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História Medicine - Capítulo 8


Escrita por: steinfeldd

Capítulo 8 - 8. I like a look of agony.


VIOLÊNCIA! OS QUATRO INTEGRANTES DO THE POETS SÃO DETIDOS APÓS CONFUSÃO EM ATLANTA.

Ao chegar à cidade pra fazer a divulgação do mais recente álbum (Open Me Carefully), a banda teve um dia extremamente agitado desde o início por culpa de suas agendas lotadas. Pela manhã, Ben, George, Mary e Emily marcaram presença em três estações de rádio diferentes e pela tarde foram fotografados para a NME e entrevistados pelo The Sun. O estresse já era no mínimo esperado, ainda mais quando cada um está atualmente vivendo suas próprias polêmicas particulares. Bem Newton foi fotografado ao lado de sua, aparentemente, mais recente namorada (sim, outra), mas dessa vez é uma modelo mirim em ascensão que, pasmem, é 10 anos mais nova do que o guitarrista. Mary e Emily não estão nas melhores páginas! O afastamento da compositora, ocasionado por trabalhos paralelos, parece ter feito à relação (cof, cof, namoro) das duas esfriar. Nem mesmo um post parabenizando a colega de banda por ter sido indicada ao prêmio de melhor baterista do ano pela revista Modern Drummer a vocalista fez, e o declínio da parceira perante o possível término entre elas foi evidente. Um vídeo da instrumentista de percussão completamente eufórica com o nariz fungando em uma balada circula por toda a internet. E pensou que George, o nosso querido baixista, ficaria de fora? O rapaz de sorriso doce nos mostrou sua verdadeira identidade e deixou claro que não tem nada de santinho! A nossa representatividade responsável homossexual foi vista saindo de uma das maiores boates LGBT+ acompanhado de dois rapazes. Agora, cansados de suas carreiras, resolveram jogar tudo a perder ao se envolverem em uma briga no meio da rua, causando um tumulto na saída do hotel Four Seasons. Ben golpeou a face de um paparazzi por supostamente chamar o seu colega de banda de "viadinho" e Emily Dickinson, filha do senador Edward Dickinson que concorre a reeleição atualmente, incentivou o guitarrista afirmando ter escutado claramente. Confira o vídeo em baixa resolução filmado por um dos fãs que estavam no local.

@maryeemilycontadecasal: meu deus do céu, gente, que horror! será que está bem?

reply @ggouldie: o paparazzi homofóbico???

reply @maryeemilycontadecasal: claro que não, amiga, a mão do ben!!

O QUE SERIA DE NÓS SEM A FAMÍLIA, NÃO É MESMO?

Cruzo os braços com o melhor sorriso que tenho.

A delegacia está quase vazia pelo horário, os computadores estão desligados em sua maioria. Poucos oficiais curiosos nos observam por trás do vapor quente emanando das xícaras de café e fofocam entre si em um disfarce inútil de que não é sobre nós. Poderia dizer que seria um dia tranquilo de trabalho pra eles, exceto pelo tumulto além das portas de vidro que fecham o local, onde uma pequena equipe de homens da lei tentam conter a baderna pedindo calma. A imprensa inteira da cidade parece ter corrido em busca de apurar o que houve horas atrás e até entrarmos, os flashes cobriam as paredes de vidro, mas não estamos mais próximos do alvoroço. O telefone da delegacia toca a cada instante, mas pela expressão irritada do policial que está apenas cumprindo o seu trabalho ao atender todas as vezes, julgo que é somente jornalistas oferecendo dinheiro por alguns detalhes.

— Você acha que nós seremos processados? — Mary pergunta ao meu lado, sentada em um dos bancos. Ela não para de roer as unhas de tanto nervosismo. Me inclino pra trás com a minha expressão mais entediada e observo o movimento pela vidraça que cobre as paredes da sala no final do corredor.

O rapaz sentado próximo ao oficial segura o pano no nariz com a cabeça tombada pra trás enquanto os pingos de sangue mancham sua blusa. A advogada irritada ao seu lado não para de gesticular, narrando o acontecido e o quanto devemos pagar pelo estrago feito. Olho pra Mary novamente.

— Nós? Eu não tenho nada a ver com isso. — Aponto na direção do fotógrafo. — O Ben que deu o murro, eu mesma só pedi pra ele fazer.

— Emily, é serio! — Ela vira pra mim com os olhos arregalados.

— Você está preocupada com o quê? — Pergunto.

— Você realmente não se importa que a gente esteja em uma delegacia? — A loira parece extremamente séria e chocada.

George anda de um lado para o outro e Ben parece furioso no banco ao lado de uma mesa de canto, sua perna não para de balançar em uma ansiedade óbvia. Estávamos aguardando o agente resolver o problema com o fotógrafo dentro da sala. A minha mente não conseguia parar de pensar sobre como sua justificativa pra prestar queixas foi dizer que estava em seu direito de exercer sua liberdade de expressão e não deveria ser agredido por isso. A típica máscara do preconceito.

Ergo as sobrancelhas pelas reações exageradas. Ele mereceu e de qualquer forma já estávamos horríveis com a mídia.

— Sinceramente, não. — Dou de ombros e em seguida prendo as mãos por trás da cabeça em uma postura relaxada. — Achei até divertido, queria que tivesse briga toda noite depois de dias corridos como esse, revigora as minhas energias de um jeito que não consigo nem descrever.

— Seu amigo sofreu homofobia.

— E eu fiz a minha parte contando pra o Ben porque sabia como ele ia reagir. — Respondo com um sorriso largo e lanço um ‘joinha’ em direção ao guitarrista, mas ele apenas me dá o dedo do meio ainda mais estressado. Eu faço um biquinho e ergo as mãos. — Calma, não precisa ficar puto.

