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História Mentira Perfeita- Fillie - Capítulo 8


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Notas do Autor


cap pequeno, mas importante!
boa leitura 💘

Capítulo 8 - Eight


Millie

Quando a comida chegou, avisei que precisava ir ao banheiro e aproveitei para ligar para casa. Tia Berê estava bem.

— Mais do que bem, meu amor — ela disse. — Karine e eu estamos na companhia de Marlon Brando!

— Qual? — Tia Berenice era obcecada por filmes antigos. Sobretudo aqueles com Marlon Brando, Paul Newman e Sidney Poitier.

Uma rua chamada pecado. Oh! Oh! A Stella está descendo a escada e vai perdoar o Stanley. Eu tenho que desligar! Não posso perder esse beijo! — Ela encerrou a chamada antes que eu pudesse me despedir.

Fui para o bar e peguei uma água. Não estava acostumada a beber — ou tomar sorvete encharcado de álcool — e me sentia um pouco zonza.

Finn também parecia estar tendo uma noite ruim. Ele se manteve calado, e, pelo número de vezes que seu irmão perguntou se ele estava bem, suspeitei de que aquele não fosse seu estado normal. Eu dava uma espiada nele de vez em quando, e juro que era capaz de sentir quando aqueles olhos estavam em mim.

Isso me deixou quente por dentro e por fora. Por que ele me encarava daquele jeito?

Desviei o olhar, me ajeitando melhor na cadeira, quando reparei que logo atrás de mim estava sentada uma moça tipo capa de revista, acompanhada de outras duas garotas. Ela dava risada e jogava o cabelo para o lado com as longas unhas pintadas de vermelho. E olhava para Finn descaradamente.

Ah. Claro. Não era a mim que ele observava daquele jeito. Que bom. Me poupava o tempo de tentar decifrar o significado daquele olhar.

Nick, Gaten e Alicia resolveram jogar sinuca. Sadie e Liz tagarelavam sobre o casamento de Alicia, que estava se aproximando. Como Finn continuava a encarar a loira, resolvi não atrapalhar mais e perambular pelo bar.

Acabei em frente a uma antiga jukebox que, infelizmente, era apenas decorativa.

Bem ao lado havia uma porta de madeira envidraçada que dava para um terraço, e decidi me aventurar por ela. Não havia muita gente ali, apenas dois casais e um grupo de estudantes, por isso mesmo achei que seria um bom lugar para esperar Sadie decidir que já era hora de irmos para casa.

Driblando as mesas e seus ombrelones, fui para um canto mais sossegado e me debrucei no parapeito. Minha cidade era linda de todos os ângulos, mas daquele em particular era espetacular. Os pontos luminosos se interligavam em uma gigantesca rede.

O barulho de vidro chacoalhando me fez virar a cabeça. Finn tentava passar por entre as mesas. Apesar de espaçoso, o terraço estava uma bagunça naquele fim de noite e as rodas da cadeira dele se prendiam nos pés dos móveis.

— Foi mal — ele disse a um dos estudantes depois de bater com a cadeira em seu pé.

— Sem problema, camarada. Precisa de ajuda?

— Não. Tô legal. Pode deixar.

Ele precisou manobrar algumas vezes para conseguir passar. Eu quis ir até ele e ajudá-lo, mas, pela forma como sua boca estava pressionada, o queixo erguido, desconfiei de que queria resolver aquilo sozinho.

Ele me alcançou, enfim.

— Sempre dizem para não beber e dirigir, mas no meu caso é meio impossível. — Abriu um meio-sorriso. — O que você veio fazer aqui fora?

— Admirar a vista. É tão bonita.

Ele chegou mais perto — mas não muito — do parapeito e esticou o pescoço.

— É...

— O que aconteceu com a loira? — Tomei um gole da minha água.

Ele me encarou por um momento, a testa encrespada.

— Que loira?

— A que estava atrás de mim. Eu até saí de lá para não atrapalhar vocês.

