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História Memory of a Vampire - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Capítulo I


— E ai, bonitão! Quer companhia para a noite de Natal?

Itachi parou diante do bar e olhou para as duas mulheres encostadas na parede.

Usavam vestidos provocantes sob os casacos abertos, oferecendo os corpos prontos para dar prazer a quem pagasse. Uma delas estava arrepiada de frio, e mesmo assim, se expunha numa pose sedutora, devorando-o com olhar desesperado. A fumaça do cigarro escapava dos lábios vermelhos, confundindo-se com a névoa da respiração formada pela noite fria.

E ele achou que teria uma tediosa noite de Natal...

— Não preciso de companhia, obrigado. Só quero um drinque. — Itachi fez um gesto indicando a porta do bar.

— Ora, vamos, querido! Temos o que você precisa bem aqui.

A mulher jogou o cigarro e atirou uma minúscula guirlanda artificial na direção dele.

Era uma imitação barata, mas Itachi não viu motivo para mencionar o fato.

— Desculpe, mas não, obrigado.

— Bem, depois que você tomar seu drinque, estarei esperando por você.

A mulher sorriu, apanhando o enfeite natalino do chão para colocar na lapela do casaco.

Itachi não respondeu e passou por elas para empurrar a porta do bar. Avaliou o interior escuro e esfumaçado e olhou por sobre o ombro para as duas prostitutas.

Se os sentidos dele estivessem corretos, elas mal haviam atingido a maioridade.

No entanto, pareciam velhas e cansadas, ao contrário de ele próprio, com seu corpo jovem e existência ancestral. Num impulso, procurou a carteira no bolso. A mulher com a guirlanda observou o movimento e passou a língua da sobre os lábios artificialmente vermelhos, enquanto a outra se moveu para mais perto, com os olhos brilhando em antecipação.

Não, eles não eram diferentes, Itachi percebeu. Eram exatamente iguais. A fome os consumia, fazendo-os realizar coisas que jamais imaginavam serem capazes. A única diferença era a amargura que estava impregnada na pele daquelas mulheres, enquanto a dele permanecia escondida nos recantos mais sombrios de sua alma.

Itachi hesitou por um momento, e finalmente tirou o dinheiro. Merecia pagar por sentir simpatia por aquelas mulheres.

Devia ser a estação. O Natal sempre o tocara de uma forma estranha.

Não podia deixar que as duras lições que aprendera escapassem de sua mente.

Mesmo assim, estendeu uma nota de cinquenta dólares para cada uma.

— Encontrem um lugar quente para passar a noite.

As duas arrancaram o dinheiro das mãos dele como duas ladras ávidas pela posse de um bem valioso.

— Obrigada, senhor. — Uma delas se voltou para a parceira. — Venha! Vamos festejar.

As mulheres seguiram pela calçada e Itachi as acompanhou até deixar de ouvir o som dos saltos altos no pavimento.

Sim, eram parecidos, concluiu. Agora, que estavam satisfeitas, aquelas mortais seguiriam em frente, assim como ele.

Aquele era seu destino.

Itachi entrou no bar e a porta bateu com um estalido seco. Imediatamente, ele foi envolvido pelo brilho surreal do néon azul e vermelho do letreiro sobre o balcão. Sentou-se no último banco e pediu uma dose de uísque. Enquanto esperava, girou o corpo e avaliou o ambiente.

O bar estava quase vazio. Apenas alguns frequentadores ocupavam as mesas do local decadente. Afinal, era noite de Natal.

Voltou a atenção para o copo que o garçom deixou diante dele e fixou o olhar no líquido cor de âmbar. Mesmo aparentando indiferença, estava consciente de tudo que acontecia naquele espaço confinado.

Os dois homens na mesa do canto eram frequentadores regulares. Tomavam uísque e fumavam cigarros com filtro. Ambos se esqueciam do vazio das existências de cada um naquela mesa de bar.

O senhor no banco perto dele reclamava que a mulher o abandonara. Claro, ele se esquecera de mencionar que espancara a esposa durante anos antes que ela finalmente se lembrasse do próprio orgulho.

