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História Meu erro destinado - Capítulo 2


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Notas do Autor


Oi, gente!!! Queria dizer que tô muito feliz com o retorno de vocês sobre o primeiro cap! Obrigada mesmo pra todo mundo que elogiou e me incentivou a continuar. Tô bem animada com a história.

Fiquem então o cap de hoje. Com vocês: Samantinha na área!

Boa leitura!

Capítulo 2 - Uma sexta-feira muito louca


- Heloísa, espera, deixa eu ver se entendi. Você encontrou uma carta de amor proibida de Dom Pedro I, e ele dizia ter uma filha, que você acha que pode render extensas pesquisas acadêmicas sobre uma outra perspectiva da família real? Como seria o nome mesmo dessa tal… hã... “princesa perdida”? - Perguntou JM extremamente confuso e um pouco preocupado com o estado mental de sua funcionária. 

- É Samantha. - Lica revelou com o brilho nos olhos igual ao de uma criança que acha um tesouro. - Samantha Lambertini. 

- Certo, Samantha Lambertini. Eu... eu acho realmente interessante, se você entrar em contato com esse site aqui quem sabe eles acatem a sua ideia…

Lica mal podia acreditar no que estava ouvindo! Seu chefe gostou de verdade da sua descoberta?

- Toma, é só mandar um e-mail. - JM disse estendendo um papel.

A felicidade na vida de Heloísa de fato durava muito pouco. E sua paciência também.

- Que porra é essa, Jean?

- Primeiramente, nunca esqueça que eu sou seu chefe, você não tem liberdade para usar esse tipo de linguagem. Em segundo lugar, é só uma brincadeirinha pra descontrair, Heloísa! Você precisa para de ser tão séria. 

Lica precisou contar até 10, até 100, até 1000… Ela só queria voar no pescoço daquele desgraçado! 

- Você que precisa aprender a ser mais profissional! Site da Disney? Sério? Voltamos pra quinta série e eu não percebi? - Falou com o rosto já vermelho de raiva e… e de um pouco de vergonha também. Odiava admitir, mas ela realmente criou esperanças de que sua ideia seria valorizada por ele. 

JM ainda teve a coragem de gargalhar na sua frente. - Nós voltamos pra quinta série no momento em que você resolveu brincar de contos de fada comigo, Heloísa. Princesa perdida? Quem escreveu essa carta aí, o filho da Keyla? - Completou ainda rindo.

- Quem escreveu essa carta foi o próprio D. Pedro I e eu sei do que estou falando! Sou formada em história caso tenha esquecido, eu não traria essa questão pra você se não achasse que é realmente importante! O Grupo poderia ficar conhecido por realizar uma pesquisa nova, imagina se o que descobríssemos fosse parar em um livro de história algum dia! 

- Entenda uma coisa, por favor. Ter o Grupo em um livro de história não é importante. Nós produzimos os livros aqui, pelo amor de deus! O logo da empresa já está estampado em vários materiais espalhados por todo o país. Não precisamos gastar tempo e energia pra bancar os desbravadores dos casos de adultério do D. Pedro! A história já tá escrita, as pessoas já sabem que ele pulou a cerca, inclusive o cara já é super massacrado por isso. 

- A história não é só o que está escrito! História se faz o tempo inteiro! Tem muita coisa que a gente ainda não sabe, e quando se tem uma oportunidade dessas não podemos deixar passar! - Rebateu Lica ainda tentando ver se seu chefe tinha algum resquício de sanidade.

- Me poupe dos seus discursinhos militantes. E chega desse assunto ou eu vou sair do sério! Não é interessante para a empresa realizar essa pesquisa, provavelmente isso é um documento falso e você não tem autorização para insistir com esse assunto. Estamos entendidos? - Disse JM voltando a sua atenção para a tela do computador. 

Lica não conseguia medir o tamanho do seu ódio. 

- Estamos entendidos, Heloísa? 

- Sim. - Respondeu sem conseguir encará-lo.

