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História Medley - Capítulo 1


Escrita por: e yoonjinsiastic


Notas do Autor


Bom dia, boa tarde e boa noite, galera! Espero que gostem do meu bebê augsvakaka
Sempre faço com carinho, mas esse foi especial. A ideia era escrever alguma coisa que fosse baseada nas baladas românticas preferidas dos meus amigos ajsvbakak

Então tudo ai saiu depois que eu ouvi essas músicas várias e várias vezes ajdgshkakq

Aproveitem, um beijo <3

Capítulo 1 - In every kind of way.


Os dedos de Abbachio se afundavam na espuma com cuidado, esfregando os fios lisos e escuros na nuca de Buccellati. Afinal, como poderia tocar de outra forma alguém que significava tanto? Todos os seus gestos imprimiam amor sob a pele do marido sem que Leone nem se esforçasse. 

Enquanto massageava o couro cabeludo de Bruno, sentado num banquinho à borda da banheira, sentia o cheiro de champagne com morangos se espalhar por todo o cômodo, por conta do shampoo caro que ele usava, uma cortesia do hotel ainda mais caro em que estavam hospedados. Brega, brega, brega. Cafona até os ossos e, mesmo assim, estaria mentindo se negasse o quanto gostava de estar exatamente ali, apesar de sempre se sentir esquisito quando aquele dia do ano chegava. 

Se o aniversário de casamento dos dois era no domingo, durante a quarta-feira da semana anterior, Leone Abbacchio já estaria ansioso.

O ex-policial tinha um relacionamento meio complicado com a maioria das datas comemorativas. Não era cristão e portanto pouco se importava com o natal; não via a magia do dia dos namorados, mas o encarava com cautela por Bruno. Sequer conseguia listar mais feriados de apelo popular em sua cabeça, porém era perfeitamente capaz de elencar o pior dentre todos os eventos comemorativos existentes, aquele que o deixava mais incomodado e inquieto: um aniversário. 

É claro que o pior deles ainda era o seu, mas isso não interferia na máxima mais odiosa de todas: um aniversário, por excelência, carrega sua dose especial de lembranças na bagagem. Não que ele e o marido não tivessem um casamento feliz. Muito pelo contrário, aliás. Mas Leone não poderia ser menos afeito a um ato de nostalgia do que já era. 

Para ele, pensar em certas coisas tinha o mesmo efeito que se deixar ceder a um empurrão violento da  atmosfera que o cercava, a gravidade fazendo o possível para puxá-lo em direção ao centro da terra com fome e força até deixá-lo de joelhos. 

Mas, ainda assim, não era como se Leone se visse como um dos homens mais fortes do mundo, carregando um peso ininterrupto nas costas e aguentando tudo sem se abalar. Se fosse sincero consigo mesmo, diria que no alto da grandeza de seus 42 anos e da sua lista nada curta (ou bonita) de feitos, ele era capaz de ser tão inseguro quanto um garotinho perante as sombras do passado. E tudo bem, desde que pudesse continuar orbitando ao redor da luz de Bruno, da luz que produziam juntos e dividiam um com o outro, na verdade. Leone — bem lá no fundo, sabia que suas preocupações não passavam de bobagem, só era preciso lembrar a si mesmo desse detalhe de vez em quando.

— Está calado, marito… — A voz carinhosa de Bruno ascendeu brincalhona. — Não me diga que ficou excitado só com as minhas coxas nuas de novo. Como nos velhos tempos, hm? — O moreno riu, mas levantou uma das pernas em direção ao lado em que Leone estava, como se quisesse provocá-lo. — Eu nem sou mais tão bonito assim!  

A água que Buccellati agitou acabou molhando a calça de Abbacchio, que já tinha tomado banho e estava pronto para sair dali há uma hora — horário em que tinham reserva no restaurante do hotel. Ao invés de se incomodar com isso, Leone agarrou a tal coxa sedutora do seu antigo capo e a apertou com força, guiando Bruno para que ele a colocasse de volta em seu devido lugar, no banho de espuma quentinho que estava tomando. O mais velho riu ao ver que o moreno revirou os olhos azuis, só que não o soltou até que fosse obedecido. 

— Não era esse o caso, tesoro… Bem que poderia ser, só não era. E eu não duvidaria do poder da minha própria beleza se estivesse na sua pele… — Abbacchio beijou o ombro molhado cheirando sabão. — Mas não quero me estender muito nisso porque nós dois temos horário, lembra?