Ele me olha incrédulo e se levanta prontamente.

— É claro que eu estou puto! — Ben bate na mesa ao lado com força, fazendo Mary recuar em surpresa e chamar atenção do policial mais próximo. O oficial leva a mão ao coldre, mas relaxa ao ver que Ben só estava agitado. O mais velho da banda parece estar prestes a explodir em ódio. — Eles mentem o tempo inteiro com essas matérias chamativas. Já viu o que está saindo por todo canto? Que eu estou namorando uma garota de 17 anos? Eu sou como um mentor pra ela. A menina é apaixonada por música e muito querida pela minha família inteira. Faz eu me sentir sujo que falem isso sobre mim dessa forma e eu não consigo nem imaginar como ela deve estar porque não tive tempo pra fazer nem mesmo uma ligação de tanta correria. Ainda preciso ouvir esses desgraçados fazendo comentários homofóbicos pra cima do George e esperam que eu fique parado?

Suspiro cansada.

Ao menos em uma coisa eu o compreendia perfeitamente, estar presa a falsidade de uma manchete. Desde o sucesso do álbum estão ainda mais em nossa cola, era o preço que pagávamos por ter o nome estampado a cada esquina. Vende, atrai. Somos apenas peças pra ser usadas em um tabuleiro onde os reis e rainhas se movem conforme a quantidade de fama e status que seus subordinados possuem. Emily Dickinson? Distorça tudo o que ela falou pra colocar no enunciado! O nome da garota rende muito clique em nosso site e isso gera dinheiro.

George se aproxima tentando soar paciente pra acalmar Ben de alguma forma.

— Eu sei, essas matérias são algo que afeta a todos nós. Eu estava na despedida de solteiro de um amigo e saí de lá com ele e o noivo, agora está pela internet inteira que sou gay e fiz um ménage. E pelo visto as duas coisas são terríveis e ninguém esperava uma atitude como essa de um ser imaculado como eu. — George aponta pra si mesmo, irônico, e nega com a cabeça. — Além da expectativa ridícula, ainda desvalidaram a minha sexualidade.

— Por favor, gente, e eu que passei a usar cocaína porque a Emily terminou comigo? Na realidade só me filmaram tendo uma crise alérgica na balada e querendo sair de lá imediatamente. — Mary diz incrédula.

Todos nós nos entreolhamos. Meus lábios tremem em uma linha firme, eu balanço a cabeça tentando segurar, mas depois de alguns segundos não aguento mais a urgência que nasce em mim.

Começo a rir.

Primeiro é só uma risada leve pelo quão absurdo todas as mentiras inventadas são, mas então as matérias começam a passar na minha mente com as manchetes mais tendenciosas possíveis e a gargalhada que solto explode alta e é contagiante. Os outros três compreendem e não conseguem se segurar também. Em questão de segundos todas as carrancas partem, dando lugar a uma risada genuína gutural que rasga o início da garganta.

— Parem de rir imediatamente! Parem de rir agora! — Falo ainda gargalhando com lágrimas começando a formar nos cantos dos olhos. Coloco as mãos sobre a barriga sentido uma dor no estômago de tanta força que o meu abdômen faz pelo movimento das risadas, mas não consigo parar de achar graça em tudo aquilo. — Amanhã vão escrever "The Poets ou The Delinquentes? Após agredirem um cidadão de bem, riem na delegacia e debocham dos policiais!”.

Uma senhora passa por nós, nos olhando como se fôssemos loucos e coincidentemente, a forte fragrância que a acompanha é justo a que carrega os componentes que Mary tem alergia. A loirinha solta um espirro e sacode o rosto, passando a mão na narina. Suas bochechas ficam ruborizadas no mesmo instante e uma pequena vermelhidão se espalha desde a ponta do nariz para o resto do rosto.

— Agora vão dizer que a Mary ainda cheirou pó dentro da cela! — Ben tomba a cabeça pra trás rindo do próprio comentário.

— Vai se foder, Ben! — Ela diz com um sorriso. Eu sinto as lágrimas rolarem pelas minhas bochechas do tanto que gargalho de novo da situação. Ela é tão surreal, mas ao mesmo tão visível, era o tipo de coisa que diriam sobre nós.

De repente uma dor urge em meu peito e se alastra de uma maneira visceral que me deixa totalmente nervosa por me pegar fora de guarda. Meu sorriso morre aos poucos. E se fosse o tipo de coisa que começariam a inventar sobre Sue? Era aquilo que eu tinha medo, o que ela acreditava que valia a pena passar, mas honestamente, a exposição é imensurável e a maldade é desmedida, essa constatação tem me deixado perturbada. O que eles inventariam de uma garota tão pura? O que encontrariam e seria dito sobre ela?

Artigos exaltando sua inteligência, prêmios escolares, fotos do cotidiano no instagram, vídeos de quando era criança tocando em recitais e covers no teclado, filmados em péssima qualidade, que o seu pai postava no Youtube pra família ver. Era tudo o que tinha sobre Susan Gilbert na internet, uma garota estudiosa e muito talentosa. Absolutamente nada de perverso. Portanto, fariam o mais doloroso com ela e eu sei disso. Caçariam sua história e usariam todas as perdas pessoais somente pra magoar, machucar, agredir. Eu não suportaria ler nenhuma dessas mentiras quando começassem, mas se fosse sua decisão, eu estaria prontamente em sua linha de frente, levantando os punhos contra o mundo inteiro somente pra defendê-la com unhas e dentes.

