História Meu errado professor - Capítulo 14


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Categorias Naruto
Personagens Ino Yamanaka, Kakashi Hatake, Sakura Haruno, Sasuke Uchiha
Tags Colegial, High School, Ino Yamanaka, Kakasaku, Kakashi Hatake, Naruto Uzumaki, Naurto Shippuden, Sakukaka, Sakura Haruno, Sasuke Uchiha
Visualizações 93
Palavras 6.809
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Festa, Ficção Adolescente, Hentai, Mistério, Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Oi meus bebezinhos lindos, eu nem acredito que estou postando o décimo quarto capítulo de MEP, é muita emoção!! Sempre que paro pra pensar, quase desmaio de alegria. Ainda mais com a recepção de vocês, sério, tô numa vibe muito boa! OBRIGADA!

Quero dizer que esse capítulo é muito especial por motivos atípicos. Ele não tem exatamente o que vocês estão querendo, mas é extremamente necessário para o Kakashi, que não sei se perceberam: é meu personagem preferido em toda a face de animes e 2D.
Enfim, estou felicíssima em postar esse capítulo, foi um dos meus preferidos de se escrever até agora, e espero que gostem!

Divirtam-se :*

Capítulo 14 - Eu ainda estou aprendendo


Fanfic / Fanfiction Meu errado professor - Capítulo 14 - Eu ainda estou aprendendo

 

— Eu entendo, e foi ideal que tenha me procurado — Madara assentiu, pouco movendo os lábios, como costumava fazer — Obito é um funcionário produtivo, e seria desastroso que se atrapalhasse no trabalho, devido um caso mal resolvido, do passado. — suspirou, e girou o anel grosso em seu dedo mindinho.

— Espero resolver do melhor jeito possível — puxei uma pasta fina e preta, pousando-a sobre a mesa de granito escura.

— Kakashi, esse é o melhor escritório de advocacia do Sul do Japão, não há nada que não possamos resolver — projetou um quase sorriso, mas que em seu rosto sisudo se tornou uma linha curva nos lábios.

Quase não conseguia interpretar suas feições, primeiro pela luz fraca no ambiente — o que já o tornava mórbido o suficiente, e segundo por suas expressões correlatas.

Recorrer a um advogado para resolver o problema de Akya era óbvio. Só precisei de tempo para pensar nas variáveis, e no quão mal Obito poderia reagir considerando que fui até seu chefe. Na verdade, ao chefe de seu chefe.

Ele pegou a pasta sem se desencostar da grande e acolchoada cadeira rotatória. Atrás de si, vitrais compunham as paredes proporcionando uma vista panorâmica da cidade. Ironicamente, a vista quase não é aproveitada, devido as persianas. Era um cara de preferências mórbidas, nada que me assustasse.

— É muito bem executado, admito — comentou folheando as páginas do processo aberto por Akya — mas, falho como qualquer outro trabalho que chega até nós. Só há um tipo de contrato que não anulamos — me olhou soberbo — os nossos.

Não dava a mínima para a prepotência de Madara, caso ele resolvesse meu problema com Akya, estava de ótimo tamanho.

Desde a conversa estranha e confrontadora com Sakura, no Acervo de Mitologia, passei a tomar decisões com menos medo e mais ímpeto. Coisa dela, admito. Assim sendo, telefonei para Akya, marquei nosso encontro, conversei com amigos próximos e decidi enfrentá-la.

Uma, porque não tinha mais oito anos. Duas, porque não me tornei o tipo de homem que retrocede quando confrontado. E três, porque devia isso não só a Obito, como também a Sakumo.

— Vou deixar nas mãos de Nagato, um dos melhores na vara de família — colocou os documentos de volta à pasta, e parou de se gabar por meros segundos, olhando-me com profundidade — imagino que não queira contar para Obito.

Os fios de Madara estavam puxados para trás, com uma quantidade exagerada de gel mantendo-os preso em um rabo de cavalo simétrico. Nos parâmetros desse cara, as coisas se resolviam de um jeito muito questionável, mas não posso negar a eficiência e rapidez. E convenhamos que Akya mereça um tubarão como Madara farejando seu sangue, até tragá-la. Um pouquinho de vingança não costuma fazer mal.

Inspirei profundamente, me pondo de pé.

— Na verdade, eu mesmo falarei com ele — disse de uma vez, limpo e objetivo.

— Vai ser uma conversa delicada, presumo — Madara se esforçava para encontrar uma falha ou tremor em mim, mas podia me despir completamente. Não estava mentindo.

— Com certeza — olhei de soslaio para o relógio prateado, um dos mais caros na minha coleção consumista de relógios — mas sei como fazer.

Estava atrasado alguns minutos.

A conversa com Madara se estendeu, e não culpo ninguém por isso. Explicar a história da minha vida — consequentemente, da vida do meu irmão — é uma tarefa longa e chata. Contando o que sei ser extremamente necessário, expus um caso, que aos olhos de um advogado como ele, sairia bem caro.

Mas nada que não pudesse sair da minha conta bancária. Por Obito, valia a pena.

— Obrigado pelo seu tempo — me despedi, caminhando até a porta, onde prontamente uma secretária a abriu para mim, usando roupas formais que seguiam o padrão escuro do escritório. Escritório este que ocupava um excêntrico prédio de quase trinta andares.

— Não irá se arrepender.

Foi tudo o que disse antes que a porta se fechasse.

Guiado pela secretária, bisbilhotei muitas saletas e departamentos divididos. Dessa vez Obito tinha conseguido ser contratado num lugar acima das nossas expectativas, e orgulho-me em dizer: por mérito próprio.

Se tornaria um advogado brilhante e de sucesso.

