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História Meu Anjo da Música - Capítulo 67


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Notas do Autor


Então, gente, preparem-se para surpresas... Vindo dessa vez de forma adiantada para a alegria da nação kkkkk Brincadeira. Mas espero que gostem... Boa leitura!

Capítulo 67 - Caminhos separados


Érik

Minha consciência voltou a mim lentamente, com vozes soando ao meu redor. Sentia meu corpo em uma espécie de deriva estranha, como se estivesse em um movimento suave, além da minha garganta queimar feito fogo. As lembranças do que aconteceram voltaram em forma de ondas, cada uma mais forte que a outra até que finalmente me lembro da batalha na Ópera, abrindo os olhos em desespero.

- Graças a Deus... – diz uma voz familiar de um rosto embaçado, que demora alguns segundos para entrar em foco.

- Lo... – engulo a seco, tentando levantar-me automaticamente – Lorena...

- Ei, ei, ei... Vá devagar, senhor Érik... – ela estava sentada ao meu lado e me ajuda e sentar, apoiando minhas costas em uma superfície dura – Eu acabei de trocar essas bandagens... Juro que você não vai querer reabri-las de novo.

Ela me serve de um pequeno cantil alguns goles de água fresca, sendo que não lembrava de ter provado algo tão aliviante.

- Imaginei que estaria com sede; você não desperta há dias...

Olho em volta e percebo que estávamos em uma espécie de quarto compartilhado, com duas beliches em um lugar onde apenas uma pessoa podia ficar no meio delas de pernas abertas. Não tinha janelas e as paredes eram de metal – a superfície dura em que eu estava encostado – e imediatamente entro em pânico quando reconheço onde estávamos.

- Lorena... – ela afasta de mim o cantil lentamente depois que percebe que estou satisfeito – Por favor, me diga que não estamos no que eu acho que estamos...

Minha cabeça latejava, percebi, e olhando para baixo vejo que usava apenas uma calça larga e bandagens de tecido improvisado por todos os lados.

- Sim, estamos em um navio. – ela me dá um sorriso sem jeito e molha um pano com o cantil, passando a refrescar minha testa – Desculpa por fazer isso sem a sua permissão, mas acabamos de chegar no porto de Istambul.

Imediatamente me sobressalto, agarrando a mão dela.

- Como assim, Istambul? Ontem eu estava em Paris... E Christine? Onde ela está?

Ela sorri de forma amarga dessa vez.

- Desculpa, Érik, mas... Ela ainda está em Paris. Você esteve desacordado por quase duas semanas, o período no qual fizemos essa viagem...

Ela conseguira me deixar desesperado.

- Lorena... – engulo à seco, sem saber o que dizer. Lorena não brincaria com algo tão sério, então não adiantava ter esperança de que era mentira.

Nervoso, lutando para pensar, pego o cantil de sua mão e bebo todo o conteúdo avidamente.

- Nós... temos que voltar...

- Não podemos, Érik. – ela fica séria, levantando-se da cama – Emile só conseguiu salvar você porque percebemos algo errado com os espiões do sultão e ele teve de voltar para te avisar. Eles já sabem que você está em Paris e os espiões, além dos mercenários atrás do prêmio pela sua cabeça, estão correndo em massa para a cidade. A sua sorte é que eles sabem apenas de você, não sobre Christine, então ela ainda está segura. Mas era só questão de tempo para que te achassem e...

Eu parei de ouvir nesse momento, cobrindo o rosto com as mãos. Não era possível que tudo tivesse acabado desse jeito...

- Vocês pelo menos avisaram Christine? Encontraram-na? Sabem onde e como está? Se está se recuperando dos ferimentos? – pergunto encostando a cabeça na parede e sentindo o peito contorcer.

Lorena até se afasta de mim o máximo que pode, como se esperasse que eu explodisse diante da resposta.

- Não tivemos tempo... Eles estavam vindo e você estava ferido. Além disso, ela não estava em nenhum lugar próximo e Emile me disse que o visconde estavam louco atrás dela. Ela certamente será bem cuidada, você sabe disso... E se nos descobrissem falando com ela também seria ainda mais trágico. Só pudemos tentar chegar ao navio o mais rápido que conseguimos e comprar os últimos bilhetes disponíveis... – ela gesticula para a cabine – Na terceira classe, como pode ver.

Nego com a cabeça, consternado. Eles tinham razão e só queriam salvar eu e Christine, mas mesmo assim não pude evitar ficar irritado e preocupado. Não sabia onde Christine estava, se realmente estava bem, se encontraria um lugar para ficar depois que eu fechara todas as passagens para nossa casa... Ela ficaria perdida, além de achar que eu abandonara, e isso era algo que eu não conseguia aceitar. Pior ainda, dadas as circunstâncias, eu também não poderia mandar algo como uma carta ou um recado sem ligar-me a ela e desenhar um alvo em suas costas.