— Ah, sim… Não me deixe esquecer de agradecer aos meninos depois, não esperava que eles fossem escolher tão bem… — Buccellati disse, enquanto modelava a espuma entre os dedos, se referindo aos membros da antiga gangue.

Depois de finalmente conseguirem matar o boss e escapar vivos há quase vinte anos atrás, apenas Leone, Bruno e Trish cortaram relações com as atividades criminosas da Passione, que agora tinha Giorno como líder absoluto — ainda que Una, na verdade, nunca tivesse feito parte de nada por vontade própria. O que não quer dizer que também tinham abandonado certas mordomias. Como presente de aniversário, seus antigos subordinados organizaram a viagem às ilhas Capri com direito à hospedagem e à presentes caros que não paravam de chegar desde que fizeram o check-in na recepção. 

Mesmo Leone não era capaz de negar uma gentileza daquelas, certo? Até porque, Giorno não tinha sido o único a organizá-la, então não era como devesse algo ao loiro. Isso não, nunca, de forma alguma.

 

[...]

 

Em um dado momento do banho, Leone saiu de fininho com uma desculpa qualquer. Como não era bobo, Bruno até imaginou que haviam segundas intenções na excusa do marido. Só não esperava encontrar algo tão meigo, um adjetivo que Abbacchio certamente odiaria vê-lo usar consigo, mas o moreno podia só pensar e não dizer. Nisso não havia mal, certo?

— Leone! Se eu soubesse que ia ter surpresa, tinha preparado a minha!

Saindo da porta do banheiro, a fila de fotos polaroids e corações brilhantes se estendia até a cama de casal, onde as roupas do moreno esperavam por ele. Apesar de não ser fã da coisa toda, Abbacchio encarava aquele dia como se ele inteirinho existisse só para mimar e satisfazer as vontades do marido —  tal qual todos os outros, aliás. — E, se por um lado Leone não gostava dessas firulas românticas, Buccellati as adorava. 

O mais novo não tardou em agarrar as fotografias uma a uma e puxar o marido para sentar na cama com ele, se aconchegando de toalha entre suas pernas longas. No fim das contas, segurar um Bruno tão animado pertinho de si, sempre dava a Abbacchio a certeza de que esforço valia a pena. Era como conhecer um mundo à parte, preso no mesmo feitiço em que Buccellati conseguia colocá-lo com facilidade desde o primeiro dia.

— Ei… O que acha de usarmos o Moody Blues para voltarmos no tempo dessas fotos, hm? No próximo aniversário de casamento, eu digo… — Bruno comentou concentrado, passando as fotografias uma a uma. — Mais da metade dá pra refazer de casa… 

— Não sei se foi a ideia mais romântica que você já teve, considerando algumas circunstâncias de quase morte… — O mais velho deu de ombros. — Mas posso fazer isso, se quiser. 

— Não vejo problema. Sobrevivemos, não? Renegar o passado não faz ele deixar de existir… A vida não é sempre cor-de-rosa. — Bruno esticou o pescoço para encará-lo.

— E eu sei disso. Não é o tipo de coisa que você precisa me explicar, tesoro… — Leone respirou fundo. 

— Então porque age assim, marito? 

— Hm… Porque eu não estou procurando pela vida "cor-de-rosa" — debochou. — para mim, ela já é aqui, agora. Quando estou com você. Não faz muito sentido querer voltar vendo desse jeito, não acha?

Bruno sorriu dessa vez, apertando o rosto do mais velho entre os dedos.

— Eu adoro quando você fica todo meloso comigo e finge que não é nada demais. 

— Porque não é. 

— Ah, por favor… Você sempre me diz "bom dia" como se fosse "eu te amo". — O moreno piscou e se deu por satisfeito ao ver Leone mudo e corado, tornando a olhar para aquelas fotos como se nunca as tivesse visto e deixando a discussão para depois. 

Algumas já estavam meio amareladas e até turvas mas, apesar da qualidade questionável, todas tinham a data, o mês, o ano e inclusive o horário em que foram feitas anotados no verso como uma dedicatória. O último item era invenção do próprio Buccellati, que nunca tinha dado pista do porquê da mania, mas talvez já estivesse planejando usar o stand de Leone para este fim.  

Enquanto o moreno se distraía, imerso nas próprias lembranças, seu marido tinha os olhos fixos no presente. Deitou ao lado de Bruno, admirando o sorriso bonito que nascia em seus lábios e acompanhando a curva com devoção. Ou melhor, com a cara de quem já tinha morrido de amores tantas vezes que nem tentava mais esconder - o homem mais tolo e apaixonado antes já visto. Sentindo o peso daquele olhar, Buccellati o espiou por um segundo e riu.

