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História Memórias Abertas: O castelo despedaçado - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


É minha primeira vez postando alguma das minhas histórias, finalmente criei coragem para postar esta. Espero que gostem!

Capítulo 1 - Fechado


18 de abril de 2019 [16:15]

Uma vez me disseram que eu era o deus da minha própria vida, eu a controlava e criava meus próprios caminhos. Mas como eu poderia ser deus se não sou apto a controlar certas coisas como o mero pulsar do meu coração? Ou até mesmo de controlar o fluxo de pensamentos que assola minha mente?

O que seriam as leis do Universo se eu sou o próprio? Talvez significasse que eu poderia mudá-las a qualquer momento, mas elas se aplicariam apenas a mim. O Geral continuaria imutável e eu permaneceria na completa [vagância] de meu castelo estrelado.

Eu não sou o Universo e o Universo não sou Eu. Minhas epifanias não se impõem a ninguém mais além de mim. O Universo é ele próprio e eu sou apenas eu.

Ao menos é isso que meu eu atual pensa.

 

Uma voz suave e cansada interrompe meus pensamentos.

— Boa tarde, meu jovem.

— Boa tarde senhora, em que posso ajudá-la?

— Gostaria de marcar estas compras em meu nome.

— Claro, sem problemas.

Trabalho como caixa em um pequeno mercadinho, num bairro antigo da cidade, coisas como comprar fiado são comuns por aqui, até mesmo o pirralho mais atentado paga suas “contas” devidamente.

Eu estava muito entediado por trás daquele balcão, embora as feições em meu rosto representassem a mais genuína emoção de alegria enquanto atendia a senhora de 65 anos. Ela sempre passava por aqui no fim do dia para comprar biscoitos e outras porcarias, provavelmente para seus queridos netos.

— Aqui está seu recibo, senhora, não se esqueça que sua conta fecha dia 24 deste mês — digo a ela com um sorriso cordial.

— Obrigada, me lembrarei!

Após este pequeno agradecimento, ela foi-se rua abaixo, deixando, assim, o estabelecimento completamente vazio, exceto por mim.

 

 

 

Olhei para o relógio, 17:26. Já tinha feito tudo que era possível no momento, lançado a nova remessa de produtos no sistema, organizado as prateleiras de massa de tomate de acordo com suas respectivas marcas e atendido as crianças do primário que só vêm aqui para comprar balas e picolés após a aula, a rotina de sempre. Sem sinal de mais algum cliente.

Estava agradecido, por assim dizer. Daqui alguns instantes poderia enfim subir ao meu quarto — que foi alugado a mim gentilmente pelo Seo José, dono do mercadinho — e isolar-me do mundo por pelo menos esta noite.

Pelo menos isso era o que eu esperava.

— Garoto! — era assim que ele me chamava, jamais pelo nome real, já que eu praticamente implorei a ele para nunca o fazer.

— Sim, senhor?

— É o seguinte, vai ter uma festa de arromba na casa do filho do prefeito e ele “requisitou” que ficássemos abertos até de madrugada, se é que me entende. — disse fazendo um gesto de dinheiro com os dedos das mãos — Quero que você fique aqui das 21:30 às 3:00 da manhã.

Eu achei que iria desmaiar quando o ouvi. Estava exausto, não sou uma pessoa muito sociável, então qualquer interação com alguém me deixa ansioso, isto não era muito demonstrado já que os clientes eram quase sempre os mesmos, acabei me acostumando com suas presenças. Mas é completamente diferente quando são um monte de adolescentes desconhecidos — e provavelmente bêbados — vindo fazer arruaça.

Eu vou recusar. Eu vou recusar. Eu vou recusar. Eu vou recusar. Eu vou recusar. Eu vou recusar. Eu vou recusar. Eu vou recusar. Eu vou recusar.

Não posso recusar. Seo José fez muito por mim durante todos esses anos, seria muita ingratidão minha.

— Ah! É claro que isso não sairá de graça, filho. Vou te pagar as horas extras direitinho e você está livre para comer alguma coisa daqui sem custos, pode tirar um intervalo de 20 minutos, mas não enrole muito, viu? — Provavelmente adicionou esta parte do intervalo após ver minha cara de desespero, afinal, ele sabia sobre meus problemas e tudo que eu já tinha passado.