Eu sou como Midas. É o que penso. Quando o rei da Frígia pediu a Beco o que acreditou ser uma benção, que o Deus lhe concedesse o desejo de que tudo que sua mão tocasse se tornasse ouro. Sinto que sou igual. Sinto que Sileno deu esse poder a minha mente. E assim como Midas, levei muito tempo até perceber que essa, na verdade, era uma maldição. Não porque toquei em um caderno que se transformou um pó dourado valioso e esse desencadeou consequências. Sujam o meu nome com notícias falsas, pois a minha imagem proporciona ouro. Fazem-me perder a visão por flashes, pois as calçadas que piso se tornam ouro também. Aonde eu vá, gritam por mim e até mesmo uma mera folha em branco, que utilizo para assinar o meu nome, se torna o mais precioso dos objetos. Entretanto, não era essa a maldição, isso apenas me causava tédio e me arrancava risadas de escárnio com o quão patéticas as pessoas conseguiam ser. Não. A maldição estava em temer que se eu tocasse o meu amor, se eu direcionasse o meu dedo a ela e alcançasse a palma de sua mão, essa viraria ouro também e eles iriam persegui-la por ser o meu feito de imensurável valor.

A porta se abre no fim do corredor. A advogada e o fotógrafo saem irritados pelos fundos e o agente da banda aperta a mão do oficial antes de vir em nossa direção.

— Ninguém será processado e o paparazzi desistiu de prestar queixa. — O agente musical diz. Imagino o quão irritado ele está por dentro, resolver esse tipo de assunto estava além do que deveria fazer por nós. — Por incrível que pareça, a justiça será feita.

Ergo as sobrancelhas.

— Quanto você ofereceu? — Semicerro os olhos com um sorriso de lado, sendo totalmente implicante. — Aposto que disse que iria fazer da vida dele um inferno. A sua esposa não trabalha em uma revista? Ameaçou falar com a prefeitura e cortar fundos de investimento pra delegacia?

O rapaz revira os olhos, Tom, ele passa a mão na barba rala e me dá as costas, deixando claro que não compartilharia o método utilizado e muito familiarizado com o quão irritante sou.

Nós nos levantamos pra voltar ao hotel.

— Emily, já parou pra pensar no motivo desse seu humor besta nunca passar, essa necessidade constante de encher o saco dos outros e essa sua desconfiança toda? — O agente pergunta. Ele me entrega os meus óculos, me preparando pra enxurrada de flashes que viria. Eu o encaro com uma curiosidade extrema. — Deve ser frustração sexual.

Ben assobia.

— Vou fingir que você não disse isso. — Respondo. Sigo com os passos pelo corredor vazio. — É para o bem da nossa amizade.

Mary segue na frente, mas se vira como a boa fofoqueira que é, totalmente interessada no assunto.

— Quando foi a última vez que você esteve com alguém? — Ela pergunta.

— Ontem à noite lá na sua casa. — Estiro a língua. Mary me cutuca na barriga e me abraça de lado tentando bagunçar os meus cabelos, mas sua estatura baixa não permite e eu passo as mãos em seus fios loiros pra revidar.

George passa por nós negando a cabeça e abre a porta pra sairmos de vez. O tumulto é evidente, há paparazzi por todos os lugares e diversas câmeras apontadas em nossa direção, mas os policias se esforçam pra que a gente consiga passar sem causar dano físico. Os flashes perturbam a escuridão da noite. Perguntas e mais perguntas são gritadas em nossas faces. Acostumados com aquilo, não respondemos nenhuma.

— Pense pelo lado bom, Emily. Agora que vocês voltaram, a Mary não vai mais usar cocaína nas boates por aí. — Ben provoca baixo atrás de mim, brincando. Eu nego com a cabeça e me afasto da loira o máximo que posso, fugindo em direção a SUV com muita pressa. Não pensei que me sentiria dessa forma algum dia, mas precisava ser responsável ao menos uma vez e evitar qualquer provocação aos tabloides de associações futuras que pudessem fazer entre os relacionamentos da minha vida pessoal. Por Sue. Por temer que a culpassem por algo que nunca sequer aconteceu.

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Desço do carro com Henry em meu encalço. Os óculos escuros essa manhã não eram apenas pela fotofobia, embora os raios solares piorassem ainda mais a sensibilidade que eu tinha a luz, mas pela insegurança da maquiagem não ter escondido perfeitamente as olheiras que se formavam nas bolsas fundas abaixo dos meus olhos. O cansaço é evidente em meus movimentos lentos, resultado de uma péssima noite de sono e uma viagem de avião. Caminho pela calçada em direção ao renomado ateliê de uma das maiores costureiras de Massachusetts inteira.

Se havia algo que eu achava estranho e tenso nos bairros de elite, era que por mais comerciais que fossem as ruas e avenidas, o silêncio predominava, como se fossem superiores demais pra dirigir qualquer palavra um ao outro. Você via os estacionamentos lotados, carros passando e pessoas andando no fluxo fraco, mas nada era realmente ouvido. Passo pelas vitrines ignorando completamente os manequins femininos com os vestidos postos à exibição.

— Vou esperar aqui fora. — Henry diz com um olhar de pânico.

— Como é ser um homem livre e poder fazer essa escolha? — Pergunto dramática. — Porque tudo que eu queria era que um buraco abrisse nessa calçada agora e me engolisse.

Ele nega com a cabeça e se vai, me ignorando totalmente.

Empurro a porta de vidro. O lugar é organizado e luxuoso, os modelos conservadores dos vestidos deixava óbvio que a minha mãe escolheu. Adentro o local seguindo as risadas e a conversa em vozes que logo reconheço.

Sue é a primeira a entrar em meu campo de visão. O espaço é arejado, pintado em tons pastéis, coberto por janelas de vidro que para o lado de fora reflete como um espelho. E ela contrasta na paleta com as roupas escuras que usa hoje. Uma jaqueta verde musgo cobre seus ombros, escondendo uma camiseta preta. Sua perna está cruzada por cima da outra e seu coturno balança conforme ela se encolhe em uma poltrona confortável, os olhos devorando cada palavra do livro segurado firme por suas mãos.

