História Métrica - Capítulo 14


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Categorias Sou Luna
Personagens Ámbar Benson, Ana, Delfina, Gaston, Jazmin, Jim, Luna Valente, Matteo, Monica, Nico, Nina, Pedro, Ramiro, Rey, Sharon, Simón, Yam
Tags Aguslina, Ámbar Benson, Ámbar Smith, Gastina, Jico, Lutteo, Michael Ronda, Michaentina, Pelfi, Ruggarol, Simbar, Simón Álvarez, Velentinazenere, Yamiro
Visualizações 94
Palavras 2.428
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Romance e Novela
Avisos: Insinuação de sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


😘

Capítulo 14 - Esculpindo Abóboras


Fanfic / Fanfiction Métrica - Capítulo 14 - Esculpindo Abóboras

E sei que você precisa de mim no quarto ao lado

Mas estou aqui paralisado.

— THE AVETT BROTHERS, “TEN THOUSAND WORDS”


Nunca transei com ninguém. Quase aconteceu uma vez, mas perdi a coragem no último minuto. Meu namoro mais longo foi com um garoto que Delfina me apresentou pouco antes de fazer 17 anos. 

Delfina tinha um irmão que estava na universidade e, dois anos antes, durante as férias, ele trouxe um amigo para casa. O nome dele era Sebastian e tinha 18 anos. Eu achava que o amava. Mas acho que amava apenas o fato de ter um namorado.

Ele estudava na Universidade do Texas, que fica a quatro horas de carro. A gente se falava muito pelo telefone e pela internet. Quando completamos seis meses juntos, já tínhamos conversado bastante sobre o assunto, então decidi que estava pronta para transar com ele. Eu tinha de voltar para casa antes da meia-noite, portanto alugamos um quarto num hotel e dissemos para minha mãe que íamos ao cinema.

Quando chegamos, minhas mãos tremiam. Sabia que tinha mudado de ideia, mas estava com medo de contar isso para ele. Ele tinha feito tudo com tanto cuidado. Tinha até levado os próprios lençóis para dar um ar mais íntimo. Estávamos nos beijando na cama há um tempo quando ele tirou minha blusa. Suas mãos estavam indo em direção à minha calça quando comecei a chorar. Imediatamente, ele parou. Ele não me pressionou em nenhum momento, nem nunca fez com que eu me sentisse culpada por ter mudado de ideia. Ele apenas me deu um beijo e disse que estava tudo bem. Então, ficamos na cama e alugamos um filme. 

Sete horas depois, quando já era dia, finalmente acordamos. E surtamos. Ninguém sabia onde estávamos; deixamos os celulares desligados a noite inteira. Sabia que meus pais deviam estar loucos de preocupação. Ele estava com medo de confrontá-los comigo, então me deixou em casa e foi embora. Eu me lembro de ficar olhando para minha casa, querendo estar em qualquer outro lugar que não fosse ali. Sabia que iriam me obrigar a conversar com eles, a contar onde estava. Eu odiava confrontos.

***

Agorq estou na frente do meu jipe, fitando o jardim cheio de gnomos da casa que não é o nosso lar. No fundo do meu estômago, sinto aquela mesma trepidação. Sei que minha mãe vai querer conversar sobre tudo. Sobre o câncer. Sobre Kel. Ela vai querer lidar com tudo isso, e eu vou querer me esconder.

Lentamente, vou até a porta da frente e giro a maçaneta, desejando que alguém estivesse mantendo a porta fechada do outro lado. Ela, Kel e Caulder estão sentados na frente do balcão. Estão esculpindo abóboras. Não dá para conversar agora. Ótimo.

— Olá — digo para ninguém em particular, enquanto atravesso a porta. Ela não me cumprimenta.

— Oi, Ámbar. Olha só minha abóbora! — diz Kel. Ele a gira na minha direção. Os olhos e a boca são três Xs enormes, e ele colou um pacote de bala na lateral do rosto da abóbora.

