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História Memórias Ocultas - Capítulo 5


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Capítulo 5 - O diário


Fanfic / Fanfiction Memórias Ocultas - Capítulo 5 - O diário

Assim que voltou para o apartamento de seu pai, Alina nem sequer se preocupou em organizar o conteúdo das caixas e da mala — a sua atenção precisava ser inteiramente direcionada a algo mais importante naquele momento. Quando ela finalmente teve a oportunidade de ficar sozinha em seu quarto, Alina se sentou na cama e tirou aquele desconhecido diário de dentro da sua bolsa.

Observando o objeto em suas mãos, Alina parecia hesitar em começar a sua leitura. As suas memórias estariam reunidas ali, naquele pequeno caderno. Recuperar as suas lembranças era tudo o que desejava. No entanto, o que ela encontraria em seus próprios escritos? Ela estaria preparada para descobrir toda a verdade? De qualquer forma, a única maneira de obter as respostas para essas perguntas seria abrir o diário.

Era uma sensação estranha. Mesmo se tratando de seu próprio diário, Alina tinha a impressão de que estaria invadindo uma privacidade alheia. Afinal, ela não tinha nenhuma lembrança a respeito da confecção daquele caderno. Sem perceber, Alina se considerava outra pessoa — ou melhor, ela não era a pessoa que havia escrito aquele diário... pelo menos não por enquanto.

Enfim, após muito refletir e respirar fundo, Alina tomou coragem e abriu novamente o diário. Em sua primeira análise, havia muitos escritos, mas nem todos eram confidências: tinha alguns poemas, trechos de alguns de seus livros favoritos, e até mesmo conteúdos de suas aulas. No entanto, metade das folhas do caderno estava limpa, o que significava que ela havia parado de escrever. Mas o que mais lhe chamou atenção foi a sua primeira página.

8 de fevereiro de 2017: era o que estava escrito no canto superior direito da primeira folha. Como já imaginava, Alina não conseguia se lembrar dos eventos daquele ano. Sendo assim, aquele diário lhe pareceu ainda mais um sopro de esperança. Sem perder mais tempo, ela iniciou a leitura do texto que acompanhava aquela data.

~ x ~

Eu não queria começar aqui com "Querido Diário..." ou com outros clichês da escrita. Na verdade, eu não sei se devo considerar este caderno como um diário. Afinal, eu nem tinha pensado nisto quando o comprei: eu estava dando uma volta pela minha livraria favorita quando vi este caderno, totalmente por acaso. Não sei exatamente por que ele atraiu a minha atenção. Talvez seja pelo seu aspecto rústico. Enfim, eu o comprei e agora tenho uma oportunidade para praticar a minha escrita (E vejam só! Eu consegui achar um assunto para começar. É engraçado como certas coisas na vida acontecem sem que a gente se dê conta). Quem sabe isso possa servir para alguma coisa no futuro, nem que seja para me provocar nostalgia.

Eu não posso prometer que irei escrever aqui pontualmente todos os dias, pois não é sempre que temos novidades tão incríveis, que valem a pena ser registradas de alguma forma. Afinal, a minha vida não tem sido "grandes coisas" até então... Eu imagino que o ritmo não mudará, mas espero que eu me surpreenda. Além disso, eu acredito que não terei muito tempo daqui adiante por causa da faculdade.

Aliás, hoje foi o meu primeiro dia de aula na universidade (Ok, até que a minha vida não tem sido tão monótona assim). Após um ano de dedicação e de tensão (incluindo o fim de um relacionamento de três anos), eu consegui alcançar o meu objetivo: ser aprovada em uma faculdade de Letras. O meu objetivo é me especializar em Literatura. Eu sempre amei ler. Os livros têm sido os meus amigos mais fiéis desde a minha infância. Eram eles que me faziam companhia quando ficava sozinha em casa, no período em que morei com a mamãe no exterior (ela sempre passava o dia inteiro fora por causa do trabalho e de seus "passatempos sociais"). Na escola, eu costumava me refugiar na biblioteca no horário do almoço (e quando os "reles mortais" chegavam lá, tumultuando o local, eu levava os livros para o banheiro). Eu nem consigo estipular um número de livros que eu tenha lido durante toda a minha vida. Mas arrisco dizer que eu já conheça todos (ou a maioria) dos grandes clássicos da literatura mundial.

