquela certamente era uma coisa que sairia da cabeça de seus pais e não havia motivo para Isco mentir.

– Eles querem só cuidar de você, Marco. De um jeito meio torto ultimamente, mas querem te ver bem. – Isco passa os dedos sobre a bochecha de Marco, secando-as. – Dê tempo ao tempo. E se quer uma sugestão, tente amaciar o coração do dindo Sese primeiro porque aí é meio caminho andado. – Sorri.

– Vou tentar. – Asensio murmura. – Obrigado por me ouvir. Você devia ficar calado assim mais vezes, tampinha.

Francisco joga a cabeça para trás, rindo. Marco assiste com fascínio a cena, se arrepiando com a vontade que sente de beijar Isco, mas não arisca; sorri em resposta, se erguendo e estende a mão para Alarcón.

– Queria ir até o limite do haras. Sergio disse que papi comprou as terras que vão até onde o rio passa. – Diz sentindo a mão ainda formigar por causa do toque de Isco.

– Acho que hoje não dá. – Isco olha para o relógio em seu pulso. – Tenho compromisso daqui a pouco, um encontro!

Um encontro, claro. Entendi ontem a noite o que Nacho quis dizer com eles serem bastante cobiçados.

– Quem é o desesperado? – Indaga caminhando na direção de Michi. Sobe na sela, se mexendo inquieto, porque algo o incomoda e não é a sua postura.

– É ela. Estudou com você.

Sara?

– Sim, acho que a gente vai vingar. Tenho um bom pressentimento sobre nós.

Marco torce o nariz, tentando lembrar de verdade de Sara dessa vez, para quem sabe fazer uma propaganda ruim da moça porque é isso que sua mente pede para fazer, porém se freia, Isco é livre e desimpedido, nada tenho a ver com a vida dele.

– Bom encontro. – Deseja soando menos amistoso do que gostaria.

Isco arqueia as sobrancelhas em sua direção.

– Você está com ciúme de mim, Asensio?

– Que tipo de último homem na face da terra você acha que é, tampinha?

– Aham, aham, se entregou agora, forasteiro. Vai, admite que sempre me quis que eu até esqueço aquilo que você disse sobre beijar cocô de cavalo.

– Larga de ser irritante, minha nossa! – Marco desconversa. – E sobe nesse cavalo, não vai querer deixar a Sara esperando o príncipe encantado dela, vai?

***

– Sabia que ia te achar aqui!

Marco sorri para o irmão. É uma companhia mais que bem-vinda e diminui rapidamente o ritmo do balanço enquanto Reguilón sobe as escadas do playgroud, se sentando debaixo da cobertura da casinha e deixa as pernas esticadas sobre o escorregador.

– Parece que foi ontem que nós brincávamos aqui. E parece que nem tem anos que eu brinquei com meu filho nesse escorregador! – Diz de maneira nostálgica. – Meu bebê cresceu e eu não consigo acreditar nisso. – Choraminga. – Ele já quer namorar, Chencho. Dezesseis anos e quer namorar!

– Mas você já namorava muito antes dessa idade. – Marco lembra.

– E lembra o que deu? Onde eu estava com dezesseis anos? Sendo pai. Não que me arrependa disso, meu filho é tudo para mim, mas... eu tenho tanto medo daquele rapaz magoar ele.

Asensio entende o irmão – mas assim como um dia teve certeza que Marcos não ia magoar Regui, a cada novo dia com Hugo vê o quanto o rapaz gosta de Iván; se prepara para fazer um longo discurso sobre aquilo para Sergio, porém acha melhor esperar até que a figura baixa que se aproxima ao longe esteja junto deles.

Brahim não parece muito bem e com as mudanças costumeiras da gravidez, Marco presume que não vai demorar muito para que os outros comecem a notar a gestação e não entende porque o irmão não conta logo a Nacho e ao resto da família.

Aquela noite era uma boa ocasião para aquilo, porque estavam todos reunidos na casa dos pais de Marco, com exceção de Isco que ainda estava em seu encontro. Era quase como nos tempos de adolescência de Marco, inclusive a fuga rápida que tinha feito depois do jantar para sentar no antigo parquinho dele e dos irmãos e observar as estrelas.

– Estão falando sobre o quê? – Brahim pergunta se sentando no balanço vazio ao lado de Marco.

– Sergio tem medo de deixar Iván namorar e Vallejo magoar ele. – Responde.

– Patético, Reguilón. – Brahim revira os olhos. – Você não pode proteger Iván de tudo, ele não é mais criança.

– Sou pai, Brahim, sempre vou tentar proteger ele. – Sergio suspira. – É só... conseguem entender que é muito estranho para eu saber que meu filho está fazendo coisas com outro alguém?

– Coisas? Jesus, Sergio, todo mundo transa!