- Ótimo. Vi que você já me enviou os arquivos da pesquisa, muito bem. Sabia que daria conta mesmo com o prazo curto. O projeto com as crianças vai ser um sucesso. Terça-feira que vem você começa no museu. 

- Certo. 

- Está dispensada. E parabéns, Heloísa, você é uma boa profissional. É só saber dedicar seu tempo com coisas que realmente valem a pena e você ainda irá muito longe. 

Lica apenas acenou com a cabeça. - Com licença, preciso voltar para a minha sala. - E saiu dali rapidamente querendo mais do que nunca tacar fogo naquele cara, naquele prédio, e naquela empresa inteira. 

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Depois de verem uma Lica saindo da sala do chefe quase chutando tudo o que via pela frente, as five resolveram que era hora de uma reuniãozinha na sala dela. 

- E aí foi isso! Esse canalha só se preocupa com o dinheiro dele! Nem chegou a ouvir de fato minha ideia. Eu preciso urgentemente arranjar outro emprego. 

- Amiga, calma. É que, vamo combinar, é um pouco louca essa história, né? - Keyla pontuou delicadamente. - Como você pode ter tanta certeza de que não é um documento falso ou algo assim?

- Vai me mandar falar com a Disney também, é isso? Sério, qual a dificuldade das pessoas em acreditar no meu trabalho?

- Ninguém disse que não acredita no seu trabalho, Lica. A Keyla apenas quis te alertar para o fato de que você não tem evidências suficientes para provar seu argumento. - Respondeu Benê, sempre daquele seu jeitinho cirúrgico. 

- Ô, patricinha, nem adianta fechar a cara assim. A gente tá falando isso porque a gente te ama! Não foi legal a atitude do JM mesmo, mas já era de se esperar. Só que ao invés de ficar se desgastando pensando nisso, você devia comemorar sua vitória de ter conseguido fazer a pesquisa toda no prazo! - Ellen completou depois de perceber o estado esgotado da amiga. 

- É, a Ellen tem razão. Fora que semana que vem cê vai trabalhar no Museu Ipiranga! Cê é foda, Lica, se anima aí! - Tina disse apoiando as outras amigas.

- Tá, tá, vocês têm razão. Tenho muitas coisas pra comemorar mesmo, mas é que… eu não sei explicar direito o motivo, mas algo me diz que essa história de princesa perdida é importante. Algo me diz que eu não devia só deixar pra lá. 

- E quem disse que você precisa fazer isso? - Perguntou Ellen sugestivamente - Olha só, eu acho que um arquivo a menos não faria falta em um museu tão grande…

- Cê tá sugerindo que eu roube o documento da carta, Ellen Rodrigues? Voltamos pra era da ladykiller? - Lica perguntou surpresa se referindo ao antigo apelido de hacker da amiga. 

- Roubar é uma palavra muito forte. Você estaria apenas pegando emprestado por um tempinho.

- Tá, mesmo que eu considere essa sua ideia inconsequente, como eu vou conseguir pesquisar sozinha? Se eu jogar no google “Samantha Lambertini” deve aparecer no máximo, sei lá, uma personagem de malhação!

- Ai tu é lerda mesmo, né, Heloísa? Acorda minha filha, quem é que vai começar a trabalhar no Museu do Ipiranga semana que vem???? - Tina respondeu como se fosse óbvio.

- Ah, é verdade, né? - Lica sorriu já se animando - Cara, eu amo muito vocês. É a melhor ideia do mundo! Eu pesquiso sozinha, e se der tudo certo não vou precisar ter o nome dessa empresa ridícula vinculado ao meu! - As meninas sorriram e comemoram em resposta.

- Opa, tô perdendo alguma coisa? - Perguntou MB batendo na porta e já entrando na sala. 

- Nada não, só tô feliz de ter cumprido o prazo mesmo. Seu papai teve que me engolir. 

- A cara dele deve ter sido ótima, pena que eu não vi! Agora, Liquinha, tenho uma boa e uma má notícia pra te dar, qual cê quer primeiro?