— Não sei de quem você está falando.

Rá! Até parece!

Ele coçou a nuca, como se estivesse organizando os pensamentos, antes de mirar aquelas duas turmalinas em mim.

— Millie, eu queria falar com você sem ninguém por perto.

— Por quê? — Eu me virei para ele, apoiando os cotovelos na mureta.

— Porque... Você pode não fazer isso?

— Isso o quê?

— Se debruçar desse jeito. É meio alto aqui.

— Você tem medo de altura?

— Fico desconfortável, só isso. — Ele deu de ombros. — Sai daí, Millie.

Revirando os olhos, endireitei a coluna e dei um passo para o lado.

— Melhor?

Ele fez que sim, mas não disse nada, só ficou ali me observando. Fui ficando cada vez mais desconfortável.

— O que você quer? — Minha intenção não era ter soado tão rude. — Quer dizer, você queria falar comigo?

Ele assentiu ao mesmo tempo em que esfregava a nuca de novo, como se não soubesse de que maneira começar.

— Humm... Qual... qual é a primeira coisa em que você pensa quando me vê? Qual a primeira palavra que te passa pela cabeça, Millie? — Era impressão minha ou ele parecia mortificado? — Não pense muito.

— Cretino — respondi de pronto.

— É uma boa palavra, eu acho. — Ele fez uma careta engraçada. Tenho quase certeza de que eu não teria achado graça se estivesse sóbria, ainda que não estivesse exatamente bêbada. — E o que mais? Consegue pensar em um adjetivo melhor? Bonito, talvez?

Era só o que faltava.

— Escuta, Finn, eu não sou a melhor pessoa para esse tipo de coisa. Se você veio em busca de massagem para o ego, errou a pessoa. Mas boa sorte com a loira.

Um lampejo de irritação faiscou em seu semblante.

— Eu não estou atrás de elogios. Eu quero é resolver um problema. Dois, na verdade. Tenho uma proposta para você.

Tá. Meu cérebro parecia solto dentro do crânio.

— Acho que eu bebi demais, porque não entendi o que você disse.

— Você me acha atraente?

Continuei olhando para ele, sem acreditar. Ele estava brincando comigo? Se estava, ia aprender uma lição.

Dei uma olhada nele. Cabelo negro ligeiramente ondulado, olhos indecentes de tão escuros, maxilar quadrado e forte. Pescoço largo, ombros ainda mais. Braços definidos. E tinha as mãos — grandes e rústicas, aquele tipo de mãos que faz uma garota imaginar como seria ter a cintura envolvida por elas, sentir sua força ao ser suspendida por elas e então ser encaixada em seu colo...

Detive o pensamento bem ali.

Maldito álcool. Me fazendo pensar em coisas que, lúcida, eu jamais pensaria. Sobretudo a respeito daquela barba rala, que contra a pele do pescoço devia ser o céu...

Para com isso!

— Não tão atraente assim... — Não sei ao certo se tentei convencer Finn disso, ou meu cérebro embriagado.

— Ah. A cadeira. Eu entendo. — Ele anuiu uma vez. Sua expressão se tornou dura, sombria.

— A cadeira não tem nada a ver com isso. — Ela não era exatamente atraente, mas também não havia nada de errado com ela. Era algo de que ele precisava, assim como eu precisava dos óculos para poder enxergar o mundo com nitidez.

E então, por causa do meu cérebro agora disperso devido ao álcool, me flagrei pensando se ele precisava da cadeira desde que nascera ou se um acidente ou doença o colocara nela. Não que fizesse diferença, eu só queria saber mais sobre ele...

Não! Não queria nada!

— Não? — perguntou, como se tivesse lido meus pensamentos.

— Não! — respondi a ele e a meu cérebro bêbado.

— Então... você sairia comigo?

O quê?

— Você está me convidando para sair? Pensei que eu não fosse tão bonita assim pra te interessar.

