História Métrica - Capítulo 12


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Categorias Sou Luna
Personagens Ámbar Benson, Ana, Delfina, Gaston, Jazmin, Jim, Luna Valente, Matteo, Monica, Nico, Nina, Pedro, Ramiro, Rey, Sharon, Simón, Yam
Tags Aguslina, Ámbar Benson, Ámbar Smith, Gastina, Jico, Lutteo, Michael Ronda, Michaentina, Pelfi, Ruggarol, Simbar, Simón Álvarez, Velentinazenere, Yamiro
Visualizações 84
Palavras 4.885
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Romance e Novela
Avisos: Insinuação de sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


💖

Capítulo 12 - Enfrentando os problemas


Com a paranoia nos meus calcanhares

Será que você ainda vai me amar

Quando acordarmos e você vir que

A sanidade sumiu dos meus olhos?

— THE AVETT BROTHERS, “PARANOIA IN B-FLAT MAJOR”


Yam nunca tinha entrado na minha casa. Ninguém diria isso pela maneira como sai em disparada pela porta. Ela ainda está me puxando quando entramos na sala. Minha mãe está sentada no sofá, observando essa desconhecida com um sorriso no rosto vir a mil em sua direção, arrastando a filha emburrada atrás de si. Tenho de admitir que a expressão de surpresa no rosto da minha mãe foi algo gratificante.

Yam me puxa até o sofá e empurra meus ombros para baixo até eu sentar do lado da minha mãe. Em seguida, senta-se na mesinha na frente de nós duas, muito ereta e com a cabeça erguida. É ela quem está no comando.

— Meu nome é Yam, sou a melhor amiga da sua filha — diz para minha mãe. — Pronto, agora que já nos conhecemos, vamos ao que importa.

Minha mãe olha para mim, depois para Yam, e não responde. Na verdade eu também não tenho nada a dizer. Não sei o que Yam vai fazer em seguida, então minha única opção é deixar que ela continue.

— Sharon, não é? Não é o seu nome? —Minha mãe faz que sim com a cabeça. — Sharon, Ámbar quer fazer umas perguntas. Muitas perguntas. E você tem as respostas. — Yam olha para mim. — Ámbar, você faz as perguntas e sua mãe responde. — Ela olha para nós duas. — É assim que funciona. Alguma pergunta? Quero dizer, para mim?

Minha mãe e eu balançamos a cabeça negativamente. Yam se levanta.

— Então, é isso. Meu trabalho aqui acabou. Me liga mais tarde.

Yam passa por cima da mesinha e vai em direção à porta da frente, mas se vira e volta para perto de nós. Ela coloca os braços ao redor do pescoço da minha mãe. Minha mãe olha para mim com os olhos arregalados, sem retribuir o abraço. Yam continua apertando o pescoço dela por um bom tempo antes de finalmente soltar. Sorri para nós, salta por cima da mesinha e sai pela porta. E, então, simplesmente desaparece. Puf.

Nós duas ficamos em silêncio, fitando a porta. Fico confusa, tentando descobrir quando foi que tudo deu errado para Yam. Ou quando foi que tudo deu certo. É difícil distinguir. Olho de novo para minha mãe, e nós duas rimos.

— Nossa, Ám. Você sabe mesmo escolher suas amizades.

— Eu sei. Ela é ótima, né?

Nos acomodamos no sofá. Minha mãe estica o braço e afaga as costas da minha mão.

— É melhor a gente fazer o que ela disse. Faça uma pergunta e eu respondo da melhor maneira possível.

Vou direto ao ponto.

— Você está morrendo?

— Acho que todos nós estamos, não é? — responde ela.

— Isso foi uma pergunta. É pra você simplesmente responder.

Ela suspira como se estivesse hesitando, sem querer responder.

— Possivelmente. Provavelmente — admite ela.

— Quanto tempo? Qual a gravidade?

