História Memórias Rasgadas - Capítulo 53


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Categorias Shingeki no Kyojin (Attack on Titan)
Personagens Annie Leonhardt, Armin Arlert, Connie Springer, Eren Jaeger, Erwin Smith, Farlan Church, Hange Zoë, Historia Reiss, Isabel Magnolia, Jean Kirschtein, Levi Ackerman "Rivaille", Marco Bott, Mikasa Ackerman, Nanaba, Personagens Originais, Petra Ral, Sasha Braus, Ymir
Tags Attack On Titan, Drama, Eren, Levi, Shingeki No Kyojin
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Palavras 5.355
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ecchi, Fluffy, Hentai, Lemon, Romance e Novela, Universo Alternativo, Violência, Yaoi, Yuri
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Obrigada pelos comentários, mensagens, favoritos e a todos os que acompanham a fic!

E mil desculpas pelo atraso, mas o trabalho tem sido bem intenso e tenho pouco tempo livre mas espero que os próximos dias sejam um pouco mais calmos.

Capítulo 53 - Capítulo LIII


Capítulo LIII

 

O toque no ombro repetiu-se mais uma vez e como por fim, conseguia dormir sem interrupções e de forma bem profunda e relaxada, o homem de cabelos negros virou o rosto contra a almofada. Queria transmitir a mensagem a quem quer que fosse, que ainda não queria acordar. Porém, o toque no ombro dele e uma voz distante que começava a ouvir-se, não desistiam. Em resultado disso, os olhos de tonalidade cinzenta reapareceram vagarosamente por detrás das pálpebras. Com os sentidos a despertar para fora daquele mundo sem ruído e sereno, Levi esperava encontrar a face do moreno ou até sentir o perfume dele. Só que ao ver a figura debruçada sobre ele, a mão do empresário depressa empurrou o amigo.

– Farlan? O que estás a fazer?

– A tentar acordar-te. – Respondeu e sorriu divertido. – Desiludido por não ser o Eren?

– Onde está ele? E a Bia? – Perguntou, bocejando. – E a Estela como está? A dormir?

– A Bia e o teu Eren foram visitar o Eduardo. – Esclareceu, vendo o amigo sentar-se na cama e espreguiçar-se. – A Estela está a dormir e desculpa, sei que estavas mesmo a precisar de descanso, mas a Isa disse que precisava mesmo de falar contigo. Deduzi que como já estás aí há várias horas até sem comer, que esta fosse uma boa altura para regressares ao mundo dos vivos.

– Sim, foi bom que me tenhas acordado. – Falou, saindo da cama. – Se a Isa está a ligar é porque precisa de mim lá na Survey Corporation.

– Ah, isso é que já não sei se é uma boa ideia. – Comentou o amigo de cabelos dourados, vendo o amigo parar na frente do guarda-roupa.

– O quê? – Perguntou o dono dos olhos cinza, escolhendo algumas roupas.

– O Armin disse que o ideal seria que não saísses de casa. Se calhar, podes resolver as coisas só ligando para a Isa. Afinal de contas, ela está lá com a Petra e também com a Hanji. Tenho a certeza que seja o que for, falar contigo por uns minutos deve ser a solução e isso pode ser feito através de uma simples chamada. – Tentou argumentar e encontrou uma expressão pouco convencida do outro.

– A Isabel não é o género de pessoa que pede ajuda quando pode resolver sozinha. Deve ser alguma coisa importante e além disso, sinto-me bem melhor depois de ter dormido. Vou só tomar um duche rápido, pegar em qualquer coisa para ir comendo a caminho da empresa. Depois ainda quero ver se vou a tempo de visitar o Eduardo.

– Levi, eu acho que…

– Estou bem, Farlan. A sério que aprecio a preocupação, mas é como dizes, preciso de voltar ao mundo dos vivos. – Sorriu um pouco.

Agora que se sentia revigorado após horas de sono decente, Levi não queria continuar protegido de tudo em casa, à medida que os seus amigos tratavam das responsabilidades dele. Para começar teria que ir à própria empresa, ainda que a sua vontade fosse reencontrar Eren e também colocar a filha nos braços. A realidade à sua volta estava despejada de sombras, vozes e dos pesadelos que o atormentaram ao ponto de questionar a sua sanidade. O que o levava a concluir que o moreno tinha razão. O que levantava outras questões envolvendo Mike ou quem é que teria comprado a medicação que consumiu. No entanto, ele não queria focar-se muito nisso por enquanto. O sorriso regressou ao rosto dele ao recordar-se de como Eren apesar de todas as circunstâncias e motivos válidos para duvidar dele ou questionar o seu estado mental, não hesitou em manter-se ao seu lado. Providenciou não só apoio físico, como também as palavras de carinho reconfortantes.

