História Metamorfose Ambulante - Capítulo 15


Escrita por: e MarcianoF

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Palavras 4.705
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Ficção Científica, Hentai, Romance e Novela, Universo Alternativo, Yaoi (Gay), Yuri (Lésbica)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Spoilers, Suicídio, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Olá!
FELIZ DIA DOS PAIS ^^

Agora que todos os comentários desta fic foram respondidos, enfim viemos atualizá-la!

ALERTA DE GATILHO - violência infantil, violência contra a mulher, tortura e insinuações de suicídio.

Boa leitura!

Capítulo 15 - Memórias torturantes


Fanfic / Fanfiction Metamorfose Ambulante - Capítulo 15 - Memórias torturantes

Mikasa, depois de ter saído para ver Armin, retornava à sua residência. Respirou aliviada ao entrar no quarto de Eren e vê-lo dormindo, enquanto Levi lia um jornal online em seu smartphone, sentado à cabeceira da cama. O militar ergueu os olhos para sua sobrinha e, sem dizer palavra, dobrou o jornal e se dirigiu para fora do quarto, na intenção de se aproximar dela. Observou que ela ainda estava com o cachecol vermelho que não combinava com o calor daquele dia.

— Ué... Você não foi trabalhar?

— Não, o Coronel disse que eu poderia ficar em casa hoje, só não entendi o motivo. Tira isso do pescoço, menina, tá um calor da zorra.

Hesitante, ela retirou o item, revelando seu pescoço e colo com marcas de agressão. Por mais que estivesse em casa, a jovem preferia esconder aquilo.

— E aí, Levi? Como ele passou o dia? — indagou Mikasa, num tom de voz baixo.

— Deu um pouco de trabalho de manhã, mas nada tão sério — desconversou o militar, que não queria que ela soubesse do segundo surto. — A Gabi dormiu faz pouco tempo. E o Armin?

— Não entendi nada, o Vô Passarinho disse que ele chegou bêbado em casa essa noite.

— Armin bêbado?! Apôi, só acredito vendo.

— Mas é verdade.... Ele tava dormindo. Nem conversei com ele.

— Oxe, e onde você tava, então?

— Fui andar no Bosque Maia.

Levi puxou a porta do quarto e, sem cerimônia, puxou Mikasa pela mão e a arrastou até a cozinha.

— Tio?!

— Você tá amarela, Mikasa. Vem almoçar agora.

— Mas... Já são quase duas da tarde.

— Eu tenho certeza de que você tá com fome, eu te conheço! Vai comer e pronto! — afirmou ele, autoritário. — Sua comida tá no forno.

— Tá bom, tá bom...

E Mikasa ia revirando os olhos, quando abriu o forno, viu o que tinha lá dentro e teve uma reação intensa de surpresa:

— Panquecas?!

— É. De frango.

— Mas, aqui em casa, só eu gosto de panquecas de frango...

— Fiz pra você, pirralha! Come logo de uma vez — ralhou Levi, impaciente como sempre.

Contudo, a atitude da garota foi outra: fechou a porta do forno e se atirou em direção ao tio, envolvendo-o em seus braços.

— Ai, tio... Obrigada...

— Pelo quê?

— Por se importar comigo.

Apesar de surpreso, Levi tentou se manter indiferente uma vez mais, até porque ele jamais demonstraria o quanto estava sensível perante Mikasa — ele não se permitia chorar diante dos meninos, ou melhor, diante de ninguém. Então, brevemente retribuiu o abraço e se afastou dela.

— Deixe de pantim e vá logo comer, criatura.

— Tio, por que seus olhos estão vermelhos? — inquiriu ela, parando para observá-lo melhor.

— Tu tá doida. Não tem nada de errado com meus olhos — rosnou o pequeno.

Vendo que ele não estava mesmo a fim de falar sobre seus olhos avermelhados, Mikasa preferiu respeitar-lhe a vontade e foi comer, ainda feliz por aquela surpresa culinária que a esperava. Levi era extremamente observador e atencioso, no fim das contas.

 

***

 

O rapaz de olhos verdes dormia, mas seu subconsciente estava mais desperto do que nunca. Um sem-número de memórias confusas que mesclavam fantasia e realidade vieram à tona em forma de pesadelo.

