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História Metamorfose - Capítulo 52


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Notas do Autor


Estamos entrando na reta final... aproveitem.

Capítulo 52 - Intimidade é uma merda


Algumas semanas depois da casa de praia foi quando consegui colocar minha vida no lugar. Ou quase isso. Minha mãe já tinha dado a permissão para que eu voltasse a frequentar Lovelace e minhas notas foram recuperadas, mas minha saúde mental estava longe disso. 

Um mês das aulas já havia se passado após o acontecido. Daphne estava diferente, calada. August se manteve afastado, deslocado de todo o resto. A turma sabia de todas as desavenças e o clima das aulas era muito estranho, pesado, assim como tudo naquela escola. 

A casa do zelador não estava mais disponível desde que a direção da escola deu conta de que ela era uma inútil ocupação de espaço. Pelo menos para eles. Desde então estávamos passando os intervalos no banheiro interditado do último andar. Ainda parecia bizarra a ideia de que minha vida estava voltando ao lugar, mesmo que, naquele momento, eu estivesse almoçando sentada no balcão de pia do banheiro, enquanto Aspen e Carter faziam piadas com a roupa da professora de matemática do primeiro ano.

— Vocês não estão achando o silêncio da Daphne ensurdecedor? — Marlee interrompeu qualquer besteira que os meninos falavam sobre babados e sapatos pré-históricos pra colocar sua frustração para fora. 

— Ah, não esquenta com isso — Carter falou após estalar a língua em desdém. Os dois estavam sentados no chão sobre alguns pedaços de papelão. — Ela deve ter notado que a Mer tirou o gesso. Eu também estaria com medo de levar um soco na boca. 

Maxon engasgou com sua barrinha de cereal e Celeste gargalhou.

— Eu não sujaria minha mão com aquele batom rosa ridículo. 

— Claro, Celeste, você prefere quase arrancar os cabelos dela — Aspen contestou e ganhou um belo olhar de desprezo da garota por chamá-la pelo nome sem sensibilidade alguma. Celeste gostava de ser mimada. 

— Só posso voltar com minhas atividades normais em pelo menos um mês — dei de ombros. 

— Então daqui trinta dias você e ela voltam a se socar no corredor e poderemos dizer que tudo voltou ao normal — Carter estava esgotando seu estoque de deboche do dia logo cedo. 

— Pare com isso — Marlee o repreendeu com uma cotovelada nas costelas. Ele apenas reagiu com uma careta. 

— Vocês realmente querem passar o intervalo de almoço falando sobre a Daphne? — Maxon perguntou sem esboçar muita paciência. 

As expressões de deboche cessaram e Carter precisou se esforçar para conter o sorriso de canto de boca, porque, sim, ele queria. 

— Entendo o que Marlee quis dizer — falei, ignorando o objetivo de Maxon de dar um fim naquela conversa. — Ela deve estar tramando alguma coisa. 

— Ou talvez ela tenha cansado. Talvez esteja deprimida, se sentindo sozinha. Não podemos julgar. Ninguém aqui conhece ela.

— Você está defendendo ela, Maxon? 

O encarei incrédula. Ele estava sentado do outro lado do balcão, bem na minha frente. 

— Não, apenas não consigo enxergar só o lado ruim das pessoas. 

Ele desviou o olhar e eu não suportava quando fazia aquilo. 

— Ah, desculpe se Daphne me deu todos os motivos do mundo para pensar que ela é uma cobra que agora está destilando veneno em silêncio agora. Afinal, toda cobra é silenciosa, não? 

Maxon não respondeu. Ele sabia que aquela discussão não nos levaria a lugar algum e que nenhum de nós mudaria seu ponto de vista. Os outros quatro estavam começando a se acostumar com aquilo. 

Eu frequentemente surtava por motivos bobos e ele precisava contornar a situação. Minha instabilidade emocional estava piorando nas últimas semanas. Dona Magda não fazia questão de pegar leve nas suas loucuras, May estava na pior fase de sua adolescência e precisava de atenção frequentemente, enquanto Kota fazia questão de fingir que não participava daquela família e andava muito ocupado com seus artigos da faculdade. Phill tentava controlar a situação o tempo todo, assim como Maxon. 

Nossa relação parecia uma montanha russa onde todos os loops eram ruivos e descontrolados. Eu temia todos os dias que estivesse me tornando uma versão ainda pior da minha mãe. Os momentos bons pareciam passar uma borracha nas brigas, mas não demorava para que o dominó de frustrações começasse e eu acabasse descontando tudo o que minha mãe fazia pra mim em Maxon. 

 

Eu estava sentada nas arquibancadas, sozinha após a aula de basquete no ginásio, esperando que todos voltassem dos vestiários. Maxon chegou primeiro. Estava com os cabelos molhados e uma toalha enrolada no pescoço. Ele sentou ao meu lado e disparou a falar sem fazer cerimônia. 

