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História Memórias de um príncipe - Capítulo 5


Escrita por: e Orniyoon


Capítulo 5 - As dores e as memórias de um príncipe


Já faz semanas que Seungmin está desconfiado do conselheiro Kang.

E mesmo que o homem tenha tentado lhe confortar com palavras de consolo, Seungmin está sendo mais rápido e sagaz.

É tarde da noite quando Kang desce do cavalo. As botas de couro pesado fazem um barulho alto ao bater de encontro com varanda de pedras da casa onde chega. Amarra o animal a uma árvore próxima e adentra rapidamente o local em ruínas. Os homens de lá o olham curiosos, há tempos Kang não aparece por aquelas bandas. E quando surge assim, repentinamente, é para algum trabalho sujo que ele mesmo não pode fazer.

Pede uma cerveja no balcão ao lado e cospe na lata mais próxima, é um homem sem modos. Com os olhos, busca pela porta já conhecida, onde seu homem de negócios está repousando depois de alguma matança que tenha feito. Bebe o líquido em silêncio e não se assusta quando o velho homem, que o atende, bate em seu ombro e aponta para o canto esquerdo. Calmamente, vê o conhecido monstro sair de seus aposentos e o chamar. Kang caminha lentamente, mas sem antes depositar uma moeda de ouro na bancada.

— Você me deve um favor — dita manso, vendo o outro sentar-se à sua frente na pequena saleta onde entram.

O homem alto e largo sorri maleficamente, mirando Kang com o olho que lhe resta.

— Outro? — debocha ao mesmo tempo em que acende um charuto. — Quantos mais devo-lhe para parar de encher minha paciência? — A risada sai entrecortada com a tosse excessiva.

Kang sorri, conhece bem a criatura e sabe como contorná-la. Muitas foram as vezes onde já precisaram se encontrar.

— Apenas mais um, antes que você também comece a me cobrar. — Coçou a barba rala.

— Quem devo atacar? — Pula toda a cerimônia, indo direto aos finalmente.

— No momento, ninguém! É necessário apenas ficar de olho em um rapaz. Um jovem enxerido que está atrapalhando meus caminhos.

— E o que ele faz? — pergunta sem muito interesse, já que não precisa estrinchar ninguém, seu verdadeiro passatempo.

— Já sabe do príncipe? — Kang questiona, não sabendo dos conhecimentos do homem sobre os acontecimentos recentes.

O caolho gargalha abertamente, batendo na mesa de madeira velha.  

— Fiquei sabendo que o moleque fugiu de casa, nada de novo para mim. Mas já que você está aqui, deve ter algum dedo seu no meio de tudo. Conheço-lhe bem.

— Minhas intenções eram boas com o menino. — Kang sorri de soslaio. — Eu faria o experimentar sangue fresco e depois, quem sabe, ele tomaria gosto pela coisa e se tornaria um de nós. — Os dois homens gargalharam falsamente.

— O fedelho é da realeza, criado como um coelho de estimação, cheio de regalias, você é muito tolo em pensar assim, Kang. E o que tem esse outro rapaz? — Ajeita-se na cadeira.

— É o criado pessoal do garoto, está metendo o nariz onde não deve. Preciso saber o que anda aprontando e o porquê me segue.

— Mark... — chama-o pelo primeiro nome. — Não lhe reconheço mais, está sendo ingênuo demais. Primeiro, chega me dizendo que não precisarei matar ninguém, e agora, me diz que não sabe porque o criado pessoal do príncipe está lhe vigiando? Seja inteligente, homem! — Atira as mãos ao ar, vendo a cara de Kang o examinar. — Ele desconfia de você!

— Estou tão atrelado às buscas e confusões que não me atrevi a pensar dessa maneira. — Kang levantou, olhando através da pequena janela, escorando-se na parede amadeirada. — Em duas semanas chegarão o rei e a rainha, e o garoto ainda não está de volta.

— Sabe, meu velho amigo, nem sei se seria uma boa ideia, mas pense.... De repente, esse rapaz será de mais préstimo do que imaginas. Não seja tolo, use-o.

— Como? — Kang se vira rapidamente, com curiosidade no olhar.

— Ao invés de eu cuidar o garoto para não se meter em seus negócios, posso mandar vigiá-lo para saber por onde está indo e o que está escondendo de você.

— Choi.... — Kang pensou um pouco. — Aquele criadinho de merda deve estar à procura do garoto também. — O conselheiro caminha pela pequena sala.

— Pois.... Deve saber muito mais que você. — Choi acende outro charuto e ri debochado. 

— Faça isso, pois eu já sei o que fazer em seguida. Esse moleque enxerido terá o que merece.

— Dessa vez não veremos sangue tão cedo — murmurou em uma falsa tristeza Choi, o caolho.

— Você não perde por esperar, Haebin. Vamos matar muitos coelhos de uma vez só.

[...]

— Feche os olhos, eu lhe guio.

— Não me deixe cair, você sabe que não consigo andar direito.

— Claro, claro. Você está seguro, Lino. Fique tranquilo. Estamos chegando.

Adentrando a floresta mais densa de todo o reino, que era tão vasta quanto o próprio castelo e sua redoma, existia um enorme rio, que desembocava nas plantações de arroz. Jisung descobriu por si só a parte mais bela de toda aquela extensão de terra verde. Nunca havia visto alguém além de si próprio ir até aquele local, e o loiro tratava aquele pequeno pedaço de céu da mesma forma que seu caderno de plantas: um segredo apenas seu.

— Cuidado, dê um pulinho, agora.

— Jisung, estou com medo de cair.

— Eu estou aqui, Minho. Pode ir.

— Tudo bem. — Minho apoiou-se nos ombros do mais velho e se impulsionou para frente, sentindo o chão abaixo de si afofar, como um enorme travesseiro de penas. — O que é isso? — Tentou abrir os olhos, mas as mãos de Jisung eram rápidas e logo o cobriram novamente.

— É surpresa, já falei. — Sentou Minho em um rochedo e se postou ao seu lado. Tirando as mãos do rosto do príncipe, Jisung ditou:

— Pode abrir.

E o cenário que Minho presenciou não poderia ser mais belo e especial do que já havia visto em sua curta vida. Ele estava em frente a um riacho, que subia como uma curta cachoeira para dentro da floresta. O local que rodeava toda aquela água cristalina era mais aberto, porém ainda continha uma boa quantidade de árvores grossas e fechadas.

Minho olhou para tudo e percebeu que as plantas que bateram em seu rosto ao adentrar aquele ambiente eram longas barbas de velho, que caiam dos salgueiros majestosos que rodeavam o lago. O orvalho na vegetação brilhava como cristal com a luz da lua sendo refletida, o cheiro das flores balançando com o vento manso completava a magnífica obra de arte. As árvores tinham mais abertura em suas copas, assim Minho pôde ver o céu azul e estrelado que se fazia presente. Era tão vivo e belo que sentia como se pudesse tocá-lo, mas temia, pois assim como uma pintura fresca, sentia que se seus dedos tocassem o céu, poderiam borrá-lo e desfazer alguma estrela.

Jisung assistia as reações de Minho com brilho nos olhos. Era lindo vê-lo boquiaberto com seu pequeno segredo. Jisung tinha muito orgulho do lugar onde havia descoberto sozinho há muitos anos. Ele tinha plena certeza que o príncipe estava maravilhado com tudo, mas mesmo assim, resolveu perguntar:

— Então, você gostou? — Abraçou os joelhos a frente do corpo, apoiando a cabeça nos mesmos.

— Você ainda pergunta? — Minho franziu o cenho em dúvida. — É claro que sim! Isso aqui é magnífico.

— Tinha sete anos quando vim aqui pela primeira vez — começou, orgulhoso. — Mas sabe? A melhor parte ainda não começou. — Minho o olhou curioso.

— Isso tudo é a melhor parte, Jisung! — Minho mirou para o loiro, que continuava a olhar para frente, com um sorriso no rosto.

— Olhe, olhe lá! — Jisung bateu de leve no ombro do príncipe, que prontamente virou na mesma direção em que o outro olhava.

Lentamente, dezenas, não... Centenas.... Não, não... Milhares! Eram milhares de pontinhos verdes brilhantes, que estavam, lentamente, saindo do centro dos arbustos, por cima da parte mais alta do riacho, chegando próximo aos dois amigos, que sentados, estavam maravilhados com tamanha harmonia de cores.

— Aquilo são…

— Vagalumes! — Jisung completou. — Fique quietinho e eles virão aqui — completou, animado.

Minho fez o máximo para não se mover, aproximou-se de Jisung, deitando a cabeça em seu ombro e o loiro estremeceu com o contato repentino, mas sorriu logo em seguida, assistindo o bando de luzes cintilantes voando em suas direções.