Primeiramente, Eren se viu sozinho, no banheiro da escola. Por que estava ali? Ele então se lembrou de seu propósito. Havia aproveitado a distração de Connie, que usualmente levava estiletes para apontar seus lápis, e lhe surrupiou o item. Sabendo que tinha prova para sua classe naquele dia, ele pediu para ir ao banheiro, pois intuía que demorariam a procurá-lo.

Aos treze anos, Eren ansiava pela morte. O assassinato de Hannes, o porteiro da escola, junto à saudade dos pais, as constantes dissociações e a depressão perturbavam-no a ponto de ele acreditar que Elohim¹, o Deus que seus pais lhe apresentaram na infância, o havia abandonado. Yeshua², o messias prometido aos filhos de Yisra’el, trouxera a paz a todos, menos ao seu coração destruído pela culpa. Então, ele chorou, fitando a lâmina.

— S-seu Hannes, me desculpe... Eu queria poder ter salvado o senhor... Eu podia ter feito qualquer coisa pra te impedir de voltar mais tarde pra casa ontem... Foi aquele homem sorridente, não foi? O que arrancou as unhas de minha mãe... Seu Hannes... Me perdoa, por favor, me perdoa... Eu é quem deveria ter morrido. O senhor sempre foi bom... E eu... N-não presto pra nada...

Contendo-se, ajoelhou-se na fria cerâmica. Elohim iria castigá-lo pelo suicídio? Não tinha como ter certeza, tudo o que ele desejava era se libertar daquela agonia infernal. Tocou o chão com a testa, mal conseguindo elaborar uma prece. O próprio Satã deveria estar rindo da cara dele naquele instante.

— Senhor... P-Perdão! N-não sou digno da paz que Tu prometeste aos Teus filhos...

Eren chorou uma vez mais, enquanto rasgava a pele dos pulsos com o estilete. Primeiro o esquerdo, depois o direito. Não doía tanto, já que ele estava louco pela dor do próprio espírito enlutado.

Ainda estava consciente quando ouviu os gritos de Jean, que resolvera usar o banheiro também e lhe descobrira ali no chão. Sentiu seu corpo sendo erguido pelos braços do colega com quem vivia discutindo, até que perdia a consciência, vendo tudo se avermelhando de novo.

Aos poucos, a consciência retornava para si. A música entrou em seus ouvidos docemente, quase como que pedindo desculpas por acordá-lo.

— Avir harim tsalul k'yayin vereiyach oranim, nissah beru'ach ha'arbayim Im kol pa'amonim (O vento das montanhas, claro como o vinho, e o cheiro dos pinheiros é levado pela brisa do crepúsculo junto com o som dos sinos).

Aquela era uma canção em hebraico que ele crescera ouvindo e cantando. “Quem está cantando ‘Yerushalayim Shel Zahav’ aqui tão perto de mim?”.

— Eren.

— ...

Ben ahuv (filho querido).

Aquela voz masculina tinha um sotaque tão carregado... Quem o estava chamando?

O garoto entreabriu um olho. Viu um rosto severo emoldurado por um par de óculos redondos. Sentou-se, ainda bastante sonolento.

Boker tov. Shalom aleicha (Bom dia. Paz seja contigo) — afirmou o jovem, coçando o olho.

Aleicha shalom. Bom dia, meu filho — respondeu Grisha, com seu português arrastado, de pé ao lado da cama. — Vamos, levante. Sinagoga. Shabat.

Só então Eren reparou em si mesmo: estava vestido como um judeu. A roupa era volumosa, mas ele não se incomodou, pois ansiara durante toda a sua infância por ser um homem apto a trajar aquela indumentária. Seu sono desapareceu no mesmo instante e o garoto de olhos verdes se pôs de pé. Estranhamente, estava da mesma altura do mais velho, que não chegou a lhe sorrir, mas parecia admirá-lo atentamente.

Du bist jetzt ein Mann (Você agora é um homem) — anunciou o médico, pousando a mão espalmada sobre seu ombro.