O que rotineiramente me obrigava a me perguntar como poderia ter saído de uma genética como a de Akya?! Não fazia o menor sentido. A semelhança física existia, infelizmente, embora fosse exclusiva. Afirmo com franqueza, Obito é disparadamente melhor do que sua mãe biológica. Melhor até do que eu, na maior parte do tempo.

Enquanto descia pelo elevador espelhado, dividi espaço com muitos funcionários do prédio, olhando para as portas fechadas e pensando em algum ponto distante do meu passado. Quando Akya apareceu, era uma época otimista. Com um sorriso bonito,

cabelo bonito, aparência bonita; se a olhasse rapidamente, ela era como um anjo, com a promessa de tirar dois rapazes de um momento triste. Afinal, depois da morte precoce de Mie — minha mãe — Sakumo e eu nos vimos desacompanhados. Em suma, abraçamos a ruiva como se fosse da família desde sempre.

Eles engravidaram precipitadamente, e com a ingenuidade que tinha naquela idade, pensei que estava conquistando uma família normal outra vez. Mas, bastou que Obito conseguisse simplesmente abrir os olhos sozinho, que Akya revelou ter asas tão negras quanto seu próprio coração.

Ela se foi numa manhã fria de inverno, levando o que restou do coração do meu pai; e ainda me obrigando a assumir uma responsabilidade que, deus é testemunha, nunca foi minha.

— Cuidado com a chuva, senhor — disse o controlador de acesso.

— Obrigado. — sussurrei, compenetrado demais no meu devaneio. Me meti na calçada do centro de Yachiyo, cercado de edifícios que iam até as nuvens.

O final foi rápido, trágico e inevitável. Como cair do último andar. Akya desapareceu sem explicações justas, Obito adoeceu pela ausência de leite materno, e Sakumo nunca mais foi o mesmo. Nossas idas à praia se esvaíram, as pipas que empinávamos juntos ficaram para as traças, a casa de campo foi fechada e se encheu de poeira. Junto com as paredes da casa, Sakumo foi rachando, se deteriorando de dentro para fora.

Em três anos, faleceu.

Imaginem como dar essa notícia a um garoto. Me acostumei cedo demais com as notícias ruins.

Entrei pela porta de vidro da cafeteria ao som do sininho, que tilintou a avisar a chegada de mais um cliente. Bati nas ombreiras do casaco para afastar o gelo. Limpei o solado dos coturnos no tapete, e por fim olhei o ambiente em busca de Obito. Escorado numa parede de ladrilhos colorida, meu irmão roncava abertamente. Seus pés estavam para cima do banco vermelho de couro, e seu notebook ligado sobre a mesa envolto de papéis. Uma cena típica. Citando Obito “não existe regras quando se está com sono”.

— É assim que pretende abrir um escritório?! — ralhei e bati em seus sapatos, o acordei no susto.

— Kakashi?! — reagiu sobressaltado, com um fio de baba lhe escorrendo até o queixo.

Os cabelos acobreados estavam emaranhados, a gravata amassada, olhos dilatados por café e um cheiro de perfume conhecido. Ele roubava minhas fragrâncias na cara de pau.

— Chegou tem muito tempo? — dobrei o casaco, colocando no lado vago do banco retrô, me juntando a um café da manhã tardio.

— Tem — bateu nas teclas do notebook, descuidado. O visor acendeu, e Obito estreitou os olhos para enxergar as horas — cheguei tem uma hora e meia.

— O que fez nesse tempo todo? — penteei o cabelo para trás com os dedos, irritado por tê-lo cortado tão baixo.

— Estudei — se incumbiu de juntar seus papéis, atrapalhando-se — tô auxiliando num caso legal, você não vai aprovar — se precipitou — é da vara criminal.

Arqueei as sobrancelhas. Sim, não me agradava. Mas até nisso agradeci, quem sabe algo de tal magnitude fosse o suficiente para manter meu irmão distraído de seu passado tristonho.

— Algum traficante famoso?! — supus, sinalizando a garçonete de meia idade.

— Muito engraçado — ralhou, começando a guardar as coisas em sua pasta de couro, presente dado por mim — é um sujeito que alega saber quem foi o assassino da esposa, mas só resolveu abrir a boca agora, depois de quinze anos.

— Muito estranho — anuí, me voltei a garçonete — um mocha e rosquinhas da casa, por favor. — apontei para Obito.

— Leite e waffles — disse rápido, retornando ao assunto da conversa com muita excitação — super-estranho!

— E você não podia deixar um caso desses passar — com as mãos enluvadas, peguei o açucareiro, deslizando-o no tablado da mesa.

— Nem fodendo — balançou a cabeça.

— Modos, Obito — ciciei, olhando de esguelha para duas senhoras tomando café na mesa ao lado.

— Você anda muito chato — esticou os braços, acabando de vez com sua postura de cochilo. Em seguida, se inclinou até mim — quanto tempo sem transar?

Esse é o último tópico na lista de assuntos para serem tratados. Quando marquei um encontro na cafeteria, estava decidido a falar sobre Akya e tudo mais, porém, Obito perguntava sobre minha vida sexual. Pior não dava pra ser.

— Desde quando eu lhe presto contas da minha vida particular?

— Desde sempre — interceptou o açucareiro no meio do caminho, pegando-o para si — é que tem uma advogada no escritório, ela é bem mandona. É do jeito que você gosta.

Seus olhos se tornaram travessos, e só pude culpar a mim mesmo por ter plantado nele um hábito que devia ser só meu.

Não era simples esconder do meu irmão as minhas tendências depravadas. Me esforcei bastante, mas, quando com quinze anos, Obito se tornou um porre. Literalmente. Começou a me dar trabalho na escola, com condutas questionáveis e inclusive faltando o respeito para com professores, amigos meus. Tocar no assunto sexualidade se transformou numa necessidade, e o fizemos. Descobri que ele se culpava por ainda ser virgem dentro de uma turma de garotos descontrolados.

