História Metrone - Capítulo 3


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Amy, Andrew, Anomalias, Catherine, Charlie, Charlotte, Clair, Cometa, Corporações, Deville, Drama, Erika, Face, Ficção, Grey, Henry, Icaro, Jason, John, Metrone, Olho, Original, Projeto, Romance, Scott, Sky, Sobrenatural, Suspense
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Palavras 10.498
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Ficção Científica, Mistério, Policial, Romance e Novela, Sci-Fi, Sobrenatural, Survival, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo
Avisos: Linguagem Imprópria, Mutilação, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Primeiramente, só queria dizer que eu não esperava esse capítulo ficar tão grande como ele tá agora. (Dez mil palavras, UOU!)
Então se você é o tipo de pessoa que detesta capítulos grandes, (Eu pessoalmente só gosto de capítulos longos em livros, não em Fanfics ou histórias originais) eu inclui o sinal de ''--'' para o caso de você quiser sair e voltar a ler mais tarde. Só procurar por esse sinal, que indica uma divergência de acontecimentos na história, assim você pode voltar a ler quando quiser. Sem mais demora, obrigado pelo interesse e boa leitura!

Capítulo 3 - Através do Espelho.


Em um instante, o rugido da criatura deu lugar ao barulho de tiros sendo disparados por armas de fogo. Nos momentos confusos e rápidos que se seguiram, sem Scott ter certeza de como deveria reagir, permaneceu abaixado ao lado de Amy, atrás do balcão, tampando os ouvidos com as mãos, e a menina fazia o mesmo. O rugido alto da criatura logo foi abafado pelos barulhos das armas atirando continuamente, até logo se tornar um urro fraco de dor, e então dar lugar ao silêncio. Quase imediatamente, os tiros pararam.  Scott e Amy permaneceram abaixados atrás do balcão, tendo uma certeza vaga do que havia acontecido e sem saber se deveriam fazer alguma coisa. Tamanho tivera sido o susto, o menino tirou as mãos do ouvido quase um minuto depois do barulho ter acabado. Amy, ao contrário de Scott, havia se assustado menos, porém se encontrava mais confusa quanto ao que havia acabado de presenciar, tendo apenas ouvido barulhos de tiros em filmes de ação que costumava ver com seu irmão mais velho, e agora sentia como se seus ouvidos pudessem explodir a qualquer momento após ouvir o barulho de armas de fogo tão de perto. Ficando de joelhos, a menina espiou por cima do balcão, e pode ter uma boa visão do que estava realmente acontecendo. A criatura, que antes havia se contentado em andar em círculos pelo centro da praça de alimentação, estava agora caída no chão em uma posição destorcida, imóvel, enquanto um líquido grosso e escuro escorria de seus ferimentos por bala e fazia uma poça ao redor de seu próprio corpo. Seus olhos agora estavam vazios, encarando o aparente nada, com sua boca aberta e uma expressão de dor agonizante no rosto deformado. Ao lado do corpo da criatura, uma mulher se mantinha de pé, o observando. Era alta, e possuía características asiáticas. Mesmo a área não estando muito iluminada, Amy observou que ela parecia bem pálida, e seu rosto não demonstrava nenhuma expressão. Usava uma camisa social e colete escuro, e segurava um revólver prateado na mão esquerda. Pouco atrás da mulher, quase encobertos totalmente pelas sombras, havia uma fileira de homens alinhados usando uniformes militares e segurando metralhadoras. Por alguma razão que Amy não compreendeu no momento, todos eles usavam máscaras de gás.

- Se abaixa idiota! – Disse Scott, puxando a menina para baixo, que não havia percebido inteiramente o quanto estava se expondo. – Quem são esses caras? – Perguntou o menino.

- Eu não sei... Parecem do exército, ou algo assim. – Respondeu Amy.

- O exército? Como a gente não viu eles chegando? E como eles saberiam... – Disse o menino, logo se perdendo em uma nuvem de pensamentos e probabilidades.

- Não importa! Eles mataram o bicho, então a gente pode confiar neles, certo? – Disse Amy se levantando, apenas para Scott segurá-la pelo braço e puxá-la para baixo em seguida.

- Não seja burra! A gente não sabe se eles são do exército, eles podem ser qualquer coisa! Podem até matar a gente, sabia?

- E você prefere ficar aqui escondido? Isso não vai resolver nada! Esses caras praticamente salvaram a gente, e... – Antes que terminasse de dizer o que tinha em mente, Amy foi puxada pelo casaco e erguida violentamente no ar. Scott não pode nem pensar em reagir, pois o homem de uniforme militar encostou o cano da arma que segurava com a outra mão na testa do garoto. Paralisado e sem ideia de como reagir, Scott fitou as janelas oculares da máscara de gás que o sujeito usava por um tempo, seu coração batendo depressa,apenas esperando que ele dissesse algo ou simplesmente apertasse o gatilho, enquanto Amy lutava futilmente para fugir, com o homem a erguendo no ar com um só braço. Scott o encarou pelo que pareceu uma eternidade, até que, com um movimento rápido e brusco, o homem arremessou Amy com força até o centro da praça de alimentação, e bateu com o cano da arma no ombro de Scott, empurrando o menino para que ele fosse para a mesma direção.

Amy caiu de uma forma desajeitada e rolou pelo chão, a pouco menos de três metros de distância, todo seu peso corporal machucando o braço da menina na hora do impacto. Quando teve forças para se levantar, reparou que a mulher de colete estava agora na sua frente, encarando a menina com olhos cinzentos e sem expressão. Poucos segundos depois, Scott surgiu ao lado de Amy, com um dos sujeitos de uniforme militar apontando sua arma na direção das crianças, o dedo perigosamente próximo do gatilho. A mulher, que agora tinha seus olhos fixos em Scott, pareceu decidir que era a hora apropriada para começar as perguntas.

- O que vocês fazem aqui? – Ela perguntou, e tanto Scott quanto Amy perceberam que não estavam lidando com uma pessoa amigável, ou talvez nem mesmo uma pessoa de verdade. Sua voz era gélida e ela falava num tom baixo, sem fazer nenhuma expressão facial, seus olhos abertos, e ela não piscava. Parecia dar uma pausa no meio da sentença sempre que falava algo, como se não soubesse se expressar ou realizar uma pergunta simples. Após momentos de silêncio inquietante, em que Amy e Scott trocaram olhares preocupados, o menino tomou coragem e decidiu falar, fazendo a melhor atuação de desentendido que conseguia, na intenção de talvez conseguir tocar o lado gentil da oficial que o encarava.

- D-Desculpa! Entramos aqui por engano, foi só uma brincadeira! A gente não sabia que ia encontrar essa... Essa coisa! Só queremos ir pra casa! – Respondeu o menino, parecendo aflito, uma atuação que até mesmo Amy achou convincente. Porém, o mesmo não poderia ser dito da mulher, que mantinha sua expressão neutra enquanto o menino falava, seus olhos cinzentos parecendo poder ver até mesmo a alma de Scott. Ela se manteve calada, e como se não tivesse ouvido nada ou simplesmente não se interessado pela explicação do garoto, fez outra pergunta.

- De onde vocês são?

Dessa vez, Scott pensou um pouco mais antes de responder. Se retraindo um pouco e trocando olhares com Amy, foi o menino que se prestou para responder novamente.

- Meu nome é Scott Eldrich, e essa é minha amiga, Amy. Vivemos em Riverlake, óbvio, a cidade antes da floresta. Estamos de férias e... Sem nada de interessante pra fazer. Amy me desafiou a vir aqui, e por isso decidimos passar um tempo nesse lugar. Foi só uma brincadeira estúpida, a gente não sabia que esse... Monstro... Vivia aqui, e ele nos perseguiu e nos escondemos. Foi aí que vocês apareceram. Por favor, a gente só quer voltar pra casa! – Respondeu Scott, sentindo-se um pouco mais corajoso a cada palavra que dizia.