Então os olhos de Eren se iluminaram com aquela verdade. Ele, agora, tinha certeza de que era um homem; fitou o seu progenitor, que agora o conduzia para dentro de uma sinagoga cheia de outros religiosos — era dos lábios deles que a música estava sendo entoada. O rapaz empertigou-se, sorrindo bobo para aquela visão. Tanto tempo em dúvida sobre sua real identidade e, agora, a resposta estava ali!

Ich bin ein Mann wie du, mein Vater (Eu sou um homem como tu, meu pai) — afirmou Eren, mais convicto do que nunca. Só aí Grisha sorriu, demonstrando estar orgulhoso do seu herdeiro, que atualmente tinha 1,82m e constituição física forte. Um grande homem, era o que seu pai parecia lhe dizer.

Entretanto, nem tudo era tão fácil quanto parecia. Do lado oposto da sinagoga, coberta por seu chapéu clochê e com o olhar deprimido, estava Carla Jäeger. A angústia nos olhos grandes da mulher doeu no íntimo de Eren, que se desvencilhou de Grisha após alguns instantes. O médico não gostou.

Geh nicht (Não vá)! — interpelou-o o homem.

— Venha aqui, Eren — convidou Carla. — Ele que fique com as tradições. Eu tenho amor pra te dar, meu piá.

Eren correu. À medida em que corria, notou que estava ficando cada vez menor. Seu talit nunca parecera tão difícil de carregar; estava tão grande... Suas mãos encolheram, a roupa parecia engoli-lo. Ele todo estava pequenino, a ponto de ser erguido pelos braços finos de Carla. Ela o beijou repetidas vezes, chamando-o “meu anjinho”, enquanto o manto listrado caía no chão.

— Eu amo tudo em você, meu docinho. Meu bebê. Mamãe te ama tanto.

— Também te amo... — estranho, sua voz não era assim tão juvenil. — ... mamãe.

— Anjinho... — e ela encostou a testa à do garoto. — Minha linda princesinha.

— Mas eu não sou um homem? — indagou Eren, ainda fruindo do conforto imenso dos braços da mulher.

— Não — afirmou ela, peremptoriamente. — Eren, você seria ainda mais maravilhoso se nascesse como menina.

Ele ficou confuso, mas piscou algumas vezes e sorriu, buscando falsetear ainda mais sua voz. O kipá caiu de sua cabeça e, aos poucos, os filactérios se desenrolaram de seus braços. Seria sua masculinidade o deixando?

— Uma menina chamada Gabi?

— Sim, meu amor.

— Se a mamãe gosta assim, vou ser a menina mais linda do mundo.

— Isso, minha linda. Fique exatamente como você está, não precisa ter pressa alguma para crescer. Tão doce e fofinha, assim pequenina...

— Mamãe, você... Mas... O que...?!? — e o garoto de olhos verdes se assustou com a mudança extrema da aparência de sua mãe.

Aquela mulher agora tinha olhos orientais, cabelos “mais negros que a asa da graúna e o sorriso mais doce que o favo da jati”. Não deveria ter sequer vinte anos. Apesar de sorrir para ele, ela demonstrava cansaço.

— M-mamãe? ‘Tais’ tão diferente...

— Tá tão pesada... — suspirou aquela asiática, mostrando, no entanto, ternura e gentileza ao tentar segurar aquele corpo maior do que ela. — Desça, por favor. Você já tá grandinha pra andar no colo.

— Mas você é a minha mãe, não é? Você tem um cheirinho tão bom... A sua boca é doce como a boca da Iracema?

— P-por favor... Gabi, você tá com quase noventa quilos... Os m-meus braços...

A mente do garoto girou e ele, então, reconheceu sua interlocutora.

— Mikasa!?

Eren caiu sentado no chão. A roupa de judeu não o cobria mais. Ele se encontrava nu, em um gramado muito verde sob um céu de azul intenso. Muralhas gigantescas cercavam aquela localidade. Seus pensamentos fervilharam enquanto ele se colocava de pé. A alguns metros de si, uma pequena lagoa onde ele resolveu se lavar para despertar daquele torpor.