— O que eles estão fazendo, Sungie? — Minho sussurrou, tinha medo de espantar os pequenos insetos.

— Eu não sei — sussurrou de volta —, mas gosto de dizer que estão visitando o lago, pois ele é muito solitário.

— Solitário? Um lago? Como assim? — Minho ainda mantinha o tom de voz baixo.

— O que você vê quando olha para este céu?

Minho se pôs a olhar para cima, avistando vastos astros brilhantes.

— Um montão de estrelas cintilantes.

— Pois então, o lago também as vê. — Jisung sorriu para o menino.

— Ainda não entendi, Sungie. — Minho coçou a cabeça. — O que você quer dizer?

— Sabe, Lino, eu creio que o lago sente inveja dos céus. Ele é belo e recheado de pontinhos branquinhos, que cintilam durante a noite toda. Estas estrelas mal refletem na água, que tanto corre até os campos. Então, os vagalumes vêm a noite para que o lago não fique triste e possa ter seus próprios pontinhos cintilantes em segredo. Veja.... Parece um céu estrelado sobre as águas!

E realmente parecia. Ao passo que os insetos voavam sobre o ar, Minho pode ver os pontinhos verdes sobre a água, agora mais calma, do rio. Tudo parecia um teatro ensaiado, como uma peça do bobo da corte, onde todos sabiam para onde deveria ir e o que deveria fazer. Os vagalumes se espalharam por toda a extensão daquelas águas negras, iluminando-se de tal forma que Minho sentia vontade de chorar com tamanha beleza.

Os insetinhos começaram a se dispersar, indo em direções opostas, e era tantos que parecia uma grande redoma de luzes. Minho apertou o braço de Jisung, que passou o seu livre por cima dos ombros do mais novo, puxando-o para mais perto. O príncipe não sabia dizer se tinha medo de afastá-los ou medo de que eles chegassem perto de si, mas sentia-se protegido com Jisung ao seu lado, que sentia o peito doer de um amor que ele não poderia deixar voar livre como aqueles vagalumes.

— Tudo bem, eles não fazem nada de mal, apenas olhe para cima quando eles passarem — Jisung sussurrou contra os cabelos escuros do outro, que balançou vagarosamente a cabeça em afirmação.

Minho virou a cabeça para cima, e não sabia se olhava para aquele tapete de luzes que passava bem próximo aos dois, iluminando tudo pelo caminho, ou para os olhos brilhantes de Jisung, que curiosos, e transbordando uma felicidade imensa, continuavam a observar maravilhados a dança da natureza. Minho não conseguia achar palavras que pudessem descrever o que estava sentindo no momento, eram tantas emoções misturadas que ele preferiu ficar quietinho, abraçado ao mais velho, com um sorriso no rosto.

Jisung ergueu a mão ao alto, em direção aos insetos que continuavam a voar pelas suas cabeças, e Minho tremeu. Atravessando o manto de cores, Jisung voltou com o dedo, e um amiguinho brilhoso colado a ele.

— Eles não mordem, vamos, coloque sua mão ali.

— Acho lindo no seu dedo, mas tenho medo — Minho confessou.

— Me dê a mão, Lino — Jisung disse sorrindo.

Com relutância e de olhos fechados, Minho estendeu a mão solta, sentindo a quentura de Jisung o segurar e levar ao alto. O toque dos insetos era leve e fazia cocegas, mas Minho não se atrevia a abrir os olhos. Logo começou a sentir as minúsculas patinhas sobre sua pele e a voz de Jisung:

— Abra os olhos. — Doce como o beijo quente de uma brisa suave, pensou o príncipe.

E Minho abriu. Havia, pelo menos, cinco ou seis insetinhos em sua mão, caminhando como se nada estivesse acontecendo, como se fossem acostumados a fazerem aquilo. Os olhinhos de Minho brilhavam na direção de cada um, curiosos com a luz esverdeada que vinha de suas partes traseiras.

— Eu disse que a melhor parte não havia chegado ainda.

— Isso é tão... — Minho perdeu-se em palavras. — Nossa, eu já gastei todas as minhas palavras para descrever tudo o que você me mostra....

— Tudo bem. — Jisung sorriu. — Eu apenas imaginei que não havia isso no castelo. — Sorriu tristonho. — Então achei melhor lhe mostrar. Aqui é o meu ponto de paz!

— Ah, e não tem mesmo! Obrigado por compartilhar isso comigo, Jisung. Se é importante para você, também é para mim. — Minho brincava com os bichinhos em sua mão.

— Não quero que se esqueça de mim quando voltar para casa — Jisung confessou baixinho, sentia os olhos marejados, mas não queria olhar na direção do moreno para que não chorasse. Enquanto isso, tentava se acalmar com o vento morno que traria a chuva mais tarde.

— Esquecer? — Minho ditou incrédulo. — Você só pode estar brincando! Jisung, eu nunca vou esquecer de tudo o que eu vi por aqui.... De tudo que eu vivi! E muito menos de você! Você é a parte mais importante do processo. — Minho falava eufórico. 

— Agradeço por isso. — Jisung ainda não olhava para o príncipe, que engoliu em seco.

Minho sentia que Jisung andava estranho nos últimos dias, cabisbaixo, forçando sorrisos, mostrando-lhe coisas bonitas, evitando conversas. Não sabia como ajudar, mas gostaria de entender o que se passava naquela cabecinha que nunca parava de pensar. E se, por algum acaso do destino, era o mesmo que atormentava os seus pensamentos. Com receio, perguntou:

— Está tudo bem?

Todavia, aquele era um questionamento que ele não deveria fazer. Porque Jisung não estava bem, porque as coisas não estavam bem, porque seu coração não estava bem, seus sentimentos, suas vontades, sua cabeça.... Nada estava bem!

Tudo estava em confusão, tudo se fundia em uma coisa só, um arco íris que de tanto misturar-se, acabava em cor alguma. E depois de tempos tentando entender o porquê de não conseguir se afeiçoar às meninas do vilarejo, estava tendo que ver suas respostas cruéis estampadas na cara bonita de um príncipe! Um príncipe! Menino, garoto, rapaz. Homem! Por que precisava ser tão amaldiçoado? Qual o motivo de tamanha diferença em seu coração? Por que Jisung? Por que com Minho? Por que um príncipe? Por que um homem?

E quando recobrou os sentidos, já estava chorando, Minho já chegava próximo a si e o abraçava desengonçado, sem saber muito bem o que fazer, falando palavras bonitas, aninhando Jisung em seu peito e acariciando os cabelos maltratados. Jisung não era nada perto das roupas caras e dos costumes ricos de Minho. Contudo ele sabia e sentia que o garoto era diferente, porém como poderia provar, se abrir seu coração era errado de tantas formas? Se haviam lhe ensinado que aquilo era errado! Eram jovens demais para tudo o que o mundo lhes proporcionava.

Jisung sabia que naquele cenário esplendido e romântico, com aquele choro repentino e angustiante, de um coração que chora por amor, era a hora certa de contar tudo, e tentar fazer Minho entender o que estava se passando; e que nada estava bem, e que ele não queria que Minho fosse embora, que ficasse para sempre e que fizesse de seu coração seu ninho, para pousar e morar em seu amor.

Mas Jisung tinha todo o peso do mundo para carregar: a família, os vizinhos, o povoado, a reputação do príncipe, que com certeza não iria se sujar por um plebeu. Então, foi por tudo isso e mais um pouco, que Jisung preferiu secar as lágrimas, morrer de amores e esperar que o tempo curasse seu coração.

— Estou... apenas cansado. Preciso de um tempo para entender algumas coisas — Jisung ditou entrelinhas, mas sentiu que o outro pareceu entender.

Pois o que Jisung não poderia prever e nem tinha controle sobre era de que Minho também se sentia triste e confuso longe dele, como se algo estivesse faltando. E ver Jisung chorando foi mais doloroso do que quando se machucou na floresta. Minho também tinha perguntas a fazer e nenhuma resposta.

— Tudo bem, não se preocupe. As coisas estão acontecendo rápidas demais. — O príncipe acariciou os cabelos do outro.

Em meio ao mato, pode-se ouvir um barulho que chamou a atenção de ambos. Jisung desconfiou, pois pareciam passos. E mesmo com tal acontecimento, guardou para si as palavras do outro: “As coisas estão acontecendo rápidas demais”. Contudo, em relação ao chiado da floresta, não conseguia acreditar que havia um invasor, visto que ninguém ia naquela parte. Como medo por ser tarde e estarem indefesos, levantou-se rapidamente e puxou Minho, precisava sair dali.