Penso que quanto mais você convive com uma pessoa e a vê com frequência, ela se torna como um reflexo seu. É difícil assimilar as mudanças assim como as suas próprias, a não ser que elas sejam significativas. Mas com Sue é diferente. Eu nunca fui capaz de notar o comprimento do meu cabelo até que ele estivesse realmente longo, mas sempre admirei tanto Susan que podia dizer quantos centímetros os seus cresceram de meses em meses, mesmo a vendo todos os dias. E agora que passamos semanas sem nos encontrar, seus traços só se tornaram ainda mais evidentes.

Eu suspiro e desvio o olhar.

Vinnie está irradiante e verdadeiramente linda. O vestido branco que usa não é extravagante, mas é muito bem feito e abraça suas curvas. É longo de poucos detalhes, as mangas acompanham seus braços e ela roda em frente ao espelho com uma expressão de satisfação enquanto a mão descansa em cima da barriga, o anel de noivado cintilando. Há algo sobre sua postura no meio das outras duas garotas desconhecidas ao seu lado que opinam sobre a vestimenta, que a faz parecer uma mulher socialite e influenciadora da elite, longe da figura jovial que porta geralmente. Seu cabelo dourado está preso e quando me nota através do reflexo do espelho se vira parecendo furiosa. O tanto que ela parece com a nossa mãe naquele instante me faz recuar surpresa.

— Você está tão atrasada, Emily! — Ela aponta pra mim, mas sua fala seguinte faz os meus ombros relaxarem. Lavínia não é quem nos deu a luz, nenhuma similaridade física no mundo faria com que fossem parecidas, assim como o nome que carrego pode ser o mesmo, minha personalidade não era. — Só pode ser esse seu ascendente em gêmeos.

Reviro os olhos pela baboseira.

— O que achou? — Ela pergunta. Mexe a cintura de um lado para o outro e eu finjo analisar.

— Horrível. Parece a loira do banheiro. — Comento.

— Invejosa encalhada! — Ela se vira e puxa uma almofada do sofá e tenta jogar em mim, mas eu desvio com um sorriso.

Suas amigas parecem prestes a explodir de admiração pela chegada da minha presença e por incrível que pareça realmente me sinto péssima por não lembrar o nome de cada uma. Ofereço um sorriso e um aceno de cabeça, caminhando em direção a Sue ouvindo um sussurro baixo de ‘’Então a sua irmã é solteira?’’, me afasto antes que eu possa ouvir a resposta.

O meu interesse está em algo mais importante.

— Você é uma péssima amiga, sabia? — Comento fazendo drama. Sue me olha divertida e fecha o livro em suas mãos cuidadosamente.

— Você se atrasa e me deixa sozinha com as amigas da Vinnie e eu que sou uma péssima amiga? — Ela questiona. Me aproximo e faço menção que quero sentar ao seu lado, mas apesar de Sue ser pequena, não há muito espaço ao redor da poltrona. Gostava disso sobre nós, tínhamos um superpoder em conjunto de caber no mesmo lugar independente do quão apertado ele seja.

— Exatamente. — Digo. Sue tenta se afastar o máximo que consegue e quando sento preciso passar uma perna por cima da sua coxa até que estejamos encaixadas no conforto do assento. — É uma péssima amiga por me trocar por esse livro aí, você não estava nem respondendo as minhas mensagens.

— Não tenho culpa se você ainda não se acostumou com os meus hábitos de leitura. — Ela dá de ombros.

— Você já escolheu o seu vestido? — Pergunto. Sue nega com a cabeça.

— Faz duas horas que Lavínia está escolhendo o dela. Disse que tinha que ser a primeira e todas nós deveríamos dar atenção a ela.

— Ótima atenção a que você está dando. — Comento apontando para o livro. Sue ri baixinho.

— Ok, vai ser esse. — Vinnie começa a se aplaudir empolgada. Ela se aproxima e dá as instruções. — Sue, tem algumas opções pra você naquele cômodo.

A costureira a aguarda e Susan se levanta com o olhar pedindo socorro, mas segue mesmo assim. As amigas de Vinnie também se perdem em meio aos provadores. Lavínia volta a se olhar no espelho, dizendo o quão linda ela é.

— Vinnie, se você fosse uma ave, qual seria? — Pergunto entediada. Lavínia semicerra os olhos pensando a finco na resposta e então se vira pra mim.

— Uma galinha preta.

Reviro os olhos.

— Como pode você ser assim tendo estudado em uma escola de freiras? — Pergunto divertida. — Lembra da irmã Teresa?

— Irmã? Aquela ali só se for a irmã do cão. — Vinnie se vira com um ódio mortal.

Lavínia fica séria e eu me pergunto se há algo errado.

— Emily, você já pensou em se casar?

Ergo as sobrancelhas. Nós duas nunca fizemos o tipo de conversas profundas e aquele definitivamente não era um assunto que eu gostaria de me aprofundar com ela.

— Não. — Finjo desinteresse e pego uma revista na mesa de centro.

— Pena. Você seria uma ótima esposa. — Ela diz. Vinnie começa a alisar o próprio vestido. — Uma desmiolada, mas é boa com crianças.

Ergo o olhar.

— Você está me chamando de desmiolada?

A costureira passa entre nós e avalia o vestido de Lavínia. A garota ergue os braços pra receber alfinetes em algumas partes na região do busto. Acredito que seja pequenos complementos finais.

— Estou em meu mais perfeito estado mental. Corpo são e mente sã. — Vinnie me responde e se vira pra fazer uma pergunta a costureira. — A senhora pode fazer um chapéu com penas de pavão pra mm? Estou sentindo uma vibe meio artística aqui. Qual o seu signo?