— Preciso voltar para o apartamento. Acho que nosso problema é resultado de muita convivência. Sua mãe ainda não sabe como agir quando estou por perto, ela não se sente tão confortável e eu entendo isso completamente. Talvez isso melhore a relação de vocês e, consequentemente, a nossa. 

Apenas o encarei, não sabia o que dizer. Abri a boca pelo menos três vezes para tentar formular algo, mas nada saiu. Ele estava certo. 

— Você sabe que eu te amo, não? — ele perguntou, segurando minha mão. 

— Eu estou estragando tudo, não? 

Maxon fez uma careta, mas não porque concordava. Ele não sabia como reagir porque eu estava enchendo meus olhos de lágrimas.

— Acho que a gente mergulhou de cabeça nessa relação. Isso não está errado, mas tudo começou com muita pressa, sabe? Com muitos problemas e perdas. Nossa vida parece um filme clichê adolescente e, sinceramente, eu teria desligado a televisão nos primeiros trinta minutos porque é óbvio que algo daria certo entre a ruiva maluca e o mauricinho perturbado. Eles são péssimos protagonistas! 

Ele arrancou de mim uma risada boba, como sempre conseguia fazer. 

— Talvez seja melhor mudarmos algumas coisas — concordei. Antes que eu pudesse continuar, ele colocou o dedo indicador na minha boca, me impedindo.

— Não ouse pedir desculpas — cortou, arqueando as sobrancelhas.

 

Celeste ofereceu algumas caixas de papelão das compras da boate do seu pai para ajudar na mudança de Maxon. Estávamos todos no almoxarifado separando as bebidas nas prateleiras para que as caixas ficassem livres. 

— Você acha que seu pai vai notar se pegarmos algumas cervejas? — Aspen perguntou, segurando um engradado. 

— Pode beber, ele não se importa muito — ela deu de ombros.

Era óbvio que não. A família de Celeste nadava no dinheiro, aquilo seria a última de suas preocupações. Maxon desconfiava que aquela boate fosse pura lavagem de dinheiro, mas nunca comentamos para não magoá-la. 

Aspen correu para pegar algumas cervejas no freezer e colocou as do engradado para gelar no lugar. Ofereceu uma garrafa para cada, pulando Maxon. 

— Ei! — o garoto protestou, assustando o amigo. 

— Achei que você não estivesse bebendo, cara.

— Está na hora de mudarmos algumas coisas — ele riu e pegou a última garrafa da mão de Aspen, o deixando sem bebida. 

Não contestei sua escolha. Ele estava há longas semanas sem beber e provavelmente algum controle foi desenvolvido durante esse tempo. A cara de prazer de Maxon ao beber os primeiros goles me fez rir. 

— Pra comemorar a volta do casal para a farra, seria mais do que justo que a gente queimasse um — Carter disse, já tirando do bolso seu estojo de metal com desenhos de gibis. 

— A sua maturidade me comove — Marlee debochou, colocando a mão sobre o peito.

— Não se preocupe, tem outras coisas aqui que excitam você — ele piscou, fazendo Celeste assobiar e Marlee rir. 

— O ano letivo acaba em poucos meses e vocês não se desenrolam — revirei os olhos para os dois, que fingiram não ouvir enquanto cada um ironicamente enrolava uma seda. 

— Toma, você vai precisar disso para encontrar seu pai hoje — Carter entregou o isqueiro e o beck nas mãos de Maxon, que riu de nervoso, mas aceitou. 

— Se eu der sorte, não encontrarei ele em casa — falou, largando a fumaça pro alto. 

— Você não é uma pessoa de muita sorte, então traga mais uma vez — Celeste contestou, fazendo todos rirem.  

E não era mesmo. 

 

O sol já estava se pondo quando Maxon estacionou o carro na entrada da sua casa. Um calafrio percorreu sua espinha quando desligou o motor e passei minha mão pelas suas costas para acalmá-lo. 

— Você já enfrentou coisas piores — tentei o encorajar, mas aquilo não pareceu a melhor das coisas para se falar. 

— Ele sempre é a pior. 

— Não. Você sabe que o almoço com a minha família foi a pior. 

A brincadeira felizmente o fez rir. 

— Sua avó é intimidadora. 

— Minha mãe está fazendo você se mudar, não ouse falar que minha avó é a pior das ruivas. 

Mais uma vez ele riu. Parecia estar funcionando. 

Maxon respirou fundo e tomou coragem para abir a porta do carro. Eu fiz o mesmo. 

— Você não precisa fazer isso — ele disse, tirando as caixas vazias do porta-malas. 

— Preciso sim, fique quieto e não conteste meu amor por você — rebati, forçando o drama no meu tom de voz. Mais uma vez ele sorriu. 

