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História Memórias de Sombras - Capítulo 17


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Notas do Autor


Dessa vez eu decidi presentear vocês com mais respostas do que perguntas hahahaha (ou pelo menos eu espero que tenha sido assim até o final do capítulo!!!🤔🤔🤔)
Finalmente vamos saber o que a Galadriel quer, teorias??
Boas leituraaaa, minna-saaan!❤❤❤
PS: perdão por qualquer erro!😭

Capítulo 17 - Senhora das Trevas


Devagar, Lyn levantou da cama e cruzou os braços, talvez para indicar confiança ou apenas porque estava com frio graças à brisa noturna que invadia o salão pela janela... que a mulher pensasse o que quisesse. Ela franziu o cenho em busca de alguma memória que poderia ter sobre a estranha elfa, mas não lhe veio nada à mente.

– Me desculpe se estou sendo muito indelicada, é que não tenho costume de receber visitas de estranhos sem serem convidados no meio da noite... poderia me dizer o que faz aqui?

Ignorando brevemente a pergunta dela, a elfa andou calmamente até a janela, observando com um olhar enigmático a noite que se estendia lá fora.

– Se está tão preocupada quanto a isso, saiba que acabou de anoitecer, na verdade. – quanto mais Lyn escutava sua voz, mas tinha certeza que saiu de algum conto mágico.

– Ah, me sinto bem melhor agora, com certeza... – ironizou a garota, se aproximando um pouco. – Responda minha pergunta, por favor.

Quando a mulher de branco se virou, a luz da lua refletiu sobre seus cabelos deixando-os ainda mais brilhantes. De fato, ela parecia uma deusa.

– Me chamo Galadriel. – disse, e a feérica levantou uma sobrancelha.

– E você, de alguma forma, já sabe meu nome. – completou Lyn.

Galadriel a encarou por alguns segundos sem dizer nada.

“Realmente não se lembra de mim, princesa das trevas?”

Lyn conseguiu segurar o grito ao ouvir a voz da mulher ecoar dentro da sua mente, mas não evitou quando se afastou rapidamente para trás, derrubando uma bandeja de frutos e taças que estavam sobre a mesa no chão. Ignorou completamente o desastre que fizera enquanto permanecia petrificada.

– O que... como você fez isso? – perguntou, tentando manter alguma confiança, o que resultou apenas em tentativas falhas.

Galadriel apenas suspirou.

– Imaginei que não restaria nenhuma memória.

Novamente a feérica engoliu seco, absorvendo todas as informações que embaralhavam sua cabeça.

– Faça de novo. – pediu. – Preciso ser certeza que não estou ficando louca, depois dos últimos acontecimentos não seria exatamente algo difícil de acontecer.

A elfa sorriu diante da confusão da feérica.

“Você não está perdendo sua sanidade, criança. E isto não é um sonho, eu também não. Mas, no fundo, você sabe disso assim como sabe que esperava que algo aconteceria em algum momento”

Então ela não estava ficando louca... ainda. Como era possível alguém se comunicar através da mente?!

Nada daquilo fazia sentido.

Apesar do medo, Lyn levantou o queixo.

– Eu estava esperando mais algo como uma tentativa de assassinato ou sequestro de orcs durante à noite, e não a visita de uma criatura mística... o que você é? Uma bruxa? Alguma criatura semelhante aos Suriel que eu não sabia que existia, capaz de responder perguntas que ninguém mais tem respostas? Como chegou até mim?

– Eu não sou nada disso que afirma. – respondeu, calmamente. – Apenas uma velha conhecida.

Lyn piscou algumas vezes, buscando no fundo da sua mente qualquer registro dela... mas continuou sem respostas.

– Eu a conheci durante o período que minhas memórias foram arrancadas de mim. – a garota não sabia exatamente se queria que aquilo fosse uma pergunta, já que tinha certeza naquilo que afirmava. Se a tivesse conhecido em qualquer outro momento da vida, certamente se lembraria.

No entanto, Galadriel negou para sua surpresa.

– Elas não foram arrancadas. – explicou, fazendo-a erguer as sobrancelhas. – Você abriu mão delas por vontade própria.