— Leone, você vai amassar a minha camisa assim… Sai daí. 

 

[…]

 

Depois de prontos, os dois pegaram o bendito elevador, que chegou estranhamente vazio aquela noite. Mas, mesmo assim, quando entraram, preferiram ficar lado a lado como se esperassem pela entrada de mais cinco pessoas na luxuosa caixa de metal que dividiam. Tão próximos que os ombros se tocavam por baixo das roupas, paletós de grife em tons opostos. Enquanto Bruno escolheu vestir um Channel branco com os punhos e a laterais bordadas em dourado, Leone usava um Dior preto, assim com a camisa social que tinha por baixo e o lenço no pescoço.

— Leone… — Buccellati chamou o marido em meio ao silêncio. 

— Sim? 

— Obrigado.

Abbacchio não entendeu. Franzindo o cenho, retomou o olhar ao moreno, o questionando sem nem abrir a boca pintada com seu costumeiro batom escuro. 

Não seja idiota. Você sabe o que eu quero dizer. — Bruno sorriu, finalmente segurando sua mão. — Eu sei que você não gosta tanto dessas coisas quanto eu e que… Bem… Tem os seus problemas em comemorar aniversários. Então, obrigado por se esforçar todos os anos. Você nunca me deixa esquecer o quanto nós dois somos importantes…

Leone suspirou, vendo o olhar emotivo do seu antigo capo. Havia algo no moreno que fazia com que Abbacchio quisesse estar ao seu lado durante milhares e milhares de anos (e até comemorar cada um deles), um fato que Bruno também nunca o deixava esquecer. 

— Mas… Quando precisar, por favor, não ignore que eu estou aqui para te ouvir chorar os seus medos. Sejam eles quais forem, Leo… — Beijou sua bochecha. — Eu preciso de você todos os dias, estando bem ou mal, e posso passar mais vinte anos tentando te provar isso. Ok?

O ex-policial não respondeu, mas isso não impediu Bruno de continuar.

— Um pouco de nostalgia também tem seu lado bom. — Buccellati encostou a cabeça em seu ombro, aspirando o perfume gostoso que usava. - Eu também me sinto meio distante, às vezes. Acho que é normal. Tivemos muitos momentos ruins, quase todos nós já chegamos perto de morrer pelo menos umas três vezes, cada. — riu soprado. — Mas quando eu sinto que estou longe demais, tento lembrar de todas as nossas e as suas memórias, as melhores que temos. E realmente não me importa se a conseguimos em Roma, Sardenha ou na sala de casa... Então, obrigado.    

E ninguém disse mais nada até que chegassem ao lobby.

 

[...]

 

Ao chegar no salão, Bruno e Leone perceberam que não só o elevador, como também todo o primeiro andar do hotel, estava vazio. Desconfiados, seguiram até o restaurante procurando por pistas até na própria sombra. Afinal, todo gato escaldado tem medo de água fria e nada impedia um ataque. Mas assim que chegaram às grandes portas de vidro da entrada, encontraram um bilhete com uma assinatura já conhecida: Giorno Giovanna.

 

“Sei que deveria ter avisado antes para evitar preocupações, mas quis fazer uma surpresa. Os outros presentes vieram de Mista, Fugo, Narancia e Trish. Esse é o meu e espero que aproveitem. Os demais hóspedes estão proibidos de deixarem seus quartos, assim como os funcionários - exceto os que servirão vocês. Então aproveitem a noite e fiquem à vontade!

 Buon compleanno, Giorno Giovanna”

Abbacchio foi o primeiro a resmungar, assim que terminou de ler o aviso. Bruno sorriu, aliviado, feliz e até curioso com a próxima surpresa. Já tinham ganhado roupas, jóias, uma tela original de Botticelli — a Primavera de 1482 —,  e jantares de cortesia por toda a cidade, mas nada tinha causado tanto alvoroço quanto o suposto presente de Giorno. 

— Moleque irresponsável… — Leone revirou os olhos. — Ele acha mesmo que é uma boa ideia chamar toda essa atenção para gente por causa de um presente? 

Marito… Não seja assim. — Riu. — É só um presente e você precisa superar a sua birra com o Giorno. Vem, vamos entrar. 