— Ám, talvez eu devesse explicar primeiro. Assim, você vai saber melhor com o que estamos lidando. — Ela se levanta, vai até a cozinha e se senta ao balcão. Faz um gesto indicando para que eu me sente a seu lado enquanto pega uma caneta e uma folha de papel e começa a escrever alguma coisa. — Existem dois tipos de câncer de pulmão: o de células não pequenas e o de células pequenas. Infelizmente, eu tenho o de células pequenas, que é o que se espalha mais rápido.

Ela faz um desenho.

— O de pequenas células pode ser limitado ou extensivo. — Ela aponta para uma área dentro de dois pulmões desenhados. — O meu é o limitado. O que significa que ele está contido dentro dessa área. — Ela circula a área dos pulmões e faz uma seta. — Foi aqui que encontraram o tumor. Quando seu pai morreu, eu tinha os sintomas há alguns meses. Ele me obrigou a fazer uma biópsia, e foi então que descobrimos que era maligno. Procuramos médicos por alguns dias e finalmente decidimos que o melhor era vir para um médico que encontramos aqui em Michigan, em Detroit. Ele é especialista em CPPC. Decidimos nos mudar antes mesmo de seu pai morrer. Nós...

— Mãe, calma.

Ela coloca a caneta na mesa.

— Preciso de um instante — digo. — Nossa, parece que estou numa aula de ciências. — Apoio a cabeça nas mãos. Ela teve meses para pensar nisso. E agora está abordando o assunto como se estivesse me ensinando a fazer um bolo!

Ela fica esperando pacientemente enquanto eu me levanto e vou até o banheiro. Molho o rosto e encaro meu reflexo no espelho. Estou um lixo. Não me olho no espelho desde antes de sair com Ramiro e Yam ontem à noite. Meu rímel escorreu para a parte de baixo dos olhos. Que estão inchados. Meu cabelo está rebelde. Limpo a maquiagem e penteio o cabelo antes de voltar à cozinha para ela me contar como é que vai morrer.

Quando volto, ela fica olhando para mim. Faço que sim com a cabeça, pedindo para que ela continue. Sento ao lado dela.

— Uma semana depois de decidirmos que nos mudaríamos para o Michigan, seu pai
morreu. Eu fui tão consumida por isso,pela morte dele e os preparativos e tudo o mais, que apenas tentei ignorar o que estava acontecendo comigo. Fiquei sem ir ao médico por três meses. — A voz dela fica mais baixa. — E, após esse tempo, tinha se espalhado. Não era mais de células pequenas e limitado; era extensivo.

Ela desvia o olhar, enxugando uma lágrima do olho.

— Culpei a mim mesma; pelo ataque cardíaco do seu pai. Sei que o motivo foi o estresse do meu diagnóstico. — Ela se levanta e volta para a sala. Encosta na janela e fica olhando lá para fora.

— Por que não me contou? Eu poderia ter ajudado você, mãe. Não precisava lidar com tudo isso sozinha.

Ela apoia as costas na parede e olha para mim.

— Agora eu sei disso. Estava numa fase de negação. Estava com raiva. Acho que torcia para que um milagre acontecesse. Não sei. Os dias se transformaram em semanas, em meses. E agora estamos aqui. Recomecei a quimioterapia há três semanas.

Coloco a cadeira para trás e me levanto.

— Isso é bom, não é? Se está fazendo quimioterapia, então é porque tem chance de cura.

Ela balança a cabeça.

— Não é para enfrentar o câncer, Ám. É para amenizar minha dor. É tudo que eles podem fazer a esta altura.