Uma nova onda de perguntas caiu sobre seu corpo, fazendo seu coração palpitar mais rápido... Aquilo não era um sonho. Não era. Não poderia ser...

– Por que eu faria isso? Como... se você sabe disso, então tem minhas respostas? Sabe o que aconteceu comigo e como cheguei aqui? Por favor, preciso de respostas!

A expressão que a elfa diante da sua súplica fez com que seu coração se apertasse em tristeza.

– Fiz uma promessa de que não revelaria, eu sinto muito. – respondeu, simplesmente.

Uma promessa? Para quem?!

Galadriel a olhou da cabeça aos pés.

– Para você.

Para... mim?

– Por que eu abdicaria das minhas memórias? Está querendo me dizer que eu cheguei em Mirkwood por vontade própria também?

– Você teve um motivo para sacrificá-las, Lyn. E conhece a si mesma o suficiente para saber que não faria isso a menos que fosse necessário.

Quanto mais respostas conseguia, mas sua lista de perguntas aumentava e a feérica temia que isso não fosse parar de acontecer. Que tipo de ameaça sofreu para que precisasse fazer isso?

– Eu não sei por qual motivo tive que fazer isso... mas retiro essa promessa. Me diga o que aconteceu, Galadriel.

– Sabe que não farei isso. – respondeu a elfa, fazendo a garota morder os lábios para segurar a angústia recorrente.

– Então é isso? Minha mente nunca irá recuperar o que perdeu? Posso ao menos saber o motivo? – cada nova pergunta soava com mais raiva, não da mulher... Ela nem sabia exatamente do quê. Estava apenas cansada de tudo isso, de tantos problemas.

Para alimentar uma pequena faísca de felicidade em sua alma, Galadriel negou o que disse.

– Você irá recuperar suas memórias. – afirmou. – No momento certo, algumas sozinha... e outras, eu irei revelá-las.

– Como você tem tanta certeza que esse momento certo vai chegar? – indagou, com pesar. – Se me conhece realmente, deve saber que tenho um potencial para a morte extraordinário, e ele tem piorado drasticamente nos últimos dias.

– Você está errada.

– Não, eu não estou. – insistiu Lyn, franzindo as sobrancelhas.

– Nunca esteve tão segura em sua vida como está agora, criança. Atrás das proteções do castelo de Thranduil, com pessoas que se importam em sua segurança e bem estar. Mas receio que isso não vai durar muito tempo.

– O que quer dizer agora? – murmurou.

– Que você terá que partir daqui logo. – respondeu Galadriel, fazendo a feérica suspirar.

– Pelo menos em algo estamos concordando. – resmungou. – Mas, espero que esteja ciente de que, ao menos que você me dê alguma justificativa bem convincente para fazer o contrário ou devolver minhas memórias, não espere que eu faça nada por você... quando eu sair daqui, será para voltar para minha casa. Apenas isso.

– Os orcs irão persegui-la pelo resto da sua vida. Não pode fugir deles para sempre.

– O que espera que eu faça? Entre na fortaleza deles e mate todos um por um sozinha? Admiro suas expectativas quanto a mim, mas prefiro não me arriscar tanto. – após se explicar, ela desviou lentamente o olhar para o horizonte. – Eu posso sim fugir deles para sempre, e é exatamente isso que eu farei. Não tenho mais nada que possam arrancar de mim... ou ninguém.

Por alguns segundos, a mulher de branco apenas a encarou com profundidade.

– Sabe que isso não é verdade. – disse ela. – Me diga, tem certeza que suportaria se o príncipe Legolas fosse levado por eles também? 

Por um segundo, Lyn perdeu a respiração e as palavras.

– O que sabe sobre Legolas? – perguntou, deixando a verdadeira questão implícita: “O que sabe sobre minha relação com Legolas?”  – Isso não importa! Os orcs não querem nada com ele e está seguro, seu pai jamais permitiria que se colocasse em um perigo extremo. Legolas vai ficar bem. – afirmou, tentando manter a convicção e torcendo para que isso fosse verdade... pois, de fato, ela sabia que não suportaria. O príncipe tinha se tornado seu amigo apesar de tudo, tudo bem que na maioria das vezes tinha sentimentos conflitantes quanto a ele... mas ainda eram amigos, pelo menos por sua parte. E não apenas o elfo, pois também não seria capaz de ver Miriel sofrendo a mesma situação.

