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História Meia-noite e meia - Capítulo 2


Escrita por:


Notas do Autor


Ouiee, a palavra do capítulo de hoje é ''carinõ '', sim o termo em espanhol que pode ser traduzido para ''querido''.
Vocês vão entender logo mais
Boa leitura!

Capítulo 2 - Dezesseis e quinze


 

Jongin, cinco anos atrás

 

Eu me tornei vazio. Um vão se alojou bem no meio do meu peito sem que fosse percebido. Era tão assustador rir sem sentir, chorar sem perceber e viver sem querer. Me pergunto quando isso aconteceu. 
 

Talvez tenha começado na minha reação ao descobrir que passei na faculdade. Ela durou tão pouco, mas foram tantos... mas tantos abraços e felicitações, chamou atenção até demais de gente que sequer me direcionava o olhar. As pessoas ficaram perto, mas me senti jogado a pelo menos cem metros de distância. Naquele almoço de domingo, enquanto minha vitória fora facilmente esquecida por qualquer outra fofoca, me senti estranho e sozinho. Queria contar a Minseok e foi por pouco não mandei uma mensagem.
 

Odiei minha primeira aula, falei coisas que não eram verdadeiras sobre mim somente para tentar me enturmar e falhei. Terminaria aquele semestre sozinho. Contudo, não poderia negar que tudo era enlouquecedoramente bonito e grande.  As vezes, entre os intervalos das aulas, saia somente pra admirar aquelas árvores velhas, imensas e lindas -,  os corredores extensos e largos e até mesmo os universitários. 
 

Passei horas estudando naquela biblioteca, anotando a matéria do dia, fazendo sozinho trabalhos que eram em grupo e pesquisando sobre assuntos que queria muito que fossem comentados pelo professor. E mesmo com tudo isso, quando chegava em casa tarde da noite, o sono não vinha... como se o dia não tivesse valido a pena, como se não estivesse cansado de verdade, como se meu corpo se recusasse a aceitar aquela rotina. 

 

 

 

Alguém cantava uma música sobre traição de forma alegre no rádio. Jongin abriu os olhos lenta e silenciosamente, o calor fraco dos raios solares acariciando sua bochecha. Eles vagaram por entre paredes azuis e quadros, pela pia vazia até encontrar a janela. Por um segundo, permaneceu imóvel, seu corpo estava estranhamente desconfortável, a cabeça estava doendo e tinha um gosto metálico na boca. 

No momento seguinte, olhou ao redor e com uma movimentação rápida demais, soltou um grito. Ruidosamente, seu mundo virou cento e oitenta graus. A cabeça bateu contra o chão, as cordas se apertando contra ele, arranhando sua pele. Lutou contra elas que o amarravam a uma cadeira. 

As pernas sacolejaram de um lado pro outro. Tentou jogar-se para a esquerda, fazendo com que a cadeira virasse  e seu rosto se apoiasse em cacos de vidro, próximos ao que um dia fora um vaso, mas que só sobrou metade do recipiente. Com um grunhido, ergueu a cabeça, reparando na televisão quebrada ao lado de um taco de baseball e nos vários objetos jogados.

Ele não fazia ideia de onde estava ou como veio para ali. A última lembrança era do sequestro de Minseok, do tiro que não chegara a sentir. Minseok estava bem? Eles tinham o levado? Meu Deus! Eles tinham o levado! E ele? Também foi junto? O tiro não conseguiu atingi-lo? Por isso o trouxeram? 

O choro prendia-lhe a garganta, queria tanto ver o Min. Era um idiota! Por que foi tão impulsivo? Por que não chamou a polícia? Deveria tê-los seguidos sem ser notado depois te der avisado a polícia. E se tivesse acontecido algum coisa ao amigo por sua culpa? Não passava de um imbecil! É por isso que as pessoas sempre dizem para curtir o agora, porque amanhã poderá estar morto... e você vai estar Kim Jongin, assim que aqueles homens voltarem. 

Algo vibrou perto dele e um instante depois o som baixo foi quase abafado pelo rádio. Notou o aparelho mediano e prateado, próximo a sua mão. Parecia ter caído de seu bolso, talvez durante a queda, apesar de não o reconhecer. 

Ele impulsionou o corpo para frente e esticou a mão, sentindo o frio do celular entre os dedos. Já havia visto um modelo parecido na mão de alguns garotos de sua escola, contudo nunca tivera a chance de chegar próximo a um e não tinha ideia do que fazer. Na tela, o nome PPP estava escrito e a opção aceitar brilhava. Bateu na tela várias vezes, agoniado com a falta de reação do aparelho -, até que de alguma forma, a ligação tinha iniciado. 

