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História Memento Mori - Capítulo 1


Escrita por: Doppia

Notas do Autor


Fas muito tempo que não trago algo e sinceramente mudei muito nesse tempo, aqui vai algo muito especial para mim

Capítulo 1 - Nictofilia


Fanfic / Fanfiction Memento Mori - Capítulo 1 - Nictofilia

"A noite silenciosa e pacífica traz mais uma vez certo conforto à minha nictofilia. Nestas folhas, iluminadas apenas pela luz das belas velas de parafina escorrida, escrevo a minha história para que mesmo após a minha morte eu ainda permaneça viva.

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Sempre vi o cemitério como um lugar tranquilo e agradável. O campo de lápides de pedra polida adornadas de símbolos religiosos contava as histórias daqueles que já não tinham mais voz. Em meu passeio despretensioso, lia a vida de cada um deles. Era como entender o passado da cidade através de poucas frases. Com um pouco de esforço o enredo se formava em minha mente.
Como de costume, acendi uma vela branca na saída do cemitério e rezei para os espíritos ficarem em paz e não me seguirem até em casa.
A cidade já anunciava a chegada do inverno  com dias frios e nublados. As ruas estavam praticamente vazias e o silêncio era reconfortante. As poucas pessoas que passavam por mim me encaravam com espanto, como se vissem uma alma penada em plena luz do dia, contudo eu apenas sorria de volta. Um sorriso calmo de apreço. Podia estar acostumada a apenas ver minha reflexão iluminada pelas luzes dos candelabros vitorianos, mas sabia de minha pele pálida, meus olhos escuros e meu cabelo esbranquiçado. Para uma jovem dama, já tinha ouvido diversas vezes o quanto eu lembrava a face da morte. Por isso mesmo passei desde muito cedo a vestir-me sempre de preto, preparada para os ritos fúnebres que costumava frequentar.
Avistando o salgueiro soube que estava perto de casa. Diziam que aquela árvore era usada para enforcar as suspeitas de bruxaria no passado, o que a tornava de certa forma mais especial. Alguns juravam que já tinham ouvido as maldições das filhas de Lilith próximos à árvore, mas sempre que passava por ali sentia apenas como se permitissem minha travessia até o casarão de arquitetura vitoriana onde eu morava. O que aceitava de bom grado.
Peguei o molho de chaves e abri o portão de ferro, depois do breve caminho de pedras abri a porta de madeira antiga. Toda a casa era propositalmente escura, iluminada somente à base de velas, o suficiente para a comodidade dos olhos. Alguns pisos rangiam, como os do corredor até a cozinha, mas era parte do charme da época.
Aproveitei o tempo para fazer um chá de ervas, montando a mesa de acordo com a etiqueta para uma refeição casual. Coloquei os pires, as xícaras, os talheres, a comida e então o chá, sentando-me à mesa. Logo a cadeira à minha frente se moveu, e nela Corvus sentou. Inclinou a cabeça levemente para baixo segurando a ponta de sua cartola em um cumprimento cordial, ajeitou o sobretudo acima do terno e segurou a alça da xícara como um verdadeiro cavalheiro. Sorri, tomando um gole da amarga mistura de ervas. Limpei meus lábios com o guardanapo de pano, como mandava a etiqueta e assisti Corvus abrindo seu bico para beber o líquido. Nunca perguntei como conseguia fazer bebidas desaparecerem mesmo com seu corpo esquelético e crânio de corvo, mas o mistério o tornava belo.
'Como foi?' Perguntou-me sem abrir o bico. Sua intensa e sussurada voz onipresente preenchia o ambiente.
'O cemitério permanece agradável.' Servi-me de um bolinho. 'Devia ir comigo, Corvus.'
'Não pertenço àquele lugar.' Ajeitou a postura. 'Não pertenço ao reino dos vivos nem ao dos mortos.' Tocou minha mão e pude sentir o ar gélido onde posicionou os dedos. 'Não pertenço a lugar algum'.
Mirei o buraco no crânio onde deveriam estar seus olhos, o vazio me encarou de volta.
'Isso temos em comum.' Sorri, terminando meu lanche. 'Próximo ao cemitério há uma construção, não me lembro de ver tantos espíritos desde os desaparecimentos na ruela.'
'São violentos.' Comentou. 'Desesperados...'
'Não ficariam nessa cidade se não fossem.' Ri levemente, tomando o último gole de chá. Limpei a mesa, retirando toda a louça e lavando-a. Ouvi a música antiga do gramophone de Corvus começar a tocar e subi para o meu quarto. As velas estavam apagadas mas a repetida mensagem brilhava nas paredes:

MEMENTO MORI

'Corvus esteve aqui novamente.' Sussurrei para mim mesma. Memento Mori... alguns diziam que significava 'Lembra-te da morte', outros 'Lembra-te que és mortal'. Em ambos os casos, é uma frase que nos lembra da brevidade da vida. Corvus sempre soube muito bem disso.
Troquei de vestido após um banho de banheira e sentei-me em frente ao espelho, agora iluminado por duas velas, penteando meu cabelo lentamente. Eu somente sabia de sua história o que quis me dizer, e não questionei o porquê dele conversar comigo de todas as pessoas da cidade.
Ajeitei o enfeite em minha cabeça, colocando o véu negro sobre o meu rosto. Pressenti o fim chegando mais uma vez.

*Dong dong dong*

O badalar de sinos da igreja preencheu o silêncio mórbido da pequena cidade, sinal de que uma pessoa havia falecido. Novamente eu estava pronta para um velório.
Levantei da penteadeira e desci as escadas. Graças à estação o céu começara a escurecer ainda cedo então as janelas mal iluminavam a sala de estar.
'Corvus, irá ao velório?' Perguntei pegando uma das rosas brancas do vaso de mármore escuro.
'Ao velório somente.' Ajeitou a cartola, oferecendo seu braço para apoiar-me, o que fiz.
Caminhamos pelas vielas estreitas e escuras, o cheiro da chuva inundando os ambientes melancólicos, precedendo a garoa fina.
'Tantos...' Corvus murmurou.
'Espíritos?' Perguntei em mesmo tom, vendo um ou outro pelo caminho. Corvus tocou minha testa com a mão livre, fazendo com que fechasse meus olhos.
'Veja.' Indicou ao nosso redor assim que os abri.
Espantei-me de imediato, aproximando-me de Corvus por reflexo. Haviam criaturas bizarras ao nosso redor, tinham rostos desfigurados, gritavam de dor e agonia, outros riam em pura insanidade. O barulho era ensurdecedor e a paisagem, aterrorizante.
'O que... O que são?' Perguntei impressionada.
'Criaturas de onde venho.' O tom de Corvus tornou-se distante por um momento. 'São mais barulhentos no cemitério.' Tocou minha testa novamente. Ao abrir os olhos todos eles tinham desaparecido. Sequer posso imaginar o que Corvus já devia ter visto e ouvido nos cemitérios. Continuamos a caminhada em silêncio, enquanto absorvia o cenário anterior.