Levi queria vê-lo. Queria agradecer-lhe de novo e repetir de novo que o amava porque era cada vez mais verdade. Cada vez que o dizia, cada vez que refletia acerca dos seus sentimentos concluía que não podia mesmo seguir a vida dele sem o moreno ao seu lado.

Além disso, a filha mais do que aprovava, o que era sem dúvida um ponto positivo. Bianca que apesar de não ser consciente de tudo à sua volta, nem mesmo conhecer a dimensão dos medos pelos quais ele passou, a pequena abraçou-o e ficou ao seu lado juntamente com o pequeno Kuro. Quanto mais pensava nisso, mais queria abraçar os três. Queria retribuir o carinho que sentiu nos últimos dias. Aliás, pensando bem, os amigos também mereciam consideração. Ele teve que apoiar-se bastante neles ultimamente.

– Eld? Foi o Bertholdt que saiu com o Eren e a Bia? – Chamou o segurança que caminhou na direção do dono da residência.

– Sim, saíram há algum tempo. Vai sair também, Sr. Smith? – Perguntou e havia alguma apreensão no tom de voz dele. – Talvez não seja uma boa ideia agora.

– Porque não? – Questionou Levi, encarando o segurança.

– A comunicação social está um pouco intensa hoje.

– Estão sempre à procura de alguma coisa, mas eu não posso parar a minha vida por causa disso. – Respondeu, caminhando na direção de um dos carros.

– Sim, mas penso que isto está a assumir outras proporções…

– Eld, o que é que se passa? – Exigiu saber, parando para olhar mais uma vez de frente para o segurança que demonstrava hesitação.

Contudo, perante a insistência do patrão, o homem de cabelos loiro e usualmente de expressão pacata e alegre, decidiu mostrar as notícias que o próprio estava a ver no telemóvel. Algo que colocava aquela inquietação no rosto dele e estava certo de que o empresário podia não reagir bem quer aquilo fosse ou não verdade.

Era como se a comunicação social tivesse sido bombardeada com vários furos jornalísticos. Informação que durante anos Erwin impediu que curiosos investigassem, colocando entraves legais bem pesados a qualquer jornalista que tentasse saber mais do que deveria. Só que de alguma forma, tudo avançava como uma avalanche. Artigos sobre a sua infância num dos piores bairros de sempre em que destacavam a letras garrafais “Educado por uma prostituta barata” e “Criado por criminosos”. Outros artigos com testemunhos de colegas de escola ou faculdade que o descreviam como o indivíduo isolado, enfiado em drogas e bebidas e promíscuo assim como a mãe.

– Sr. Smith?

Não ia continuar a ler aquelas coisas até porque não podia perder tempo ali a lidar com aqueles abutres. Todavia, um dos artigos fez com que parasse para ler mais um pouco. Ele era não o único visado, pois apesar de muitos conhecerem a vida boémia e desregrada de Eren no passado, agora pelos vistos decidiram tornar virais alguns vídeos onde se incluíam as festas, os maus vícios e a variedade de parceiros sexuais. O artigo destacava como Levi e Eren no fim de contas tinham mais em comum do que o público conhecia. Os comentários eram esmagadoramente maldosos.

– Tenho que ir à Survey Corporation, Eld. – Disse ao fim de um longo silêncio e entregando o telemóvel ao segurança.

– Como quiser. – Respondeu o outro e só parou ao ver que um colega acabava de chegar. – O Reiner acaba de chegar, Sr. Smith.

– Sr. Smith ainda bem que o encontro. – Falou Reiner que claramente também deveria estar ao corrente das notícias recentes. – Não penso que seja uma boa ideia sair agora.

– Não vou esconder-me em casa. – Respondeu Levi. – A minha vida não vai parar por causa destas coisas. Tenho uma empresa para gerir e assim que falar com a Historia bastantes jornais e revistas que processar.