- Ah, não, MB! Já tem má notícia de manhã? Cancelaram meu trabalho no museu, né? Eu sabia que era bom demais pra ser verdad…

- Ei, calmô aí! Não é nada disso. Vou dar a boa notícia primeiro então: falei com o boss e consegui convencer a fera a te dar o resto da tarde de hoje de folga! Era o mínimo depois de ter fazer virar a noite com aquele prazo absurdo.

- Ah, graças a deus! Ninguém ia aguentar vc o dia inteiro desse jeito, amiga! - Keyla disse levantando as mãos como se estivesse rezando.

 - Ih, que jeito? 

- Acho que a Keyla está se referindo à sua cara de zumbi e seu cheiro nada agradável, Lica. Você precisa de um banho. - Benê esclareceu da forma mais sincera e direta possível, fazendo todos da sala caírem na risada. 

- Uau, mais um massacre na Lica. Quem dá mais? 

- Eu acho que tenho mais um. A má notícia é que… hã… você… você tem visita, Liquinha. 

- Visita? Aqui no Grupo? Não pode ser, ninguém viria atrás de mim aq…

- Michel, será que ainda vai demorar muito? - Perguntou a voz que fez Lica tremer na base. Ela só não sabia se de ódio ou tristeza. Não. Ah, não. Ela não.

- O que você quer? - Perguntou se levantando da cadeira rapidamente, a raiva já subindo pra sua cabeça. 

- Olá, Heloísa. Quanto tempo, né? - Respondeu a mulher loira de olhos azuis que poderia facilmente ser confundida com uma dessas modelos internacionais. 

- Graças a deus, sim. E por mim pode continuar. 

- Bom, hora de vazar! Bora, meninas? - MB perguntou nervoso vendo o clima tenso instalado na sala. Todas concordaram rapidamente e foram saindo de fininho. 

- É… Lica, se precisar é só gritar, tá? - Ellen disse protetoramente, encarando a outra moça com um olhar nada amigável. 

- Valeu, amiga. Pode deixar. - E então as duas ficaram sozinhas. O quão sortuda era Lica por, depois de virar a noite trabalhando e brigar com o seu chefe já pela manhã ainda receber a visita inesperada de sua ex? Sério, não eram nem meio dia. 

- O que cê tá fazendo aqui, Sophie? A gente não tem mais nada pra conversar faz muito tempo. 

- Temos sim. Como vc tá? Faz tempo que eu não te vejo, e, bem você parece um pouco cansada…

- Pode cortar esse papinho furado, tá legal? Não precisa fingir cordialidade. Eu tava ótima, até você interromper meu horário de trabalho.

- Ok, pelo jeito vamos fazer da maneira mais difícil. Eu não quero me alongar aqui também não. Vim resolver uma pendência antiga.

- E o que seria? - Lica só queria que ela fosse embora de novo, de preferência de volta pra Paris. Qual a necessidade de ela estar no Brasil mesmo?

- A Celeste. Eu vim buscar a minha gata. 

Aí foi demais. Lica não aguentou e começou a gargalhar. 

- OI???? - Mais risadas - Virou comediante agora? 

- Não é piada, Heloísa. Eu vim buscar a Celeste, ela vai voltar comigo para a França. - Respondeu Sophie com um tom sério. Sério até demais. Lica se resetou toda e parou de rir imediatamente.

- Você não quer que eu acredite que depois de tudo o que você fez essa sua sugestão idiota vá funcionar, né? Você nem liga pra Celeste, pelo amor de deus! Vivia reclamando da gata pra cima e pra baixo, e nunca perguntou como ela ficou depois que você deixou a gente! - Respondeu já sentindo as bochechas esquentarem de raiva.

- Eu reclamava da Celeste porque você não sabia dar a educação que ela precisava! A Clarisse quer muito um bichinho, e nada mais justo do que recuperar uma filha que já é minha! 