*Dong Dong Dong *

Os sinos badalavam novamente. O velório começara. Soltei o braço de Corvus, segurando a barra do vestido enquanto subia os degraus até a casa fúnebre.
Assim que entramos, baixos murmúrios se espalharam. Apesar do lamento de amigos e familiares desolados ao redor do defunto, ainda haviam aqueles que olhavam em nossa direção de forma estranha ou amedrontada. Sorrindo suavemente aproximei-me do cadáver, observei seu corpo pálido amarelado cheirando à formol e rezei por sua alma. Posicionei a rosa branca embaixo de suas mãos gélidas como um último presente dos vivos e segui para o pátio na área externa da casa.
A chuva caía calada, como se respeitasse o momento delicado. As plantas mal se moviam com o vento tranquilo, toda a paisagem tinha se tornado acinzentada pela perda de um bom homem: um carpinteiro de vida simples, mas querido na cidade.
'Parente seu?' Uma voz aveludada soou próxima à mim. Virei-me sutilmente encontrando o dono da indagação. O homem de pele alva, cabelos negros e olhos verdes bem claros fumava vagarosamente seu charuto, encarando-me enquanto aguardava uma resposta.
'Não, não o conhecia.' Respondi tornando a vislumbrar a chuva. Raramente conversavam comigo por ali.
'Por que orou por ele?' Questionou, mirando a chuva da mesma maneira.
'Todos merecem que ao menos uma alma reze por eles.' Senti o toque gélido de Corvus em minhas costas, como se concordasse com tal visão. O rapaz terminou o charuto, assistindo o ambiente de forma reflexiva. Olhou de soslaio em minha direção como se quisesse perguntar algo mas não soubesse como, contudo, no fim, pareceu deixar para lá.
'É seu?' Perguntei após o longo silêncio.
'Perdão?' Olhou-me visivelmente confuso.
'Parente. Seu parente?' Sorri suavemente.
'Ah!' Soltou uma risada singela. 'Não, sou o novo embalsamador da funerária. Recém chegado na cidade.' Sorriu descontraído. Imaginava que não devia ter ouvido os boatos e crenças dos cidadãos ao meu respeito ainda, por isso puxou assunto.
'Qual seria o nome da dama?' Endireitou a postura, aproximando-se.
'Eliza.' Sorri. 'E o do cavalheiro?'
'Arthur,' Beijou minha mão cordialmente. ' ao seu dispor.' Sorriu de volta.
'Esteve ocupado, imagino.' Indiquei com a cabeça a sala do corpo.
'Sem dúvida, parece que a Morte mora nessa cidade.' Assentiu. Apesar do tema mórbido Arthur não parecia incomodado com tal fato. Reparei que segurava algo em uma de suas mãos, parecia uma moeda de ouro.
'Anúbis.' Corvus disse ao seguir meu olhar, coisa que Arthur também pareceu perceber.
'É um medalhão.' Mostrou-me o objeto de ouro, nele havia uma figura cunhada. 'Anpu é o Deus dos embalsamadores. Dizem que protege as pessoas do ramo e prefiro não brincar com a sorte.' Guardou o medalhão no bolso.
'Certamente.' Concordei, sabendo dos diversos espíritos que habitavam as redondezas da funerária.
'Arthur, o enterro vai co...' Um senhor apareceu do salão, era o responsável pela cerimônia, e encerrou a fala assim que me viu. Seu olhar assustado e preocupado em direção à Arthur denunciava que logo ele saberia dos boatos.
'Foi um prazer, dama.' Arthur me cumprimentou puxando a cartola um pouco para baixo, e beijou minha mão uma última vez antes de desaparecer junto ao senhor.
'Ele tem razão.' Corvus disse em seu tom sussurado e intenso usual.
'No quê?' Virei-me, observando seu crânio.
'Existe um foco nessa cidade, causando tantas mortes.' Tocou meu cabelo, vendo os fios deslizarem por seus dedos esqueléticos. 'Há criaturas demais aqui. Criaturas do Vazio.'
Observei o buraco de seus olhos em busca de respostas que sabia que não teria tão fácil.
'Vazio?' Sussurrei confusa.
'Um lugar entre o mundo dos vivos e mortos. O nada.' Corvus virou minha mão, deixando a palma exposta. Seus dedos gélidos escorregaram por minha pele, tornando-a fria e praticamente imóvel. 'Tudo naquele lugar perde a essência.' Desfez o movimento, voltando minha mão ao estado normal.
O barulho dos passos caminhando em cortejo chamaram nossa atenção.
'Até mais tarde, minha cara.' Corvus me cumprimentou com a cartola em despedida. Encostei em seu ombro, sorrindo e então partindo com a multidão.
A estrada foi silenciosa, não havia o que dizer além do que já fora pronunciado. O mesmo cemitério que tantas vezes já tinha visitado agora recebia mais um pedaço de história. O caixão foi abaixado pela cova, depois coberto de terra. Ali, sua lápide foi honrada com flores e lágrimas e com um último adeus a multidão se dispersou.