- Parece que o Anjo já acordou, Sumire! – diz a voz de Emile de repente, rompendo a atmosfera tensa que se formara.

Tanto eu quando Lorena encaramos a porta, somente para ver um garotinho entrar correndo e pular em meu colo, fazendo-me ver estrelas de dor.

- Anjo! – exclama ele, alegre como sempre, e escala até sentar-se em meu colo.

Forço um sorriso da melhor maneira que posso, acariciando os cabelos dele.

- Olá de novo, pequeno Sumire. Como está?

Ele me encara com dois olhos verdes brilhantes, duas esmeraldas familiares que me deixaram ainda mais dolorido.

- Eu estou bem, Anjo. É você quem está machucado. – ele toca as ataduras e acho adorável a pena que vejo em seus olhos – Papai disse que o Anjo lutou com caras maus para salvar a tia Christine.

Assinto, olhando de relance para o referido pai.

- Sim, pequeno Sumire, eu lutei... – dou um risinho sem jeito – Mas dá para ver que luta não é o meu forte.

Ele assente inocentemente. – O Anjo me disse que é um músico inteligente e não um soldado. É claro que não saberá lutar.

Assinto, continuando a acariciar os cabelos dele, e me volto finalmente para Emile.

- Olá de novo, amigo. Acho que te devo um obrigado e alguns impropérios por estar nessa situação, não é?

Ele se aproxima, parecendo um tanto sem graça.

- Sabe que não será para sempre. Vamos apenas resolver nossos problemas de uma vez por todas e depois estaremos livre para voltar a nossas vidas sem ter de temer por nenhum soldado querendo nos matar. Será melhor para todos nós... E você sabe que seria pior tê-la aqui conosco nessas circunstâncias. – ele se senta na cama e tira o filho do meu colo, colocando-o de frente para mim.

- Se acha mesmo isso, porque trouxe você mesmo sua mulher e seu filho? – retruco impulsiva e agressivamente, apenas por minha própria frustração.

Emile, porém, apenas explica calmamente. Parecia conhecer-me o suficiente para esperar cada uma das reações que eu tivera.

- Lorena e Sumire não vão conosco. Como era muito arriscado deixa-la na França e ainda mais deixa-la sair sozinha de lá com uma criança, ela veio junto no navio para ajudar a cuidar de você, mas não vai sair de Istambul. Ela tem uma amiga que mora aqui e pode ajuda-la a esconder-se até que nós dois resolvamos as coisas; quando acabar, vamos voltar para cá, busca-los e pegar outro navio de volta para Paris. Até lá, pode ter certeza de que eu ficarei tão longe deles quanto você de Christine, Érik.

Apenas posso responder com um muxoxo baixo, sabendo que estava sendo infantil e deixando que toda a facilidade que eu tinha em exigir que Christine estivesse comigo que tivera esses dias dominasse meu lado racional. Agora, porém, eu sabia que a brincadeira de casinha acabara, apesar de ainda ter a esperança de que fosse apenas por um tempo.

Eu sabia que ele estava certo, mas ainda sentia uma certa ansiedade depois de tanto tempo saber que não adiantaria procurar por todos os lados a minha volta que não haveria chance de encontra-la. Eu sabia, porém, que ela estaria melhor longe de mim dessa vez, muito melhor. O visconde não a deixaria sofrer nenhuma queixa, mesmo casado, e Meg Giry também estaria lá para apoiá-la; ela certamente conseguiria viver muito melhor do que pulando comigo de lugares arriscados para situações de quase morte, colecionando todos os dias machucados em partes diferentes do corpo.

A única coisa ruim, porém, era meu egoísmo, que ainda excitava minha insegurança e me fazia temer pelo que encontraria quando voltasse. Ela me esperaria? E se o fizesse, quanto de sua própria felicidade não seria perdida no processo? E se eu nunca mais voltasse? Ela ficaria o resto de sua vida esperando por mim? Essas perguntas me corroeram como fogo em palha seca, deixando-me depressivo e talvez até mesmo desconsolado. Eu só queria poder aproveitar as coisas agora que tudo estava seguindo como eu sempre sonhara...

Apesar de tudo, respiro fundo, olhando nos olhos de Emile.

- Sabe que eu odeio admitir quando está certo, Emile, principalmente em circunstâncias tão... desfavoráveis para mim. Mas dessa vez, eu entendo sua preocupação e vou seguir seus conselhos.