A voz estava baixa e incompreensível, e Jongin tinha medo de que ao lançá-lo para mais perto do ouvido acabaria perdendo-o. Em vez disso, arriscou novamente dar uma série de batidas do ícone do alto falante. 

- Jongin? - Ouviu o som vindo do aparelho, grave e irreconhecível. 

Ele ficou em silêncio por alguns instantes. Aquilo era alguma brincadeira dos sequestradores... um truque? Estava no novo filme de jogos mortais? De quem era aquele celular?

- Onde o Minseok está? Por favor, não façam nada com ele. - Tentou, mesmo sabendo que era quase em vão. Que estava caindo como uma ovelhinha no truque dos lobos. - Eu não vou perdoar se vocês tocarem nele... 

- Hãn? Não estou te ouvindo direito...

- A mãe do Minseok tem muito dinheiro, ela pode pagar o resgate! - Disse, mais alto. Aquela parecia a ideia perfeita para fazê-los desistir.

- Do que diabos você tá falando? 

- Por favor, não faz nada com o Minseok... deixa ele ir.

- Isso é uma brincadeira? - Questionou o homem do outro lado da linha. Tinha uma voz bonita e se fosse em outra situação, Jongin teria ficado com vergonha. - Porque se for, está conseguindo me assustar. E o que está acontecendo com esse rádio?

- Por favor... - Interrompeu, um soluço escapando de sua garganta. - Vocês não precisam fazer isso. A polícia vai achar vocês... é melhor só pegarem o dinheiro e irem embora...

Ele queria ter sido mais forte, segurado mais tempo, contudo sua voz começou a falhar e tudo foi por lágrimas abaixo. Esperou os comentários maldosos sobre como estava chorando como uma criancinha, implorando para deixarem o melhor amigo em paz. 

Quem quer que estivesse do outro lado da linha demorou a responder. 

- Onde você está? 

- E-Eu não sei - Respondeu, a voz quebrada. 

Será que seus pais descobririam o que aconteceu com ele? Sua mãe choraria por si? Será que nunca mais provaria das jantas quentinhas ou dos biscoitos no café da manhã? Nunca mais sentiria o cheiro dos lençóis limpos que nunca deu valor. 

- Jongin! - A voz gritou. - Me manda agora sua localização! 

- E-eu... eu não quero... não sei fazer isso. - Ele começou a estranhar aquilo, seja lá quem fosse, parecia verdadeiramente alheio a situação. 

- Por que não? - Pode ouvir do outro lado da linha uma porta ranger.'' Cara, por que você tá gritando? '' ouviu uma voz diferente fazer a pergunta que não parecia ser direcionada para si. 

- Você vai me machucar.

- Jongin... não consigo te machucar nem se eu quisesse. - Disse como se segreda-se algo não implícito. '' Como caralhos tu aprendeu a rastrear alguém assim? '' - Cala a boca, porra Jongdae. 

Então desprendeu-se da ligação, atentando-se aos passos pesados se aproximarem. Ele se encolheu, o coração batendo forte no peito e fechou os olhos. Ouviu-os passarem ao lado da porta e estalarem sobre o chão, como se subindo escadas -, até por fim desaparecerem. 

Soltou o ar e respirou fundo. Encarou o celular novamente e viu que a ligação tinha sumido. 

Jongin tinha que sair dali. 

Ele se debateu, esperneou, tentou cortar a corda com um pedaço de vidro, mas o que realmente funcionou foi quando, mordendo forte os lábios, rolou sobre uma porção de objetos quebrados e uma parte da cadeira cedeu o suficiente para afrouxar o nó. 

Livre, levantou e caminhou até a cozinha, desligando o maldito rádio. Estranhamente, a janela estava aberta e a chave estava na porta. Não esperou mais nenhum segundo sequer pra sair correndo para fora dali. Desceu escadas até a rua e passou por entre casas tradicionais coreanas de um bairro de baixa renda. 

Realmente não tinha a mínima noção de onde estava, mas nesse último ano tinha aprendido a se locomover muito bem através dos ônibus. Agora, tudo o que precisava era ir o mais longe possível e achar um ponto, depois iria para casa e de lá ligaria para a polícia. 

Não soube exatamente quanto tempo aguentou correr ou quantas vezes virou para trás para ver se não estava sendo seguido, mas por fim encontrou um ponto longe o suficiente. Recebeu olhares incomodados das poucas pessoas que estavam ali, apesar de ninguém comentar nada.

O ônibus veio, abrindo as portas enquanto ainda respirava com dificuldade. Alguns passageiros saíram e outros se prepararam para entrar. Enfiou as mãos nos bolsos a procura do dinheiro e agarrou o pequeno volume que estava lá. Alguém lhe deu um empurrão fazendo com que o objeto azul voasse pelo ar. Ele recuou para pegá-lo, ouvindo o chiado do veículo ao fechar as portas.