As palavras dela fazem com que eu perca o resto de força que tinha nas pernas. Caio no sofá, baixo a cabeça no meio das mãos e choro. É incrível o tanto de lágrimas que uma pessoa só é capaz de produzir. Na noite após a morte do meu pai, chorei tanto que comecei a ficar paranoica achando que aquilo estava fazendo mal aos meus olhos, então fiz uma busca no Google. Pesquisei “Uma pessoa pode chorar demais?”. Aparentemente, após um tempo todo mundo acaba pegando no sono e parando de chorar para que o corpo tenha períodos normais de descanso. Então, a resposta era não, ninguém pode chorar demais.

Pego um lenço e respiro fundo algumas vezes, tentando conter o resto das lágrimas. Estou mesmo cansada de tanto chorar.

Minha mãe senta ao meu lado, e sinto seus braços cercarem meu corpo, então eu me viro para ela e a abraço. Meu coração dói por causa dela. Por causa de nós duas. Eu a abraço mais forte, com medo de soltá-la. Não posso soltá-la.

Após um tempo, ela começa a tossir e tem de se virar. Fico observando-a enquanto ela se levanta e continua tossindo, respirando com dificuldade. Ela está tão doente. Como é que não percebi? As bochechas estão mais fundas do que antes. O cabelo está mais ralo. Mal a reconheço. Estava tão concentrada nos meus próprios problemas que nem percebi que minha mãe estava sendo tirada de mim diante dos meus próprios olhos.

O ataque de tosse passa, e minha mãe volta a se sentar na frente do balcão.

— Hoje à noite, a gente conta para Kel. Ana vai chegar aqui às sete. Ela quer estar presente, pois vai ser a tutora dele.

Eu rio. Ela está de brincadeira. Não está?

— Como assim a tutora dele?

Ela olha nos meus olhos como se eu estivesse sendo insensata.

— Ám. Você ainda está no colégio; logo, vai estar na universidade. Não espero que você abdique de tudo. Não quero que faça isso. Ana já cuidou de outras crianças. E quer fazer isso. Kel gosta dela.

Apesar de todas as coisas pelas quais passei este ano, este momento, estas palavras que acabaram de sair de sua boca... Nunca senti tanta raiva na vida.

Eu me levanto, seguro a parte de trás da cadeira e a arremesso no chão com tanta força que o assento se desprende da base. Ela se encolhe enquanto corro em sua direção, apontando meu dedo para o peito dela.

— Ela não vai ficar com Kel! Você não vai dar meu irmão para ela! — grito tão alto que minha garganta arde.

Ela tenta me conter, colocando as mãos nos meus ombros, mas eu me afasto.

— Ám, para com isso! Para! Você ainda está no colégio! Você nem começou a universidade. O que espera que eu faça? Não temos mais ninguém. — Ela vem atrás de mim quando vou em direção à porta da frente. — Não tenho mais ninguém, Ám — diz, chorando.

Abro a porta e me viro para ela, ignorando suas lágrimas e gritando.

— Você não vai contar para ele hoje! Ele não precisa saber disso ainda. Acho bom você não contar!

— Temos de contar. Ele precisa saber — diz ela.

Ela agora está me seguindo pela entrada da casa; eu continuo andando.

— Vai pra casa, mãe! Vai pra casa! Já cansei de falar sobre isso. E, se quiser me ver de novo algum dia, é melhor não contar para ele!

Os soluços dela diminuem à medida que entro na casa de Simón e bato a porta. Corro para o quarto dele e me jogo na cama. Eu não apenas choro; eu soluço, gemo, grito.

***

Nunca usei drogas na vida. Tirando a vez em que dei um gole no vinho da minha mãe quando tinha 14 anos, nunca nem tomei álcool por vontade própria. Não foi por ter medo demais ou por ser certinha demais. Sinceramente, acho que foi o mero fato de nunca terem me oferecido nada. No Texas, eu nunca ia a festas. Nunca passei a noite com alguém que tenha tentado me convencer a fazer algo ilegal. Para ser franca, simplesmente nunca estive numa situação em que pudesse sucumbir à pressão das pessoas. Eu passava as noites de sexta nos jogos de futebol. Nas noites de sábado, meu pai costumava nos levar ao cinema e para jantar. No domingo, eu fazia o dever de casa. Essa era minha vida.