Assim que pegamos todas as caixas ele subiu os degraus de entrada na minha frente. Uma das funcionárias abriu a porta sem que precisássemos pensar no que fazer para entrar. Ela parecia nervosa com a presença de Maxon. 

— Boa noite, meu querido — ela disse, lhe dando um beijo na bochecha. Fez o mesmo comigo e me senti culpada por não saber ao menos seu nome. 

— Boa noite, Morgana. Não se preocupe em avisar meu pai que estive aqui, ele sequer vai notar. Não se dê o trabalho da explicação.

Ela tentou falar algo, mas Maxon disparou as palavras enquanto já subia com pressa as escadas. Ele queria resolver aquilo o mais rápido possível. Quando subimos a escada do sótão, ele respirou fundo antes de abrir a porta. 

Não notei o momento em que ele deixou as caixas caírem no chão. As minhas foram parar lá em seguida. 

A janela estava aberta, a cama arrumada, o ambiente organizado. A única coisa fora do lugar ali era Clarkson, sentado na cama encarando a parede oposta, que era repleta de fotos escolhidas a dedo por Maxon. Ele não mexeu um músculo sequer, mesmo percebendo nossa presença ali. 

Maxon arranhou a garganta e tomou coragem para falar algo.

— O que você está fazendo aqui?

Nenhuma resposta veio. Clarkson não reagiu.

— Bom, vou pegar algumas coisas por aqui e espero não incomodar sua paz. 

Ele pegou uma caixa pequena do chão e a colocou sobre a escrivaninha. Começou a juntar uma por uma das fotos com delicadeza para que a cola não estragasse alguma delas. Me juntei a ele, mas estava completamente desconfortável com aquela situação. O olhar de Clarkson estava perdido, ele realmente não parecia nos ouvir ou estava nos ignorando com perfeição. 

Antes que terminássemos de tirar todas as imagens da parede, ouvimos algo se mexer atrás de nós.

Clarkson estava colocando o dedo sobre os lábios enquanto balbuciava algum pedido de silêncio, mesmo que não estivéssemos falando uma palavra sequer.

— Maxon, sua mãe está descansando — ele disse, sem mover o olhar. — Ela trabalhou durante todo o dia, você pode fazer esses rabiscos na parede outra hora. 

Maxon perdeu o controle da respiração e me encarou com os olhos arregalados. 

— Ele está delirando? — deixei escapar, assustada. 

— Só pode estar zoando com a nossa cara — Maxon virou novamente para a parede e terminou de descolar as últimas fotografias. 

— Você mima demais esse garoto, meu amor — Clarkson voltou a balbuciar, esboçando um sorriso fraco, doentio. Eu jamais o vi daquela forma, parecendo vulnerável. — Desse jeito ele vai estar na faculdade precisando que você lave as cuecas sujas dele. 

Maxon guardou a última foto e continuou o ignorando. Estava começando a tirar as roupas que restaram em seu armário quando as alucinações voltaram. 

— Amberly, deixe ele fazer suas coisas sozinho. Uma criança com três anos já é capaz de ser mais independente, não faça por ele o que o garoto pode fazer sozinho. 

— Alguma coisa está errada, Maxon — falei, mas ele continuou selecionando as roupas que jogava dentro da caixa. Estava claramente tremendo. 

— Dobre essas roupas direito, moleque — Clarkson interviu, levantando da cama repentinamente e tirando as roupas jogadas de dentro da caixa. —  Sua mãe está estragando você! 

 ELA ESTÁ MORTA! —  Maxon gritou, empurrando Clarkson para longe.

—  Não fale besteiras, garoto! 

—  Cala a boca! 

—  Maxon! — foi a minha vez de intervir que aquilo continuasse.

—  Viu? —  Clarkson perguntou, me encarando com fúria. —  Você estraga esse garoto! Ele não obedece ninguém, faz tudo do jeito dele. 

Minhas pernas falharam e precisei dar alguns passos para trás a fim de recuperar o equilíbrio. Ele estava começando a me assustar, mas aquilo não continuou por muito tempo. Uma das empregada, entrou às pressas no quarto com uma bandeja em mãos, sobre ela um copo de água e alguns remédios. Era bem diferente de Morgana. Tinha a pele enrugada, envelhecida. 

—  Sr. Clarkson? —  ela chamou, sem receber sua atenção. —  O senhor precisa tomar seus remédios. 

—  Não me venha com esses remédios inúteis, Abby! —  ele estapeou a bandeja, jogando tudo longe e molhando o carpete no chão. 

Maxon engoliu em seco. 

—  Esse não é o nome dela, não? —  perguntei e ele negou com a cabeça.

—  É o nome da minha avó. O que está acontecendo, Olga? 

A mulher enrugou ainda mais seu rosto ao cair no choro. 

— Ele nos fez prometer que não o avisaríamos, Maxon.