Bruno segurou a mão do seu ex-subordinado mal-humorado, agora marido mal-humorado e os dois finalmente entraram no restaurante. 

Nem mesmo uma única pessoa além do maitre ocupava o espaço. As mesas de madeira lustrosa permaneciam arrumadas, mas todos os assentos de veludo cor de vinho estavam vazios. 

Educadamente, o rapaz desconhecido os guiou até seus assentos e entregou os cardápios. 

— Podem pedir o que quiserem para entrada, inclusive se não estiver no cardápio, mas o nosso chef já está preparando o prato principal a pedido do Don Giovanna. — Ele sorriu, antes de acenar e dar meia-volta, deixando o casal confuso na mesa. 

Leone se irritou.

— Esse que é o presente, Bruno? Ele não quer deixar a gente escolher o que vamos comer! Ele acha o quê? Que pode me controlar como se eu fosse mais um dos empregados dele? E você me dizendo para não implicar com o Giorno… 

— Tesoro, se você não calar a boca agora mesmo, eu vou pedir ao Sticky Fingers que faça esse favor para nós dois… — Buccellati enquanto passava as páginas do menu. — Eu deixo você escolher a entrada e o vinho, se isso é tão importante…

— Espero que o prato principal não seja uma bela merda… 

— O que disse, Leone?

— Eu? Nada. — Resmungou, quase fazendo bico. — O que acha de salada Caprese e… hm, vinho branco?

—  Para mim está ótimo.

 

[...]

 

Bons minutos se passaram até Leone começar a perceber a seleção, no mínimo, curiosa de músicas. Aproveitava de sua salada e do vinho branco, tentando entender o que diziam, mas o esforço era inútil. Afinal, estava tudo em japonês e Abbacchio já pouco entendia o inglês que era quase obrigatório por aí.

— Quem gravou esse CD, hein? Não tem nada em uma língua que eu conheça…  — Resmungou.

Limpando a boca com o guardanapo de pano, Bruno riu. 

— Em primeiro lugar, isso provavelmente é uma playlist online… Ninguém usa cd em 2019, amore mio,  muito menos grava um. — O moreno piscou. —  Em segundo, conhece sim! Inglês, pelo menos, eu sei que você sabe… Eu lembro de você cantando Elvis para mim no aniversário do Mista. Meio bêbado e embolado, é claro. Mas ainda assim foi lindo de ver. Lembra? “like a river flows surely to the sea, darling, so it goes some things are meant to be…”?

— Foi há 10 anos atrás… você não pode só deixar isso morrer? — O mais velho corou ao ver que o marido já entonava o timbre certinho de “Can’t Help Falling in Love with You”. 

Buccellati revirou os olhos, apesar de achar uma gracinha a reação.

— Você é o velho ranzinza, Leone. Eu sou o velho responsável por guardar as nossas memórias… não interfira no meu trabalho. — O moreno tomou um gole de vinho.

— Que seja. — Resmungou. — Você sabe que eu não ligo e até prefiro que faça as coisas do jeito que achar melhor, Bruno, só não me atormente com mais essa... Você vai fazer o quê? Contar tudo para os nossos filhos?

— Então agora você quer ter filhos? — brincou. — Se finalmente estamos acertados sobre isso, acho que podemos começar a escolher os nomes, certo? Hm… Já que estamos nas ilhas Capri, que tal Caprice?

Foi colocando uma garfada generosa de alface na boca — para não ter que responder aquela pergunta —, que Leone viu o maitre aparecer novamente. Dessa vez, ao invés de mais um pedido, trazia um envelope branco sobre a bandeja de prata. 

Ótimo, mais recadinhos do moleque, Abbacchio pensou. 

Dito e feito. 

Transbordando elegância, Bruno pegou a maldita carta e a abriu, lendo em voz alta logo que o rapaz que os servia os deixou a sós. 

“Depois de tantos presentes interessantes, passei um tempo tentando decidir como dar algo de igual valor a vocês dois. Imagino que devido ao benefício que recebem como membros inativos da organização, o custo da homenagem não é a parte mais importante dela. Por isso, quis focar mais no significado... Apesar de não ser tão bom com música, fiz uma pesquisa detalhada e resolvi organizar um cd com a maioria das músicas românticas que conheço. Fiquei surpreso em ver que muitas combinavam perfeitamente com os dois. Aproveitem o jantar e o presente!

Giorno Giovanna.”

 

Ao terminar de ler, Buccellati percebeu que não apenas o bilhete do boss estava no envelope, mas algumas páginas soltas com… letras de música? Ah, sim. Aparentemente, Giorno queria ter certeza de que eles entenderiam o seu recado.

