História Meu Caiçara - Capítulo 1


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Categorias Histórias Originais
Tags Adolescência, Descobertas, Felicidade, Praia, Romance
Visualizações 5
Palavras 1.695
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção Adolescente, Poesias
Avisos: Drogas, Heterossexualidade
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Para uma amiga que fez uma poesia e me inspirou com sua alma apaixonada.

Enjoy!

Capítulo 1 - Capítulo Único


O mar estava selvagem, mas o Sol brilhava acima de mim, queimando minha pele de uma forma boa. Eu sentia aquele cheiro de água salgada e me sentia como uma sereia. Imaginei mil vezes se eu poderia simplesmente mergulhar naquela água e desaparecer pela eternidade, deixar tudo para trás. Não seria justo com ninguém, mas pela primeira vez na vida eu me importaria comigo ao invés dos outros.

ー Amanda, estamos indo ー minha irmã mais nova me chamou, me tirando dos meus pensamentos. ー A mãe quer voltar para casa porque ela acha que vai esfriar.

Eu revirei os olhos. Não iria chover, eu tinha certeza. O céu estava tão claro e livre de nuvens que parecia-se com a água do mar. Minha mãe tinha essa mania de sempre exagerar nas coisas e daquela vez não foi diferente. Só que eu ainda não queria voltar para a casa dos meus tios. Eu queria ficar mais alguns segundos ali, me sentindo uma pessoa completamente diferente do que eu realmente era.

ー Fala para ela que eu vou mais tarde. Só quero sentir o mar mais um pouco.

ー Você sabe que ela não vai deixar ー Letícia cruzou os braços, mostrando o quão descrente estava. ー Vamos voltar, para de inventar moda.

Eu revirei meus olhos novamente.

ー Só diz isso para ela, por favor.

Letícia saiu andando em direção à nossa mãe. Às vezes era difícil ser a irmã mais velha, mas em outras eu gostava. Apesar de ser extremamente sensível, Letícia era gentil comigo. É claro, nós tínhamos todas as brigas normais que irmãs devem ter, mas, na maior parte do tempo, eu a protegia e ela me amava.

ー Ela disse que tá bom ー Letícia me tirou dos pensamentos novamente. ー Eu acho que ela está drogada.

Eu ri.

ー Eu disse que ela ia deixar.

Letícia deu de ombros e se afastou de vez. Eu observei minha família se afastar da praia lentamente e irem em direção a rua da casa dos meus tios. Então, quando eles sumiram da minha vista, eu peguei meu chinelo nas mãos, amarrei minha canga ao redor da cintura e comecei a andar em direção ao centro da cidade praiana, sem nunca deixar de observar o mar esplêndido e raivoso à minha frente.

Era tão bom estar longe de casa, em um lugar em que eu podia ser tudo o que eu nunca fui. Eu não precisava me importar com o julgamento das outras pessoas sobre mim porque ninguém ali realmente me conhecia. Sempre foi bom para mim fugir um pouco do ambiente muitas vezes hostil que era São Paulo, com seus prédios de concreto e pessoas cinzas.

ー Acho que você está um pouco perdida ー uma voz rouca disse ao meu lado. ー As sereias geralmente ficam no mar.

Eu não consegui evitar a minha risada constrangida. Ainda mais depois de ver de onde aquela voz havia saído. Ele parecia ter saído de um filme de surfista, com seu corpo bem definido da cor da madeira mais bonita e polida. Seus olhos eram tão escuros e profundos que eu me perdi por alguns segundos ao olhar para eles. E o seu sorriso, decorado por aquelas bochechas carnudas, de repente ofuscaram todo o brilho do Sol. A única coisa que eu não pude ver foi o seu cabelo, por causa do boné que ele estava usando, mas eu sabia que ele também era bonito.

ー Ah, não. Eu decidi fugir da água ー eu respondi, entrando na brincadeira, o que fez ele sorrir.

ー Era muito ruim lá embaixo?

Foi minha vez de sorrir. Além da voz rouca, pude notar que ele tinha um cheiro de maresia e maconha. Na teoria, não parece ser bom, mas na prática, ele tinha o melhor cheiro de todos os que eu já senti.

ー Meu pai queria que eu casasse com um tritão ー joguei meu cabelo para trás, fingindo que aquele era o maior problema do mundo. ー Tive que fugir.

Ele riu de verdade dessa vez. Sua risada parecia ter saído do som que as conchas fazem quando se coloca o ouvido bem perto delas: era calma, mas ao mesmo tempo, arrebatadora.

ー Meu nome é Gabriel, mas todos os meus amigos me chamam de Gaba ー ele estendeu a mão e só então eu reparei na bola de futebol que ele segurava.

ー Meu nome é Amanda ー eu apertei sua mão. ー Você joga?

Ele olhou para a bola.

ー Futebol é a paixão da minha vida ー ele respondeu. ー Pena que meus amigos discordem de mim.

ー Você não joga bem, é?

ー Isso ofende a minha pessoa ー ele fingiu estar magoado. ー Eu sou o melhor daqui. O problema é que meus amigos não gostam muito de futebol. Então eu acabo não praticando muito.

Eu assenti.

