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História Mental Prison (oneshot BTS's Kim Taehyung) - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Recomendo com toda minha alma que leiam ao som de Winter Bear do Taetae gente.


Boa leitura 😘

Capítulo 1 - Free spirit


Fanfic / Fanfiction Mental Prison (oneshot BTS's Kim Taehyung) - Capítulo 1 - Free spirit

SOU COMO UM belo pássaro azul, quase se perdendo no azul dócil do céu de verão. Um pássaro barulhento que deseja que seu canto ecoe pelo labirinto cinzento, que ecoava não só apenas a sua voz, mas as lamúrias de outras aves acoadas. Todas elas berrando de maneiras difrentes o mesmo grito para pedir liberdade.

Eu abro a asas dentro da gaiola, me sinto impedida de trazer-me pra fora. A mulher no espelho, quem é ela? Nem me lembro quem um dia aquele sujeito fora, mas gosto de imaginar.

A morena de olhos claros era a mais bonita de suas irmãs. Seu pai a amava mais do que a sua própria vida. Sua fruta preferida era pêssego e suas flores, as margaridas. Ela amava o ar londrino e sua arquitetura clássica, mas não gostava quando as pessoas a limitava a permanecer no clássico tradicionalismo.

Um pássaro que já percorrera por todo céu, não pode ser trancafiado e simplesmente aceitar aquilo. Mas suas asas foram depenadas e seu espírito reduzia a medida que a fome lhe consumia. Sua natureza gritava agitada dentro dela, mas o que lhe adiantaria gritar ou se chocar contra as grades que lhe impuseram?

A mulher chorou novamente diante o reflexo do espelho quebrado, que só estava quebrado porque a mulher o destruiu no segundo dia em que lhe prenderam ali. Ela não sabia que podia ser pior e tentou se libertar saindo desse mundo, mas nem ela teve tanta coragem.

Sempre houve uma vozinha dentro de si que lhe dizia que não acabou, que era cedo demais pra alguém como ela desistir. Sua estima e encanto pela vida é o que de fato a mantia viva.

Mas já faziam miseráveis doze anos. 

Doze anos estando presa, indefesa. 

Trancafiada.

Não por transgredir alguma lei, mas porque não pôde ficar ao lado e amar quem de verdade amara. Porque não pôde conceber o fruto que eles ansiavam e principalmente porque não tinha status para isso. Não importe o quanto seu amante tivesse lhe feito juras nas frias noites, não importando o quão adoecido ele ficara quando os separaram e nem que ela carregava uma criança em seu ventre. Tudo, tudo aquilo era convictamente pouco demais para aquela sociedade vestida de cetim e seda cara, pedrarias incomuns e leis morais que nem o mais nobres eram capazes de seguir a risca.

E quando um pássaro dito comum na massa — aquele espécie que quase ninguém se importava, quando esse pássaro que não almeja muito, mas deseja mais do que tem, quando este decide planar pelo ar rumo acima seguindo os raios fracos demais para significarem algo bom no início, eles... Os controladores. Eles nos puxam de volta ao ninho, nos aprisonando sob as asas pesadas da mãe moralista e julgadora.

Pouco a pouco todos vamos nos aprisionando dentro de si. Cada um cria suas próprias grades, mas há aqueles que não possuem liberdade nem para isso, são facilmente tiradas delas tal escolha e lhe postas tantas outras esmagadoras.

Encaro os olhos cansados de Helena no vidro. 

A chamada reluzente, cheia de luz. Meu pai me nomeara assim pois era o que eu representava para sua vida depois que mama nos deixou logo após meu nascimento. A peste a pegou quando eu era recém nascida e nem sabia que dela era a terceira e tão sonhada filha.

Nunca vira seu rosto, meu pai sempre disse que eu tinha a mesma feição que ela e que o iluminava por todos os dias, até nos mais infelizes. Mas acabou quando ele se foi. A luz se apagou. 

Se depois de ser separada de Anthony restou algum raio sequer, quando soube da morte de meu pai, eu não tinha forças para reagir.

De repente não havia mais horizonte para onde voar e repousar.

O barulho da porta pesada sendo arrastada me tira dos meus pensamentos para encontrar Diane a adentrar o minúsculo quarto em seus habituais trajes brancos. A loira de olhos castanhos esverdeados era a mais simpática de todos os serviçais dali. Ela conversa comigo e ás vezes me faz rir, o que aos 27 anos deveria ser normal, mas não era pra mim.