1. Gravity - John Meyer

2. La vie en rose - Edith Piaf

3. With You - Ill Niño

4. Honeymoon une due truex - Kagamine Rin

5. Imagine - Ariana Grande

6. Chikai - Utada Hikari

7. Every Kind Of Way - H. E. R

—Hm… Parece que o Giorno resolveu seu problema, não? 

— Sim, mas eu não me incomodaria em receber mais um presente caro que pudesse vender... 

— Leone!

— O quê? Sou só eu ou você também não queria uma jacuzzi na varanda?

Passando parte do envelope para o marido, Bruno só o ignorou como resposta. 

— Toma. 

Então os dois passaram o tempo dando uma olhada no tal presente, dividindo as folhas e lendo sobre o que estavam escutando, mas Leone suava frio e isso nada tinha a ver com Giorno. 

O silêncio ao lado de Bruno não era necessariamente algo que preocupava Abbacchio. Sendo sincero, ficar ao lado do moreno sem dizer nada era uma das suas atividades preferidas. No entanto, dado à circunstâncias específicas, Leone sentia como se pudesse morrer a qualquer momento. Em especial quando Buccellati esbarrava a mão no bolso do próprio paletó enquanto gesticulava. Se tivesse pensando melhor, o ex-policial definitivamente não teria feito isso. 

As duas alianças no bolso de Bruno ficariam muito melhores se estivessem seguras no seu. Afinal, pelo visto, ele era um completo covarde e parecia estar com a própria língua congelada no céu da boca, já que absolutamente nada saía dela e talvez ter os anéis consigo ajudasse de alguma forma. Inferno. Não era como se já não fossem casados… Buccellati já tinha feito a parte mais difícil antes, o pedindo em casamento pela primeira vez. Tudo o que Leone precisava fazer era dizer que queria renovar os votos e pronto. O que podia dar errado? Não era como se o mais novo fosse respondê-lo com um pedido de divórcio. 

Então porque parecia tão difícil só dizer isso de uma vez? Devia ter dito no quarto, junto com as fotos, os corações e todo o resto, mas mais uma vez, as palavras ficaram engasgadas no meio de tanto nervosismo.

Não haviam dúvidas de que queria estar ao lado daquele homem pelo resto da sua vida e aquele era o dia perfeito para juramentos assim, eternos. Um dia longe de meias-verdades ou mentiras, não que essas coisas fizessem parte do seu casamento até então. Mas era a hora de deixar tudo o mais transparente possível.¹ Por isso, Abbacchio respirou fundo mais uma vez, tentando se recompor e quebrar o maldito silêncio. 

— Bruno… Eu…. Queria conversar com você sobre uma coisa. — começou, automaticamente se censurando por ter dito palavras tão bobas. Mesmo assim, largou os talheres e continuou, com os olhos claros fixos nos azuis de Bucellati. 

— Nossa, quanta seriedade… O assunto é importante assim? — o moreno riu. — Aconteceu algo errado, marito?

— Bom… Sim. Quero dizer… o assunto é importante, mas não aconteceu nada de errado. — se explicou rapidamente ao ver Bruno arregalar os olhos com sua primeira positiva. — Eu… eu pensei bastante sobre como começar a dizer isso. Mas… acho que deveria ter me preocupado em escrever, também, porque agora eu já esqueci tudo o que tinha planejado, mas… err…. o que eu quero dizer é que… eu não entendo muito de destino, Bruno, mas eu não posso ignorar a existência dele… desde que… hm… conheci você. Entende o que eu quero dizer? Ah, claro que sim… você é bem mais inteligente do que eu. — riu para si mesmo.

As bochechas de Buccellati já pegavam fogo naquele ponto da “conversa” — muito mais um monólogo cheio de elogios por parte de Abbacchio. No entanto, ao invés de pará-lo por não saber exatamente o que o marido queria dizer com isso, o moreno só sorriu assentindo e esperando por mais. 

— Quer dizer… às vezes eu não tenho certeza de que estou bem sendo quem eu sou e eu imagino que lidar com isso não seja tão agradável assim, ainda mais por tanto tempo. Só que… quando eu olho para você, eu sei que posso ser melhor. Eu quero ser melhor e segurar a sua mão o mais forte que puder. Você é a minha casa, Bruno. Eu só me sinto em paz de verdade quando estou com você e… eu realmente queria saber, você aceita se casar comigo mais uma vez? 