Voltei ao casarão após o fim da cerimônia. Tudo estava quieto como de costume e com a sala vazia subi para o quarto. Não havia achado Corvus, o que era incomum. Retirei o véu negro, olhando-me no espelho. Minha reflexão parecia diferente, levemente distorcida em um ondulado estranho. Toquei o espelho e as ondas se intensificaram. Repeti o movimento e dessa vez minha mão atravessou. Lentamente me inclinei, entrando pelo espelho até chegar ao outro lado.
O portal dava direto em um túnel rodeado de névoa escura, então caminhei em direção à luz que tornava-se cada vez mais clara.
Quando a claridade inundou tudo ao meu redor, cheguei a uma floresta. Pude ouvir pássaros cantando, a luz do sol iluminava as árvores altas e o som de um rio ecoava. Caminhei pela grama, tomando cuidado com os galhos caídos. Seria aqui onde Corvus veio parar? Como se lesse os meus pensamentos, ouvi passos em minha direção.
'Olá?' Um rapaz apareceu. Seus cabelos castanhos levemente bagunçados e caindo por um de seus olhos azuis escuros. Encarava-me com uma sobrancelha arqueada em desconfiança.
'Olá...' Não reconhecia aquele rosto.
'Quem é você?' Perguntou aproximando-se.
'Eliza.' Respondi simplesmente. Seu olhar tornou-se compreensivo de repente.
'Então você é a Eliza...' Murmurou para si mesmo, sorrindo de forma cordial. 'Henry.' Apertou minha mão em um cumprimento.
'Prazer em conhecê-lo. Onde estou, Henry?'
'No Vazio.' Riu baixo. 'Por mais que esteja bem cheio.' Olhou ao redor com um sorriso debochado. Não é exatamente como imaginei, levando em conta as criaturas que vi.
'É aqui onde Corvus está?' Questionei.
'Corvus?' Refletiu. 'Ah sim... Corvus... deve estar por aí.' Deu de ombros. Tive a impressão de que Henry sabia de muitas coisas mas que não parecia se importar o suficiente para compartilhar.
'Ele sabe que veio?' Perguntou-me.
'Creio que não.'
'Ótimo, vou te mostrar o lugar então.' Indicou com a cabeça para seguí-lo, o que fiz. Andamos por poucos minutos e a floresta, que antes parecia inacabável, deu lugar a um corredor extenso, cheio de portas em todos os lugares e então uma grande abertura onde tinha... o nada. Havia muitas vozes desconexas e flashes de luz vindo dali, contudo eu nunca tive tanta certeza de algo em minha existência. A sensação era quase palpável, por mais que meus sentidos gritassem o contrário, não havia nada ali. Apenas vazio.
'Bem vinda ao centro do caos.' Sorriu debochado. 'Aqui é onde as coisas começam a ficar confusas. Aquele lugar,' Apontou para o vazio. 'ali é o centro das memórias e sentimentos, e as portas são as experiências das lembranças. Em tese não há nada no vórtex, tudo que vê e ouve são reflexos das suas próprias experiências. Basicamente é vazio até que alguém apareça.'
Henry levou-me para uma das portas, entrando comigo no que parecia ser um bar vazio. Pegou uma bebida e sentou ao meu lado em um dos bancos.
'Quanto mais seres juntos, mais memórias e lembranças vão para o vórtex, deve imaginar que em certo momento tudo fica um tanto caótico.' Virou a bebida, enchendo o copo novamente. 'E então criaturas sombrias começam a rastejar para fora dele, procurando portais para sair daqui e ir para qualquer outra dimensão.' Virou novamente. 'Mortes e mais mortes acontecem. A situação não é bonita.'
Assenti em silêncio conforme me contava, seria esse o motivo de tantas mortes seguidas estarem assolando a cidade?
'Tudo nessa dimensão é inconstante, a realidade se molda diferente toda vez.' Virou o copo novamente. 'As aparências dependem da sua dimensão. Deve ver coisas pertinentes ao seu cotidiano.' Arremessou o copo no chão, quebrando-o. 'Mas esse não é um bom lugar para se estar, Eliza. É fácil se perder.' Levantou-se, oferecendo seu braço. 'Vou mostrar a saída.'  Sorriu calmamente. Aceitei ainda que em alerta, apoiando-me em seu braço.
Saímos pela mesma porta, mas o corredor estava diferente. A forma das portas, suas posições e cores... parecia outro lugar. Não havia mais uma floresta, no lugar atravessamos um deserto que também parecia interminável e então chegamos ao mesmo túnel de névoa escura.
'Mande lembranças ao... Corvus. Diga que o vejo na tabacaria.' Deu um sorriso de canto.
'Agradeço pela ajuda e informações, Henry.' Sorri suavemente, seguindo o caminho de volta.
Assim que atravessei o espelho de volta ao casarão percebi que era noite. Quanto tempo passei fora? Chequei pela casa por Corvus, mas ele não havia chegado. Decidi então que tomaria um banho e dormiria um pouco.