- Vocês dois são os únicos aqui? – Perguntou a mulher, a expressão ainda neutra, como se tudo que Scott dissesse não fizesse nenhuma diferença. O menino olhou de relance para o outro lado da praça de alimentação, perto de um restaurante abandonado e num balcão onde Jason se encontrava escondido, e acabou por perceber que o rapaz não havia sido encontrado. Não sabia se deveria contar a verdade, ou se isso iria dificultar a vida do rapaz, que era mais velho do que eles.

- Não, somos apenas nós dois. Amy me desafiou a vir aqui, e decidimos vir juntos. – Respondeu Scott, dessa vez olhando bem nos olhos cinzentos da mulher, acreditando que os sinais de linguagem corporal poderiam ajudar a validar suas respostas.

- Só vocês dois? Então me responda: Por que tem três bicicletas lá fora? – Ela exclamou, com um breve sinal de um sorriso cruzando seu rosto momentaneamente, mas logo recuperando a compostura, como que se pegar o menino em uma mentira fosse algo divertido. Sem saber como responder, Scott abaixou a cabeça momentaneamente, e em uma crise de ansiedade sentiu como se fosse chorar. Olhou para Amy, e viu que a menina parecia prestes a desabar a qualquer minuto, e ter uma crise de choro ainda maior. Ela estava com medo, ambos estavam. Por alguma razão, isso deu mais forças a Scott. O menino não iria deixar que o vissem chorar, ou se expor como fraco. Eles machucaram sua amiga, e isso ele não iria deixar barato. Ergueu a cabeça e fitou a mulher nos olhos. Estava prestes a inventar a melhor desculpa que já havia feito na vida, quando foi interrompido por Amy.

- Desculpa... Estivemos mentindo... – Disse a garota, e Scott sentiu como se a vontade que tivera de protegê-la fosse dando lugar a uma vontade ainda mais forte de dar um murro na cara da menina. Mas dito isto, a mulher voltou sua atenção para Amy, seus olhos agora parecendo expressar interesse. A menina continuou.

- Nosso amigo... Percy, tem nossa idade. Ele vive com o irmão mais velho, e os pais estão fora da cidade. Achamos que ele fosse... Abusado pelo irmão, e pouco a pouco ele começou a se afastar da gente. Até que, dois dias atrás, ele sumiu, e não o encontramos em lugar nenhum! Falamos com o irmão dele, mas ele não parecia interessado em fazer queixa na polícia, e ninguém quer nos ajudar a procura-lo! Acabamos encontrando a bicicleta dele aqui, hoje, e essa é a verdadeira razão do porque viemos investigar... Desculpa, a gente realmente não queria encontrar esse bicho aqui! Mas agora... Talvez ele tenha... Devorado o... – Dizia Amy, mas sem conseguir terminar a última sentença, com os olhos lacrimejantes e soluçando sem parar. Scott, percebendo o quão genial a mentira e convincente a atuação de Amy havia sido, decidiu ajudar a complementar de sua própria forma, balançando a cabeça em confirmação sempre que a menina acrescentava detalhes à história inventada. Porém, mesmo com toda mentira bem elaborada, a expressão da mulher permanecia neutra, como se simplesmente não se importasse com a verdade, o que fazia Scott se questionar a razão para ela ter feito as perguntas em primeiro lugar. Desconfiado de que aquilo talvez não fosse levar a lugar nenhum, a atenção do menino foi desviada para um dos militares que se aproximou da mulher, e com a voz alterada por um filtro de voz, disse o seguinte:

- Cadáveres mutilados e em estado de decomposição foram encontrados em um túnel subterrâneo feito pelo espécime 114, debaixo do Shopping. A criatura cavou os túneis com quilômetros de comprimento, que usava para desovar. Mais de 28 ovos foram encontrados em estado de desenvolvimento recente, e o próprio espécime 114 foi encontrado e neutralizado na área próxima ao corredor principal deste andar. Os corpos encontrados ainda não foram identificados.

A mulher ouviu com atenção, e após isso, olhou novamente para Scott e Amy. Antes que as crianças pudessem falar qualquer coisa, ela se abaixou, e encostou o cano do revólver na testa de Scott, e em seguida na de Amy.

- Vocês vão voltar para casa, e esquecer completamente o que viram aqui. Se alguém perguntar, vocês nunca ficaram sabendo de nada sobre o que aconteceu com seu amigo, ou sobre este lugar, ou sobre aquela criatura. – Ela dizia, fazendo um gesto na direção do monstro estirado sobre o chão.- E, conforme os anos passam, vocês nunca mais vão lembrar do rosto dele, e viverão suas vidas. O que estamos fazendo aqui hoje é um favor para as pessoas de Riverlake, porque você não vai querer que mais criaturas como esta descubram o maravilhoso centro de alimentação que é sua cidade. E, caso eu descubra que tudo que vocês disseram é mentira, sei exatamente onde os encontrar, e podem ter certeza que vão ter um destino semelhante ao de seu amigo: Um dia sumir completamente, e com o tempo serem esquecidos para sempre. Compreendem? – Disse a mulher, e Scott balançou a cabeça, sem ter coragem de olhá-la nos olhos. Naquela situação, sua voz gélida e assustadoramente calma o assustava ainda mais do que sua falta de expressão. Amy, com o cano da arma encostado na testa, tinha os olhos vermelhos de chorar e soluçava quietamente. A mulher trocou olhares com Scott e Amy, e após fitar o rosto da menina como se estivesse vendo algo que ninguém mais ali via, perguntou:

- Qual o seu nome, garota?

- A-Amy... Amy DeVille. – Amy respondeu, e por uma fração de segundo, a mulher pareceu surpresa, mas logo recuperou a compostura. Olhou para Scott então, como se houvesse percebido algo importante, mas ao invés de falar alguma coisa, colocou a mão na cabeça do garoto e bagunçou a franja do cabelo branco de Scott, ação que ele só viria a compreender mais tarde. Em seguida, se levantou, olhou em volta, e disse:

- Já podem ir. E não se esqueçam do que conversamos.

Scott e Amy se levantaram, andando com cuidado e olhando nervosamente pra trás após passarem ao lado dos militares e do cadáver da criatura. Após saírem da praça de alimentação e terem certeza de que não estavam mais sendo observados ou seguidos, atravessaram o corredor principal do Shopping, e embora Scott se sentisse nervoso e ansioso como nunca antes, sentiu seu coração se acalmar quando as mãos de Amy se entrelaçaram com as suas. Após descerem as escadas e saírem do primeiro andar pela mesma janela pela qual entraram, notaram alguns carros parados no terreno na frente da entrada do Shopping, mas nenhum dos dois decidiu parar para prestar atenção nisso, e continuaram até encontrar e subir a cerca que limitava o parâmetro, e pularam para o outro lado. Scott correu para sua bicicleta, mas quase tombou pra trás quando uma figura saiu das sombras à sua frente.

- Ótima forma de lidar com as coisas lá trás, eu fiquei impressionado. – Disse Jason, cumprimentado as crianças com um sorriso cínico, e Scott percebeu que havia quase esquecido do rapaz.

- Você! Como foi que você conseguiu sair? Como chegou aqui antes de nós?! Sabe quem são aqueles caras?! – Exclamou Amy, e ao invés de responder, Jason bagunçou o cabelo da garota e subiu na própria bicicleta, logo em seguida acrescentando:

- Acho que você não está em posição pra fazer perguntas, Amy. – Disse o rapaz, começando a pedalar e indo embora. Enquanto a menina começava a reclamar novamente do irmão, Scott deu um suspiro, e percebeu que já entardecia. Olhou de relance para o Shopping novamente, e por um segundo viu o que achou ser uma figura humana o observando por uma das janelas do segundo andar. Piscou, e após olhar de novo, percebeu que era só a silhueta de um gato subindo pelo telhado e sumindo na escuridão. Scott agarrou sua bicicleta, e junto com Amy, fez seu caminho de volta para casa.