Tentou encontrar qualquer rastro de wons nos bolsos, parando por um segundo pra se questionar quando ralhos começou a usar aquele tipo de calça esportiva. Na verdade, achava que nem tinha uma daquela, durante a educação física sempre usava aquele uniforme horrível.

Por ora, ele resolveu ignorar e voltar-se para aquela carteira que segurava, abrindo-a e reconhecendo as notinhas de dinheiro. Tudo bem, o próximo ônibus deve estar chegando. Vamos conseguir chegar até o terminal... vai dar certo.

Cruzou os braços porque estava com uma vontade enorme de roer as unhas e esperou. Os minutos pareciam ter durado uma eternidade, até que finalmente avistou-o. O coração batia rápido no peito conforme se aproximava. Só mais um pouco e... 

Uma mão forte fechou em seu pulso. Um homem mais alto que ele, escondido em um boné preto, máscara cirúrgica e óculos escuros o segurava. Jongin deu um grito e tentou afastá-lo. 

- Calma... calma, sou eu. - Disse o desconhecido, mantendo firme o aperto. Ele retirou os óculos e pode ver parte da pele clara do rosto e os olhos castanhos e familiares. 

- S-Sehun? - Perguntou, incerto. 

O outro balançou a cabeça. Jongin envolveu os braços no corpo dele, sentindo-o enrijecer sutilmente. As lágrimas começaram a pender em suas pálpebras. Queria contar tudo o que havia acontecido a Sehun. 

O mais alto segurou-o pelos ombros, sem retribuir o abraço e o afastou. Os olhos dele pareciam desconfiados e até um pouco irritados, porém aquilo se limpou ao encará-lo. 

- Céus! O que aconteceu com você? - Questionou, vasculhando cada centímetro dele, ao mesmo tempo em que o mantinha parado.

- E-Eu estava saindo para ir embora e... dois homens estavam levando o Minseok, um deles estava armado... - Falou, meio engasgado. - Atiraram e... não sei, acordei naquele lugar... amarrado. Nós precisamos ligar pra polícia, Sehun...

- Mas... o quê? Eu acabei de ver o Minseok enquanto vinha pra cá. - Sehun colocou a mão no bolso e tirou o celular prateado que tinha usado mais cedo. - Você deixou o celular em casa e aliás, o que aconteceu por lá? O que fizeram com você?

- Você viu o Minseok? - Repetiu Jongin. - Ele conseguiu fugir? 

Sehun parecia não estar entendendo nada. Ele fitou ao redor e deve ter notado o quanto de atenção Jongin estava chamando. 

- Vamos sair daqui, você precisa ir pro hospital e depois iremos até a delegacia. 

- O quê? Não! Tenho que ir pra casa, meus pais devem estar preocupados. 

- Você só pode estar brincando. 

Jongin foi arrastado até um carro esportivo preto que deveria custar uma fortuna. Ele ficou olhando o mais novo destravar as portas e mandá-lo entrar. Obviamente não entrou, afirmou que aquilo era um absurdo e que Sehun não tinha idade pra dirigir. Em resposta, recebeu um olhar preocupado e foi empurrado pra dentro. 

Sehun dirigia em silêncio e uma vez ou outra batucava os dedos no volante. Admitia que estava impressionado com as habilidades do garoto, porque em nenhum momento fez qualquer deslize que pudesse matá-los, além disso parecia fazê-lo como se fosse natural. Quando tinha aprendido a dirigir? 

- Sehun... - Começou, cuidadosamente. - Você sabe que a polícia pode nos parar, não sabe? Sem carteira vamos estar encrencados.

O sinal ficou vermelho e ele desacelerou o carro, voltando a batucar os dedos contra o couro. 

- Estamos chegando. 

Tentou novamente convencê-lo a parar o carro e deixá-lo ir, contudo o outro passou a ignorá-lo. Quando chegaram ao hospital, Sehun teve uma conversa rápida com uma das atendentes da recepção e pouco tempo depois eles foram chamados. 

Não conseguiu responder a quase nenhuma das perguntas do médico, porque simplesmente não tinha a menor ideia do que tinha acontecido. Não sabia o que tinham feito consigo, se tinha algum lugar que doía muito ou se sabia do sangue que coloria seu cabelo. 

- Quantos anos você tem, Jongin? - Continuou o médico. 

- Dezoito. - Respondeu automaticamente. 

- E suas últimas lembranças são do sequestro do seu amigo? 

- Sim. 