Dizer aquilo sem a porra dos anéis nas mãos fez com que Leone se sentisse ainda mais idiota, mas o que poderia fazer a essa altura? O plano era que Bruno os tivesse encontrado nas roupas enquanto se vestia, o que claramente não tinha acontecido. Vendo o mais novo olhá-lo em expectativa do próximo passo, Abbacchio passou a mão pelo rosto — com cuidado para não borrar a maquiagem e suspirou. 

— As… alianças estão no seu bolso esquerdo. — Disse, querendo que o chão daquele restaurante abrisse e o afundasse de uma vez.

— Oh, sim… — Bruno riu. — Então… eu posso aproveitar a oportunidade e colocar mais esse anel no seu dedo, tesoro? — perguntou, sorrindo como uma criança que tinha acabado de ganhar exatamente o que queria do papai noel. 

E, bom, era quase isso, apesar de Leone ser muito mais do que um desejo. 

— Hm… pode… faça como quiser. — Abbacchio respondeu, já nervoso demais para terminar de falar. 

Assim, Bruno tirou as alianças do paletó e admirou o quão bonitas elas eram antes de levantar para se ajoelhar aos pés de Leone, segurando sua mão e beijando os dedos bonitos com cuidado. 

— Já que não estamos fazendo nada ensaiado aqui, acho que quero fazer meus novos votos agora também… — Sorriu, encarando Leone enquanto ainda estava de joelhos. — e para começar, quero que saiba que eu não poderia estar mais feliz com você sendo quem é todos os dias, marito. Como eu disse antes, nunca, nunca vou cansar de te lembrar isso. Eu não quero que você alcance as minhas expectativas, nem que sofra sozinho por conta das suas, eu não preciso de flores ou testemunhas… eu… só preciso que a gente continue usando esses anéis combinando e se esforçando para fazer valer o significado deles, ok? Então, sim, eu aceito me casar de novo com você, Leone. Quantas vezes quiser, quantas vezes pudermos, enquanto eu viver… Porque… eu amo você.

Nervoso, Abbacchio desviou o olhar do marido que o encarava com tanto carinho que era quase como se pudesse tocá-lo através daquelas palavras. Bom, na verdade, podia mesmo.

— Ei, eu também amo você… Mas cuidado para não chorar, hein? Não tenho certeza se o rímel que eu te emprestei é à prova d’água, Bruno… — brincou, apesar de que ele mesmo já tinha os olhos meio marejados.

— Não seja ridículo. 

— Ser ridículo é o meu trabalho, não interfira… — repetiu as palavras do mais novo, enquanto via o mesmo retirar a aliança antiga de seu dedo e colocar a nova. Se fosse sincero consigo mesmo, admitiria que era ele quem tinha lágrimas no canto dos olhos. — Não foi bem assim que eu imaginei a situação, mas acho que combinou bastante com a gente… 

— Não ouse usar as minhas palavras contra mim de novo, Leone — Bruno o beliscou na coxa, mas levantou novamente e o beijou. Uma, duas, três vezes até que se cansasse. — e, sim, combina. Todo mundo sabe que sou eu quem faço as regras por aqui. 

— Bom, eu nunca nem tentei negar.

Antes que Bruno voltasse ao seu lugar, o maitre apareceu novamente quase como um lembrete de que ainda estavam em terra firme.

— Senhores, o chef Bottura, como um amigo do Don Giovanna, decidiu trazer o prato principal pessoalmente. — o rapaz disse, polido, enquanto recolhia a louça suja na mesa. —  Na noite de hoje, teremos macarrão ao nero, cogumelos porcini e vieiras grelhadas.

O sorriso de Bruno cresceu automaticamente ao saber do cardápio e, se o marido estava feliz, Abbacchio já se dava por satisfeito. Mas ainda assim, Leone não conseguiu deixar de pensar no cretino exibido que Giorno conseguia ser quando queria agradar Buccellati. Sem falar que o sobrenome Bottura não era nem um pouco estranho para o ex-policial, porém não era possível que o maior chef de cozinha do mundo, Massimo Bottura, além de ser amigo do boss, estava cozinhando especialmente para eles e logo a comida preferida de Bruno? Bom… possível era. Abbacchio só não conseguia acreditar sem ter uma prova mais concreta. 

No entanto, ele não precisou esperar tanto por ela. Afinal, o prato principal chegou e ambos ficaram de queixo caído. 