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Scott fez questão de se manter desperto pela longa noite que se seguiu. Após ter chegado em casa e ter explicado a situação para a mãe com outra desculpa elaborada que havia inventado no caminho de volta, decidiu consigo mesmo que o mais seguro a se fazer era passar a noite acordado, sentado à frente da janela de seu quarto, atento a movimentação da vizinhança silenciosa, agora iluminada pela luz da Lua na noite fria. Scott não sabia exatamente o que estava vigiando, mas tinha receio de que as pessoas as quais teve contato resolvessem quebrar sua promessa, e na calada da noite, decidissem que a melhor escolha era desaparecer com o garoto e sua família. De início, resolveu enviar mensagens para Amy a aconselhando a fazer o mesmo, mas depois de poucas uma ou duras horas de patrulha, a menina decidiu que iria ganhar mais se simplesmente fosse dormir, se preparando para o primeiro dia de aulas na manhã seguinte. Scott, ao contrário, não tinha muitos problemas com sono, e permaneceu desperto por um longo tempo, usando um videogame portátil para distraí-lo do tédio enquanto dava pausas para olhar pela janela vez após vez. Com o passar do tempo e afundado em uma nuvem de pensamentos, porém, Scott recordou-se do diário que havia sido deixado pelo homem misterioso de mais cedo e que ele havia trazido para o quarto, mas o deixado sobre a escrivaninha, tendo que lidar com muitos pensamentos turbulentos para ter disposição de começar a lê-lo naquele momento. Percebendo que aquela talvez fosse a melhor hora, deixou seu portátil de lado e agarrou o objeto com a silhueta do diário da escrivaninha, se aproximando ainda mais da janela para que a luz da lua o ajudasse a ler, com receio de ligar a luz do Abajur e atrair atenção de fora, ou de sua mãe. Passou os dedos pela capa de couro envelhecida, e aproximando do rosto, sentiu o cheiro inconfundível de livro antigo. No canto da capa, reparou na inscrição escrita à caneta que vira anteriormente: ‘’08/11/2006’’. Por alguma razão, essa era a exata data em que Scott havia nascido, algo que fez o menino tremer involuntariamente por um segundo. Percebeu então que estava encarando a contracapa, e virando o diário deu de cara com a tranca que havia esquecido estar ali. Após um momento de frustração, tentou forçar o diário a abrir, mas não conseguiu. Sem compreender exatamente porque havia decidido pegar aquilo, e mais importante, porque o homem estranho havia deixado para trás, Scott decidiu que iria levar o diário para escola, e pedir a ajuda de Amy para abri-lo. Talvez a garota soubesse usar grampos para abrir fechaduras, ele pensou. Conhecendo Amy, Scott sabia que não era impossível.

Subitamente, então, um gato preto pulou pela janela. Encarando Scott com olhos amarelos de interesse, o menino quase caiu da cadeira com o susto. Sem saber como reagir nos instantes seguintes, resolveu encarar o gato como retribuição, fitando os olhos grandes e curiosos do bichano, que se aproximou lentamente do rosto de Scott, e o lambeu na ponta do nariz. Scott sabia muito bem que nunca fora exatamente o melhor quando se tratava de como tratar animais, mas dessa vez se sentiu confortável, acariciando a cabeça do bichano, que respondeu com um ronronar satisfeito e pulou para o colo de Scott, fazendo o menino quase cair da cadeira pela segunda vez. O gato se acomodou da forma mais natural possível, fechando os olhos e, aparentemente, caindo no sono. Sem se mexer, Scott se lembrou das razões de sua mãe para não ter animais de estimação em casa, e começou a pensar em formas de colocar o gato pra fora sem ter que necessariamente o jogar pela janela. Decidiu, então, que iria esperar até de manhã. Não queria estragar o possível único momento que estava tendo com o único animal que o deu atenção desde que ele era pequeno. O menino permaneceu um bom tempo sem se mover, com medo de acordar o bichano, até que eventualmente pegou no sono, sem perceber.

Scott foi acordado na manhã seguinte por uma leve batida na porta de seu quarto, e o chamado de sua mãe pedindo para o garoto acordar e se preparar para a escola. O menino recordou então do quanto detestava essa rotina cansativa, que finalmente agora havia voltado para lhe atormentar. Nesse momento percebeu que ficar acordado até bem tarde ontem a noite talvez não tivesse sido uma decisão boa afinal de contas, e que, ao invés do que se lembrava, estava deitado na cama, com parte do corpo coberta por um edredom. A janela ainda estava aberta, e a cadeira em frente à mesma, embora Scott não tivesse recordação de ter voltado para a cama em nenhum momento da noite, mas imaginou que houvesse o feito, e que o sono e o cansaço mental o impedissem de se lembrar. Ao fazer mais esforço do que achava necessário para se levantar, percebeu que a menina não estava mais ali. ‘’Menina?’’ – Ele se perguntou, e constatou que sua linha de pensamento não estava inteiramente coerente. Um gato lhe havia visitado ontem à noite, não uma menina. E, pelo que parece, o gato havia sumido, sem deixar traços aparentes de que esteve ali. Scott suspirou, satisfeito, percebendo que era menos um problema para ter que lidar. Vestiu-se em pouco tempo, retirando sua mochila do guarda roupa, parando um segundo para lembrar que a escola iria entregar o material durante a aula, então ele não precisaria levar nada de importância, exceto, talvez, o diário que havia encontrado, tendo esperanças de que Amy talvez soubesse como abrir a tranca, se é que a garota iria mesmo ir para a aula.

Scott procurou pela escrivaninha, mas não encontrou sinal do diário. Olhou na cama, no chão, e até em lugares em que sabia que não estaria, mas verificou mesmo assim, apenas para ter certeza de que, durante a noite, o livro havia sumido misteriosamente. Por um momento, se assustou ao considerar a possibilidade de que durante a noite, sua mãe entrara no quarto e o colocara na cama, mas ao achar o livro, decidira o guardar com ela. No instante seguinte, porém, decidiu que a hipótese era falha. Sua mãe teria fechado a janela e colocado à cadeira no lugar, além de ter feito uma série de perguntas do porque estava acordado tão tarde da noite, e, além do mais, a porta do quarto estava trancada, deixando apenas uma rota para alguém ter entrado no quarto e pegar o livro: Pela janela aberta. Scott começou a analisar possibilidades, embora nenhuma delas fizesse o mínimo de sentido até para sua mente criativa. Baseando-se no raciocínio lógico de que ‘’Quando se elimina o impossível, o que restar, mesmo que seja extremamente improvável, pode ser a verdade’’. Mas, quando o menino havia encarado a face destorcida e a arcada dentária ilimitada do próprio impossível, como lidaria com a situação? Uma nova rota de possibilidades que Scott não tinha nem ideia de como deveria considerar havia sido aberta, porém ele ainda não poderia a explorar agora. Vestiu-se, destrancou a porta e desceu as escadas, encontrando a mãe na cozinha. Ao se deparar com o sorriso caloroso da mãe que o cumprimentava com um abraço, Scott voltou a se sentir seguro, e pela primeira vez nos últimos dias, algo lhe dizia que as coisas iriam acabar melhorando. Ele não poderia saber o quanto estava errado.