A mulher no outro extremo do bar usava perfume barato em abundância. Esperava por alguém. Um amante? Itachi quase podia sentir o gosto da ansiedade que exalava dela, embora não pudesse dizer se a luxúria era pelo homem ou pelas drogas que ele certamente traria.

Os quatro homens jogando bilhar eram amigos e celebravam juntos, não o Natal, mas o fato de que o mais jovem acabara de sair da prisão. Fora solto por bom comportamento, mas não demonstrava a mesma disposição para seguir as regras do lado de fora das grades.

Aqueles eram os tipos que se encontravam nos bares numa noite de Natal.

Pessoas sem família, amores ou vida. Os perdidos, os famintos, os violentos...

Exatamente como ele.

Itachi esvaziou o copo e fez um gesto para que o garçom o completasse. A bebida o anestesiava. O álcool não o afetava como às pessoas comuns, mas anestesiava seus sentimentos e o tornava capaz de viver sob a própria pele. Porém, ultimamente, o uísque não exercia mais seu papel. Não matava a fome que o consumia. Apenas apaziguava-a, e mesmo assim, não passava de um breve alívio para a urgência que corroia sua alma.

Itachi sorriu com amargura. Alma? Ele perdera a alma muito tempo atrás.

Apanhou o copo e engoliu o conteúdo de um só trago. Fechou os olhos para saborear o gosto acre quando sentiu um formigamento na nuca. Intrigado, ele girou o banco, à procura do ser que conseguiu de forma tão abrupta dispersar a desesperança do ambiente sombrio.

Ela estava parada à porta, e definitivamente não combinava com aquele lugar. Era uma mulher magra, com cabelos rosados e olhos intensos. Mesmo com a esparsa iluminação do ambiente, Itachi percebeu que eram verdes.

Uma criatura inocente, perdida num mundo frio. Ele ergueu as sobrancelhas diante do pensamento. Devia haver alguma coisa no ar naquela noite. Não costumava ser tão imaginativo. Ademais, ele era a única criatura de outro mundo ali presente.

Itachi tomou mais um gole, observando-a através do vidro do copo. A mulher pequenina olhou ao redor com evidente nervosismo. Então, para surpresa dele, endireitou os ombros e entrou. Sentou-se no segundo banco à direita dele e esperou que o garçom a atendesse. Levou alguns segundos para pensar no pedido. Mais uma vez, ela o surpreendeu ao pedir uma dose de tequila, como se esperasse ter acertado na escolha do drinque mais forte do bar.

Itachi fingiu focalizar a atenção no próprio uísque, mas continuou a estudá-la. Ela não estava apenas nervosa. Parecia miserável.

O cheiro da raiva, do desespero e do desamparo, no entanto, não foram suficientes para encobrir o perfume natural daquela mortal. Ela cheirava flores aquecidas pelo sol.

Itachi não conseguiu se lembrar da última vez que sentira aroma tão puro e intocado. Ao menos, não num mortal adulto.

De repente, o frescor foi encoberto por outro cheiro, que também não pôde ser mascarado pelo odor forte de cerveja e fumaça de cigarro. Era o mesmo odor que envolvia os mortais com uma aura adocicada e sedutora, porém, sufocante para ele pela intensidade.

Ele respirou fundo e se concentrou na mulher, recompondo-se da primeira reação ao outro cheiro, o cheiro de sangue.

Conseguia fazer isso o tempo todo, mas estava mais difícil naquela noite. Sempre era assim quando precisava se alimentar.

Porém, poderia deixar para mais tarde. Não seria difícil naquela noite. O Natal fazia com que muitos mortais se sentissem completamente perdidos por estarem excluídos da redenção, assim como ele.

E então, havia aquela mulher. Por que estava ali? Era óbvio que não se sentia à vontade. Não era necessário ter habilidades paranormais para perceber. Trajava blusa branca e saia verde de lã, da mesma cor do longo casaco. A roupa simples e modesta, contudo, não era deselegante.