O maior cozinheiro do mundo estava ali para servi-los como se fossem velhos amigos. 

— Espero que a refeição esteja do agrado de vocês. Don Giovanna me explicou detalhadamente como você preferia o prato, senhor Buccellati. É um prazer cozinhar em razão de uma data tão especial.  — o homem deixou os pratos sobre a mesa, os quais estavam tão decorados que pareciam uma obra de arte. 

Aquilo devia ter custado uma fortuna e Giorno ainda tinha coragem de dizer que seu presente era a porra da playlist. Exibido sonso, isso sim. O prato preferido de Bruno já era caro por si só, mas naquelas condições deveria estar valendo cinco ou seis vezes mais. Que fosse. Pelo menos, com certeza estava uma delícia. 

 

[...]


 

— Tem certeza de que sabe para onde estamos indo? — Bruno perguntou, a mão apoiada na coxa do marido enquanto ele olhava pela janela do carro, sentado no banco do carona.

— Eu tenho cara de que ia arriscar me perder com você em qualquer lugar? — Leone perguntou, com os olhos presos na estrada. Logo, pensou melhor. — Não responda.

O moreno riu. 

— Ok, ok… Não quis ofender… — os dedos de Buccellati brincavam com o tecido enquanto ele falava. —  Mas… se eu não posso falar sobre o senso de direção do motorista, podemos falar sobre o nosso destino? 

— Não sei, Bruno. Você sabe o significado de surpresa? Ai! —Leone reclamou ao levar um beliscão na coxa. — Que porra…?

—  Tenha modos e me responda direito, Leone! 

— Ué… Mas eu só disse a verdade? 

Buccellati revirou os olhos, mas acabou rindo mesmo assim. 

— Eu devia mesmo passar um zíper na sua boca por tempo indeterminado. 

— Ah, é? Duvido. Como pretende me beijar assim?

— Você acha que eu me importo? Eu tenho 40 anos. Eu não quero beijo, tesoro, eu quero paz. 

— Pode deixar, chefe… Vou deixar essa anotada. — Resmungou.

Já faziam uns vinte minutos que dirigiam — na opinião de Bruno —, em direção a lugar nenhum. Quanto mais se afastavam do centro, mais próximos pareciam de estar chegando em uma cidade só deles e não no sentido romântico da coisa. As ruas por quais passavam estavam cada vez mais desertas, enquanto aos poucos escurecia e o céu cor de vinho se estendia acima de suas cabeças.² 

Entediado, Buccellati tentava conversar para tranquilizar Leone, que definitivamente tinha se perdido no caminho de onde quer que estivesse tentando chegar. Bom, depois dos anéis, era bem provável que o marido tivesse outra surpresa e, apesar de saber que era melhor esperar para descobrir do que se tratava, tentar tirar uma lasquinha não ia fazer mal.

— Se quiser, eu posso descer e perguntar para alguém onde fica o lugar que você quer me levar. Prometo que finjo surpresa quando chegarmos — o moreno disse, ciente do quanto o mais velho detestava falar com estranhos.

Sem responder, Abbacchio pegou o cd que tinham ganhado de Giorno como presente  — no fim das contas era mesmo um e não uma playlist, o Don e Leone eram igualmente antiquados, pelo visto  — e o colocou no rádio para tocar. 

 — Eu sei que a curiosidade deve estar te matando, mas… Não, não estamos perdidos.  — riu.  — a surpresa só é bem… Complexa? É, acho que dá para chamar assim. 

Encerrando a conversa daquele jeito, Leone só tinha conseguido atiçar ainda mais a curiosidade do marido. Pelo menos Bruno se deu por satisfeito e ficou quieto, ouvindo as músicas que não tinha prestado totalmente atenção durante o jantar, admirando o brilho dourado da aliança nova ao mesmo tempo.  Enquanto isso, o motorista apreensivo agradecia ao fato de que finalmente chegavam ao destino. 

— Eu pediria para você fechar os olhos e vir comigo, mas acho que seria maldade… Me acompanha? — Leone pediu, abrindo a porta do carro para que Bruno saísse e oferecendo a mão para ele. 

Como estava escuro, o moreno não tinha como saber exatamente o que ia acontecer. Só tinha noção de que já estavam em uma parte realmente mais afastada da cidade e parados no que parecia ser uma colina. Com o que tinha, enquanto andava, Buccellati ainda tentava desvendar o mistério. 