ー Eu sei como é. Também tenho paixões que a maioria dos meus amigos não entendem.

ー E quais são?

ー Eu adoro química. Já faz um tempo que eu amo essa matéria mais do que tudo. Acho que eu nem lembro do porquê ter começado a gostar dessa matéria, mas eu gostei. Eu tenho uma colega de sala que odeia com todas as forças e abomina qualquer coisa que se relacione a química ー eu respondi.

ー Então acho que somos colegas de problemas ー ele disse, semicerrando os olhos por causa do Sol.

ー É, acho que somos ー eu sorri.

ー Quer ir no centro? ー Ele mudou de assunto abruptamente.

ー Eu nem te conheço ー ri. ー Você poderia ser um sequestrador e eu nem saberia.

Ele deu risada.

ー Mas a graça é essa. Você vai ter que descobrir, sereia. O que acha de viver uma aventura? ー Ele me estendeu a mão.

Eu o encarei. Aquele menino que parecia ter saído de um filme, com uma aparência divina e um corpo escultural, me estendia a mão e estava me convidando para uma aventura. Parecia ser idiota recusar um pedido daqueles. Sem pensar duas vezes, eu peguei em sua mão e deixei que ele me guiasse até o centro.

Toda aquela cidade parecia um cartão postal, com suas feiras de rua e suas barracas de comida. Nós passamos por algumas feiras de artesanato ー aonde eu comprei uma pulseira decorada com pequenas conchas brancas ー e depois paramos para comer o melhor hot dog da minha vida em um trailer branco com higiene questionável. Eu não me importei com nada dessas coisas naquele momento porque o Gabriel tinha olhos que me faziam pensar duas vezes antes de me derramar naquele oceano de incertezas.

A tarde recaiu e meu celular tocou com algumas ligações da minha mãe. Após algumas desculpas fajutas, eu desliguei o celular e voltei a me concentrar no meu caiçara de olhos infinitos que me dava toda a atenção do mundo, sem nem mesmo se importar com todas as garotas ao redor que pareciam querer ele mais do que tudo.

ー Eu conheço um lugar bonito ー ele disse, enquanto nós caminhávamos pelas calçadas de pedra, iluminadas pelas luzes das lojas e restaurantes. ー Fica num lugar meio escondido, então se você quiser ver, vai ter que confiar em mim.

ー Vamos lá.

Eu já não me importava mais com o medo. Deixei, novamente, que ele me guiasse pelas ruas até uma pequena praça aonde uma igreja azul estava. Ele me explicou toda a história da construção como se estivesse na época em que ela fora construída e, só então, nós subimos uma grande ladeira de chão pedregoso, cercada de árvores e que, cada vez mais, ficava distante do barulho da cidade e das pessoas que pareciam como borrões para mim.

Quando chegamos ao final da ladeira, eu fiquei admirada. Havia outra igreja ali que parecia ser um pouco mais velha do que a anterior e algumas rochas espalhadas por ali que poderiam servir como banco para nós. Gabriel subiu em uma das pedras e me ajudou a subir depois. Não era uma vista espetacular, mas era silenciosa e, se eu prestasse bastante atenção, eu podia ouvir o som do mar ao longe.

ー Como você descobriu esse lugar? ー Eu perguntei, um tanto curiosa.

ー É um ponto turístico, mas fica meio inabitado quando começa a anoitecer ー ele deu de ombros. ー Eu costumava vir aqui com a minha família e sempre gostei dessa igrejinha. Eu ficava imaginando como é que as pessoas eram antigamente. Ficava pensando se, em algum momento, um casal que estava completamente apaixonado, se casou aqui e viveu feliz.

ー Você tem uma imaginação fértil ー eu comentei, um pouco admirada.

Ele se aproximou de mim e entrelaçou nossos dedos, fazendo eu sentir pequenos arrepios por todo o braço. Ele me olhou tão intensamente que eu me senti ser engolida por aqueles olhos. A sensação foi indescritível.

ー É que eu te vi na praia, parecendo uma sereia, tão linda e perdida… eu fiquei inspirado ー ele disse, antes de unir nossos lábios.

E foi tão suave e inocente. Eu não poderia esperar por algo melhor do que aquilo. Aquelas mãos que percorreram meu corpo com delicadeza, como se esperassem que eu fosse quebrar a qualquer momento… eu nunca senti algo tão puro quanto naquele momento. O beijo dele me lembrava a sensação gostosa que era entrar na água gelada do mar depois de ter tomado Sol o dia inteiro. Ele tinha gosto de mar e alegria, como se ele fosse parte da cidade. Ele me disse que eu era uma sereia, mas eu fiquei imaginando se não era ele que havia saído do mar para me resgatar de uma vida tão cheia de tristezas.

Ele alegrou a minha noite e marcou as minhas férias. Eu sei bem que de lá não vai sair um relacionamento. Seria complicado demais e a complicação já me encheu por uma vida. Mas é bom saber que o beijo que nós trocamos sempre será apenas nosso. Talvez eu o veja novamente, em uma dessas curvas que a vida faz. Se eu vir, saberei que não foi apenas um sonho dessa minha mente criativa.


Notas Finais


E então?


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