Ah, não. Lica não podia acreditar. 

- FODASSE O QUE A SUA NOVA NAMORADINHA QUER! - Suas emoções explodiram de vez - A Celeste é MINHA filha! EU sempre cuidei dela com todo o amor do mundo. EU que passava as noites acordada quando ela foi castrada e tava com dor. EU que sempre paguei veterinário, ração, brinquedos, roupinhas… Não me faz perder a paciência de vez!

- Tá vendo, eu sabia que cê ia surtar. A Celeste deve morrer de saudades de mim, eu tenho certeza. - Sophie respondeu com uma calma profundamente irritante. 

- E daí que ela sente saudades? E daí que você saiu da vida dela sem nem ao menos dar uma despedida digna? E daí que ela foi enganada? E daí que ela se sentiu traída pela pessoa que ela mais amava no mundo? E DAÍ?? - Seus olhos já começavam a embaçar - Ela vai ficar bem, Sophie. Ela não precisa de você! Ela vai saber se reconstruir, vai saber deixar o tempo arrum…

- A gente ainda tá falando da gata, Lica? - Perguntou Sophie arqueando as sobrancelhas. 

- Não vem com brincadeirinha pra cima de mim! Óbvio que estamos falando da Celeste. Ela é minha filha, vai ficar comigo e acabou. Pronto, já tem sua resposta, pode voltar pra França. E vê se fica lá pra sempre, que tal?

- Certo, eu deveria ter imaginado. Bom, você não me dá outra opção. Em breve meu advogado entrará em contato. Passar bem. - Respondeu Sophie já se retirando da sala. Lica precisou de um momento para processar o que tinha acabado de ouvir. Sua ex estava mesmo dizendo que entraria na justiça pela Celeste???

- Ei, pode voltar aqui! Que porra de advogado? Cê só pode estar muito louca! - Disse procurando Sophie já na área de convivência do quinto andar. E se arrependeu imediatamente. Encontrou sua ex abraçada à uma mulher ruiva, também de olhos azuis, e infelizmente também muito bonita. Deveria ser a tal da Clarisse. Ótimo, o dia não tinha como ficar melhor. 

- Ah, que fofo, como que é o nome desse menino lindo? - Perguntou Clarisse para Keyla. 

- Oi, sou o Tonico, muito prazer. - Respondeu o afilhado de Lica educadamente enquanto ela analisava o melhor jeito de cometer um crime de ódio sem ir pra cadeia.

- E o que você tá ouvindo nesse celular aí, Tonico? 

- É “porque eu te amo” da AnaVitoria. 

- Ai, amor, olha que coincidência! É a nossa música! - Disse sorrindo para Sophie.

- É, já tá na nossa hora. Vamos? - Sophie respondeu extremamente desconfortável, querendo se livrar da situação o mais rápido possível. E era melhor mesmo.

- Eu não acredito nisso! AnaVitoria, sério? Vai dizer que agora você também virou vegana?! - Disse Lica com um olhar mortal que fez todas as suas amigas ficarem em alerta.

- Não, Heloísa, não sou vegana. E já tô indo embora. Tchau, a gente resolve aquela outra coisa daquele jeito que te falei. Até mais, meninas. - E puxou rapidamente Clarisse para o elevador, deixando pra trás uma Lica transtornada e completamente destruída. 

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Fazia uma meia hora que Leide saiu da cozinha com o melhor cardápio do mundo. Lica não podia acreditar na sua sorte de ter aquela mulher na sua vida. 

- E aí, tava bom? - Leide pergunta se referindo ao bolo de chocolate que já estava pela metade.

- Muito! Como sempre, né? Obrigada mesmo, Leidoca. - Lica respondeu sorrindo para a mais velha.

- Magina, Lica, cê sabe que é sempre um prazer. Lá na casa do seu pai eu fico muito sozinha, tenho saudades das suas loucuras.

- Tem saudades mesmo? Cê perdeu a memória, foi isso? - Perguntou em um tom divertido.