Sinceramente, eu não consigo me ver fazendo outro coisa a não ser em lecionar o que eu amo. Eu creio que devo ter puxado isso do papai: além de ser um artista plástico, ele também deu aulas em universidades por um bom tempo. Ele me deu o seu total apoio em minha decisão de cursar Letras, ao contrário da minha mãe (é claro). Ela queria que eu almejasse uma carreira "mais glamurosa" — em outras palavras, ela desejava que eu seguisse os passos dela no universo da moda, o que é algo que nunca me atraiu.

Como eu estava dizendo, hoje foi o meu primeiro dia de aula na faculdade. Não posso negar que eu senti um frio na barriga quando cheguei ao campus. Eu já sabia que seria diferente da escola, mas é algo ainda mais grandioso do que eu pensava. Uma nova fase da minha vida começou. Além disso, eu não moro mais com o meu pai. Já que a universidade fica longe de onde ele mora com a Selena, seria melhor procurar um lugar mais próximo. Mas há outra coisa também: desde que o meu pai se casou com a Selena, eu passei a me senti tipo uma "intrusa" naquela casa. O meu pai nunca se incomodou com a minha presença, muito menos a Selena — ela, aliás, sempre me tratou muito bem (eu posso dizer que ela tem sido uma mãe para mim). Mas mesmo assim, eu sinto que lá não é mais o meu lugar. Afinal, eu já sou uma adulta e é hora de buscar a minha independência (apesar de que as despesas com a universidade serão bancadas pelas economias que os meus pais guardaram para mim... Não que eu esteja sendo ingrata, mas espero mudar essa situação logo).

Em uma rede social, eu encontrei o anúncio de uma garota que estava procurando alguém para dividir um apartamento que fica bem perto da universidade. Eu não perdi tempo e entrei em contato. Depois, não demorou muito para que eu fosse conhecer o apê e a sua moradora: ela se chama Lanita e está cursando Medicina. Além de ser muito bonita, ela é super simpática e estamos nos dando bem até agora (mas ela não passa muito tempo em casa, já que passa muito tempo na universidade). Até então, tudo está indo perfeitamente normal (e espero que as coisas permaneçam assim).

Quanto aos meus colegas de turma, eu confesso que levei um susto quando entrei na sala de aula: nós somos vários! Quero dizer, é muito mais do que eu imaginava. Se não me engano, nós somos quase 50 alunos. Quando cheguei, eu pensei que não encontraria um lugar disponível, mas três garotas me mostraram uma carteira livre ao lado delas. Então, eu conheci as minhas primeiras colegas de faculdade: uma delas se chama Vanessa e ela veio de outra cidade para estudar aqui, assim como a Ana, que também aparentou ser muito simpática. Há também a Ashley, que por sua vez... Bem, ela também é legal e foi muito solícita comigo. Mas durante a aula, ela passou aquela imagem de "aluna super certinha", daquele tipo "nerd" que não se incomoda em ostentar as suas conquistas: eu perdi as contas de quantas vezes ela falou que havia passado em primeiro lugar em vários vestibulares, e que durante toda a sua vida, sempre foi a número um de todo o colégio. Quando os professores faziam alguma pergunta (mesmo se fosse uma retórica), ela respondia imediatamente, sem dar nenhuma chance para quem quer que fosse. Talvez seja uma opinião um pouco prematura a seu respeito, mas eu pude ver um certo espírito competitivo em seu olhar. Isso não me incomoda, é claro. Afinal, eu já encontrei as pessoas certas para formar os futuros grupos de trabalho, o que é uma preocupação a menos para quem não é tão sociável.