—  Olga, o que está acontecendo? —  repetiu a pergunta, agora segurando firme os ombros da mulher para acalmá-la. 

— Ele está com alzheimer —  ela explicou, ainda chorando. Maxon prendeu a respiração, assim como eu. —  A doença se agravou muito rápido e ele se recusa a tomar os remédios todos os dias. Ele é muito jovem para isso, estamos todos muito preocupados. As alucinações vêm piorando a cada dia.

Em poucos segundos ela estava em prantos nos braços de Maxon. Aquilo estava o deixando ainda mais nervoso. Ele não sabia lidar com lágrimas do sexo feminino. 

— Vocês esperavam me contar quando? —  Maxon estava surtando. Era muita informação em poucos segundos. —  Quando ele voltasse a beber? Quando agredisse alguma de vocês no meu lugar? 

—  Desculpe, Maxon —  ela engasgou com soluços a cada palavra. —  Não imaginávamos que chegaria a esse nível em oito semanas.

— E quando ele foi na escola? Parecia perfeitamente normal! Como o deixaram sair de casa? 

— Ele tem alguns picos de lucidez — ela explicou enquanto secava as lágrimas. — Aquela semana ele passou bem. Foi trabalhar como se nada estivesse acontecendo. Algumas vezes ele tenta ir para o trabalho mesmo quando não está lúcido e precisamos pedir ajuda para o motorista para não deixá-lo sair.

Clarkson encarava os dois, mas não parecia absorver nenhuma de suas palavras. 

— Você sempre foi uma péssima mãe, não finja ser uma boa avó agora. Pare com esse papo furado. Você é um desastre quando se trata de amor maternal. Saia daqui! —  Clarkson começou a empurrar Olga, a afastando de Maxon, que agiu rápido e impediu que o pai a machucasse. Ele fez sinal para que Olga saísse antes que as coisas piorassem e assim ela fez. 

—  Pare com isso —  Maxon agarrou a gola da camisa social dele —  ou vou deixar sua cara roxa por todas as vezes que você machucou alguém. 

Clarkson o encarou, mas não estava o enxergando. Seu olhar estava vazio e ele pareceu perder a força, parando de lutar contra os braços do filho.

—  Esqueci você na escola de novo? —  Clarkson perguntou. Foi a vez de Maxon perder as forças. —  As reuniões foram longas hoje, me desculpa, filho. 

Maxon o largou, fazendo com que ele cambaleasse até a cômoda atrás dele. 

—  Amanhã podemos tomar um sorvete depois da escola, o que acha? De baunilha, seu sabor favorito. 

O peito de Maxon subia e descia agressivamente. As lágrimas encharcaram seu rosto em poucos segundos. 

—  Pai? — ele chamou. —  Pai, você está delirando! 

—  Não. Dessa vez eu consigo sair mais cedo, prometo —  arrumou uma gravata que não existia e passou a mão pelos cabelos, exatamente como o filho fazia. 

—  Pare com isso! 

—  Maxon —  falei, me aproximando para colocar a mão em seu ombro, mas ele se encolheu ao meu toque. 

— Faça ele parar —  exigiu em prantos. —  Por favor, faça ele parar! 

— Ele não consegue controlar, meu amor. 

Filho da puta — Maxon xingou e antes que eu pudesse processar a situação, ele segurou com firmeza o braço do pai e o arrastou até o banheiro daquele andar, descendo as escadas do sótão aos tropeços. 

Quando os alcancei, ele estava colocando o pai em baixo do chuveiro com roupa e tudo. 

— O que você está fazendo? —  perguntei. —  Ele não está bêbado, Maxon! Ele não está drogado. Não é algo que um banho ajude! 

Pare com essa merda agora —  esbravejou, rasgando a camisa dele e esfregando seu rosto enquanto a água escorria por ele. 

Clarkson escorregou e os dois caíram sobre o azulejo molhado. Àquela altura as roupas de Maxon estavam começando a pingar. Ele estava completamente descontrolado, chorando feito a criança que o pai acreditasse que ele fosse. 

—  Por que você está fazendo isso? —  perguntou, inconformado. —  Quando estou feliz, esquecendo a sua existência, você inventa a porra de uma doença? POR QUE VOCÊ FAZ ISSO? 

Naquele momento nem eu conseguia me controlar. As lágrimas corriam pelas minhas bochechas sem que eu pudesse controlar. Clarkson também estava chorando. 

—  Olha o que sua mãe está fazendo com você —  ele negou com a cabeça em decepção. 

—  ELA ESTÁ MORTA —  Maxon gritou com todo o ar que tinha em seus pulmões. —  VOCÊ A MATOU, COMO QUE NÃO CONSEGUE LEMBRAR DISSO, SEU FILHO DA PUTA? 