O homem começou a digitar sobre as teclados do computador, parando por um segundo para subir os óculos do nariz e encarar Sehun que mordiscava o polegar em silêncio. 

- E isso realmente aconteceu? 

Jongin foi do velho até o primeirista. Sehun tinha guardado a máscara e o boné estava em seu colo. Vendo-o daquela forma, era como se fosse alguém diferente. Logicamente o reconhecia, porém aquele rosto levemente redondinho de pirralho tinha dado lugar a um maxilar marcado. Os ombros estavam mais largos e musculosos, marcados na blusa social branca. 

- Aconteceu... há seis anos atrás. 

Jongin fitou-o confuso, porém Sehun fingiu não ver.

- E vocês são próximos? Como o encontrou?

- Somos amigos. Liguei para Jongin para conversar sobre o projeto da faculdade que costumava a coordenar e ele começou a falar comigo como se eu fosse um bandido... pedindo que libertasse Minseok, nem sabia onde estava. Encontrei-o porque a senha do icloud nunca foi trocada e foi fácil localizá-lo. 

- E onde encontrou-o? 

- A localização era da casa dele e o celular estava lá quando eu cheguei. 

-  Ele já apresentou algum caso de esquizofrenia? Algum parente?

Jongin estava horrorizado com aquelas perguntas. Era como se aquela conversa fosse de um mundo paralelo ao seu e somente fosse um telespectador que se perdeu nas opções de canais. 

- Não tem quaisquer chances dele ser esquizofrênico. - Respondeu Sehun, fechando um pouco a cara. - Quando a memória dele volta?

O médio digitou mais alguma coisa. 

- Bom, aparentemente seus ferimentos são superficiais e não há nenhuma fratura. As enfermeiras irão tratá-los e dar-lhe  a medicação prescrita. - Informou. - E sobre a perda de memória, temos que tirar um raio x...

A cabeça de Jongin começou a latejar.

- Perda de memória? 

- Jongin... - O médico procurou as palavras certas. - Você tem que ser forte agora, tudo bem?  Para te proteger, sua mente apagou seis anos da sua vida e provavelmente vai ser difícil conviver com isso. Mas não se preocupe, a amnésia pós traumática não costumar durar muito. Vamos fazer um check up e confirmar que está realmente tudo bem ai dentro. 

Ele não soube o que dizer. Aquilo não tinha a menor graça, estava querendo implorar pros dois atores terminarem de encenar a mentira. Será que eles sabiam que seu humor estava péssimo nos últimos dias? 

- E você... - O médico dirigiu-se ao outro. - Pode esperar lá fora?

Sehun ergueu um sobrancelha, mas saiu. 

- Escute... - Disse o velho, esticando a mão para segurar a de Jongin. - Não sei exatamente do que irá se lembrar, mas saiba que a polícia está sempre a disposição. Casos de relacionamento abusivos, mesmo entre homossexuais são comuns e não devem ficar impune. Mesmo que goste de seu parceiro... isso não é amor, Jongin. Ele não tem direito de violar sua integridade física e psíquica. 

O queixo de Jongin caiu. Fazia um tempo em que não sentia tanta vergonha assim, a ponto de querer abrir um buraco no chão de tanto bater a cabeça e se enfiar lá. O que caralhos e bolas estava acontecendo com a sua vida? Deus, me tira daqui. 

Sehun aguardava-o na sala de espera, a perna cruzada sobre a outra, o celular parecido com o seu sobre os dedos da mão enquanto digitava. Os ombros estavam tensos e a postura ereta. 

- Tudo bem? 

Jongin fechou os olhos, sem responder, apoiando a cabeça na parede. Não sabia como proceder ou o que concluir daquela situação. No vazio da sua mente, as pontadas doloridas parecia ser tudo o que ele tinha. 

Sentiu dedos escalarem a sua perna como se avisassem que estavam se aproximando, e então entrelaçaram-se aos seus. Ele se assustou um pouco, porque não tinha aquela intimidade com Sehun, nem conhecia aquele Sehun. Mas se aquele fosse mesmo seu futuro, estava feliz por não estar sozinho. 

- Sei que não gosta de hospital... e por isso posso entrar com você na sala de medicação. Só não me faz passar muita vergonha, tudo bem? Alguém pode espalhar e acabar com a minha carreira. 

Jongin riu. 

- Obrigada, Sehun. 

 

 

O céu estava escuro quando eles deixaram o hospital e Jongin estava sonolento. A medicação que tomara na veia tinha esse efeito. Os exames não determinaram nada fora do comum, então ficou decidido que uma hora sua memória voltaria. Durante todo o tempo, Sehun realmente permaneceu ao seu lado, quieto, mas ao seu lado. E talvez tivesse passado um pouquinho de vergonha com Jongin alimentando pensamentos perversos que logo se tornaram comentários ácidos para a enfermeira que tirara algumas farpas que enterraram-se em seu rosto. 