Como havia dito, eu imagino que não terei muito tempo para vir escrever aqui diariamente. Já no primeiro dia de aula, todos os professores nos abarrotaram de tarefas. Por falar nisso, eu preciso parar agora porque um dos inúmeros textos para a próxima aula me espera. Voltarei aqui quando tiver alguma novidade interessante.

~ x ~

Após pausar a sua leitura, Alina teve uma ligeira regressão — ela conseguia se lembrar de algumas coisas que havia mencionado naquele texto: em sua mente, ela visualizava as discussões que tivera com a mãe, quando anunciou que havia se inscrito no vestibular para o curso de Letras. Ela viu e ouviu também o seu pai, que sempre intervinha para lhe defender. Os nomes de suas colegas de turma não lhe eram estranhos, mas a imagem de seus rostos estava ainda imprecisa em sua memória. Mas foi um determinado trecho que lhe chamou mais atenção: "... o fim de um relacionamento de três anos".

Alina se lembrou de Josh, o seu primeiro namorado. Eles haviam se conhecido no Ensino Médio e tiveram um relacionamento durante todo esse período escolar. Alina recordava que, assim que chegou à escola, ele logo se tornou popular. Além de sua aparência ser considerada atraente para muitas garotas, Josh era um aluno que sempre se destacava nos estudos e nos esportes. Alina se lembrou também de quando descobriu que os seus sentimentos por ele eram recíprocos. No entanto, o relacionamento acabou no último ano escolar: Josh havia se mudado para outra cidade e, então, ambos não souberam lidar com a distância.

Ela não podia esconder o quanto estava feliz por ter conseguido se lembrar desses fatos. Um grande sentimento de alívio lhe preencheu, além da esperança de poder recuperar todas as suas memórias por meio daquele diário. Entretanto, algumas batidas na porta interromperam o seu momento de descoberta.

— Entre! — Disse após fechar o caderno. Uma vez dada a ordem, Selena abriu a porta.

— O jantar está servido. Você vem comer com a gente?

— Claro. Eu já estou indo.

Selena fechou a porta e partiu em seguida. Já Alina, ela se levantou da cama e encarou o seu diário por um instante. Sem sombra dúvida, aquilo era um achado inesperado e precioso. Mas agora, uma questão lhe incomodava: ela deveria revelar aos outros sobre a existência daquele diário?

Alina não sabia ainda o que iria encontrar naqueles papéis. Era algo íntimo. Além disso, ela não tinha certeza se realmente iria conseguir recuperar as suas memórias por meio dele. Ela não queria dar falsas esperanças a ninguém. Sendo assim, ela optou por manter o seu diário em segredo — pelo menos, por enquanto. Seria melhor aguardar o que o restante da da sua história lhe reservava. Então, após refletir, Alina colocou o diário debaixo do travesseiro e partiu do quarto, a fim de se reunir com a sua família para o jantar.

Ao chegar à sala de jantar, o seu pai, a Selena e a Nina já estavam sentados à mesa. Durante a refeição, Adam falava sobre os preparativos de sua próxima exposição. Enquanto isso, Alina mal tocava em sua comida, estando distraída com os seus pensamentos — ela refletia ainda sobre aquilo que havia lido, e se sentia ansiosa para descobrir o restante de sua própria história.

— Está tudo bem, filha? — Sem que ela tivesse percebido, o seu pai parou a conversa ao vê-la tão silenciosa na mesa.

— A sua comida ainda está toda no prato — Selena observou — Não está bom para você?

— Ah, não! Está tudo bem e não há nenhum problema com a comida. Eu só não estou com muita fome...

— Você precisa se alimentar direito, Alina. A sua recuperação depende disso — Adam advertiu.

— Eu sei, mas só não estou com muito apetite agora... Se vocês me dão licença, eu gostaria de voltar para o quarto.

— Tem certeza de que está tudo bem, Alina? — Selena perguntou com um ar ainda mais preocupado.

