História Meu Anjo da Música - Capítulo 39


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Categorias O Fantasma da Ópera
Tags Drama, Final Feliz, Musical, O Fantasma Da Ópera, Romance
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Palavras 4.704
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Musical (Songfic), Romance e Novela
Avisos: Álcool, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo, Spoilers, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Oi de novo, voltei. Sei que prometi que esse capítulo já seria o baile, mas percebi que ainda precisavam de um pequeno prelúdio para deixar tudo mais interessante. Espero que gostem!

Capítulo 39 - As promessas para o Baile de Ano Novo


Christine

Eu estava preocupada para saber se meu professor melhoraria ou não até o dia seguinte, já que não queria deixa-lo sozinho daquele jeito e também não podia faltar ao ensaio da Ópera. Felizmente, ele melhorou quase que completamente, sendo que foi ele quem me acordou com um pequeno buquê de vicias ao meu lado.

- Acordou finalmente? – disse enquanto passava a mão por meus cabelos.

Abro os olhos lentamente, ainda sonolenta, e bocejo para espantar o sono.

- Ontem... fiquei de vigília e acabei caindo no sono só quando já era um pouco tarde. – explico enquanto me levantava do chão; para meu descontentamento, havia dormido ajoelhada, deixando minha coluna toda dolorida pela manhã.

- E depois tem coragem de falar que sou eu cuida demais dos outros... – ele sorri, levantando-se também.

Diferente de mim, ele já estava vestido e penteado, parecendo tão bem quanto sempre no primeiro olhar. Percebo, porém, que de vez enquanto seus olhos exibiam um brilho de dor quando engolia, assim como suas bochechas estavam mais coradas que o normal.

Já pensando em ir até a cozinha para servir a ele mais uma dose do meu xarope, mudo meu foco para o meu “presente”, já que ele também para estar ansioso para ver minha reação. Como sempre, as flores estavam primorosamente florescidas – mesmo que fosse inverno, para minha curiosidade –, amarradas em um conjunto por uma fita de cetim preta. As vicias brancas como a neve estavam até ainda úmidas, sendo que parecia doloroso saber que murchariam depois de pouco tempo.

- São lindas, Maestro... – digo acariciando uma pétala, encantada com sua suavidade.

- Bem, eu as dei em forma de buquê, mas pensei em fazer outra coisa... – ele se aproxima, capturando uma mecha do meu cabelo entre os dedos – Posso?

Assinto, contente pelo presente e mais ainda pelo cuidado. Era realmente agradável ter os dedos de alguém acariciando seus cabelos, sendo que eu quase me inclinava ao toque e suspirava quando o Maestro o fazia. E parece que ele percebeu minha reação, já que demorou bem mais que o necessário em cada processo, parecendo também aproveitar a situação.

Com cuidado, ele trançou meu cabelo com as flores, deixando-as aparecer entre os vãos como se florescessem diretamente sobre os fios dourados. Como não seria adequado para a postura madura que eu estava tentando gravar na mente das pessoas durante os ensaios, ele prendeu a traça em um coque suave, usando outros ramos ao redor adornando-o como uma coroa.

- O Maestro realmente é um bom cabelereiro... – comento quando olho no espelho, encantada.

- É a sua beleza que é capaz de transformar qualquer coisa que eu faça em algo deslumbrante. – diz gentilmente enquanto indicava com a cabeça a cadeira ao lado da penteadeira – Posso estar doente, mas nunca vou deixar que suba sem a devida preparação. – comenta – Aqueles idiotas tem de ficar sem fala toda vez que te virem, para aprenderem o que é a verdadeira beleza.

Rio de como sua reação parece a de um pai orgulhoso favorecendo sua filha, aproveitando a sensação de ser mimada um pouco. Basta ele terminar de me preparar, porém, que eu dou jeito de arrastá-lo de volta para a cama, tirando suas botas e cobrindo-o desajeitadamente antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.

- Maestro, fique aqui quieto, tudo bem? Eu vou fazer alguma coisa para comermos e depois vou para o ensaio lá em cima. – digo enquanto já estava a meio caminho da porta – Provavelmente não comeu nada ainda, não foi?