- Perdi nada, menina. Lembro como se fosse ontem. Você aprontava e me dava muita dor de cabeça, mas isso alegrava os meus dias. Sinto muitas saudades, sim. - Leide disse com uma expressão saudosa.

- Ah, vem cá. - Lica a abraçou - Cê pode vir sempre que quiser, cê sabe! Também morro de saudades!

- Sempre que quiser é difícil, o seu Edgar precisa autorizar, né?

- Se um dia você quiser vir aqui e ele não deixar, me liga na hora. A coisa vai ficar bem feia, ele que nem tente dar uma dessas.

- Fica tranquila, Lica, não precisa brigar com ele. Agora me fala, tá se sentindo melhor? O cházinho ajudou?

- Ajudou sim - Lica respondeu suspirando - Tô bem melhor. Você e essa coisinha fofa aqui - Disse pegando Celeste no colo e fazendo carinho em sua cabeça - São o melhor remédio pra qualquer bad vibe!

- Que bom, fico mais aliviada. As suas amigas me deixaram preocupada quando te trouxeram pra casa mais cedo, e a sua carinha não tava nada boa. 

- As meninas são umas exageradas, Leide. Eu tô bem, só tava chateada com umas coisinhas, mas vai passar. Pode ir pra casa, vai aproveitar seu fim de semana. Eu vou ficar aqui quietinha maratonando a netflix inteira com a Celeste, né, filha? - A gatinha “respondeu” ronronando, o que Lica considerou como um positivo. 

- Tem certeza? Não seria incomodo nenhum ficar aqui com vocês duas. 

- Tenho certeza, sim. Cê já trabalha demais pra ter que ficar me aguentando nos dias de folga. Vai curtir o sambinha que cê adora, pegar uma praia…

- Ai, tá bom, então! Se você precisar de qualquer coisa a qualquer hora é só me ligar, tá? Fica bem, meu amor. Se cuida e cuida dessa lindeza aí. - Respondeu Leide deixando um beijo na testa de Lica e um carinho em Celeste.

- Beijo, Leidoca. Pode deixar, e obrigada mais uma vez pelo lanchinho.

As horas passaram se arrastando, e parecia que Lica já tinha visto o catálogo inteiro da Netflix. Fez pipoca, brincou com a Celeste, tentou ler um livro, começar um desenho, mas nada parecia interessante o suficiente. Logo seus pensamentos corriam para a visita inesperada de Sophie, e também para a briga com JM. Foi por isso que ela correu para sua bolsa. 

- Ok, filha vem aqui com a mamãe. Vamos ler isso de novo. - Disse pegando a carta da princesa perdida. Estava no comecinho da leitura quando seu celular tocou.

- Alô?

- Oi, amiga, como é que cê tá? - Perguntou Tina do outro lado da linha.

- Ah, tô indo. A Celeste tá me fazendo companhia. 

- Tá indo mesmo? Conseguiu sossegar os pensamentos?

- Não, nem um pouco. 

- Eu sabia, por isso te liguei. Só tem uma coisa que seria capaz de animar Heloísa Gutierrez em um momento como esse! 

- E o que seria, posso saber?

- B - A - L - A - D - A! - Tina exclamou animada - Topa? Vai ter uma lá na Augusta que um amigo me indicou. A Ellen e a Keyla vão.

- Ai, Tina, não sei… Não tô no clima hoje.

- E desde de quando cê precisa de clima pra ir pra balada, Lica? Pensa bem, não seria bom tomar umas coisinhas pra esquecer os problemas, e, quem sabe, conhecer alguma menina gata?

- É, olhando por esse lado não me parece tão terrível a ideia.

- Viu? Ah, vai amiga, aceita! Vamos estar lá com você e a gente promete te levar pra casa se não tiver legal pra ti. 

