História Me Rehúso - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias B.A.P
Personagens Bang Yongguk, Daehyun, Himchan, Jongup, Personagens Originais, Youngjae, Zelo
Tags Bap, Daelo, Drama, Namorada, Presente, Reencarnação, Romance, Stehbia
Visualizações 70
Palavras 5.193
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Hentai, Misticismo, Musical (Songfic), Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Olá meus amores
Cá estou eu com mais uma fanfic
Essa foi bem difícil de fazer pelos seguintes motivos
-Eu escrevi ela inteira hoje.
-Ela já seria uma three-shot com três capítulos gigantes. Colocar tudo em um só foi um sufoco.
-Eu tive que pesquisar muito sobre as diversas culturas e línguas para escrever.

Ps: quero agradecer a minha capista nenê, a @devassa_ que entrou na minha loucura e fez toda a capa em DUAS HORAS. Eu te amo.

Agora a presenteada.
@zelong meu amorzinho minha nenê.
Minha namorada.
Faz oficialmente um mês que estamos juntas.
Digo oficialmente, pois já estavamos juntas antes, e eu já te amava bem antes.
Faz um mês que você me faz muito feliz, com todo seu jeitinho incrível que fez com que eu me apaixonasse rapidamente.
Eu sinto como se eu pudesse lhe contar tudo, como se eu pudesse ser quem eu quisesse com você.
Eu te conheço faz pouco mais de cinco meses, mas eu sinto como se fosse a vida inteira, porque a sua alma é linda, e eu sinto que ela completa a minha.
Por isso você é minha namorada, companheira e amiga, minha Soulmate.
E é exatamente por isso que esse assunto caiu tão bem.
Usei a música que você (e eu) tanto adora.
Eu te amo.

Capítulo 1 - Até a última vida


Me Rehúso


Para todos aqueles amores que

Foram obrigados a ser separados

Essa canção é para você


Na primeira vez que viemos, destinados a nos encontrar, há mais ou menos seis mil anos antes de Cristo, nossa pele era queimada do Sol da Mesopotâmia, na cidade de Uruk.

Eu me chamava Amom, e era apenas um escravo, que passava meus dias sangrando sobre blocos de pedra, com os quais eram construídos as pirâmides que pessoas como você mandavam. Era uma sociedade muito complexa e injusta, mas não posso dizer que hoje seja melhor.

Você era Horus, o mais novo sacerdote do faraó, filho de um, também, sacerdote real. Passava seus dias estudando e vivendo no palácio, cuidando da saúde de todos os ricos, e fazendo previsões sobre suas futuras vitórias e derrotas, baseado no que os deuses lhe diziam. Enquanto isso eu vivia em uma casinha de pedras, com apenas um cômodo e quase sem móveis.

A primeira vez que nos vimos foi naquela competição: O jovem faraó ia competir nos jogos de tabuleiro no rio Nilo, e a família real promoveria torneios de natação e lutas para divertir a população. Talvez até para fazê-los esquecer da miséria que viviam.

Nossos olhos se cruzaram enquanto eu me oferecia para nadar contra alguns competidores, incluindo militares. Você não usava peruca e sua cabeça era lisa, bem diferente da minha, que tinha muitos cabelos emaranhados, como era comum nos escravos.

Sua pele era escura, mas seus olhos eram verdes, como esmeraldas, e estavam pintados com uma grossa tinta preta, o que o destacavam ainda mais. E eles me olhavam com aparente surpresa, afinal, não era sempre que um jovem de dezesseis aniversários se dispunha a competir contra vários nadadores experientes. Embora você, com seus quinze anos, fosse ainda mais impressionantes por ser, tão cedo, um sacerdote.

Ali eu sabia que você era diferente de todos eles. Daqueles que me chicoteavam, daqueles que me faziam ajoelhar sobre terrenos pedregosos, apenas pelo prazer de me humilhar.


Assim que saí correndo, feliz por ficar em terceiro lugar na natação e por ter tomado um banho frio naquele rio maravilhoso, depois de passar dias me limpando com panos úmidos, para não gastar água, percebi que todos os outros jovens haviam se afastado de mim, e me virei para trás, apenas para ver você, escondido atrás de uma árvore seca e morta, me chamando com a mão.

Seu sorriso era muito bonito, e eu não pude me negar a ir.

— Você foi muito bem, mazal tov. — me surpreendo por seu hebraico ser tão bom, quando eu sabia que sua língua era o egípcio e que não lhe era ensinada a língua dos escravos na escola de sacerdotes.