Conversa vai, conversa vem; chegamos à conclusão de que não precisava ser um tabu para ele, e que, quanto mais obtivesse informação, menos riscos correria.

Aos dezesseis anos, ele perdeu a virgindade.

E sem o meu consentimento, passou a me enxergar como uma espécie de exemplo.

Para o meu azar.

— Podemos falar disso depois?!

— Cara, você não tá entendendo. Os peitos dela são únicos — abriu bem os olhos — e eu já contei pra todo mundo que tenho um irmão que consegue chegar nela.

— Obito, pelo amor de deus — apoiei o cotovelo na mesa e massageei a testa.

— Sério, não é mais uma questão sua, é em nome de todos os advogados solteiros do meu andar — espalmou as mãos no tablado de madeira, sério.

— Não estou procurando ninguém, mas obrigado — falei num fio de voz, constrangido pelas velhinhas fofoqueiras que se apertavam para nos escutar.

— Em algum momento você vai precisar vencer esse medo de namoro — moveu a cabeça, apreensivo.

— Não é medo — o olhei irritado — é questão de não querer.

— É medo sim, a gente sabe que o que aconteceu seis anos atrás foi difícil de superar, mas...

Por tudo o que é sagrado, a garçonete se achegou com a bandeja repleta pelos nossos pedidos.

— Aqui está — disse sorridente, depositando os pratos na nossa frente.

A única coisa capaz de calar Obito, era comida. E assim foi feito. Esquecendo-se magicamente do discurso idiota que fazia, passou a cortar seus waffles, dividido entre enfiá-los de uma vez na boca ou despejar mel em cima deles.

Puxei meu copo de café, erguendo-o e deixando que o calor melhorasse meu humor.

Com a mão livre, peguei uma das rosquinhas adocicadas, lambendo os lábios.

— E como vai o caso — de boca cheia, Obito me olhou — daquela sua aluna estranha, a filha da médica.

Pego desprevenido, queimei a ponta da língua com o café.

Voltei a colocar o copo na mesa, atrapalhado pelo olhar inquisitivo sobre a minha pessoa. O café da manhã ficava cada vez mais delicado.

— Am — engoli a seco — vai bem. Nós voltamos a ter as aulas extras.

— Ela continua sendo um problema?! — soergueu uma sobrancelha.

— Não. Está tudo indo bem.

— Tem certeza? Tô te achando meio estranho — terminou metade da porção de waffles, pegando guardanapos.

É, eu mesmo me achava estranho quando tocava no assunto Sakura. Mas, esconder o beijo certamente deixava tudo num nível catastrófico.

— Ficou meio pessoal, porque... — medi as palavras, cauteloso — descobri que ela tem muitos problemas em casa. Estou tentando ajudar.

Surpreso, Obito amassou o guardanapo.

— Você? Se oferecendo para dar conselhos na vida pessoal de uma aluna problemática? — jogou a bolinha de papel em seu prato — Acho que meu irmão cresceu.

Preferi não dizer nada, porque não sabia como manusear o fato. Obito não estava errado. Sei reconhecer que vivemos em constante mudança, mas em pouquíssimo tempo tinha conseguido quebrar metade das regras que impus a mim mesmo quando iniciei a carreira de professor.

— Não vai comer? — apontou para a rosquinha de creme.

— Fica à vontade — empurrei para ele, desanimado.

— Foi mal se te fiz pensar no que não devia — pegou a rosquinha, se arreganhando todo para o doce — é que achei que gostasse de falar sobre esse caso. Já que, foi tudo o que soube falar nas últimas semanas, “a aluna endiabrada do cabelo rosa” — revirou os olhos.

— Na verdade, gostaria que fosse o único assunto a ser tratado — suspirei — mas, infelizmente não é.

Mirei Obito, coloquei o assunto “Sakura” de lado e passei a me concentrar no que me trouxe até aqui. Deixei-o comer suas rosquinhas e sujar o canto da boca, lembrando-me sua infância. Não bancaria o chato quadrado, exigindo etiqueta. Não, eu já estava prestes a lhe trazer sofrimento demais.

— Parece até que viu um fantasma, desembucha.

Com aquele comentário travesso, eu segui à risca. Pelas beiradas, abri a boca e usei dos melhores termos que conhecia para revirar a caixa das lembranças, citando nomes que Obito nem acreditava estarem vivos. Sua expressão congelou numa curiosidade, inicialmente compreensiva, mas com alguns minutos a mais de conversa, passou a me preocupar.

Com mais alguns segundos e a citação do nome “Akya”, seu rosto facilmente se transfigurou para o primeiro estágio da raiva. Ah, queria ter parado de falar àquela altura. Preferiria continuar dialogando sobre meu estilo de vida depravado por horas, do que sobre um passado tão doloroso. Obito abandonou o prato de waffles, e a refeição esfriou e perdeu cor, junto com os olhos amendoados dele. Seus lábios secavam, de tanto que ficaram abertos. E mesmo assim, som nenhum saía de sua boca, o que me deixou ainda mais nervoso. Preferia quando meu irmão tagarelava na minha cabeça, e não quando eu era a razão de sua mudez.

Por sorte, as rosquinhas sustentaram o meu estômago, que se estivesse vazio já teria regurgitado. Olhá-lo enquanto dizia a verdade, era como puni-lo injustamente. Me senti malvado, como se a figura que os alunos criavam sobre mim na Academia fosse verdadeira.

Ao final de toda a história, ele me pareceu pálido. Quase febril.

— Obito, eu... — ergui um dedo, mas não tinha ânimo para dizer mais nada. Balancei a cabeça em negação, assistindo-o assimilar.

