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História Menino de saia - Capítulo 1


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Notas do Autor


"Como se pode conhecer a si mesmo?
Nunca por meio da contemplação mas por meio da ação."
Johaan Goethe

Capítulo 1 - Aluno novo


Os campos já estavam com sementes prontas para dar nova vida ao caminho da escola. Por ser meio do verão, essa era “a novidade” dos últimos 5 anos na cidade de Samani. Afinal, antes dos novos grãos modificados, só era possível fazer uma colheita de arroz entre a primavera e o outono.

Entretanto para Raul Oota Sandrini e outros estudantes da Escola Rural de Ensino Médio de Samani, era um início de tarde completamente diferente dos outros…

- Você viu o novo aluno?

- Claro que eu ví Amanda, só achei que todos fizeram falta de educação com ele. Olhando ele como se fosse um alienígena.

- Até parece Raul, quando eu cheguei aqui fizeram a mesma coisa comigo e olha que já conheciam você que também é mestiço e tem nome ocidental!

- Você sabe que odeio essa palavra, é de um racismo que nem sei explicar…

- Desculpa… de tanto eles falarem assim, eu acabo usando… às vezes… você sabe como é… - no fundo, Amanda sabia que era mais que isso, que lembrava, a Raul, o pai que sumiu quando ainda criança e obrigou a mãe voltar de Tóquio para a cidade dos seus pais, a pequena Samani na ilha de Hokkaido.

- Eu sei, tá tudo bem. Mas não vamos falar mais sobre isso. O Hiroshi e o Seiji estão vindo.

Os quatro invencíveis, assim colocaram o nome no grupo ainda no Fundamental. Raul (R), 16 anos, magro mas suficientemente forte para manter os contornos dos músculos pelo corpo, pele branca e macia como os mochis que comia com tanto gosto, lábio rosa-claro e cabelo cortado pois se recusava a parecer mais um entre as centenas de meninos com corte “bowl cut”; e Amanda (A), acima do peso para os padrões japoneses, mesmo com sua rígida dieta, longos cabelos castanhos, pele branca com uma pequena pinta no braço que insistia em esconder, os dois eram conhecidos como os “mestiços” da escola. Hiroshi (H), branco, alto, cabelos negros como uma noite sem lua, olhos igualmente escuros e intimidadores, “o riquinho”; e Seiji (S), magro e pequeno em todo seu corpo, o que não o impedia de praticar artes marciais em casa, e ter seus mestres no youtube, chamado maldosamente por alguns alunos como “o primo órfão” de Hiroshi.

Era assim que todos na escola chamavam o quarteto aos sussurros. Mas o que deveria ser motivo de vergonha, ainda tão cedo serviu para unir e criar o círculo de amizade mais forte da escola.

- Vocês nem nos esperaram hoje. O que diabos aconteceu?

- É simples, Hiroshi, não iríamos esperar você ficar mostrando seu relógio novo para a escola inteira! Sinceramente! - esbravejou, Raul.

- Eu te disse que estava demais - S.

- Enfim, o que vocês acharam do aluno novo? - A.

- Já adianto que esse é o único assunto que interessa a Amanda, no momento. O tal do aluno novo. - R.

- Eu fui com a cara, mas confesso que não tive tempo de conversar com ele, afinal, quem não estava tentando falar com ele, estava espiando de longe, não é Seiji!?

- Eu Já disse! Só queria ir no banheiro, por acaso ele estava lá!

- Tá bom, tá todo mundo acreditando sim.

- Para Hiroshi, estou falando sério!

- Se bem que podíamos chamá-lo lá pra casa amanhã. - H.

- Pronto, agora temos o fã clube do aluno novo!

- Deixa de ser nervosinho, Raul! - Suspirou Amanda.

    Para Hiroshi e seu primo, o caminho acabava alí, na maior casa do campo de Samani. Não era uma mansão e seus pais estavam longe de serem ricos como os parentes que moravam em Sapporo e Tóquio, mas era o suficiente para duas viagens anuais, uma no país e outra internacional.

Já Amanda e Raul, moravam respectivamente nas duas últimas casas rurais, ao lado do rio e perto do límpido lago que deram nome à cidade.

- Então, agora que estamos só nós dois de novo, pode confessar, esse aluno novo é lindo não é?

- Amanda, só porque você é a única que sabe que gosto de meninos, não quer dizer que vou contar o que acho de cada menino da escola. E sinceramente, nem prestei atenção nele. O pessoal da minha sala parecia urubu na carniça em cima dele.

- Pois bem, amanhã trate de dar uma olhada nele e convidá-lo para o nosso TGIF, na casa do Hiroshi!

- Vou pensar no seu caso...

    TGIF - Thank’s God It’s Friday, ´claro que sabiam que chamar as noites de sexta na casa do Hiroshi comendo e bebendo alcoólicos escondidos, não era o melhor uso do termo. Mas quem iria corrigi-los numa vila, no interior de uma ilha japonesa. Alí podiam tudo.

    Logo chegaram em suas casas e apesar do desejo de Raul de comer e em seguida fugir para seu próprio mundo em Minecraft, sua mãe e avó jamais deixariam que isso acontecesse, afinal seria a última noite de lua crescente do mês, a melhor lua para plantar, sua vó dizia todo ano. E ainda faltava um campo sem sementes no sítio.

- Oi mãe, oi vó! Estou com muita fome!

- Oi filho, ainda tem gyoza na cozinha. Lembra que hoje temos que terminar aquele campo. Sua vó já está lá e eu vim apenas para tratar da Aika, Mudei a ração e quero ver se ela vai comer tudo. O que essa cachorrinha tem de linda, tem de enjoada.

- Tá bom.

Aika, uma cadelinha Shikoku Ino, que Raul ganhou de natal após muita insistência. Sua mãe Miho (M) era contrária, afinal poderia tornar a casa uma desordem mas a vó Tomoko (T), achou que seria o primeiro passo para a responsabilidade, além de acreditar que toda casa rural precisa de cão-guarda.

Após 5 deliciosos gyozas com shoyo e um generoso copo de suco de sudachi, Raul foi ajudar sua família a semear a nova  lavoura.

Mas, apesar de negar qualquer curiosidade que tivera sobre o aluno novo, uma coisa não saída de sua cabeça… “quem é esse menino? por que vir morar nesse canto afastado do Japão? de onde veio?”.

Já era início da noite quando terminaram de semear o campo e após um longo e quente banho, Raul pôs-se a jogar no computador enquanto comia guloseimas doces e salgadas roubadas da dispensa.

Após uma hora de jogo, não aguentou…

- Quem é esse menino!? - disse em voz alta para si mesmo. Indignado tanto com a própria curiosidade que se percebeu intensa, quanto com o desejo de saber, quem iria ir para aquele fim de mundo, sendo que seu sonho era morar em qualquer grande cidade do país.

E com essas dúvidas inundando sua mente, entre planos para o TGIF do dia seguinte, dormiu pesadamente na cama macia, com Aika no tapete ao lado.



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