De qualquer forma, preferiu não comentar com a elfa sobre a relação afetiva que também mantinha com a curandeira. 

– Os orcs podem estar interessados somente em você, Lyn. Mas isso também não foi suficiente para salvar Tegan.

Novamente, as palavras da elfa apertaram seu coração e a levou a morder os lábios para segurar a frustração de ouvir o nome do seu antigo amor. Então Galadriel sabia da sua história...

O que dissera também deixou outra coisa clara: O que os orcs queriam estava completamente relacionado a ela, e realmente Tegan havia sido morto por engano. Porque estava no lugar errado e com a pessoa errada.

– Você tem tantas respostas... mas se não pretende me entregar nenhuma delas, por que exatamente veio me procurar?

– Eu disse que não devolveria suas memórias, porém tem coisas que você precisa saber para continuar sua jornada. 

Devagar, Lyn levantou as sobrancelhas. Ela conseguiria mesmo suas respostas? Mesmo que fossem tão escassas? 

Não importava. Ela queria... precisava, mesmo que não se passassem de migalhas.

– E o que você pode me contar, exatamente?

– Principalmente... estou aqui para revelar os motivos pelos quais está sendo perseguida pelos orcs.

– Como... como sabe disso? – gaguejou, descrente.

– Isso é algo que você já tinha conhecimento antes, mas que acabou se perdendo entre as memórias que teve de sacrificar. No entanto, diferente das outras, essas respostas são essenciais e imagino que esteja atrás delas já faz um tempo.

– Você veio para Mirkwood já sabendo disso... veio para me devolver as respostas que sabia que eu esqueceria, mas que precisavam ser lembradas. – Galadriel assentiu. – Poderia ao menos me contar como nos conhecemos?

Dessa vez, o que recebeu foi uma negação.

– Isso não... ainda não.

Certo. Certo. Ela descobriria, não sabia exatamente como, mas iria descobrir uma hora.

Pelo menos esperava que sim.

– Neste caso, me conte tudo que pode. – falou, com firmeza e se preparando para o que estava por vir.

– Lyn, você é uma feérica com uma vida ainda mais conturbada do que seria normal para qualquer um de sua espécie... especialmente pelo seu trágico envolvimento com criaturas que nem sequer pertecem às suas terras feéricas. Os orcs.

– Dessa parte eu sei muito bem, obrigada. – resmungou, cruzando os braços.

– E dentre todos esses encontros desagradáveis, um particular desencadeou tudo isso, foi seu início... e certamente será o fim. – continuou ela. – Quando, sem explicações, toda a vida que pertencia as Montanhas Congeladas sumiu, e os Eldryanos foram dados como massacrados por forças desconhecidas quando vários cadáveres foram encontrados em meio às neves. Aquele foi o fim do misterioso povo capaz de manipular sombras... ou pelo menos era isso que acreditava o resto do mundo, não é verdade?

Galadriel sabia... sabia demais. 

Lyn tinha imaginado que talvez tivesse contado vários detalhes sobre sua vida, mas sobre o destino do seu povo... isso só tinha revelado uma única vez: à Tegan. O que tinha levado-a para revelar um segredo tão profundamente cavado em sua alma?

Sua terra... seu lar. Que agora já não existia.

– Sim, era isso que acreditava toda Rinvyr. Ou pelo menos aqueles que sabiam da nossa existência. – complementou, sem se importar em entregar as próximas palavras, pois aparentemente Galadriel tinha completa noção de tudo sobre sua vida... até mesmo daquilo que nem ela se lembrava.

– Então como uma feérica tão jovem pode ser a última de um povo que sumiu há tanto tempo? – era uma pergunta retórica, Lyn sabia disso, mas respondeu mesmo assim.