Não pude evitar sorrir e me curvar em agradecimento, envergonhado demais para falar, e sinto sua mão passear por meus cabelos.

— Eles estão embaraçados, mas são tão bonitos quanto as perucas do palácio.

— Sliha. — me desculpo, me afastando alguns passos, com medo de que pensasse, assim como outros nobres, que minha cabeça era cheia de piolhos e que eu iria lhe contaminar.

Ouço seu riso e sou obrigado a encará-lo ao sentir segurar minha mão, enquanto diz, se aproximando como se fosse um segredo:

— Podemos nos encontrar ao cair da noite?

Talvez fosse solitário, como eu era.

Talvez fosse infeliz, como eu era.

Por esse motivo, respondo que sim, em um sussurro, enquanto começo a me afastar, com medo de sermos pegos por seu pai ou pelo próprio faraó.

— Eu estarei atrás do palácio lhe esperando!

Fui embora com um sorriso no rosto, pensando que você era tão louco quanto eu, por pedir algo assim. Mas mesmo assim passei o resto do dia, enquanto trabalhava, pensando na possibilidade de ver aquele jovem sacerdote de olhos verdes novamente.


Ao cair da quinta noite, me vi correndo pelas vielas novamente, silenciosamente, enquanto alguns estabelecimentos estavam com as velas ligadas e soavam como música.

Já faziam quatro dias que nos encontrávamos no mesmo lugar, atrás do palácio. Todas as vezes nós nos escondíamos em um canto próximo e ficávamos conversando, sobre as diferentes vidas que levávamos. Você me pediu para que o trouxesse uma bola da vila, e eu o pedi para me trazer um pedaço de queijo do palácio.

Cheguei no local indicado, já tão conhecido por meus pés, com o coração batendo forte, e um sorriso no rosto, e lhe encontro com o rosto cheio de lágrimas, com os olhos arregalados de surpresa.

Tento me aproximar, mas o vejo balançar a cabeça negativamente, dizendo entre soluços:

— Bevakasha — você pediu, quase implorando — Por favor, corra, agora. Eles descobriram. Corra!

Mas eu demorei tempo demais para entender suas palavras.

Entender que eles significavam, infelizmente, seus pais e os militares.

Quando percebi a espada em seu pescoço e tentei correr para lhe proteger, já era tarde demais.

Para nós dois.


Me diga como explicar ao meu destino que não está aqui

Me diga como fazer para me livrar desse frenesi

Dessa loucura que eu sinto por você



Da segunda vez que viemos, destinados a nos encontrarmos, foi na dinastia chinesa Han, provavelmente no ano de duzentos antes de Cristo. Vivíamos na capital Tchang-an, que hoje se chama Sian.

Dessa vez os papéis haviam se invertido, e eu era o jovem filho do imperador Liu Bang, chamado de Liu Yi jie, e você era um jovem oficial de guerra pouco reconhecido, chamado apenas de Zhi.

Eu passava meus dias absorto em criar papel, que era a nova invenção que prometia revolucionar a história. Além disso, tinha aulas de poesia, de cerâmica e esculturas, treinado para ser bem educado e um ótimo diplotada, elegante e fino, que podia conquistar quem quer que eu quisesse apenas com uma palavra e um sorriso.

Enquanto isso, você arriscava sua vida, a fim de ganhar reconhecimento e subir de patente no exército chinês com muita dificuldade, mesmo sendo tão novo. Você voltava de batalhas desnutrido, machucado, e chegou ao extremo de perder o olho esquerdo e ganhar uma cicatriz no lugar.

A primeira vez que nos encontramos foi quando você foi chamado por meu pai para receber as honras pela última batalha, como o soldado que mais cumpriu seu dever de proteger nosso Império e, me lembro de que, ao ver você tirar o elmo e levantar a cabeça, revelando finalmente o buraco vazio no qual seu olho esquerdo deveria estar, eu senti vontade de vomitar.

Vomitar por saber que, mesmo quase cego, você continuou lutando; por saber que, enquanto eu aprendia poesia e escrevia longas histórias sobre as vitórias da China, pessoas, soldados, como você, estavam se arriscando em batalha e perdendo membros; por saber que, mesmo com tudo isso, ainda era possível ver que seu olho direito brilhava de felicidade enquanto ficava em frente ao meu pai, sendo elogiado por seu desempenho em batalha:

Yǒushēngyǒusè. Impressionante. — digo, surpreso, me levantando e fazendo uma mesura ao rapaz, mesmo sabendo que seria repreendido por meu pai assim que ficássemos a sós — Será um prazer escrever sobre você. Meu pai, o que acha de dar a ele uma merecida folga para que ele possa me contar como honrou o exército chinês para mais uma história de vitória do nosso Império?