Minha língua estava seca, com gosto de fel. A ardência nos olhos me obrigava a piscá-los, mas admito um medo prematuro de perdê-lo de vista. Afinal, a minha resistência a tocar nesse assunto pode ser resumida nisso: medo de perder Obito.

Aparentemente, já tinha perdido sua confiança.

— Vamos pra casa — puxei duas notas da carteira, largando-as sobre a mesa.

— Vamos?! Espera aí — áspero, seus olhos se converteram a um violeta agitado, e mostrou os dentes pra mim — não vou a lugar nenhum com você.

Apertei os dedos contra a palma da mão.

— Só entra no carro — ciciei, andando lentamente até a saída, deixando as senhoras enxeridas loucas de curiosidade.

Ouvi passos pesados em meu encalço, e pensando que teria somente de lidar com um rapaz consternado, ele me surpreendeu. Obito saiu batendo a porta do estabelecimento, a pasta entreaberta e papéis voando por ela. Desnorteado, bagunçava o próprio cabelo, dando a impressão de queria arrancá-los fio por fio.

— Por aqui — apontei sentido oposto à calçada, aonde o carro jazia estacionado.

— Acha mesmo que vou com você? — puxou a gola da gravata, quase se sufocando — Tá de sacanagem.

Numa súbita frieza — adquirida com o tempo —, me mantive complacente, tentando não aumentar sua raiva. Mas parecia que nada adiantava, só de me ver ali, Obito tremia com fervor nos olhos.

Ele não tinha muita escolha, mas estava disposto a gritar suas concepções distorcidas, então, quieto anuí. Andando até o estacionamento. Por cima do ombro, vi sua silhueta franzina extravasar, gritando contra a própria pasta e até se atrapalhar enquanto pedestres passavam pela calçada. Abri a porta do carro, sentei no banco e suspirei, pelo retrovisor ele vinha em direção ao veículo.

Foi uma dolorosa e silenciosa viagem até em casa, com o cheiro predominante dos cigarros dele — hábito que repudiava, mas não tinha o direito de repreendê-lo — e seus dedos tamborilando freneticamente no porta-luvas. Sei que não é certo bancar o sabichão, e querer supor o que imaginava, mas para mim estava explícito: Obito queria me jogar do carro na maior parte do trajeto.

Lidei com isso da melhor forma que encontrei, acelerei e encurtei o tempo na metade. Não que tivesse medo de que ele fatalmente tentasse algo tão louco — primeiro porque ele não é capaz, e segundo porque ele não é tão forte fisicamente —, mas sim por não suportar olhar para o meu próprio reflexo em todos os retrovisores sem querer me culpar por tudo.

Estacionei na garagem, mas ele saltou do carro antes do tempo. Vi seu corpo esguio bater a porta da frente.

Soltei um suspiro longo, até que não houvesse mais ar nos meus pulmões. Queria ter uma sensação real, como dor física, cansaço. Coisas que não se mantivessem dentro da minha cabeça, destruindo meu psicológico.

Quando entrei em casa, me arrependi. Não pude vê-lo, mas seguindo o som alto e estridente de seu choro, soube que estava em seu quarto. Nem a porta fechada do cômodo era capaz de abafar, e as paredes da casa propagaram cada soluço de Obito.

Escorei as costas à porta, conflitado. Larguei casaco, chaves, celular, me despi de toda a armadura. Não havia nada que pudesse fazer.

Fiquei ali, ouvindo-o chorar, até perder a noção do tempo.

 

[...]

 

— Professor, olha, por favor — segurou a porta do elevador para mim — em nome de tudo o que é mais sagrado para o senhor, só preciso de dois pontos!

— Iria se surpreender com a ínfima quantidade de coisas que são sacras para mim, Suigetsu — devolvi ao desesperado aluno, que estava  em cima de uma tênue linha de reprovação.

— São só dois pontos! — com uma aparência péssima e mau hálito, o jovem se agarrou a porta de inox.

Engolindo a própria língua, Suigetsu travou seu oratório, sentindo uma pesada mão em seu ombro.

— Continue, senhor Hozuki — Mangetsu, com uma presilha segurando sua ridícula franja e uma bela gravata preta, apareceu — dois pontos no que mesmo?!

O coitado ficou tão pálido quanto o próprio cabelo, dando passagem a seu irmão e também — para seu azar — seu professor de matemática.

— Espero você na próxima aula, senhor Hozuki — Itachi, também dentro do elevador, acenou irônico.

— Espero você em casa, Suigetsu — com um tom de voz nada feliz, Mangetsu pontuou.

As portas se vedaram, e sentimos o estremecer do maquinário nos descendo pelos andares da Academia. Escutei Mangetsu reclamar da compostura de seu irmão mais novo pelos próximos quinze segundos, até que ele descesse no segundo andar. Reforcei o botão do térreo, desinteressado na cena como um todo.

— Está meio óbvio que você tá de mau humor — Itachi comentou livremente. Em suas mãos, uma caneta de quadro estourada pingava a tinta pelo chão do elevador.

—Você nem vai querer saber.

— Falou com Obito sobre a mãe dele — prosseguiu, porque relevar minha cara de cão era um dom somente dele.

— E ele não fala comigo há dois dias — suspirei, apertando os dedos dentro do bolso.

— A conversa foi na segunda-feira? — perguntou e eu assenti — Hoje já é quinta-feira, Kakashi, não dá pra passar a semana inteira sem falar com seu irmão, vocês moram na mesma casa.

— Pelo visto, é possível — contraí o maxilar, irritado e de cabeça quente — ele até levou a cafeteira pro quarto, e acho que está usando o banheiro da piscina. Tem até cuecas no varal do quintal.