Apoiando a cabeça na parede na parede por alguns segundos, suspiro mais uma vez antes de encarar o negro de minhas pálpebras e começar a empurrar todo e qualquer calor que eu encontrasse visível em meus olhos para o lado mais remoto da minha mente, com apenas uma fechadura minúscula para acessá-lo novamente se tivesse a chance. Construo lentamente o mesmo muro de gelo que passara anos para estabelecer e que Christine em questão de meses derrubara, deixando-o ainda mais cruelmente frio do que antes para tentar fingir que não bastava o sorriso dela vir a minha mente para que começasse a derreter. Eu precisaria dele mais do que nunca a partir desse momento e deveria voltar a ser o velho Érik se quisesse poder destruí-lo de uma vez por todas, esquecendo coisas como amor, música e inspiração. Ali, eu seria apenas o antigo grão vizir, arquiteto brilhante, assassino cruel e detalhista e monstro aterrorizante, sendo que era dessa maneira que eu deveria garantir que o novo sultão me visse.

Quando abro os olhos de novo, eles estão úmidos, mas não me permito liberar as lágrimas escondidas ali. Apenas tiro um lenço do bolso – um que Christine me dera – e seco-as rapidamente, oferecendo-a a Lorena sem nem mesmo olhá-lo novamente. A mulher me olha confusa, mas logo entende e sorri suavemente para mim, dobrando e guardando o pequeno quadrado de seda perfumado no bolso.

- Devolverei a você quando terminarmos tudo isso, pode deixar. – diz ela, baixinho, sem esperar resposta.

Encaro, então, Emile, com a mesma expressão vazia do primeiro dia que nos conhecemos.

- Dado que me trouxeram até aqui, devem ter um plano. Poderiam contar-me o que tem em mente? – pergunto, a voz áspera pelos dias sem uso tornando meu tom ainda mais autoritário e irônico do que pretendia.

Emile, porém, sorri, apesar do pequeno em seu colo encarar-me com um olhar estupefato.

- Achei que nunca ia perguntar...  

                                                          *************************

Christine

Quando finalmente voltei a mim, acabara de sair de um pesadelo horrível, no qual Érik era simplesmente cortado em pedaços até a morte bem diante dos meus olhos. Despertei desesperada, ofegante, e sentei na cama onde estava ainda com os braços estendidos enquanto tentava resgatar o amor da minha vida da morte. Sentia a pele quente, a roupa que eu usava gelada contra mim ao estar empapada de suor e lágrimas. Estava sozinha, em um quarto familiar, e demorou alguns longos segundos até eu recobrasse a consciência de como viera parar ali.

Eu estava na casa do conde. Tinha desmaiado em uma igreja, machucada e desesperada. Antes disso, saíra de um dos túneis da Ópera, tendo sido salva por meu professor, que encarara diversos homens para salvar-me meio a um incêndio. E eu ainda não sabia se estava vivo ou morto...

- Senhorita Christine? – disse uma voz delicada como um sino, interrompendo meu desespero.

Olho para a porta do quarto, despertando, e me deparo com uma Gilly alegremente andando até mim. Parecia aliviada, carregando uma bandeja de mingau e suco de laranja nos braços.

- Que bom que acordou, Christine. Finalmente...  – diz ela, deixando a bandeja na penteadeira ao lado da cama – Estavam todos preocupados com você. Não sabe como me deixou desesperada quando a vi chegar daquele jeito, depois de ter saído tão alegre...

Ela parece lembrar-se de algo e vai apressadamente para o banheiro, sendo que consigo ouvi-la acionando a água da banheira. Depois, sem falar nada, corre para fora do quarto, demorando apenas alguns segundos para voltar, com algumas roupas nos braços.

- O que aconteceu, Gilly? – pergunto, ansiosa – Como está meu professor? Ele foi encontrado comigo também?

Ela congela por um instante e estremeço junto, apenas podendo observar enquanto ela afastava minhas cobertas e me ajudava a levantar. Eu estava usando uma camisola branca simples, a área do peito vermelha como se a sutura do ferimento tivesse sido insuficiente durante a agitação da madrugada.

- Gilly. – imediatamente agarro as mãos dela – O que aconteceu, Gilly? Meu professor está bem, não está?

Ela faz uma cara apenada de novo, desvencilhando-me de mim rapidamente, e continua fazendo seu trabalho ao desabotoar minhas roupas.

- Eu... A senhora disse que vai contar tudo pessoalmente. Por favor, espere um pouco e ela irá esclarecer tudo... – ela me implora com o olhar – Por favor, senhorita, não me coloque em uma posição difícil...