Scott fez seu caminho para a escola a pé, acreditando que o tempo que levaria para chegar seria o suficiente para que pudesse pensar em toda situação complicada que se encontrava, e nas pessoas que o haviam interrogado no dia passado. O menino não sabia se estava sendo vigiado, mas não levaria os avisos da mulher em vão. Sabia que aquilo era uma questão séria, talvez até mesmo de vida ou morte. Na pior das hipóteses, as pessoas misteriosas poderiam descobrir que a história de Amy era falsa, e isso causaria consequências que Scott não se arriscava nem a imaginar. Para piorar a situação, não sabia como deveria entender o que havia ouvido, sobre o monstro do Shopping ter colocado ovos em túneis no subterrâneo. Isso significava que aquela coisa vivia ali faz muito tempo? E que existiam mais como ela? As pessoas que ele vira realmente iriam acabar com os ovos restantes, ou simplesmente não ligavam para o que acontecesse com a população da cidade? Recordou-se, então, de que haviam mencionados cadáveres encontrados nos túneis subterrâneos. Seriam essas as pessoas que haviam desaparecido nos últimos meses em Riverlake? E porque haviam se referido a criatura como ‘’Espécime 114’’? Scott só conseguia ver-se afundado em um poço de perguntas, com tantas possíveis respostas que o garoto sentia como se estivesse dentro de um filme de mistério, onde nada se encaixava corretamente. Ou, talvez se encaixasse, mas a verdadeira resposta parecia tão absurda e tenebrosa que o menino preferia ignorar. Porém, seus pensamentos foram interrompidos após ouvir os murmúrios e barulhos de conversa alegre como com o reencontro de vários amigos, e logo percebeu que estava a um passo de distância da calçada à frente do prédio da escola, e vários alunos excitados pelo primeiro dia de aulas caminhavam ao redor. Pelo que Scott pode notar, o prédio havia sofrido algumas reformas, com suas paredes externas sendo repintadas de uma cor salmão e a adição de novos bicicletários, assim como novas janelas para substituir as que foram quebradas por vândalos no final do ano passado. A movimentação de alunos, pais e professores também estava constante, e o menino se isolou em um canto menos movimentado, estando pensativo demais para tomar uma rota apropriada no meio da multidão. Decidiu, então, tomar coragem e entrar pelo corredor principal, sentindo-se como um peixe qualquer em um cardume.  Eventualmente acabou por encontrar rostos familiares que o cumprimentaram, rostos novos, e até rostos que preferia não ver nunca mais, mas ninguém que realmente pudesse chamar de amigo. Ficou surpreso ao notar que Mark poderia ter faltado o primeiro dia de aulas, mas lembrando-se do quão presunçoso o amigo era, não se surpreenderia se ele houvesse alongado o próprio período de férias propositalmente e ainda estivesse fora da cidade. Após encontrar sua sala determinada, Scott decidiu se acomodar em uma das últimas carteiras de sua fileira, longe o suficiente para que ninguém o visse pegar no sono de exaustão. De pouco a pouco, alunos que viriam a estudar com o menino foram entrando e tomando seus próprios lugares, e Scott não se surpreendeu quando Amy apareceu pela porta, largou a mochila no chão e tomou a carteira ao lado da dele. Ao olhar nos olhos da garota, Scott se certificou de que Amy parecia ainda mais cansada do que ele mesmo, ao ponto de estar pálida, com o cabelo castanho emaranhado e a expressão de quem não dormira bem. Scott sentiu-se um pouco culpado pela situação da garota, mas sabia que pedir desculpas por mantê-la acordada durante a noite anterior não parecia algo muito sensato, em comparação com tudo que havia acontecido. Decidiu, então, puxar assunto como sempre fazia, tentando distrair a menina e talvez confortá-la, mas acabou surpreso quando Amy tomou coragem e começou a insistir em falar sobre o que havia acontecido no dia anterior, sem perder o sorriso desafiador no rosto, mesmo com tudo que haviam passado. Foi sua naturalidade que acabou por confortar o garoto naquele momento difícil, e por muitos que ainda estavam por vir.

Sem realmente se importar com a introdução dos novos professores e alunos recém-chegados, Amy e Scott estavam mais preocupados em debater ideias entre si no fundo da sala, tomando o máximo de cuidado possível para não chamarem atenção desnecessária. Scott explicou suas suposições e teorias sobre o monstro e as pessoas misteriosas no shopping, e embora Amy nem sempre entendesse o que o garoto queria dizer, adorava o ouvir falar. O tempo passou, e embora os dois tivessem sido avisados para parar com a conversa diversas vezes por vários professores, isso não impediu ou deu fim à discussão de ideias que estavam tendo. Era como se Scott e Amy tivessem um segredo especial, que embora pudesse acabar parecendo terrível e perigoso para qualquer outra pessoa que estivesse naquela situação ao invés deles, não os causava nenhuma tensão ou medo. Parecia que, até aquele momento, eles finalmente haviam conseguido fazer algo de interessante nas férias, que superava a experiência de qualquer outro aluno, embora eles tivessem que resistir a tentação de contar o que acontecera, por inúmeras razões. Eventualmente o sinal tocou, indicando o fim da terceira aula e o início do intervalo. As crianças foram instruídas a se dirigirem ao refeitório, que por ter sido remodelado durante o longo período de férias, estava um pouco diferente do que Scott se recordava. Após pegar um pouco da estranha mistura que era o lanche servido no dia, Amy e Scott escolheram se sentar em uma das mesas no canto que atraía menos atenção, assim poderiam conversar sem o risco de serem ouvidos. Além do monstro e das pessoas misteriosas no shopping abandonado, outros tópicos de conversa foram surgindo entre os dois, como o fato de Mark ainda não ter voltado à cidade, se Jason também estudava ali, o que era a coisa esquisita que Amy encontrou em seu prato e muito mais. Já estavam na metade do período de intervalo quando, correndo e gritando em histeria, um garoto rechonchudo de óculos esbarra com outro e rola pelo chão do refeitório. O garoto, que estava vermelho e com a camisa empapada de suor, só conseguiu se acalmar quando um inspetor se aproximou, e agarrando lhe a cintura, não conseguiu formular uma frase que fizesse sentido nos primeiros minutos, porém eventualmente conseguiu soltar a vaga informação: ‘’Monstro... C-Corredor... Ataque!’’. Dito isto, uma multidão de alunos começava a se formar em volta do menino histérico, enquanto ele gritava pedindo para que fizessem alguma coisa a respeito da criatura que o havia atacado no corredor.

Scott e Amy trocaram olhares, e foi como se a palavra ‘’Monstro’’ houvesse ecoado na cabeça dos dois ao exato mesmo tempo. O inspetor e alguns alunos agora seguiam o garoto rechonchudo, que fungava e lacrimejava ao fazer seu caminho de volta, para mostrar o lugar onde o suposto ataque havia ocorrido. Seguindo o grupo de alunos por de trás em uma distância segura, os garotos observaram enquanto o menino histérico apontava para a parede onde estavam os armários, e para sua própria portinhola do armário aberta, contendo alguns livros e um espelho rachado dentro. Ao olharem para dentro do armário e se depararem com apenas alguns objetos inofensivos e em seguida olharem de volta para o garoto assustado, a maioria dos alunos caiu em gargalhada. ‘’Ele provavelmente se viu no espelho pela primeira vez!’’ e ‘’Qual é, tu se assustou com um inseto?’’ foram alguns dos comentários maldosos que surgiram no ar naquele momento. O garoto rechonchudo, no entanto, jurava que algo havia saído do espelho e o atacado, mas nem mesmo o Inspetor levava o menino a sério. O sinal tocou poucos segundos depois, e Scott e Amy tiveram que voltar às aulas junto com os outros alunos, mas trocaram olhares diversas vezes, e a tensão no ambiente parecia ter se elevado subitamente. Poderia ter sido uma brincadeira ou uma confusão com um sentido explicável e lógico, mas depois de tudo que haviam visto durante o período de férias e a reação genuína de terror do menino rechonchudo, ambos duvidavam que esse fosse o caso. Scott sugeriu então que, mesmo que fosse um passo em falso, eles deveriam avisar a Jason do ocorrido, e talvez investigar um pouco para ter certeza de que nenhum ovo do monstro no Shopping havia acabado vindo parar aqui, e começado a se desenvolver nos cantos obscuros da escola. Preocupados com a ideia, Amy enviou uma mensagem para Jason os encontrar quando suas aulas acabassem, e Scott fez o mesmo, avisando sua mãe que talvez ele ficasse meia hora a mais para poder ver as reformas e adições novas no ambiente escolar.