Jongin lembrava-se de ter observado as luzes de Seul, os imensos prédios e até os veículos. Em determinado momento, Sehun pôs uma música que nunca tinha ouvido, baixinha e calma que parecia combinar perfeitamente. O banco era tão confortável e tudo parecia tranquilo que não faria mal dormir só um pouco. 

- Tem que tomar banho antes de dormir - O mais novo insistiu várias vezes. Não sabia exatamente como chegou naquele quarto, mas queria muito deitar naquela cama enorme de lençóis e edredons brancos e limpos. - Você está cheio de sujeira e sangue! Eu troquei a roupa de cama hoje...

- Eu tô com sono... ai, não aperta... 'tá tudo doendo.

 

...

 

Levantou na manhã seguinte correndo até o banheiro, os olhos meio fechados enxergando só o necessário. De alguma forma não tropeçou em nada e voltou com sucesso pra cama quentinha e cheirosa, se cobrindo todo e soltando um ruído de felicidade. O despertador ainda não tinha tocado e aqueles minutinhos ou talvez até horas deveriam ser bem aproveitados. 

Teria sido um ótimo sono, obrigado, se não se lembrasse que de alguma forma tinha perdido seis anos de sua vida ou quem sabe até... viajado no tempo. Ou ainda, aquilo não passava de uma mentira e... Sehun tinha um irmão mais velho extremamente parecido com ele e bolara planos perversos para acabar com sua vida.

 Irritantemente desperto, virou-se em direção a parede de vidro e perdeu o folego com vista. Era uma poluição de prédios, porém ainda sim era bonito vê-los do alto, enxergar as ruas largas, as manchas verdes de árvores e o céu. Em seu primeiro ano do ensino médio, lembrava-se de matar aula com Minseok para ouvir música e ficar no terraço, sonhando que um dia conquistaria toda aquela cidade enorme. 

Houve uma súbita movimentação e então alguém encaixou-se em seu corpo. E ele espantou-se com a forma que sentia perfeitamente a pele morna do outro grudado as suas costas, o quadril no seu, os músculos do braço tensionando suavemente para prende-lo ali perto de si. 

Sehun subiu o nariz por seu pescoço subindo até seu cabelo. A pele dele se arrepiou, a boca secou e ele ficou ali, se fingindo de morto. 

- Nini... - A voz grave de Sehun estava rouca, parecendo ecoar através de seu corpo. - Você tem que tomar banho. 

Jongin bufou. Desde quando a gente tem intimidade pra você me chamar assim? 

Cuidadosamente, ele se esgueirou para fora dos braços do mais novo e agradeceu aos céus por não tê-lo acordado. Um instante depois desviou o olhar, encarando o teto. Deus, Sehun!Por que não dorme de roupa? Imagine se entendesse aquilo errado. Só tinha dezoito anos e se... bem, talvez um pouco mais. Enfim, sentia atração por meninos e não poderia pensar algo errado daquele primeirista. Sehun estava o ajudando, bota essa cabeça no lugar!

Ele então direcionou-se para a suíte, sorrateiramente para manter o outro adormecido, porém algo o fez parar. Havia um longo espelho ao lado da cama e a primeira coisa que notou foi que também não estava usando muita roupa e que... caralho, realmente lhe deram uma surra! A segunda coisa foi que talvez o médico e Sehun estivessem certos... porque, porra! Aquele era seu corpo? 

Os ombros, braços e pernas tinham ganhado alguns músculos de maneira equilibrada, a barriga era durinha ao toque e os gominhos começavam a aparecer. Além disso, seu cabelo antes castanho estava ruivo e nunca tinha esperado que aquela cor combinasse tanto com o seu tom de pele. Não se achava feio, mas agora o que podia ver por cima dos pequenos curativos, seu rosto um tanto mais maduro harmonizava com o resto de seu corpo. 

Sorriu meio idiota pro espelho. Talvez aquele futuro fosse interessante. 

Deu uma espiada dentro da própria cueca e soltou um muxoxo. Talvez tivesse crescido só um pouquinho. Se virou e fitou sobre os ombros o próprio traseiro. Semicerrou os olhos curioso e abaixou a roupa só um pouquinho para poder examinar melhor. 

- O que o seu eu do passado acha da sua bunda do futuro? - Perguntou Sehun em meio a um bocejo, apoiando a cabeça sobre a palma de uma das mãos. 

Jongin deu um pulo pra trás e xingou o mais novo. Estava sentindo tanta vergonha que um buraco não resolveria seu problema, era melhor morrer. 