Eu não podia assistir aquilo sem fazer algo. Saí do banheiro e corri pelos corredores daquela casa imensa até achar alguma ajuda. Temi que no meio disso algo mais grave tivesse acontecido, mas não. Quando eu e duas funcionárias adentramos o banheiro, Maxon estava abraçado no pai. Os dois no chão, ensopados e aos prantos. 

 

Algumas horas se passaram e continuávamos ali. Maxon convenceu o pai a tomar todos os remédios e, segundo todos os funcionários, fora a única pessoa capaz de fazer isso em pouco mais de dois meses. 

Clarkson estava dormindo depois de tomar também um calmante. Maxon e eu estávamos na cozinha, comendo o bolo de chocolate preparado por Olga, que ofereceu o doce com tanto carinho que não poderíamos recusar. 

Ele mal tocou na sua fatia. Eu também não conseguia comer naquele momento. Maxon passava as mãos pelos cabelos molhados incessantemente. 

— Celeste estava certa — comentei na tentativa de distraí-lo. 

Maxon apenas assentiu. Não estava no clima para qualquer brincadeira e em seguida me arrependi de ter falado alguma coisa. 

— Você não está com fome? — ele perguntou, encarando minha fatia de bolo mal tocada. — Normalmente você come até as cortinas depois de fumar. 

Parecia que zoar com a minha cara estava ajudando a melhorar um pouco seu humor, então apenas sorri e não contestei a brincadeira. Pousei meu polegar de leve na maçã do seu rosto e o acariciei. Ele fechou os olhos e respirou fundo ao meu toque. 

— Você já pensou no que vai fazer? — perguntei. Não queria pressioná-lo, mas ele precisava tomar alguma atitude. 

— Não é como se eu tivesse um leque de opções, não? — suspirou, frustrado. 

— Não, não é. Mas você tem a mim e todos os seus amigos. Você não está sozinho e sabe disso

— É aterrorizante acreditar que tudo isso está voltando. Todos os anos que ele me fez esconder minha mãe, que tentei afastar ela do sofrimento horrível que os olhares piedosos dos meus amigos causavam. Mais em mim do que nela.  Agora ele me apronta uma dessas. Eu estava indo embora, America!

Estava? Então você decidiu ficar? 

— Eu preciso ficar. Ele precisa de mim. 

— Você pode pagar alguém se for um fardo muito pesado pra você. 

— Eu aguento. De todas as coisas que ele me fez passar, talvez essa seja a mais fácil de resolver olhando na cara dele. 

— Você não precisa fazer isso por achar que é uma obrigação. Você não é obrigado a aguentar isso. 

— Ele não toma os remédios com outra pessoa. Ele tem quarenta e cinco anos, America, não quero ver meu pai sedado na cama de alguma casa de repouso de Carolina. Agora sei que todo o mal que desejei pra ele foi da boca pra fora. Ele é meu pai. Sendo bom ou ruim, ele é meu pai. Não posso virar as costas para ele, não é isso que minha mãe desejaria. 

Eu não estava tentando desencorajá-lo, apenas precisava que ele entendesse que aquele não era um fardo que ele precisava carregar. Não era uma troca de favores. Não era uma obrigação. Não depois de tudo que Clarkson fez o filho sofrer. 

 

Maxon organizou tudo o mais rápido que pôde. Voltamos para a minha casa no mesmo dia e pegamos suas coisas que estavam lá. Expliquei tudo rapidamente para minha mãe e Phill enquanto Maxon organizava sua mochila e colocava algumas roupas na minha. Não demoramos muito para voltar para o carro. Saímos após minha mãe beijar nossas testas com sua figura maternal que não demonstrava há algum tempo. 

Assim que estávamos de volta, Maxon fez ligações para os médicos da clínica que cuidou de Amberly durante anos e solicitou enfermeiros os quais Clarkson já estava familiarizado. Ele precisou também fazer ligações para o banco e marcou algumas reuniões para explicar o que estava acontecendo, mas antes disso precisaria conversar com o advogado da família para resolver tudo. Clarkson não estava mais em condições de exercer seus direitos e obrigações; a princípio Maxon precisaria interditá-lo. 

As conversas jurídicas e todas as ligações cessaram perto das três da manhã. A casa estava em completo silêncio, exceto por nós dois, que estávamos sentados à mesa de jantar, envoltos de anotações e papéis recém impressos com artigos médicos e sobre interdição civil. Conversávamos tentando achar a melhor solução, e, mesmo que eu não fosse muito boa em assuntos como aqueles, Maxon confiava na minha opinião. 

Quando ficou muito tarde, empilhei todos os papéis, os separei por pastas e levei as xícaras de café para a pia da cozinha. Recolhemos tudo e, exaustos, fomos tomar banho antes de deitar. No caso de Maxon, o terceiro do dia. 