Nego com a cabeça e me levanto pra acompanhar Sue.

Entro no cômodo. É repleto de vestidos em manequins, roupas organizadas em uma arara e há uma porta no final que penso ser o provador. Há duas poltronas encostadas na parede e entre elas um longo espelho que me dá visão completa do meu corpo. A porta se abre e desvio o olhar, sentindo a minha boca cair devagar sem acreditar na visão que tenho.

Sue usa um vestido em tom creme que abraça a curvatura de sua cintura e o delineado de seu corpo, com um acabamento acima dos joelhos. Os detalhes rendados nas laterais deixam vislumbres de sua pele macia. Duas presilhas seguram os fios que geralmente caem nas laterais de seu rosto e o cabelo castanho escorre na altura dos ombros. As mangas são firmes, caídas pelo modelo. Sempre considerei essa cor um pouco morta, mas em Sue toma uma vida própria que a faz parecer uma rainha. Ela está tão linda que tenho certeza que todos os deuses do olimpo duelariam entre si e iniciaram uma briga enorme somente pra ter seu coração.

Ela anda séria em minha direção. Seus detalhes são desconcertantes. Sua pele, seu cheiro, seus trejeitos. Sua expressão inteira tão concentrada.

— Não sei o que pensar. — Ela diz. Eu sei, você está deslumbrante. Sue vira para o espelho e se estuda mais um pouco. — Mas foi a melhor opção que vi entre essa cor.

— Foi a minha mãe. Ela que escolheu milimetricamente o que cada um usaria, também tive três opções da mesma cor. — Digo encarando nossos reflexos.

— E onde está o que escolheu? — Ela pergunta com o cenho franzido, se referindo ao meu vestido.

— Pensei que eu não conseguiria chegar a tempo então meio que já escolhi.

— E por que veio mesmo assim? — Ela continua se olhando.

— Ah, você sabe. Apoio emocional a Lavínia. — Coloco as mãos em seus ombros e tento mudar o assunto. — Você está linda, Sue. Sério.

— Não sei... — Ela dá um passo pra trás e ergue o queixo. Suas costas colam no meu corpo e eu engulo em seco no mesmo instante. — Acho que beleza é a última coisa que pode se aplicar a mim agora.

Nego com a cabeça.

— A beleza é um encaixe onde peça por peça fica rente uma a outra, se juntando em um agrupamento perfeito, de tal forma que nada precisa ser adicionado, retirado ou simplesmente alterado em si. — Minhas mãos descem devagar pelos seus braços, em uma carícia precisa. Depois ergo os dedos novamente, dedilhando sua pele e se demorando por cada lugar até soltar as presilhas de seu cabelo. Quero assistir os fios caindo por sua face, pois o movimento é alucinante pra mim, quase poético de tão sensual. Sue encara os nossos reflexos no espelho e usa o indicador pra empurrar o mar castanho para o lado e liberar sua visão. Seus olhos firmam nos meus e eu desvio o olhar da nossa aparência através do objeto para contempla-la pessoalmente. Seus ombros desnudos a centímetros de distância da minha face quando abaixo a cabeça pra observar tudo o que posso; onde a ponta do cabelo acaba e encontra o tecido creme do vestido cobrindo seu busto e apertando seus seios, a veia tranquila em seu pescoço, sua pele alva macia, os ossos fundos em sua clavícula e toda a estrutura que se move quando Sue respira em um compasso. Seu queixo se ergue em minha direção pela falta de conclusão em minha fala, tentando estudar os meus movimentos, mas não consigo parar de desejá-la. O cabelo cai um pouco pra trás quando ela me assiste séria, de perfil, tentando me olhar por cima do ombro. Quero capturar em minhas retinas suas cores e nuances, sem qualquer mínima distorção de imagem que o espelho possa refletir, mas mais do que isso, quero esculpir cada uma com as minhas próprias mãos e pintá-la devagar só porque não há ninguém que entenda melhor uma obra de arte do que seu criador, só porque não há ninguém que a apreciaria e a amaria como eu faço. A minha voz sai rouca e meu hálito bate contra o seu ouvido quando me aproximo pra fazê-la entender. — E é assim que eu te vejo, Sue. Linda e impecável, sem absolutamente nada fora do lugar. Seu aspecto inteiro é perfeição divina.

Ela se vira em um movimento brusco até estar de frente pra mim. Estamos tão perto que cada vez que respiramos fundo, nossos troncos se encostam. Meus olhos percorrem sua face, absorvendo a firmeza e a vontade que seus olhos, agora escuros, gritam. Sue encara a minha boca e eu só quero dizer o quanto pertence a ela. É sua, é toda sua. E você deveria me deixar passa-la por cada centímetro de pele do seu corpo.

Eu permito que o meu olhar despenque até seus lábios naturalmente roseados pra que ela perceba o que não digo. E ali, ah, ali tenho a mais completa certeza de que Sue não é tão boa quanto aparenta ser, pois ela não pensa duas vezes antes de me maltratar quando seus lábios se partem de leve e a ponta de sua língua desliza para fora e molha a própria boca, percorrendo toda a extensão inferior com uma lentidão que causa aperto junto a maior das fagulhas dentro de mim. Uma chama forte emerge, a onda de um oceano agitado desce e a incendeia ainda mais, intensificando todas as necessidades mais libertinas do meu corpo.

— Meu Deus, Sue! — Lavínia passa pelo arco da sala com as mãos levantadas e os olhos arregalados. Eu me afasto da minha melhor amiga imediatamente, fingindo uma tosse pra disfarçar o meu estado deplorável. — Tire esse vestido agora! Nenhuma mulher no casamento pode estar mais bonita do que eu.