– Por que ele não desapareceu há tantos anos como se imagina. – explicou, com a voz embargada. – Antes mesmo que eu nascesse, a ameaça de estranhas criaturas surgiu sobre nossas montanhas, causaram um massacre... eles derrotaram a horda de orcs no final, mas os Eldryanos sabiam que tinham mais deles e que viriam para terminar o serviço em algum momento. Os que restaram do meu povo foram obrigados a se retirar e abandonar os corpos dos amigos e parentes como prova de que tinham sido dizimados, viajaram durante meses até chegar em terras bem distantes das quais nem sequer lembro o nome... belíssimas, com florestas verdes e rios cristalinos. Uma terra sem civilizações além do reino animal, e lá meu povo se estabeleceu. Numa caverna que ficava dentro de uma montanha, eles aproveitaram a escuridão do lugar e manipularam as sombras de forma que criassem uma barreira ilusória, e qualquer um que se aproximasse não veria nada além de uma caverna vazia e escura, onde habitavam ursos. Não que alguém chegaria, nenhum povo nunca chegou perto dali. Organizaram o pequeno e humilde vilarejo e sobreviveram a dessa forma, se adaptando ao clima, a fauna e flora... foi nesse contexto que eu nasci. Nem sequer cheguei a conhecer minha verdadeira terra nas montanhas congeladas, mas era plenamente feliz naquela floresta esverdeada que parecia sair de um sonho... mas, como sempre, acabou. Foi a primeira vez que eu vi os orcs, ainda era uma criança quando eles dominaram o resto do meu povo. Destruíram com chamas. Mataram o povo das neves com o fogo e ferro de feixo, não deixaram ninguém, mas eu consegui escapar. Corri o mais longe que pude, não me lembro nem sequer como sobrevivi as noites na floresta antes que chegasse a um vilarejo esquisito que habitava nas margens da floresta.

– E, durante todo esse tempo,  a única finalidade deles era alcançar você. – complementou Galadriel.

Lyn piscou várias vezes tentando evitar as gotículas de lágrimas que apareciam do canto dos seus olhos.

Sua culpa.

– Legolas me disse recentemente... mas, essa parte simplesmente não faz sentido! Quando tentaram eliminar os eldryanos pela primeira vez, ainda sobre as montanhas, eu nem tinha nascido! Então por quê?!

– Simples, criança. – respondeu ela. – Por que sabiam que você nasceria, e queriam evitar. Mas não sabiam quem era sua mãe e preferiam não correr o risco, então concluíram que seria mais prático dessa forma.

Sua culpa. 

A voz que dizia isso dominava em seus ouvidos cada vez mais aguda e perturbadora, mas não era de Galadriel. Era interior... algo dentro dela.

– O que eles querem? – a voz saiu um pouco mais que um sussurro, e agradeceu os sentidos apurados da mulher para que não precisasse repetir a pergunta.

– Dado o ambiente que você foi criada,  dentro de uma cidade cercada por sombras... Era fácil concluir que era uma Eldryana comum. Uma manipuladora de sombras, mas você não é, Lyn. – imediatamente, a feérica franziu o cenho e abriu a boca para protestar. – Você nunca percebeu a diferença porque naquelas circunstâncias seu poder poderia ser facilmente confundido com os demais, até mesmo porque não o usavam com frequência. Eram um povo pacífico e não tinham ninguém com quem guerrear, além dos orcs, claro. Você não é uma manipuladora de sombras como qualquer eldyrano... é uma conjuradora de trevas. 

Galadriel esperou que ela dissesse alguma coisa, mas as palavras morreram em sua boca, e ao perceber que a garota não falaria nada, a elfa prosseguiu.

– Você era criança, e o trauma sempre deixou suas memórias confusas a respeito daquilo, mas os manipuladores de sombras são capazes apenas de se utilizar da escuridão a sua volta para se beneficiar de alguma forma. Você não precisa de sombras ao seu redor... simplesmente porque elas não são seu poder, e sim a pura escuridão. Essa a qual você carregou consigo durante tantos anos, basta prestar atenção: sempre foi capaz de criá-las por vontade própria, e seu poder não se limitava apenas em controlar a escuridão, mas usar as trevas para drenar a vida que existe em qualquer ser. Eles não eram como você, Lyn. Esse poder... se você soubesse, de fato, controlá-lo e se fosse bem treinado... é isso que os orcs temem. Ou melhor, o líder deles.

– Quem é o líder? – dessa vez, a voz saiu ainda mais baixa. Seca e cansada.