– Agora que o Reiner está aqui, ainda quer que o acompanhe, Sr. Smith? – Perguntou Eld. – Um de nós devia ficar pela casa para nos assegurarmos que curiosos ou a comunicação social não decide fazer um cerco cá fora por causa destas notícias.

– O Reiner vem comigo. Obrigado, Eld. – Falou, entrando no carro e com o próprio telemóvel na mão tentou em primeiro lugar contactar Eren. Não queria imaginar o que todos aqueles artigos nojentos com vídeos podiam estar a fazer com o bem-estar do moreno. Só que ao tentar ligar, percebeu que o telemóvel dele estava desligado e o empresário pensou que a razão pudesse ser exatamente para não estar atento à maldade que circulava nas redes sociais.

– Pensei que o Bertholdt estivesse em casa consigo, Sr. Smith. – Comentou o Reiner, procurando atenuar o clima tenso dentro do carro.

– Ele foi levar o Eren e a Bia ao hospital para visitar o Eduardo. – Explicou. – Gostava de ir para lá agora, mas a minha prioridade neste momento tem que ser encontrar-me com a Isabel. Até porque penso que a necessidade dela em falar comigo tem alguma coisa a ver com todo este lixo que corre nas redes sociais.

– Sr. Smith quero que saiba que pouco importa o que aparece na comunicação social, sabe que tem a minha amizade e lealdade.

– Obrigado, Reiner ainda que… – Suspirou. – Algumas das coisas que dizem por lá não sejam totalmente mentira.

– Pouco importa. A pessoa que eu conheço e que está aqui é que é a verdadeira. – Afirmou Reiner.

Recostando-se no carro, os olhos cinzentos observaram a cidade que agora devia estar entretida com as notícias acerca da vida dele, que em tempos Erwin fez os impossíveis para manter debaixo do tapete.

 

Flashback

– Pareces exausto. – Comentou o dono dos olhos cinzentos, entrando no gabinete do esposo que esboçou um sorriso que apesar de tentar transmitir conforto, não escondia o cansaço por detrás das íris de cor azul.

– Conheço esse olhar, Erwin. – Falou e parou de andar quando estava ao lado da cadeira do outro. – Estás outra vez a tentar proteger-me de tudo, mas…

– Mas…?

– Sei que agora talvez precise um pouco de apoio, mas um dia é suposto saber lidar com estas coisas. – A mão do loiro pegou na dele, apertando-a um pouco. – E por tudo o que tu e os outros têm feito por mim, não vos vou desapontar.

– Sei que não, mas por agora deixa-me fazer estas coisas. Prometo que não te quero fechar num mundo de cristal, pelo contrário quero que aprendas perfeitamente a lidar com o que te espera lá fora.

Fim do Flashback

 

Foi com essas lembranças que entrou na empresa e depressa concluiu que alguns dos funcionários dirigiam-lhe olhares que não escondiam que teriam lido as notícias recentes. Se é que podia chamar aquilo de notícias. Há anos atrás ver-se no centro daquele tipo de atenções, teria feito com que entrasse em pânico e quisesse refugiar-se onde fosse o mais invisível possível, mas essa pessoa já não era ele.

Mantendo a cabeça erguida caminhou até ao elevador, verificando o telemóvel mais uma vez. Não havia qualquer contacto de Eren ainda e pela hora ainda esperava ir a tempo de visitar Eduardo. Porém, não sabia o que ia encontrar quando falasse com Isabel por isso, era precoce estar a fazer planos.

Ao entrar no espaço que daria acesso ao seu gabinete, não esperava encontrar dois advogados que viu em outras ocasiões de pequenos processos que Historia, também presente ali, não teve problemas em vencer. Além desses também estavam alguns familiares de Oluo e embora não houvesse sinais da família de Sasha ou Connie, Levi arriscaria dizer que isso teria algo a ver com o facto de haver dois advogados e não um. Perto de Historia encontrava-se Isabel enquanto Petra numa sala mais adiante estava ao telefone.

– Até que enfim se dignou a aparecer, Sr. Smith. – Comentou um dos advogados que lhe entregou um cartão com o nome Carlos Monteiro.