Susan sorri como se nada tivesse acontecido e em um manear de cabeça se retira de volta para o provador. Ela ergue o queixo em minha direção e fixo o meu olhar no seu uma última vez. Ela sai, mas a minha respiração demora a se estabilizar.

— Se você quer tanto beijar a Sue, pelo menos se certifique de que não farão isso em um local público, sua burra inconsequente e cheia de tesão. — Vinnie bate no meu braço e eu afago o local com um pequeno protesto. — Se eu não tivesse aparecido na hora, outra pessoa teria e eu adoraria ver os pulos que você daria pra roubar o celular de alguém e apagar uma imagem que valeria ouro. Qual é a sua agora?

Não sei se sei como responder a pergunta então sigo pela tática mais segura que conheço.

— Não é isso que você está pensando. — Faço cara de inocência. — Eu realmente ia beijar a Sue, mas era só um beijo de gratidão por ela ter escolhido um vestido bonito.

— Não conhecia esse termo. — Ela cruza os braços e ergue a sobrancelha.

— Que termo?

— Escolhido um vestido bonito. É assim que vocês chamam? — Vinnie semicerra os olhos.

— Não, Vinnie. Ela literalmente acabou de escolher um vestido bonito. — Entrelaço os meus dedos e sorrio como santa.

— E você ia beijar a boca dela como forma de agradecimento por ela ter escolhido um vestido bonito pra ela? — Lavínia quase berra de tanta incredulidade.

— Vai dizer que você nunca fez isso? — Eu digo como se fosse óbvio e corriqueiro entre as mulheres. Vinnie bate o pé repetidamente porque finalmente entendeu que eu estava apenas tentando fugir da pergunta inicial. Mas eu não entendi, eu realmente ia beija-la por ter escolhido um vestido bonito pra ela, ora.

— Só saiam daqui, tá? — Ela faz um movimento com as mãos como se estivesse me expulsando e some pelo arco, voltando a se juntar com as amigas.

Sue sai com as próprias vestes depois de minutos, mas eu ainda quero beija-la mesmo assim.

— Vinnie disse que poderíamos ir. — Digo. — Pra onde você está indo agora? Já vai pegar o trem pra New York?

— Na verdade, não, preciso ir até a casa dos seus pais encontrar o Austin. Ele precisa da minha ajuda pra correção de um trabalho importante da faculdade dele. — Seguimos pra sair do cômodo.

— É isso que acontece quando não se tem cérebro. — Suspiro. — Está prestes a se formar e não sabe nem mesmo o próprio idioma.

— Pare. — Ela me empurra usando o ombro, mas sua expressão é divertida. — É o meu trabalho de certa forma.

Eu não me importo em me despedir de ninguém, mas Sue sim, então fala com as amigas de Vinnie enquanto eu apenas aceno de longe.

Ela retorna ao meu lado.

— Me deixe te levar. — Abro a porta e espero que Sue passe primeiro.

Andamos lado a lado pela calçada até Henry virar o rosto em nossa direção, notando a nossa presença. A brisa fresca balança sua blusa social e seus olhos estão escondidos pelos óculos. O homem desencosta do carro na sombra e abre a porta pra que a gente entre.

— Acho que finalmente me acostumei com o nível de riqueza dos Dickinson. — Sue diz. Ela se se senta no canto e eu fico no meio, tentando estar o mais próxima possível dela, mas sem parecer que essa é a intenção.

— Depois de 8 anos? — Pergunto divertida. Ela acena com a cabeça.

— Estou querendo fazer algo novo na minha aparência, mas não quero pintar de loiro novamente. — Sue se vira de lado e apoia as costas na janela, descansando na porta do carro, deixando as paisagens de Boston caminharem devagar atrás de si pela velocidade lenta do automóvel. — Já que você é a rebelde entre nós, deveria sugerir algo grandioso como a péssima influência que é.

— Eu sou a rebelde? — Aponto pra mim mesma com as sobrancelhas erguidas. — E má influência ainda mais?

— Verdade. — Sue cerra os olhos em minha direção. Um sorriso travesso se espalha em seu rosto quando seus olhos me escaneiam. — Você nem tem piercing ou tatuagem. O que eu não entendo, sabe. Não são adereços que acompanham obrigatoriamente a jaqueta de couro?

Abro a boca fingindo estar indignada.

— Eu nem estou usando jaqueta. — Estico os pulsos para frente, deixando as mangas longas da blusa branca caírem um pouco por cima das minhas mãos. — Você que obviamente é a má influência aqui, tem até tatuagem.

— Eu posso ter uma tatuagem, mas vou dormir todos os dias às 23h30m. Qual a sua defesa pra isso? — Sue ri.

— Ter insônia é sinônimo de rebeldia, Gilbert? — Tento apertar sua costela por implicância e ela desvia sorrindo.

— Claro que não, mas sair de casa aos 19 anos por ter entrado em uma turnê com uma banda de rock é.

Aponto pra ela.

— Você saiu de casa aos 19! Tecnicamente eu ainda morava com os meus pais.

— Mas é diferente, sai pra me familiarizar com uma cidade nova já que eu ia ingressar a faculdade no ano seguinte. O que só comprova o meu ponto de que você é a má influência. — Ela sorri cantando vitória.

— Certo, você colocou um piercing no septo sem a permissão dos seus pais quando tinha 14 anos e precisou tirar enquanto voltava pra casa porque percebeu que não conseguia esconder. — Empurro o seu all star com o meu.

— Você criou o vale silêncio por querer me persuadir a desobedecer aos meus pais, quais eu sempre respeitei muito, sem que eu pudesse te questionar. — Ela levanta uma sobrancelha e empurra a minha perna com a sua. — Sério, Em, quem faz a outra pular a sacada do quarto às 2h da manhã, contrariando um toque de recolher, dizendo que precisa de companhia, mas nenhuma pergunta sobre isso pode ser feita? Eu quase torci o meu pé aquela madrugada!