O que estava acontecendo? Ele estava tão... Nu, despido de tudo o que sabia sobre si mesmo. A falta das roupas o deixava confuso em relação a QUEM ele era de fato; se ele era uma garotinha, por que aquele pênis estava presente em seu corpo? Mikasa estava caída também, se sentando sobre a grama, o rosto rubro pelo esforço excessivo. Assim que molhou seu corpo, Eren decidiu encarar aquela jovem, que usava um uniforme branco com um sem-número de cintos entrelaçados pelo tronco e pelas pernas.

Ela era tão bela. Tão atraente e misteriosa, com aqueles olhos pequenos que o fitavam intensamente, demonstrando estar preocupada consigo. Pelo menos, Eren agora tinha uma certeza: aquela jovem não era sua mãe. Não tinha como ser, pois ele se incandescera de desejo carnal por ela.

— Minha mulher... — disse ele, já se precipitando para alcançá-la. O som de sua voz era, mais uma vez, masculino, e isso o fez se sentir mais confortável.

Eren não se lembrava do que ou quem ele era, mas notou que havia se tornado um homem adulto e viril, que nutria um amor e desejo intensos por aquela garota ali. Uma incerteza a menos.

— O quê?

— Você é a minha mulher — repetiu o jovem, já se deitando sobre Mikasa, que não o repeliu. Os lábios de ambos se encontraram num beijo lento, porém voraz. Ao apartar o beijo, olhou profundamente para aqueles olhos azuis-acinzentados, certo de que seria capaz de possuir a jovem, fazê-la feliz e constituir família com ela. — Faça amor comigo...

— Agora não podemos. Estamos em missão.

— Missão? — repetiu ele, atônito. — Que missão?

— Você se esqueceu de novo? — inquiriu ela, séria, porém benevolente.

— Esqueci? Não sei... — o rapaz sentiu-se perdido de novo. — Quem sou eu?

— EREN KRUEGER! — bradou uma voz masculina. — Solte a Ackerman agora mesmo! Você tem que lutar!

Voando por cima deles, uma pessoa de face muito conhecida, porém Eren não conseguiu se recordar quem era. O homem era pequeno, seus olhos destilavam determinação e certa dose de fúria também. A farda dele, aos olhos de Eren, era a coisa mais imponente do mundo que ele conhecia como “Paradis”. Aliás, aquele homenzinho por inteiro era a própria personificação da imponência, eficiência e virilidade. Eren queria ser como ele... O Capitão Levi! Isso! Agora ele se lembrava. Um dos responsáveis pela Tropa de Exploração.

Eren se colocou de pé. Magicamente, seu corpo foi coberto por aquela mesma farda; suas pernas pesaram quando o dispositivo de manobra tridimensional se acoplara a elas. E... Os titãs! Como ele poderia ter se esquecido?! Lá estavam eles, horrendos, enormes com seus corpanzis desproporcionais. E o rapaz saiu liquidando vários daqueles indivíduos, fatiando-lhes as nucas com suas lâminas.

Não, Eren não era um exímio matador de titãs como o Capitão Levi. Aliás, nenhum de seus companheiros se assemelhava ao pequeno. Companheiros estes que estavam também lutando ao seu redor: Mikasa, Armin, Jean, Connie, Sasha, Thomas, Mina, Franz, Hanna, Marco, o senhor Hannes... Num átimo, o jovem notou que os demais soldados estavam sendo abatidos e ele precisava tomar providências o quanto antes. Precisava ser forte!

Ainda lhe faltava um longo caminho a ser percorrido para que ele se tornasse o vingador do sofrido povo de Eldia, sua raça, e proteger a integridade da Rainha Historia Reiss. Exterminar todos os titãs, ser um integrante da brava Tropa de Exploração, que era liderada pelo grandioso Comandante Erwin, que tinha como auxiliadora a sábia Tenente Hanji Zoe. Ele estava cercado de pessoas fantásticas, bravas, corajosas e que ouviam Raul Seixas.

— Raul Seixas?

Eu devia estar contente porque eu tenho um emprego, sou um dito cidadão respeitável e ganho quatro mil cruzeiros por mês...

Então Eren reparou que não havia titã algum. Ele estava num barzinho com música ao vivo, em Guarulhos. Levi, sentado diante de si e saboreando uma cerveja preta, não era seu capitão e sim o seu...

— Irmão. Ora, claro que ele é o meu irmão!