Ela estava cansada. 

Sua culpa.

A voz não saía da sua cabeça, não importava o quanto insistia em expulsá-a.

– Sauron, o Senhor do Escuro. – respondeu, concentrando seu olhar completamente sobre ela, que engoliu seco. – Não sabemos como descobriu da sua existência, mas não é muito difícil adivinhar suas finalidades já que não planeja matá-la...

Já se sentindo tonta e com o coração e alma doloridos, ela assentiu.

– Quer me usar. – murmurou. – Seja lá qual for seu objetivo.

– Lyn... ele a destruiria. De verdade, na alma... iria corrompê-la. Aprenderia a lidar com seus poderes para fazer coisas terríveis. Isso não podemos permitir.

Iria quebrá-la completamente. Ou pelo menos o que tinha sobrado de si.

– Deve haver alguma razão... eu não posso ter nascido assim por acaso se ele já esperava meu nascimento. – complementou. – Ele tentou evitar meu nascimento eliminando meu povo, mas agora que não conseguiu.... planeja me controlar.

– Isso ainda é desconhecido. – falou Galadriel. – Uma das respostas que terá que encontrar em sua jornada é sua origem.

– Eu não sei quem é esse Sauron... mas eu sei de uma coisa, a qual repetirei para quantos for necessário: não me curvo para ninguém. Nunca. Nem para Thranduil, nem ele. E nem esse poder, essas trevas... elas pertencem a mim. E não o contrário. – falou, encarando as mãos e cerrando o punho em seguida. 

Não se permitiria ser domada. Nunca foi, e não seria agora.

Nunca.

– Mas... eu prometi que ficaria aqui por algum tempo. – continuou, lembrando-se de Legolas. – Pelo menos até me recuperar. Não importa o quão forte é este poder que tenho... estou privada dele agora, e preciso estar pronta para seja lá o que acontecerá a partir daqui. Afinal, que jornada exatamente espera que eu faça?

– Não espero e nem quero que saia de Mirkwood agora. – respondeu, para o alívio da feérica. – Ficarei aqui com você até que se recupere, depois desejo que retorne comigo e um amigo para o reino dele, Rivendell. Lá irei ajudá-la a aprimorar suas habilidades da melhor maneira que conseguirmos, imagino que isso possa ser essencial para o que está por vir.

Lyn franziu o cenho, soltando um suspiro cortado.

– Agradeço sua boa vontade, mas não me ouviu? Estou sem meus poderes agora! Então como poderia me ajudar se nem sequer posso usá-los?

– Seus poderes não sumiram, Lyn. – explicou Galadriel, tomando ainda mais a atenção da feérica para si. – Seus poderes féericos... é comum que não possa usá-los em um lugar onde a magia feérica não exista. Então até que retorne para Rinvyr não poderá utilizá-los normalmente, a menos que aprenda a adaptá-los para nossa terra.

– Quer dizer que não perdi minhas habilidades... apenas preciso aprender a controlá-las aqui, num lugar onde a magia feérica não existe? – Galadriel assentiu. 

– No entanto, sua capacidade de conjurar trevas não está relacionada ao fato de ser feérica ou não. É uma habilidade singular.

Desta vez, Lyn imaginou saber a resposta.

– Nunca fui capaz de manipular as sombras... ou melhor, conjurar trevas quando bem quiser. Só conseguia fazê-lo em situações extremas de perigo... mas ainda sim, não consigo entender! Já passei por duas situações de perigo aqui, quando estava na floresta escura, e ainda sim não voltei a sentir meu poder de volta. Você sabe a explicação disso também? – questionou, ansiosa.

Para sua felicidade (temporária, pelo menos), Galadriel assentiu.

– Há veneno em seu sangue... um veneno por si só tão poderoso que apenas meio frasco seria capaz de matar dezenas de homens. Mas tem muito dele dentro do seu sangue, que graças aos cuidados da curandeira, estão diminuindo cada vez mais. Isso está impedindo sua regeneração natural de acontecer de maneira fluída, então pense bem, se usasse sua conjuração agora...