Houve uma exceção. Foi quando a prima de Kerris ia casar e me convidou para a festa. Eu tinha 16 anos, Kerris tinha tirado a carteira recentemente e a cerimônia terminara havia pouco. Ficamos até tarde para ajudar na limpeza. Tomamos ponche, comemos o bolo que tinha sobrado, dançamos e tomamos mais ponche. Notamos que alguém tinha batizado o ponche ao percebermos que estávamos nos divertindo. Não sei o quanto tomamos. Mas ficamos bêbadas a ponto de não saber mais quando era a hora de parar de beber. Entramos no carro e fomos para casa; nem pensamos duas vezes. Tínhamos percorrido uns 2 quilômetros quando ela perdeu a direção e bateu numa árvore. Fiquei com um corte acima do olho, e ela quebrou o braço. Nós duas estávamos bem. Na verdade, nem o carro teve problemas. Em vez de fazermos o que era certo, esperar ajuda, voltamos para o salão e ligamos para meu pai. A encrenca em que nos metemos no dia seguinte já foi outra história.

Mas teve um instante, logo antes de ela bater na árvore. A gente estava rindo da maneira como ela pronunciava “bolha”. Ficamos repetindo a palavra sem parar, até o carro começar a desviar para fora da pista. Eu avistei a árvore e sabia que estávamos prestes a bater nela. Mas foi como se o tempo tivesse ficado mais devagar. A árvore poderia muito bem estar a 5 milhões de metros de distância. Foi o quanto demorou para o carro bater na árvore. E, naquele momento, só consegui pensar em Kel. Só nele. Não pensei no colégio, nos garotos, na universidade em que eu não estudaria, caso morresse. Pensei em Kel e em como ele era a única coisa que importava para mim. A única coisa que importava nos segundos em que achei que estava prestes a morrer.

***

De alguma maneira, terminei cochilando de novo na cama de Simón. Percebo isso porque, quando abro os olhos, não estou mais chorando. Está vendo só? As pessoas não são capazes de chorar para sempre. No fim das contas, todo mundo pega no sono.

Fico achando que as lágrimas vão voltar assim que a névoa sumir da minha cabeça, mas, na verdade, noto que estou me sentindo motivada, renovada. Como se estivesse em alguma espécie de missão. Saio da cama e sinto um desejo bizarro de fazer limpeza. E de cantar. Preciso de música. Vou para a sala e imediatamente encontro o que estou procurando. O som. Nem preciso procurar uma música para colocar: já tem um CD dos Avett Brothers lá dentro. Aumento o volume, ponho uma das minhas músicas favoritas e trato de me ocupar.

Infelizmente, a casa de Simón é surpreendentemente limpa para uma casa com dois homens, então tenho de procurar bastante para encontrar algo que me deixe ocupada. Primeiro, vou até o banheiro, que já está ótimo. Sei que garotos de 9 anos não têm uma mira muito boa, então começo a esfregar. Esfrego o vaso, o chão, o chuveiro, a pia. Está limpo.

Em seguida, vou para os quartos, onde organizo as coisas, faço as camas, refaço as camas. Depois vou para a sala de estar, onde tiro o pó e passo o aspirador. Passo o esfregão no chão dos banheiros e limpo todas as superfícies que encontro. Termino na pia da cozinha, onde lavo a única louça suja da casa: os copos que eu e Yam usamos.

São quase 19h quando escuto o carro de Simón chegando. Ele e os dois garotos entram na casa e param ao me ver sentada no chão da sala de estar.

— O que está fazendo? — pergunta Caulder.

— Colocando em ordem alfabética — digo.

— Colocando o que em ordem alfabética? — diz Simón.