Fico com pena, mas minha pulsação acelera e minha cabeça começa a doer assim que ouço isso, ansiosa. Por dentro, apenas queria correr desesperadamente até a Ópera, a fim de ver se ele estava bem, se ele estava em casa e se precisava de mim. Além disso, gostaria de dizer obrigada, e depois perdão por não ter conseguido ficar ao lado em um momento como aquele. Eu era fraca e apenas pude esperar para ver como ele me salvava, quase matando-se no processo. Ele não merecia isso, alguém que só o arrastasse para baixo em um mundo tão perigoso quanto esse...

De qualquer forma, eu apenas posso assistir, em silêncio, como Gilly cuida de mim veemente. Primeiro, tira minha roupa com o máximo de cuidado, desatando as ataduras cheias de manchas vermelhas para revelar uma ferida sangrenta, como toda a área ao redor contaminada por sangue seco. Era óbvio que deixaria uma cicatriz, apesar de não ser letal, e eu sempre me lembraria do que acontecera naquele dia.

- Por favor, veja se a temperatura está ao seu agrado. – pede suavemente, levando-me pelo braço até a água perfumada e morna da banheira.

Sem dizer uma palavra, encosto os dedos na água e nem mesmo dou qualquer sinal antes de entrar na banheira, cansada. A água quente imediatamente amacia meus músculos doloridos, apesar de não ter tido coragem de molhar meu machucado pela dor. Apenas deito na superfície, sentindo minhas pernas, costas, pelve e cabeça plenamente abraçadas pela temperatura suave. Qualquer sentimento ruim desaparece, sendo que me sinto até um pouco desnorteada, e quando finalmente volto a mim Gilly me ajuda a levantar para ensaboar-me. Com cuidado e um pouco de água fresca, ela limpa a pele ao redor do ferimento, com cuidado para não umedecê-lo.

- Pode me dizer quanto tempo eu dormi, pelo menos? – pergunto de repente, enquanto ela passava algo em meus cabelos e eu estava sentava na borda da banheira.

- Três dias. – responde devagar.

Meus olhos ficam como pratos.

- Três dias?! – imediatamente, porém, me obrigo a recompor-me – E você cuidou de mim durante todo esse tempo, Gilly?

Ela assente e até sorri um pouco. – Foi um prazer. Pelo menos, pude escapar do falatório das outras criadas e apenas ler o dia inteiro para você enquanto dormia.

Sorrio também, inconscientemente. – Obrigada, Gilly.

Ela acena em afirmação, aceitando meu agradecimento, e posso ver que fica contente com o reconhecimento. Consequentemente, eu também me sinto um pouco melhor, apesar de ainda estar preocupada. Como Érik estaria nesse momento? Certamente estaria precisando de cuidados muito mais do que eu...

Quando terminamos o banho, ela me enxuga cuidadosamente com uma toalha macia, refazendo as ataduras com algo limpo depois de passar uma espécie de unguento que tinha no bolso da saia. Depois, ela me ajuda a colocar um vestido leve, apenas uma espécie de túnica macia amarrada na cintura por uma tira de seda, para que pudesse ser vista por todos sem ser considerada indecorosa. Até mesmo uma sandália confortável é conseguida para mim, usada com meias, e ela colocou um xale de lã sobre meus ombros de forma meticulosa. Mesmo que não fosse sua intenção, com aquela roupa e todos aqueles cuidados, eu me sentia uma velha matrona sendo cuidada em sua velhice desgastada.

Gilly, então, me serve a refeição que tinha preparada e enquanto isso vai arrumar minha cama, não permitindo que nem mesmo um vinco fosse encontrado sobre a colcha bordada. Quando termino, ela mesma leva a bandeja para a cozinha, voltando apenas para levar-me para encontrar a todos na sala de estar.

- Apoie-se em mim, sim? – pede ela antes de sairmos, passando seu braço por meus ombros e segurando minha mão como se eu fosse desabar a qualquer instante.

Eu estava débil, era verdade, mas me sentia muito melhor do que no dia em que colapsara. Estava um pouco fraca, provavelmente pela perda de sangue, e um pouco mais inchada do que o normal, certamente apenas mais uma consequência do choque que tomara. Apesar disso, porém, obedeço-a, sabendo que minha fragilidade era esperada, desejada e provavelmente o mais elegante e adequado a representar-se.

Descemos as escadas devagar, comigo sem saber o que me esperava no salão de visitas da mansão. Quais más notícias me esperavam? Eu não sabia porque, mas sabia que aquelas não seriam boas surpresas...