— Vamos embora, é melhor irmos para casa.

— Certo. — Minho apoiou-se novamente nos ombros do outro.

— Desculpe por tudo — Jisung disse, enquanto passavam pelos salgueiros e suas enormes barbas.

Em um rápido movimento, o príncipe deu um beijo casto na bochecha do outro, que o deixou vermelho (e ainda mais triste de amor).

— Não se preocupe, estava tudo lindo! — Minho sorriu para o loiro, que exibiu um levantar de lábios contente.

Desaparecendo em meio a escuridão, os dois amigos deixaram para trás o céu particular do lago, a luz da lua cintilante, os sentimentos escondidos e enterrados na grama fofa e um dos capatazes de Kang, que estava na moita, observando de longe a quase confissão de amor de Jisung.

— Te peguei, cabeça de ouro. 

[...]

Era uma linda manhã de sol, depois de uma longa noite de tempestade, no castelo mais cobiçado de todos os reinos. Os fornos já estavam acesos, assando fornadas e fornadas de biscoitos e pães. Os cozinheiros já se preparam para matar mais de vinte frangos para servir no almoço e o plebeu que cuidava do jardim havia aparado todas as ervas daninhas e pintado as grades de ferro, que protegem o canteiro de rosas vermelhas da rainha. Os corredores estavam brilhando, era um pecado pisoteá-los, visto que a rua ganhara mais lama do que nunca, por conta da chuva. Mas não era de se preocupar, porque quando o rei colocasse os pés no castelo, o tapete vermelho seria estendido.

O conselheiro Kang estava em nervos, nem ao menos o certo ele havia feito, visto que achou que encontraria o garoto a tempo. Kang deveria escrever uma carta e enviar ao reino vizinho para comunicar aos pais do príncipe de que ele havia sumido. Agora era tarde demais, salvo que os trompetes já estavam sendo tocados e a carruagem dos reis estava a adentrar os muros do castelo.

A demora de tal viagem fora por uma questão de negócios entre os dois reinos: boa parte do reino estava sendo vendida ao reinado vizinho, que ficava distante, porém a mais importante delas, era a apresentação da princesa Siyeon, de quatorze anos, como futura noiva e esposa de Minho, o herdeiro do trono. Era inevitável não negociar casamentos, e mesmo que Minho não soubesse o real motivo da viagem dos pais, já estava prometido a um matrimônio com uma bela jovem de olhos verdes e cabelos pretos.

Enquanto todos os soldados vestiam o vermelho vivo junto ao dourado de suas ombreiras para a recepção da realeza, Seungmin trajava preto. Apesar de criado, como visto anteriormente, era de extrema importância para a família real. E quando Seungmin viu o casal descendo da carruagem, postou-se a chorar. Não aguentava fingir que estava tudo bem enquanto Minho poderia estar morto e atirado em qualquer lugar. Já Kang, aliviava-se com a carta na manga que acabou de receber de um de seus mandados, minutos antes da chegada real.

A primeira face que a rainha buscou foi a de Seungmin, que se derramava compulsivamente. A comemoração do povo estava dividida, alguns cantavam alto e outros observavam calados. E mesmo com toda a algazarra dos trompetes e das palmas, o rapaz adentrou o tapete vermelho indo em direção à rainha, não se importando se iria ser preso ou executado por importunar a chegada da realeza. As pessoas ficaram em silêncio. Os soldados saíram de seus postos para impedir o jovem de continuar, mas a rainha notou que algo não estava bem, e ao não ver sua querida prole, ergueu a mão para que parassem de segurá-lo. Interrompendo toda a cerimônia de caminhar pelo tapete e acenar, a rainha correu em disparada até Seungmin, que fazia o mesmo. O rei sem nada a entender, mandou que parassem com a música.

Em prantos, não aguentando mais o peso de seu corpo cansado, de tantas noites mal dormidas, de tanta preocupação e culpa que ocupavam todo seu ser, atirou-se aos braços da rainha, gritando:

— Perdoe-me! Perdoe-me, vossa alteza. Eu o perdi, eu não cuidei bem dele.... Perdoe-me. Mate-me!

— O que aconteceu, Seungmin? Onde está Minho? — ela perguntou aflita, abraçando o criado trêmulo.

Seungmin olhou no fundo de seus olhos, vendo o mesmo desespero começar a se apossar da bela mulher à sua frente.

— Minho sumiu, rainha Soojin. Ele está desaparecido há três meses.

[...]

Nenhuma pessoa que ocupava as terras do reino dormiu aquela noite.

Kang preparava a sela do cavalo para conferir com Haebin se a informação passada era verdade, visto que o caolho estava em contato tanto com seus próprios mandados quanto os de Kang.

Seungmin precisou visitar um médico da região, pois sua magreza excessiva e seu cansaço haviam o transformado em outra pessoa. Ele era querido demais pela rainha para que apodrecesse em qualquer canto, e a mulher acreditou em suas palavras desde o primeiro minuto, sabendo que Seungmin de nada tinha culpa pelo sumiço do garoto.

Antes de adormecer pelos líquidos que haviam lhe dado, Seungmin contou aos seus superiores sobre tudo o que havia acontecido durante a ausência deles. Desde Minho acordando em seu último dia no castelo, até os movimentos suspeitos do conselheiro Kang, coisa que o rei Lee discordava com força. Ele era rei, sabia muito bem o que fazia, e de repente, em sua vasta ignorância, acreditava que Minho deveria ter se assustado com algo, tentado voltar à casa e se perdido.

O povoado em peso ficou sabendo do sumiço do príncipe, coisa que não havia sido notificada antes, estava tudo por debaixo dos panos. Muitas pessoas foram ao castelo reclamar das ordens que Kang dava ao povo e em como ele era ruim com todos. Muitos desaparecimentos de plebeus também haviam sido notificados: filhos, pais, mães e primos. Pessoas humildes que trabalhavam para o reino haviam, simplesmente, desaparecido e algumas achadas mortas pelos arredores como meros sacos de batatas.

Todavia Kang era tão sortudo que ninguém nunca havia descoberto seu esconderijo de tortura, na qual ficava do outro lado do longo riacho que cortava boa parte do reino. Pelo menos ninguém que ele sabia. A informação passada para Kang lhe fez acender uma chama na mente, já não gostava do criado, agora com ele inativo, iria aproveitar a oportunidade para poder ferrar com sua vida.

Aproximou-se do velho bar mais uma vez, avistando, já na frente, a sua espera, um dos capangas do caolho.

— Ele está lhe esperando, seja breve, temos muitas coisas a se fazer.

Adentrou o local rapidamente, sem cerimônias, abrindo a porta e dando de cada com o caolho lustrando seu olho de vidro.

— Diga-me, é verdade? Acharam-no? — Bateu as mãos na mesa. Um misto de felicidade e medo o corroía.

O velho de barba desgrenhada o olhou calmamente, com um sorriso podre nos lábios enrugados, como se estivesse se gabando de uma boa jogada.

— Mais vivo do que filhote de passarinho fora do ninho.

— Graças aos céus. — Colocou as mãos na cabeça.

— E ao seu criado. — Haebin completou.

— E sobre este verme? O que descobriu?

— Seguiram-no até uma cabana velha, aquela da curandeira. Ele estava mais perto do que nunca, mas não o achou.

— Ele me indiciou ao rei e a rainha. Como criado particular do príncipe, é certo que irão acreditar em suas palavras.

— É agora que o sangue jorra? — Haebin questionou.

— Com o criado? — Sorriu sarcástico. — Não, quero vê-lo sofrendo na frente do povoado. Vou levá-lo à forca!

— Como? Já planejou? Sabe que se o garoto voltar ele contará a verdade! — O caolho cuspia no olho de vidro, pronto para colocá-lo.

— Sim, sei. E essa velha também é um empecilho em minha vida.

— A curandeira? — Haebin deu outra gargalhada. — A essas alturas já está empalhada em alguma parede. Ela era aliada ao criado, mandei calá-la para sempre.

— Muito bem feito, Choi. Preciso agora convencer o garoto. E onde ele está? — perguntou, faceiro.

— Na parte leste do reinado, ao sul do riacho, na casa da família Han.

— Não conheço, mas irei em busca. Essa família Han não deveria ter se metido com o fedelho, agora terão seus caminhos destruídos.

— E como fará? — Choi perguntou, curioso com os planos malignos do tão recomendado conselheiro.

— Vou associá-los ao criado, mandar todos à forca. — Sorriu com veemência.

O caolho deu uma longa risada, levantou-se, pegou seu facão da parede e empunhou como uma espada.