Uma pessoa apaixonada que só queria passar tempo com você depois de horas sorrindo e acenando em uma festa cheia de gente falsa, cansada demais pra falar sobre o assunto, mas disposta demais a ouvir sobre os seus planos para o futuro.

Eu nego com a cabeça pela injustiça em citar a brincadeira que inventei onde tínhamos direito a pedir algo uma a outra e aquilo deveria ser feito sem julgamentos e caso aceitado, não poderíamos falar sobre.

— Você também usou o vale silêncio! Me fez comprar vários rolos de papel higiênico só pra jogar no telhado da casa de uma garota, além de quebrar ovos no carro da menina. — Cruzo os braços. Sue relaxa ainda mais, parecendo interessada e totalmente disposta a continuar com a implicância. — Até hoje não sei o motivo pelo qual prejudiquei uma propriedade privada.

— Você me fez ter o meu primeiro PT. Eu passei um dia inteiro acamada por ter bebido demais.

— Ok, Susan. Duas podem jogar esse jogo. — Me viro em sua direção e aponto o dedo fingindo uma expressão de quem está prestes a ir pra guerra. Ela semicerra os olhos pra mim e eu repito o seu movimento. Ambas parecendo extremamente sérias fuzilando uma a outra com o olhar, mas a narina de Sue infla um pouco e percebo que ela está mordendo a bochecha pra não gargalhar e quem cede ao riso sou eu, sendo acompanhada por ela em seguida.

Deito a cabeça no encosto do banco.

— Eu não sei o que eu poderia sugerir. — Volto ao assunto inicial. — Deveria mudar se é o que quer. Uma franja? Não sei. Eu de verdade não sei o que eu poderia dizer. Você é linda, Sue, tão linda. E ao mesmo tempo em que qualquer coisa cairia perfeitamente bem, já está tudo perfeitamente perfeito pra que seja mudado.

Lembro de algo.

— Venha comigo pra Califórnia. — Peço de súbito. Sue me encara meio desconcertada, meio incerta.

— Califórnia? Faz muito tempo que não vou lá. — Ela diz distante.

— Eu sei. É que vai ter uma pequena... Festa entre amigos. E agora que entregamos tudo nas mãos de Deus e resolvemos sair por aí desbravando o mundo, gostaria muito que fosse. — Sorrio de lado.

Sue faz que sim com a cabeça. Sorri pra mim e desliza no banco até que sua cabeça esteja encostada no meu ombro e seu braço arrodeando a minha cintura, assistindo em silêncio as figuras de um mundo barulhento lá fora, por trás da nossa proteção, através dos vidros da janela. Passo os dedos cuidadosamente pelos fios de seu cabelo, tentando ser o mais gentil que posso e controlada o possível, apesar do meu coração disparar toda vez que o aroma de seu shampoo me atinge. O carro balança devagar em um movimento confortável e nós duas ficamos o caminho inteiro assim, abraçadas em nossa própria troca de afeto. Eu, ela e The Ghost In You do The Psychedelic Furs tocando baixinho na rádio.

Pelo retrovisor, ofereço um olhar de gratidão a Henry pelo feito e ele me responde com um manear de cabeça por saber o quanto aprecio a banda.

Contra o meu peito, sinto Sue murmurar a letra junto ao vocalista.

And love is only heaven away.

E é exatamente assim que me sinto naquele instante, que o amor está por todo o céu, que o amor está a um paraíso de distância.

//

Deixo Sue na escada que leva ao andar superior, onde ficam os quartos principais da casa. Nós passamos pela porta de entrada rindo extremamente alto da história que contei sobre essa vez em que estava na Bielorrússia e um cara chegou pedindo o meu autógrafo por querer tatuar na nádega.

— Não, Sue, ele realmente queria abaixar a calça pra que eu autografasse e o tatuador só passasse a máquina por cima. Eu que tive que implorar pra fazer em um papel. — Digo.

Desvio o olhar para uma figura atrás de Sue. O meu sorriso morre no mesmo instante em que vejo a minha mãe nos observar no arco que divide o corredor para a sala de estar. Por sua expressão séria, está terrivelmente furiosa por me ver ali. Ou por me ver leve, sorrindo, gargalhando. Vez ou outra chego a achar que ela tem sérios pesadelos onde me vê feliz. Quer tortura-la? Prenda-a em uma cadeira e me faça rir em sua frente ou repita um disco com o som da minha voz contando algo com empolgação, vai surtir o mesmo efeito de agredi-la.

Os braços cruzados em frente ao corpo. Pelo colar de pérolas em seu pescoço, o paletó marfim que usa e a saia social, julgo que acabou de chegar do trabalho. O cabelo loiro está solto e penso que esse é um dos poucos momentos que a minha mãe não o prende. Quando está em casa e não precisa mostrar para um público que tem total controle de tudo, porque sua família inteira já sabe disso.

A tensão é palpável no ar.

— Susan Gilbert, querida. Você é sempre bem-vinda em minha casa. — A matriarca estica a mão para cumprimenta-la. Sue morde a própria bochecha em desconforto, mas é educada demais para não aceitar, dando um sorriso forçado. — Veio ver o Austin?

— Sim. — Sue responde e acena com a cabeça.

— Fico muito feliz. Espero que as coisas se resolvam entre os dois. Austin é um garoto incrível e com ótimas intenções, educado, disciplinado. Fora o óbvio futuro promissor, não é? — Claro que ela faria isso.

— Ele é um ótimo amigo, Sra Dickinson. — Sue diz firme. A minha mãe não parece contente com a resposta e tenta disfarçar com um levantar forçado nos cantos da boca.