"Vamos tomar um banho de sol?" Sorri pra mim e eu assinto.

Com os cabelos castanhos trançados elegantemente como me lembrava de fazer antes de vir pra cá, encaixei meu braço no de Diane e caminhamos calmas pelo longo corredor.

Os outros pássaros gritavam, alguns faziam sons parecidos com grunhidos, outros riam sem motivos e outros xingavam a torto e direito nomes que não vale a pena ser reproduzido por moças de boa índole. Antes eu costumava ter medo deles, mal dormia a noite pensando que poderiam invadir meu quarto e fazer algo terrível a mim e a minha criança, mas o estresse e a má alimentação de dez anos atrás me levou a um aborto espontâneo.

Como já não havia horizontes para qual fugir, eu não tinha mais motivo para resistir.

"Sente-se aqui Helena. O novo psiquiatra virá em alguns minutos." Assim, Diane me deixou de baixo de uma árvore enorme no jardim para ajudar Elisa, um dos pássaros ariscos da gaiola. Diane me explicou que Elisa não era assim porque queria, mas porque era algo que vinha de dentro dela e que não havia como a própria controlar. 

É evidente que eu não era de um todo como Elisa, mas ainda sim tínhamos muito em comum.

Um raio passa por mim, chamando-me a atenção. Passarinhos de verdade assobiam perto de mim. É o mais perto de algo rítmico que ouço há anos, tanto que poderia fechar os olhos e dançar ao som de suas melodias incongruentes para mim, mas deveras admirável. 

Ergo a mão esquerda sobre a cabeça inclinada na tentativa de achar as aves em seus galhos. A luz do sol é forte e irrita meus olhos, fazendo-me semicerrá-los.

"Senhorita Martin?" Uma voz profunda me chama, mas eu prefiro não dar atenção. Não tinha muito tempo para apreciar a natureza em seu hábitat e por isso precisava absorver cada detalhe do verde recém adicionado ao pátio, que muitos anos antes nem era possível ter acesso senão fosse um funcionário.

"Senhorita Martin." O homem tenta de novo.

"Shhh" Coloco a mão livre na frente da boca, fazendo sinal de silêncio. "Se me atrapalhar, eles irão embora e eu não saberei o que viram lá fora."

"O que eles dizem?" A voz se tornou bem mais baixa e um calorzinho se formou perto do meu pescoço desnudo, me fazendo virar sobressaltada para atrás. O homem tinha se sentado ao meu lado no banco, ele se inclinava quase que sobre mim tentando mirar onde eu buscava o ninho a pouco.

Ele possui um cheiro fresco que não sabia nomear e um pescoço longo e elegante. O maxilar erguido na direção da árvore acima era muito bonito e refinado. Provavelmente ele era da classe alta de Londres, até mesmo sua postura demonstrava sua origens.

Como se soubesse que o encarava, os olhos amendoados se abaixaram para mim. Involuntariamente meu corpo prende a respiração. Seu olhar é tão intenso sobre mim que não consigo me ordenar a desviar o olhar.

Talvez eu devesse ter ficado louca mesmo, mas eu jurava que o homem desconhecido buscava entender os mesmos sentimentos que eu. Sua boca se entreabriu e eu esperei fitando-o, mas nenhum som saiu por seus lábios.

No peito, meu coração batia fortemente. Contudo, minha mente se sentia calma. Tão serena quanto as rajadas de verão que balançou as madeixas do rapaz. Os fios negros balançaram-se se afastando de seu rosto angelical. Eu nunca vira ninguém tão bonito em toda minha vida como poderia existir alguém como ele?

Aperto as mãos na camisola sem graça que usava. Ao menos eu tinha feito um penteado apresentável e não parecia de toda uma desmazelada.

"O senhor deve ser o novo psiquiatra." Decido quebrar o silêncio antes que me sentisse mais constrangida. Constrangida não só por ele estar tão perto ou ser tão bonito, mas também por ser a primeira vez em doze anos que eu me questionava quanto a aparência e me sentia desconfortável quanto a isso.

Achei que a Helena que conhecia tivesse de um todo se apagado de mim. Mas parece que fragmentos ainda ficaram.

"Sim." O homem se ajeita parecendo tímido no banco ao meu lado e logo trata de ajeitar a prancheta em suas mãos. "Kim Taehyung." Ele murmura sem me olhar e começa a ler alguns dados básicos sobre mim.