- Raoul! Que absurdo você está dizendo, garoto? Você acabou de casar-se; a lua de mel é algo necessário para completar o ritual. Como você pode sequer insinuar manchar a honra de sua recém esposa dessa maneira, por Deus? – eu mal havia chegado na sala e já ouvia a voz de reprimenda vigorosa da senhora Valérius – Christine está ferida, mas isso não tem nada a ver com o relacionamento de vocês. A etiqueta deve ser cumprida, mesmo que seja por menos tempo...

- Mas, tia! – era voz indignada de Raoul, sendo que eu chegara bem a tempo de vê-lo levantando de seu lugar enquanto argumentava – Christine precisa de mim! Ela é minha melhor amiga! Estive com ela desde criança e agora que perdeu tudo mais uma vez não posso e nem vou abandoná-la! Não vou cometer o mesmo erro duas vezes...

- Perdeu tudo? – digo baixinho, inconscientemente, fazendo todos ali encarem-me com assombro.

Ali estavam a condessa, a senhora Valéius, a nova viscondessa e Roul, todos tomando chá e aparentando estar há um bom tempo discutindo avidamente. A condessa parecia tão desgostosa com a atitude de Raoul quanto a senhora Valérius, abanando-se com o leque elegante, mas irritadamente, enquanto Martina parecia apenas desamparada – apesar que, quando me vê, posso ver que uma faísca de ódio inflama a raiva que eu achara já ter aplacado entre nós duas. Meu amigo, por outro lado, parece indignado, ansioso, e quando me vê posso ver em seus olhos que estava segurando-se para não voar sobre mim com um abraço.

- Bom dia... – digo suavemente, forçando um sorriso adequado, tentando recuperar um pouco da atmosfera do lugar.

É a condessa quem se recupera primeiro, apontando como leque o assento ao seu lado.

- Bom dia, querida. Venha, sente-se aqui. – eu apenas obedeço, sobre o olhar pesado de todos – Como está sentindo-se? Dói em algum lugar ainda?

Forço um sorriso ainda maior, enquanto à minha frente Gilly serve uma xícara de chá para mim. Percebo, porém, que ela serve para mim algo diferente dos outros copos, que tinham o tradicional nobre chá de hibisco.

- Eu estou bem, senhora condessa. Apenas um pouco fraca, mas provavelmente é apenas fruto da perda de sangue. Logo vou estar bem. – faço uma mesura desajeitada, ainda sentada – Eu tenho que agradecer por terem cuidado de mim depois de tudo que aconteceu. Muito obrigada a todos...

É a senhora Valérius quem responde, sorrindo.

- Oh, criança, sabe que não é necessário agradecer. Ficamos felizes de que você esteja bem depois de tudo que aconteceu, isso é certamente nossa melhor recompensa. – ela é lisonjeira e falsa, mas apenas continuo sorrindo de volta, absorvendo o calor gentil do meu chá.

O silêncio reina mais uma vez em uma atmosfera tensa, até que Lady Martina a quebra.

- A senhorita pode nos contar o que aconteceu? – pergunta de repente, fazendo-me encará-la um pouco surpresa.

Assinto, engolindo mais um gole de chá rápido antes de voltar a deixa-lo sobre a mesa e recostar-me na cadeira. Instintivamente, começo a trabalhar a habilidade que aprendera de Érik de inventar histórias.

- Eu... fui chamada pelo Capitão Duchart para prestar depoimento sobre o desaparecimento do conde, já que sou alguém próximo à família. – com a menção do conde, todos ficam tensos – Como ele temia que eu ficasse assustada, ele me levou para a Ópera, já que achei indelicado leva-los a casa de meu professor. Não queria que as más línguas o retratassem como alguém envolvido com as autoridades, então apenas os levei para o meu camarim, onde responderia todas as perguntas necessárias. – olho para a xícara de chá sobre a mesa, como se tivesse lembrando-me de algo assustador, voltando àquele instante – Infelizmente, porém, de repente um acidente com um dos candelabros fez todo o lugar pegar fogo. A porta estava trancada, já que aquele era um depoimento de caráter oficial, e bem nesse momento tivemos problemas para abri-la. Tudo ali era inflamável, o fogo se espalhou muito rápido... Foi como o próprio inferno. Eles conseguiram abrir a porta, mas a maioria já estava tão fraca que apenas preocupou-se com suas próprias vidas; eu fui deixada para trás e, mesmo que o Capitão Duchart tenha tentado salvar-me, uma das estruturas do teto caiu sobre nós, matando o capitão e derrubando-me sobre um vaso quebrado no meio da correria. – levo a mão dramaticamente até o corte – Meu professor chegou de repente e conseguiu de algum jeito empurrar-me porta a fora... Disse para mim correr até nossa igreja que ele se encontraria comigo lá para levar-me a um médico, e voltou para as chamas para salvar os soldados que desmaiaram pela fumaça antes do cômodo ser aberto... – meus olhos se enchem de lágrimas, reais apesar de por um motivo diferente do que eu dava a entender – Eu só lembro dele todo machucado e de correr o máximo que eu consegui, apavorada... E quando cheguei na capela comecei a orar desesperadamente, pedindo que ele estivesse bem. Nem vi o dia passar... Foi então que o padre me achou e eu desmaiei. Depois disso... Só acordei hoje de manhã.