— Sim... Eu só estou um pouco cansada. O dia foi cheio com a saída do hospital e, depois, com a mudança.

— Então vá e descanse, querida — Disse Adam — Mas tente comer alguma coisa depois. Ah! E não se esqueça de tomar os seus remédios na hora certa.

— Não se preocupe, pai. Eu prometo que irei me cuidar — Após se despedir da família, Alina foi em direção ao seu quarto. Durante a refeição, ela não conseguia pensar em outra coisa que não fosse o seu diário. Na verdade, ela se sentia um pouco mal por esconder a sua descoberta. Entretanto, algo lhe dizia fortemente que aquela não era a hora certa.

Quando voltou, Alina se jogou imediatamente na cama, retirando o diário debaixo do travesseiro com certa ansiedade. Mas antes de continuar a leitura, Alina refletiu: ao olhar para o seu notebook e as pilhas de livros em cima da escrivaninha, ela se lembrou de que deveria retomar os seus estudos para que pudesse retornar à faculdade logo. Mas, ao mesmo tempo, redescobrir o seu passado também era fundamental para que ela desse continuidade à sua vida. Além do mais, o seu diário não deveria lhe exigir tanto tempo, já que se tratava de uma leitura mais rápida. Então, após pensar um pouco, Alina decidiu abrir o diário onde parou.

Conforme havia anunciado na primeira página, Alina não escrevia diariamente — e assim como ela também tinha imaginado, os primeiros dias na faculdade foram tranquilos e não lhe renderam tantas palavras. Muitas folhas estavam preenchidas com anotações das aulas e com gravuras variadas. Durante a leitura, ela descobriu que as suas notas eram ótimas, o que lhe rendia constantes elogios dos professores, e até mesmo do próprio diretor do departamento — e isso obviamente lhe tranquilizava. Ela descobriu também que, certa vez, o diretor havia lhe dito que conhecia o seu pai — já que ele havia lecionado naquela universidade no passado — e que admirava o seu trabalho.

Tudo parecia monótono, e Alina se perguntava se ela deveria ler as últimas folhas escritas logo de uma vez — já que elas abordariam os acontecimentos mais recentes. Alina estava tão acostumada com esta leitura linear, que ela mesma não havia percebido antes que poderia ter começado a partir do final. No entanto, assim que virou uma página, uma data lhe chamou atenção.

— 12 de junho de 2018? Isso foi no ano passado — Disse consigo mesma ao se deparar com aquela escritura mais recente. Aliás, ela não mal havia redigido no ano anterior. Abaixo da data, havia um texto não tão longo.

~ x ~

Eu sei. Eu não tenho sido uma escritora fiel. Mas eu decidi aparecer por aqui para registrar uma novidade. Meses atrás, eu havia me candidatado a uma vaga de estágio em um colégio super requisitado aqui, na cidade. Especificamente, é uma daquelas escolas de filhinhos de papai, de onde saem inúmeras aprovações nos vestibulares. Na verdade, foi o Senhor Mendel, o diretor do departamento, que me falou sobre o estágio. É claro que eu fiquei interessada, afinal, eu preciso fazer um estágio em algum momento do curso. Eu enviei um e-mail para alguns professores, perguntando se eles podiam fazer uma carta de recomendação. Para a minha surpresa, todos eles responderam gentilmente ao meu pedido.

Então, hoje, eu tive o retorno: eu fui aprovada para o estágio! Eu irei ser assistente da professora de literatura no Colégio Hans Greenfield, e começarei no próximo semestre, já depois das férias. Eu acho que a Ashley ficou meio chocada com a notícia, mas ela vai superar. Eu não quero soar arrogante, mas espero que eu consiga lidar com um bando de patricinhas e mauricinhos na puberdade. Mas como dizem, toda experiência é válida.

~ x ~

— Eu estagiei na Greenfield? Isso é... incrível! — Disse ainda sem acreditar naquilo que havia lido. Mas além de surpresa, ela estava feliz e orgulhosa de si mesma. Se antes ela se sentia receosa em descobrir o seu passado, agora ela estava mais segura e otimista.