Seus olhos se estreitaram.

— Não sabia que você ouvia atrás da porta.

— Eu não faço isso! — Meu rosto pegou fogo. — Ouvi por acidente. Então, seja lá qual foi o motivo que te trouxe aqui, pode dar meia-volta. Não estou a fim de ser seu novo brinquedinho. Você é o tipo de cara que eu evito. Mulherengo, gozador, leva tudo na brincadeira...

— Mas eu nunca disse que queria brincar com você. — Ele abriu um sorriso que era puro atrevimento. — E você não acha que é um pouco precipitado julgar meu caráter quando nos vimos apenas duas vezes e mal trocamos meia dúzia de palavras?

— Meia dúzia de palavras que reforçaram a minha tese. Já deu pra sacar que tipo de homem você é.

Bufando, ele esfregou o queixo quadrado e forte.

— Ok, isso não está indo como eu tinha planejado. Vou colocar de outra maneira. A sua tia iria estranhar se você me namorasse?

— O que a minha tia tem a ver com isso?

— Tudo. — Ele chegou mais perto, ficando a pouco mais de meio metro de mim. Pela primeira vez percebi quanto ele era grande. Mesmo sentado, sua cabeça ficava na altura da minha boca. — Você tem um problema. Eu também estou precisando de ajuda. A gente podia resolver isso juntos.

— Hã?

— Eu posso ser seu namorado... noivo, o que seja. E, em troca, preciso que você finja ser a minha enfermeira.

Comecei a cogitar a hipótese de Finn não bater bem da cabeça, mas então o que ele havia dito penetrou meu cérebro. Ah, meu Deus. Ele estava doente?!

Toda a antipatia que eu sentia por ele evaporou.

— Eu... não sabia que você estava doente. É alguma coisa grave? — Ele parecia bastante saudável para mim, com aqueles ombros largos e tudo o mais, mas eu sabia muito bem que nem sempre uma aparência saudável significa ter saúde.

Ele piscou uma vez, então começou a rir, balançando a cabeça.

— Não sei se você está completamente bêbada ou se é a pessoa mais tapada que eu já conheci.

— Meu QI é 140. — Endireitei a coluna, ofendida.

— Às vezes as pessoas mais inteligentes são as mais tapadas. Por que você acha que eu preciso de uma enfermeira, Millie?

— Se eu soubesse, não teria perguntado. O que você tem, afinal?

— Uma lesão em duas vértebras e pais que acham que eu não posso viver sozinho porque minhas pernas se tornaram inúteis depois do acidente.

— Ah. Aaaaah... — Eu devia ter pensado nisso. Foi um acidente, então.

— O Nick e a Alicia são legais — continuou —, mas já está na hora de eu começar minha vida. Só que a minha mãe tá me atazanando por causa disso. Ela acha que eu vou acabar me machucando se não tiver alguém por perto, que vou tacar fogo na casa ou cair no banho, sem ninguém pra socorrer.

— Isso é meio ridículo. Pode acontecer com qualquer pessoa. Cadeirante ou... ou andante — falei, por falta de uma palavra melhor.

— É, mas ela acha que eu tenho mais chances. — Ele desviou a atenção para uma mesa vazia atrás de mim. — Eu sei que ela não faz por mal, mas ela me faz sentir tão... tão...

Incapaz, pensei quando ele não prosseguiu.

— Enfim — ele soltou o ar com força e voltou a me encarar. — Eu sei que posso me virar. Além disso, é uma situação provisória. Eu estou a meio caminho de voltar a andar e... Isso não é relevante agora. — Sacudiu a cabeça. — Meu pai impôs essa condição para me deixar em paz. Ou tão em paz quanto a minha família é capaz de deixar. Preciso de um acompanhante. Você não teria que fazer nada. Só aparecer quando a minha família estiver na cidade. Meus pais moram numa chácara não muito longe daqui. Em troca, eu vou ser o namorado que a sua tia sempre sonhou.