— Sangue inocente, o melhor. — Ria como seu tudo houvesse graça.

— Eu lhe avisei, Choi.... Muitas cabeças irão rolar.

[...]

Dias depois

Minho andava livremente pela floresta ao lado de Jisung, estavam em busca de mais plantas para desenhar. Só que desta vez, Minho estava com o caderno do loiro, anotando tudo o que Jisung julgava necessário sobre as plantas que encontrava. Já estava livre das ataduras e o tornozelo já não doía mais.

Os amigos não saíam para muito longe, pois a qualquer momento, Minho poderia ser visto e denunciariam a família de Jisung ao castelo. Minho nem imaginava que seus pais já estavam de volta, que Seungmin estava amarrado em um calabouço e que Kang o caçava como uma presa fácil e indefesa. Tudo que mudou para ele naquele tempo em que estava com Jisung, eram seus sentimentos pelo garoto, o machucado em seu tornozelo, seu aprendizado sobre as plantas e esculturas, e os cabelos negros que, agora, batiam no queixo.

Jisung agachou-se à sua frente para abrir a vegetação e observar uma florzinha roxa que se escondia em meio ao verde-capim.

— Redonda, levemente perfumada, pequena, o caule é cumprido e a textura é macia — ditava, e Minho anotava rapidamente.

— Esta é muito bonita, Jisung. Ei, eu achei uma pedra, você pode sentar-se aqui para desenhar.

E assim foi feito, Jisung desenhava, agora, com uma pena que Minho encontrou no meio da mata. Era mais precisa e não riscava tanto a folha quanto o pedacinho de graveto, que Jisung ainda guardava com carinho.

Minho observava com carinho as feições de Jisung enquanto desenhava. A língua pequena e redonda ia e vinha nos lábios rosados, o cenho se franzia e era engraçado ver Jisung alternando o olhar entre a planta e Minho.

— O que foi? — perguntou rindo.

— Você é bonito, Jisung — falou sem vergonha alguma, vendo o outro travar.

— Obrigado, você também é muito belo, Lino — comentou com sinceridade, porém vergonha.

— Sabe, se você fosse uma princesa, me casaria com você. — Minho gargalhou, achando graça da piada.

Jisung tentou rir para acompanhá-lo, mas saiu apenas um sopro fraco. “Se você fosse uma princesa, me casaria com você”. Jisung incomodou-se com tal fato e decidiu que aquilo ele não deixaria passar.

— E se eu fosse um príncipe, você se casaria comigo? — questionou atrevido, alternando rapidamente o olhar entre seu caderno e Minho, tentando analisar sua reação.

Minho passou a pensar, franzindo o cenho, entristecendo a feição.

— É... É errado, Sungie.... — falou baixinho, como se quisesse que Jisung não escutasse.

— Eu sei.... Desculpe, deixe para lá, eu estava brincando…

— ...Mas eu me casaria da mesma forma. Você é muito precioso para não ter por perto. — Sorriu.

Jisung sentiu um gelo percorrer seu corpo. Um misto de felicidade e medo caminhavam em seu interior. Um rubor coloriu suas bochechas, o que deixou Minho feliz.

— Não quero ficar longe de você, Jisung — confessou. — Gosto de estar com você.

— Eu também não, Lino. — Parou o desenho pela metade e fitou os olhos negros do príncipe. — Mas eu prometo lhe visitar quando puder — ditou, mesmo sabendo que não era verdade. Jisung nunca poderia chegar perto do castelo.

Minho sorriu para o garoto, que voltou a desenhar. Contudo, trotes de cavalos e vozes ferozes foram ouvidas, indo em direção à casa de Jisung. Os dois se entreolharam e foram de encontro ao local.

Passando por entre as árvores, chegaram até a estrada de terra que levava a casa de Jisung, e lá, Minho constatou que aqueles cavalos e a carruagem eram da realeza, e o homem que falava firmemente com os pais de Jisung era Kang.

— É uma ordem do rei que entreguem agora o príncipe Minho — Kang ditava, apontando para a carruagem.

Vendo que não tinha mais escolhas, Minho agarrou a mão de Jisung e saiu de trás das árvores. Chamando a atenção de todos.

— Estou aqui, e estou bem!

A porta da carruagem se abriu, revelando a rainha, que correu, em prantos, na direção ao filho, abraçando-o.

Jisung largou a mão do menino quando viu que estava sobrando no local e correu em direção aos seus pais, apertando com força o papelzinho com seus nomes gravados, que estava no bolso do casaco.

— Está tudo bem, meu amor. Você está são e salvo! Agora o levaremos de volta ao seu lar.

— Mamãe, eu estou bem. Jisung e sua família cuidarem de mim.

Minho estava sendo direcionado a carruagem, sem tempo de se despedir de Jisung e sua família. Tentava-o buscar com o olhar, mas o mesmo estava atrás de seus pais. Jisung sentia felicidade pela rainha ter encontrado seu filho, mas ao mesmo tempo uma enorme tristeza o consumia por ver seu amado, finalmente, ir embora de sua vida.

— O príncipe está a salvo — o rei ditou. — Eu autorizo a sentença. Pode executar a ordem.

E tudo o que Minho pode fazer fora gritar contra aquilo que estava passando diante seus olhos. Ele não podia fazer nada além de chorar e espernear, e não conseguia acreditar nas palavras que saíram da boca daquele mentecapto conselheiro. Tudo fora rápido demais.

— Kim Seungmin e os plebeus Han estão sendo acusados de aliar-se contra o reino de Chandi e sequestrar o príncipe Lee Minho. Em vinte e quatro horas, todos os acusados serão sentenciados à forca.

[...]

Os passos lentos pela estrada verde ecoavam por entre a mata virgem. O caminho era novo, mas quem o desbravava era uma velha conhecida. O toco de madeira ajudava a se locomover com mais precisão e rapidez, e também o auxiliava quando fosse necessário abrir passagem entre as folhagens gigantescas. Sentia as folhas molhadas roçar nas pernas, no tronco e nos cabelos puídos, mas não sentia medo ou repulsa, gostava daquela sensação. Tratava a gigantesca floresta como uma velha amiga, e o orvalho da noite, um delicioso beijo gelado.

Mesmo por um chão diferente, a mata a recebia de braços abertos, abrindo-se a cada novo passo, possibilitando que chegasse mais rapidamente ao local, onde sabia que encontraria as respostas para as perguntas que estariam penduradas ao final do dia. Tinha o conhecimento de que nada seria fácil, e que muito possivelmente estava envolvida em tudo, afinal de contas. Mas não renegou seu posto importante nesta história, firmou-se como uma taquara, que mesmo balançando para um lado e para o outro, mantinha-se de pé para uma nova tempestade.

Quando sua casa fora invadida, naquela tarde de sol quente, em meio ao inverno chuvoso, tratou de preparar a melhor xícara de chá quente que conseguiu. Recebeu os pecadores e com eles sentou-se à mesa, bebericou lentamente e sanou todas as dúvidas que lhe questionavam.

Por onde foi? Com quem estava? O encontrou? E ela sabia de tudo, desde quando o desaparecido chegou, até quando foi embora. Alguém lhe contou? Ninguém. O vento se encarregava de trazer. Mas disse apenas o necessário, o mesmo que todos já sabiam. Estava por aí, apenas esperando que alguém lhe resgatasse. Sabe de algo sobre o criado? Sim, sabia. Pouco, mas o suficiente para ser, também, um alvo.

Contudo era uma velha sabia que não perderia para ninguém, muito menos aqueles homens de dentes tortos e rostos sujos. Ao acordarem da sonolência que havia sido posta no chá, encontraram as paredes e utensílios da casa manchados de vermelho, para os leigos apenas um sangue inocente que jorrara, para ela, um pouco de pó de telha misturado a veneno de orquídea.

Riram, astutos, haviam matado a mulher, e nem se preocuparam em conferir se o amontoado no chão coberto por uma manta era mesmo o corpo da velha. Vitória para eles, abandonaram a casa com orgulho, enquanto a velha já estava a quilômetros de distância dali, buscando aquilo que não deveria ser descoberto.

[...]

O garoto desolado passou a manhã toda observando através da enorme janela de seu aposento.

As paredes de sua casa já não tinham mais aquele brilho costumeiro, o cheiro da comida não era bom e as roupas lhe pareciam desconfortáveis. Engomadas demais, ele dizia. Sentia falta da enorme camisa de Jisung em seu corpo. Tudo estava diferente, havia mudado muito rapidamente, e Minho não conseguira acompanhar.