Percebo a surpresa no rosto de ambos, e mantenho o rosto com um sorriso inocente, e meu pai não teve outra escolha senão me dar o que fora pedido, visto que, a única coisa que o agradava tanto quanto guerra, eram histórias que exaltavam sua vitória.


Passando pelos corredores do palácio, guiando o rapaz, que seguia de cabeça baixa, como se não merecesse andar ali, partiu meu coração e me fez ver o quanto minha vida era injusta.

A sensação de nostalgia não me deixava em paz, e tive que me esforçar para sequer me lembrar como se escrevia quando, após entrarmos em meu quarto, pego os papéis, pronto para começar a dissertar sobre você:

Jièkǒu — me desculpo, balançando a cabeça —, mas tenho a sensação de que lhe conheço de algum lugar.

Vê-lo levantar a cabeça, curioso, mesmo com uma máscara cobrindo o ferimento no olho esquerdo, era muito familiar aos meus olhos, mas eu não sabia dizer de onde:

— Eu passei a vida em uma vila pequena e logo depois passei para o exército.  — você sussurrou, os cabelos negros lisos caindo por sua testa, sem conseguirem ficar presos, e seu olho direito levemente puxado, combinado a sua pele amarelada, e o sorriso inocente  — Não creio que há maneira de termos nos conhecido antes.

Eu nunca havia visto nada assim antes. Mas sabia que me era familiar de alguma forma.

— Tudo bem — pigarreio levemente, molhando o pincel na tinta e o encarando —, você se tornará um herói na história da China, me conte tudo sobre você.

— Eu nasci sem nome, até que me chamaram de Zhi no exército, e agora é assim que me vejo. — começo a escrever, curioso sobre sua história — Eu tenho vinte e dois anos e entrei na primeira batalha aos quinze. Acredito que é um milagre que eu esteja vivo depois de todo esse tempo.

E seu sorriso aqueceu meu peito de forma que eu não sabia descrever.


Duas semanas. Foi o tempo que tive para me apaixonar e me aproximar.

A primeira parte foi cumprida, mas a segunda foi impedida pela coragem. Ou falta dela. Durante duas semanas, todos os dias religiosamente, estávamos juntos, e eu me esforçava para escrever sobre algo que não fosse seu sorriso, a forma como tocava minha mão, a forma como tentava pegar no pincel quando lhe ensinei a escrever.

Duas semanas antes de você ser mandado para a guerra novamente. E eu fui covarde demais para responder quando veio me procurar em meu quarto.

— Sinto muito. — você me disse, tocando meu rosto, o que fez com que eu me assustasse e o encarasse — Eu prometo voltar para você. Zàijiàn.

E me deu um beijo. O único que eu havia recebido na vida, com lábios trêmulos e gelados, antes de ir embora.

E me restou a dúvida: se você me prometeu voltar, por que me disse adeus?

A resposta veio com seu elmo, cinco meses depois.

Você não voltaria.


Desculpe querida, eu não tive a intenção de te iludir

Já sei que no amor quando é real, esse volta, volta

Mas como esquecer sua pele e como te esquecer mulher

Já não posso garota, eu já não posso garota


A terceira vez que viemos, destinados, dessa vez, a sermos separados novamente, foi na Grécia. Foi rápido, sem tempo para haver história.

Você era um filósofo, e eu um comandante crente. Não havia tempo para sabermos nossos nomes, para nos amarmos, para sorrirmos um ao outro.

Foram algumas horas.

Eu o encontrei, infelizmente, quando já estava indo para a morte por ir contra as ideias que eu impunha.

Não fui eu que lhe matei, mas doeu como se tivesse sido.

Daquela vez foi diferente, pois, assim que morri, me foi dado o castigo de me lembrar de todas as nossas vidas, do começo até agora, e fui jogado a Terra novamente com a sina de lhe procurar de forma incessante, sem nunca poder ficar junto com você.


E eu lhe achei novamente na quarta vez, na Idade Média, nessa vez na Europa, no século quinze. A Guerra dos Cem Anos havia acabado a pouco, e já haviam passado alguns séculos desde a Peste Negra, e estávamos na Alemanha, que havia, infelizmente, sido atingida pelos dois.