– Eu me esgotaria. – complementou, se sentindo idiota por nunca ter percebido essa parte antes. Fazia todo sentido. – E acabaria morrendo. De fato, as trevas sempre sugavam muito da minha energia, então se eu tentasse usá-las agora, com meu corpo envenenado, isso acabaria me matando por exaustão. Elas... se prenderam dentro de mim. – ao final da conclusão,  sua voz já era um fio.

Muita informação... muitas explicações e perguntas de uma vez. 

E, pela primeira vez, a resposta não foi algo que a deixou triste. Afinal, não tinha perdido seus poderes, precisava apenas se recuperar completamente e aprender a usá-los em benefício próprio e total. 

Quando seus olhos se voltaram para Galadriel, eles estavam quase em chamas vivas.

– Então você quer que eu derrote esse Sauron?

– Eu não seria capaz de exigir algo assim de você, criança. – respondeu ela. – Derrotar Sauron não é algo para uma única pessoa... mas precisamos encontrar uma maneira de selar esse poder sombrio para sempre. Dessa forma, poderemos evitar qualquer influência que ele pode exercer... e enfim você terá paz. Ficará livre dessa perseguição.

Paz... o sonho que sempre almejou e que parecia impossível.

Paz.

– E tem alguma ideia de como fazer isso?

– Depois de aprender a controlar melhor esse poder, imagino que o próximo passo seja encontrar suas origens para dar um final nele.

As Montanhas Eldryanas.

– Eu irei com você. – respondeu, por fim. – Irei para... Rivendell, aprenderei a usar meus poderes novamente, depois partirei em busca dessas origens e selarei essa maldição para sempre. Sauron e ninguém mais ouvirá meu nome. – concluiu, tentando manter a voz firme enquanto alguma lágrimas silenciosas enfim caíram sobre a face. – Terei paz finalmente.

“Você irá conseguir o final que sempre sonhou, princesa das trevas.”

No entanto, a feérica sacudiu a cabeça.

– Não... não me chame assim. – respondeu, em voz alta. Então desviou sua atenção para as estrelas na janela. – Não sou princesa nenhuma. Eu prefiro Senhora das Trevas, pois finalmente encontrei algo que me pertence e que ninguém além de mim pode domar. Meu próprio poder, mesmo que eles sejam trevas, escuridão e morte.

“Esse poder é seu, Asas de Gelo. Mas não se esqueça que deve dominá-lo, e não abraçá-lo. Lembre-se: você não se curva para ninguém. Nem para sua própria escuridão.”

 

Ela assentiu, enxugando as lágrimas do rosto.

– Obrigada, Galadriel... obrigada por essas respostas. – agradeceu. – Me sinto menos vazia agora, estou aos poucos me preenchendo. Mas peço que me deixe sozinha, preciso pensar sobre tudo isso... é muita coisa de uma só vez.

A dama branca assentiu, mas se aproximou da feérica até ficar apenas a centímetros de diferença, fazendo-a inclinar a cabeça levemente em questionamento. Delicadamente, a elfa pousou um dedo sobre a testa da feérica e pressionou. De repente, um choque elétrico ultrapassou por todo seu corpo, fazendo a se afastar imediatamente e colocar as próprias mãos sobre a testa.

– O que você fez?! – questionou, assustada.

– Não se preocupe, não a machuquei. Já disse que não o faria. – respondeu Galadriel.

“Essa é a última informação que precisava devolver a você.”

– Do que está falando agora? 

– Saberá na hora certa. – disse a elfa, com um sorriso. Então ofereceu a feérica um curto aceno em despedida. – Tenha uma boa noite, Lyn Asas de Gelo. 

“Estarei com você, não precisa ter medo.”

Então Galadriel saiu, deixando-a sozinha.

Nos primeiros segundos, Lyn ficou paralisada. Apenas olhando para a porta sem nenhum pensamento além de um vazio infinito... Então tudo que ouvira recaiu de uma vez sobre si e ela caiu de joelhos.

E chorou.