Sabia e entendia o que estava para acontecer a seguir, e quando o novo criado entrou em seu quarto para dar início ao seu dia, teve um ataque de raiva, gritando por Seungmin, por Jisung e todos os que o ajudaram, e que por sua causa, estavam sendo acusados injustamente. O príncipe sabia que o conselheiro era mal, e depois do que havia passado com o homem, entendia que aquilo que ele fez já era de se esperar. Ele precisava, de alguma forma, tirar a culpa de cima de seus ombros, e encontrou as vítimas perfeitas para isso.

Minho só sabia chorar, em poucas horas, o dono das confusões dentro de seu peito estaria lado a lado com sua família e seu melhor amigo para serem enforcados em praça pública por algo que não fizeram. E pior, Minho estava trancafiado em seu quarto, por ordem de seu pai, que não acreditava em suas mentiras.

Ajoelhou-se, rezou, implorou, mas o pai não acreditava em suas palavras, e a mãe de nada podia ajudar, era o rei Lee quem mandava. Contudo, como já visto antes, o coração de uma mulher é uma caixa de segredos, e o da rainha Soojin estava aguardando e esperando uma resposta ansiosamente.

Contrastando com as paredes luxuosas e o cheiro de lavanda que de nada alegravam Minho, as pessoas mais importantes para si estavam no calabouço, em meio aos ratos e a sujeira, sendo açoitados pelo seu maior inimigo.

O conselheiro Kang foi uma última vez ao calabouço antes do juízo final. Gostava de ver o sofrimento daqueles que se meteram em seu caminho sem ser chamados, principalmente Seungmin. Após recuperar-se das chagas, logo fora preso, e a rainha nada pôde fazer, apenas pedir calma e paciência, pois ela daria um jeito de resolver tudo.

— Gostando dos novos aposentos? — falou o conselheiro, usando o relho dos cavalos para erguer o queixo do criado. — Falei com você, seu verme imundo. — O barulho do instrumento pode ser ouvido quando foi de encontro ao rosto do jovem.

— Tenha piedade, ele está tão fraco — suplicou a mãe de Jisung, que nada temia. A mulher, várias e várias vezes, repetiu que faria tudo de novo se fosse preciso.

— Cale a boca, vaca estúpida. Estou falando com este rato. — Virou-se novamente a Seungmin, que o fuzilava com o olhar. — Eu não mandei você se meter em meus caminhos, agora verei seu pescoço na corda que eu mesmo preparei.

— Você.... o levou.... até lá.... machucou ele.... sei de tudo — ditou cansado. — Morrerei.... em paz. Cuidei de.... Cuidei de Minho.... como se fosse meu.... filho.

— Oh, como estou comovido! — Riu o Kang. — Acho que vou até chorar.

— Você não sabe o que é amar.... — Puxou o ar com força para que a frase saísse mais longa. — Mas não merece morrer.... Merece que sintam pena de você.... Sinto pena de sua alma....

— Que se dane minha alma, quero apenas vê-lo morrer. — Andou rapidamente até a porta de saída. — E sabe mais? É uma pena o garoto não ter morrido. Se eu o tivesse encontrando antes, teria o matado com minhas próprias mãos. — Riu em escárnio, sendo acompanhado por todos os capangas que guardavam o lugar.

A porta fora fechada, um minuto de paz em meio ao tormento. Os residentes ali sabiam que não teriam muito tempo. Principalmente Jisung, que chorava por tudo. Por seus pais, por seu irmão, por Minho, por Seungmin, por si próprio. E em meio a tanta tristeza, Jisung apenas queria liberar tudo de uma vez só. Ouvira falar muito de Seungmin pela boca de Minho, sabia que ele era bom com palavras e conselhos, e principalmente, era o melhor amigo de Minho. Então, antes que não pudesse mais ter oportunidade de fazer tal ato, Jisung, que estava próximo a Seungmin, iniciou a conversa:

— Você falou sobre amar....

Seungmin olhou-o com um sorriso nos lábios machucados.

— Sim, amor é uma coisa poderosa.

— Você acha que podemos ser salvos pelo amor? — Jisung questionou baixinho.

— Acho, seremos salvos pelo amor.... Qual seu nome?

— Jisung.... Han Jisung.

— Seremos salvos pelo amor dEle, Jisung. Do senhor dos céus.

Jisung pensou um pouco, olhou para seus pais que tentavam fechar os olhos para descansar.

— Seungmin, posso lhe fazer uma pergunta? — Tornou a olhar para o rapaz, que estava quase se entregando ao cansaço.

— Claro, por favor...

— Você... — Jisung engoliu em seco e fechou os olhos. — Você acha errado amar de outra forma?

O mais velho franziu o cenho vagarosamente, tentando entender o que o garoto tentava explicar.

— Como assim?

— É como.... É como.... Como amar normal, mas diferente.... Não consigo explicar muito bem. — Fechou os olhos relembrando dos momentos com Minho e dos momentos com seus pais. Eram amores diferentes, mas ao mesmo tempo tão presentes e vivos em Jisung.

— Amar diferente.... — Seungmin deu um risinho soprado. — Amar é amar, Jisung.

— Amar outros homens — falou rapidamente. Temendo que os pais ouvissem, baixou o tom de voz. — De... outra forma.

Seungmin deu um sorriso casto, agora compreendia o que o rapaz queria dizer. Olhou em sua direção, fitando seus olhinhos curiosos para saber a resposta. Contudo Seungmin não mudou seu discurso.

— Amar é amar, Jisung. Não existe amar diferente. Tudo é amor. Não importa se é entre homens e mulheres, mulheres e mulheres ou homens e homens. O amor é um só e abrange tudo que toca essa terra, igualmente.

Jisung sorriu, fitando o mais velho com orgulho, sentia tanto conforto em sua voz calma.

— Ele sempre me falou bem de você.

— Minho é um menino de ouro. — Seungmin respondeu sorrindo.

— Sabe, Seungmin. Eu acho que o amo — confessou ao mais velho, sabendo agora que o mesmo não o julgaria e que também não existiria possibilidades de falar para Minho.

— Todos nós, Jisung. Todos nós.

[...]

— Jamais fale isso na presença de seu pai, Minho! Jamais!

— O que posso fazer se as coisas se confundem cada vez mais para mim?

— Você é uma criança, Minho, uma criança! Não deveria pensar nessas coisas!

O garoto encheu-se de fúria.

— Se eu sou uma criança, por que me trouxeste a notícia de que me casarei em breve? Não posso ter sentimentos, mas preciso me casar com alguém para manter as aparências do reino? Me poupe, mamãe.

— Minho, é errado! — a rainha ditou raivosa.

— Isso tudo é errado de muitas formas, mamãe. E eu jamais lhe disse que pensava em Jisung deste jeito, esperaria meus anos até que tivesse idade suficiente para me mandar e poder fazer o que quero. Mas sabe, mamãe? Agora o garoto que confunde meu intimo está indo para a forca! — falou com fúria.

— Minho.... — A mulher engoliu em seco.

— Por algo que ele não fez! — Minho agora gritava a plenos pulmões, os olhos cheios de lágrimas.

— Filho....

— E você, mamãe, uma mulher que sempre acreditou nas pessoas, no amor delas e em como elas estão dispostas a ajudar, não está fazendo nada!

A rainha suspirou pesadamente e levantou-se da cama do garoto.

—  Se isso é o que pensa, não posso fazer nada! Eu acredito em você, acredito em Seungmin e nesse garoto que lhe ajudou.

— Então, o que está esperando, mamãe? Vê-los degolados? — falou sem ânimo.

— Uma resposta das florestas, Minho. — A mulher tentou dar um meio sorriso.

— Não entendo suas metáforas, mas espero que faça algo antes que seja tarde demais. — Minho fechou os olhos ao pronunciar as últimas palavras.

— Bem, está na hora do café. Não faça fiascos quando o seu novo criado entrar.

Continuando a olhar pela janela, com o rosto banhado, Minho apenas ouviu a mãe caminhar até si, sentiu seu beijo no topo da cabeça, e depois, a porta ranger, indicando que ela havia saído. Cruzou os braços a frente do parapeito, observando o tempo se fechar no céu. Iria ser mais um dia chuvoso naquela louca troca de estações.

— Preciso fazer alguma coisa — sussurrou para si mesmo, tendo o nó na garganta apertado.

Não deu bola quando o criado entrou, largou a bandeja com a refeição fresca e esperou que Minho desse sinal de vida para se alimentar. Minho agora o encarava tedioso, enquanto o criado limpava a garganta para falar:

— Boa tarde, príncipe. Trouxe seu café e....

— Você tem esposa? — o garoto questionou, interrompendo-o.