— Você pode pegar mais leve — eu disse enquanto espalhava o sabão pelas suas costas e tentava fazer uma massagem relaxante. — Não precisa resolver tudo da noite pro dia. 

Ele ficou calado, apenas sentindo a água quente cair sobre suas costas enquanto eu tentava relaxá-lo. Quando acabamos, Maxon vestiu sua roupa com calma e me observou vestir um dos pijamas que ele mais gostava, recostado no balcão de pia. 

— O de abelhas é tão melhor que o de pandas — ele comentou, bêbado de sono. — O amarelo faz você parecer mais animada. 

— Você precisa dormir — falei, rindo da sua expressão eIxausta. 

Assim que deitamos, nos cobri com o edredom e entrelacei meus pés gelados nos quentes dele. 

Maxon suspirou e estremeceu ao sentir meus pés nos dele, mas não tinha forças para protestar, então caiu no sono antes que eu pudesse lhe dar um beijo de boa noite. 

 

Não acordamos com o despertador no dia seguinte. Era sexta-feira e despertamos com duas horas de atraso. Estranhei o lugar ao acordarmos assustados com as batidas na porta do quarto. O dia anterior parecia ter sido um pesadelo. 

— Entre — Maxon resmungou de bruços na cama, sua cara esmagada contra o travesseiro. 

Olga entrou com uma bandeja de café da manhã caprichada e a deixou em cima da mesa redonda no canto do quarto, onde Maxon antes costumava fazer algumas refeições ao tentar fugir da convivência com os pais. 

— Bom dia, queridos — ela acenou com o queixo e apenas acenamos de volta, sem forças pra falar qualquer coisa. — Owen, o advogado, ligou e disse que chega em meia hora, Maxon. Acho que você deveria se alimentar bem, porque hoje o dia vai ser mais estressante do que vocẽ espera. 

Maxon sentou na cama e pude ouvir várias partes da sua coluna estalarem. 

— Você sabe algo que não sei. 

Não foi uma pergunta. Olga apenas consentiu e seguiu na direção da porta. 

— Tome seu café tranquilamente e depois verá com seus próprios olhos. Não invente de perder o apetite antes da hora. Não se estresse antes das nove da manhã, querido. 

Ele suspirou frustrado assim que ela saiu.

Levantei e alcancei para Maxon uma das xícaras de café junto de um prato de misto-quente. Sentei ao seu lado com a mesma refeição, mas já a devorando pela metade, enquanto ele apenas encarava a xícara em suas mãos. 

— Você precisa comer alguma coisa. Nem só de café sobrevive o homem. 

— O que você acha que ela quis dizer? — perguntou, preocupado. 

— Não pense nisso. Pense que seu misto-quente vai perder toda a graça do nome se você não começar a comer agora mesmo. 

— Espero que você saiba que não precisa fazer isso.

O encarei sem entender. Maxon continuou com o olhar vidrado em seu café. Seu cabelo estava bagunçado e os olhos inchados. A barba por fazer o deixava mais velho, mas ainda mais bonito, mesmo que estivesse cansado. Senti um calafrio na barriga, como acontecia todas as vezes que pensava o quanto amava aquele homem com todas as minhas forças. 

— Não precisa ficar aqui. Eu sei que é difícil pra você conviver com ele e você não tem obrigação alguma com essa situação. 

— Maxon, olhe para mim — mandei e ele obedeceu sem pestanejar. — Eu amo você. Amo e respeito cada parte sua e sei que isso é recíproco. Dentro dessa responsabilidade toda que é amar alguém, entra também a responsabilidade emocional por essa pessoa. Você se responsabilizou tantas vezes em se calar a fim de não intensificar meus surtos e sempre faz de tudo para me deixar feliz e segura. Acho que está na hora de você deixar eu retribuir. Então, por favor, coma essa merda de misto quente, mas não tão quente assim? 

Ele sorriu e mordeu o sanduíche sem protestar. 

— Por mais que você implore para eu ir embora, vou continuar esquentando meus pés nos seus todas as noites. Você não precisa aguentar isso sozinho. Por mais que o nosso problema seja muita convivência, acho que precisamos enfrentar esse momento juntos. Pelo menos no início. 

— Ruiva, você faz um homem comer misto-quente como ninguém — debochou, mudando de assunto ao morder outra fatia, me fazendo gargalhar. 

— Amo você — eu disse, beijando sua boca cheia logo pela manhã.

— Amo você, mas a intimidade é uma merda, né? 

Nós dois rimos e continuamos conversando antes que o desastre chamado Clarkson Schreave acontecesse na nossa manhã. 

 

Na sala de estar estavam Clarkson, Owen e Olivia, a médica neurologista contratada por Maxon para diagnosticar seu pai. Estava um silêncio absurdo e os dois suportavam o olhar fulminante de Clarkson.

— Maxon? — Clarkson levantou do sofá, incrédulo ao encarar o filho. — O que você está fazendo aqui? 