Acordei com os raios de sol em meu rosto, aquecendo-me. Estava completamente perdida, não sabia a dia ou o horário, mesmo assim levantei, troquei de roupa e saí para o cemitério como de costume.
Em meu percurso refleti sobre tudo o que ouvi.
Tinha certeza de que Corvus estava naquela dimensão. Sentia que sim. Por isso sabia também que voltaria a qualquer momento. O tempo lá realmente passou diferente daqui.
Caminhei entre as lápides em meu trajeto cotidiano, lendo cada nome e história. Parei ao ver a do último velório.

'Tom Smith
Amado pai e esposo
Carpinteiro habilidoso
Descanse em paz'

Havia muitas flores ali. Realmente era um homem querido pela comunidade. Pergunto-me o que uma criatura daquelas teria feito com ele. Rezei por sua alma.
'A família vem todos os dias.' Uma voz soou ao meu lado. Era Arthur.
'A perda é quase insuportável.' Murmurei.
'De fato.' Assentiu. 'Soube de sua reputação, "Dama da Morte"'. Comentou casualmente após um breve silêncio.
Mirei-o. Não estava surpresa, uma hora ou outra aconteceria.
'Gostaria de tomar um chá e conversar sobre o assunto?' Ofereceu com um sorriso cortês.
'Claro.' Dei um pequeno sorriso em afirmação.
O caminho até a cafeteria mais próxima foi trilhado em silêncio. Parecia haver ainda menos pessoas na cidade. Aos poucos a Morte batia de porta em porta, ceifando as vidas daqueles que se aventurassem a desafiá-la. Memento Mori e então viverá ao seu lado, não contra ela. Corvus tinha razão.
Ao entrarmos, Arthur certificou-se de minha comodidade antes de sentar-se. Solicitamos um pouco de comida e bebidas.
Com a sombra de um sorriso no rosto, Arthur tomava seu chá.
'Como começou esse rumor?' Perguntou-me. Tomei um gole da minha bebida.
'Nasci com uma aparência incomum. Íris muito escuras, cabelos muito brancos, diziam que era a encarnação da Morte. A história espalhou-se pela cidade e os cidadãos passaram a me temer enquanto meu interesse pelo mórbido e meu vestuário de cores escuras tornaram-se mais frequentes. Passei a visitar o cemitério por ser um local tranquilo e a ir aos velórios de conhecidos e desconhecidos para rezar por suas almas. Então a reputação se perpetuou, assim como o apelido.' Comi o bolinho, tomando outro gole da bebida.
'Interessante... mas se a Morte tiver seu rosto, de fato ela é bela.' Comentou, sorrindo. Encarei-o um pouco surpresa, não esperando tal atitude.
'Obrigada, cavalheiro.' Sorri um tanto tímida. Seu sorriso tornou-se gentil.
'Eu que agradeço por aceitar o convite.' Fitou-me por um instante. 'Estive pensando em convidá-la desde que nos vimos semana passada.'
'Semana passada?' Olhei-o espantada.
'Sim.' Riu baixo. 'Não se lembra?' Tombou a cabeça para o lado levemente.
'Lembro, claro.' Terminei minha bebida. 'Não parecia fazer tanto tempo.' Sorri suavemente.
O badalar dos sinos da igreja preencheram a cidade mais uma vez. Arthur retirou seu relógio de bolso do paletó e clicou no botão em sua lateral, checando a hora.
'Há tantas mortes por aqui que quando os sinos tocam preciso checar se alguém faleceu ou se apenas virou a hora.' Riu discretamente, guardando o relógio de volta.
'E então?' Sorri, divertindo-me com seu jeito.
'Virou a hora.' Piscou para mim em flerte. Ri suavemente, um tanto envergonhada e lisonjeada. 'Talvez soe um pouco estranho, mas a dama estava sozinha quando nos conhec--' Arthur olhou por trás de mim e gelou. Virei-me na mesma direção vendo a figura próxima a nós.