— E já procurou conversar com ele? Digo, depois da segunda-feira?

— Claro que não — o olhei, movendo a cabeça em negação — ele não quer falar comigo, não percebe?!

— E você está considerando isso por qual motivo? — franziu o cenho, unindo aquelas ralas sobrancelhas expressando inconformidade — Agora Obito que é o irmão mais velho?!

— É muito complicado.

— Complicado? — Itachi bufou, batendo a palma de sua mão ossuda no botão vermelho, travando o elevador tão próximo ao térreo — Não venha falar de relacionamento fraternal complicado, não comigo!

Massageei a testa, prevendo um sermão.

— Acredite em mim, estou de mãos atadas.

— Não, você está sendo um idiota — como se fosse simples, Itachi arqueou as sobrancelhas — agindo como se tivesse todo tempo do mundo para resolver isso, mas não tem. Kakashi — me olhou, sem sombra de hesitação, num rosto sério que raramente usava — nós não temos todo o tempo do mundo.

Em seus olhos enegrecidos, enxerguei um Itachi do passado, cuja nossa semelhança não terminava só na nossa vida profissional, infelizmente. É um homem de muitos remendos e cicatrizes, marcado por uma culpa que o aprisiona monstruosamente.

— Não fica aí, me olhando com pena — me tirou do transe — eu errei com o meu irmão, mas sabe que não te perdoaria se errasse com o seu.

— Eu não tenho o que dizer pra ele — revidei, num tom mais alto que gostaria — não tenho desculpas o suficiente. É a mãe dele!

— E você é o irmão dele! E também a única família que Obito tem, pelo amor que você tem a sua planilha, faça alguma coisa. — soando como uma ameaça, Itachi gesticulou seu dedo sujo de tinta para mim.

Respirei fundo, sem ter nada para responder.

Notando que não reagiria ele espalmou novamente o botão, e as engrenagens rugiram nos levando para o andar inferior. Quando as portas se abriram, lidei com o extenso e vazio corredor do térreo, enxergando os coloridos panfletos e post-its colados nos murais que seguiam toda a parede. Saí sem pressa, vagueando mais em meus pensamentos do que no plano físico.

— Sem fraquejar, Kakashi — me alfinetou uma última vez, e tomou a porta do banheiro masculino.

Adiante, observei a bela paisagem da manhã, gracejando a Academia com flocos de neve transparentes. Os pinheiros cultivados na fachada externa tinham seus caules cobertos de branco, o que cooperava para me fazer sentir o aproximar de uma época do ano cheia de tradições. Seria comum aguardar ansiosamente pelo feriado, e então rumar até a casa Hatake no interior, carregando Obito junto com um pacote de salgadinhos, acender a lareira e relaxar na velha poltrona de Sakumo.

Hábitos que não estava disposto a perder, principalmente por culpa da senhora Akya, uma alma errante e desagradável.

Uma das portas das salas se abriu, rompendo o silêncio pragmático com muita conversação; e o professor de Geografia, Zetsu, saiu com um grupo peculiar em seu encalço.

— Senhoritas, eu já disse que não existe dupla de três!

— Senhor Kuro, por favor, não dá pra deixar Ino sozinha nessa, ela é muito burra em seminários — a aluna da 3001 praticamente se agarrava às roupas sociais do azarado professor, com olhos pidões.

— Eu não sou burra — senhorita Yamanaka, igualmente desesperada, se defendeu.

— Foi mal — se retratou porcamente — ela tem déficit — arqueou sobrancelhas rosas, enigmática.

— Meninas, por favor, já disse que não!

Continuei meu caminho, escondendo um sentimento de companheirismo sobre o dilema do professor citado, afinal, passava a mesma insatisfação cada vez que propunha um trabalho. Ao que parece, é um crime no mundo feminino separar um trio de amigas.

— Ohayo, professor Hatake — ajeitando seus óculos redondos, e tentando ficar inteiro, Zetsu me evidenciou.

— Ohayo — respondi, interessado em meu próprio caminho.

Sakura, entretanto, pareceu instigada na trilha imaginária que segui. Ergueu-se sobre seus calcanhares, querendo adivinhar meu destino incerto.

— O professor Hatake sempre nos deixa fazer trabalho juntas — a voz da Haruno, por mais baixo que fosse, nunca passava desapercebida dos meus ouvidos. Apertando um riso fraco, firmei os olhos adiante, fingindo que não percebi estar me usando falsamente como arma de convencimento.

— Jura?! — curioso, Zetsu hesitou. Péssima compostura quando perante alunas do ensino médio — Ele faz isso?

— O tempo todo — Sakura mentindo era como uma música: melodiosa, maliciosa e previsível.

— Hum — o doutor em geografia ponderou, de longe o escutei ceder, e gritinhos de viva vieram da parte das meninas — eu vou deixar, mas só dessa vez.

Se você cedia uma vez, cederia sempre. Um erro de principiante.

Embargado pela repentina sensação de ver Sakura vivendo sua vida, tão iluminada com a imposição de não desistir, fui roubado dos pensamentos anteriores.

Vou procurar Obito assim que o expediente acabar.

 

[...]

 

Eram quase sete horas da noite quando estacionei o carro na garagem de casa. Havia um certo apreço que me envolvia sempre que chegava, e não é uma loucura da minha cabeça. Se posso explicar, começaria dizendo que, foi a primeira casa que mobiliei com o meu dinheiro. Com os bens de Sakumo confiscados até minha maioridade, fui acometido a buscar um emprego, e depois de meses como garçom, fiz questão de levar Obito até uma loja de departamentos.