— Está com uma cara azeda. Porque comeu Skittles azedo — diz ele.

— Que criativo — digo.

— Olha a minha — diz Caulder, enquanto vira a dele para mim. Tem apenas um monte de buracos grandes onde era para ser o rosto da abóbora.

— Ah... o que é isso? — pergunto.

— É um queijo.

Eu inclino a cabeça na direção dele, confusa.

— Um queijo?

Caulder ri.

— Sim, um queijo. — Ele olha para Kel, e, ao mesmo tempo, os dois dizem. — Porque está cheio de buracos.

Reviro os olhos e rio.

— Não sei como é que vocês dois se encontraram.

Olho para minha mãe e vejo que ela está me observando, tentando avaliar como está meu humor.

— Oi — digo, especificamente para ela dessa vez.

— Oi — diz ela, sorrindo.

— Então — continuo, esperando que ela capte o duplo sentido do que estou prestes a dizer.

— Você se importa se hoje a gente ficar apenas esculpindo abóboras? Tem problema se a gente não fizer nada além disso? Só esculpir abóboras?

Ela sorri e volta a atenção para a abóbora à sua frente.

— Claro. Mas não podemos esculpir abóboras todas as noites, Ám. Vai chegar um momento em que a gente vai precisar parar de esculpi-las.

Pego uma das abóboras sobrando no chão, coloco-a em cima do balcão e me sento. Então alguém bate à porta.

— Eu abro — grita Caulder, saltando do banco.

Minha mãe e eu nos viramos para a porta quando ele a abre. É Simón.

— Ei, camarada. Já está até abrindo a porta daqui, é? — diz Will para ele.

Caulder segura a mão dele e o puxa para dentro da casa.

— Estamos esculpindo abóboras para o Halloween. Venha, Sharon também comprou uma para você. — Ele está rebocando Simón pela sala, em direção à cozinha.

— Não, tudo bem. Esculpo a minha outra hora. Só queria levar você pra casa, para que eles pudessem ter um tempinho em família.

Minha mãe puxa o banco do outro lado dela.

— Sente-se, Simón. Hoje nós vamos apenas esculpir abóboras. Não vamos fazer nada além disso. Só esculpir abóboras.

Caulder já está com uma abóbora nas mãos e a coloca em cima do balcão, na frente de Simón.

— Tudo bem, então. Vamos esculpir abóboras — diz Simón.

Caulder entrega uma faca para ele, e todos nós ficamos sentados na frente do balcão; somente esculpindo as abóboras.

Kel cria o primeiro momento constrangedor ao perguntar por que cheguei tão tarde do colégio. Mamãe olha para mim, aguardando a resposta, enquanto Simón continua cortando a abóbora, sem olhar para cima.

— Y e eu tivemos de ficar na detenção — digo.

— Detenção? Por que ficou na detenção? — pergunta minha mãe.

— A gente matou aula semana passada, cochilamos no pátio.

Ela coloca o cinzel na mesa e olha para mim, nitidamente decepcionada.

— Ám, por que fez algo assim? Que aula você matou?

Não respondo. Aperto os lábios e inclino a cabeça na direção de Simón no instante em que ele olha para cima.

Ele dá de ombros e ri.

— Ela matou minha aula! Era para eu ter feito o quê?

Minha mãe se levanta e dá um tapinha nas costas dele enquanto pega a lista telefônica.

— Só por causa disso seu jantar é por minha conta.

***

A noite inteira foi surreal. Todo mundo comendo pizza, conversando, rindo, inclusive minha mãe. É gostoso escutar a risada dela. Noto que hoje ela está diferente. Acho que só o fato de ter me contado que está doente diminuiu um pouco o estresse. Dá para ver em seus olhos que está mais à vontade.

Ficamos escutando Kel e Caulder falarem sobre as fantasias que querem para o  Halloween. Caulder está em dúvida entre um Transformer e um Angry Bird. Kel ainda não decidiu nada.