Ele abre a boca para defender-se, mas acaba desistindo e apenas desviando o olhar. Satisfeita pela confissão, desço as escadas com pressa e praticamente voo para preparar uma sopa rápida e uma vitamina simples para meu professor. Para mim, pico algumas frutas e as devoro no caminho de volta para o quarto, entrando com a bandeja nos braços.

- Voltei... – anuncio, sorrindo ao vê-lo realmente esperando-me no mesmo lugar – Trouxe sopa e vitaminas.

Coloco a bandeja em seu colo, feliz por vê-lo apreciar a comida com os olhos.

- Esse aqui – aponto para a caneca ao lado do copo de vitamina – é o xarope. Tem que bebê-la inteirinha, sem deixar nenhuma gota. Entendido?

- Sim, senhora. – diz em tom de brincadeira.

- Ótimo, então. Espero vê-lo melhor quando voltar. – me despeço rapidamente, só passando um xale pelos ombros antes de ir.

- Cuide-se, pequena. Cuidado. – pediu ele enquanto já se servia de um bocado de sopa.

“Ele ficará bem.” , digo a mim mesma ao descer as escadas, tentando convencer-me desesperadamente.

                                                     *********************************

Por outro lado, os ensaios para Romeu e Julieta foram muito menos tensos do que eu esperava. Por algum motivo que não nos contaram, Piangi ficará longe dos palcos por algum tempo e só voltará dali a três semanas, felizmente dando-me tempo livre para respirar sem ele. De acordo com as fofocas das bailarinas, porém, fiquei sabendo que ele ainda estava sendo muito pressionado pela imprensa e pela polícia pela morte do ator de Valentin e mal podia colocar o pé fora de casa.

Como eu já tinha ensaiado bastante com o Maestro, não tive dificuldades com meus solos ou no controle da minha voz. Os problemas, porém, surgiram nas interações com os outros atores, tendo de tomar cuidado para não pisar em nada ou trombar em alguém. Graças a Deus que o principal instigador não estava ali e não houve nenhuma provação, ou eu tinha certeza de que aquilo seria definitivamente um martírio.

Demorou alguns dias ainda para que eu pudesse executar tudo corretamente, faltando só aperfeiçoar as cenas com o “Romeu” – naquele momento um ator substituto – e coordenar nossas vozes e gestos corretamente. Nesse meio tempo, porém, percebi que realmente não queria que Piangi voltasse, encontrando seu substituto alguém agradável com quem trabalhar. Era um homem bem mais jovem que o tenor, provavelmente no auge de seus vinte anos, e combinava muito mais comigo do que alguém com o triplo da minha idade. Seu nome era Jardel e chamava atenção por sua aparência delicada, tendo trabalhado muitos anos em um circo antes de poder ingressar no teatro. Pelo que ouvi, era um bailarino esplendido e competia com Meg pelo título de melhor dançarino da companhia. Os dois se odiavam e adoravam discutir pelos cantos, mas apesar de tudo ele era sempre muito cortes comigo, respeitando minha presença no palco e até cumprimentando-me quando nos esbarrávamos pelos corredores.

Infelizmente para mim, o jovem não era um tenor tão bom quanto seu antecessor, claramente sofrendo com sua falta de técnica apesar da qualidade de sua voz. Apesar disso, devo confessar que achei nossas vozes muito mais sincronizadas e bem pareadas do que com a de Piangi, que combinava com minha voz mais adocicada e aguda algo demasiadamente intenso, quase pesado. A voz de Jardel era mais suave, mais jovial, e convencia muito mais como umjovem dos Montéquio.

Enfim, apesar do meu descontentamento com prever a volta do meu pesadelo, o dia 31 de dezembro chegou sorrateiramente e logo estavam todos em polvorosa para o tal Baile de Ano Novo. As bailarinas estavam loucas para ir, mas apenas Meg foi convidada por causa de sua mãe; ela, por outro lado, não parecia assim tão feliz com a chegada do evento, passando toda a semana evitando falar do assunto.

- Meg, por que parece que você não quer ir nessa festa? – perguntei no final do ensaio, na véspera da festa. – Mesmo que não tenha ido pessoalmente, só ouvi elogios sobre como é maravilhosa...

Ela então faz um muxoxo de frustação, balançando a cabeça em negação antes de responder. Estávamos na cozinha da Ópera, tomando o chá que era especialidade de Meg: chá de cravo com melissa.