Entrelacei meus dedos nos dele como sinal de que eu estava ali para apoiá-lo. Pior do que as alucinações, enfrentar Clarkson em sua lucidez parecia uma tarefa pior. Ainda mais com o que todos tinham a dizer. 

— Precisamos conversar com você — disse Maxon, com sua respiração vacilando. Aquilo realmente era um obstáculo que dificultava as coisas, ninguém esperava levar essa conversa com a presença dele ali. 

— O que eles estão fazendo aqui? O que você está fazendo aqui? 

— Não fale como se eu estivesse banido desse lugar.

Maxon tinha firmeza em seu tom de voz. Ele estava falando como o pai. Parecia que precisava daquilo para conseguir se comunicar de forma que ele entendesse; com imposição. 

Sentamos na dobra do sofá em L, enquanto Clarkson optou pela poltrona. Assim ele conseguia encarar cada um de nós e mostrar um pouco de superioridade. Ele não fazia ideia do que estava prestes a acontecer. 

— Acho que podemos começar por mim, certo? — Olivia tomou a iniciativa e Maxon assentiu, aliviado por alguém ter dado o primeiro passo. — Clarkson, eu estive aqui na sua casa há cerca de dois meses e creio que você não lembre disso, certo? — ele não teve reação, apenas continuou a encarando a fim de intimidá-la. — Então, você estava tendo perdas graves da memória, procurando chaves de carro em lugares estranhos, esquecendo reuniões importantes e acima de tudo, você estava crendo fielmente que Amberly ainda estava internada no hospital. 

Clarkson não piscava, mas começou a morder o lábio inferior agressivamente. Característica que Maxon claramente herdara dele. Eu esperava profundamente que fosse a única. 

— Diagnostiquei você com alzheimer precoce nessa época. Essa doença é genética. Provavelmente você herdou o gene de algum dos seus pais e as chances de passá-lo adiante são enormes — explicou, dessa vez olhando para Maxon. Ele se moveu inquieto ao meu lado no sofá. — Preciso fazer algumas perguntas para vocês, assim consigo entender melhor quando isso começou. Tem algum problema nisso? 

— Acho que precisaríamos de mais uma pessoa para responder suas perguntas — Maxon disse, levantou e foi até a cozinha. Assim que voltou na companhia de Olga, Clarkson bufou. 

— Você vai fazer uma funcionária ficar contra mim? — rosnou entre os dentes. 

— Estamos todos fazendo isso para o seu bem — respondeu com firmeza, sem demonstrar se abalar. — Olivia, esta é Olga, nossa funcionária mais antiga. Ela conhece minha família melhor que eu mesmo e nos últimos meses tem convivido mais com meu pai.

As duas se cumprimentaram e Olga sentou na poltrona ao lado de Clarkson. Ela parecia desconfortável, como se realmente estivesse traindo o homem com as respostas das perguntas que viriam a seguir. 

— Clarkson vem apresentando sintomas como dificuldades para lembrar atividades habituais e nomes, para se orientar no tempo e no espaço e esquecimento de eventos importantes, certo? 

Olga olhou para Clarkson, como se pedisse permissão para revelar algo confidencial. Ele sequer a encarou, sua expressão era tão dura quanto seu olhar.

— Sim, isso começou há muitos meses. Cerca de cinco ou seis — ela contou nos dedos como se repassasse acontecimentos em sua cabeça para organizar os pensamentos em ordem cronológica. — Aconteceram coisas que eu notei porque aconteceram da mesma maneira com dona Abby. O primeiro esquecimento foi com as chaves do carro, como contei para a senhora na sua última visita, depois as reuniões no banco. Logo em seguida ele esquecia que Amberly estava em casa e falava como se ainda estivesse no hospital. Quando ela faleceu, levou algumas semanas para que ele começasse a falar como se ela ainda estivesse viva. Era assustador. Com certeza dona Amberly estava notando toda essa confusão, ela observava tudo mesmo de cima da cama. 

Olivia fazia algumas anotações em uma prancheta enquanto Olga falava. Clarkson franzia as sobrancelhas, confuso ao tentar lembrar os acontecidos que a funcionária estava citando. 

— Amberly estava notando? — foi o que ele perguntou, naquele momento encarando o chão. Seu olhar estava vazio. Aquilo estava o machucando. Olga apenas assentiu. — Vocês notaram e não falaram uma palavra sequer? 

O tom de voz fraco fez Maxon estremecer mais do que se ele tivesse gritado  com toda sua força.

— O senhor não aceitaria e sabe disso — Olga continuou. — Quando procurava as chaves nas gavetas dos móveis da sala ao invés de ir direto até a garagem, onde elas realmente ficam, sabíamos que seria um péssimo dia para o senhor.

Maxon suspirou ao meu lado. Eu poderia chutar que ele estava começando a lembrar os sinais que antes não notara.

