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História Memento Mori - Miles Morales - Capítulo 1


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Notas do Autor


Latim: Momento Mori /"lembrar"/ "lembre-se da morte"

Capítulo 1 - Lembranças no Violino


“Danger”

Colorido em um rosa gritante e um tifany marcado, o adesivo trazia vida para gárgula do prédio central de Manhattan. O colei justamente onde o meu pai não pudesse ver, assim me livrando de possíveis broncas. Mesmo não sabendo da minha identidade, ele identificaria meus traços no desenho. 

No arranha-céu mais alto, vejo todos lá em baixo como formigas. Quase tocava o céu pintado de laranja pelo amanhecer.

Me sento na escultura para observar algo tão simples, mas que ultimamente não tenho prestado atenção. O horário significa que o turno como homem-aranha finaliza e começa o de Miles Morales. Por sorte é sábado, livre das aulas, porém, os estudos continuam. Ainda estou me adaptando a essa loucura. Afinal só se passaram alguns dias dessa bagunça toda. Sinto falta dos amigos das outras realidades paralelas, mas também sinto que os verei novamente.

Sinto falta!

Hoje faz sete dias que eles retornaram a seus lares, faz também sete dias que Aaron Davis se foi para outro plano. Meu tio. O tinha como modelo de homem, me inspirava mais até que meu pai. Não sei descrever o que sinto em relação ao Gatuno, entretanto, a misa de sétimo dia é para um familiar e não para um vilão.

Lanço a teia e abandono o edifício, me jogo entre as ruas observando o movimento do comércio, corro pelas paredes e salto entre os espaços. Até chegar no prédio em que ele morava.

Meu pai tinha medo que eu me espelhasse em seu irmão mais novo, não entendia o motivo. Meu tio era livre, divertido, e não era viciado em nada. Era o que eu achava, mas a realidade era outra. Aaron Davis era dependente da mentira.

Mentiras passam batidas e nem percebemos. Mal nos damos conta e sem esperar a tomamos como verdade. Meu tio sustentou uma, grave, por anos. 

Se tivesse escolha, não sei se preferiria o ter descoberto como vilão. Entretanto, penso o contrário ao mesmo tempo. Inocentemente Homem-aranha seria melhor amigo de Gatuno. Herói teria como espelho um assassino, um ladrão e um mentiroso.

Eu, não estou mentindo para os meus pais, estou omitindo. Deixando os seguros. Há outros vilões por aí. Vou os proteger com minha vida, assim como protejo a cidade toda. Afinal, sou o novo amigo da vizinhança e novo alvo das notícias dos jornais de John Jonah Jameson ou "JJJ". Como preferirem.

Me atiro contra a parede do andar que ele vivia. Abro o vidro e entro pela janela. Tudo está como ele havia deixado. Com exceção do breve pó pela mobília. Apartamento maneiro, repleto de estilo, como ele era. Adentro o espaço e toco com as pontas dos dedos a textura da parede enquanto caminho em direção ao seu quarto. Pego a maçaneta e suspiro fundo, uma expectativa grande se cria em meu coração. Abro a porta em um supetão. O sentimento cai pelo chão.

Por algum motivo, tive a esperança de o encontrar deitado em sua cama com seu discman nos ouvidos. Aaron era descolado justamente pelo seu gosto por peculiaridades desatualizadas.

Entro no cômodo analisado cada parte de sua arrumação. Talvez será a última. Não sei qual será o fim desse local, talvez vendam , talvez o alguém, em todas as opções o apartamento perderá a cara do seu antigo dono.

Me deito sob a cama, ainda com o uniforme de herói, descanso no macio do colchão. Me viro para o canto e olho no vão entre o guarda-roupa e a parede, o estojo do instrumento que apreciava se encontrava adormecido.

Sento-me na beirada. Me recordo do tempo em que me ensinava violino. Não me tornei um violinista como ele, mas aprendi a tocar.

Vou até ele, o arrasto antes de o pegar no colo. O apoio na cama e o abro. A madeira negra e as cordas revestidas de prata reluziram. O arco sextavado trazia peso e leveza para as notas que encantadoramente tocava. Lembro que me contava histórias, de que esse violino foi tocado pelo seu pai. Me recordo que dizia que ao tocar sentia a presença de meu avô.

Meus olhos se encontram marejados, ele me lembra tanta coisa. Sem pensar duas vezes pego o instrumento e posiciono em mim, sustentando o violino. Desajeitado, estendo a crina desgastada no arco, o friz nos fio pedia por álcool, a quanto tempo ele não tocava? Com a postura que havia me ensinado, levemente, toco a primeira nota.