- Ai, Christine... Minha mãe está pressionando para que eu me case, acredita? Diz que já tenho quase dezenove anos e se não me casar logo vou virar uma solteirona... – ela suspira, apoiando a xícara de chá que tomava sobre a mesa – Ela colocou na cabeça que o filho de um comerciante amigo do meu falecido pai seria um ótimo partido e deu um jeito para que Moncharmin o deixasse assistir a festa. Claro que é só um pretexto para que ele possa me cortejar...

Acho engraçado como ela falava como se estivesse enfrentando seu pior pesadelo, mas controlo minha expressão a tempo. Ela era minha amiga e deveria consolá-la, mesmo que não a entendesse completamente.

- Mas, Meg, você já o viu antes?

Ela nega com a cabeça.

- Como sabe então que não vai gostar dele? Ele pode ser um bom rapaz, que vai cuidar bem de você. – sugiro, querendo evitar o atrito entre Meg e sua mãe e ao mesmo tempo tranquiliza-la.

Minha amiga suspira antes de encarar-me nos olhos, agindo como se implorasse para que eu a entendesse.

- Christine, eu não sei se você também pensa assim, mas... Quero me casar por amor. Essa é a vantagem de ser apenas uma bailarina e não uma senhorita de boa família. Não quero amarrar minha vida a de alguém só por causa da conveniência, principalmente uma que não preciso. – explica ela, as mãos em punhos sobre a mesa – Meu trabalho me dá dinheiro suficiente para sustentar-me e ser uma bailarina significa que mesmo que quisesse teria minha reputação danada. Para que preciso assinar um contrato onde dependerei de um homem pelo resto da vida?

Fico um pouco assustada quando sua expressão angelical de sempre se torce em um sorriso amargo.

- Ainda, quem sabe se a família dele também não terá preconceitos contra mim e meu trabalho? Meu pai me deixou um dote atrativo antes de morrer, talvez isso seja motivo suficiente para que resolvam ignorar minhas origens. Mas, claro, nada é para sempre... Além disso, não pretendo parar de dançar. Realmente gosto do que faço e não quero que um casamento me tire minha independência.

Não querendo vê-la daquele jeito, agarro uma de suas mãos entre as minhas.

- Bem, o que podemos fazer agora é conhecê-lo... Tente ver quem ele é, como ele é... – tento encorajá-la com um sorriso – Se mesmo assim não der certo... Só recuse-o. Ou melhor, arranje uma desculpa. Tenho certeza que de um jeito ou de outro sua mãe vai acabar entendendo... Quem sabe, no final, você ainda não pode toma-lo como um amigo?

Ela me encara por alguns segundos em silêncio, fitando-me diretamente nos olhos, antes de repentinamente começar a rir, apertando minha mão com a sua.

- Como sempre, Christine, você é a calmaria em pessoa.... Sempre vendo o lado bom de tudo com toda a paciência do mundo. Sabe, gostaria de um dia conseguir ser tão... simples quanto você.

Rio também, feliz em ver o sorriso voltar aos lábios dela.

- Eu? Simples? Não, não... Só não gosto de pensar muito sobre as coisas. Principalmente as que não posso resolver ou evitar. Me deixariam louca.

Ela ri com ainda mais gosto e se levanta da mesa, liberando-se de mim.

- Bem, amanhã isso aqui vai estar cheio de equipes de decoração e não teremos ensaio. Minha mãe disse que nos arrumaremos aqui, então por que não nos arrumamos juntas? - ela leva a xícara que usara até a pia da cozinha onde estávamos, enquanto sobra para mim levar a minha própria e o bule – Quer dizer, minha mãe vai se arrumar nos camarins das bailarinas sozinha. Podíamos usar seu camarim para nós duas, se não for muito abuso...

Eu não via problema nenhum na proposta, mas duvidava que meu professor ficasse feliz com essa resolução. Quer dizer, ele parecia realmente empolgado com as coisas que comprara para mim para a festa, certamente gostaria de ser ele mesmo quem as colocaria em mim.

- Por mim, tudo bem, mas...

Ela então se vira para mim com os olhos chorosos, como uma criança fazendo charme para que um adulto aceitasse seu pedido.