Nas páginas seguintes, ela descrevia brevemente o andamento de seu estágio. Não foi uma experiência ruim. No início, Alina acompanhava as aulas da Senhora Belini, além de participar do planejamento do curso e das reuniões — ou seja, aquele primeiro momento lhe servia para se familiarizar com o ambiente escolar. Mas para a sua surpresa, houve dias em que ela foi encarregada de substituir a professora. Então, pela primeira vez em sua vida, ela lecionou.

~ x ~

Eu nem acreditei quando a Senhora Belini disse que eu a substituiria nas próximas aulas. Ela precisou repetir isso para mim. Eu sabia que esse dia chegaria — aliás, no primeiro dia do estágio, ela havia me dito que eu também daria aulas, mas não imaginei que seria tão cedo. Segundo a professora, eu já estou preparada e ela tem confiança em mim. Bem... eu espero não decepcioná-la então.

Hoje foi o meu primeiro dia como professora. Eu pensava que eles não iriam me respeitar, já que a minha aparência jovial não deve transmitir muita autoridade e capacidade. Embora seja o meu sonho, quando subi naquele tablado e encarei a sala repleta de adolescentes me encarando, as minhas mãos começaram a suar. Admito que eu tive que me esforçar bastante para não deixar a minha insegura transparecer. Mas para a minha surpresa, tudo começou a fluir à medida que eu falava.

Eu também me enganei a respeito do perfil da turma. Mesmo sendo de famílias ricas, até que eles sabem ser legais. É claro que há uma ou duas frutas podres, mas o restante é atencioso e participativo — isso é uma coisa que não acontece muito nas aulas da Senhora Belini: eles costumam ouvir tudo em silêncio, raramente levantam a mão e fazem um grande esforço para não adormecer. Eu acredito que eles devem se identificar comigo por eu ser mais jovem — a nossa diferença de idade não é muito grande. Então, eles devem se sentir mais à vontade comigo (Olha só! O que eu pensava que poderia me prejudicar acabou contando a meu favor!).

Quando a aula estava chegando ao fim, um dos alunos disse que eu ensino melhor do que a Senhora Belini, e os seus colegas concordaram. Eu senti as minhas bochechas queimando no mesmo instante! Eles disseram que entendem melhor o conteúdo comigo, pois eu utilizo uma linguagem mais simples. Além disso, todos eles gostaram muito quando comecei a associar algumas séries de TV com os clássicos da literatura (por exemplo, eles não sabiam que a série "Lost" tinha algumas influências do livro "O Senhor das Moscas").

Não posso negar que fiquei extremamente feliz e orgulhosa por este feedback. Eu não sei por quantas vezes eu irei lecionar, mas espero que sejam muitas. Hoje eu tive a certeza de que eu nasci para isso.

~ x ~

As páginas seguintes continuavam falando sobre o estágio. De fato, era um grande alívio saber que ela já estava bem encaminhada em seu percurso universitário, e até mesmo profissional. Alina concluiu o seu estágio no final daquele mesmo ano, tendo recebido muitos elogios dos alunos, dos professores e até mesmo do diretor da escola. Foi uma experiência enriquecedora.

De acordo com os seus relatos passados, tudo parecia normal e positivo em sua vida. Ao mesmo tempo em que Alina se sentia aliviada e satisfeita, ela também se lamentava que o seu caminho tenha sido desviado inesperadamente por algo inexplicável. A respeito do ocorrido, Alina não tinha encontrado nada que pudesse se remeter a isso. No entanto, havia ainda algumas páginas escritas — as suas esperanças não estavam perdidas.

Prosseguindo a leitura, ela chegou ao primeiro dia de um novo semestre na faculdade — e isso lhe chamou atenção, já que, anteriormente, ela não havia redigido sobre o primeiro dia de todos os períodos. Nesse caso, algo muito importante deveria ter acontecido naquela data para que pudesse estar registrada ali. Aquele era também um de seus textos mais recentes, pois tinha sido escrito no início do ano atual — e isso, claramente, lhe chamou muito a atenção. Ela sentia que estava cada vez mais perto daquilo que procurava.