Ele subiu o olhar e estudou o rosto. Viu-se cativado no mesmo instante. Não se tratava de uma beleza clássica, mas os traços suaves harmonizavam-se à perfeição.

Maçãs salientes, nariz arrebitado, e aqueles incríveis olhos verdes... Os olhos sozinhos eram o bastante para deixá-lo tonto.

Itachi franziu a testa. Nenhum mortal, em seus duzentos anos de existência, despertara-lhe tanto interesse. Talvez estivesse intrigado simplesmente por perceber que ela estava deslocada naquele ambiente, ponderou. Ou então, por ela fazê-lo se lembrar do lugar de onde ele próprio viera, onde as pessoas eram boas e gentis, e amavam-se com pureza e sinceridade.

O garçom colocou um pires com fatias de limão, um saleiro e o copo com tequila. A mulher contemplou os itens numa confusão óbvia. O olhar se deteve em Itachi por um momento, e ela imediatamente desviou o rosto. Hesitante, apanhou uma fatia de limão e franziu a testa.

— Olá! — Parado ao lado dela, o ex-detento escolheu seu melhor sorriso. — Vou lhe mostrar como fazer.

Ela hesitou mais uma vez, e Itachi percebeu a cautela. Era uma mulher inteligente.

Porém, para decepção dele, ergueu os ombros e concordou.

O rapaz pediu que o garçom lhe trouxesse um drinque idêntico. Então, colocou uma pitada de sal na palma da mão, lambeu-o e imediatamente tomou um gole de tequila antes de levar a fatia do limão à boca para espremer algumas gotas sobre a língua.

— Nada mal! — ele aprovou depois de observar a mulher fazer o mesmo com uma careta.

Os olhos ávidos a percorreram da cabeça aos pés, e Itachi soube que o comentário dizia respeito a ela, e não ao estilo de beber. O condenado admirou a sugestão de coxas adoráveis debaixo da saia, e a luxúria se confundiu com a violência escondida sob a superfície da expressão amigável.

Itachi suprimiu a onda de irritação. Mais uma vez, perguntou-se o que aquela mulher estaria fazendo ali, em vez de ficar com a família diante de uma reluzente árvore de Natal. Ao menos, era onde ele gostaria de estar.

O ex-condenado estalou os dedos e pediu mais dois drinques. Itachi se encolheu no assento, contendo o impulso de intervir.

Lembrou-se das prostitutas. Já havia feito a boa ação do ano.

— Ei, Sasori! Você vai passar a noite correndo atrás de rabos de saia, ou vem jogar com seus parceiros?

O rapaz em questão enviou olhar lascivo para mulher, e Itachi percebeu que era tão perigoso quanto ele próprio.

— Sinto muito, mas apostei muito dinheiro nesse jogo.

— Está tudo bem — ela assentiu com expressão indiferente. — Obrigada pelas instruções.

— Quem sabe eu possa lhe mostrar algum outro truque mais tarde?

Ela concordou, completamente perdida no sentido das palavras.

Sasori foi para junto dos parceiros e Itachi decidiu que o ex-detento seria sua ceia de Natal.

O garçom chegou com os dois drinques que o rapaz havia pedido e colocou-os no balcão. A mulher abriu a boca prestes a dizer que levasse de volta. Em vez disso, suspirou e, quase com relutância, estendeu a palma da mão para despejar uma pitada de sal.

Itachi observou quando a língua pequena e rosada deslizou sobre a palma macia, e pela primeira vez em muito tempo, uma onda de desejo o percorreu. E, daquela vez, não estava associada à fome.

Ela engoliu a bebida, obrigando o líquido dourado a descer pela garganta, e estendeu os dedos para apanhar a fatia de limão. Com o canto dos olhos, notou Itachi observando-a.

— O que você está olhando? — exigiu, com a fatia de limão apertada nos dentes.