Sua mão era escorregadia quando com seis anos, e seus pés constantemente corriam para fazerem alguma besteira. Então, o segurei firme pelo pulso e perambulei entre os corredores gigantescos, sem ter ideia do que estava fazendo com a minha vida. Olhando uma porção de vasos sanitários, tentava entender qual a diferença entre um vaso com descarga interna ou externa, notei que Obito tinha desaparecido. Praguejei, soltando uns dez palavrões — sim, passei por demorados tratamentos em meu vocabulário —, fui achá-lo muitos corredores à frente, onde o mesmo batia sem parar numa porta vermelha e singela.

Ele ficou tão fascinado com aquilo, que a primeira coisa que comprei com meu salário de garçom foi uma porta. A maior idiotice da minha vida adolescente, admito, mas era tão engraçado vê-lo querer bater na porta o tempo todo.

Com essa lembrança, me sentei à ilha da cozinha, compenetrado na passagem de tempo do relógio na parede, aguardando Obito chegar do trabalho.

A porta se abriu, trazendo a ventania que se instaurou na cidade, e o tapete de entrada se entortou. Alguns guarda-chuvas, pendurados no cabideiro do hall, caíram. Desengonçado, Obito se equilibrava em conseguir fechar a porta e falar ao celular.

— Senhor Madara, eu prometo que entrego as planilhas amanhã o mais cedo possível em sua mesa — deixou cair outro guarda-chuva, travando uma luta com a ventania que empurrava a porta — o que?! Como assim, nessa madrugada? O senhor não dorme não, hein?!

Confuso, Obito percebeu que tinha tido a ligação terminada em sua cara. Jogou o aparelho na mesinha do corredor e voltou a fechar a porta.

Puxei minha garrafa longneck, apressado em sentir o gosto do álcool.

— Ogro — ofendeu o que parecia ser seu chefe, mas se certificando de que ele não o ouvia. De pé, Obito começou a se desfazer de seus casacos e sobretudo.

— Itterashai — o cumprimentei, como costumávamos fazer quando criança. De esguelha, ele me olhou, mas seu orgulho manteve seu nariz em pé. Lhe dei mais alguns segundos, terminando de beber toda a garrafa, girei no banquinho da cozinha, acompanhando calmamente Obito desbravar a geladeira de portas duplas.

— Tem que fazer compras — murmurou, mais para si mesmo — acabou o hambúrguer instantâneo.

— Quer ir a um fast-food?!

— Tsc — me ignorou, abandonando a geladeira e abrindo os armários — que saco, sem cereal também.

Respira fundo, Kakashi, não vai pegar bem jogar a garrafa na cabeça dele. Odiava as pirraças de Obito, odeio com muita força. Quantas vezes o deixei batendo os pés sozinho no meio da rua, vermelho de vergonha. Ele berrava e se esperneava, dizendo que queria comprar o brinquedo tal, e eu, com catorze anos e muito hormônio acumulado, simplesmente fingia que nem conhecia a criança.

Hoje, fico rindo quando me lembro, mas já quis vendê-lo pela internet. Cheguei a escrever o anúncio e tudo.

— Está muito cansado?! Podemos ir ao supermercado — propus.

Ir ao mercado era a função de Obito, segundo ele, eu não prestava para fazer compras sustáveis. Sempre esquecia alguma coisa.

— Não falo com traidores — murmurou enquanto enchia um copo de vidro com água morna.

— Então, vai passar fome — refutei, quis implicar com ele.

— Um ser humano adulto tem a capacidade de sobreviver trinta dias só com água e pão — novamente, seus olhos infantis vieram até mim, discretos.

— Você não sobreviveria nem dois dias só com água e pão — empurrei a garrafa até o canto da bancada de mármore, junto de outras duas — vamos lá, deixo você dirigir.

Mesmo de costas, pude senti-lo hesitar. Dirigir meu carro automático e com tantos cilindros sempre o balançava.

— Kakashi, eu não quero falar com você.

Arqueei as sobrancelhas, o jeito enxuto de lidar com a pirraça de Obito já crescido, era lhe dando o meu silêncio.

Me acomodei de novo na bancada, onde tinha uma vista privilegiada da sala de estar, onde a televisão sem som passava um filme qualquer, com uma atriz bonita e curvilínea, me ocupei a não dar atenção à marcha desobediente de Obito. Até que ele bateu a porta de seu quarto.

Desabei sobre a ilha, escorando a testa no mármore.

— Custava ter um temperamento maleável?! — questionei num sussurro — Ou, pelo menos, não fumar tanto cigarro? — já senti a nicotina emanar de seu quarto.

O filme tinha acabado para mim, não seria possível passar nem mais um segundo sentado com uma criança de um metro e setenta e oito dentro de casa. Chega. Com a cerveja gelada numa mão e o punho cerrado na outra, parei na primeira porta do corredor, dando batidas controladas. Vamos manter o clima civilizado.

— Obito, abre a porta, quero falar com você — bati mais quatro vezes.

Era possível que estivesse dormindo, mas, pelo som ritmado que vinha do lado de dentro, posso supor que esteja ligando seu videogame, se preparando para descontar algumas horas online. Considerando que ainda teria de trabalhar pela madrugada, Obito se embriagaria com cafeína e cigarro.

— Pode parar com a infantilidade? — confesso que quase gritando, bati na porta.

Repentinamente, ele a abriu, mas havia travas e correntes me impedindo de entrar. Colocando a cabeça na frecha, Obito já estava sem camisa e com uma cara de desordeiro do cacete.

— O que quer?!

— Que abra essa porta, anda. Preciso falar com você.

— Estou trabalhando — tentou fechar, mas segurei espalmando a mão na madeira.

— Não mente pra mim, você está jogando videogame. — estreitei os olhos.

— É o meu segundo trabalho.

Suspirei, não estava mais com idade para aguentar esse tipo de conduta.