– Não, Bra, não é sexo. Quer dizer, também, porque para mim tem momentos que ele é só uma criança, mas digo sobre os novos passos da vida dele, dos novos interesses, das novas descobertas. Porque agora não é só a família que tem espaço na vida dele, tem alguém que desperta um sentimento diferente nele. Entendem?

Marco e Brahim se entreolham.

– Não! – Respondem juntos. Reguilón cruza os braços, emburrado, arrancando risadas dos irmãos. – Ok, entendemos a parte que você tem dificuldade de aceitar que seu filho cresceu, mas Regui, você precisa aceitar isso. Ele precisa disso. Deixa ele namorar com o Hugo, assim você e Marcos não precisam esquentar a cabeça e podem conversar com eles sobre o que acharem necessário. Se tem medo deles terem um filho tão novos, conversem com eles. Não proíba seu filho, o conscientize. – Marco aconselha.

– E se Iván tiver que ter um coração partido, ele terá. Faz parte, Regui. Pode ser Hugo, pode ser outro, o importante não é tentar o blindar disso, e sim estar com ele se acontecer. – Brahim emenda o conselho, olhando para o irmão do meio com olhinhos pidões. – Me balança?

– Você consegue se balançar sozinho, seus pés encostam no chão agora!

Apesar da reclamação, Sergio desce pelo escorregador e balança Brahim, implicando vez ou outra com o caçula; conversam sobre muitas coisas, tranquilos como antes de acontecer tudo com Asensio.

Ouvem algumas risadas de dentro de casa, mas preferem se manter ali fora, somente os três.

– Regui, eu estou esperando um filho do Nacho.

O balanço para de repente e Marco tem que puxar Reguilón para a areia e colocar a mão na boca dele para que toda a sua exasperação ao ouvir a noticia não chame a atenção dos outros dentro de casa.

– Dá para ser discreto? Só vocês dois sabem, imagina papi ouvindo você gritar sobre um bebê?! Vai querer saber o que é! – Brahim repreende. – Vai falar baixo? – Reguilón assente imediatamente.

Marco afasta a mão da boca de Sergio e acaba rindo da cara de espanto do irmão que logo vira uma de choro e por pouco Brahim não cai do balanço com o abraço que recebe.

– Eu não acredito que meu irmãozinho vai ser papai! – Reguilón funga, se ele não chorasse com uma notícia dessas não seria ele. – Não acredito nisso, Bra! Estou tão feliz por você, titio já te ama, neném! – Coloca a mão na barriga de Brahim, mas Abdelkader logo a tira, brigando com o irmão.

– Você não é nada discreto, Sergio, fala sério! E é para guardar segredo, viu?! O Nacho... – Brahim respira fundo.

– O Nacho...? – Marco incentiva.

Sabe que o problema da equação não é Ignacio; é Brahim e um medo que Marco entende porque já sentiu, medo de amar e ser amado.

– Eu não sei! Parece assustador! – Brahim desaba em lágrimas. – E se ele ver que não é isso que quer e me deixar depois? Se não gostar de mim tanto assim? E eu nem sei se consigo sustentar um relacionamento!

Como em muitas noites que Brahim ficava assustado com algo, Marco e Sergio o envolvem em um abraço.

– Eu não sei como vocês começaram a se aproximar, não conheço a história de vocês, mas do pouco que vi, posso afirmar com certeza: aquele homem te ama, Brahim. Está estampado nos olhos dele para quem quiser ver, igual está nos céus. Não deixa o medo te impedir. – Marco seca as lágrimas do irmão mais novo. – E ele merece saber desse bebê.

– Merda, eu odeio chorar. O irmão chorão é o Regui e não eu. – O caçula ri um pouco. – Certo, eu vou contar para ele hoje e depois conto para o resto da família.

Os mais velhos assentem e não se demoram mais ali fora. Pelo resto da noite Marco paira entre os irmãos, conversa com o cunhado e o sobrinho e como sempre é paparicado pelos padrinhos. Conversa muito com Nacho, que não perde a oportunidade de o provocar sobre Isco e seu encontro.

Senti falta disso, pensa quando todos se despedem, o deixando com o coração quente e um sorriso bobo no rosto. Se encosta a janela da sala, observando Nacho e Brahim conversando próximos ao carro do mais velho.

– É claro que ia terminar em beijo. – Diz para si mesmo e se afasta da janela, pronto para ir para o quarto.

Mas é interrompido no meio do caminho pelo som de passos na escada; para, esperando Ramos entrar em seu campo de visão.

– Amanhã vou ter que ir buscar um cavalo em uma fazenda um pouco longe daqui. Vou precisar de ajuda. – Ramos fala coçando a nuca, tentando olhar para todos os lados menos diretamente para o filho.

– Tudo bem, eu vou.

Ramos anui e volta a subir as escadas; Marco continua o seu caminho e dorme com o pensamento de que o dia seguinte pode ser uma boa chance para tentar começar a se reaproximar do pai.



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