- Por favor, Christine... Vamos... Se arrumar juntas é coisas que amigas fazem, não para se fazer sozinha, enfiada na casa de seu professor. – ela parecia realmente triste, encarando o chão de forma penosa – Ou... você não se considera minha amiga o suficiente para fazermos isso?

- Não, não, Meg, não é isso...

Ela se transforma de repente, um sorriso voltando a brilhar em seu rosto como a chegada da primavera durante o inverno.

- Perfeito, então. Amanhã chego aqui às seis para começarmos a nos arrumar, depois dos ensaios mais cedo. – eu até tento abrir a boca para refutá-la, mas ela já estava fora do meu campo de visão antes que eu pudesse falar qualquer coisa.

Sacudindo a cabeça, percebo que naquele momento estava em um grande problema. Como explicaria aquilo para o Maestro? Tentei pensar no que faria enquanto lavava a louça que eu e Meg usamos, mas sem sucesso. Eu não queria magoá-lo, mas também não queria magoar Meg...

Eu estava tão centrada nessas duas que tarefas que nem mesmo percebi quando alguém entrou na cozinha, fazendo-me saltar alguns metros pelo susto.

- Pequena Lottie! – disse Raoul, entrando no cômodo com um enorme buquê de cravos vermelhos nos braços.

Surpreendentemente para mim, ele estava ainda mais encantador com roupas de inverno, com um manto de pele de raposa branco gelo que realçava ainda mais os olhos azuis claros que tinha. A cor pálida do tecido era muito jovial para alguém da idade dele, mas o deixava ainda mais bonito ao combinar sua aura fresca habitual com a pureza da cor da neve.

- R-raoul... – digo com voltando-me para ele enquanto enxugava as mãos em um guardanapo – O que faz aqui na Ópera à essa horas?

Ele sorri, galanteador, e me estende o presente que carregava.

- Vim vê-la. Queria saber como estavam indo as coisas, se os ensaios com a nossa ópera estavam indo bem... – estendo uma mão para receber as flores, mas ele aproveita para agarrá-la e beijá-la demoradamente – Estava morrendo para vê-la de novo, Christine...

Fico sem jeito diante do tom ambíguo de sua voz, desviando o olhar.

- Preciso saber de quem você está aprendendo a ser tão galanteador, Raoul...

Ele me dá um sorriso travesso. – Só sou assim com você, Pequena Lottie.

Diante de tal expressão, não pude evitar que minhas bochechas corassem. Vendo minha situação, ele finalmente me entrega o buquê, fazendo o cheiro das flores inundar minha mente.

- Quer eu faça um chá para você? – pergunto mais inconscientemente do que por cortesia.

Ele nega com a cabeça.

- Não precisa, acabei de tomar um pouco quando sair de casa. – ele estende o braço para mim – Quer ir lá fora para passearmos um pouco pelos jardins? Assim podemos conversar com mais ar fresco.

Como não via nada de errado em aceitar tal pedido, só coloco minha capa que estava sobre a mesa antes de aceitar seu braço. Estava particularmente frio naquele dia, com a neve caindo do céu acinzentado de um jeito melancólico, mas calmante. Não havia som de animais em qualquer lugar, cercados apenas pelo silêncio e pelo ruído abafado de nossos sapatos na neve.

- Como estão indo os ensaios da nova ópera? – perguntou meu amigo, quebrando meus pensamentos.

- Até que muito bem, sem o senhor Piangi. Aos poucos estou pegando o jeito de ser Julieta... – fecho a boca quando ele me olha surpreso, e percebo que falei demais. O título da próxima ópera deveria ser mantido em segredo pelos atores, mas eu estragara tudo em questão de segundos.

- A próxima exibição será “Romeu e Julieta”? – ele percebe que fico desesperada – Fique tranquila, eu sei guardar segredos, pequena Lottie. – ele sorri, encarando-me de cima a baixo – É uma boa escolha. Certamente combina mais com você do que Fausto.

- Obrigada... – respondo simplesmente, desviando o olhar para a paisagem para disfarçar minha vergonha.

Meu amigo, por outro lado, não consegue fazer o mesmo por muito tempo antes de voltar a começar uma conversa.

- Gosta do inverno, pequena Lottie?

Nego com a cabeça.

- Definitivamente não. – ele me encara, surpreso.

- Por quê?