Meu nome dessa vez era Elfriede, uma jovem pagã desesperada para achar algo, que ninguém sabia o que era, e o seu era Jörn, um comandante guiado pela Igreja Católica.

Obviamente daria errado.

Todos sabiam que a Igreja estava sendo responsabilizada pelo crescimento de pagãos e de bruxas e, mesmo as que não faziam nenhum mal a ninguém, eram odiadas pelas pessoas de suas vilas pobres e miseráveis.

A primeira vez que lhe vi foi logo após mais um dos ataques que sofri na vila. Com as roupas rasgadas e o rosto sangrando após ser agredida e ouvir ameaças de morte na fogueira, corri para fora do vilarejo, determinada a fugir de tudo aquilo, a ir para um lugar seguro, nem que meus pés sangrassem.

Meus rituais eram proibidos e, com isso, tive a sensação de estar sendo abandonada por meus deuses enquanto passava correndo pela floresta, até dar de cara com o que quer que estivesse em meu caminho.

Auch. — escuto o gemido dolorido enquanto escutava algo cair no chão. Algo grande.

— Vergib mir. Não tive a intenção. — me desculpo, me levantando após também cair, e o ajudando a se levantar.

Era um rapaz loiro, dos olhos azuis e sorriso branco. Mas dentro dele, eu pude ver o filósofo grego, o soldado chinês e o sacerdote egípcio.

Me assusto com a visão e dou alguns passos para trás, começando a fugir. Era ele, eu o havia achado. Aquele que era minha alma gêmea.

Então por que agora me doía tanto saber disso?

Sinto sua mão segurar meu braço antes que eu pudesse ir:

Warten. — você me pediu para esperar, o sotaque forte, revelando que viera de uma parte do interior da Alemanha, e engulo em seco  — Você está machucada. Tem para onde ir?

Nego com a cabeça e vejo seu semblante preocupado.

Não posso deixá-la por aí, pode ser atacada, confundida com uma bruxa e morta! — mordo a língua ao ouví-lo falar sobre bruxas e olho sua camisa, que revelava que ele era um soldado da igreja em seu tempo de folga.

Tento fugir, com medo, mesmo que tudo em seu corpo me fizesse querer ficar. Eles classificavam bruxas por seus dentes podres e marcas na pele, e obviamente como eu não tinha isso, ele sequer cogitou a possibilidade:

— Não fuja, eu estou aqui para ajudar. — seu tom gentil me fez ter vontade de chorar, e me segurei para não falar mais nada  — Eu posso lhe levar para minhas instalações. Você ficará segura lá.

Foi quando derramei a primeira lágrima. Eu estava sendo estúpida agora, como uma bruxa, como fui nas outras vidas, quando eu sequer sabia que estávamos destinados.

Se isso era ter uma alma gêmea, eu não queria.


Mas, quando me lavei e voltei ao quarto, vendo-o andar de um lado para o outro, preocupado com uma desconhecida, como eu era, eu não conseguia mais aguentar.

— Ich habe dich vermisst. — sussurro, com lágrimas nos olhos, e vou até seu corpo alto, que me olhava confuso por acabar de escutar que eu sentia sua falta.

Não dei mais tempo para que fosse respondido. Apenas segurei seu rosto, mais alto que o meu, e o beijei.

Beijei como deveria ter feito Na Mesopotâmia, na China, na Grécia.

E naquela noite, pela primeira vez em quatro vidas, nós nos amamos.

Portas trancadas, gemidos ecoando, meu corpo prensado na parede, querendo mais e mais daquilo que esteve esperando por vidas.

Ah, se você soubesse que já havia me conhecido antes. Será que estaria me amando, me tocando, me invadindo como estava naquele momento?


Um mês. Foi o tempo que levou para que eu fosse descoberta e levada para morrer na fogueira, como uma peste que se alastrava pela Europa, mesmo que eu nunca houvesse feito mal a ninguém.

Enquanto minhas mãos eram rasgadas e eu era amarrada a fogueira, ainda apagada, ainda posso ver seu rosto manchado pelas lágrimas, enquanto é segurado pelos oficiais, que sequer sabiam que, em meu ventre jovem de vinte e três anos, estava um filho daquele general que estava ao seu lado.

Fechei os olhos, apenas esperando. E quando aconteceu, eu sequer gritei.