— Obito, eu fui sincero com você. Expus toda a verdade. Sei que é difícil, que dói, que machuca; mas não é culpa minha. Se eu pudesse, nunca teria te contado a verdade. Porque sabia que quando soubesse sobre sua mãe, reagiria dessa forma. Então, é difícil pra mim também.

Seus olhos nem piscaram. Foi um confessionário inusitado, mas o planejei a tarde toda.

— Mas custava você ter me falado assim que ela apareceu?! — uniu as sobrancelhas.

— Você teria reagido diferente? — rebati, e ele cerrou os lábios de imediato — Me diz, você teria ficado menos chateado? Mudaria alguma coisa?

Esperei pacientemente alguns segundos, até Obito bater a porta, e remover os trancos que colocou recentemente — sem comentários. Em seguida, vislumbrei seu quarto há dias não deixado aberto para a faxineira, e um aglomerado de roupas crescia no chão perto ao futon.

— É que não esperava isso de você. — não tinha mais resquícios de humor em seu rosto — Esperava de qualquer outra pessoa, menos de vocês.

— De vocês?!

— Da minha família. — passou os braços para trás, perdido em seus próprios pensamentos — mesmo que meu pai tenha morrido, sempre soube que ele tinha sido um coronel fodão e tudo mais. E você também é desse jeito aí — desviou o rosto — não achei que seria diferente com ela.

Sua voz embargou, e meus ombros se retesaram. Fazê-lo chorar não era a minha intenção.

Mas, Obito nem mesmo deixou uma lágrima escapar. Engoliu a tudo, passou a mão no rosto e girou dentro do quarto. Pescou o maço de cigarro aberto em cima da cama, brincando com o objeto em vez de acendê-lo.

— Sempre montei uma imagem na minha cabeça. Akya podia ser uma professora de música, saberia tocar violino, seria uma mulher dócil e elegante. Que gosta de passear pela praia, e sempre sonhou em velejar — puxou um cigarro, mas logo o guardou — não era pra ela ser um monstro.

Como se uma pedra caísse na minha cabeça, uma dor se propagou. E junto a isso, ironicamente, veio a epifania.

Meu erro não findava no fato de não ter contado a verdade, como também tinha a ver com ter contado a minha verdade, e não o deixado enxergar com seus próprios olhos.

Querendo ou não, a vontade de protegê-lo estragou tudo. De novo.

— Ela não é — relutei, com a boca contrariada — um monstro.

Para mim, ela é o pior monstro abissal. Mas, Obito nem mesmo a conhecia, como podia ter um julgamento tão cruel sobre a mesma?!

— Só foi uma mulher questionável — me apoiei ao umbral da porta.

— Ela acabou com vocês, não foi?! — me olhou, expectando o pior.

Pela primeira vez na vida, assisti meu passado com outros olhos. Era como sentar na cadeira do espectador ao invés do atuante, e observar com um prisma distinto do sofrimento. Francamente, o sofrimento de um garoto com uma madrasta ruim, não era o cerne principal. Tinha também a história de outro garoto, que nunca conheceu a mãe, e precisa encarar a realidade de que ela é um ser humano desprezível.

— É, mas — suspirei, descrente de que diria isso — Sakumo já estava doente.

Me senti desconjuntado. Falando coisas que jamais passearam na minha mente antes, nem em delírios.

— Não tenta amenizar — sorriu, fraco, como um garoto assombrado — sei que minha mãe deixou você na pior. Minha mãe. — ressaltou, de olhos bem abertos.

 — Quer saber, eu também não passei tempo com a minha mãe, e não dá pra dizer que foi a melhor mulher do mundo — cruzei um pé por cima do outro, desligado da cerveja que já esquentava em minha mão — ouvi dizer de parentes que ela era viciada em jogos.

— Isso não se compara a uma mãe que abandona seu próprio filho — arregalou os olhos.

— Obito, você teve o pai mais incrível do mundo — balancei a cerveja dentro da garrafa, sereno — isso é mais do que o suficiente. Sakumo tem um quadro de honra ao mérito no museu militar mais importante do país, ele pisou em mais de cinquenta países, falava quatro línguas, tocava piano e violão, e o mais importante — observei seu sorriso de canto — trocava suas fraldas com toda paciência, e sabe o que ele dizia quando você abria esse bocão pra chorar?!

Não conseguindo mais se conter, Obito abaixou a cabeça entre os braços, rindo anasalado.

— Deixe ele chorar, quem chora muito se torna advogado — juntos, nós dois citamos o velho provérbio do Sakumo.

— E ele tinha razão — endossei — como sempre.

— Mas, Akya...

— Eu também não sei explicar o gosto ruim dele para mulheres, mas todos nós erramos. Todos nós.

Não que em meu inconsciente houvesse a misericórdia para perdoar a desgraçada da Akya, porém, já tinha reaprendido lições valiosas só no dia de hoje. Por agora, vamos manter o clima ameno.

— E agora ela ainda quer tirar nossos bens — suspirou, falando abafado por apertar a boca contra suas mãos.

— Mais ou menos, sim — dei de ombros.

— Você sabe o que ela faz da vida?

— No começo, achávamos que ela trabalhava como corretora, mas alguns anos mais tarde, descobri que ela é aeromoça, numa companhia importante.

— Aeromoça — replicou, descrente — minha mãe é aeromoça.

— Isso mesmo — sem pensar, acabei bebendo, mas amarguei o rosto por sentir a cerveja quente.

— Sabe o que isso significa? — Obito finalmente pegou o cigarro, tirando o isqueiro com maestria e o girando no ar. Anuí, esperando explicações — Que temos uma família que compõe todas as esferas da sociedade: militarismo, educação, leis e assuntos internacionais.