~ x ~

Hoje começou mais um ano na universidade. Mais precisamente, o meu penúltimo ano. É uma ocasião muito importante, pois eu irei começar a trabalhar no projeto da minha monografia para que, enfim, eu possa me formar. Eu terei quatro disciplinas neste semestre: três obrigatórias e uma eletiva.

Na verdade, era para eu ter finalizado todas as eletivas no período passado, mas ficaria muito sobrecarregada com o estágio e, assim, não teria me dedicado tanto quanto queria. De qualquer forma, eu não devo ter muitas matérias no próximo semestre e, no ano que vem, estarei 100% disponível para a minha monografia. Bom, eu espero que isso seja possível, principalmente se não houver "distrações" no meio do caminho... Aliás, hoje, eu não estou escrevendo aqui apenas para anunciar a nova fase da minha vida. Mas especialmente para confessar uma coisa que me deixou "curiosa". Vamos começar pelo início...

Neste semestre, as aulas serão no horário da tarde. Eu poderia ter aproveitado melhor o meu sono pela manhã, mas acabei acordando cedo. Nesse caso, eu decidi ir para a universidade o quanto antes. Após comer um lanche (que substituiu o meu almoço) e tomar uma ducha, gastei um tempo para definir o que vestiria para o dia de hoje. Esse fato me estranhou, pois geralmente não levo muito tempo para me arrumar. Talvez isso fosse um sinal de que o meu dia seria especial. Mas após muito pensar, eu acabei escolhendo algo simples: uma camiseta preta (não muito decotada, é claro) e uma calça jeans de cintura alta, acompanhadas por um par de botas pretas e sem salto. E como sempre, deixei os meus cabelos ondulados soltos e, de maquiagem, apenas um blush, rímel e um batom vermelho não tão chamativo.

O caminho para a universidade foi normal. Hoje eu decidi não ir na minha scooter, pois, já que estava adiantada e o dia estava lindo, optei por aproveitá-lo melhor com uma caminhada. Então, eu segui a pé, atravessando o parque, e não demorou para que eu chegasse lá.

Eu não havia pressentido que o dia poderia ser especial? Pois é, eu acho que me enganei. Quando cheguei ao campus, eis um problema: descobri que mudaram a numeração das salas e, então, a minha primeira aula havia mudado de lugar. Mas para onde? Não tinha nem ao menos um aviso pelos corredores. Não é novidade que a comunicação seja um problema nesta universidade. E já que eu havia chegado cedo, não havia muitas pessoas que talvez pudessem me ajudar.

No mesmo instante, eu peguei o celular e enviei uma mensagem para as meninas, perguntando se elas sabiam a sala correta da aula de Literatura Comparada. Enquanto esperava pela resposta, decidi ir até o salão principal — talvez haveria alguma informação por lá. Quando cheguei ao meu destino, havia quase ninguém, com exceção de alguns calouros ansiosos e perdidos. Fui em direção a um grande painel, onde informava os horários de todas as aulas e seus respectivos locais.

— Droga! — Esbravejei ao descobrir que não tinham ainda atualizado as salas.

Mesmo assim, continuei analisando as informações no mural, na esperança de encontrar algum comunicado ou outra coisa que pudesse ser útil. Sem perceber, eu me movia lentamente para o lado, enquanto me mantinha concentrada na minha busca. De repente, eu acabei esbarrando em algo ou alguém.

— Desculpa! — Falei sem ao menos olhar para o lado.

— Tudo bem! Você precisa de alguma coisa? — Disse uma voz masculina desconhecida.