Sem olhar para trás, sem procurar outra pessoa

Eu só quero estar com você, uou

Se eu não te tenho aqui comigo, eu não quero

Ser seu amigo, porque você é meu caminho


Da quinta vez, aquela que eu esperava que fosse a última de nossas vidas, como muitas lendas contavam, se passou apenas um século depois da quarta, no Império Asteca, onde hoje seria a Colômbia, por volta de mil e quinhentos. Eu me chamava Quetzaly, uma jovem bela de pele pálida e incomum, e seu nome era Yareni, uma jovem de pele escura, filha de artesãos, que iria seguir o exemplo da família.

Eu tinha 10 anos quando lhe vi. Eu não era nobre, mas vivia com aqueles da nobreza, visto que meu pai foi importante guerreiro para o Império.

Frequentávamos a mesma escola, já que a educação deveria ser igual para todos, mas nunca me foi permitido trocar palavras com você por ordens de meus pais. Mesmo assim eu me esgueirava por entre as construções para brincar com você todas as tardes, durante seis anos.

Aos dezesseis eu finalmente me lembrei das vidas pelas quais passamos, e a partir daí, passei a evitá-la, e me trancar em minha casa, sem vontade de sair, todos os dias.

Eu conseguia vê-la na minha rua durante o primeiro ano, preocupada com minha saúde, e podia enxergar, dentro de seus olhos escuros, o sorriso do soldado alemão, e daqueles que o precederam.

Após o primeiro ano, você desistiu e, assim, não ouvi mais falar em seu nome por longos dois anos, até que eu completasse dezenove anos e estivesse pronta para casar.

Eu estava sendo treinada para me tornar uma boa esposa, para aprender a comprar tecidos, alimentos, educar os filhos, e foi quando lhe vi. Estava linda como sempre, na barraca de artesanato de seus pais, vendendo seus tecidos com um sorriso no rosto, até seus olhos cruzarem com os meus.

E eu senti dor ao ver que o brilho deles se apagaram um pouco.

Segurei o sorriso em meu rosto, mesmo com a vontade de sair correndo e me esconder de sua vista.

— Nano toka. — cumprimentei, sendo imitada por minha mãe, e comecei a procurar pelos tecidos necessários.

— Nano toka. — consegui ouvir seu sussurro.

Escolhemos os tecidos e minha mãe se dirigiu a outra barraca, me deixando sozinha para pagar e pegar os embrulhos. Estávamos ambas caladas, e assim permanecemos, mas mesmo assim segurei sua mão com carinho, por mais tempo que o necessário, quando peguei pelas compras que havia feito.

Seu toque era quente, como eu me lembrava de quando éramos mais novas, e sorrio tristemente, me despedindo com um aceno de cabeça e dando-lhe as costas, correndo para acompanhar minha mãe.

E foi a última vez que lhe vi. Pois, depois disso, foi anunciado a minha família que eu havia de me casar com o tirano imperador Ahuizoti, e não me foi dada a opção de escolha.

Enquanto eu era levada pelos nobres até o palácio, passei os olhos pela multidão de curiosos que ficara sabendo do casamento, na esperança de lhe achar, mas foi em vão.

Como eu disse antes, aquela havia sido a última vez que vi seu rosto.

Dois meses mais tarde eu estaria casada com aquele velho inútil e teria que me deitar com ele todas as noites. E você saberia disso.

Minha morte não foi rápida, de surpresa, como das outras vezes, ela foi lenta, e acontecia todas as noites enquanto meu corpo inerte era invadido pelo imperador.

Foram longos três anos, e dois filhos nascidos, até que, finalmente, eu morresse dormindo, e me livrasse daquela dor.


Pareceram décadas, séculos, em que eu me vi deitado naquele lugar frio e escuro, sem ouvir sequer um som, enlouquecendo com meus próprios pensamentos.

Eu não tinha mais sequer uma forma, um corpo. Uma hora eu era o jovem escravo, em outra a bela bruxa, em outra filho de um imperador, em outra um crente grego. Eu não sabia mais sequer quem eu era.

Não havia fome, nem sono, e talvez por esse motivo fosse mais torturando. Saber que não se podia morrer quando já se estava morto.

— Você tem que voltar mais uma vez.

Escuto a voz explodir em minha cabeça e tapo os ouvidos, me encolhendo em uma posição fetal, e negando com a cabeça.

— Eu não vou mais voltar.