— O que tu tá sentindo que tá falando sozinho, Zeke? — perguntou Levi, fitando-o com uma sobrancelha erguida.

Zeke? — repetiu Eren, sem compreender a razão daquele nome. Sua visão estava embaçada, o que logo se corrigiu quando ele colocou aquele par de óculos que estava em seu bolso.

Apôi, vai dizer que tu esquecesse o próprio nome, seu doido?

Sim, Zeke. Era ele o homem solteirão com uma amnésia que atravancava sua vida em diversos aspectos, mas que não o impediu de escrever um best-seller de sucesso chamado “A Vida fora das Muralhas”. Inclusive, estava naquele barzinho com seus amigos comemorando seu sucesso de vendas; ele enfim havia conseguido comprar o carro dos seus sonhos e, claro, conseguido reaver sua CNH. Financeiramente, Eren havia melhorado muito a vida dos Ackerman e também de Armin Arlert, o jovenzinho que mais o incentivara com seus escritos, mesmo quando ele tinha os acessos de amnésia.

— Oxe, eu esqueci meu nome! — e Eren riu, jogando sua franja para trás repetidas vezes, até que sua testa estivesse totalmente descoberta. Havia mais pessoas em sua mesa: Armin, Erwin e Hanji. No entanto, a cadeira ao seu lado estava vazia. — Nossa Senhora do Chuveiro Elétrico, me dê resistência!

Os outros quatro riram. Ele então se empertigou:

— Mano Levi, doutor Erwin, doutora Hanji, Arminzinho... Obrigado por ter me apoiado tanto. É pelo incentivo de vocês que hoje cheguei aqui. Quedê Mikasa?

— Cheguei, seu chatonildo — anunciou a mocinha, que vinha de lá de dentro do bar com um suco natural e se sentou ao lado de Eren. Ele, de imediato, passou o braço pelos ombros frios da jovem, sapecando-lhe um beijo na testa. Ela fez uma caretinha, mas não se afastou dele: — Sai, chiclete!

— Eu te amo, minha sobrinha favorita. Levi, tem certeza de que ela não é minha filha? Eu sinto como se estivesse ligado a ela por um vínculo tão portentoso e inenarrável que... — os olhos dele lacrimejaram. — É como se eu fosse morrer, caso ela se ausentasse de mim por muito tempo!

— O fio vermelho do destino, como dizem as lendas japonesas — sugeriu Armin.

— Vidas passadas! Talvez vocês foram pai e filha na reencarnação anterior — sugeriu Hanji. Erwin revirou os olhos:

— Isso não existe, Hans. E, Armin, você assiste doramas demais.

— Falou o cara viciado em “Breaking Bad”! — retrucou Levi, fazendo todos rirem.

— Nem vem, tio. Você é viciado em novela das seis — contrapôs Mikasa. Mais risos.

— Você só pode ser minha filha — insistiu Eren, tocando o queixo de Mikasa. — Vai, Levi, me conta. Eu tive ela antes da amnésia, não foi? Aí, como eu estava incapacitado, você resolveu registrá-la em seu nome...

— Tu “teve ela” como, por cesárea? — retrucou Levi, achando graça.

Zeke, e de onde a Mikasa nasceu, por acaso? — alfinetou-o Armin. — Você gerou ela por partenogênese, como as abelhas?

— Boa pergunta. Zeke, como foi que você fez a Mikasa? — riu Hanji. — Safado. Sabia que aquela história de virgindade era caozada.

— Dá pra deixar a minha virgindade em paz? — e Eren riu junto com os demais. — É sério, Levi. Eu amo demais a Mikasa, sinto que ela é minha filha e não sua.

— Não, mano — volveu Levi, pacientemente. — Ela é minha filha. Mas eu entendo o que tu sente. É impossível não amar a Mikasa.

— Vou morrer de diabetes ouvindo esse papo meloso — reclamou a jovenzinha. Os adultos todos riram. Erwin arqueou uma sobrancelha.

— Peraí... Mas eu nunca soube que o Levi tivesse namorada. Como foi que você fez a Mikasa, hein?