— Como, senhor? — O jovem o olhou confuso. O sorriso nos lábios era sempre muito convidativo. Parecia ser uma boa pessoa, mas Minho não estava a fim de dar chances a ninguém.

— Perguntei se tem esposa, se é casado.

— Bom, se o senhor bem sabe, nós criados não podemos ter vínculos familiares até termos terminado nossos serviços para com o castelo e a realeza.

— Isso é triste. — Fez de conta que se importava com a fala robótica do homem.

— Sim, mais alguma pergunta, vossa alteza?

— Minho.

— Desculpe?

— Meu nome é Minho, não vossa alteza — falou baixinho, aquela coisa toda de vossa alteza para cá e para lá lhe incomodava.

— Perdão, senhor. São ordens do rei e da rainha. — O moço pareceu cabisbaixo.

— Desculpe. Sente-se, preciso conversar com alguém.

— Claro.

Minho sabia que o homem estava apenas seguindo a rotina chata e perturbadora de um criado, e aquilo lhe deixava nervoso e irritado, pois com Seungmin tudo era diferente. Mas para pôr o seu plano em prática, o príncipe precisava ganhar a confiança do rapaz ruivo sentado à sua frente.

— Qual seu nome? — perguntou de supetão, e o outro lhe respondeu:

— Felix. Lee Felix.

— Por pouco não é da família real — Minho falava por causa do “Lee”.

— Sim. Nasci no local errado. — O jovem sorriu para o príncipe.

— Por favor, se quer dar seu melhor, pare de falar como meu pai e seja mais.... Como se diz? Moldável?

— Flexível? — Felix torceu o rosto tentando lembrar da palavra.

— Isso, também serve! — O menino sorriu. — Então, Feliz, serei breve no que preciso.

— Se vai me pedir para sair do quarto, me desculpe, mas não poderei autorizá-lo. — O rapaz cruzou as mãos a frente do corpo.

— Você não é casado, certo? Mas gosta de alguém? — Minho levantou a famosa sobrancelha, tentando mudar de assunto e fazer o outro cair em sua lábia.

O jovem pareceu pensar um pouco, logo surgindo um sorriso em seus lábios.

— Creio que sim, senhor.

Minho lambeu os lábios antes de prosseguir, unindo as mãos nos joelhos e impulsionado o corpo para frente. Como se fosse contar um segredo, ele sussurrou:

— Como se sentiria se soubesse que essa pessoa está prestes a morrer por algo que não fez?

— Príncipe, eu.... — Felix franziu o cenho.

— Você nunca mais vai vê-la sorrir, ser livre, trabalhar, cantar, o que for. Você não terá mais essa pessoa em seu alcance.

O criado passou a observá-lo com cuidado, sentia o coração acelerar.

— Os momentos que vocês tiveram juntos, a confiança que criaram, tudo estará apenas em sua memória e nada mais poderá ser feito novamente. Você não poderá passar tardes caçando plantas, não poderá adentrar a escuridão da noite e ver vagalumes com ela, e o principal, nunca mais terá a oportunidade de dizer a ela o que sente e como se sente quando está com ela... Como você ficaria?

— Não sei se encontro palavras para descrever....

— Pois bem, Felix. — Minho se ajoelhou em frente ao rapaz, pegou em suas mãos e apertou firme. — É assim que me sinto no momento. Não podendo sair para vê-lo uma última vez. Você me compreende?

— Minho....

Pelo criado ter-lhe chamado pelo nome e não por seu posto, Minho sentiu que tinha um ponto a mais já, mesmo que tivesse sentimento real em tudo o que dissera.

— Por favor, Felix. Eu lhe imploro, deixe-me sair. Eu juro que nada lhe acontecerá. Apenas me deixe-me vê-lo uma última vez.

Ambos com os olhos marejados, Felix fechou os olhos, reprimindo os lábios. Sabia que estaria com grandes problemas se deixasse o menino sair, mas ao mesmo tempo tinha um coração mole como manteiga no sol.

— Tudo bem, mas você tem algum plano? — falou temeroso.

— O melhor de todos! — Minho sorriu abertamente.

[...]

A senhora Kim sorria contente ao chegar em seu destino, agora precisaria trazer a peça mais importante do jogo para aquele local: a rainha. Pois sem ela por perto, assim como em uma partida de xadrez, o rei estaria de mãos atadas para dar início ao jogo violento do conselheiro Kang.

Adentrou o estábulo velho, retirando a porta que o fechava. Olhos curiosos e famintos a fitaram com certa esperança. A salvação havia chegado, e todos aqueles seriam testemunhas dos atos terroristas e sádicos do homem, cuja farda era suja de sangue inocente por pura diversão.

Era chegada a hora de levantar dos mortos e rumar para o local onde a injustiça estava sendo feita.

[...]

A praça que ficava ao centro da redoma do castelo estava lotada de plebeus confusos e inquietos. Muitos cochichavam sobre o que estava acontecendo. Alguns eram a favor da execução dos culpados, porém outros achavam aquilo um absurdo, visto que em nenhum momento foi realmente provada a sua culpa.

Estavam em pencas pelos cantos, eufóricos, gritavam para a saída do conselheiro Kang por sua malvadeza excessiva. Todavia o rei permanecia sentado pedindo paciência, pois ainda não admitia seu erro em ter escolhido um homem sem classe.

— Vossa alteza, está na hora. — Kang queria apressar as coisas.

— A rainha ainda não chegou, precisamos esperá-la.

— Mas, senhor, sei que a presença de sua esposa é indispensável, contudo estaremos adiando a morte daqueles que trancafiaram seu filho por semanas! — tentava atiçar o lado emocional da alteza.

O rei olhou de soslaio para o conselheiro, com o peito estufado, ele pensou pouco sobre a situação. Estava completamente raivoso com as pessoas que sequestraram seu filho, mas ao mesmo tempo as palavras de sua esposa, seu herdeiro e o povo a sua frente, que protestava contra o conselheiro, martelavam no fundo da mente: “São inocentes”. E o sumiço repentino da esposa, com toda certeza, teria algo a ver com isso. Contudo não poderia esperar mais, precisava fazer justiça ao seu primogênito. Era dada a hora, e ele não queria que a esposa visse a cena horrenda que se passaria.

— Tragam os prisioneiros.

E o conselheiro Kang não poderia estar mais feliz do que naquele momento.

Sujos e maltratados, com sangue pelas vestes e tremendo de frio e medo, os culpados foram trazidos até o palanque onde aconteceria tudo. Seungmin fora o primeiro a ser atirado contra o tablado de madeira, e quando povo viu que era ele o culpado, gritavam ainda mais pela sua inocência, conhecendo bem o passado e as virtudes do moço. Jisung e sua família vinha logo atrás.

Cinco cordas dispostas esperando as cabeças certas.

Lágrimas escorrendo pelas faces injustiçadas.

Gritos ecoavam da plateia raivosa.

 Minho corria a plenos pulmões pelos largos corredores do castelo.

[...]

Os pés daqueles que anos de vida foram arrancados, estavam ritmados em uma única estrada de glória. Sendo guiados pela sabedoria, atravessaram os largos campos o mais rápido possível, ela sabia que a hora havia chegado.

Ao longe, os passos dos cavalos podiam ser ouvidos. Eram muitos, cerca de uns dez, ela pensou.

Avistado a tão sonhada carruagem, a rainha desceu, convidando a todos para que não fosse mais preciso gastar suas forças.

Ela os levaria. A carruagem suja de barro era uma prova de vitória.

[...]

Kang deixou para que os capatazes colocassem os presos em seus lugares.

Assistia tudo de camarote ao lado do rei, que não esboçava muita reação. O que lhe preocupava era sua esposa, que ainda não havia voltado. Certamente ficaria uma fera, mas quem se importaria, afinal?

Jisung, por sua vez, alternava entre Seungmin e seus pais, queria manter a memória deles em sua mente até seus últimos momentos. Contudo sua preocupação se concentrava em Minho. Onde ele estaria? Estaria a salvo? Sendo cuidado por alguém? Lembraria de si após sua partida? Tudo o preocupava, pois até mesmo seu irmão mais novo estava tendo aquele fim trágico. E o pequeno menino se culpava por ter encontrado aquele garoto perdido na floresta.

De nada adiantava agora se lamentar pelos ocorridos. Como disse Minho, as coisas estavam acontecendo rápido demais, e Jisung lembrou-se de sua última conversa, na floresta, sobre casamentos e príncipes. Mirou o castelo para imaginar-se casado com Minho em uma cerimônia simples, porém de muita importância. Gostava de sonhar até em seus piores momentos.

O conselheiro Kang levantava-se junto ao rei para executar a ordem. Com um sorriso no rosto, feito um diabo vestido de farda, Kang mirava sua imponência para os culpados, que cabisbaixos fecharam os olhos para tudo e todos.