— Humm... Acho que você tem razão. Estou muito bêbada. Preciso me sentar.

Tateei até encontrar uma cadeira e me largar sobre ela.

— Eu pensei em tudo. — Ele chegou mais perto. — Você ganharia um pouco mais de tempo. Pelo que eu entendi, a agência não vai devolver toda a grana mesmo. Cancelar agora ou em algumas semanas não vai fazer diferença. Só que o coração da sua tia pode aparecer nesse meio-tempo. Assim, você vai poder fazer a sua tia cancelar o contrato de casamento sem matá-la ou ter que confessar que mentiu. A gente pode se mostrar mais distante aos poucos, ir preparando o terreno para ela não ficar tão abalada.

Arqueei as sobrancelhas.

c) Apresentar um namorado a tia Berê, ir me desligando dele aos poucos até romper o namoro de vez, conseguindo assim que ela assine o distrato sem ter um ataque fulminante.

Aquela era, sem sombra de dúvida, a melhor alternativa. O que Finn dizia fazia todo o sentido. Mais tempo era tudo o que eu precisava.

Ainda assim, eu titubeei. Ele percebeu.

— Escuta, Millie. Não estou feliz com isso também. Você acha que pra mim é fácil vir aqui te propor isso? Acha que eu estou feliz em me expor assim para uma garota que eu acabei de conhecer? — Ele parecia tão franco, tão sincero e bonito. Sobretudo bonito. — Eu não estou te pedindo em casamento, só propondo um acordo. Você resolve o seu problema, e eu, o meu. Eu sei que posso ser o tipo de cara que você gosta.

— Você não sabe de qual tipo de cara eu gosto.

Ele me mostrou uma coleção de dentes brancos perfeitamente alinhados.

— Eu sei, sim. E posso ser esse cara quando estiver perto de você. Se você me ajudar — acrescentou, com a voz ligeiramente rouca.

Um arrepio inesperado percorreu minha coluna. Talvez o tempo fosse virar...

— Vamos fazer o seguinte — propôs. — Eu te levo para jantar amanhã. Só você e eu. Vai ser um teste. E aí você decide se consegue me suportar por algumas semanas. O que acha?

— Por que você está tão decidido a morar sozinho? — Aquele homem parecia disposto a tudo para conseguir o que queria.

Uma faísca de obstinação lhe cruzou o rosto.

— Meu irmão nunca ia dizer uma coisa dessas, mas eu sei que estou atrapalhando o romance dele com a Alicia. E a minha única alternativa seria voltar a viver na chácara com os meus pais. Por mais que eu os ame de todo o coração, não quero isso. Além do mais, eu descobri que poucas coisas na vida estão sob o meu controle, Millie. E as poucas que posso controlar, mesmo as menores e que pareçam insignificantes para outras pessoas, eu quero sob o meu domínio.

Eu compreendi. Também sentia que não podia controlar mais porcaria nenhuma.

— Então estamos combinados? — ele questionou, com uma doçura inesperada. — Você vai se encontrar comigo amanhã?

Não. Claro que não! De jeito nenhum!

Mas minha cabeça se rebelou e sacudiu afirmativamente.

— Ótimo! — Ele soltou uma pesada expiração, como se estivesse prendendo o fôlego. — Que tal aqui mesmo, às sete?

— Tá.

— Até amanhã, Millie. — Ele sorriu. Foi um sorriso diferente de todos os outros que eu já tinha visto, livre de ironia ou escárnio, que o deixou ainda mais bonito.

Outro arrepio — um violento, dessa vez — percorreu minha espinha enquanto eu o observava abrir a porta e desaparecer dentro do bar.

Porcaria. Eu devia ter trazido um casaco.

Quando fiquei sozinha, comecei a pensar com mais clareza. Então a realidade me atingiu feito um raio.

Meu Deus! Eu estava realmente cogitando aceitar aquela proposta maluca?



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