Os olhos dele se moveram para os lábios, orvalhados de gotículas de limão. Moveu a cabeça de um lado para outro, numa negativa silenciosa, e retornou a atenção para a bebida. Embora mantivesse o olhar fixo no copo, sua mente vagueava, incendiada com a ideia de como seria aquela boca sugando seu membro rijo.

Que diabos havia com ele naquela noite?

Sakura Haruno não pôde acreditar que havia gritado com um completo estranho. Nunca fora tão rude em toda sua vida. Porém, nunca estivera numa cidade grande antes, nem em um bar desconhecido depois de tomar duas doses de tequila.

Que diferença um único dia podia fazer!

E que dia... Estava em Nova Iorque havia vinte e quatro horas, e durante esse breve período, perdera o emprego que acabara de conseguir, e, como consequência, o apartamento recém-alugado. Quando estava saindo do escritório do corretor de imóveis, um ladrão barato havia lhe roubado a bolsa, e ela passara quase seis horas numa delegacia de polícia com todo tipo de marginais assustadores esperando para depor com um oficial que não estava nem um pouco interessado.

Aquele deveria ser o começo de sua nova vida, cheia de aventuras e diversão. De fato, tivera muita aventura. Quanto à diversão...

Sakura suspirou, obrigando-se a apagar aquele dia de sua memória. Estava determinada a se divertir naquela noite.

Felizmente, tivera o bom-senso de guardar os cheques de viagem no bolso do casaco. Portanto, ainda lhe restava algum dinheiro.

Olhou para os três copos vazios diante dela. De repente, não pareceu ser justo gastar seu precioso dinheiro com bebida.

Ela suspirou. Ao menos, Sasori fora gentil. Na verdade, fora a pessoa mais gentil que conhecera na cidade grande. Olhou para ele, inclinado sobre a mesa de bilhar. Até que era bonitinho. E se mostrou interessado... Ao menos, era o que ela imaginava.

Seus olhos pousaram no homem sentado do seu lado. Definitivamente, ele não estava flertando com ninguém. Não fazia nada além de enviar olhares gélidos desde que ela entrara no bar.

Não podia descrevê-lo como “bonitinho”. Podia apostar que essa palavra não era usada para descrevê-lo nem quando ele era criança. Não. Ele era devastadora e perigosamente lindo. Não se lembrava de ter visto alguém tão perfeito.

Era engraçado, mas nunca se sentira atraída por homens de cabelos compridos.

No entanto, naquele homem, a farta cabeleira longa, em tons de negro, acrescentava um toque a mais à beleza viril.

Ela analisou o perfil nobre, e estudou a linha do maxilar, o desenho bem esculpido dos lábios e o nariz arrogante. Mas foram os olhos peculiares, que lhe tiraram o fôlego. Eram tão bonitos, tão intensos, tão fascinantes que se tornavam quase predadores.

Ele era simplesmente maravilhoso! Sem conseguir evitar, Sakura enviou-lhe outro olhar furtivo. Não parecia pertencer àquele lugar mais do que ela, embora não pela mesma razão. Aparentava ser muito rico para frequentar bares decadentes no centro da cidade. A aura que o envolvia irradia cultura.

Mas, sob a beleza e a sofisticação, havia algo perigoso, uma qualidade feroz que se refletia nos olhos misteriosos.

Sakura suspirou em silêncio. Na certa, o estresse tinha ofuscado sua mente. Tinha certeza de que o único perigo que aquele deus representava era para o coração. Com uma aparência daquelas, ele era a definição exata de um destruidor de corações.

Sakura se lembrou do copo cheio diante dela. A garganta ainda queimava, mas o efeito começava a ser sentido. Parecia incrível que um pouco da bebida conseguira deixá-la mais relaxada. E depois do dia infernal que tivera, precisava relaxar.

Ela alcançou o sal. A terceira dose desceu pela garganta com mais facilidade.

Pensou com orgulho que, para alguém que nunca bebia, ela já era quase profissional.