— Tudo. Primeiro foram os filmes, depois os CDs. Caulder, também fiz isso com os livros do seu quarto. E também com alguns jogos, mas um ou outro começava com número, por isso coloquei os números primeiro, depois os títulos. — Aponto para as pilhas na minha frente.

— Isso são receitas. Encontrei em cima da geladeira. Estou colocando em ordem alfabética de acordo com a categoria, tipo:cordeiro, frango, porco, vaca. E dentro das categorias estou colocando em ordem alfabética por...

— Meninos, vão pra casa de Kel. Vão avisar a Sharon  que vocês voltaram — diz Simón, me observando.

Os garotos não se mexem. Ficam apenas olhando para as receitas na minha frente.

— Agora! — grita Simón. Os dois desviam o olhar e vão em direção à porta.

— Sua irmã é estranha. — Escuto Caulder dizer enquanto eles vão embora.

Simón senta-se no sofá na minha frente e fica me observando enquanto eu continuo a colocar as receitas em ordem alfabética.

— Você que é o professor — digo. — Devo colocar “Sopa de Batata” em sopa ou em batata?

— Pare — diz ele. Ele parece um pouco mal-humorado.

— Não posso parar, bobo. Ainda estou na metade. Se parar agora, você não vai saber onde encontrar... — Tiro um cartão aleatório do chão. — Frango caipira? — Bom exemplo.

Jogo a carta novamente na pilha e continuo organizando.

Simón dá uma olhada na sala, depois se levanta e entra na cozinha. Vejo-o passando os dedos pelos rodapés. Ainda bem que me lembrei deles. Ele sai pelo corredor e volta alguns minutos depois.

— Você organizou meu armário por cores? — Ele não está sorrindo. Achei que ele fosse ficar feliz.

— Simón, não foi tão difícil. Você só tem, tipo, três cores diferentes de camisa.

Ele percorre a sala de estar e se inclina para baixo, agarrando os cartões de receita que eu havia organizado em pilhas.

— Simón! Pare! Demorei um tempão pra fazer isso! — Arranco-os da mão dele com a mesma rapidez com que ele tentava pegar.

Finalmente ele joga tudo no chão, segura meus pulsos e tenta me levantar, mas eu começo a chutar as pernas dele.

— Me solta! Eu... não... acabei!

Ele solta minhas mãos, e caio novamente no chão. Cato os cartões de receita e começo a reorganizá-los em pilhas. Por causa dele, vou ter de recomeçar do zero! Não consigo achar nem o cartão do Bife. Viro duas cartas que estão de cabeça para baixo, mas...

— Que porra! — grito. Subitamente fiquei ensopada de água.

Olho para cima e Simón está do meu lado, com uma jarra vazia na mão e um olhar de raiva no rosto. Eu me jogo para a frente e começo a esmurrar suas pernas. Ele se afasta quando começo a bater, tentando me levantar.

Por que diabos ele acabou de fazer isso? Vou dar um murro bem na cara dele! Levanto e tento acertá-lo, mas ele dá um passo para o lado, agarra meu braço e gira para trás do meu corpo. Eu balanço o outro braço na direção dele, e ele me empurra em direção ao corredor até chegarmos ao banheiro. Antes mesmo que eu perceba, seus braços estão ao redor do meu corpo e ele me ergue. Afasta a cortina do box e me empurra para dentro. Tento dar um murro nele, mas seus braços são mais compridos que os meus. Ele me mantém presa na parede com um braço e liga o chuveiro com o outro. Um jato de água gelada jorra no meu rosto. Fico sem ar.

— Babaca! Idiota! Desgraçado!

Ele continua me segurando enquanto abre a água quente.

— Tome um banho, Ámbar! Tome logo um maldito banho! — Ele me solta e sai do banheiro, batendo a porta com força ao sair.
Pulo para fora do box; minhas roupas estão encharcadas. Tento abrir a porta do banheiro, mas não consigo, porque ele está segurando a maçaneta do outro lado.