– Cheguei a comentar com o meu colega que devia estar a tentar amedrontar… – Tossiu o segundo advogado com um meio sorriso. – Digo, convencer a comunicação social a não publicar certos artigos. No entanto, é necessário separar o privado do profissional e…

– Eu sei perfeitamente como gerir a minha vida. – Interrompeu Levi. – É o senhor, cujo nome não se dignou a dizer que não sabe separar as coisas e que claramente, não está apto para dar lições de moral a ninguém. – Ignorou o olhar mal-humorado do advogado que acabou por se apresentar como Pedro Silva.

– É incrível a arrogância de alguém que causou danos irremediáveis na vida destas pobres pessoas. – Disse o primeiro advogado, Carlos.

– Apenas estava a responder no mesmo nível a que se dirigiram a mim, mas obviamente não fujo das minhas responsabilidades. Se quiserem falar dentro da sala de reuniões, pelo menos podem ter espaço para se sentar. – Disse o empresário, começando por dirigir-se novamente aos advogados e em seguida aos elementos da família de Oluo.

Quase nem foi necessário que tanto Isabel como Historia o colocassem dentro do assunto. Não podia imaginar outra razão para que aqueles advogados ali estivessem, se não estivesse relacionado com o ocorrido durante o velório. Portanto, assim que se acomodaram na sala de reuniões, olhou-os nos olhos e disse que lamentava pelo que tinha acontecido e que sim, era consciente de que algo terrível podia ocorrer naquele dia, mas adiar não resolveria nada. Ele estava certo de que mesmo que as cerimónias fúnebres fossem adiadas, o responsável por aqueles acontecimentos não teria problemas em esperar mais um pouco. O objetivo era atingi-lo e disso não restava qualquer dúvida.

É claro que os advogados disseram que aquilo podia ser tudo paranoia, ao que Historia respondeu que Levi tomou todas as precauções possíveis para evitar mais vítimas e que caso não tivesse arriscado a própria vida, provavelmente estariam a enterrar outras pessoas.

– Ter dinheiro no bolso não o coloca num patamar acima das autoridades. Eles é que deviam ter-se ocupado disso em vez de aproveitar a ocasião para exibir mais alguma maquineta nova da Survey Corporation. – Acusou o advogado Pedro.

– Só uma mente doente consegue ver o que aconteceu no velório como uma tática de marketing para o que quer que seja. – Comentou Historia. – Por favor, o senhor abstenha-se desses comentários desagradáveis. O meu cliente já disse que arcará com qualquer indemnização que queiram pedir, ainda que seja certo que já existia uma quantia preparada para ajudar os familiares nos custos. O objetivo desse dinheiro não é substituir vidas humanas, mas sim ajudá-los a seguir em frente com uma qualidade de vida diferente da que têm neste momento.

– Mais uma vez, lamento imenso pelas vossas perdas e sei que as minhas palavras não serão o suficiente para resolver o que quer que seja e nem o dinheiro os trará de volta, mas espero que possam aceitar o acordo que a minha advogada Historia vai propor. Se o valor tiver que ser mais elevado, eu não irei tentar negociar.

– E o pedido público de desculpas? – Quis saber o advogado Carlos.

– Marquem dia e hora e assim o farei. – Respondeu o empresário que infelizmente não conseguiu trocar muitas palavras com a família de Oluo e durante aquela reunião, Levi percebeu que o outro advogado defendia os interesses de Sasha e não de Connie como se pensava inicialmente. Aparentemente, os pais deste apesar de não compreenderem bem o que podia ter acontecido durante o velório, não pretendiam continuar a persistir num assunto que com certeza ainda estaria a consumi-los com uma dor imensa.

Após deixar Historia a terminar de falar com os outros dois advogados, Isabel que assistiu àquela reunião em silêncio e trocando algumas mensagens ou emails pelo tablet que trazia na mão, chamou-o para falarem à parte. Havia outro problema que estava a preocupá-la. A questão do ocorrido no velório, mas acima de tudo as notícias mais recentes, estavam a deixar a imagem do CEO bastante manchada e isso infelizmente estava a ter um impacto nas ações da empresa.

– Prometo fazer os possíveis com a Historia para colocar um travão em todo o lixo que tem surgido, mas não tenho a certeza de conseguir fugir de todas as consequências. – Falava a ruiva num tom preocupado.

– São perdas muito grandes?