— Você precisa voltar. Sua alma gêmea irá nascer novamente. — rio baixo e olho para o que eu pensava ser acima de mim, já que eu não conseguia enxergar nada.

Pelo menos dessa vez ela será feliz, sem mim para atrapalhar.

— Você tem mais uma chance de viver.

— Eu não quero viver! Eu quero ficar aqui e evitar que ela seja atingida pela maldição que jogaram em mim mais uma vez.

— Sua maldição acabou. Você cumpriu seu carma e agora pode renascer.

Me levanto, espantado, e sussurro:

— O que isso significa? — minha voz tremia de forma surreal, e meus lábios estavam frios e quebradiços.

— Significa que você voltará sem se lembrar de nada, e sua alma gêmea também não. E vocês poderão finalmente ter o destino que deviam ter tido desde a primeira vez em que foram arrancados dos braços um do outro.

Paraliso no lugar, incapaz de falar, até que as lágrimas caiam por meus olhos e me façam rir, me curvando e colocando a testa no chão frio.

— Obrigado, obrigado.


E eu só quero ficar com você, baby, por favor entenda

Apenas me dê sua mão e confie em mim, se você se perder, basta seguir minha voz

E dê o tempo ao tempo, garota

Que você, que eu, fomos feitos um para o outro


Ano de 2019


— Eu preciso de um soju agora. — sussurro, saindo da sala de cirurgia e tirando a vestimenta, suja com os fluidos do paciente, para jogá-la no lixo químico.

— Eu realmente achei que perderíamos esse paciente. — Kim Himchan se jogou no banco assim que chegamos a sala dos funcionários, onde estava Bang Yongguk, comendo um ramen rapidamente, antes de voltar ao trabalho como cardiologista.

— Como vai meu enfermeiro favorito? — o Bang sorriu para Himchan e piscou, oferecendo o macarrão ao namorado, que recusou.

— Eu vou muito cansado, obrigado por perguntar. — o loiro respondeu, suspirando — Mas Daehyun deve estar pior do que eu. Ele operou verdadeiros milagres hoje.

— Faz três anos desde que se formou cirurgião e já está tomando o meu lugar como o melhor do hospital. — Yongguk fingiu estar ofendido, me fazendo rir levemente, antes de me jogar no banco ao lado de Himchan, exausto.

— Em compensação, sua vida amorosa é bem melhor do que a minha. E a financeira também.

— O nome Bang ainda é temido pelo corpo médico, não se preocupe. — Himchan sussurrou e seu namorado fez uma mesura, presunçoso.

De repente, meu bolso começou a vibrar e meu bip soltou um som agudo.

Emergência.

Olho para meus parceiros e saímos todos correndo na direção do saguão.


— O que houve? — pergunto vendo ambas as macas sendo levadas até a sala de cirurgia.

— Acidente em Insadong. Um carro invadiu a calçada. Dois pacientes, ambos pedestres. Irmãos.

Me curvo, sem parar de andar, e abro o olho da garota que ia na frente, que não devia ter mais que quinze anos, e uso a lanterna clínica para examinar sua orbe, dizendo, alarmado, para os enfermeiros que levavam a maca:

— Por que está amarelado? O fígado dela está em falência?

— Não sabemos ainda. Pressão arterial e nível de oxigenação no sangue abaixo da média.

Praguejo baixo e me ergo novamente, apontando a direção oeste do corredor:

— Vá para a sala de cirurgia III, Bang Yongguk está pronto para operar, o avise que suspeito de falha no fígado.

— Ne sunbaenim. — e se afastaram, correndo, pelo caminho indicado.

Olho para trás e me dirijo a segunda maca. Vejo o rapaz e faço o mesmo procedimento, levanto o estetoscópio ao ouvido e o colocando no peito dele em seguida:

— Os batimentos estão fracos, embora nada alarmante. Ele parece ter uma escoriação na parte traseira do crânio, mas tenho que examiná-lo antes de pedir cirurgia. Qual a situação dele?

— Ele está gelado, acho que seu corpo está entrando em hipotermia. A pressão está estável mas o nível de oxigenação é baixo. — suspiro, estalando os ossos do pescoço.

— Preparem o aquecedor e estabilizador da sala de cirurgia II, leve-o para lá, estou indo em seguida.

— Ne, sunbaenim.