'Corvus!' Surpreendi-me com sua aparição repentina.
'Eliza, preciso te contar algo.' Disse em tom baixo. Sua mão óssea apoiada em meu ombro trazia a sensação gélida usual.
'Então você também enxerga ele?' Arthur posicionou sua mão acima da minha, olhando-me nos olhos profundamente.
'Sim...' Encarei-o incrédula. Em toda a minha vida nunca havia conhecido outra pessoa que o visse. 'Esse é o Corvus.' Apresentei-os.
Corvus acenou com a cabeça, tocando a aba da cartola. 'Cavalheiro.' Cumprimentou-o.
'O que precisa dizer-me?' Voltei minha atenção à Corvus. Ele virou-se para Arthur como se não soubesse se deveria contar na frente dele.
'Venha comigo.' Ofereceu seu braço. Tomei-o instintivamente, juntando-me a Corvus. Arthur, contudo, levantou-se e segurou minha mão.
'É seguro?' Perguntou-me. Não sabia, mas confiava em Corvus.
'É sim.' Assenti. Seu olhar ainda trazia ar de dúvida, sendo assim posicionou-se ao nosso lado.
'Apenas para ter certeza.' Justificou-se. Corvus não se queixou, guiando-nos pelo caminho até o casarão. O ar gélido batia contra os nossos rostos enquanto o vento balançava as árvores de galhos quase secos. O único ruído audível vinha de criaturas distantes demais para serem identificadas. A cada passo dado o trajeto trazia um ar mais e mais sombrio e o estopim foi nossa última parada. O velho e vitoriano casarão que agora mais do que nunca parecia o lar de criaturas terríveis. Eu sabia que não era, morei nele por toda a minha vida, e ainda assim hesitei por um breve momento antes de entrar.
No segundo andar, de frente para o espelho, Corvus acariciou minha bochecha com sua mão esquelética.
'Há coisas muito importantes que precisa saber no Vazio. Existe algo que deseja fazer nessa dimensão antes de irmos?'
Olhei ao meu redor, nada vinha à minha mente.
'É um caminho sem volta, não?' Arthur encarou o vazio onde ficariam os olhos de Corvus.
'Sim. Dessa vez será. Decida-se também, cavalheiro. Se vir conosco não terá como retornar.'
Arthur assentiu em silêncio. Pareceu refletir e repensar algumas vezes antes de fitar-me.
'Algo me diz para acompanhar a dama, então é isso que farei.' Sorri com suas palavras, olhando mais uma vez as palavras de Corvus na parede.
'Está na hora de partirmos.' Toquei a mão de Corvus em minha bochecha.
'Vamos.' Colocou-se de lado, dando passagem para entrarmos pelo espelho antes que o fizesse.
Atravessamos o extenso corredor até o que se mostrou ser uma trilha pela montanha. Quase no pico de uma alta cordilheira, o longo e estreito caminho nos levava para o corredor cujo final acarretava no Vazio.
'Chegamos.' Corvus anunciou. 'Fique aqui.' Pediu à Arthur que, lendo a situação, concordou.
'O que veremos?' Perguntei, seguindo-o.
'Memórias.' Abriu uma das portas, cordialmente segurando-a até que eu entrasse na sala para que viesse comigo.
Tudo era cinza, não havia nada ao nosso redor senão um grande vazio. Corvus me encarou por um momento e então o lugar ao nosso redor mudou. Estávamos no que parecia ser um campo aberto em um dia nublado. Próximo a uma árvore havia um homem de sobretudo preto por cima de seu paletó de mesma cor, em sua cabeça uma cartola e em sua mão uma bengala vitoriana na qual se apoiava. Parecia ser um senhor de meia idade, os cabelos  e bigode negros estavam em processo de tornar-se grisalhos, mas seus olhos castanhos ainda refletiam um espírito forte e impassível.