Alinhou os três copos diante dela e tentou decidir o que fazer a seguir. Não queria voltar para o hotel. No entanto, não estava confortável naquele bar. Além disso, a necessidade urgente de olhar para o homem do seu lado estava começando a ficar fora de controle.

— Olá, docinho... — Sasori apareceu subitamente do lado dela. — Você tomou meu drinque!

— É verdade. Eu sinto muito.

— Bem, acho que vou ter de pedir outra rodada.

— Não acha que já bebeu bastante? — a voz rouca e profunda soou do lado dela.

Sakura pestanejou antes de encarar o estranho. Ele se inclinou, aproximando-se, e aqueles olhos misteriosos queimaram dentro dela.

— Porque não se mete com sua vida, parceiro? — Sasori o fuzilou com o olhar.

Então, a voz se tornou suave quando se dirigiu a Sakura.

— Você não vai deixar que esse idiota estrague nossa diversão, não é, querida?

Sentindo-se anestesiada, ela desviou os olhos com esforço para fixá-los em Sasori.

— Não — confirmou, embora soubesse que a resposta soava hesitante.

A mulher da mesa nos fundos atravessou a sala e colocou duas moedas no jukeboxe, e a música alta preencheu o ambiente.

Em meio à batalha silenciosa entre os dois homens ao lado dela e as batidas ensurdecedoras da música, somada ao álcool que corria em suas veias, a cabeça de Sakura começou a girar.

— Traga mais duas tequilas — Sasori pediu ao garçom.

Sakura se levantou, mas as pernas fraquejaram. Antes que caísse, o deus em forma humana a segurou pelo braço. As mãos eram fortes, e o toque proporcionou delicioso calor.

— Você está bem?

— Estou — ela assentiu, e respirou fundo. — Só preciso de um pouco de ar fresco.

Ele fez menção de se levantar quando Sasori segurou o outro braço.

— Vou levá-la para fora.

Sakura olhou para o estranho. A mão ainda prendia seu braço, e a força se irradiava dos dedos longos, embora a pressão fosse gentil. Os olhos dele se iluminaram com algo que ela não pôde ler, e soube no mesmo instante que precisava se livrar daquele toque.

Libertou-se com um repelão e seguiu Sasori para a porta. Assim que pisou na calçada, Sakura olhou por sobre o ombro. O estranho a observava com aqueles olhos predadores.

A brisa fria no rosto e nos pulmões revigorou Sakura. Ela fechou os olhos e respirou fundo até sentir que o álcool evaporava de seu sangue.

— Está melhor? — Sasori se aproximou.

— Sim. — Ela abriu os olhos e sorriu com gratidão. — Não costumo beber.

— Há uma escadaria do fim do beco. Por que não nos sentamos lá?

Sakura hesitou. O beco era deserto e escuro, exceto pela luz do poste. Ela avistou a escada, com latas de lixo abertas, repletas até a boca.

— Prefiro voltar para meu hotel.

— Hotel?

— Sim. Cheguei na cidade ontem à tarde.

Sasori a encarou, incrédulo.

— Que coincidência! Eu também cheguei ontem. Sempre morei aqui, mas passei um tempo fora. Venha. Vamos nos sentar um pouco.

Sakura abriu a boca para recusar, mas o sorriso era tão charmoso que ela concordou.

Ela desistiu de se sentar nos frios degraus de cimento, e preferiu se recostar na parede. Sasori, no entanto, não teve o mesmo escrúpulo. Sentou-se sem cerimônia, como se estivesse em sua sala de estar.

— Onde você vivia antes de voltar para casa? — Sakura perguntou, incomodada com o silêncio.

— Num lugar em Jersey.

— Jersey? Eu nunca estive lá.

Sasori se levantou e enfiou as mãos no bolso da calça antes de chutar uma lata vazia escada abaixo. O som metálico ecoou nas paredes de concreto.

— Não posso dizer que gostei. Minha vida lá foi muito confinada.

— Posso entender. Eu cresci no Maine, que é um lindo estado, mas a cidade era tão pequena que chegava ser sufocante.