— Pode colocar os capuzes — ordenou o rei, e assim fizeram.

Jisung via a escuridão lhe consumir. Ouvia o choro do irmão ao lado e a prece sussurrada da mãe. Seu coração desesperou-se quando sentiu as mãos do homem em seu pescoço, e a textura áspera que se enrolava por ali.

Pensou em Minho, nos vagalumes, na conversa com Seungmin, nos pais amorosos, no irmão brincalhão. Sentia-se delirar por entre as lembranças que rondavam sua mente, aqueles que viveram e aquelas que ele gostaria de cumprir. Lembrou do papel em que Minho escreveu seus nomes e que ainda carregava no bolso da calça surrada. Eram tantas pessoas gritando em sua volta, choros, súplicas, a risada baixa do conselheiro, que a voz de Minho o chamando parecia ser apenas um delírio.

— Jisung! Jisungie! — Ele escutava, e sorria. Tendo tudo aquilo como uma simples lembrança boa do príncipe que amou. Era tudo o que precisava.

— Jisung! Jisung!

Repetidas vezes, bem ao longe!

— Seungmin! — E então ele estranhou.

Por que Seungmin se o delírio era apenas seu? Qual a finalidade que sua mente estava querendo trazer?

— Jisung! Seungmin! — Ouviu os gritos a plenos pulmões e estremeceu.

Mais alto, aproximando-se.

Não podia ser!

— O príncipe — alguém gritou.

E Jisung pode ouvir toda aquela multidão de pessoas fervorosas se calar. O rei estava confuso.

— É ele mesmo, o pequeno Minho.

Apenas os passos rápidos e a respiração ofegante ecoando por toda a extensão de pedras.

Jisung estava com o coração acelerado, então aquilo tudo não era apenas uma alucinação! Ele estava ali, estava se dirigindo até eles. Era ele. Seu Minho.

— Minho! — ousou gritar.

— Jisung! — Ouviu como resposta.

O pecador pôde ouvir direitinho quando pularam em cima do tablado de madeira, fazendo a mesma tremer um pouco. Os passos rápidos corriam em sua direção.

— Jisung! — Fora retirado o capuz de sua cabeça, e Jisung pode contemplar toda a beleza do príncipe bem à sua frente.

— Minho.... — sussurrou entre lágrimas. — Minho, você voltou.

E antes que pudesse responder qualquer coisa, Minho retirou as cordas e os capuzes de todos ali presentes, fazendo com que o conselheiro Kang urrasse de raiva.

— Como a vossa alteza vai deixar isso acontecer? — questionou o rei, que com fúria nos olhos, falou:

— Cale a boca e sente-se! — Virou-se para o local onde o herdeiro estava, agora, abraçando-se aos prisioneiros. — Minho, saia daí nesse exato momento!

— Enforque-me junto a eles, mas eu não sairei! — gritou para o pai.

O rei sem paciência, ordenou:

— Guardas, peguem-no.

Minho agarrou-se a Jisung, puxando para mais perto os outros integrantes que estavam no local. Todos em um abraço só.

— Vai ficar tudo bem, eu prometo. Vai ficar tudo bem — falava, enquanto tinha a testa colada a de Jisung.

Os soldados subiram ao tablado em busca do príncipe. Ao sentir as mãos firmes dos homens lhe puxando, Minho esperneou contra, tentando escapar-se.

Ao mesmo passo em que era arrastado para fora do tablado, Minho gritava a plenos pulmões, para quem quisesse ouvir:

— Eu amo você, Jisung. Eu amo você, não se esqueça disso. Eu amo você.

Em meio a lágrimas e desespero, Jisung gritava de volta, sendo abraçado por seus familiares e Seungmin.

— Eu também amo você, Minho. Da mesma forma que os vagalumes amam o lago.

— Não se esqueça de mim, Jisung. — A voz ecoava longe.

A multidão que assistia tudo com compaixão, sentiu uma raiva imensa, e tratou de novamente começar a gritar contra o rei e seu conselheiro.

Transpassando entre Seungmin, Jisung, seus pais e seu irmão, abraçados, sentindo os capangas chegarem para tentarem finalizar a atividade do dia; a multidão irritadiça, que aguçada, gritava e atirava pedras sobre o rei e sua corja; Minho sendo arrastado para longe, em prantos, e sendo jogado para a porta de entrada do castelo, os trotes velozes dos cavalos, que conduziam a salvação, adentraram os portões do castelo.

A rainha desceu astuta de dentro da carruagem, não se importando em sujar a barra do vestido caro. Trazia consigo uma penca de vidas com histórias reais e vividas nas mãos do crápula que chamavam de conselheiro.

— Parem! Parem com tudo isso.

A mulher caminhava com força e de peito estufado até o tablado.

— Rei Lee....

— Cale a boca, seu imundo. — A mulher falou em direção ao Kang. — Parem com essa injustiça em nome da Rainha Soojin.

E, por mais uma vez naquele dia, a multidão ficou em silêncio, e o rei confuso e sem saber o que fazer.

[...]

Acordou de supetão naquela manhã de vento morno.

As cortinas brancas, que enfeitavam a enorme janela, faziam cócegas em seus braços desnudos ao passo que acompanhavam o ritmo da brisa de verão.

Há tempos não dormia como aquela noite. Sem pesadelos, sem sentir-se pressionado, enforcado. Sem lembranças ruins.

Piscou algumas vezes, sentindo um peso familiar sobre si. Um par de olhos sorridentes e verdes, e bochechas vermelhinhas o observavam com curiosidade.

— Papai, como você é lindo.

Ele só pode rir, sentindo-se animado e lisonjeado. Abraçou a pequena criança, beijando-lhe a face e acariciando seus cabelos logo em seguida. O lado esquerdo de sua cama estava vazio, buscou o corpo conhecido pelo quarto e o encontrou sentado a pequena mesa de café da manhã que ali estava posta.

— Não queria que ela te acordasse, mas foi inevitável.

Os olhos redondos e pretos, apaixonantes, a pele escurecida pelo sol que pegara em um piquenique no riacho parecia ouro reluzindo. Os cabelos mantidos na mesma linha do queixo lhe traziam um charme quando postos de lado.

— Tudo bem, é uma maravilha acordar com essa visão. — A pequena menina deitou a cabeça em seu peito. — Onde estão os outros?

— Onde você acha? — Minho bebericou a xícara de chá à sua frente, rindo. — Seu irmão levou boa parte ao quintal para plantar uns espécimes que achou na floresta.

— Senhor, será uma bagunça — Jisung respondeu, levantando-se da cama, ainda com a menina nos braços. — Papai irá fazer o desjejum, por que não ajuda os meninos na plantação, Taeyan? Hum?

— Tudo bem, papai. Você vai ir lá mais tarde? — questionou a menina, curiosa.

— Claro, quero plantar tulipas, meu amor. Pode me esperar. — Beijou a ponta do nariz da menina.

E, então, a pequena saiu faceira, dando o espaço que os pais precisavam.

Jisung levantou-se e sentou-se nas pernas de Minho, fazendo o garoto ajeitar-se na cadeira. Deitou a cabeça no vão do pescoço e o abraçou.

— Dormiu bem essa noite? — Minho acariciava as pernas do outro.

— Uhum.

— Sem pesadelos? — tornou a questionar.

— Nenhum. — Jisung pousou a mão livre no rosto do moreno, a fim de segurá-lo para, então, beijá-lo pela extensão da pele até a boca.

Os lábios carnudos se encontraram, iniciando-se com pequenos selares, passando para singelas mordidas. Era sempre assim desde que se casaram, os beijos nunca perderam o encanto depois que experimentaram o gosto um do outro. Agora, sem restrições, podiam amar-se infinitamente. Até que seus corpos falecessem e suas almas virassem pequenos vagalumes a enfeitar o lago do reino.

O beijo se aprofundou, Minho envolvia o marido em um abraço caloroso, enquanto usava a boca para acariciar a outra necessitada. A línguas se encontravam sem muita pressa, tinham a vida toda para isso. Jisung terminou com selares estalados e mordidas no lábio inferior. Completando o cenário com sorrisos e risadas.

Minho nunca perdera os dentinhos salientes e a curiosidade imensa sobre tudo. Jisung podia jurar que via, todos os dias, aquele menino arteiro que tantos anos atrás conheceu, no fundo de seus olhos cintilantes.

— Temos muito o que fazer hoje — comentou Jisung, enquanto acariciava os cabelos do outro.

— Não podemos deixar para amanhã? — Minho gemeu.