- O inverno é mortalmente frio, mortalmente infértil, mortalmente silencioso... O inverno, para mim, é simplesmente sinônimo de morte. – aperto meu capuz sobre meus cabelos, sentindo um vento cortante intencionar leva-lo – Você gosta, Raoul?

Ele me olha um pouco triste, mesmo que eu não entenda o porquê, mas me responde mesmo assim.

- Mais ou menos. Acho que as pessoas se unem mais no inverno e eu adoro estar em frente a uma lareira para tomar chocolate quente e conversar. Meu irmão costuma ter férias do trabalho, então podemos passar mais tempo juntos. Saímos menos de casa, mas ficar dela não parece mais tão ruim.  – ele dá um sorriso amargo – Mas agora me sinto culpado por minha opinião, de certa forma. Eu realmente nunca sofri durante o inverno, então não sei como é.

Continuamos caminhando lentamente, comigo apertando-me contra ele toda vez que o vento soprava um pouco mais forte. Mesmo com várias camadas de roupa, eu me sentia congelando, o corpo toda hora atingido por arrepios.

- Não disse isso para que se sinta culpado, mas... você pediu a minha opinião. De certa forma, eu já fui como você e entendo sua opinião, mas também já vivi o outro lado da moeda e isso me fez um pouco pessimista, então me desculpa pelo tom terrível que minhas palavras tem. Além disso, se formos falar do período inverno...

Sorrio lembrando do ótimo Natal que eu e o Maestro tivemos.

- Descobri que algumas coisas boas também podem acontecer no inverno a partir de agora.

 Resolvo deixar as coisas mais leves, sorrindo – Mas vamos parar de falar de coisas tão tristes, sim? – mudo de assunto – Como vai a senhora Valérius? Continua saudável como sempre?

Ele volta a ficar alegre, os olhos azuis se enchendo da luz faiscante habitual.

- Sim, sim, ela está bem. Ela e minha cunhada estão muito ansiosas para o baile de bodas e estão quase enlouquecendo meu irmão com pedidos enquanto preparam tudo. É cardápio, decoração, música... As duas passam o dia todo discutindo e encomendando coisas. – ele ri ruidosamente – Mas hoje está um caos especial por causa do Baile de Ano Novo amanhã. Acredita que, no meio de tanta coisa, as duas esqueceram de encomendar os vestidos na costureira? Agora estão loucas para arranjar o que vestir.

Eu quase podia ouvir o caos das criadas desesperadas para arranjar as coisas para as patroas, correndo para limpar, perfumar e arrumar os vestidos do jeito que queriam sem cometer erros. Agradeci secretamente por não estar lá, já que imaginava a pressão que todos os empregados estavam sofrendo com tudo aquilo.

- Você vai ir no Baile de Ano Novo também, não vai, pequena Lottie? – pergunta ele de repente, olhando-me com olhos tão pedintes quantos os Meg pouco tempo antes.

Assinto sei pensar.

- Que ótimo! Qual será a sua fantasia? – ele parecia muito animado.

- Hum... Eu ainda não sei. Meu professor foi quem a comprou para mim; chega hoje. – explico, apertando mais uma vez a capa sobre minha cabeça – E a sua?

- Serei um toureiro. – ele ri para si mesmo – Acha que ficarei bem de ombreiras e capa vermelha?

Sorrio. – Vai ficar ainda mais encantador, com certeza. E vai fazer as senhoritas e senhoras suspirarem pelo salão, como tenho certeza de que sempre faz...

É a vez dele corar, parecendo sem jeito enquanto agarrou minhas mãos e me pôs a frente dele.

- Só... só me importa que você esteja suspirando por mim. – ele parecia estar esforçando-se para encarar meus olhos – A festa, bem... Eu gostaria que você me encontrasse no seu antigo quarto quando ela acabar. Você poderia?

Fico um pouco desconfiada, um pressentimento nada bom do que ele ia me dizer, mas concordo mesmo assim.

- Tudo bem, estarei esperando você. Mas... Quer conversar sobre alguma coisa grave?

Ele desiste de encarar-me e me solta, virando de costas para mim.

- Não, não, não é nada grave... Quer dizer, talvez seja... – posso ver suas orelhas tingindo-se de um tom vibrante de vermelho, não sabia se pele friagem ou pela vergonha – Você descobrirá na hora. Pode ser?

Assinto. – Claro.