— Deixe eu sair, Simón! Agora! — Bato na porta e tento girar a maçaneta, mas ela não se mexe.

—Ámbar — responde ele calmamente do outro lado da porta. — Não vou deixar você sair do banheiro até você tirar a roupa, entrar no chuveiro, lavar o cabelo e se acalmar.

Mostro o dedo do meio para ele. Claro que ele não vê, mas mesmo assim isso me faz bem. Tiro as roupas molhadas e jogo no chão, na esperança de sujar alguma coisa. Entro no chuveiro. É gostoso sentir a água quente na minha pele. Fecho os olhos e deixo a água escorrer pelo cabelo e pelo rosto.

Droga. Simón estava certo de novo.

***

— Preciso de uma toalha! — grito. Estava no banho há bem mais de meia hora. O chuveiro de Simón tem o jato ajustável. Aproveitei e o deixei um tempão bem na parte de trás do pescoço. Isso alivia mesmo a tensão.

— Está na pia. Suas roupas também — diz ele, do lado de fora do banheiro.

Puxo a cortina e vejo que tem mesmo uma toalha lá. E roupas. Roupas minhas. Roupas que ele obviamente acabou de pegar na minha casa e que, de alguma maneira, colocou no banheiro. Enquanto eu tomava banho.

Desligo a água, saio do box e me seco. Coloco a toalha na cabeça e visto minhas roupas. Ele trouxe meu pijama. Talvez isso signifique que hoje vou dormir em sua cama confortável mais uma vez. Hesito ao virar a maçaneta, imaginando que ainda não vou conseguir abri-la, mas ela abre.

Ao me ouvir abrir a porta do banheiro, ele pula por cima do sofá e corre na minha direção. Eu me encosto na parede, com medo de que ele vá me empurrar de novo para dentro do banheiro, mas ele apenas coloca os braços ao meu redor e me abraça.

— Desculpe, Ám. Me desculpe por ter feito isso. É que você estava surtando.
Eu o abraço de volta. Claro que eu o abraço de volta.

— Tudo bem. Eu meio que tive um dia ruim — digo.

Ele se afasta e coloca as mãos nos meus ombros.

— Então, somos amigos? Não vai tentar dar um soco em mim de novo?

— Amigos — digo, relutante. É a última coisa que quero ser. Amiga dele. — Como foi a matinê? — pergunto, enquanto percorremos o corredor.

— Você conversou com sua mãe? — Ele ignora minha pergunta.

— Nossa. Que mudança de assunto.

— Falou com ela? Por favor, não diga que passou o dia inteiro fazendo limpeza. —

Ele entra na cozinha e tira dois copos do armário.

— Não. O dia inteiro, não. Nós conversamos.

— E?

— E... ela tem câncer — respondo com franqueza.

Ele olha para mim e franze o rosto. Reviro os olhos para ele e coloco os cotovelos na mesa, segurando minha testa entre as mãos. Meus dedos encostam na toalha que está na minha cabeça. Eu me curvo para longe do balcão, tiro a toalha e jogo a cabeça para a frente, desembaraçando o cabelo com os dedos.

Depois de tirar todos os nós, levanto a cabeça de novo enquanto Simón desvia o olhar para a xícara em suas mãos, que agora está com o leite transbordando. Finjo que não percebi e continuo mexendo no cabelo enquanto ele enxuga o leite com um pano.

Ele tira algo do armário e pega uma colher na gaveta. Está fazendo achocolatado para mim.

— Ela vai ficar bem? — pergunta.

Suspiro. Ele não desiste mesmo.

— Não. Provavelmente não.

— Mas está fazendo tratamento?

Consegui passar o dia inteiro sem pensar nisso. Estou confortavelmente anestesiada desde que acordei do cochilo. Sei que aqui é a casa dele, mas estou começando a querer que ele vá embora de novo.