Volto para o saguão rapidamente, parando na recepção para avisar à jovem de plantão:

— Dê o aviso de que Moon JongUp deve ir ao encontro de Kim Himchan para operar o paciente de Bang Yongguk, na sala II, e chame Yoo Youngjae para a sala II e avise-o para preparar o paciente para a avaliação pré-cirúrgica antes que eu chegue.

E ela assentiu, sem tempo para me responder enquanto eu corria novamente, dessa vez na direção da sala de cirurgia.


— Ele ainda não acordou, Daehyun? — Yongguk parou ao meu lado, com o semblante cansado, como eu mesmo devia estar.

— Não hyung. Ele continua desacordado depois da cirurgia…

— Você precisa ir descansar, foram quinze horas de cirurgia, e mais seis de adaptação. Depois disso você está o observando faz três dias e-

— Ele não tem ninguém hyung. O hospital pesquisou. — sussurro, exausto, o olhando — Como vamos contar para ele que a irmã morreu?

— Nós fizemos o possível, meu amigo. Agora vamos descansar. — sinto seu braço me puxar e sou arrastado para fora da sala.

Só muito tempo depois eu descobriria que, assim que eu saí da sala, uma lágrima solitária caiu por seu olho aberto.


Baby não, baby não

Me recuso a dar-lhe um último beijo, então guarde-o, guarde-o

Para que eu te dê da próxima vez fazendo, fazendo

Te fazendo assim, assim, assim

Assim como você gosta, baby, uou, uou


Como assim ele foi embora? — digo, indignado, para Youngjae, que me olhava com o rosto corado de vergonha, enquanto me mostrava a ficha do paciente.

— Ele assinou a alta e foi embora, sunbaenim…

— Onde raios esse garoto foi? E as despesas do hospital?

— Ele nos entregou o contato de sua faculdade e prometeu que irá pagar as despesas assim que possível…

— Depois de três semanas cuidando dele, nem para avisar que planejava sair uma semana antes de eu ter dado alta a ele? Agora ele sabe mais que o médico que o operou?

— Provavelmente tem a ver com o fato de que ele é bolsista na faculdade de Direito e está no seu último ano. — JongUp deu de ombros, olhando a ficha do paciente na cama ao lado, e Youngjae fez uma curta reverência, saindo em seguida.

Fazia sentido o que o neurologista residente ao meu lado estava dizendo: o jovem paciente, que se chamava Choi Junhong, havia contado a eles que era bolsista de uma das maiores universidades de Seul, e que estava cursando seu último ano de direito, e por isso estava preocupado com as faltas.

Mas mesmo assim, depois de vinte e um dias cuidando daquele rapaz, o alimentando, conversando com ele, por sentir pena do fato dele ser sozinho no mundo.

Ele ia embora assim?

Isso era realmente egoísta da parte dele, não era?

— Mesmo que ele tivesse que ir para o raio que o parta, ele devia ter me avisado. Eu sou o médico dele, caralho!

Vejo o senhor de perna enfaixada me olhar feio e JongUp começa a rir, enquanto coro e me curvo para ele, pedindo desculpas.

— Está rindo do quê? Isso é tudo culpa daquele paciente!

— Junhong não tem nada a ver com o fato de que sua carência tenha feito você se apegar a ele, só porque você também é sozinho.

— Você o está defendendo, é isso mesmo? — digo, verdadeiramente ofendido — Vou escrever isso no seu relatório de residência.

— Ele é um bom rapaz, pare de implicar com a saída dele.

— Ele foi embora sem alta médica.

— Eu dei alta pra ele.

— Isso é um complô agora! — balanço a cabeça, passando a mão pelos cabelos ainda úmidos depois do banho — Se eu achar Choi Junhong, eu mato você e ele.

— Daehyun-ssi? — congelo no lugar , olhando para JongUp, que parecia prestes a explodir em risadas.

Me viro lentamente, apenas para encontrar Junhong parado no lugar, vestido em um terno, com um buquê de flores na mão. Estava com o rosto surpreso e a sobrancelha arqueada.

— Eu vim para agradecer por ter salvo minha vida — ele começou, estendendo o buquê —, mas considerando que agora sei que quer me matar novamente, acho melhor eu voltar em outra hora.

Me vejo sem fala, e preciso balançar a cabeça algumas vezes antes de me dar conta do que estava acontecendo, pegando as flores de forma desajeitada e me justificando, enquanto o rapaz sorria:

— Ah, não. Eu estava dizendo a JongUp que ele não deveria ter liberado você tão cedo. E-Eu deveria fazer ainda alguns testes para que você pudesse sair e-

— Você ainda não almoçou, certo?