Limpo os restos de abóbora do chão, levo o pano para a pia e lavo. Então coloco os cotovelos no balcão e apoio o queixo nas mãos enquanto os observo. É mais do que provável que esta seja a última vez em que minha mãe vai esculpir abóboras. Mês que vem será o último Dia de Ação de Graças dela. Depois seu último Natal. E mesmo assim ela está ali sentada, conversando com Simón sobre os planos para o Halloween, rindo. Queria poder congelar esse momento. Queria que pudéssemos ficar esculpindo abóboras para sempre.

***

Simón e Caulder vão embora depois que minha mãe vai para o quarto se arrumar para o trabalho. Termino de limpar a cozinha, junto os sacos com restos de abóboras e coloco tudo dentro de um grande saco de lixo. Levo-o para o meio-fio no fim da entrada da casa, e Simón aparece do lado de fora com seu próprio saco de lixo. Ele só percebe que estou ali quando chega ao meio-fio. Sorri para mim e levanta a tampa, jogando o saco dentro.

— Oi — diz. Ele coloca as mãos nos bolsos do casaco e vem em minha direção.

— Oi — respondo.

— Oi — diz ele de novo. Passa por mim e se senta no para-choque do meu jipe.

— Oi — respondo, enquanto me encosto no jipe, ao lado dele.

— Oi.

— Para — digo, rindo.

Um fica esperando que o outro fale primeiro, fazendo surgir um silêncio constrangedor.

Odeio silêncios constrangedores, então acabo logo com isso.

— Desculpe por ter contado para Yam. É que ela é tão inteligente. Deduziu tudo sozinha e ficou imaginando que estava acontecendo mais do que está, então tive de contar a verdade. Não queria que ela ficasse pensando mal de você.

Ele inclina a cabeça para trás e encara o céu.

— Eu confio no seu bom senso, Ám. Até confio em Yam. Só precisava que ela soubesse o quanto esse trabalho é importante para mim. Ou talvez eu tenha dito tudo aquilo para você saber o quanto isso é importante para mim.

Meu cérebro está cansado demais para que eu seja capaz de analisar esse comentário.

— Seja como for — digo. — Sei que foi difícil para você... contar tudo daquela maneira. Obrigada.

Ficamos observando um carro passar e estacionar na casa ao lado. Uma mulher sai dele e, em seguida, duas garotas. Todas com abóboras.

— Sabe, não conheço ninguém nessa rua além de você e Caulder — digo.

Ele direciona o olhar para a casa onde as três pessoas acabaram de entrar.

— Aquela é Erica. Ela está casada com Gus, há uns vinte anos, acho. Eles têm duas filhas, ambas adolescentes. A mais velha é quem toma conta de Caulder às vezes. O casal à direita de nossa casa é que está aqui há mais tempo, Bob e Melinda. O filho deles acabou de entrar para o exército. Foram muito prestativos depois que meus pais morreram. Todos os dias, durante meses, Melinda cozinhava algo para nós. Ela ainda traz comida uma vez na semana.

Ele aponta mais à frente na rua.

— Está vendo aquela casa ali? É dele a casa que vocês estão alugando. O nome dele é Scott. Tem seis casas só nessa rua. É um cara legal, mas seus inquilinos variam muito. E são essas as únicas pessoas que conheço que ainda moram aqui.

Olho para todas as casas ao longo da rua. Todas são tão parecidas que é inevitável ficar pensando nas diferenças de cada uma dessas famílias. Será que tem alguém escondendo segredos? Alguém se apaixonando? Ou desapaixonando. Será que são felizes? Tristes? Será que estão com medo? Falidos? Carentes? Será que dão valor ao que têm? Será que Gus e Erica dão valor à saúde que têm? Será que Scott dá valor à renda extra dos aluguéis? Porque tudo isso, toda ínfima parte, tudo é passageiro. Nada é permanente. A única coisa que todos temos em comum é o inevitável: todos morreremos um dia.