— Ah, vai dizer que tu não sabe como alguém faz um filho! — e o pequeno militar riu, maldoso. — Foi uma aventura do passado com uma pessoa irresponsável. Mikasa era bebê quando eu assumi sua tutela. Ficou a lição: nunca mais eu saí enfiando o piru em qualquer buc-

— Epa! Mano, vai devagar, não fale dessas coisas na frente dos garotos — alertou-o Eren, se referindo a Mikasa e Armin. Eles, no entanto, apenas riram, enquanto a garota o espicaçou dizendo:

— O único virjão aqui é você, Zeke.

— Vamos, ria, moleca! Eu não transo, mas sou tipo a Carminha de “Avenida Brasil”.

— Por quê?

— Porque “eu sou RICA”! — exclamou ele, fazendo todos gargalharem de novo.

Hanji então ergueu seu copo e passou a cantar em alta voz a música que o cantor do barzinho tocava:

Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante...

Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo! — completou o rapaz, que, sem que compreendesse a razão, cria que aquela música tinha muito a ver consigo. Olhou para Mikasa, que enfim resolvera sorrir docemente para ele.

O sorriso de Mikasa era tão reconfortante. Tanto que Eren sentiu um impulso tremendo de se lançar contra ela, enchendo seu rosto de beijos e lhe pedir colinho. Ela era sua mãe, sempre estava consigo nos momentos mais difíceis. Lembrou-se de ser respeitoso e obediente com o tio Levi, que o levaria para passear no Bosque Maia na manhã seguinte. Na volta, o tio o conduziria ao consultório de Hanji, a quem ele chamava de “Dinda”, e eles comeriam pãezinhos enquanto ela o faria contar coisas sobre o seu dia. Só então retornariam para casa, e ele abraçaria Mikasa com todo o seu amor.

— Mamãe, eu te amo — afirmou Eren, envolvendo a garota com seus braços e pernas. No entanto, ela o empurrou. — Por que tá me afastando?

— Os titãs estão muito perto! Prepare-se, Eren! Vamos lutar! Dois dos nossos companheiros se foram, Franz e Thomas! E Marco desapareceu!

Então ele estava confundindo as coisas de novo. Mikasa era sua mulher, soldada do 104º Esquadrão junto com ele, ambos liderados pelo poderoso Capitão Levi, que não iria levá-lo a passeio algum. Ora, por que um homem levaria outro a um passeio? Eren era um homem, sempre fora. Ele perdera sua inocência muito cedo, quando o maldito Titã Sorridente aparecera para roubar a vida de sua mãe, comendo-a diante de seus olhos.

— Mas minha mãe não morreu. Ela se chama Mikasa... Mikasa não está machucada... Ou está?

Sangue por todo lado, nas mãos e no rosto dele... Aqueles dois no chão, quem seriam? Sentiu cheiro de urina, olhou para baixo e viu que as calças do uniforme do Colégio Cruz Azul estavam úmidas e sujas. Ainda lhe passou pela cabeça que estava com um problema, pois como explicar para a professora que ele havia urinado na roupa, enquanto dois indivíduos armados surravam e torturavam aquela mulher de cabelos castanhos?

Ele se lembrava bem. Por algum motivo, estava naquela casa de paredes cor de creme, ao passo que um terceiro homem aparecia e começava a chutá-lo. Eren se lembrou do gosto do sangue em sua boca, do som do choro desesperado do sujeito de óculos que implorava para que não fizessem aquela maldade com a pobre Carla, cujas unhas da mão direita tinham sido quase todas arrancadas, além dos chutes que havia recebido; ao desmaiar, os torturadores fizeram de tudo para reanimá-la, prolongando seu sofrimento. Ela era inocente, repetia sem parar aquele sujeito a quem eles chamavam de Grisha Jäeger.

O nome daquela moça é Carla... Mas quem é ela mesmo?

Um soco atingiu o menino no rosto. Ele estava assustado demais até para chorar devido às dores, pois seu braço fora quebrado. A mão de seu agressor o erguia pelos cabelos, fazendo-o gritar. Seu algoz lhe fez uma pergunta. A pergunta mais absurda do mundo.

— Seu nome é Eren, não é? Vamos lá, vou deixar você participar da diversão também. Quem eu devo matar? Sua mãezinha ou o arrombado do seu pai que não sabe pagar as próprias dívidas?