Ele se trancou no banheiro, ouvindo o outro rir e dizer que traria lhe traria uma toalha. 
 

 

 

Jongin seguiu o barulho até a cozinha, encontrando o mais novo em um roupão escuro, dividindo a vitamina do liquidificador em dois copos. Tinha demorado um pouco no banho, lavar a pele com um hematoma doía, aquele em seu abdômen principalmente -, e também, gostou muito daquele chuveiro, de inicio achou que iria se afogar na quantidade de água que saia. 

- E então? Está doendo muito? - Disse Sehun, lavando as mãos na pia. - Quer tomar algum remédio? 

- Está doendo, mas ainda não quero tomar nada. - Ele sentou-se em uma das banquetas em frente ao balcão. 

- Deixa eu ver. - Sehun secou as mãos em um pano de prato e deu a volta. Segurou seu rosto sob os dedos, trazendo seu queixo para perto enquanto analisava os ferimentos. - Eles te acertaram pra valer. 

Jongin fitou os olhos castanhos preocupado e se perguntou como fora a amizade deles naqueles seis anos em que não se lembrava. 

- Você passou a pomada que o médico indicou? Vai evitar cicatrizes. 

Concordou. 

O olhar dele encontrou o seu e ele o soltou, limpando a garganta. 

- Ontem mandei uma mensagem avisando para o Kyungsoo sobre o que aconteceu e ele está muito preocupado. Hoje ele ligou e achou melhor que você ficasse lá na república. Posso te levar lá no final da tarde. 

- Quem é Kyungsoo? 

- Vocês são bem próximos, Kyungsoo é provavelmente seu melhor amigo. - Contou, pondo algumas torradas integrais em um prato e empurrando o copo de vitamina em sua direção. - Não tenho muita coisa na geladeira, preciso fazer compras então só tenho isso por hoje. 

Jongin ficou uns minutos em silêncio, esperando qualquer manifestação da sua mente acerca do nome. Não sabia ao certo o que pensar sobre aquilo. 

- Ele cursa artes visuais na mesma faculdade que nós, está no terceiro ano. - Acrescentou. - Vocês se conheceram no ano passado, ele era bem tímido e quase não falava com ninguém, mas ultimamente está bem mais aberto. 

- E o Minseok? - Questionou, sentindo a garganta seca. Estava com medo daquela resposta. - O que aconteceu há seis anos atrás?

- Tentaram um sequestro porque a mãe dele trabalhava no banco e tinha acesso fácil as contas. Atiraram em você mas não acertou, porém chamou atenção da viatura que vivia rondando a escola. - Sehun mordiscava as beiradas da torrada. - Ninguém saiu ferido e conseguiram prender os caras. Daí não sei direito... você não gostava de falar sobre isso, mas pelo lembro vi vocês juntos até o fim do ano, depois cada um foi pra um lado. 

- Pera... fim do ano... eu fiz o vestibular, então... eu passei? - Ele apoio-se contra a bancada. - Diz que eu passei! Estudei tanto pra essa maldita prova. Me responde, Sehun!

- Não sei. 

- Sehun! 

- Passou

Jongin deu um grito, assustando o outro e saiu correndo pelo apartamento. 

- Eu passei! PASSEI! AI MEU D...

- Mas você não foi para a faculdade naquele ano. - Completou. - Seus pais não tinham condições de pagar, por isso você voltou pro cursinho e no próximo ano ganhou uma bolsa para a Yonsei. 

Ele parou, meio chateado. 

- O que foi? Ainda é uma das três melhores. 

Um ruído veio da porta de entrada e um instante depois ela abriu-se. Um homem baixo e meio gordinho entrou, retirando os sapatos. Tinha cabelos castanhos e uma pasta de baixo dos braços, quase escondida pelo suéter. 

- Por que ainda não está pronto? - Indagou, acusatório. - Eles não vão te esperar pra sempre, anda. 

Sehun deu um sorriso amarelo e correu para o quarto. 

O homem encarou-o através dos óculos, apertando bem os olhos. 

- Quem é você? 

- Eu sou um amigo do Sehun... Kim Jongin. - Explicou, estendendo a mão. 

- Donghae, o manager. - Apresentou-se, ignorando o comprimento. Ele deu as costas para si e recolheu a louça de Sehun, enfiando-a  na pia. 

Sehun saiu de lá com um blazer cinza e calça social preta, a máscara pendendo em uma das orelhas. 

- Jongin, pode usar o casaco que está ali no sofá. - Disse, abotoando o relógio. - É melhor não ficar sozinho por enquanto. Donghae, vamos no seu carro? 

...