Raoul parece suspirar de alívio, os ombros subindo e baixando perceptivelmente, antes de voltar-se para mim novamente.

- Então está combinado. Vou estar esperando, pequena Lottie. – ele captura uma das minhas mãos e a leva até os lábios – Com essa promessa, vou embora. Vai que decide mudar de ideia!

Ele dá uma risada um pouco sem graça, mas sorrio em resposta.

- Não vou. Diga à senhora Valérius que mandei lembranças. Ah, e à Condessa também, por favor.

Ele assente, apertando minha mão de leve antes de liberá-la.

- Direi. – Raoul é breve em despedir-se, acenando de forma breve antes de virar e afastar-se de mim. Atrás dele, sua capa se misturava com a neve, o que me manteve encarando-o até que sumisse do meu campo de visão.

Eu estava prestes a dar a volta para sair também quando uma brisa violenta e de gelar os ossos soprou, fazendo-me encolher dentro das roupas. Aperto ainda mais minha capa contra mim, mas de nada adiantava, como se fosse meu sangue que estivesse frio. Levei como um lembrete; era um sinal de que deveria voltar logo para casa e encarar meus problemas de uma vez.

                                                              ******************************

O caminho para o subterrâneo que não passava pelo rio era relativamente mais complexo, sendo que eu sempre acabava perdendo-me em algum momento durante o percurso. Quase sempre eu desistia e resolvia voltar pelo caminho normal, mas felizmente aquela não era uma daquelas vezes; mesmo que apenas depois de uma hora, consegui chegar até nosso quarto, já sentindo que as pernas desabariam.

- Christine! – exclamou meu Maestro felizmente quando finalmente apareci em nossa cozinha.

Praticamente desabo em uma cadeira, ofegando um pouco.

- Estou em casa, Maestro...

Ele me serve um copo de água antes de voltar-se para mexer uma panela no fogo, e percebo que pelo visto nosso jantar já estava quase pronto. Um cheiro maravilhoso encheu a cozinha, fazendo meu estômago roncar ruidosamente quando dei apenas água para que se contentasse.

- Pelo visto está com fome. – diz meu professor com uma risadinha, servindo a comida em dois pratos – Ainda bem que chegou bem na hora e a comida já está servida.

A mesa onde eu estava também já estava arrumada para nós dois, primorosamente arrumada com pratos de porcelana e taças de cristal. Uma vela estava no centro, assim como um vaso com várias flores de pervinca coloridas. Era delicado e aconchegante, como se esperaria do Maestro.

- Um belo jantar de inverno... – diz ele enquanto deixa o prato à minha frente – Para nós dois.

Sorrio em resposta. – Parece delicioso, como sempre.

- Quer um pouco de vinho? – ele pega a garrafa já aberta e serve um pouco para si.

Estávamos tomando vinho com cada vez mais frequência pelo frio, mas eu sabia que o exagero poderia ser prejudicial, então estava um pouco hesitante. Quando vejo o liquido doce sendo bebericado por meu Maestro, porém, acabo caindo em tentação, principalmente porque aquele era do tipo que eu mais gostava.

 – ... acho que um pouco não vai fazer mal. – respondo, fazendo meu professor dar uma risadinha antes de me servir.

Ele deixa meu copo de água vazio na pia antes de voltar a sentar-se.

- Como foi o ensaio hoje, pequena? Algum problema com os atores? – pergunta enquanto colocava educadamente o guardanapo em seu colo.

- Foi tudo bem. – eu estava com fome e a comida estava deliciosa, então mesmo que tentasse ser educada acabei comendo tudo com avidez, respondendo nos intervalos entre uma colherada e outra – Sem Piangi ali, tudo está às mil maravilhas para mim.

- Fico feliz, então. – ele beberica seu vinho mais uma vez; como sempre, bebia mais do que comia – Finalmente descobriu o porquê da senhorita Giry estar tão arisca esses dias?

Assinto, terminando de engolir antes de responder.

- Perguntei a ela hoje depois do ensaio, fomos tomar um chá juntas na cozinha. – bebo do meu copo também – Parece que Madame Giry pretende casá-la e encontrou um pretendente rico para ela, amigo do falecido pai dela. Infelizmente, ela não está tão feliz assim com a ideia, e para piorar Madame Giry convidou o tal garoto para fazer à corte à Meg durante o baile. Ela definitivamente não está nada feliz com a ideia.