Chorou durante a noite inteira no chão, sem se importar se deveria se recuperar e descansar. Precisava apenas desabafar de alguma forma... Então continuou chorando até parecer que as lágrimas faltariam.

~~~~~~~~}•●•{~~~~~~~~

– Mas o que diabos está fazendo aí?! – a voz de Miriel ecoou na sua mente fazendo ela se sobressaltar em um pulo, e acordar recebendo uma bela pancada na cabeça com a lateral da mesa.

Com dificuldade no início, Lyn estendeu o olhar para a curandeira que se encontrava de olhos arregalados na sua frente e levou a mão até a cabeça, massageando o lugar afetado com um gemido de dor.

– Bom dia para você também... – resmungou. – Pensei que tivesse dito que iria aparecer ainda amanhã.

Com um suspiro, a elfa estendeu a mão para que ela se levantasse, e assim o fez. Então logo localizou Nymelin na extremidade do salão recolhendo alguns frascos e faixas.

– Você estava adormecida e parecia tão cansada que preferimos deixar para examiná-la hoje. – explicou a jovem curandeira. – Não me diga que teve um sono tão pesado e conturbado que caiu da cama e não acordou mesmo assim?

Mesmo do outro lado, ouviu-se a risada de Nymelin.

– Ah, tenho certeza que não. Lyn parece mais o tipo de pessoa que se sente ameaçada pelo simples farfalhar das árvores. – comentou a Alta Curandeira, se aproximando.

A feérica apenas deu de ombros enquanto se sentava na cama.

– Ontem particularmente o chão me pareceu bem mais convidativo que esse colchão.

– Se quiser, podemos mandar tirá-lo e levar a um lugar em que se sentirá mais útil. – falou Nymelin, entregando as porções para sua aprendiz e se preparando para o exame diário. 

– Como eu disse: ontem particularmente. – respondeu. – Por favor, não me separe do lugar que mais amo nesse castelo! – dramatizou, enquanto era examinada pela médica. 

– Imaginei que esse lugar fosse a biblioteca. – retrucou Miriel.

Lyn estalou a língua.

– Você definitivamente não está me ajudando. 

– Lyn. – chamou a Alta Curandeira. – Por que fez isso? – perguntou, agora séria.

A feérica suspirou, se adaptando ao novo clima tenso que começou a se formar ali.

– Sabe muito bem porque eu o fiz. Motivos realmente não faltam, não é?

– Ainda sim, considerei que seria mais esperta para esperar que estivesse curada antes de tentar cometer um risco tão grande, principalmente fugir para a Floresta das Trevas.

A garota se remexeu sutilmente, desconfortável.

– Ouvi a conversa que teve com Legolas... ou pelo menos uma parte dela. – confessou. – Imaginei que se estavam adiando minha partida, estavam procurando algum motivo para me incriminar.

Miriel franziu as sobrancelhas, claramente confusa sobre aquela conversa. Lyn por um segundo tinha se esquecido que a amiga nem sequer sabia sobre sua descoberta.

– Por que achou que eu tentaria de alguma forma prejudicá-la quanto fui justamente graças a mim que o príncipe acreditou em suas palavras sobre sua origem? – questionou a velha elfa, um pouco irritada.

Ela encolheu os ombros minuciosamente.

– Você não. – explicou. – Mas não poderia fazer nada se Legolas ordenasse. Ele é seu príncipe, e seguiria suas ordens.

– Acha mesmo que ele deseja machucá-la? – dessa vez quem perguntou foi Miriel, e a feérica percebeu um tanto de indignação na sua voz.

– Não mais. Porém, o que eu ouvi soou bastante ameaçador naquela situação, e não nos conhecíamos há tanto tempo... não pode exigir que eu confiasse tão facilmente em vocês assim. Não conseguiria sem se quisesse.

Para seu alívio, Nymelin pareceu compreender sua hesitação e acenou.

Para sua sorte, o veneno estava consideravelmente mais fraco no seu organismo e não demoraria muito a sumir. E quando isso acontecesse, partiria para Rivendell com Galadriel e voltaria a usar seus poderes.

Nunca mais veria Legolas, ou Miriel e nem mesmo Nymelin. De certa forma, aquilo doeu em seu coração.

Algum tempo depois, o almoço chegou e a Alta Curandeira partiu ocupada com os próprios afazeres. 