 

 

Aparentemente, Kyungsoo era alguém extremamente insistente. Enquanto tentava as diversas combinações de seis números que poderia fazer o mínimo de sentido para seu eu do futuro, para que dessa forma conseguisse desbloquear o celular, seu suposto melhor amigo ligou três vezes e mandou um série de mensagens:

Soo: Como estão as coisas ai? O Sehun tá por perto? - 7:50

Soo: Você perdeu mesmo a memória? - 7:52 

Soo: Nem de mim você lembra? - 7:52

Soo: Por que você recusou a minha ligação? Estou preocupado!  - 9:30 

Soo: KIM JONGIN! VOCÊ TÁ TIRANDO COM A MINHA CARA, NÉ? MEU NOME É DO KYUNGSOO E EU SOU SEU MELHOR AMIGO, ENTÃO ATENDE A CARALHA DESSA LIGAÇÃO! - 11:10

Soo: Com essa porta ai você fala, né? - 11:15

Jongin confessava que estava interessado em conhecê-lo e até um pouco nervoso, o rapaz era um pouco descontrolado, mas parecia sinceramente preocupado consigo e aquilo lhe aquecia o coração. Durante o caminho, tentou fazer mais algumas perguntas sobre seu futuro a Sehun, porém o outro disse que seria melhor que Kyungsoo explicasse tudo mais tarde. Achou aquilo um bocado perverso, porém simplesmente aceitou já que Donghae ouvia a conversa toda. 

Esperou pelo menos três horas dentro do carro do manager enquanto Sehun participava de uma sessão de fotos, nesse tempo, bloqueou o celular diversas vezes e acabou desistindo, tentando esticar as pernas e dormir o sono que restou. Donghae e Sehun apareceram na hora do almoço e foram comer juntos em um restaurante japonês ali perto. O mais novo não pediu quase nada além de arroz, porém Jongin acabou-se em uma barca de sushi e em copos de refrigerante. Aquela com certeza era uma das melhores refeições de sua vida.

- Vê se não esquece de respirar. 

- Isso aqui é muito bom. - Revirou os olhos enquanto mastigava os pedaços crus de peixe. 

- Vocês tem que me contar como mantém o peso. - Comentou Donghae, um pouco mais simpático depois que soube o que acontecera com Jongin. - Não se faça de sonso, Sehun. Não acha que eu não sei que vai na sauna aos domingos? Que faz jejum no começo da semana? Come por três fácil! Está comendo agora pouco porque não é louco de perder esse trabalho. 

Jongin piscou, voltando-se para o mais novo. 

- Você é modelo? E a dança?

Sehun abriu uma garrafinha de água e bebeu. Ele estava com o blazer somente em cima dos ombros, o cabelo negro brilhava a algum produto que deixava sua franja para trás em um topete. A maquiagem insistia na palidez, deixava os lábios mais vermelhos e os olhos realçados e felinos. Confessava que estava bonito a ponto de arrancar o ar de seus pulmões e paralisar seus movimentos, porém para Jongin ele ainda era apenas o primeirista que assistia dançar. 

- Eu cometi alguns erros na minha vida... - O manager revirou os olhos. - Trabalho como modelo porque não suportaria voltar para casa, mas ainda danço e estou na metade da faculdade. 

- Essa foi a forma da empresa segurar o Sehun. - Donghae deu de ombros. 

- Você ainda fala com seus pais? - A pergunta escapou dele. Tinha que dar alguma notícia pros seus próprios pais, será que estavam preocupados? 

- As vezes, com a minha mãe. - Respondeu, suspirando. 

O celular de Jongin voltou a tocar novamente e estava pronto para ignorar quando viu o nome. 

Siwon. 

- Alô? - Atendeu, numa adrenalina que pareceu inundar suas veias. Porque afinal, aquele era Choi Siwon e talvez, só talvez... ainda mantivesse em segredo uma quedinha abismática não superada por ele. 

- Cariño? - Jamais poderia imaginar que a voz dele era mais sedutora ainda em ligação. - Onde esteve? Estou com saudade... quero te ver mais tarde. Sabe a senha de casa, não sabe?

Jongin levou a mão até a boca, cobrindo-a. Diz que aquilo não era um trote dos bons! Siwon tinha mesmo chamado-o de querido? 

Ele encontrou Sehun, erguendo uma sobrancelha para a chamada.

- Carinõ? 

- Hm... é... - Limpou a garganta. - Hoje não... não vai dar. 

- Por que não? - A voz de Siwon parecia magoada. - Quer que eu te busque? Vem dormir aqui, vem...