Todos me ouvem, um tanto incrédulos de início, mas depois completamente perturbados conforme implico meus sentimentos na história que inventara. De certa forma, estava até um pouco orgulhosa, repetindo em minha mente que “as melhores mentiras tinham um fundo de verdade”.

- Oh, minha querida... Deve ter sido duro para você. – diz a condessa, segurando minha mão protetoramente.

Apenas desvio o olhar, como se fosse frágil e aquilo fosse um assunto difícil para mim. Mesmo sem ver diretamente, porém, posso sentir os olhos de Raoul em cima de mim, queimando, provavelmente sabendo que algo de tudo aquilo não era verdadeiro ao mesmo tempo que seu cenho franzia de preocupação.

- Realmente, pobre criança... – comenta a senhora Valérius, sacudindo a cabeça – Você simplesmente desapareceu naquele dia... Ficamos desesperados quando você, mesmo depois de altas horas da noite, não apareceu. Achamos que tinha ido para casa, até que Raoul ouviu algum dos convidados dizer que a tinha visto a caminho da Ópera e logo depois que a Ópera tinha pegado fogo... Mesmo sabendo que você estava acompanhada pelos soldados, esse meu sobrinho insistiu que havia acontecido algo com você. Disse que não teria coragem de apenas ir para casa ser dar alguma satisfação para nós e certamente estava em apuros...

Ela falava em tom de reprimenda, a fim de deixar Raoul desconcertado, e posso ver que ele fica envergonhado quando nossos olhares sem querer se encontram. Mesmo que eu não quisesse admitir, dessa vez Raoul e seu cuidado por mim salvara minha vida. Se eles não tivessem me encontrado e me levado até um médico... Sabe Deus como teriam cuidado de mim em um abrigo de miseráveis.

- Devo agradecer ao visconde, então. – faço uma mesura para ele – Obrigada por ter fé em mim. Isso salvou minha vida dessa vez.

Ele fica vermelho feito uma cereja, reprimindo fortemente um sorriso que só seria percebido por quem o conhecesse bem.

- Sabe que não foi nada... – ele fala baixo, inseguro, e o ânimo de Martina cai ao chão quase palpavelmente.

O silêncio instaura-se por mais alguns momentos, sendo que aproveito para acabar com meu chá e pedir outro discretamente para Gilly. Eu estava com uma ávida vontade de doces naquele dia, estranhamente, e adiciono algumas generosas colheradas de açúcar que não escapam dos olhares de todos ali. E o mais estranho é que o olhar que me dão, sendo o da condessa de pena, da senhora Valérius de escrutínio e o de Martina de repente mais animado. Já Raoul parece ter engolido um inseto, segurando com mais força as costas do assento que sua esposa ocupava.

- Hum... Perdoem-me, mas... Eu gostaria de saber como está meu professor. – digo de repente, cortando o silêncio enquanto batia suavemente a colher de prata na borda da xícara e a deixava de lado.

Tomo um gole demorado da bebida, mas apenas para poder olhar mais diretamente para as reações de todos. Surpreendentemente, apesar da minha pergunta, o silêncio continua, apenas tendo incrementado a tensão no ar. Eu apenas posso esperar, o pé nervoso batendo delicadamente contra o tapete da sala por baixo da saia, até que Lady Martina resolve responder, sobre o olhar apreensivo de todos.

- Ele... – ela olha em meus olhos quando diz isso, e mesmo que estivesse um pouco apreensiva também, ainda erguia suavemente seu nariz como uma vitoriosa que declara a derrota do oponente – Ele está morto, senhorita Christine. Ficou preso no incêndio e... apenas foram achados algumas roupas e cinzas.

Quando eu ouço essas palavras, a xícara em minhas mãos começou a emitir um tilintar baixo irritante. Lentamente, eu a coloco sobre a mesa de centro, cruzando as mãos sobre o colo enquanto respirava fundo e engolia a seco. Eu não queria acreditar no que ouvia, mas pelo olhar que me lançavam de pena aquilo era, sim, o que considerava-se oficialmente verdade. Mas eu não conseguia acreditar... E não iria, não tão facilmente assim.