Lá, as pessoas recebem rótulos desde pequenas, e nunca conseguem se livrar deles. Nunca.

Sasori se aproximou e, pela primeira vez, ela percebeu como era musculoso. O rosto juvenil dava a falsa impressão de que ele fosse magro e frágil.

— Você é uma mulher muito bonita.

Sakura abaixou o rosto, disfarçando o rubor. Mesmo não conhecendo aquele homem, o elogio a agradou. Nenhum homem jamais lhe dissera que era bonita.

— Não vejo uma mulher bonita como você há muito tempo.

Ela sentiu o rosto queimar. Mesmo não acreditando, era bom ouvir aquelas palavras.

Sasori se aproximou um pouco mais. Embora não a tocasse, deixou claro que era o que queria.

O movimento fez com que Sakura se retraísse em defesa. Não conhecia aquele homem, e não era do tipo que permitia intimidades com desconhecidos.

Porém, estava em Nova Iorque para começar uma nova vida, cheia de excitação.

Seria capaz de beijar um estranho?

De repente, a imagem do homem no bar preencheu sua mente. Ela o beijaria?

Mas, no que estava pensando?! Sakura concluiu que devia estar bêbada para ter aquele tipo de ideia!

— O que foi? — Sasori apoiou as duas mãos na parede, ao lado da cabeça de Sakura, de modo a impedi-la de sair.

Ele pousou a mão livre sobre um seio e puxou o tecido, arrancando os botões da blusa. Apavorada, Sakura decidiu que tinha de mantê-lo falando para pensar numa saída.

— Três anos é muito tempo — a voz não parecia ser a dela, ofegante e trêmula.

— É verdade... Não há muitas mulheres na cadeia.

Sakura levou alguns apavorantes segundos para compreender o sentido do que ele dissera. Aquele homem estivera na prisão!

As garras geladas do pânico se cravaram em sua garganta. Talvez ele já tivesse estuprado antes. Podia até ter matado!

— Por que você foi preso? — ela obrigou a voz a sair, tentando manter a calma.

— Não fiz nada de mais. Você sabe, os rótulos... A vida não é justa — ele comentou com um sorriso, e o rosto jovial se tornou sinistro. — Mas isso não importa agora. Só de pensar no que você tem debaixo da roupa eu já fico melhor.

Quando as mãos possessivas pressionaram-lhe os seios, Sakura sentiu o estômago revirar. Ela fechou os olhos se obrigou a respirar lentamente.

De repente, as mãos se afastaram e ela se viu livre. Abriu os olhos, e Sasori não estava mais ali. Ela olhou ao redor sem encontrá-lo em parte alguma. Num impulso, começou a correr pela rua escura em direção ao bar.

Sakura esbarrou numa barreira sólida. Braços fortes se fecharam ao redor dela.

— Psiu! — A voz rouca e profunda acariciou sua orelha. — Está tudo bem.

Ela pestanejou para ver o deus encarnado diante de si.

De onde ele tinha saído?

Respirou com alívio e relaxou, permitindo que ele suportasse seu peso.

Com agilidade espantosa, ele a tomou nos braços e atravessou o beco. Quando chegaram à rua, o estranho a fitou com preocupação.

— Você está bem?

Sakura assentiu com respiração entrecortada, incapaz de falar. O coração estrondeava dolorosamente no peito.

Ele continuou a pressioná-la contra o peito largo. Os braços eram sólidos e protetores. Finalmente, Sakura se acalmou e percebeu que estava perto demais daquele homem perigosamente bonito.

— Eu estou bem. Posso ficar de pé.

Ele pareceu quase relutante em colocá-la no chão, e manteve o braço protetor ao redor da cintura fina.

— Obrigada. Não quero nem pensar no que poderia ter acontecido se você não tivesse chegado.

Ele assentiu lentamente sem dizer nada. Encarou-a com os incríveis olhos ônix. Depois de alguns segundos, tirou a luxuosa jaqueta de couro que usava.

— Vista isso.

— Não é preciso, obrigada. Tenho meu casaco.