– Para já é sustentável, mas temos que encontrar uma forma de dar a volta por cima disto. A desvalorização não pode continuar a este ritmo ou aumentar…

– Estás com receio que tenha que ir diretamente a algumas das contas que o Erwin deixou como intocáveis? – Suspirou. – Penso que seja complicado chegar aí, mas de qualquer das formas, talvez deva aproveitar que vou fazer um pedido de desculpas público, para também tentar atenuar essa questão.

– Espera, temos que combinar o que vais dizer.

– Isa, eu sei que podes querer florear, mas há coisas ali que são verdade e se as pessoas querem saber e falar, então que assim seja. – Falou, encolhendo os ombros. – O único que temos que fazer é continuar de cabeça erguida, continuar a fazer o nosso trabalho e manter os padrões de qualidade que a Survey Corporation sempre teve. A imagem pode ser importante, mas aquilo que nós produzimos aqui dentro e proporcionamos aos outros também o é. Se estamos com problemas num dos pontos, então temos que reforçar ainda mais o outro até que as coisas voltem ao de antes ou quem sabe, ainda melhore.

Isabel sorriu um pouco.

– Certo, agora fizeste-me lembrar o Erwin.

– É sinal que aprendi qualquer coisa. – Comentou, esboçando também um sorriso.

– Isso também, mas é qualquer coisa também tua. Mas ainda assim, precisamos acertar alguns dos pontos que vais abordar nessa conferência de imprensa que vamos preparar com a maior brevidade possível. É importante que esses abutres saibam a verdade, mas que seja dita como deve ser e não como eles querem.

– Então, fico nas tuas mãos para saber como vai ser essa conferência de imprensa. Confio nos teus conselhos. – Retirou o telemóvel do bolso. – Mas antes disso, será que posso tentar fazer mais uma chamada? Desde que acordei ainda não consegui falar com a Bia ou o Eren. Eles foram ver o Eduardo. – Comentava à medida que encostava o aparelho à orelha e via Historia aproximar-se com Petra que trocavam olhares apreensivos.

– Se o Reiner está ali na porta, quem é que está com eles? – Perguntou Historia.

– O Farlan disse que os dois saíram acompanhados pelo Bertholdt. – Respondeu, esperando que Eren atendesse a chamada.

– Desde que acordaste já conseguiste falar com ele? – Perguntou Petra.

Mais uma vez, a chamada não era atendida. Descartando os olhares preocupados que recebia, tentou contactar a filha. O tablet estava sempre nas mãos da pequena e se esse não fosse o caso, se Eren tivesse o aparelho na mão, também iria notar a chamada.

Contudo, ao contrário do que aconteceu com o moreno nem sequer ouviu o toque da chamada. Em vez disso, veio um som de interferência e de seguida, silêncio. Nunca tinha escutado uma coisa dessas antes. Teria ponderado a ideia de erro do tablet, mas as expressões daqueles que o rodeavam, começavam a colocar outras possibilidades na cabeça dele. O que apenas se confirmou quando a porta da sala de reuniões se abriu com Hanji que quase arrastava um Armin exausto atrás dela.

– Perdi o sinal do tablet da Bia e tu não estavas a tomar um simples relaxante. – Disse a mulher com a respiração alterada, indicado que devia ter saído a correr do laboratório. Usualmente, utilizaria o elevador para chegar ali, mas pelo estado dela e do jovem médico era óbvio que teriam vindo pelas escadas.

– Como assim perdeste o sinal? – Perguntou, saindo na direção do próprio gabinete.

– Há qualquer coisa a corromper os ficheiros. Pelo que percebi, focou em primeiro lugar na localização porque foi a primeira coisa que fui ver quando alarme do servidor principal soou. – Explicava a investigadora, seguindo atrás do amigo. – Nunca vi nada assim, mas qualquer coisa está a danificar a segurança. Não foi capaz de danificar outras áreas-chave, mas…

– Fui eu que desenhei a maior parte do software de segurança. Sem querer soar arrogante, não há assim tantas pessoas que possam fazer uma coisa dessas. – Digitou rapidamente qualquer coisa no teclado. – Projetar.

Tanto o ecrã como o teclado passaram a ser projeções à altura de Levi, que ia movendo os dedos sobre as teclas e inserindo várias informações diferentes.

– Sr. Smith? O que se passa? A Historia está a exigir que contacte o Berth, mas… – Disse Reiner.

– Conseguiste falar com ele? – Interrompeu Armin.

– É importante. – Disse a advogada. – Embora eu tenha o pressentimento que ele não vai atender. Eu pedi à Ymir que fosse ao hospital.