O tempo passou, e o sentimento de excitação que Scott tivera ao discutir ideias com Amy de manhã havia quase que se dissipado completamente, frente à possibilidade de que toda aquela situação pudesse não ter sido resolvida como ele esperava, e sim ter se tornado mais perigosa. Será que realmente havia um monstro em ambiente escolar? Ele não sabia dizer, talvez não, talvez sim, mas era necessário ter certeza antes que o pior acontecesse. Com isso em mente, Scott e Amy se tornaram parte dos poucos alunos que permaneceram após o término das aulas, sentando-se em uma das mesas do refeitório vazio, para esperar que a aula tardia de Jason acabasse e o trio pudesse verificar a verdade juntos. Amy tentara falar com o garoto rechonchudo na tentativa de conseguir uma descrição do que o mesmo havia visto, apenas para descobrir que ele havia saído mais cedo da escola, após ter uma crise de pânico.

- Você realmente acha que tem mais um monstro aqui? – Perguntou a menina, depois de decidir que esperar mais meia hora pelo término das aulas extras do irmão para confirmar uma suspeita vaga talvez não fosse à coisa mais sensata que ela poderia estar fazendo.

- Eu realmente não sei Amy, mas a gente não pode deixar isso passar. Já esperamos até aqui, esperar um pouco mais não vai matar ninguém, e além do mais, se não tiver realmente nada, é uma boa forma de saber o que eles acrescentaram de novo na escola. – Respondeu Scott.

- Queria ter seu otimismo... – Respondeu a garota, enterrando o rosto nos braços apoiados sobre a mesa.

- Tá com sono?

- Um pouco. Sabe, um certo alguém me fez ficar acordada vigiando minha própria casa pela janela a noite inteira ontem, pra absolutamente nada acontecer.

- Heh, desculpa... Mas olha, foi necessário. Aqueles caras podiam ter invadido nossas casas de noite, e além do mais: O perigo não acabou, eles podem descobrir a verdade e vir atrás da gente a qualquer minuto, sabia? Nem sabemos exatamente quem eles são...

- Devem ser tipo, sei lá, G-Man, Homens de Preto... Eles provavelmente trabalham capturando bichos como aqueles, então não devem ser tão ruins!

- Talvez... Mas você viu a cara daquela mulher? Ela parecia tão... Artificial, sem vida. Não sei explicar, parecia até um robô. – Disse Scott, recordando-se da falta de expressão e os olhos cinzentos da mulher que o interrogara no dia anterior.

- E ela era branca pra caramba. Cara, talvez eles sejam vampiros, imagina que louco? Vampiros que caçam monstros! Dá até pra fazer um filme com isso. Ou são psíquicos com poderes de telecinésia! Quero ver esses caras de novo!

- Acho que você tá viajando demais, eles provavelmente eram pessoas do governo que foram enviadas pra acabar com aquela coisa. Como eles sabiam que o bicho estava lá eu não faço a mínima ideia, mas estou feliz que não tenham nos levado sob custódia ou algo assim. É estranho... Primeiro tinha um monstro que nos perseguiu pelos corredores, e depois outro na praça de alimentação. Acho que mais deles já estavam começando a sair dos ovos que aquele militar da máscara de gás mencionou que haviam sido postos em túneis no subsolo, e por isso existiam mais que não havíamos visto da primeira vez que estivemos lá. Será que eles acabaram com todos? Ou será que eles depositaram ovos em outros lugares da cidade?

- Cara, eu não faço ideia, mas se eu vir o bebê feioso daquela coisa rastejando pela rua de noite eu corto ele no meio com a espada samurai do meu tio.

- Hah, é você provavelmente faria algo assim... – Scott deu um sorriso fraco, deixando a preocupação perdurar em sua expressão, notada até mesmo por Amy, que tinha dificuldade em identificar as emoções de outras pessoas a menos que fossem óbvias demais, como havia sido no caso de Scott. – Hm... Eu vou ao banheiro, já volto. – Completou o menino, sentindo uma necessidade inexplicável de lavar o rosto e ter pelo menos um ou dois minutos para pensar sozinho.

Atravessando os corredores vazios e de vez em quando olhando para dentro das salas de aula onde as crianças do turno vespertino se focavam em aprender o novo conteúdo, Scott entrou em um dos banheiros masculinos para alunos, e se certificando de que também estava sozinho neste, ligou a torneira e lavou superficialmente o rosto, a água fria lhe molhando parte da franja de cabelos brancos que caía sobre a testa. Olhou-se então no espelho, e ao ver seu reflexo refletido, quase caiu para trás com um grito. O reflexo de Scott não possuía pupilas, sendo o inteiro de seus olhos de uma cor branco leitosa. Manchas negras e avermelhadas se espalhavam pelo casaco azul-claro do garoto no reflexo, mas em uma olhada rápida para baixo, Scott se certificou de que a imagem que via não era de fato real. Antes que pudesse ter qualquer reação lógica, as luzes piscaram, e por um segundo se viu imerso em escuridão.

Permaneceu quieto pelos segundos que se seguiram, embora o tempo parecesse ter parado e tudo tenha demorado uma eternidade. Quando as luzes voltaram, Scott percebeu imediatamente que não estava no mesmo lugar. Ainda se encontrava no banheiro da escola, sem ter saído ou se movido, mas sentia como se estivesse no próprio inferno. Além da terrível sensação de que não estava no mesmo lugar, o mundo não parecia ter mudado muito em volta, exceto pela óbvia ausência de cor, como se a realidade tivesse se tornado cinza num piscar de olhos, e, é claro, pela enorme árvore à sua frente.

Foram poucos segundos para Scott perceber que a figura que encarava não era realmente uma árvore, mas sim uma figura humanoide, muito alta e esguia. Seus braços eram extremamente largos e finos, quase desproporcionais ao corpo, que por si parecia ser feito da própria escuridão, que com a exceção de seu par de olhos escarlates brilhantes, não emitia ou refletia nenhuma luz, como quando se olha para o interior de um quarto escuro à noite. Parada no centro do banheiro, ela fitava Scott, como se estivesse vendo por dentro da própria alma do garoto. Ao tentar encarar a imagem da criatura e definir uma forma em toda aquela escuridão que ela representava, o menino sentiu como se a realidade se distorcesse em volta dela, e ele não conseguia manter uma linha direta de visão. Em pânico, o menino começou a gritar.

Havia encontrado o monstro. Era diferente dessa vez.

Scott se ergueu do chão, e recuperando o raciocínio, cruzou até a saída do banheiro evitando o máximo qualquer tipo de contato direto com a criatura. Saindo, deparou-se com o corredor da escola, mas percebeu que as coisas não haviam mudado, era como se o mundo ainda estivesse cinzento e sombrio, como num pesadelo ou filme de terror antigo. Olhou para os dois lados antes de correr, mas percebeu que o corredor não parecia ter fim. Mesmo assim, não perdeu tempo, vendo a porta de saída na distância como uma chance de escapar dessa realidade sombria que havia surgido subitamente. Correu o mais rápido que pode, olhando para trás em intervalos e vendo a figura da criatura com seus olhos brilhantes que, embora não se movesse diretamente, parecia se mover para um lugar diferente a cada vez que o menino desviava sua visão. Scott não se importou, continuou a correr, embora o corredor parecesse se alongar pelo infinito conforme fugia, e o ambiente se tornava cada vez mais escuro, como as luzes de um palco se desligando. Seus olhos lacrimejavam, ele sentia vontade de chorar e gritar, não tinha ideia do que estava acontecendo, mas seu instinto de sobrevivência gritava mais alto do que qualquer outro sentimento. As sombras foram envolvendo o garoto, e em pouco tempo, ele estava correndo na pura escuridão, apenas com a porta de saída brilhando tão longínqua, parecendo nunca se aproximar não importa o progresso que Scott fazia. Vozes começaram a sussurrar e gritar no ouvido do garoto, vozes familiares, vozes que nunca havia ouvido antes, e vozes que havia se esquecido de ouvir.

‘’Observaremos você...’’; ’’Procure meu filho, e entregue uma mensagem.’’; ‘’Deveria tomar cuidado com o que lê nesse livro!’’; ‘’Isso não é só sobre você, Kyle!’’; ‘’Você tem ideia do que causou? Essa... Quebra de contenção?’’; ‘’Existe mais pra essa história...’’; ‘’Filho, tudo vai ficar bem...’’; ‘’Scott, eu tenho medo...’’