— Por favor, eu insisto. Aquele covarde arrancou alguns botões da sua blusa.

A gentileza a tocou. E ela pensara que Sasori era o mais gentil dos dois...

Sakura aceitou o casaco e foi envolvida pelo couro frio. Era estranho que a peça não guardasse o calor do corpo vibrante.

— Você mora aqui por perto? — ele quis saber.

— Sim. Meu hotel fica algumas quadras daqui.

— Vou acompanhá-la até lá...

Ela sorriu com gratidão, mas o sorriso se desmanchou quando Sakura avaliou o beco escuro.

— Não se preocupe com aquele bastardo — o estranho comentou como se lesse seus pensamentos.

Sakura avaliou a rua escura mais uma vez e fez um gesto indicando à frente.

— É por aqui.

Itachi se concentrou antes de caminhar ao lado da mortal. O ex-condenado ainda estava no beco, inconsciente. Ele inalou fundo para guardar o cheiro daquele homem na memória. Pretendia fazer uma farta refeição com o covarde.

Porém, o perfume suave e agradável sobrepujou seus sentidos. Nunca conhecera nenhuma mortal que exalasse aroma tão forte e tentador como a mulher a seu lado.

— Está tudo bem?

A voz suave o distraiu. Itachi inalou mais uma vez, certo de que conseguiria achar o rastro do ex-condenado, e se voltou para ela.

Os olhos incrivelmente verdes contrastavam com a pele alva. Mais uma vez, a doçura do tentador aroma preencheu o ar.

Ele clareou a garganta e respondeu em tom mais lascivo do que pretendia.

— Está tudo bem. Você disse que seu hotel é por aqui?

Sakura confirmou, e os dois seguiram pela rua.

Talvez a genuína bondade daquela mortal fosse responsável por alertá-lo sobre o risco que ela corria. Dentro do bar, Itachi fora subitamente tomado pelo cheiro do perigo. 

O ambiente ficara impregnado pelo odor característico do medo. Identificou todas as emoções da mortal: desespero, terror, pânico. Aquilo nunca acontecera antes com Itachi.

Nunca fora capaz de ler as emoções de um mortal que não estivesse perto dele. Na verdade, o único com quem conseguia se conectar à distância era com o irmão, Sai, que também era vampiro.

Itachi estudou discretamente a mulher caminhando do seu lado. A jaqueta preta ao redor dos ombros fazia com que se parecesse com uma criança fantasiada de vampiro no Dia das Bruxas.

Obrigou-se a lembrar que ela era uma mortal. Ele não deveria ter conexão alguma com aquela mulher.

— Eu ia lhe pedir desculpas quando aquele rapaz me abordou mais uma vez.

— Desculpas? Por quê?

— Por ter sido rude. Eu gritei com você quando perguntei por que estava me olhando.

— Oh, aquilo? — Ele balançou a cabeça e os lábios sensuais se encurvaram num sorriso. — Você chama aquilo de grito? Nesta cidade, é considerado um cumprimento típico.

Ela riu, mas o sorriso deu lugar às lágrimas. Sakura parou e cruzou os braços, tremendo de frio.

Surpreso com a reação inesperada, Itachi não soube o que fazer. Sentiu a mesma angústia que a sufocava, e a dor o paralisou. Queria confortá-la, mas não sabia como.

Nunca havia consolado ninguém. Tudo o que ele conseguiu foi pousar as mãos nos ombros trêmulos.

— Está tudo bem.

Ela fungou, obviamente irritada por perder o controle.

— Eu sinto muito. — Sakura forçou um sorriso. — Tudo que eu queria era recomeçar a vida. Vendi tudo que tinha, minha casa, os negócios da família, tudo, para começar minha maravilhosa nova vida. Mas, depois de hoje, descobri que cometi um grande erro.

Itachi não soube o que dizer. Ela falava sobre a vida, e ele não tinha noção do que aquilo queria dizer.

— Amanhã será melhor.