Não tive como não achar graça, e acabei rindo. Éramos uns dois idiotas, encontrando o otimismo aonde não tinha nada.

— É um bom ponto — comentei, com as bochechas quentes.

— Acho melhor irmos ao supermercado — soltou, depois de fumar e rir.

— Tenho um lugar pra levar você, coloque um casaco pesado.

 

 

Saímos de casa depois de apagar todas as luzes, e depois de Obito colocar a cafeteira de volta a cozinha — o olhei muito irritado por isso, aliás. Me apossei da estrada, numa velocidade inferior à que costumava tomar, considerando a pista escorregadia desde a última e recente geada.

Resguardados por um momento ameno e cúmplice, não precisamos falar muito. Paramos no supermercado, enchemos dois carrinhos de compras questionáveis e que fossem do agrado bobo de Obito, passamos meu cartão de débito — aqui já não achei tão engraçado realizar os desejos dele; e finalmente, nos levei até um recanto privado. Quando a fachada do cemitério surgiu, com as flores ornamentais e estátuas sempre muito bem cuidadas, Obito enrijeceu o corpo. Notei sua hesitação.

Ele não tinha esse costume, infelizmente.

Foi um longo caminho pelas ruazinhas de pedras, meu irmão se demorou a relaxar. Enquanto que eu, bem, estava mais do que tranquilo.

Em frente à lápide com mínimas rasuras, nós dois cruzamos os braços, fugindo da noite gélida.

— Então, esse é o papai?! — sem jeito, Obito movia os dedos, inquieto. Queria fumar, mas não tinha coragem de fazê-lo na frente de Sakumo.

— Isso — me tornei apreensivo quanto a sua postura, me aproximando mais da lápide — Pai, hoje eu trouxe uma visita especial.

— Você fala com ele?

— O tempo todo — sorri fraco, ocultado pela noite escura — é algo muito bom, devia tentar.

— Eu?! — arquejou — Hum, ok. É, então, oi. Eu sou Obito, seu filho. Não nos falamos muito, mas eu ouvi falar sobre o senhor.

Abafei um riso com o antebraço, para que Obito tivesse sua privacidade.

— É uma pena, você nos deixou tão cedo, gostaria mesmo de tê-lo conhecido. Sei que foi um grande homem — suspirou, mexendo na grama com a ponta do tênis — mas sabe, queria agradecer a você; me deu o melhor irmão que poderia existir. Na verdade, me desculpa por isso, é que nunca chorei por você ter morrido, já que Kakashi supriu tudo. Quero dizer que fez um bom trabalho com ele, é tão foda quanto você deve ter sido um dia. 

O silêncio que sucedeu foi proposital. Não queria estragar nada, tampouco tinha a acrescentar. Dobrei-me por sobre o joelho, apoiando na grama, e delicadamente guiei um lírio branco até o vaso, onde um agrupado de flores brancas já secava. Fiz a troca sem pressa, sabendo que Obito assistia a tudo com atenção.

Quando terminei, o sino do templo ecoou as badaladas das nove horas, uma sintonia sacra e que poderia ter sido melancólica, mas que pautada pelo cúmplice sentimento entre mim, meu irmão e meu pai, se tornou agradável.

Senti a mão cálida e Obito sobre meu ombro, dedicando muitas condolências sem precisar abrir a boca.

— Só flores brancas — comentei disperso, fixado em relembrar os hábitos daquele homem tão peculiar.

— É uma pena, pai, mas Kakashi só veste preto — sussurrou, em forma de denúncia, com um tom brincalhão.

Arqueei as costas, me colocando de pé, na mesma hora abanando a cabeça.

— Preto é mais elegante, ele saberia disso — dei de ombros.

— Você ainda não superou sua fase gótica — revirou os olhos, puxando um chiclete de menta e lançando-o à boca.

— Toma — repeti o gesto, mas segurando um papel pequeno, com letra feita às pressas — acho que isso é de seu interesse.

Obito se demorou a enxergar — agravando o fato de que precisava ir a um oftalmologista —, quando se deu conta de que se tratava de um número de telefone, pressionou mais a ponta dos dedos no papel.

— É dela, não é?!

— Sim.

— Não acho que devo... — comprimiu os lábios, mastigando freneticamente.

— A decisão é sua. — dei uma última e alongada olhada para meu pai, com uma reverência respeitosa, deixei a lápide.

Ainda que exercesse tanta pressão na vida de Obito, precisa ficar claro na minha cabeça que: ele não me pertencia.

Sendo mais consciente, nem mesmo Sakumo me privava de ter minhas próprias preferências e personalidade. Lembro-me de não negar minha escolha por camisetas pretas, e o sorvete de milho-verde — algo detestável pela maioria dos japoneses. Enfim, parece que eu entendi. Finalmente.

Na saída do cemitério, escorei-me à porta do carro, aguardando Obito se achegar com o seu celular em mãos. Quieto, destravei as portas e entrei, ele o fez em seguida. Reservado no acústico do veículo, tratei de girar a chave e me concentrar somente na estrada; seria um momento exclusivo dele.

— Alô?! — ouvi Obito ao celular, rígido no banco do carona, indisposto e nervoso até mesmo para colocar o cinto de segurança — Mãe?

 


Notas Finais


Lindíneos, ficou um clima muito lindo né?! Tem um olho na minha lágrima após esse final.
Vocês bem sabem que estou com problemas para responder comentários, mas tô quase colocando em dia!! Agradeço a paciência <3

Gente, a partir daqui as coisas estão tomando proporções bem mais PÁ PUM POU POU PÁA, sei lá, espero que estejam preparados porque a vibe fofa ACABOU HHUAHUAHUAHUAHUA valeu

Até a próxima :DDDDDD


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