– Como assim…? Posso saber o que está a acontecer? – Perguntou Reiner.

– Há uma forte possibilidade de que o teu namorado seja um grande filho da puta.

– Hanji! – Petra repreendeu a companheira.

– Não, filho da puta é mesmo a designação correta. – Comentou Armin.

– Isso são… – Historia disse perplexa ao ver inúmeros ecrãs surgirem espalhados na frente de todos. – São as câmaras do hospital? Tu não podes aceder a isso sem uma ordem judicial.

– É a minha filha, quero ver quem me vai impedir.

– Usa o reconhecimento facial. – Sugeriu Hanji.

– Eu sei a que horas eles devem ter chegado. O Eren enviou-me mensagem. – Disse Armin, ajudando a filtrar as informações que apareciam nos ecrãs.

– Sei que é a Bia e o Eren que estão em jogo, mas gostava que não o ajudassem a infringir a lei. – Disse Historia pressentindo que mais dores de cabeça estavam a caminho. – Os dois estão a entrar ali. – Acrescentou, optando por ajudar a acabar com aquilo o quanto antes.

Todos focaram no mesmo ecrã, onde era possível ver Eren de mão dada com Bianca. Esta somente largou a mão do moreno por breves momentos para acenar na direção de onde estaria Bertholdt.

Hanji apontou para uma câmara de ângulo diferente, confirmando que o gesto da menina tinha sido na direção do segurança, que se manteve perto do carro.

– O carro é teu, certo? – Questionou Armin na direção de Levi. – Tenho a certeza que tiveste o cuidado de colocar qualquer coisa nele para que seja fácil localizá-lo.

– Mas antes seria melhor confirmar que o carro realmente saiu dali. – Comentou Historia.

– Decidiste colaborar connosco e parar de falar em infringir a lei? – Perguntou Hanji.

– É um pensamento lógico. – Interrompeu Armin. – De facto, eu não levaria o carro. Caso precisasse de fugir, trocaria de veículo.

– Do que estás à procura? – Perguntou Petra, vendo a expressão concentrada de Levi.

– Estou a puxar o tempo das câmaras para a frente e peço que tenham atenção também às câmaras do interior. – Pediu o empresário.

– Ali estão os dois a entrar no quarto de Eduardo. – Apontou Isabel, que ia dividindo a atenção entre os ecrãs projetados e o tablet que tinha nas mãos com as comunicações da empresa que não podiam ser ignoradas.

– O Eren saiu sozinho. – Referiu Petra.

– Esse idiota… – Murmurou Armin, deduzindo que a personalidade impulsiva do amigo teria prevalecido sobre a razão.

– A Bia saiu pouco depois. – Comentou Hanji preocupada.

– O Eren foi ao encontro do Bertholdt. – Concluiu Historia, apontando para um dos ecrãs. – É uma pena que não dê para ouvir o que estão a dizer.

– Mas a linguagem corporal já diz uma parte. – Comentou Armin. – Seja o que for que estejam a dizer, não parece ser uma boa conversa.

– A Bia está ali escondida. – Apontou Petra. – Parece…

– Está a gravar a conversa. – Concluiu Levi com um mau pressentimento que se confirmou pouco depois, quando deixou de alterar as variantes do tempo. O que parecia uma sombra a cobrir a boca de Bianca, logo revelou a identidade apesar das roupas escuras. O empresário reconheceria aquela fisionomia em qualquer lugar. O sangue gelou ao ver uma arma apontada à cabeça da filha.

– Aquele é… – Começou a investigadora, que também começava a reconhecer os traços de alguém que até hoje odiava com todas as forças.

– Kenny. – Murmurou Levi com um nó na garganta.

Eren também parou de falar para Bertholdt, que mantinha a postura calma e perturbadoramente indiferente. Mesmo sem som era evidente que Kenny e o segurança se conheciam e estavam a trabalhar juntos.

Todos assistiam em silêncio quando ameaçado também pela arma, Eren entrou na mala do carro. Em seguida, Kenny atirou Bianca sem cuidado para dentro do mesmo local. Não sem antes tirar-lhe o tablet das mãos e entregá-lo a Bertholdt. Pouco depois, os dois entraram no mesmo veículo e abandonaram o estacionamento do hospital.