— Claro que não, deixe de ser preguiçoso. — Abraçou o amado uma última vez antes de levantar-se e vestir-se.

Jisung era sempre assim, tão imprevisivelmente previsível.

— Eu amo você, príncipe Jisung — Minho proferiu, sorrindo em direção ao loiro, os mesmos olhos apaixonados de sempre.

— Eu também amo você, príncipe Minho. — O mesmo amor que carregava em seu peito, agora, voava livre como um vagalume.

Jisung nunca se cansava daquilo. De sentir o amor pairando no ar, de se deixar envolver pelo corpo quente e sagaz de Minho, e muito menos, de demonstrar seu amor pelo moreno. Depois de tanto sofrer, de tantas perguntas sem respostas, das angustias, dos choros reprimidos, nos dias atuais, muitas vezes deixava de acreditar que estava, realmente, casado com Minho e que compartilhava, não apenas a mesma cama, mas sim, os mesmos sonhos e o mesmo amor.

Hoje, Jisung era um príncipe especializado em pinturas e esculturas, que mantinha sua família em um castelo luxuoso e já estava na adoção do seu quinto filho. Mas a tela, na qual ansiava todos os dias para deleitar-se com o pincel de sua boca, ainda era a pele alva e jovial de Minho. Era surreal tudo o que estava vivendo, e como em um sonho, ele jamais queria acordar.

Estar nos braços do amado, seja por entre os lençóis ou dançando livremente pelos corredores alegres do castelo, era uma sensação inexplicável para si. Sentia que a qualquer momento seu coração pudesse explodir de tanto amor acumulado.

— Sabe onde vamos hoje? — Minho questionou ao outro, que estava fechando a porta do quarto atrás de si.

— Onde? — Jisung perguntou, segurando a mão do marido e beijando-a em seguida.

Minho sorriu abertamente, olhando para os ares.

— Não sei se devo falar…

Jisung revirou os olhos.

— Não comece, amor. Fale, onde vamos ir? — Jisung escorou a cabeça no ombro do mais novo.

— É uma surpresa. — Minho o fitou, Jisung podia sentir a aventura percorrer em seus olhinhos.

— Vamos levar as crianças? — Jisung perguntou, já imaginando o traje dos filhos.

— Claro! — respondeu sorrindo. — Uma vez um belo rapaz de fios loiros me contou que um certo riacho tinha inveja do céu e por isso os vagalumes iam o visitar durante à noite. — Minho ergueu a sobrancelha, dando um sorriso ladino.

— Pois bem... Lembro-me de um garotinho de dentes salientes estar tremendo de medo de uns insetinhos esverdeados, mas ficava lindo maravilhado com a beleza do lugar — falou rindo.

— Sabe, lembro-me perfeitamente de me perder entre seu olhar e aquele espetáculo a nossa volta. Não sabia para onde olhar — sussurrou diretamente para o outro a confissão.

Jisung ruborizou, sentia-se quente de amor e felicidade.

— Confesso que chorei porque estava apaixonado por você — Jisung lambeu os lábios. — Sofria por não poder me confessar. — Sentiu Minho apertar sua mão com carinho.

— Eu sei disso, contudo eu também estava apaixonado e confuso, não sabia o que fazer ao certo. Ainda bem que tudo correu bem ao final, e agora posso te ter todos os dias ao meu lado.

Jisung sentia os olhos marejados, olhava para Minho com tanto amor e carinho, que sentia seu vocabulário ser feito apenas destas duas palavras.

— Meu pequeno segredo nos fez tão bem.

— Nos unimos assim como o lago e os vagalumes. — Minho segurou rodopiou Jisung no enorme corredor dourado.

— O céu particular... — Jisung abraçou-se ao moreno, que o segurou forte contra o peito.

— Você é o meu céu particular! — Minho afastou os cabelos atrevidos do outro.

Entreolharam-se, sorrindo. Os lábios tão conhecidos já estavam prontos para se juntarem e demonstrarem seu livre amor.

[...]

— Vocês realmente acreditam nessa história? Isso é coisa para criancinha dormir.

— Calado, Jinnie. Está atrapalhando o vovô Minnie. — Outro na salinha colocou os dedos nos lábios do primeiro.

— É bem idiota, não? Não existem dois príncipes em um reino. 

— Conta de novo, vovô Minnie, conta, conta — falavam um por cima do outro.

— De novo? — o velho homem questionou. — Mas eu já contei duas vezes.

— Por favor! — Agora era a vez de uma menina com olhos brilhantes e cabelos cacheados. — É tão linda de ouvir.

— Bom, continuarei amanhã, já está tarde.... E para sua informação, jovem Hyunjin, existem, sim, dois príncipes em um reino tão, tão, tão distante daqui. Que, na verdade, hoje são grandes reis.

— E como o senhor sabe tanto disso? Esteve lá por acaso? — O pequeno ergueu uma sobrancelha.

— Sim… — O homem sorriu.

E todos da saleta se espantaram.

— Como assim, vovô?

— Por que eu tive a honra de ser criado pessoal do príncipe Minho. E estas histórias de coragem, amor, bravura e salvação, são as mais belas memórias de um príncipe, que eu guardo comigo, como prova de que o amor verdadeiro pode salvar vidas.

Hyunjin o olhou desconfiado. As meninas suspiraram apaixonadas.

— E por que você está aqui hoje? Por que não está mais no castelo?

— Bom, por que depois que Minho e Jisung adotaram seus filhos e abriram o castelo para as crianças pobres e sem famílias do reino, eu decidi fazer o mesmo. Queria ajudar mais pessoas assim como meu querido amigo e seu marido. Da mesma forma que eu fazia há anos.

— Isso é lindo, vovô Minnie.

— Obrigado, querida. Agora, vamos todos para os quartos para termos uma noite de sono maravilhosa. Amanhã quero levá-los em um passeio pela floresta.

As crianças dispersaram-se por entre as salas, eufóricas pela história que o vovô Minnie, como gostavam de chamá-lo, adorava contar.

O velho Minnie, com o coração cheio de alegria por sua rede de auxílio à crianças carentes estar dando certo, com muitos envolvidos, ajeitou a cama para mais uma noite de sono. Sabia que a alguns quilômetros de distância, seus dois meninos estavam muito bem guardados e protegidos de qualquer mal.

Após a liberação de seus corpos cansados naquele dia fatídico, onde seria seu último, coisa que ele gostava de pular e não contar as crianças, por achar pesado demais para elas, Seungmin assistiu com pena em seu coração, o conselheiro Kang ser levado ao calabouço para até depois do fim de sua vida.   

E mesmo depois de anos longe de tudo, Seungmin não guardava rancor nem mágoas, continuava a sentir pena da alma do homem sem coração.

Seungmin recolheu-se como de costume, deixando na mesa seus óculos de leitura. Guardou na estante de madeira rústica o livro que escreveu para seus dois meninos preciosos, que hoje estavam, finalmente, compartilhando da mesma vontade.

Naquela noite específica, depois de relembrar tantas coisas boas quanto ruins, Seungmin sonhou. Era lindo de ver todas as pessoas que mais amava reunidas em apenas um propósito: o casamento de Minho e Jisung. Chorava lágrimas de felicidade e alívio. Felicidade pelos dois estarem juntos, amando-se infinitamente; alívio por eles, enfim, poderem viver sem julgamentos de terceiros.

E assim, como todas aquelas histórias que Seungmin guardava consigo, aquele sonho, ou lembrança, como queira chamar, estava, para sempre, em seu interior, ao lado de esquerdo do peito.

E sabendo que tudo estava em completa paz e encaminhado, alguém lá nos céus decidiu que Seungmin precisava, enfim, viver eternamente, assim como em seu sonho; ele dispersou-se para o outro lado da vida.

Jamais em toda a sua existência, Minho e Jisung iriam apagar de suas memórias um ser tão importante como foi o querido e amado Seungmin.

E antes que a vida lhe escapasse pelos dedos, transformando sua carne em pó e sua alma em luz, Seungmin teve a clara certeza de que ouviu a risada gostosa de Minho, seguida da pergunta mais especial e pura que viveu em si durante todos estes anos. A vozinha chorosa e preocupada daquele de fios loiros ecoava por sua mente em um último suspiro:

— Você acha que podemos ser salvos pelo amor? — questionou o garotinho.

Ele sabia que sim. E tinha plena certeza disso.


Notas Finais


Confesso que essa história mexe comigo e eu acabo chorando.
Chegamos ao final desta longa jornada! Eu espero muito que vocês tenham gostado de acompanhar as aventuras desse príncipe levado! Fiquem atentos as novas postagens que irão iniciar na cafeteria! Contamos com vocês <3


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