— E agora estou delirando? Delirando feito aquela velha louca? — indagou, daquela vez com agressividade em seu tom de voz. Pelo visto a avó de Maxon era uma pessoa tão boa quanto o filho. 

Olivia interrompeu a discussão, voltando às suas perguntas. 

— Nas últimas semanas Clarkson vem apresentando sintomas avançados como confusão mental, depressão, quedas frequentes e dificuldades para realizar atividades como rotina de higiene e falar ao telefone? 

— Ele passou duas semanas sentado na cama de Maxon, olhando para as paredes e sussurrando como se conversasse com Amberly. Alguns dias ele sequer levantava da própria cama, mas nos dias de lucidez seu humor muda da água pro vinho e é difícil convencê-lo a não ir trabalhar. Os últimos meses nessa casa se tornaram uma confusão. Precisávamos que você voltasse, Maxon. 

Olivia continuou com suas anotações enquanto o silêncio ensurdecedor se instalou na sala. Maxon batia o pé contra o chão, o que tornava o ambiente ainda mais desconfortável. 

— E por que Owen está aqui? Você acha que vai me interditar? — Clarkson disparou, encarando Maxon da cabeça aos pés e rindo com sarcasmo.

— Clarkson, precisamos fazer isso o quanto antes. Devido ao seu laudo médico, não podemos deixar as rédeas do banco da sua mão, pois, caso contrário, ele poderá ser fechado por você demonstrar grave risco a si mesmo e a empresa. 

Você está dizendo que o lugar que reergui com o meu suor, comprometendo tudo o que eu tinha está ameaçado por mim? 

Agora ele estava em pé, gritando com Owen, como se esse fosse alguém que estivesse lhe dirigindo as piores das ofensas. 

— Clarkson, você sabe como isso funciona. Você passou por isso com sua mãe, não fale como se fosse fácil para todos nós. 

— Cale a boca, você não tem ideia do que passei com aquela mulher!

Clarkson estava alterado e com a respiração pesada. 

— Pois eu sei — foi a vez de Maxon ficar em pé. Ele não estava gritando, mas seu tom de voz também não era dos mais calmos. — Você fez questão de refletir suas mágoas em mim por todos esses anos. Eu sei o que você passou. Sei o que é ganhar um banho de chá quente nas costas, o que é ver o próprio pai deixar a esposa num hospital pra transar com outra na casa de praia que ela construiu. Eu sei muito bem pelo o que você passou, porque você me fez passar por coisas piores. Então sente e se acalme, pois pelo menos cada uma das pessoas nessa sala tem algum motivo pra gritar com você e nenhuma está o fazendo por respeitar esse momento. Sabemos que é difícil entender isso, talvez um dia eu passe pelo mesmo que você agora. Não pense que sinto prazer em vê-lo em cima de uma cama falando coisas absurdas ou que eu queira administrar o seu dinheiro sujo. Estou fazendo isso por ela, porque ela sempre exigiu de mim que eu fosse melhor do que quem você tentou me ensinar a ser. Sente nessa merda de poltrona e cale a boca antes que eu lhe coloque na porra de uma cama de hospital como você fez com minha mãe. 

Clarkson sentou parecendo uma criança mimada após levar uma bronca e Maxon imitou seu movimento. 

Olga estava tremendo ao assistir a cena e eu não ficava muito atrás disso. Minhas mãos apresentavam espasmos nervosos a cada minuto e, mesmo com o frio que fazia em Carolina, minhas costas estavam suadas. 

— Então, preciso saber se já posso solicitar a papelada para os órgãos superiores. Preciso também que você, Clarkson, saiba que pode recorrer em até dez dias em caso de inconformação. Mas saiba que isso seria um caso perdido para você, visto que o laudo médico é claro e Olivia não seria a única neurologista a lhe diagnosticar dessa forma. Recomendo que, se você ama mesmo a empresa que construiu, então use seus momentos de lucidez para ensinar Maxon a dirigi-la com eficácia. 

Clarkson estava encarando os jardins através das imensas janelas de vidro e preferiu não responder. 

No tempo que se passou, Olga e eu trocamos alguns olhares, pois ela estava se sentindo tão deslocada quanto eu. Owen, Olivia e Maxon prepararam alguns papéis e nenhum deles levou a assinatura de Clarkson. O restante da manhã seguiu pesado, com esclarecimentos jurídicos de sobra e indicações médicas transbordando pelos nossos ouvidos. Eu sabia que naquela noite uma massagem não seria o suficiente para relaxar Maxon. Não depois daquilo e das reuniões que se seguiram pela tarde. 


Notas Finais


Comentários motivadores são super bem-vindos. Obrigada por ainda acompanharem essa fanfic, vou tentar fazer um final que vocês não vão esquecer rsrsrs.


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