– Eles saíram no teu carro. – Disse Petra, quebrando o silêncio que se tinha formado com a sequência daquelas imagens.

– É melhor verificar até onde foram, mas acredito que tenham trocado de carro. – Falou Armin. – O Bertholdt deve saber que seria facilmente encontrado se ficasse naquele carro.

– Levi? – Chamou Hanji preocupada com o silêncio do amigo.

– Ele tem a minha filha e o Eren… – Murmurou.

– Hei, hei escuta… – A investigadora colocou as mãos sobre os ombros do empresário. – Nós vamos encontrá-los, ok?

– Além disso, se eles quisessem fazer-lhes mal, tê-lo-iam feito no momento. – Acrescentou o jovem médico. – Mas em vez disso, levaram-nos. Portanto, querem alguma coisa. Desconfio que vão encontrar em contacto.

– Achas que vão pedir dinheiro? – Questionou Petra um pouco cética.

– Não penso que o dinheiro seja a única razão. – Comentou Armin pensativo. – Se fosse apenas, não faria sentido esperar tanto… há quanto tempo exatamente é que o Bertholdt trabalha para a família Smith? Melhor, alguém consegue traçar desde onde é que ele veio? O que fez antes? Quem é que o trouxe para cá? – Olhou para Reiner. – És tu que estás mais próximo, não é? Pois, muito bem, está na hora de dizeres o que sabes.

 

*_*_*_*_*_*_*_*_*_*_*_*_*

 

Com Bianca encostada ao peito dele, apertando a camisa e os dois fechados na mala do carro, Eren puxava pela memória do tempo em que se cruzou com Bertholdt pela primeira vez. Pelo menos, aquela em que se recordava de terem trocado as primeiras palavras. Sendo certo que o moreno reconhecia ter uma péssima memória para determinados rostos, sobretudo porque passava grande parte do tempo embriagado e sob o efeito de outras substâncias, é verdade que o recordava. No entanto, também era verdade que Bertholdt estava diferente.

 

Flashback

Após a saída há uns meses atrás da escola onde conheceu Levi, o comportamento dele entrou novamente numa nova espiral destrutiva. Uma em que os dias passavam a ser uma névoa de abuso de substâncias ilícitas, álcool e pessoas com quem se divertia e as sem número que humilhava por desporto.

Devido ao seu comportamento condenável, as discussões com os pais aumentaram cada vez mais de frequência e depois de mais uma troca de palavras acesas e insultos trocados com o pai, Eren saiu de casa e foi, como era habitual, ao encontro de Jean que o esperava no exterior da casa. Assim que se viram, o namorado passou o cigarro que tinha na boca para ele e prometeu que trataria do mau humor dele. Ainda estava a anoitecer e segundo Jean lhe teria explicado, havia uma festa que ele não podia perder mas que antes teria que mudar o humor dele para não chegar lá com vontade de estragar tudo com violência à mistura. O “mudar o humor dele” passou por consumir um pouco de álcool num bar e depois empurrá-lo para o banco de trás do carro.

Era uma noite igual a tantas outras, só que nem sempre a consciência dele se apagava totalmente. Havia alguns dias em que a troca de insultos e acusações com os pais eram mais difíceis de digerir e por isso, quando entraram na festa, não podia dizer que estivesse totalmente no clima da diversão.

Portanto, essa teria sido a razão para que assim que chegasse e tivesse visto um círculo em torno de alguém, tenha decidido interromper o que seria mais uma sessão de desprezo por alguém. Aquelas festas às vezes escolhiam um alvo que alguém trazia. Alguém que tinham convencido a participar e usualmente, o intuito não era que se juntassem ao clima de divertimento. O objetivo era rir dessa pessoa e se acabasse por ter uma boa resposta ou reação, quem sabe tivesse a oportunidade de fazer isso a outra pessoa no futuro. Só que o efeito mais habitual não era esse. O mais comum era ver o alvo tentar fugir entre as lágrimas. Eram pessoas que alguns apontavam como uns “Zé-ninguém” ou pessoas que se julgavam num pedestal onde na verdade não estavam.

Era ridículo, doentio e vergonhoso mas na altura, nem ele e nem muitos viam o errado nisso.

Quando Eren chegou já estavam a rir de alguém.

– Já pensaste que nunca vais ser ninguém na vida?