- Eu... Posso ir ver a cena? – deixo em meu rosto mais frio do que o inverno, sem deixar que nada de meu desespero ou tristeza transparecessem – Se houverem cinzas, quero recolhê-las e velá-las apropriadamente. O Maestro não tem parentes consanguíneos conhecidos, mas... Eu devo isso a ele.

- Senhorita... – começa a senhora Valérius, balançando a cabeça em negação.

- Por favor, minha senhora. – recorro ao mais alto grau de súplica que podia – Nunca pedi nada diretamente à senhora, mas dessa vez o faço. Eu preciso fazer isso, para que tanto a minha alma quanto a dele descansem em paz. Todos... deveríamos ter o direito de conservar nosso luto, não acha?

Ajoelhar-me no chão seria desrespeitoso, então me contento em inclinar-me o máximo que consigo sentada e sem perder a elegância. Sei que, acima de mim, eles trocam olhares ferrenhos de dúvida, até que para minha surpresa é Raoul quem se prontifica.

- Eu a levarei. – diz ele, de repente, fazendo com que deixe um pouco de esperança transparecer quando o encaro, voltando ao normal – Ela tem o direito de velar alguém tão próximo e especial para ela. Espero que não se importem...

- Raoul... – tenta Martina, olhando-o com olhos suplicantes.

- Sabe que não é isso... – diz a condessa, olhando-me da cabeça aos pés – Senhorita, acho que seria melhor a abster-se desse problema. Posso mandar alguém para recolher as cinzas ou qualquer pertence que encontrar, o que acha?

Nego com a cabeça. – Perdoe-me, senhora condessa, mas gostaria de vê-lo com meus próprios olhos. Preciso eu mesma recolher suas cinzas, pedir perdão e dizer adeus... Peço humildemente que a senhora compreenda minha situação e desejo.

A mulher suspira, olhando-me com preocupação. Aquilo já estava me deixando um pouco irritada: que todo cuidado era aquele ao encarar-me? Era como... se eu fosse um inválida que a qualquer momento morreria respirando.

- Senhora, perdoe-me a pergunta indelicada, mas... Parecem preocupados por alguma coisa com relação a mim. O que houve? – digo delicadamente, as mãos lutando para não agarrar o vestido.

Ocorre de novo a troca de olhares, e é Martina quem me olha mais profusamente, para meu desespero.

- Senhorita Christine... – começa ela.

- Martina, por favor... – interrompe a senhora Valérius – Deixemos que o doutor diga isso à ela corretamente. Não cabe a nós nos envolvermos em situações como essas. – ela volta-se para mim, os olhos como sempre um tanto distantes apesar das palavras doces – Querida, podemos fazer um acordo. O médico já está vindo para revisá-la, certamente chegará em breve. Ele é um ótimo médico, concorrido ao ponto de só termos conseguido que ele viesse vê-la hoje. Então, faça-nos esse favor e deixe-o examiná-la e, se ele permitir, farei sua vontade.

Mesmo um tanto hesitante, assinto, já com um pressentimento estranho do que se tratava. Não me permito, porém, sequer cogitar sobre isso devido as circunstâncias, focando minha energia em pensar racionalmente sobre o que ouvira.

Deixo-os discutir, então, sobre qualquer outra coisa depois de um longo período de silêncio. Mesmo sem expressão, por dentro à cada segundo um pedaço de mim trincava e caía, deixando um frio excruciante dominar meus sentidos. Ele não podia estar morto... Não meu professor, invencível e inteligente. Não em seu próprio teatro, que projetara com as próprias habilidades especiais e engenhosidades a seu bel prazer. Não meu futuro marido, não meu anjo da música... Ele simplesmente não podia estar morto nessas circunstâncias.

Além disso, lembrei que haviam passagens secretas por todo aquele lugar. Certamente haveria uma para que ele fugisse, as cinzas sendo de outra pessoa. Ele deveria estar muito ferido, se bem me lembrava, mas não morto. Eu só precisava encontra-lo e ajuda-lo, e poderíamos começar tudo outra vez, refazer nosso futuro nem se fosse longe daqui...

Não disse uma palavra até quase a hora do almoço, quando um homem bem vestido chegou. Era o tal doutor, um homem de meia idade bonito e impregnado da arrogância habitual dos nobres. Nesse momento, sem sequer um cumprimento, fui levada para o andar de cima e colocada em roupas mais finas para que ele pudesse examinar-me. Apenas as mulheres ficaram presentes, aparentemente curiosas para ouvir o que o médico diria e, principalmente, minha reação.

- Senhorita, tem algum outro ferimento se não este sobre suas costelas? – perguntou enquanto tomava meu pulso.

Eu estava sentada na cama, tentando apenas respirar normalmente apesar de tantos olhos em cima de mim. – Não, senhor.