— Ela está morrendo, Simón. Morrendo. Provavelmente vai morrer em um ano, talvez até menos. Ela está fazendo quimioterapia apenas para se sentir melhor. Enquanto morre. Porque ela está morrendo. Pronto. Era isso que queria ouvir?

A expressão em seu rosto suaviza enquanto ele coloca o leite na minha frente. Tira algumas pedras de gelo da geladeira e coloca na minha caneca.

— Com gelo — diz ele.

Ele é muito bom em mudar de assunto, e melhor ainda em ignorar meus comentários
cínicos.

— Obrigada — digo. Bebo o leite achocolatado e calo a boca. Sinto como se ele, de alguma maneira, tivesse acabado de vencer nossa briga.

***

Ainda está tocando The Avett Brothers ao fundo quando termino o leite. Vou para a
sala de estar e coloco a música para repetir. Deito no chão e fico encarando o teto com as mãos esticadas acima da cabeça. É relaxante.

— Apague as luzes — digo para ele. — Quero ficar apenas escutando a música por um tempo.

Ele apaga, e percebo quando deita ao meu lado no chão. O brilho esverdeado e dançante do som ilumina as paredes, e os Avett Brothers fazem um show de luzes. Meus pensamentos flutuam com a música enquanto ficamos deitados, parados. Quando a canção acaba e começa a tocar de novo, conto para ele o que realmente está tomando conta dos meus pensamentos.

— Ela não quer que eu cuide de Kel. Ela quer dar ele para Ana.

Ele encontra minha mão na escuridão e a segura. Ele a segura, e eu permito que seja apenas meu amigo.

***

As luzes se acendem, e imediatamente cubro os olhos. Sento e vejo Simón ao meu lado, completamente adormecido.

— Ei — sussurra Yam. — Bati na porta, e ninguém respondeu. — Ela entra e senta no sofá. Ela fica observando Simón roncar, espalhado no chão da sala.

— É sábado à noite — diz ela, revirando os olhos. — Eu avisei que ele era um mala.
Eu rio.

— O que está fazendo aqui?

— Vim ver como você está. Você não atendeu ao telefone nem respondeu minhas mensagens. Sua mãe tem câncer, então você decidiu desistir da tecnologia? Não faz sentido.

— Não sei onde meu telefone está.
Nós duas ficamos encarando Simón por um momento. Ele está roncando bem alto. Os garotos devem tê-lo deixado exausto.

— Bom, acho que as coisas não correram tão bem com sua mãe, né? E por isso você está aqui, dormindo no chão. — Ela parece estar irritada com o fato de que Simón e eu não estávamos fazendo nada além de dormir.

— Não, nós conversamos.

— E?

Eu levanto e me espreguiço antes de sentar no sofá ao lado dela. Ela já tirou as botas. Imagino que passar tanto tempo sem um lar permanente faz a pessoa se sentir em casa em qualquer canto. Coloco os pés em cima do sofá e me encosto, olhando para ela.

— Lembra na semana passada, no pátio, quando você estava me contando sobre sua mãe e sobre o que aconteceu quando tinha 9 anos?

— O que é que tem? — diz ela, ainda observando Simón roncar.

— Bem, eu senti gratidão. Tanta gratidão por saber que nada assim aconteceria com Kel. Gratidão por ele poder ter uma vida normal para um garoto de 9 anos. Mas agora... é como se Deus estivesse implicando com a gente. Por que os dois? Meu pai já não foi o suficiente? É como se a morte tivesse chegado e dado um murro bem no meio da nossa cara.

Yam para de olhar para Simón e se vira para mim.

— Não foi a morte que deu um murro em você, Ámbar. Foi a vida. A vida acontece. Merda acontece. E acontece muito. Com muita gente.

Nem me dou ao trabalho de contar os detalhes mais graves. Estou com vergonha demais para admitir que minha própria mãe não quer que eu crie o filho dela.