E então, todas as vozes se calaram no mesmo instante. Scott parou de correr, havia alcançado a porta no final do corredor.

Mas ela não se abria.

Empurrou, puxou e chutou, com toda força que tinha, mas a porta de saída simplesmente não queria se abrir. Olhou pelo vidro para o outro lado, além da porta, e só viu escuridão. Não existia uma saída. O menino sentiu como se, pela segunda vez na mesma semana, pudesse ter um ataque de pânico imediato, mas antes que acontecesse, ouviu um barulho, como uma sombra rápida na escuridão. O reflexo de uma árvore no vidro da porta de saída. O menino não tinha coragem de virar a cabeça, não queria encarar o que quer que fosse AQUELA coisa, e naquele momento, percebeu que estava lidando com algo mais terrível, antigo e obscuro do que a criatura que havia encontrado no Shopping. Pensamentos de morte passaram pela cabeça do garoto, se o corpo dele seria encontrado, se seria consumido para sumir, e se sua mãe, Amy e os outros um dia descobririam o que realmente aconteceu. Imaginou, então, que tudo era um terrível pesadelo, que ele ainda estava dormindo e que o primeiro dia de aulas iria começar a qualquer instante, com sua mãe batendo na porta e pedindo gentilmente para que ele acordasse. Sim, isso definitivamente iria acontecer, a qualquer momento.

Mas nada aconteceu.

Ao invés disso, Scott sentiu quando a criatura nas sombras estendeu seus braços esguios e segurou seus ombros, o menino ainda sem coragem de encarar seus olhos brilhantes, dominado por um medo profundo e irracional. E então, sentiu uma dor aguda e terrível, uma dor como nunca sentira ou sentiria depois, uma dor que abalou seu corpo e alma, o suficiente para o menino começar a gritar como nunca antes, chorar por ajuda, enquanto sentia os longos dedos da criatura se estenderem como galhos pelos seus ombros, nuca, e chegando até parte de seu rosto. Percebeu, então, que não era o único gritando.

Quase abafado pelos seus próprios gritos de dor, Scott percebeu que a própria criatura, o monstro, gritava com uma voz destorcida que ecoava pela escuridão, tão gélida que começava a superar os gritos de Scott em intensidade, e demorou pouco menos de um segundo para o garoto reparar que, de alguma forma, ele estava resistindo. Uma luz começou a surgir bem à frente de Scott, uma luz que dissipava toda escuridão, e o menino reparou que ela era emitida de seu próprio peito, branca e forte, como um farol durante uma tempestade. Ele mesmo não estava mais sentindo dores, mas os gritos emitidos pela criatura atrás de si, a qual ele ainda não tinha coragem de encarar, se tornaram tão intensos a ponto de virar um zumbido agudo, assim como a luz no peito de Scott, que acabou por se tornar cegante, e ele não pode ver mais nada.

Então abriu os olhos. Sua visão estava turva, e sentia uma dor forte e incomoda na cabeça. Se acomodando, reconheceu que estava de volta ao banheiro, sentado no chão, e tinha alguém bem a sua frente, tocando-lhe o peito de leve. Após sua visão se acostumar, olhou nos olhos da garota que sorria para ele. Seus olhos eram verdes claro, e ela era bem pálida, com sua característica mais fácil de distinguir sendo seus longos cabelos completamente brancos e claros como neve, assim como os de Scott. Usava um vestido rosa florido, e um casaco cinzento por cima. Scott não sabia quem ela era, nem o que estava fazendo ali no banheiro masculino, mas tinha certeza de que fora ela que o salvara.

- Quem é você? – O menino conseguiu dizer, pouco a pouco se recuperando da sensação de vertigem. A menina não respondeu, e ao invés disso, deu um sorriso calmo e paciente e o ajudou a se levantar. Estando Scott de pé, ela fez um sinal rápido com as mãos que ele identificou como sendo libras, e com isso, postou-se a correr para a saída, sumindo no corredor da escola.

- Espera! – Disse Scott, tentando inutilmente correr atrás da menina, logo voltando a sentir a sensação de vertigem e tendo que se apoiar na parede para não cair. Olhou em volta. O mundo tinha cores novamente, e ele podia ouvir o barulho dos alunos estudando em suas respectivas salas espalhadas pelo longo corredor.

- Cara, que demora! Aproveitou pra tomar banho aí também? – Disse a voz de Amy, e Scott reparou que a menina surgira no fim do corredor, andando em sua direção com a mochila nas costas.

- Amy, você viu? Você viu a menina que passou por aqui agora?

- Menina? Não, não vi ninguém. Por quê? Tinha uma menina aí no banheiro masculino? É por isso que demorou tanto? – A garota brincou.

- Não, é sério! Uma garota de cabelos brancos, como o meu, usando um vestido! Ela me ajudou, mas fugiu!

- Como assim te ajudou? Você tá bem? Parece que pode desmontar a qualquer instante... – Reparou Amy.

- Não, eu não to bem... Eu fui atacado... – Respondeu Scott.

- Pela garota?!

- Não sua besta, pelo monstro! A coisa que aquele garoto viu! Literalmente me puxou pra dentro do espelho, eu não sei! Era alto e esguio, e foi como se eu estivesse em outro mundo, onde tudo era escuro...

- Pera, pera, calma aí! O monstro te atacou? Então o bicho do shopping tá mesmo aqui? Pra onde ele foi?!

- Não... Esse era diferente, muito, muito diferente! Eu quase morri, e eu ouvi... Vozes, não sei, acho que a sua estava lá falando comigo, e essa garota apareceu do nada e me puxou de volta!

-Pra onde ela foi?

- Atravessou o corredor e sumiu, temos que acha-la, ela me disse alguma coisa em libras, mas eu não entendi o que é!

- Espera, deixa eu ver se eu entendi... Você foi atacado por um monstro, mas que não é exatamente NOSSO monstro, mas outro, e ele te puxou pra dentro de um espelho e você foi parar em outra dimensão, e ouviu vozes, e aí uma garota de cabelos brancos que fala com as mãos te salvou?

- Sim... F-Foi isso, eu acho... Onde está Jason?

- No refeitório, esperando pela gente. Mas, cara, só acho que eu deveria te levar pra enfermaria antes, você tem certeza de que tá bem? Consegue andar?

- Sim, eu consigo... É só uma dor de cabeça. Precisamos avisar seu irmão rápido, tem algo de muito errado nessa escola, e talvez seja bem pior do que aquela coisa no Shopping!

- Ah, e o que você acha que ele vai fazer? Entrar dentro do espelho com uma espada e matar o ‘’monstro das sombras’’? Tem certeza de que não tá alucinando?

- Não Amy! O que eu vi foi real, real demais, e foi terrível! Tem algo muito, muito perigoso acontecendo, e precisamos impedir de qualquer jeito. – Concluiu o menino, sentindo novamente uma forte tontura e quase desfalecendo em cima de Amy, que o segurou, preocupada. A garota nunca havia visto Scott naquele estado, e tudo ocorrendo tão subitamente, como se ele tivesse batido a cabeça e inventado a maior parte do que havia dito de tão inacreditável e fictícia a história parecia ser. Mesmo assim, Amy sabia o quão sensato Scott era desde pequeno, e como o menino nunca mentiria sobre coisa parecida, e principalmente, o quanto ele parecia aterrorizado. Deixando o garoto apoiar o braço sobre seu ombro, ajudou Scott a atravessar o corredor e virar para chegar à praça de alimentação, encontrando Jason sentado em uma das mesas, que imediatamente se levantou para ajudar Scott a se sentar quando viu a situação do menino. Scott, que olhava em volta com uma expressão de amedrontado em intervalos de tempo, como se precisasse checar que realmente estava de volta à realidade, explicou para o rapaz exatamente o que havia acontecido e visto surgindo do espelho no banheiro da escola, com Amy ajudando a complementar a história com detalhes do que havia acontecido com o outro garoto durante o intervalo mais cedo. Jason ouvia tudo em silêncio, concentrado de uma forma que Scott pensou até mesmo que o rapaz estava cético quanto a tudo que ele dizia. Ao terminar de explicar o ocorrido, mencionando todos os detalhes como o novo monstro de olhos brilhantes e a garota de cabelos brancos, o menino deu um suspiro e disse:

- O que fazemos agora?