- Hum... Bem. – ele tira o estetoscópio de meu peito – Alguma irregularidade ultimamente? Como na alimentação, por exemplo?

Acho estranho a pergunta, mas respondo mesmo assim.

- Eu tenho tido mais vontade de doces ultimamente, ingerido naturalmente mais líquidos. – acabo confessando – Na verdade, tenho sentido meu corpo um tanto inchado ultimamente. Quase sem resistência a espartilhos...

- Enjoos? Dores de cabeça? – continua ele – Enquanto responde, pode deixar-me ver a ferida.

Gilly aproxima-se e abre minhas roupas, cobrindo meus seios com uma toalha enquanto tirava as bandagens e expunha o machucado.

- Não, senhor. Nenhuma anomalia desse tipo. – respondo enquanto isso, sendo que ele só acena brevemente para mostrar entendimento.

Ele então examina o machucado com atenção por alguns segundos, tocando suavemente, até que acena para que Gilly possa voltar a cobrir-me apropriadamente de novo.

- Algum sangramento fora o convencional pela ferida depois do acontecido?

Acho a pergunta ainda mais estapafúrdia que a outra, mas nego com a cabeça novamente.

Ele então volta-se para sua mala, retira uma folha de papel e uma caneta e, usando a penteadeira como mesa, faz a minha receita médica rapidamente.

- Aqui. – ele entrega o papel para Gilly, ajustando os óculos de metal que usava com o dedo – Senhorita, sua ferida é grande, mas não é profunda, então não precisará de pontos se a senhorita não fizer movimentos demasiadamente bruscos enquanto isso. Pode deixar alguma cicatriz suave, mas nada muito grotesco. Vou prescrever um medicamento para dor e algo para a cicatrização, mas gostaria mesmo é que tivesse uma dieta vegetariana nos próximos dias. Nada pesado, nada gorduroso... E as ataduras devem ser trocados diariamente e muito bem limpas, sem reutilizações. Deve ser desinfetado com essa mistura. – ele tira uma receita pronta da maleta que segurava.

Ele então, para o meu desespero, anda até a cama, falando a próxima sentença enquanto olha em meus olhos.

- Sobretudo, alguns cuidados devem ser levados em conta devido ao seu estado. A senhorita está grávida de três meses, provavelmente já perto do quarto. Por causa de perda de sangue, deve estar muito fraca e o feto deve sentir isso. Por isso, prescreverei também algumas vitaminas específicas e recomendo repouso por alguns dias. Foi uma situação de estresse e agitação muito perigosos, mas o feto é aparentemente muito resistente e não sofreu com isso.

Eu apenas consigo olhar o médico com descrença, o queixo ameaçando cair. Não... Aquilo era emoção demais em um dia só. Eu... estava grávida? Grávida de verdade? Eu seria mãe? Alguns dias atrás eu estava surtando por ser uma noiva, agora eu seria mãe! Uma mãe de verdade... Imediatamente, lembro-me da fala de Meg de que a vida era cheia de imprevistos que se acumulavam e, mesmo que não quisesse admitir, ela estava mais do que certa.

Eu não sabia o que dizer, apenas podendo assentir lentamente para ele em sinal de entendimento. Atrás dele, as mulheres estavam apreensivas, mas não surpresas, o que me dizia que elas já deveriam ter uma cogitado que aquele fosse o caso. A condessa em especial me olhava com angústia, como se tivesse pena da minha situação de “mãe solteira e viúva não casada”. Foi só nesse momento, porém, que percebi algo muito desolador para que a felicidade que eu sentira por alguns segundos se mantivesse.

Instintivamente, enquanto observava todos saírem com o médico, levo minha mão até meu ventre, perplexa. Havia uma criança ali dentro. Uma criança que me chamaria de mamãe.... E que deveria chamar Érik de papai, correndo por suas pernas. Mas... E se o que disseram fosse verdade? E... se Érik estivesse morto?

Coloco o rosto entre as mãos, lutando para não deixar as lágrimas caírem. Estava tudo bem, eu não tinha certeza de nada ainda. Não vira nada que indicasse que Érik estava menos do que bem vivo e apenas esperando ignorantemente ser pai. Um bom pai.

Era nessa esperança que eu me agarrei como se minha sanidade dependesse disso, impedindo que o último caquinho de compunha meu coração se desfizesse como todos os outros.... Tudo ficaria bem.

 

 

 

 

 


Notas Finais


Finalmente, o grande momento... Agora esses dois amantes vão mostrar o que aprenderam um com o outro e como mudaram ao viver juntos, só que agora tendo de ser independentes e cheios de responsabilidades. Veremos como cada um vai levar seu caminho...


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