Quando eu finalmente olhei para a pessoa ao lado, o mundo parecia ter parado ao meu redor. Assim que me virei, deparei-me com um par de olhos verdes que me encaravam gentilmente, o que foi o suficiente para me deixar sem fala e fazer com que as minhas mãos começassem a transpirar. Tratava-se de um homem alto, moreno, que eu nunca tinha visto por ali. Ele vestia uma camisa verde e uma calça jeans — um visual simples e despojado — e carregava dois ou três livros com uma das mãos, mantendo-os apertados contra o peito. Os seus braços eram fortes e definidos, mas não tão musculosos como daqueles idiotas da academia. Talvez ele fosse um calouro, embora não aparentasse.

— É... Como...?! — Disse após ter saído finalmente do meu transe.

— Eu perguntei se você precisa de alguma coisa — Respondeu calmamente — Você parecia estar procurando por algo, mas sem sucesso.

"Ele estava reparando em mim durante este tempo?", perguntei-me mentalmente enquanto me sentia cada vez menor diante daquele olhar.

— Ah, sim! É verdade! — Falei ainda mais sem jeito. Naquele momento, o meu rosto estava prestes a corar e eu me detestava por isso — Eu descobri que mudaram as salas de última hora, e agora eu não sei onde será a minha aula.

— Qual é a sua aula?

— Literatura Comparada.

— Quinto período de Letras, não é? Então, ela será na sala 15, do bloco B — Disse com convicção — Na verdade, todas as disciplinas do quinto período adiante serão naquele bloco.

Ao ouvir tal informação, eu me surpreendi ainda mais. Afinal, se ele realmente fosse um novato na universidade, como ele poderia saber disso? Eu precisava descobrir mais.

— Perdão, mas você tem certeza?

— Eu acabei de passar pela secretaria. Além disso, amanhã eu tenho a disciplina "Estudos Literários IV" na mesma sala.

— Estudos Literários IV? — Eu não pude esconder a minha nova surpresa. Aquilo começava a me parecer um pouco estranho — Eu também me matriculei nessa disciplina.

— Sério? — Disse com um sorriso radiante — Que ótimo! Eu espero que você goste das aulas.

— Na verdade, esta foi a única eletiva que me atraiu, e eu precisava apenas de uma para completar a minha carga horária. Mas eu acho interessante a relação da literatura com as outras práticas culturais que esta disciplina propõe a fazer.

— A literatura é um terreno muito amplo para nós ficarmos presos apenas em conceitos da área. Seria uma pena desperdiçar isso — Ele dizia com uma sutileza admirável.

— Sim... Eu só espero que o professor seja capaz de transmitir isso muito bem.

Ele respondeu com um sorriso belo e cativante, como se tivesse achado engraçado o que eu havia acabado de dizer — mas isso foi o bastante para me desestabilizar ainda mais. Mas, em seguida, parecia que ele havia se lembrado de alguma coisa, olhando para o seu relógio de pulso.

— Sinto muito, eu preciso ir agora. Então, nós nos vemos amanhã?

— C-Claro...!

— Ah! E a propósito... Eu me chamo Marcos. Marcos Conti — Ele estendeu a mão, mantendo o seu olhar de esmeralda fixo nos meus olhos.

— Eu sou Alina... Tillmann. Alina Tillmann — Respondi apertando a sua mão. Infelizmente eu não tive tempo para secar discretamente as minhas mãos suadas. Eu me senti totalmente ridícula ao saber que ele, naquele momento, percebia a umidade do meu nervosismo por meio do seu aperto forte e quente. Ele acabou de me conhecer e já deve me achar uma completa idiota.

— Eu tenho certeza de que nós nos veremos bastante neste semestre — Disse após soltar a minha mão, começando a se afastar — Até amanhã, Alina!

Ele partia, mas ainda olhava para mim por cima do ombro, até que ele se virou e seguiu o seu caminho. Quanto a mim, eu permaneci ali, estática e certamente com o rosto avermelhado. Eu me amaldiçoava silenciosamente por ter agido daquele jeito estranho, enquanto o meu nome pronunciado pela sua voz ainda ressoava na minha mente.

~ x ~

 



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