— Como está sua mãe? — Prendo a respiração pela insensibilidade, o jogo sujo que sempre fazia. Trazer à tona tópicos que não eram da sua conta por puro ego ferido, como se fosse se importar coma alguém além de si mesma. Olho pra Sue imediatamente e ela parece meio desconcertada por saber que não era uma pergunta genuína.

— Acho que você deveria subir, Sue. — Tento salvá-la. Sue desvia o olhar para o meu, parecendo agradecida, mas não se move do lugar.

— E você deveria ir. — Ela tenta me salvar.

— Suba, querida. Ao lado da Emily você apenas perderá anos e anos da sua vida. Uma garota tão intelectual e centrada assim não deveria andar com gente inconsequente e irresponsável. — Engulo em seco e abaixo a cabeça de tanta vergonha. Não vou fazer isso, não vou quebrar em sua frente. E tampouco irei responder e começar uma baderna na frente de Sue porque acho que essa é a última coisa que ela precisa ver, mais uma briga de família. Mais uma vez em que saio machucada enquanto a matriarca não sente nada além de mais desprezo por mim.

A minha mãe não tira os olhos de Sue em momento algum, mas os de Sue estão voltados em minha direção.

— A sua filha é a pessoa mais inteligente e centrada que já conheci na minha vida inteira, Sra Dickinson.

A minha mãe solta um breve riso carregado de ironia.

— Aceite o meu conselho, Susan. Não ande com uma delinquente. — A minha mãe se aproxima de Sue e segura os fios de seu cabelo, depois os solta no ar. Deve ter sido o ato mais maternal que já a vi direcionar a alguém. — Sendo amiga da Emily você só vai se decepcionar. É isso o que ela faz com todo mundo, não dá pra esperar nada de bom vindo dessa daí.

Emily Norcross vira em seus saltos e sai em direção ao arco pra seguir sua vida depois de arruinar a minha.

É sua mostra de descontentamento por eu ter sido detida tão perto da eleição do meu pai. Coloco a mão em minha testa quando ela se vai e suspiro fundo. Conto várias vezes mentalmente. Não quero mostrar o quão abalada estou. Se me encheu de trabalho, entrevistas e me obrigou a fazer aparições em público com artistas implicitamente conservadores foi o que fez por eu ter me assumido, não sei o que fará agora. Não sei o que pode fazer pra que eu me sinta ainda mais miserável.

Sue tenta segurar a minha mão, mas eu não permito.

— Emily. — Ela me chama. Sua voz carrega preocupação.

— Não faça isso, está tudo bem. — Me afasto. — Não precisa se preocupar.

— É ela, não é? O motivo por você estar tão cansada ultimamente. — Sue insiste. Coloco as mãos nos olhos e nego com a cabeça.

— Só estou com uma agenda realmente muito cheia, Sue. Tem divulgação do álbum pra fazer em muitas cidades, eu nem deveria estar em Massachusetts. Preciso pegar um avião em algumas horas. Tenho um evento pra atender e preciso gravar uma música pra trilha sonora de um filme. É só cansaço físico. — Porque a minha mãe está lucrando com o meu nome. — Mas está tudo bem.

— Descanse, Em. Por favor. — Ela quase suplica. Aceno com a cabeça.

— Eu preciso ir. — Encaro o teto pra não ter que vê-la me vendo tão quebrada. Não posso ficar perto deles. Não posso ficar aqui.

— Você quer que eu vá com você? — Ela afaga o meu ombro. Balanço a cabeça em silêncio, negando sua pergunta. Eu gostaria, honestamente, mas preciso sair daquela cidade agora, e embora eu queira tanto segurar sua mão e pedir pra que fuja comigo, nossas obrigações são totalmente opostas e eu não posso tira-la das dela.

— Está tudo bem. — Sorrio um sorriso que não alcança os meus olhos. — Eu estou acostumada.

Sue suspira.

— Amo você, Emily. — Ela diz. Fica na ponta dos pés pra deixar um beijo casto em minha testa e eu sinto vontade de falecer de tanto chorar em seus braços, bem ali naquele corredor mal assombrado.

Quando éramos crianças, Sue fazia aquilo com frequência, dizia que esse era o gesto mais singelo de expressar o quanto você deseja cuidar de alguém. E é insano como esse ciclo se repete por todos os anos. Os mesmos motivos do meu choro, a mesma razão pela qual Sue precisa me confortar.

— Eu também amo você, Sue. — Me afasto. Dou as costas a ela e seguro a maçaneta da porta, mas viro em direção a minha melhor amiga uma última vez. Seus olhos carregam a agonia que refletem nos meus, embora nossas expressões disfarcem tão bem e aparentem tranquilidade. Sue sabe que não. Eu sei que não. Aquele momento é exatamente como quando éramos mais novas e sua mão procurava a minha por baixo da mesa nos jantares em família. Emily que é a nossa decepção. — Eu amo muito.

Minha querida Sue,

Mesmo que a desordem já viva caótica em meu peito, lançando a maior das tempestades contra mim, eu ainda arrancaria toda dor do mundo e juntaria a essa grandeza que me arde se eu soubesse que te livraria de sentir o mínimo de tormenta possível. Os seres humanos são formados por uma complexidade tremenda e eu nunca poderia pedir pra que tente entender o meu silêncio em momentos de agonia, você já o faz. Sempre fez. O farol que encontra o meu barco afundando em meio ao mar escuro. Como pude achar, mesmo que por momentos, que estaríamos tão diferentes? Já somos, Sue, sempre fomos. Você queima como um dia ensolarado da primavera enquanto sou fria como uma noite nevoenta de inverno. E mesmo que as flores murchem e os lagos congelem durante a minha estação, sei que a sua estará lá em sincronia para reviver a natureza inteira que há dentro de mim. Por todo o tempo em que estivermos vivas e depois disso também.

Sua eternamente,

Emily.

 



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