– Tem certeza que consegue chegar lá sozinha? – perguntou a jovem curandeira, arrumando a bagunça que ambas fizeram. – Não acha melhor esperar e quando minhas aulas acabarem, eu acompanhá-la?

– Não se preocupe, Miriel. Não estou tão fraca e já disse que não pretendo fugir.

– Por que insiste tanto em ir se desculpar com aqueles soldados? Não imagino que isso seria algum tipo de prioridade sua...

A feérica apenas deu de ombros.

– Se vou mesmo ficar aqui por mais um tempo, melhor tentar me ocupar de alguma maneira e seria bom não fazer mais inimigos que já tenho. Ter o próprio rei contra mim já é o suficiente. – explicou, se preparando para sair. – Vejo você hoje à noite?

– Sim, hoje à noite... – respondeu, suspirando.

Então a feérica saiu do local, voltando a caminhar pelos enormes e belos corredores do castelo. Pelo menos não precisava mais sair acompanhada, pois aparentemente aqueles soldados tinham sido colocados por Legolas e como ela já não pretendia fugir, não seriam necessários.

Pelo menos até o rei saber que estava andando pelo seu território completamente solta.

A Ala Médica onde aqueles soldado estavam não era tão longe, então seria rápido. Sua cabeça ainda estava doendo e latejando pela noite mal dormida e pelo excesso de lágrimas. A feérica ainda estava perdida e confusa, mas seus pensamentos estavam mais organizados agora.

Assim que se sentisse um pouco mais pronta, procuraria Galadriel novamente. De alguma forma, sentia que podia confiar nela plenamente.

Estava caminhando calmamente quando o som de vozes familiares atraiu sua atenção, fazendo-a desviar o olhar e se esgueirou com cuidado naquela direção específica. Mais alguns passos e pôde visualizar a imagem completamente: Legolas estava com a elfa que conhecera no dia anterior, estavam conversando no que parecia ser um passeio pelos jardins. Pareciam se divertir, e aquilo fez seu coração se apertar. Ele parecia feliz.

Mas sentiu algo ainda mais estranho dentro de si quando observou mais atentamente o príncipe. Não conseguiu entender de imediato o que era aquilo... mas, quando entendeu, caiu sobre ela como uma chuva de meteoros e todo o ar sumiu de seus pulmões.

A tristeza e estranha amargura daquela cena deu lugar a um desespero absoluto.

Não. Não. Não.

Se continuasse ali, não demoraria muito para que eles a vissem. Mas não conseguia se mover, estava completamente paralisada e a respiração se acelerava ainda mais cada segundo.

E, como se respondesse ao seu grito interior, seus pés voltaram para funcionar e ela correu.

Essa é a última informação que precisava devolver a você.”  Galadriel tinha dito isso ontem. Era sobre isso.

Lágrimas já caíam novamente sobre seu rosto, cada vez mais intensas em meio aos soluços e passos que nem sequer sabia para onde estava indo.

“Venha até mim, Lyn. Venha"

Dessa vez não era coisa da sua cabeça, a voz de Galadriel ressurgiu e parecia chamá-la para uma direção específica... ela apenas seguiu sua intuição que começou a guiar seus passos.

“Venha, eu estou aqui.”

Em um único movimento brusco, a feérica abriu a porta de um salão qualquer que aparentemente era um quarto, mas isso não importava muito naquele momento.

Desespero percorria seu corpo. Medo. Puro medo e terror.

Ainda arfando, a feérica fechou a porta atrás de si e viu a bela elfa que parecia estar esperando-a ali, se virou calmamente para ela e ofereceu um sorriso de consolo.

DESFAÇA ISSO AGORA! – gritou. – Agora, por favor... – enquanto as primeiras palavras saíram como uma ordem, as últimas foram mais uma súplica em meio às lágrimas.

– O que você descobriu, Senhora das Trevas? – era uma pergunta retórica.

– Legolas é meu parceiro. – a voz pareceu não sair dela, mas eram suas palavras.

Galadriel abriu seus olhos e a fez enxergar a verdade... o príncipe de Mirkwood era seu parceiro.

Seu parceiro.


Notas Finais


Quem acertou, levanta a mão!!🤭🙈🙋‍♀️🙋‍♀️
Espero que tenham gostado, até o próximo capítulo!!! Beijoos😘❤❤


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