'Quem seria?' Perguntei. Corvus olhou o homem em silêncio por alguns segundos.
'Edgar. Edgar Carriger Stoker. Burguês estudado, filósofo, escritor, poeta nas horas vagas. Um homem que poderia ter tudo, mas que desejava algo que a fortuna não podia comprar.'
'O que seria?' Perguntei.
'Sua esposa e filha de volta.' Ficou em silêncio por um longo minuto, em condolências. 'Vítimas da tuberculose.'
'Conheceu-o?'
'Melhor do que ninguém.' Virou-se para mim. 'Eliza... esse homem sou eu.'
Fitei Corvus incrédula e então tudo ao nosso redor mudou para o que parecia ser uma foto. Edgar, a esposa e a filha, juntos e felizes.
'Não pertenço à sua dimensão. Venho de um lugar similar, todavia, com outras tecnologias e problemas. Fui feliz e então perdi tudo que amei, como um sopro. Encontrei uma saída e passei a vagar pelos mundos, perdido, desolado. Tornei-me um peregrino, assim como o Henry e, agora, você e o cavalheiro.' Tocou o meu rosto com seus dedos ósseos. 'Assim que te vi pela primeira vez... vocês são tão parecidas. Minha pequena Lira.' Embora não visse, senti que sorria ainda que de forma melancólica. Ao nosso lado a imagem de uma garotinha sorridente se destacava. Sua filha, Lira. 'Tive que proteger-te desde aquele dia. Mesmo com a minha aparência alterada por estar em um lugar ao qual não pertenço, nunca me temeu. Não há mais nada que as traga de volta para mim, mas você poderá seguir o seu caminho, Eliza.' Abracei-o. Abracei-o com todas as minhas forças, pois sabia o que era sentir-se sozinho e isolado. Edgar surpreendeu-se de início mas logo abraçou-me de volta.
'Você é a minha família, Edgar. Sempre esteve comigo, sempre me protegeu. Nós podemos trilhar esse caminho juntos.' Por um momento nossas dores se complementaram em uma espécie de terapia silenciosa. Não trocamos palavras, não nos afastamos, apenas sentimos. E era tudo o que precisávamos: compaixão, simpatia, amizade, amor familiar.
'Obrigado, Eliza.' Sussurrou de forma carinhosa, quase paternal, fazendo um movimento como se beijasse a minha cabeça. Sorri, segurando as lágrimas que transbordaram os meus olhos sempre tão vazios.
'Eu que agradeço, Edgar. Por tudo.'
Uma batida na porta nos interrompeu.
'Perdão, não quero estragar o momento, mas estão bem, não?' Arthur, analisou nós dois, checando se estávamos, de fato, bem. 'Podem continuar, sem pressa. Só preocupação.' Riu baixo, fechando a porta novamente, sumindo de nossas vistas.
'Terá que cuidar disso. Pelo seu sorriso já imagino o rumo dessa relação.' Edgar ofereceu-me o braço, o qual usei para apoiar-me, olhando-o tímida pelo comentário.
'Ora, não estou acostumada a conversar com cavalheiros como ele.' Respondi baixo, em sigilo. Senti o sorriso verdadeiramente feliz de Edgar antes de uma risada singela que causou em mim o mesmo efeito.
Talvez tivesse razão em suas palavras, mais uma vez.

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Foi assim, caro amigo, que ganhei uma família, um amor e uma nova perspectiva de vida para encarar a jornada incerta de uma peregrina de mundos. Com a luz da vela se esvaindo e minha tinta acabando deixo o meu registro. Memento Vivere! ('Lembra-te de viver')"


Notas Finais


Espero que tenham gostado, memento vivere 🖤


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