A porta do quarto se fecha e me assusto com o som. Com os olhos arregalados, encaro o local. Não era ninguém!

Acalento meu coração. E volto a olhar para o guarda-roupa. As partituras que tanto estudava há de estar em algum canto.

 Ouço vozes abafadas pelo concreto do edifício, se aproximavam. O trinco da porta de entrada é aberto. Ágil guardo o instrumento e volto ele para o lugar. Subo a porta e me grudo no teto, garantindo que ninguém me veja caso entre no quarto.

— Bom, ele não tinha filhos — Identifico a voz potente do meu pai. — Ou esposa. — Sua voz amenizou a pressão, como se desejasse que a história de Aron fosse outra. — O apartamento é espaço mesmo com poucos cômodos.

— É bem amplo. — Creio que meu pai já arrumou um comprador. — Ele tinha bom gosto. — Completou o interessado no apartamento. — Alguém veio aqui recentemente?

— Não! Porquê?

— A janela está aberta! — Engulo a seco. Não imaginava visita alguma aqui. — Posso ver o quarto? — Meu coração acelera com a aproximação dos passos. Antes que a porta se abrisse uso minha habilidade e fico invisível.

— Não sei se tem interesse nos móveis, mas não temos onde colocar ou vender. — A cada tempo a voz de meu pai ficava mais fraca.

— Não vão ficar com nada? — Vejo o homem alto e loiro adentrar o cômodo. Olhando cada metro quadrado daquele espaço.

— Nada! — Meu pai entra no local e percebo o terno negro. Daqui um pouco será a missa. Tenho que chegar antes dele. O homem fixou os olhos no vão entre a parede e o guarda-roupas.

— Nada? — Indagou novamente apontando para o instrumento. O olhar do meu pai se abaixa rumo ao chão e em negação responde o homem em seguida se afastou um pouco para trás. No sentido de querer sair logo dali. — Desculpe te trazer hoje, mas não teria outro dia para visitar. Sinto muito por ele.

— Não há necessidade de se desculpar, senhor Osborn. Sei que quer o apartamento para o seu filho. — Um silêncio se instaurou enquanto o tal "Senhor Osborn" admirava o local. O que questiono é porque alguém rico moraria em um lugar como esse.

— Senhor, Davis! Obrigado pela hospitalidade. Logo o contrato ficará pronto e fecharemos a compra. — Os passos foram cessando conforme se distanciavam.

Desço para o chão e sem demora pego o violino e vou para o terraço do prédio. Fui lerdo, poderia ter sumido com ele antes da visita.

Tiro o violino e monto o arco novamente. Coloco a espaleira e de forma mais jeitosa o apoio em mim. O dia já havia raiado por completo. Tenho alguns minutos antes do meu pai chegar a igreja e dar minha falta.

Sento-me sobre o para-peito do terraço. Fecho os olhos e arrisco a tocar a música mais fácil que me ensinou. Noite feliz!

Erro as primeiras notas pela falta de costume, mas aos poucos a melodia se completava conforme acertava as cordas ditando o ritmo com os dedos no braço do violino. Uma paz se formou e o vento veio, sinto um leve toque em minhas costas, mas ignoro, imagino que o vento trouxe alguma folha até mim.

Continuo a tocar e relaxo arrumando a postura. Recordando das dicas que me dava. É tudo tão fresco. Sorrio com os momentos. Interrompo a melodia.

— Disse que quando tocava o seu velho surgia. Agora sei como era a sensação. As suas memórias estão comigo, tio! Vou fazer todos sentirem sua presença hoje.

Coloco o instrumento de volta ao case. Com uma mão o seguro e com a outra me penduro pelas teias. Próximo à igreja, paro em um prédio e tiro a mochila que havia deixado ontem a noite. Visto a roupa escura e coloco o uniforme dentro, "colo" com a teia a mochila no esconderijo novamente. 

Um pouco atrasado chego ao fim da homenagem. Sem medo, me dirijo ao altar. 

— Gostaria de um momento de vocês! — Pedi antes que todos levantassem para se retirar. — Um momento para o ter sempre na memória. 

Digo e retiro pela última vez, hoje, o violino. Todos me olhando, então toco noite feliz. Não por ser uma música fácil e sim porque carrego todas as lembranças dele através da melodia. As notas chegam ao fim e todos estão tocados. Assim como sinto sua presença, sei que todos também foram acolhidos. Ao fundo vejo o meu pai em prantos. Depois terei que explicar como peguei o objeto, mas isso é assunto para outra hora.



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