— Tudo bem, estarei aqui às 21:20 para me certificar do estoque de bebidas.

— Esse é meu garoto! — disse dando leves tapinhas em minhas costas e soltando uma gargalhada típica de um senhor de 79 anos — agora vá tomar um banho e descansar um pouco, você terá uma longa noite pela frente.

 

Seguindo seu conselho, subi as escadas em direção ao meu quarto.

Não era nada luxuoso. Era literalmente uma kitnet, digna de meus 400 reais de aluguel, incluindo a energia, já que era usada a mesma rede elétrica do mercado.

Um pouco desnorteado, sentei-me em minha cama e soltei um pesado suspiro.

Se alguém estivesse me vendo agora, diria que sou um solteirão de 37 anos de idade que tem problemas com álcool.

— Ainda bem que tenho apenas 24 ‘aninhos’ — Disse em voz alta com uma risada irônica de escárnio.

 

 

 

Acordo com o som estridente do meu alarme, que marcava 21:00 em ponto. Preguiçosamente, levanto-me e vou em direção ao banheiro para tomar um banho.

Ligo o chuveiro na água gelada, tentando afastar meus pensamentos alarmados sobre ter de encarar um bando de adolescentes ricos, bêbados e sem responsabilidade alguma. O que pode dar errado, certo?

Odeio burgueses contemporâneos.

Checo brevemente meu celular, nenhuma mensagem. E por que teria? A única pessoa que eu conheço é o Seo José e a última vez que o vi usar um celular foi para jogar num bêbado que tentou roubar um corote da prateleira, um Nokia 3310 de 2000, belo exemplar.

As vezes eu me sinto como um cadeado barato e enferrujado que ninguém quer e nem ao menos tem a chave, permanecendo sempre fechado, mas claro, isso é em grande parte minha culpa por não deixar ninguém se aproximar o suficiente para construir alguma espécie de relacionamento. Tem até alguns clientes beirando a casa dos 25 anos que sempre puxam papo furado comigo, um dia chegaram até a me convidar para uma festa com alunos da faculdade que ia ter na casa de alguém, mas obviamente eu recusei, como sempre.

Aposto que eles acharam que eu era algum estudante estereotipado de humanas pela minha aparência meio descuidada. Cabelo preto médio, barba mal feita, muitas olheiras — causadas por crises de ansiedade — e tudo mais...

Eu teria sido um ótimo universitário. Se eu pudesse queria ter cursado história, eu seria aquele cara negro que exalta suas raízes africanas e participa da militância. Infelizmente não tive a oportunidade de entrar numa pública e muito menos condições financeiras para pagar a mensalidade exorbitante de uma faculdade particular e ainda ter moradia para sobreviver.

Enfim, hora de vestir o uniforme. “Preço Único” estampado vibrantemente em tons de amarelo no centro da camiseta. Bem chique para a ocasião.

Desci as escadas e logo vejo várias caixas empilhadas afastadas a quase um metro da porta que dá acesso ao estabelecimento. Me aproximo e percebo um bilhete mal colado com fita adesiva na frente de uma delas. Pego-o e leio a mensagem:

“Garoto tive que sair nas pressas pra

pegar uma encomenda...

volto daqui mais ou menos uma hora...

segura as pontas ai!”

– 21:07

 

— Ele realmente podia ter mandado uma mensagem...

Isso é estranho, geralmente ele faz a compra dos suprimentos só uma vez por semana, será que ele pediu alguma coisa pela internet?

— Não, ele mal sabe usar o google, deve ser algum item muito bem vendido que ele esqueceu de pedir antes — Digo meu pensamento em voz alta com um tom jocoso.

— Ai ai, hora de botar a mão na massa!

Estalo de leve meus dedos para logo depois carregar as caixas e caixas de cerveja e destilados em direção ao centro do corredor. É como o velho sempre diz “pra fazer os pais comprarem o doce pra criança é só deixar ele bem na frente dela que ela faz birra até conseguir”.

 

A única coisa que muda é que, neste caso em específico, os pirralhos de 17 anos compram o próprio doce.


Notas Finais


Agradeço a todos que leram até aqui!

Atualizações em breve ;)


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