Possivelmente o que o levou a furar o círculo em torno do alvo tenha sido essa frase. Ele tinha-a escutado antes do pai e ao ver o estado deplorável de quem a escutava agora, passou pela cabeça dele como eram diferentes. Aquele podia ser perfeitamente ele, mas ao contrário daquele rapaz, Eren não permitia que ninguém o deixasse naquele estado. Pisaria quem fosse preciso para não acabar naquele triste estado.

– Hei, Eren não estragues a festa!

– Sou eu que decido como se estraga a festa. – Puxou o braço daquele que estava caído de joelhos no chão. – Vá, vão continuar a beber ou outras merdas e deixem-me passar.

– Ó Eren…

– Pra puta que vos pariu! Se alguém se meter à minha frente, vai sair sem dentes! – Já puxava o outro pela mão, furando pela multidão e olhando para o rapaz por breves momentos. – E tu engole as lágrimas e não me faças arrepender de ter tirado dali.

Caminharam durante algum tempo até chegarem a uma varanda da casa que estava vazia e só nesse momento, Eren parou para olhar para quem tinha arrastado. Apesar da altura quase impressionante, era bem franzino, os cabelos eram longos e estavam presos mas com alguns sinais de corte. Alguém deveria ter usado uma tesoura. Os olhos lacrimejantes estavam escondidos atrás de uns óculos com uma graduação um pouco forte e mesmo, as roupas eram de alguém que claramente não estava habituado a festas. Demasiado formal e claramente, teria caído na piada de alguém.

Eren distanciou-se da varanda para pegar num copo de cerveja e ofereceu ao outro que virou a cara.

– Se continuares a ser assim patético, todos vão continuar a pisar em ti, caralho. – Comentou o moreno, bebendo um pouco da cerveja. – Quem é que te convidou? Aliás, melhor ainda… andas na nossa escola como? Sem ofensa… aliás, ofendendo mesmo, tu não pareces filho de alguém que tenha um emprego decente em Sina. Bolsa de estudo? Mérito? Caridade?

O outro mantinha os olhos baixos sem responder e durante algum tempo, ficaram em silêncio mas Eren tinha a certeza que algum daqueles exemplos se aplicaria ao caso daquele que na altura, nem sequer se quis dar ao trabalho de perguntar o nome. Foi quando o silêncio se prolongou por bastante tempo e a cerveja ia desaparecendo do copo, que o moreno decidiu falar de novo.

– Ninguém aqui em Sina vai sentir pena de ti, ninguém te vai querer ajudar a troco de nada, ninguém quer saber de ninguém a menos que ganhes alguma coisa com isso. – Dizia o dono dos olhos verdes com um copo de cerveja meio vazio na mão, olhando para a paisagem da varanda de uma cidade sempre iluminada. – Em vez de estares aí a sentir pena de ti próprio, escolhe outra coisa que não te faça sentir patético. Queres que estas pessoas paguem pela dor que te causaram? Não esperes pelo karma ou pela justiça.

– Estás a dizer-me que vingar-me destes vermes é a única forma de sobreviver aqui? Eu não quero todo esse dinheiro ou poder…

– Mas queres pelo menos, tirar isso tudo dos outros. – Ripostou o moreno e ofereceu o copo ao rapaz sentado no chão da varanda e costas para a paisagem. – Bebe e esquece por hoje. Amanhã faz melhor do que hoje…

Fim do Flashback

 

– Eren saímos de Sina. – Murmurou Bianca.

– Huh?

– A estrada está diferente. – Explicou sumariamente. – Não há estradas assim em Sina.

– Hum… pois, mas lembra-te que assim que pararmos, não podes reagir, ok? Não sabemos o que podem fazer. – Falava Eren num tom baixo com um dos braços em torno da pequena. – E é como já conversámos, o teu pai vai saber onde estamos e enquanto não vem ter connosco, temos que tentar manter-nos longe do perigo… bom, tanto quanto é possível agora.

– Mas ele disse que te ia fazer mal, Eren.

– Ele só disse isso para eu entrar no carro. – Falou, sentindo-se um pouco mal por estar a mentir à criança, mas não queria que ela agisse por causa dele. Já estava a sentir-se suficientemente culpado por a ter arrastado para aquela situação. Não precisava que o sentimento de culpa piorasse, caso ela reagisse em defesa dele.

 


Notas Finais


Até ao próximo capítulo!


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