Depois do que imaginei ser horas, ele se vira. A expressão séria ao me encarar.

"Gostaria de me contar sobre suas alucinações?" Ele indaga. 

"Nunca as tive." Respondo simplista.

"Sua ficha diz…"

"Eu sei." Sua sobrancelha se arqueia para mim. "Eu sei exatamente o que ela diz. Por anos a desmenti, mas eles preferem acreditar na ficha e não em mim."

"Mas há relatórios de médicos anteriores." Ele argumenta passando as folhas.

"Eles mal tocavam em mim." Respondi, tendo novamente os olhos castanhos focando na minha pessoa. "Sentiam nojo ou não se importavam o bastante para saber se de fato eu estava doente da cabeça."

Me questiono porque estava me dando o trabalho de explicar minha situação depois de tanto tempo. Eu tinha desistido disso no segundo ano em que completei nesse lugar. Era a melhor escolha a se fazer ou então me dopariam e trancariam em celas ainda mais isoladas sem comer por dias afim. E eu realmente preferia ouvir as lamúrias dos doentes do que a falta inquietante deles.

"Você fará o mesmo não é?" Desfaio-o assistindo ele colocar a prancheta de lado e fitar-me mais atento.

"E sobre a sua conversa com os pássaros?" Indaga.

"Já vi homens e mulheres conversarem com cães e até mesmo com cavalos. Ele deveriam estar em um manicômio também?"

"Está me dizendo que é completamente sã?"

"Ninguém é completamente sã quando vive por tantos anos nesse lugar. Já deu uma boa olhada por aí? Vivemos pior que animais. Nem sei se somos vistos como cidadãos." Comento.

As instalações sempre foram péssimas, os quartos não eram limpos com regularidade e a comida, a mesma porcaria de sempre. O que nunca faltou foram as drogas em excesso, a violência e o abuso do tratamento de choque. Por sorte eu não tive o prazer de conhecer este último, mas via quem por ele passava.

Faltava alguém dentro dos corpos que voltavam, eu via em seus olhos. Mas acho que a possibilidade de se ter gente dentro de nós acabava sendo negado tantas vezes naquele lugar que de fato nos esquecemos que somos humanos.

E há tantos assim, tantos como eu que são saudáveis e foram tranfiados por diagnósticos comprados. Mulheres estupradas, filhos bastardos, idosos abandonados e mesmo os próprios doentes.

"Você parece esperto senhor Taehyung, então duvido que não saiba que muita gente é paga para colocar pessoas aqui. É a forma mais viável de lidar com um escândalo na sociedade elitista."

"Eu lamento por isso, senhorita Martin." Ele diz. Sua voz profunda é tão bonita. Sorrio amarelo por ele.

"Não precisa, nem mesmo eu o faço mais. Esse negócio de lamentar me deixa deprimida." Suspiro direcionando meu olhar para longe. Diane caminha devagar para nossa direção, o que significava que a consulta acabou e eu tenho que voltar aos aposentos.

"Senhor Taehyung."

"Sim?" Ele me responde.

"O senhor me parece uma boa pessoa. Se um dia puder fazer algo de bom para pessoas como eu e para os doentes, o que faria?"

Ele ficou em silêncio e Diane já se aproximava com seu rosto acolhedor. Me ergo indo ao seu encontro. Eu já sabia a resposta, mas lá no fundo eu desejava deseperada que houvesse uma solução para aquele sofrimento, mesmo que demorasse anos. Eu me contentaria sabendo que alguém faria algo para mudar aquilo.

Contudo, nem o novo psiquiatra poderia mudar aquela realidade tão facilmente, aquela triste realidade. 

Se eu já havia me aquietado, porque diabos agora voltara a sentir pena de mim por estar ali? Por que?

"Senhorita Martin?" Viro-me para o psiquiatra, ele permanece sentado no mesmo lugar com a mesma expressão solene ao me fitar. "Os pássaros sempre lhe contam o que vêem lá fora?"

Respiro fundo e ergo meus olhos para o topo das árvores.

"Eu prefereria ver por mim mesma, Senhor Taehyung." 

"É Kim."

"Como?" Volto-me intrigada para ele.

"Meu sobrenome é Kim e não Taehyung."

"Ah." Asquieço. "Então… até a próxima, senhor Kim."