— E-eu... — ele chorou. Já não discernia mais nada, nem conseguia mais reconhecer o casal machucado à sua frente. Não entendia o porquê daquilo, daquela maldade praticada contra aquelas pessoas que ele não sabia explicar quem eram.

Wähle mich! Wähle mich! WÄHLE MICH (Escolha-me)! — berrou Grisha, que já não suportava mais o sofrimento da família. Afinal, dos três, ele fora o menos agredido. O médico desatou a implorar misturando os idiomas: — Mein Sohn (Meu filho), pelo amor de Deus, wähle mich... Eu falhei muito com vocês dois, isso é tudo culpa minha. Salve a sua mãe!

— O pai ou a mãe? — inquiriu de novo o indivíduo. — RESPONDA DE UMA VEZ, MOLEQUE! Seu pai ou sua mãe?!

Carla tentou falar, mas, prostrada no chão, mal conseguia abrir os olhos.

Instintivamente, Eren ergueu a mão em direção a ela, como que querendo chamá-la. Grisha se sacudiu todo, gritando desesperadamente para que o filho não abrisse a boca, mas não houve jeito.

— Mamãe...

— Ok, vamos matar a sua mãe. Boa escolha — respondeu aquela pessoa atrás de si. — Doutor Jäeger, pode dar adeus pra sua mulherzinha. E eu vou te contar uma coisa, Eren... Ela vai primeiro, mas você vai logo em seguida. Não queremos você dando com a língua nos dentes por aí, não é mesmo? A família reunida vai toda pro inferno de uma vez só.

Tudo ficou vermelho de novo.

Mikasa estava nua, chorando na cama. Eren olhou para os lados, confuso, notando que estavam no quarto dela.

— P-por que você tá chorando?

— Você não se lembra do que a gente fez? — ciciou ela, vermelha e abatida. Só então ele reparou que estava nu também, e seu coração disparou, aflito. — Você e eu...

A porta se abriu bruscamente.

— Você abusou dela, não foi?! — gritava Levi, enfurecido, parecendo ter ficado louco de ódio enquanto o esmurrava. — Estuprou a minha filha! Tem sangue no lençol, seu filho da puta, você desgraçou a minha filha! SEU MALDITO!

— Não foi isso não, tio! Eu deixei! — uivou a garota, apavorada. — Eu QUIS! ME ESCUTA, TIO!

— Eu não acredito em você, Mikasa! Você SEMPRE defende esse miserável! Ele te estuprou!

— A iniciativa foi MINHA! Eu que quis transar com ele, tio, PARA DE BATER NELE!

— NÃO FOI! ELE TE OBRIGOU! EU SEI!

O cinto de Levi Ackerman deixou a pele das nádegas e costas de Eren cheia de marcas. Ao fundo, ele ouvia Mikasa chorando e pedindo para o tio parar a surra. O garoto ergueu os olhos e viu o rosto do militar cheio de lágrimas também. O mundo já despedaçado de Eren levou um chacoalhão.

Até ele está chorando... Então eu sou culpado...”

Cintadas e mais cintadas depois, Eren já não conseguia mais chorar. O problema não era a dor da surra, o problema era aquela dúvida cruel sobre “Krueger” ter ou não forçado Mikasa a fazer sexo consigo. Ele se lembrava de ter tocado o rosto da garota, lembrava de ter engolido seus medos e beijado os lábios macios que sempre estiveram em seus pensamentos. E agora... Aquela sua persona insana teria mesmo cometido tamanho pecado contra a jovenzinha que só lhe dava amor?

Aproveitando a distração de Levi, que saíra levando Mikasa para o outro quarto enquanto vociferava mil e uma imprecações, Eren se levantou e vestiu suas roupas. Em silêncio, pegou uma caneta e um bloquinho de anotações, escrevendo às pressas um bilhete com sua mão esquerda.

— “Mikasa, tio Levi, talvez não pareça, mas eu os amo e sempre vou amar vocês dois. Chegou a hora de eu deixar vocês descansarem dos problemas que eu sempre causo. Me perdoem. Eu sou um demônio. Mereço o inferno. Adeus.”