— Tinha uma garota — diz Will. — Ela se mudou para uma casa daqui da rua há um tempinho. Ainda me lembro do instante em que a vi chegar no caminhão da U-Haul. Ela dirigia aquilo com tanta segurança. Era cem vezes maior do que ela, e ainda assim deu ré perfeitamente, sem nem pedir ajuda. Fiquei observando enquanto ela colocava o caminhão em ponto morto e apoiava a perna em cima do painel, como se dirigisse aquilo todos os dias. Maior moleza. Eu precisava ir trabalhar, mas Caulder já tinha corrido para o outro lado da rua. Estava lutando com espadas imaginárias com o garotinho que estava dentro do caminhão. Eu ia apenas gritar para que ele viesse para dentro do carro, mas havia algo naquela garota. Eu simplesmente tinha que conhecê-la. Atravessei a rua, mas ela nem percebeu que eu estava me aproximando. Estava observando o irmão brincar com Caulder, com um olhar distante no rosto. Fiquei parado ao lado do caminhão, apenas observando. Eu a encarei enquanto ela continuava olhando para o nada, com a expressão mais triste nos olhos. Queria saber em que estava pensando, o que se passava em sua mente. O que a fez ficar tão triste? Queria tanto abraçá-la. Quando finalmente saiu do caminhão e eu me apresentei, tive de usar todas as minhas forças para conseguir soltar sua mão. Queria segurá-la para sempre. Queria que ela soubesse que não estava sozinha. O fardo que ela estivesse carregando, seja ele qual fosse, eu queria carregá-lo por ela.

Eu apoio a cabeça no ombro dele, e ele coloca o braço ao meu redor.

— Queria ser capaz de fazer isso, Ám. Queria ser capaz de fazer tudo isso desaparecer. Infelizmente, não é assim que as coisas funcionam. Não vai desaparecer assim do nada. É isso que sua mãe está tentando te dizer. Ela precisa que você aceite isso e que Kel também saiba a verdade. Você precisa dar isso a ela.

— Eu sei, Simón. Mas simplesmente não consigo. Ainda não. Não estou pronta para encarar tudo isso ainda.

Ele me puxa para perto e me abraça.

— Você nunca estará pronta, Ám. Ninguém nunca se sente pronto. — Ele me solta e se afasta. E novamente ele tem razão, mas desta vez não me importo.

***

— Ám? Posso entrar? — diz minha mãe, do lado de fora da porta do meu quarto.

— Está aberta — digo.

Ela entra e fecha a porta. Está de uniforme. Senta-se ao meu lado na cama enquanto continuo escrevendo no caderno.

— O que está escrevendo? — pergunta.

— Um poema.

— Para o colégio?

— Não, para mim.

— Não sabia que você escrevia poemas. — Ela tenta dar uma olhada por cima do meu ombro.

— Na verdade, não escrevo. Mas se lermos um poema nosso no Club N9NE, não precisamos fazer a prova final. Estou pensando em apresentar um, mas não sei ainda. Só de pensar em ficar na frente de todas aquelas pessoas, já fico nervosa.

— Amplie seus limites, Ám. É para isso que eles existem.

Viro o poema para baixo e me sento.

— Então, está tudo bem?

Ela sorri para mim, estica o braço na direção do meu rosto e põe uma mecha de cabelo atrás da minha orelha.

— Sim, não é nada de mais — diz ela. — É que eu tinha alguns minutos livres antes de ir trabalhar e achei que poderíamos conversar. Queria que você soubesse que hoje é minha última noite. Não vou mais trabalhar depois disso.

Eu desvio o olhar, me inclino para a frente e pego a caneta. Coloco a tampa e fecho o caderno, guardando as duas coisas dentro da mochila.

— Ainda estou esculpindo abóboras, mãe.

Ela inspira lentamente, se levanta, hesita por um instante e depois vai embora.


Notas Finais


E aí o que acharam do capítulo? O que fariam se estivessem no lugar da Ámbar e do Simón?


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