— Acho que descobri… Você vai tentar me matar e enterrar o corpo debaixo de uma árvore dessas, né? Olha… Eu sei que sou chato, mas não precisava tanto… —  brincou. — E os meninos vão matar você quando descobrirem.

— A ideia não era essa, mas seu plano não parece ruim para mim. —  Abbacchio riu, devolvendo a provocação e o deixando parado em uma ponta da colina enquanto ia à outra, voltando com um cesto enorme e pesado. — Já descobriu o que é? 

— Ao invés de me enterrar, vai colocar meu corpo nesse negocio e jogar no rio? Não sei se é muito inteligente, marito…

— Quer parar com essa história de que eu vou te matar, Bruno? — o mais velho gargalhou. — é um passeio de balão!

[...]

O vento frio no rosto fazia a ponta do nariz de Bruno perder um pouquinho da sensibilidade. Segurando a mão do marido enquanto admirava a vista da Ilha ao pôr-do-sol, aquele era o menor dos seus problemas. 

— Quando ia me contar que tinha aprendido a pilotar um balão de ar quente, tesoro? — o moreno sorriu, beijando a bochecha de Abbacchio e mordiscando a pele clara. — um homem capaz de esconder esse tipo de coisa, esconde até uma segunda família… 

— Como se eu fosse capaz. — Leone revirou os olhos. — Aprendi faz três meses, Fugo me ajudou a encontrar um lugar que ensinasse e a esconder de você… — completou a última parte em um tom cuidadosamente mais baixo, o que não passou batido para o mais novo. 

— Hm… Então já sei quem eu preciso subornar para conseguir informações sobre o seu segundo marido e os seus filhos… — continuou brincando. 

— Bruno! Giorno é literalmente dono de tudo. Se isso fosse, no mínimo, uma dúvida sua, ele saberia… 

— Eu sei, eu sei… Só estou brincando. Você fica lindo concentrado assim, mas é ainda mais bonito quando sorri. — Buccellati piscou, alternando entre a visão que tinha abaixo do balão e o marido. 

— Ah, sim. Você quer me fazer rir insinuando que eu te traí? Belo humor o seu… — o mais velho estalou a língua, arrumando toda parafernalha de direção enquanto falava. 

— Ué… Achei que não houvesse piada maior que essa, marito… — Bruno cantarolou. 

Abbacchio achava engraçado ver o quão seu antigo capo conseguia ser brincalhão e bobo depois de anos com uma responsabilidade maior que si mesmo nas costas. Apesar de ter sido uma criança e um jovem responsável durante boa parte da vida, Bruno Buccellati também era um homem tonto e divertido que fazia o marido amá-lo cada vez mais conforme os dias passavam.

— É… Não tem… — Leone finalmente sorriu. 

Capturando aquele sorriso com rapidez, o moreno o abraçou por trás — afundando a testa em suas costas e beijando tudo o que os próprios lábios encontravam pelo caminho. 

— Obrigado por tudo mais uma vez, Leone… — suspirou. — acho que nem nos meus sonhos eu poderia ter imaginado um mundo assim.

— Nem eu. — Abbacchio disse, feliz por Bruno não conseguir ver o quão vermelho o seu rosto estava. O ex-policial era definitivamente uma bagunça quando o assunto era delicado assim.. 

— Ah, eu espero que saiba que vamos ficar acordados até mais tarde hoje. — o moreno alertou, brincando com os dentes no pescoço de Leone. — Ainda estamos no início da noite, mas todo esse clima romântico me deixou com ainda mais vontade de amar você de todas as formas possíveis.³

Não seria mentira se o mais velho dissesse que sentiu as pernas tremendo, inclusive a uma altitude daquelas. Mesmo assim, juntou toda a coragem que tinha para responder.

— E acordar ao meio-dia amanhã?

— E, com certeza, acordar ao meio-dia amanhã.

Rindo junto de Bruno e literalmente tendo toda uma ilha aos seus pés, Leone podia até dar razão às músicas que Giorno Giovanna escolhera — ainda mais depois de ler a letra de cada uma. Estar ao lado de Buccellati, mesmo com uma briga ou outra pelo caminho, era como viver entre as estrofes de um medley ininterrupto das canções de amor mais bonitas já criadas.

 


Notas Finais


E então? O que acharam? Foi bom pra todo mundo? Iqgsgsuakqkqkq

Muito obrigada @gallahan por mais uma capa lindíssima e @pendergast pela betagem maravilhosa akshbamama

¹ referência a Chikai
² referência a Honeymoon
³ referência a Every Kind of Way


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