Simón se mexe no chão. Yam inclina-se, dá um abraço em mim e agarra as botas.

— O professor tá acordando, é melhor eu dar o fora. Só queria ver como você estava. Ah, e ache o seu telefone — diz ela, indo em direção à porta.

Fico observando enquanto ela sai pela porta da frente. Sua energia é contagiante, mesmo quando ela fica num lugar por apenas três minutos. Quando me viro, Simón está se sentando. Ele olha para mim como se estivesse prestes a me colocar em detenção. Sorrio para ele da maneira mais inocente possível.

— O que diabos ela estava fazendo aqui? — pergunta. Ele consegue ser bem intimidante quando quer.

— Visitando — murmuro. — Vendo como estou. — Se eu falar como se não fosse nada de mais, talvez ele ache a mesma coisa.

— Droga, Ámbar!

Não. Para ele é mesmo algo de mais. Ele se levanta do chão e joga as mãos no ar.

— Está tentando fazer com que eu seja demitido? Você é tão egoísta assim a ponto de não estar nem aí para os problemas das outras pessoas? Sabe o que aconteceria se a notícia se espalhasse por causa dela? — Uma lâmpada acende dentro de sua cabeça, e ele dá um passo na minha direção. — Ela sabe que você passou a noite aqui?

Aperto meus lábios com força e baixo os olhos para o meu colo, evitando o olhar dele.

— Ámbar, quanto ela sabe? — diz ele, com a voz mais baixa. Então percebe pela minha linguagem corporal que contei tudo. — Nossa, Ámbar. Vá para casa.

***

Minha mãe já está dormindo. Kel e Caulder estão no sofá vendo televisão.

— Caulder, seu irmão quer que você vá pra casa. Kel e eu temos planos para amanhã, então passaremos o dia fora.

Caulder pega o casaco e vai em direção à porta.

— Tchau, Kel. — Ele coloca os sapatos e vai embora.

Vou até a sala de estar e me jogo ao lado de Kel no sofá. Pego o controle e começo a mudar de canal, tentando tirar da cabeça o fato de eu ter acabado de irritar Simón.

— Onde você estava? — pergunta Kel.

— Com Yam.

— O que estavam fazendo?

— Dirigindo por aí.

— Por que você estava na casa de Caulder quando chegamos do cinema?

— Simón me pagou para que eu limpasse a casa.

— Por que mamãe está triste?

— Porque sim. Ela não tem dinheiro suficiente para me pagar para limpar a casa dela.

— Por quê? A nossa casa não está suja.

— Quer patinar no gelo amanhã?

— Quero!

— Então, para de fazer tantas perguntas.

Aperto o botão para desligar o controle e mando Kel ir dormir. Quando eu mesma vou deitar, coloco o alarme para as seis da manhã. Quero estar fora dessa casa antes de minha mãe acordar.

***

Kel e eu passamos o domingo inteiro gastando todos os centavos da minha poupança. Levo-o para tomar café da manhã e cada um pede dois pratos do menu. Vamos patinar no gelo, e nós dois somos péssimos, por isso não ficamos muito tempo. Almoçamos na lanchonete de um fliperama, onde passamos horas. Depois do fliperama, a gente vai ver um.filme no cinema e jantamos mais besteiras ainda. Eu até o levaria para comer sobremesa em algum lugar, mas ele já está reclamando de dores no estômago.

Minha mãe já está no trabalho quando chegamos em casa. Isso não foi nenhuma coincidência. Tomo um banho, separo as roupas do colégio e guardo um monte de roupa lavada. Estou tão cansada que pego no sono sem nem ficar pensando em nada.


Notas Finais


E aí o que acharam do capitulo? Simón não aceitou muito bem o fato da Yam saber sobre o segredo dos dois.
Já Ámbar não gostou nada em saber que a Ana será a tutora do Kel, mas não seria essa a melhor saída para todos?


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