Jason não mudou de expressão. Ao invés disso, apoiou os cotovelos sobre a mesa e o rosto nas mãos e tornou a pensar, tomando tempo para absorver tudo que havia escutado. Refletiu por alguns bons minutos, mas nem Scott nem Amy pareceram ter coragem de interromper. De vez em quando, o rapaz movia os olhos em volta, como se ele estivesse vendo ou ouvindo algo que ninguém mais ali via. Levantou-se por fim, ajeitou o casaco e decidiu:

- Scott, é melhor você voltar pra casa. Amy, você leva ele de volta.

- Mas e você? – Perguntou o garoto.

- Eu vou ficar aqui e investigar isso, e também procurar por essa tal garota de cabelos brancos que você falou. As coisas começaram a ficar bem mais estranhas agora, mas acho que tenho uma ideia de por onde começar. Vocês dois perceberam a óbvia constante no caso do garoto gordo e no seu ataque de agora, Scott?

- O espelho. – Scott & Amy disseram em uníssono.

- Exatamente, as vítimas estavam de frente a um espelho nos dois casos, e vou tentar investigar isso, mas antes que comecem a falar, sim eu vou tomar cuidado. O problema é os outros alunos e funcionários, mas duvido que eles iriam acreditar em nós se contássemos que tem um monstro andando por aí em espelhos ambulantes. – Explicou Jason.

- Isso deve ter entrado aqui durante as férias, e agora que as aulas começaram, vai ser um perigo enorme pra todo mundo... E tem a garota que eu vi, ela parecia saber da coisa quando me ajudou a escapar daquele mundo de sombras.

- Como você sabe? Pode ser ela que causou isso, sabia? – Perguntou Amy.

- Não, eu duvido. Tinha algo nos olhos dela, quando eu olhei... Parecia tão familiar, pena que não consegui ver o rosto dela direito.

- Eu vou procurar por essa garota, se ela souber mais sobre essa coisa, deve ser importante. Mas estranho, nunca vi outros alunos aqui com cabelos brancos além de você, Scott. – Disse Jason.

- Nem eu! Talvez ela seja o monstro! Já pensaram nisso? – Disse Amy, brincando, mas ninguém além dela riu.

- De qualquer forma, vou ficar pra investigar mais um pouco, e é melhor que vocês dois voltem pra casa. – Disse Jason, se erguendo.

- Tem certeza de que é seguro pra você fazer isso sozinho? – Perguntou Scott.

- Sim, não se preocupa comigo, já lutei com um monstro antes, lembra? Heh...

- Jason... Você acha que essa coisa no espelho é alguma espécie de... Monstro avançado? O mesmo que vimos no Shopping, só que evoluído?

- Eles provavelmente são a criação de um cientista do mal que vive num disco voador enterrado debaixo da cidade! – Disse Amy.

- Acho que não. Aquela coisa parecia mais um animal, algo físico que agia por instinto e fome... Se o que você descreveu está correto, estamos lidando com alguma coisa sobrenatural.

- Tipo, fantasmas? Poltergeist? – Perguntou a garota.

- Não exatamente, não acho que exista tal coisa. Mas depois de tudo que já vimos... Eu realmente não faço ideia. Por isso vou investigar melhor. – Respondeu Jason.

- Certo, então a gente já vai indo. Até depois, Jason. – Disse Scott, se levantando e pegando a mochila.

- Até mais tarde, mano! – Se despediu Amy, pegando a própria mochila e seguindo Scott pelo corredor principal. Jason se despediu com um aceno rápido, mas pelo breve momento em que olhou para trás, Scott identificou uma espécie de preocupação, ou tristeza, no olhar do rapaz. Continuaram mesmo assim, e os garotos se sentiram aliviados ao saírem pelo portão da frente e respirarem o ar de fora do prédio escolar, se sentindo mais seguros longe de qualquer sala de aula, pelo menos até o dia seguinte. Scott e Amy continuaram a conversar, agora com um novo e exclusivo tópico de assunto, que era tão amedrontador e preocupante quanto o de suas últimas discussões. Amy fez a maior parte das perguntas, tendo uma curiosidade repentina por tudo que Scott havia visto na realidade escura por onde estivera, embora o menino hesitasse em responder, recordando-se do terror e da dor terrível que sentira. A garota pareceu mais interessada em saber sobre as vozes que Scott ouvira, e o que exatamente elas haviam dito, embora o menino não se lembrasse exatamente, recordando de poucas frases que aparentemente não faziam sentido. Chegaram então à casa de Scott, e o menino subiu um curto par de degraus até a porta de entrada, mas olhou para Amy atrás dele, e sentiu que não queria abandonar a menina agora.

- Você vai ficar bem? Seu tio não vai brigar por chegar atrasada? – Perguntou o menino.

- Nah, ele tá trabalhando. Pra ser sincera, acho que nem sabe que saímos pra aula hoje!

- Então vai ficar sozinha sem fazer nada?

- Na verdade acho que vou pra alguma lanchonete porcaria comer alguma coisa. Por quê?

- Nada... Até amanhã.

- Até amanhã! – Se despediu a garota, e já ia se virando para fazer o caminho de volta, quando Scott decidiu que estava fazendo algo realmente bem estúpido. Correu na direção de Amy, e a abraçou por trás.

- E-Ei... O que é isso assim do nada? – Respondeu a garota, que embora nunca fosse assumir, não estava acostumada com esse tipo de afeição, especialmente da parte do amigo. Mesmo assim, Scott sentia como se a garota pudesse virar pó se ele a deixasse ir, que algo ruim aconteceria, e ele nunca parou pra perceber o quanto a prezava. Não disse nada e simplesmente a abraçou com mais força, e o rosto da garota se tornou rubro. Ela o abraçou de volta.

Os dois se separaram então, e Scott deu um sorriso.

- Até amanhã! – O garoto disse.

- Até amanhã... – A menina respondeu, e antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, Scott já estava de frente à porta, destrancando-a com a chave que sua mãe sempre o lembrava de guardar. Entrou em casa então, fechando a porta atrás de si e suspirando.

- Mãe, cheguei! – Ele disse, deixando a mochila encostada sobre a poltrona na sala de estar. Ouviu então o barulho de risadas e o cheiro de chá vindo da cozinha, e percebeu que tinham visitas. Percebendo que já havia anunciado sua presença e não poderia se esgueirar para o quarto e deixar de cumprimentar quem quer que fosse, se dirigiu a cozinha, e ao ver a cena, foi como se seu coração parasse.

Sua mãe estava sentada à mesa, conversando e rindo alegremente, uma xícara de chá nas mãos. Em frente a ela, sentada no lado oposto da mesa, estava uma mulher. Alta e pálida, de características asiáticas, e Scott a reconheceu instantaneamente. Era a mulher que o havia interrogado no Shopping abandonado. Ela estava ali, agora, em sua casa, conversando com sua mãe. Diferente do que havia visto no dia anterior, porém, ela usava um vestido azul escuro e parecia rir e conversar como uma pessoa normal, sua falta de expressão e de reação sendo substituída por sorrisos alegres que se pareciam até mesmo genuínos. Ela olhou para Scott, parado à frente da entrada da cozinha, e deu uma piscadela para o garoto.

- Bem vindo de volta filho. Como foi a aula? Já conheceu a senhorita Yumi aqui? – Lhe disse sua mãe.

- Olá Scott, como vai? É um prazer te conhecer! – Disse a suposta ‘’Senhorita Yumi’’.

O menino não sabia como reagir, ou interpretar a situação. Seu coração batia em disparada, e sentia uma imensa vontade de gritar, mas se conteve. Tentou formular uma resposta, mas acabou apenas gaguejando algo como ‘’N-n-não...’’.

- Tá tudo bem querido? Parece assustado. – Observou Diana.