A forma como fui interrompido me deixou desnorteado, e apenas nego com a cabeça em resposta.

Algo naquela petulância me era familiar. Quase parecia um soldado rebelde.

Vejo-o sorrir e continuar falando, enquanto colocava as mãos no bolso:

— Estava pensando se gostaria de tomar um café, ou até mesmo ter o seu almoço agora.

— Com você?

— Comigo. Eu fiquei sabendo que seu plantão acabou a pouco e você irá para casa.

Você se esquecerá de tudo, mas ainda manterá em sua mente as seguintes informações:

O nome dele dessa vez será Choi Junhong.

Me pego balançando a cabeça enquanto sorrio e começo a andar para fora do quarto, sabendo que estávamos sendo vigiados por JongUp.

— Eu acho uma ótima ideia.


Você o salvará da morte.

Com as flores em um vaso e já sem o jaleco branco tão característico de meu visual, me sento à mesa, de frente para o móvel da cozinha e para o fogão, onde um desajeitado Junhong tentava cozinhar algo para almoçarmos.

— Aish, desculpe Daehyun-ssi. — ele resmungava, se atrapalhando — Eu, geralmente, sou muito bom cozinhando, mas não sei porque estou nervoso agora.

— Você não quer ajuda? — me levanto, vendo-o negar com a cabeça, e mesmo assim me aproximo do rapaz, que era mais alto, pegando um avental para ajudá-lo a cozinhar.

Ele estará sozinho nesse mundo.

Termino a pasta em meu prato e sorrio ao vê-lo se levantar e tirar os pratos para lavar, e o acompanho, secando as louças enquanto isso:

— Você tem onde dormir? — pergunto, depois de uns minutos de silêncio.

— Eu posso alugar um quarto da faculdade caso arrume um emprego de meio período. — ele deu de ombros, sem me olhar.

— E como vivia com sua irmã?

— Eu não vivia com ela. Ela morava com o pai. — e ele se calou, sem querer falar sobre o assunto.

Não o deixe ir embora. Ele irá se apaixonar por você

Pigarreio baixo, chamando sua atenção, e sussurro:

— Onde você morava antes? — ele pensou antes de responder, ainda hesitante.

— No porão da casa dela.

— E não pode voltar para lá, pois é ela que lhe encobria? — ele assentiu com a cabeça — E onde estão suas coisas?

— Na faculdade.

Suspiro, de forma triste, e vou até a geladeira, procurando uma garrafa de água.

— Fique aqui essa noite. — vejo-o corar e desviar o rosto novamente.

— Eu n-

— Durma aqui até ter outra opção.

— Eu não vou poder lhe pagar.

Essa é sua última chance de viver com ele.

— Eu não irei lhe cobrar dinheiro por isso. — ele me olhou confuso — Se forme bem, arrume um emprego. Se torne o promotor que sonha.

Vejo seu sorriso no canto dos lábios e sorrio também, chamando-o com a cabeça para irmos assistir um filme.

Vejo-o assentir e me seguir, se sentando ao meu lado e penso em tudo que você havia me contado nessas três semanas em que lhe cuidei. 

Penso também no sonho estranho que tive, durante minha vida inteiro, sobre você, seu nome e sua vida.

Sinto-o segurar minha mão e não posso evitar sorrir. Seu toque era familiar, embora novo.

Como se fosse perfeitamente proporcional à minha.

Como se eu houvesse esperado anos por isso.

Como se estivesse predestinado.

Como se eu não precisassee negar mais nada.


E vocês nasceram para ficarem juntos.








Notas Finais


Observações de linguística
*Mazal tov- Parabéns em hebraico
*Sliha. - Desculpe em hebraico
*Bevakasha- Por favor em hebraico
*Yǒushēngyǒusè - Impressionante em chinês
*Jièkǒu - Desculpe em chinês
*Zàijiàn - Adeus em chinês
*Vergib mir - Perdoe-me em alemão
*Warten - Espere em alemão
*Ich habe dich vermisst - Senti sua falta em alemão
*Nano toka - Olá na língua asteca
*Né, sunbaenim - Sim, professor/chefe em coreano
*Hyung - Amigo/Irmão mais velho em coreano
*-ssi - Sufixo usado no coreano pra de referir a alguém formalmente, geralmente alguém com um cargo/função mais importante que o seu.

Espero que tenham gostado
Qualquer coisa me grita no Twitter @banghim_b


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