Jongin engoliu em seco, o coração socando dentro do peito. Não era pra ser assim, não tão de repente... quer dizer... era um puta virjão! Siwon tinha que ter dó de si! O moleque estava todo feliz com o corpo e os hormônios zumbiam desde sempre na cabeça, como ele podia fazer uma proposta dessas? 

- P-Preciso ajudar o Soo em uma coisa... hoje não vai dar.... ligo depois. - Desligou antes que o outro respondesse. 

- Quem era? - Questionou Sehun. 

- Sehun, você tem que me contar o que aconteceu na minha vida nesse anos todos! - Ele tentava voltar a respirar direito. - JESUS MEU PASTOR! Não acredito!

- Quem era? 

- Era o Siwon. - Contou, porque não iria conseguir segurar por muito tempo. - Choi Siwon. 

- Eu sei o nome do meu primo, Kim Jongin. - Respondeu Sehun, assustadoramente sério. - Explique pro seu namorado o que aconteceu com você. Kyungsoo pediu para que eu não informasse a polícia sobre seu apartamento e acerca das agressões, mas acredito que deva haver uma investigação a respeito. Siwon conhece bons profissionais. 

 

...

 

Mais tarde, Jongin resolveu dar uma escapulida de sua prisão e conhecer a redondeza. Por coincidência ou não, encontrou um de seus lugares favoritos: um fliperama com direito a carpete velho e muito chiclete usado grudado nas máquinas. Nem acreditava que aquela belezinha duraria tanto tempo, há seis anos atrás já estava ameaçada de extinção. Comprou um bocado de fichas com o dinheiro daquela carteira azul que sem sombra de dúvidas era sua (o RG era seu e os cartões estavam com seu nome), e jogou até seus braços e pernas cansarem. Não se lembrava do quanto poderia ser ruim até começar as partidas, uma pior que a outra -, mas a verdade é que não dava a mínima. 

Saiu de lá com uma pelúcia em miniatura no bolso e um sorrisão nos lábios. Quando chegou no estacionamento, Donghae estava apoiado no carro e Sehun parecia puto e indignado por não ter sido avisado daquela saída. Contudo, não podia fazer nada. Não sabia a senha do seu próprio celular e certamente ele não teria concordado com sua voltinha. 

- Pra você. - Disse Jongin, estendendo seu prêmio para Sehun.

Antes que o mais novo tivesse tempo de reagir, um louco arremessou um fiat 127 amarelo na vaga ao lado da deles. 

- Caralho, Baek, em que fim de mundo você achou essa carteira de motorista. 

- Pega o volante e faz um encaixe perfeito desse, bebê. Quero só ver. 

Um rapaz meio baixinho, de cabelo escuro e olhos grandes desceu do carro. Vestia uma blusa branca de gola alta e calça de cor bege que combinavam perfeitamente com ele e lhe davam uma pinta de artista -, daqueles que podem fazer uma arte ou ser a arte. 

Ele arregalou aqueles olhões e correu até si.

- Aí, meu Nini! Padinho padi ciço, o que aconteceu com você? - Disse, segurando seu rosto entre as mãos. - Sehun te levou no médio, não levou? Você tá bem, não tá? 

O tal de Baek saiu do carro, batendo a porta e subindo a calça. Ele deu uma umedecida nos lábios e puxou o baixinho para trás. 

- Vai assustá-lo assim. Cê tem que ser menos intenso. 

- Ele é meu melhor amigo, volta pro teu lugar. - Retrucou o baixinho, afastando-o. 

- Hm... Kyungsoo? - Perguntou Jongin, meio incerto. - Você é o Soo, não é? 

Os olhos de Kyungsoo se encheram de lágrimas. 

- Hunnie, você explicou quem o Kyung era pro Jongin? - Questionou Baek. Ao lado do baixinho, ele era consideravelmente mais alto, apesar de não alcançar Sehun,  o cabelo descolorido combinava com seu tom de pele. Usava uma blusa amarela berrante com uma estampa '' por que sempre eu? '' e calça jeans de cintura alta, além dos chinelos. 

- Baek, seu idiota! - Kyungsoo limpou as gotas salgadas. - Sei que ele não se lembra... ainda. Eu vou te ajudar... a lembrar. - Segurou firme nas mãos de Jongin que se assustou com a repentinidade do ato, mas não foi realmente um incomodo. - Daqui a uma semana vamos rir disso tudo. Você vai dormir lá na república por enquanto, okay? Já avisei o pessoal. Obrigada por cuidar dele, Sehun. 

- Só fiz o que o Jongin faria se fosse comigo. - Respondeu Sehun. - Não contei muita coisa. É melhor vocês irem com calma, falem aos poucos... 

Kyungsoo concordou e abriu a porta do banco traseiro para Jongin. 

- Vamos?
 



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