- N-Não é nada mãe, só... Tive um deja vu. Olá, como a senhora vai? – Respondeu Scott, forçando um sorriso.

- A senhorita Yumi aqui será sua nova professora de Sociologia. Acredita que a escola está à mandando na casa dos alunos para explicar pessoalmente sobre o novo conteúdo e reformas no sistema escolar? Que trabalho! Eu imaginava que eles organizassem uma reunião pra esse tipo de coisa. – Disse Diana.

- Ah sim, o antigo diretor o fazia, mas muitos pais não podiam comparecer, e a nova gerência optou por essa decisão. Não posso reclamar, é ótimo ir de casa em casa e ter conversas satisfatórias assim! É um prazer te conhecer, Scott, fico feliz que seja um dos meus alunos. Mas agora, preciso ir andando, ainda tenho algumas poucas casas para visitar, obrigado pela atenção. – Respondeu Yumi.

- Disponha. – Respondeu Diana, se levantando para acompanhar Yumi até a saída.

- Mãe... Posso subir? – Perguntou Scott.

- Claro, vá tomar um banho, parece cansado. – Ela respondeu, afagando a cabeça do menino. Scott subiu correndo em seguida, mas ao invés de ir ao banheiro, foi direto para o quarto, trancando a porta e agarrando o celular com velocidade. Precisava avisar a Amy.

--

Jason permaneceu na escola por mais tempo do que acreditava que precisaria. Viu o entardecer, e durante o período de intervalo dos alunos do turno vespertino, certificou-se de verificar que ninguém mais tenha sido atacado. Sabia que realmente não tinha nada melhor para fazer, e verificou cada espelho do local, sempre mantendo distância e cuidado suficientes. Encontrou outros detalhes que ninguém havia percebido antes, como estranhas manchas negras em algumas paredes da escola, como riscos, e embora de primeira parecesse mofo, pareciam estar dentro do próprio concreto, como se uma área houvesse sido escurecida propositalmente. Passou a mão pelas marcas, e se certificou de que eram mais macias do que o resto da parede.

‘’Talvez a coisa tenha causado isso?’’ – Jason pensou.

- Na verdade, acho que isso aí é só mofo mesmo. – Uma voz feminina respondeu, vinda de trás de Jason. Uma voz familiar.

O rapaz se virou, encarando a garota alta, usando um pijama claro, que parecia flutuar no ar bem ao lado dele.

- Você não tinha ido dormir? – Perguntou o rapaz, falando em um tom baixo, porém irritadiço.

- Até tinha, mas é chato ficar dentro da sua cabeça o tempo todo, sabia? Aqui fora tem tanta coisa pra ver!

- É melhor pra mim. Já é terrível ter que escutar sua voz, mas te ver aqui fora é ainda pior. Talvez eu deva voltar a frequentar aquele psicólogo.

- Há! E os outros quatro pelos qual você passou? Desiste cara, não vai se livrar de mim tão fácil! – Respondeu a garota, fazendo piruetas no ar em volta de Jason, para irritar o rapaz.

- Não é todo moleque de 16 anos que tem que lidar com uma amiga imaginária que insiste em não ir embora, sabia? Você não é real Química, por que não pode me deixar em paz logo de uma vez?

- Real? É claro que eu sou real! Platão dizia que a verdadeira realidade existia no plano das ideias, e adivinha onde eu fui formada?

- Pela mente de um garoto de 6 anos muito, muito solitário.

- Exato! Eu sou uma ideia, e vou viver pra sempre, e ficar ao seu lado. Mas olha, eu também posso ser útil se você liga tanto pra isso. Tá procurando o quê?

- Um monstro. Um monstro que ataca por espelhos.

- Outro? Você já não viu vários pela cidade? Além daquele do Shopping, claro.

- Sim, mas esse é diferente. Não é pequeno, e pelo que me descreveram é tão perigoso quanto o outro, talvez até mais. Preciso verificar mesmo a existência dele, e talvez encontrar uma forma de parar a propagação sem ter que destruir todos os espelhos desse maldito lugar.

- E você não deveria estar procurando ele DENTRO dos espelhos então, ao invés de ficar encarando paredes aleatórias? Por que você simplesmente não tenta ser atacado e tira uma foto com o celular? – Sugeriu Química.

- É, talvez esteja certa... – Disse Jason, se sentindo idiota por não ter pensado nisso antes, mas em seguida percebendo que Química era apenas mais um fragmento de sua mente, e dessa forma, a ideia havia se originado dele. – Mas ainda não sei em que padrão, e onde ele vai atacar. – Concluiu o rapaz.

- Se faz de isca então, duuh! – Respondeu Química, como se fosse algo óbvio e seguro de se fazer.

- Seria perigoso demais, e eu não quero morrer tão cedo. Mas ainda sim, é melhor do que ficar parado e fingindo fazer algum progresso, então vamos nessa. – Disse Jason, tirando o celular do bolso e acessando a câmera.

- É esse o menininho que eu me lembro! – Respondeu Química, excitada, e seguiu o rapaz enquanto ele se dirigia ao banheiro masculino, o mesmo no qual Scott havia sido atacado. Jason entrou, ligou uma das torneiras e espalhou água no rosto com uma das mãos, como se lembrava de Scott o dito ter feito. Olhou na direção do espelho, a câmera apontada, mas não houve mudança em seu reflexo.

- Talvez demore um pouco, espera aí ué, você não tem nada melhor pra fazer! – Disse Química, e o rapaz se encostou sobre a parede, a câmera do celular focada no espelho. E esperou. Esperou. Esperou. Pareceria uma eternidade para a maioria das pessoas, mas Jason era paciente, e para ele foi como se tivessem se passado apenas 10 minutos. Foi quando as coisas começaram a se tornar interessantes.

As luzes piscaram, e Jason percebeu imediatamente. Foi algo que Scott havia descrito. Apagaram-se por um ou dois segundos, e reacenderam em seguida. Jason então ouviu gritos, gritos de dor, e olhou em direção ao espelho. Por um segundo se sentiu paralisado com a imagem, mas retomou coragem, e apertou para o celular iniciar a gravação. Parte do espelho começara a derreter, como se fosse se tornar um líquido transparente, que começou a escorrer pela pia. Esse líquido começou a tomar forma, um braço, uma cabeça, pernas. Várias pessoas transparentes começaram a surgir de dentro do espelho, rastejando e gritando na direção de Jason. As luzes piscavam sem parar, e o garoto começou a ficar ofegante. Olhou para o espelho então, e dentro dele, pôde ver a imagem da criatura, exatamente como Scott havia descrito: Alta de braços longos, completamente escura exceto os olhos redondos e brilhantes, de cor vermelha. Conforme as criaturas transparentes rastejavam pelo chão do banheiro pedindo ajuda, uma delas quase segurou na perna de Jason, e foi quando o rapaz percebeu que era sua hora.

Guardou o celular e correu, passando por cima de uma das criaturas e fechando a porta do banheiro atrás de si com um estrondo. Algumas pessoas que passavam pelo corredor repararam nele com olhares confusos, mas Jason não deu a mínima. Imediatamente pegou o celular e começou a assistir a gravação que havia feito, na esperança de poder entender melhor tudo que havia visto. Estava suado e ofegante, nunca imaginara que teria uma experiência aterrorizante como essa antes. Aparentemente, Química havia sumido, e o rapaz não conseguia ouvir a voz da amiga imaginária mais. Ele não ligava, provavelmente havia ido dormir em sua própria mente. Iniciou então a gravação, e após os primeiros dez segundos, sentiu vontade de arremessar o celular longe. Não havia nada, apenas um vídeo de um minuto e meio dele mesmo filmando o espelho do banheiro, seu reflexo exibindo medo ao encarar o aparente nada. A criatura, o espelho derretendo, nada daquilo havia sido filmado. Frustrado, Jason guardou o celular, e saiu dali o mais rápido que podia.

 

 

 

 

  


Notas Finais


Dez mil palavras. Cara, o que eu to fazendo? De qualquer forma, obrigado por ler.


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