Eles tinham uma corda de pular meio velha, mas muito resistente, guardada numa caixa velha de brinquedos. Em silêncio, o rapaz foi até a varanda da área de serviço e, com auxílio de uma cadeira, fez o nó da corda em um dos caibros. Ali enfiou sua cabeça e saltou, dando um pontapé na cadeira, sentindo em seguida uma diabólica dor no pescoço somada à falta de ar.

Aquilo o apertava... Ele sentia-se cada vez mais fraco.

Mais sozinho.

Morrer doía muito... Ele nunca mais veria Mikasa...

Seu pescoço ainda latejava quando sua respiração subitamente ficou livre, liberando seu pranto.

— Ah, ah, ah... Mamããããe...

Shhh. Chore não, o tio tá aqui — disse-lhe alguém perto de si.

Sentiu um corpo grande o abraçando. Acabou chorando ruidosamente, aliviado e tremendo bastante; aquele pesadelo era muito assustador. Tudo o que ele mais precisava era de um adulto para lhe dizer que estava tudo bem.

E ele continuava se sentindo pequenino. Melhor dizendo, pequenina.

Então, Eren sentiu uma mão afagando sua cabeça e relaxou ao ouvir aquela voz de sotaque baiano cantando ao seu ouvido:

— “Quando a chuva passar, quando o tempo abrir, abra a janela e veja, eu sou o sol...”

— Tio Reiner?

“Gabi” acordou de vez e reconheceu o olhar benevolente do homem loiro que o abraçava, sentado à beira de sua cama.

— Sim, meu anjo. Eu vim lhe visitar.

Em pé junto à cama, Levi e Mikasa estavam parados, observando-o com certa angústia. Eren chorou por mais alguns instantes, até conseguir se acalmar e beber o copo de água que a jovem lhe estendeu.

— Por que você tava chorando, meu amor? — indagou Mikasa, segurando a mão do rapaz. Ele fungou e respondeu:

— Acho que eu tava sonhando, mamãe.

— Sonhando? Com o quê? — perguntou Levi.

— C-com uma moça toda machucada no chão. Aí um homem gritava “Wähle mich, wähle mich”, e depois apareceu uma corda pendurada lá em cima... E eu já não conseguia respirar e t-tinha sangue saindo daqui... — e Eren indicou as cicatrizes em um de seus pulsos.

Os demais se entreolharam, preocupados, até Reiner abrir os braços e exclamar com animação meio forçada:

— Esquece isso, Gabi. Sabia que hoje eu vim aqui porque tava com saudade de brincar contigo? Vamos lá pra fora. Ainda tem sol, dá pra gente brincar de muita coisa.

“Empolgada” pela promessa de diversão, “Gabi” enxugou as lágrimas e se levantou, já agarrando Reiner pela mão e o puxando consigo para fora do quarto.

Levi e Mikasa trocaram um olhar resignado e triste. Até quando Eren sofreria com aqueles sonhos do seu passado horrendo?

 

***

 

1 — Elohim: um dos nomes de Deus no judaísmo e suas vertentes, que significa “Altíssimo”.

2 — Yeshua: o nome original de Jesus em hebraico, também chamado de “Yehoshua”. Religiosos como os judeus messiânicos se recusam a usar o nome “Jesus”, alegando que nomes próprios não devem ser traduzidos.


Notas Finais


Levi e as panquecas exclusivas para Mikasa *-*

Gente, "Yerushalayim Shel Zahav" ("Jerusalém de Ouro") é uma das canções mais lindas que tive o prazer de ouvir. Recomendo! Link: https://www.youtube.com/watch?v=sIAtkO5uBhg

Temos um panorama rápido dos momentos mais marcantes da vida do Eren. O que você acha que foi real no pesadelo dele? Quais as memórias têm a ver com o que ele realmente viveu? #VamosFalarSobreIsso

E o Blindão, digo, o Reiner apareceu na fic de novo, cantando Ivete Sangalo! hehe
O que você acha da interação dele com a "Gabi"?

Vamos bater papo no grupo "Fics da Okaasan"! -- https://www.facebook.com/groups/254208075030050/?fref=nf

Abraços para todos.
E, desde já, Feliz Dia dos Pais!
@MarcianoF & @Okaasan


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