PEQUENOS BARULHINHOS, aqueles sons quase inaudíveis de quando pisamos sobre a grama seca é tão relaxante... Fecho meus olhos, sentindo as folhas sob meus pés descalços. Algumas risadas escapam da minha boca. Ás vezes sentia cócegas na sola do pé e não conseguia evitar sorrir, mas melhor do que isso é que a cada curta risada minha podia ouvir a dele me acompanhar.

Enquanto meu tibre é mais agudo — lembrando uma risada tímida dessas jovens moças que suspiravam pelo senhor Kim pelos corredores, a dele tinha um som mais reconfortante, como se viesse fundo de dentro dele, como se viesse de sua própria alma me alegrar.

Ele segurava minha mão na sua, me permitindo caminhar sem olhar e aproveitar a sensação. O senhor Kim sabia como aquelas caminhadas e sessões ao ar livre me faziam menos irritadiça ou depremida pela semana e por isso nunca faltou um único dia, todas as vezes muito pontual e com seu olhar serenamente intenso em mim. Não podia negar que já havia me derretido por seus encantos e rido toda boba pensando nele antes de pegar no sono, não podia negar que quando ele vinha até mim, eu não me sentia um animal enjaulado. Eu sentia ansiosa para receber o pouco de liberdade que ele tinha para me oferecer.

O psiquiatra não era o diretor dali, então não podia fazer muito quanto àqueles que não precisava de tratamentos mentais como eu. Portanto, ele tentava trazer o máximo de vida para nossos corpos solitários. Começou com livros, cujo os clássicos de romance devorei rapidamente fazendo com que o médico sempre precisasse preparar um estoque extra para mim. Depois ele percebeu que música acalmava alguns pacientes, então durante o final da tarde, melodias calmas tocavam pelos interfones instalados nos corredores. E agora ele conseguira autorização para construirmos jardins e plantarmos hortaliças.

Estava tudo mudando tanto que eu às vezes tinha medo de acordar e perceber que nada passara de um sonho e que Kim Taehyung fosse apenas um fruto da minha fértil imaginação.

"Senhorita Martin." ele chamou. Mãos me seguravam pela cintura impedindo que continuasse a caminhada. Com meus olhos pesados pelo costume de caminhar com eles fechados, dirijo meu olhar mais acima aonde o rosto delicado de Taehyung se inclinava para mim. 

Ele iria me beijar?

Pisco surpresa. Ele realmente iria me beijar? Eu gostaria que sim? Definitivamente. Sonhara com isso tantas vezes, que nem nervoso sentia agora.

"Vou partir para Nova Iorque amanhã." 

Não houve palavras, ele apenas continuou ali. Parado. Me encarando.

E eu...

Eu estava imóvel diante dele, sentindo-o tão perto, mas já sendo tirado de mim. Como todos foram. 

Meus lábios se moviam tentando dizer algo que fizesse sentido, mas não havia nada que eu realmente quisesse dizer. Dizem que quando dizemos algo em voz alta, as palavras podem ter tanto poder que se realizariam. 

Como então diria adeus à ele?

A julgar seu olhar, nunca mais nos veríamos.

"Precisa confiar em mim." disse. Seus dedos se mexeram, pressionando-me e eu pude sentir minhas pernas tremerem só com aquilo. Abaixei meus olhos descrente em como o destino era cruel comigo.

"Eu confio, senhor Kim." murmuro.

"Taehyung." ele corrige me fazendo erguer os olhos para cima. "Você é única que pode me chamar assim."

"Tae-hyung." tento e ele sorri quadrado para mim, minhas bochechas se esquentam e meu peito se aperta.

"Antes de ir. Preciso que me prometa uma coisa." asquieço prontamente.

"O que quiser."

"Espere por mim." o marrom de seus olhos brilhavam e eram tão límpidos, tão fáceis de se sentir segura para encarar. Estar com Taehyung sempre fora dessa maneira. Reconfortante de forma global. Não era só seu modo de agir ou como sua voz soava, mas a energia que ele transmitia, as vibrações boas que ele trazia a nós e nem se dava conta do mesmo.

Tudo isso me fazia querer puxá-lo para mim e não permitir que fosse para longe, mas eu não era dona dele. Logo, enquanto ele vivia no mundo lá fora, eu teria que continuar aqui aguardando.