Sakura o encarou por um momento. Então, uma risada genuína escapou dos lábios rubros, confundindo-se com os soluços.

Ela se ergueu na ponta dos pés e o envolveu pelo pescoço para pousar um beijo quente e macio no rosto viril.

Itachi permaneceu paralisado. Quando fora última vez que sentira o calor de um abraço humano, a ternura de um toque gentil?

Contudo, não foi ternura que ele sentiu em retorno. O desejo urgente e selvagem despertou seu corpo gelado. Queria devorar aquela mulher, fazê-la gritar por ele. Embora pudesse imaginar como seria bom cravar as presas no pescoço delgado, a emoção estava muito além da necessidade carnal.

Sem que pudesse controlar, as presas de Itachi cresceram com tanto vigor quanto sua ereção. Relutante, ele soltou os braços que o envolviam e a afastou.

— Sinto muito — ela disse sem conseguir tirar os olhos dele.

Itachi assentiu e passou a língua pelos dentes para fazê-los retraírem.

— Por favor, não me entenda mal. Eu não quis... — O que ele poderia dizer? Não quis mordê-la nem fazer amor com você aqui, nesse beco escuro? — Não quis que você pensasse que sou parecido com aquele covarde.

Ela sorriu e balançou a cabeça.

— Eu nunca pensaria. Aquele homem é um monstro violento. Você me salvou.

Se ela soubesse a verdade... Itachi fechou os olhos, oprimido por uma dor até então desconhecida. 

— É melhor sairmos daqui.

Tinha de se afastar daquela mortal. Somente a distância apagaria a conexão que sentia com ela. Não a conhecia, mas sabia que aquele tipo de ligação era perigosa.

Qualquer associação com um mortal poderia trazer dor a ambos. Fora por isso que trabalhara com tanto empenho para se manter afastado dos humanos, exceto daquele tão vazios quanto ele.

Sakura olhou ao redor com nervosismo e sincronizou as passadas com as dele.

O hotel era um edifício decadente com carpete gasto e sofás sujos na pequena recepção.

— Eu pretendia me hospedar aqui só por alguns dias — ela justificou ao perceber o olhar de desaprovação. — Agora, terei de ficar mais tempo, mas não deve passar de uma semana.

Itachi assentiu, odiando ter de deixá-la ali. De qualquer forma, estaria mais segura do que com ele. Era impossível olhar para aqueles olhos verdes sem tocá-la, e a atração crescia a cada segundo que passava. Embora fosse além da luxúria, o sentimento envolvia algo estranho e novo. Ninguém jamais despertara nele tamanha urgência de calor, de cuidado, de afeição... Aquelas emoções eram perigosas demais.

— Bem, então, boa sorte — Itachi se despediu, afastando um passo.

A curvatura delicada dos lábios denotava mais decepção do que se fosse um sorriso.

— Como você disse, amanhã será melhor. Mais uma vez, obrigada.

Sakura acenou e seguiu na direção do elevador. Porém, em vez de entrar, ela parou.

Uma onda de antecipação percorreu o corpo de Itachi. Talvez ela voltasse e o beijasse mais uma vez. Não haveria mal algum, já que pretendia nunca mais vê-la.

— Eu quase me esqueci! — Ela retirou o casaco dele e o estendeu. — Sua jaqueta...

Itachi sorriu e se aproximou para apanhá-lo.

— Qual é seu nome? 

A pergunta o tomou de surpresa.

— Itachi. Itachi Uchiha.

— Obrigada, Itachi Uchiha — ela agradeceu com um sorriso genuíno antes de entrar no elevador.

— Espere! Diga-me seu nome!

As portas do elevador começaram a fechar. Itachi estendeu a mão para impedir, mas o maquinário antigo não respondeu.

— Sakura Haruno — ele ouviu antes que o rangido dos cabos enferrujados abafasse a voz.

— Adeus, Sakura Haruno — murmurou, parado diante do elevador.

De repente, ele se arrependeu por ter perguntado. Seria mais fácil esquecer aquela mortal se ela não tivesse nome.



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