- Entendo. Mas ela não pretende nem conhecer o rapaz? Talvez goste dele.

- Ela diz que não sabe se ele vai fazê-lo por interesse, já que ela tem um dote gordo, e teme por sua família julgá-la por ser bailarina. Além disso, não pretende parar de dançar por um tempo, mesmo que se case. Uma família abastada definitivamente não aceitaria uma nora bailarina. – um sorriso de canto de boca se forma em meus lábios quando penso na resposta – Mas, sabe, Maestro, acho que essa recusa é principalmente porque ela já deve ter alguém em seu coração. A Meg que eu conheço não seria tão alheia aos desejos da mãe, mesmo que às custas de sua própria felicidade. Ela sente muita culpa por sua mãe tê-la cuidado tão bem desde que seu pai morreu, dando-lhe tudo mesmo quando precisava tirar da própria boca e, sinceramente, acho... – sorrio, lembrando das cenas que vira dos dois – que ela e o tal tenor suplente sente mais um pelo outro do que simples rivalidade. Pelo que sei, eles também se conheciam antes da Ópera e provavelmente foram amigos de infância, mesmo que eu não saiba como.

Meu Maestro também sorri, apesar de fazê-lo discretamente.

- Parece uma bela história de amor, se assim o for. – percebo que ele já terminara seu prato, que desde o começo tinha menos que o meu, e agora voltava a bebericar o vinho – Mas acho que tudo vai terminar bem no final. Já vi a tal Madame Giry e, apesar de estrita, não parece ser irracional. Sei que no final das contas só quer o bem da filha e vai acabar cedendo.

Assinto, comendo mais uma vez.

- Concordo, Maestro. – termino de comer também, limpando a boca com o guardanapo – Principalmente, torço por eles. Formam um belo par juntos.

Lembro que tenho ainda uma pequena batalha para enfrentar.

- Hum... Maestro... Meg me convidou para arrumar-me com ela amanhã para o baile. – o encaro nos olhos com dificuldade – Sei que o Maestro provavelmente queria fazê-lo, mas eu não pude recusar...

Para minha surpresa, ele sorri gentilmente.

- Não tem problema, pequena. Eu entendo. – ele termina sua taça – Preciso terminar algumas coisas amanhã e é melhor que a senhorita Giry possa ajuda-la para que esteja pronta à tempo.

Praticamente suspiro de alívio.

- Mas não ache que não vou ajudar com a finalização. – ele ri – Suas coisas atrasaram e só estarão prontas amanhã, então vou ter que busca-las amanhã à tarde. Vou leva-la para você e aproveitar para dar os últimos retoques. Discretamente, é claro...

Assinto obedientemente, feliz por não ter de lidar com a raiva ou a decepção do Maestro. Eu estava prestes a retirar os pratos da mesa para lavá-los como de costume, quando de repente uma mão firme capturou a minha.

- Mas... Eu tenho um pedido em troca, Christine.

Encaro-o, um pouco surpresa.

- O que?

Ele sorri com o melhor de seu ar de galanteio e beija meus dedos. Se não estivesse surpresa com outra coisa, certamente teria sentido a mente dar voltas só com aquela expressão.

- Quero ter a honra da primeira dança em seu cartão de baile, senhorita.

Imediatamente arregalo os olhos. – O Maestro vai também?

Ele ri ruidosamente, fazendo-me corar.

- Claro que vou. Ou acha que eu perderia a chance de dançar com a dama mais bonita e talentosa de Paris?

Coro ainda mais e ele aproveita a chance para me abraçar.

- Diga que sim, por favor, cara senhorita. – nossos olhos se esbarram – Ou eu morrerei de tristeza...

Posso sentir meu corpo amolecer como no dia que nos conhecemos, presa pela intensidade absorvente daqueles olhos negros.

- C-claro que sim... – engulo à seco – ...Maestro.

Ele me dá um beijo demorado na bochecha antes de me liberar, sendo que praticamente fujo para a pia com a louça que consegui pegar.

- Obrigada, minha cara senhorita...  – diz com um tom de brincadeira que me faz corar mais uma vez violentamente.


Notas Finais


Significado das flores:
*Vicias: Você é meu ânimo
*Pervinca: Boas lembranças


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