Sabe aquele sentimento que o mundo pára quando estamos com quem amamos? Assim como acontece nos livros quando a mocinha está nos braços de seu herói e para este, todo seu mundinho é a delicada garota agarrada a ele? Achava que coisas assim só aconteciam nas fantasias dos escritotes e atores de teatro. Agora compreendo que arte imita a vida e que a vida inspira a arte.

"Por favor, Helena. Espere por mim." asquieci novamente. É evidente que eu o esperaria, porque não faria? Eu precisava de alguma coisa para me agarrar à realidade, logo que não estava preparada para morrer e um ser humano precisa acreditar em algo para se levantar todos os dias, certo? Diferente de religiões, política e sonhos, eu tinha Taehyung.




AS PESSOAS SÃO ENGRAÇADAS, sabe. Elas acham que são melhores que as outras por alguma razão superficial irrevelante como riquezas e intelectualidade e se esquecem que cada um tem tudo isso, mas para cada este um, são coisas completamente distintas. Como uma família, como uma missão de vida, como um grande amor, como precisar de estar com a natureza, como estar feliz com quem se é. Os valores variam não somente de povos para povos, mas de indivíduo para indivíduo.

Até mesmo para os doentes mentais deve haver algo assim, algo que eles consideram muito valioso. Como a Clarinha por exemplo que nunca deixa ninguém pegar na sua bonequinha de pano ou o Vinícius que adora suas rosas e cuida mais delas do que de si ou como Berta que adora o enfermeiro da cantina e sempre lhe diz como este parece com seu primeiro marido ou mesmo como a senhora silenciosa, a Maltida que carregava consigo um grãozinho de feijão desde o dia que chegara e este pequeno item, quando tirado dela lhe fazia gritar por horas até que fosse devolvido.

Não somos nada muito diferentes, somos todos um pouco fora da sua casinha, doentes ou não. Mas também... Não há como viver nesse mundo sem ser afetado por ele, certo? Não há como exigir que sigamos os mesmo padrões, as mesmas regras quando temos uma subjetividade diferenciada das dos outros. É meio louco, mas... Somos tão diferentes em sermos iguais aos outros e tão iguais em sermos diferentes dos outros.

Penteio meus cabelos escuros com os dedos. Eu estava novamente enfrente ao pedaço de espelho filosafando de assuntos que no final entravam num círculo vicioso e me impediam de dormir até que eu chegasse o mais perto de uma conclusão.

Mas o fato é que, é necessário o equilíbrio além do nosso poder na maioria das vezes. Não podemos ser "loucos" demais ou "normais" demais. O extremo foge do controle da massa maior que estabiliza e concretiza o que é chamado de "esperado" ou "normal" e quando esse extremo causa medo, ele é exilado e coisas horríveis acontecem vindo de pessoas que nunca esperaríamos.

Porque o medo não muda as pessoas, o medo permite que ela faça o que necessariamente não deve mas já quis fazer e usar o momento como uma desculpa. Não precisando sobrecarregar sua consciência com culpas. É assim que as coisas são.

É dessa forma simples que as coisas bonitas que Taehyung trouxe foram desaparecendo. Ele é o único, além de Diane que se importava verdadeiramente conosco e como ele não estava mais aqui para direcionar todo o processo, o medo dos pacientes se revoltarem contra os funcionários, principalmente os pacientes recém chegados, todo o medo os consumiram e a gaiola foi voltando a ser acinzentada e frívola. 

O jardim e a horta se foram, porque ninguém queria se dar o trabalho de nos levar para cuidar deles. Vinícios que tanto amava aquelas plantinhas, agora vivia drogado em seu quarto, tanto que eu o mal o via. 

Como temia, parecia que Taehyung nunca estivera aqui.

Os pássaros voltaram às suas lamúrias e eu voltei para meu pedacinho de espelho. Este pássaro azul que antes reluzia, voltou a reluzir por causa do senhor Kim e não deixou de ser assim mesmo quase um ano e meio depois que se fora para longe. Este pássaro azul ainda brilhava, pouco, mas brilhava ainda sim. Só porque ele dissera que voltaria e que podia confiar nele.

A chuva cai pesada lá fora me assustando-me e não demora muito para que o cheirinho comece a subir. Aquele cherinho fresco entrou por meu pulmão e tirou do fundo da minha mente memórias que guardei carinhosamente. 

Taehyung perto de mim no banco em seu primeiro dia. Taehyung chegando com caixas de livros, as pessoas indo curiosas até ele, seu sorriso orgulhoso para mim quando lhe entregava outra obra lida. Taehyung me levando para caminhar no final da tarde, do vento frio fazendo a camisola balançar e minha pele se arrepiar, o moreno colocando seu paletó sobre meus ombros, nossas mãos se tocando sem querer. Taehyung em roupa de jardineiro em meio aos pacientes lhe ensinando e ajudando a plantar, contando-lhe histórias, me atraindo para ele sem fazer nenhum esforço. Taehyung na porta do meu quarto, a camisa social branca com botões abertos, o rosto e mãos sujos e os cabelos escuros úmidos de suor em sua testa, esta foi quando veio me contar sobre a música. Taehyung sorrindo, Taehyung me fazendo rir, Taehyung revirando os olhos quando argumento contra sua opinião, Taehyung me dizendo para esperá-lo e por último me dizendo boa noite.

A última vez que o vira.

Suspiro menos entristecida, as lembranças são realmente um presente para suprir a saudade.

Como já havia me acostumado ao longo dos anos, a porta pesada se arrastando no chão de cimento me assustou, mas mesmo assim permaneci do jeito que estava. Sentada, apreciando o barulho e cheiro da chuva, cheirinho que fora se acentuando aos poucos. 

"Helena?" viro-me de supetão para a porta. Aquela voz profunda…

Taehyung?

Seu cabelo estava maior e cobria um pouco os seus olhos, ele vestia um terno bege muito bonito que o deixava mais elegante do que já é. Seu peito descia e subia com dificuldade e ele usava o beiral da porta para se apoiar.

"C-como? Você está bem?" corro para ele preocupada e sou surpreendida quando seus braços passam por mim, me pressionando forte contra seu peito. O cheiro fresco característico dele preencheu minhas narinas, me fazendo formar um sorriso involutário. Abraço Taehyung de volta. 

Ele estava realmente ali comigo. 

"Eu vim te levar pra casa." murmura entre as tentativas pegar fôlego, por sobre minha cabeça.

"O quê?" me separo dele encarando seu rosto. Taehyung encaixa sua palma a meu rosto e céus... Lá estava a sensação de derretimento em mim, exatamente como era antes.

O senhor Kim, trabalhou árduo durante esse um ano e meio para ir contra as más fiscalizações e cuidados básicos nos hospitais psiquiátricos, me contara animado mostrando suas infinatas anotações e disse-me que gostaria de ter meu testemunho como prova para os professores da academia. 

Era uma maneira de me ajudar e ajudar os outros que estavam ali. 

"Você me perguntou o que eu poderia fazer para ajudá-los quando a conheci, lembra?" Assinto para ele. "É isso que posso fazer, tentar mostrar ao mundo que trancafiar essas pessoas e maltratá-las não as tornarão mais saudáveis. Helena, pela primeira vez eu sinto que posso fazer algo significativo graças a você."

Sair daquele lugar era muito estranho, sentar num banco de couro e olhar para ele pela janela, sem dúvida fora a coisa mais estranha que já fiz. Mas fiz feliz, certa que seria para um bem maior.

Não digo que minha sensação de liberdade me tomou quando deixei a gaiola, muitas penas minhas foram arrancadas no decorrer da vida, mas isso também não me impede de caminhar ou alçar em vôos mais baixos por exemplo. Eu era um pássaro um tanto livre e preso, tentando ajudar outros a encontrarem um repouso como o meu para si e do seu jeito. 

Minha lucidez foi comprovada por laudo médico de um amigo da academia de Londres onde Taehyung estudara, a tese de Taehyung foi aceita fazendo com que as políticas públicas tivessem que replanejar todo o tratamento de saúde em relação à doentes mentais. O que não melhoria do dia pra noite, mas estávamos lá pra exigir esses direitos.

No mês seguinte nos casamos e abrimos uma clínica num bairro de classe média em Veneza, nossa primeira filha, Aurora como quisera o pai, nasceu um ano mais tarde alegrando-nos profundamente.








Só porque você é um passarinho ferido não quer dizer que nunca mais vai voar.



Notas Finais


Eu amo Taetaeeeeee!


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QUEIMOR: o incendiar de dois reinos (IMAGINE GOT7)
https://www.spiritfanfiction.com/historia/queimor-o-incendiar-de-dois-reinos-imagine-got7s-jackson-18325873


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