Lica ponderou por um momento. Era sexta-feira, ela tinha tido dias terríveis no trabalho, uma visita desnecessária da ex… Não merecia ficar em casa chorando pelos cantos e se lamentando. Não, Heloísa Gutierrez não era esse tipo de pessoa. Olhou para Celeste como se estivesse perguntando a sua opinião. A gatinha apenas se esfregou no seu braço em um gesto de carinho. Parece que ela queria ver a mamãe bem, ou pelo menos foi isso que Lica interpretou.

- Tá bom, Cristina Yamada, se é para o bem geral da nação, eu vou! 

- YES! Sabia que cê não ia me decepcionar. Descansa e se arruma, passo aí às 23h. 

- Combinado!

Lica aproveitou para dormir mais um pouco, afinal a sua última noite tinha sido longa. Mais tarde, quando acordou, foi para o banho e começou a se arrumar. Optou pelo seu look clássico que suas amigas carinhosamente batizaram de “sapatona alfa”, isso só porque elas diziam que a jaqueta preta de couro (sintético) deixava qualquer menina derretidinha. Lica duvidava disso, mas sabia que caía bem em seu corpo mesmo. E, ah, naquela noite ela bem que adoraria se sentir uma alfa. 

Passou também seu melhor perfume, e já ia colocar sua bota preferida quando ouviu a voz de Keyla em sua cabeça “Caralho, Heloísa, isso é MUITO feio. Como alguém tem coragem de beijar a sua boca te vendo usar esse trambolho no pé?”, lembrou-se da última balada que elas tinham ido. Lica achava um absurdo, sua bota era linda, mas preferiu não arriscar. Não queria perder oportunidades. Acabou colocando um tênis preto qualquer mesmo. 

Tina chegou pontualmente em sua casa junto com Ellen e Keyla no carro. Quando a amiga deu a partida, Lica olhou pela janela pensando que com certeza aquela noite seria marcante. Ela só não sabia ainda o quanto.

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- Ow, patricinha, já não bebeu demais? - Ellen perguntou vendo a amiga virar provavelmente o décimo shot de tequila da noite.

- O meu limite é bem diferente do seu, Ellen Rodrigues. Relaxa que eu tô só começando. Cadê a Tina e a Keyla, hein? Faz um tempinho que eu não vejo. 

- A Keyla da última vez que eu vi tava discutindo lá na pista de dança com o Henrique, aquele novo parceiro de trabalho dela. Ela não parecia muito feliz de encontrar ele aqui, mas eu não sei, isso pra mim tá com cara de implicância daquele tipo…

- Ah, sim, o tipo Keyla Maria de ser. Provavelmente o tesão reprimido vai falar mais alto essa noite, cê vai ver. Logo os dois aparecem se engolindo. 

- Não duvido mesmo. E a Tina eu não faço ideia de onde esteja, mas ela comentou comigo que viu uma menina muito gata quando a gente chegou, vai ver estão juntas. 

- E você? Já arrumou parzinho pra hoje?

- Não, Lica, tô de boa. - Ellen respondeu sorrindo. 

Provavelmente era efeito da bebida, mas aquele sorriso fez o estômago de Lica se agitar. E acabou revivendo uma memória antiga. 

- Eu adoro seu sorriso, sabia? - Comentou como quem não quer nada, apoiando as costas no balcão do bar em que elas estavam.

- Heloísa…

- Que foi? Cê sabe que é verdade, eu sempre te disse isso. 

- Eu sei, disse inclusive naquela vez antes de…

- Antes de eu te beijar? - Perguntou deixando seus rostos mais próximos. 

- É, isso. Antes de você fazer isso. - Ellen respondeu um pouco nervosa. 

- Eu acho engraçado que você sempre fica sem graça quando eu chego muito perto. Parece aquela mesma adolescente de 17 anos quando foi dormir lá em casa pela primeira vez. - Lica comentou sorrindo com a lembrança. 

- Aquele dia foi especial mesmo. Cê foi meu primeiro gay panic, tá ligada, né? 

- E poderia ter sido seu primeiro beijo com menina também, se eu não tivesse sido tão lerda. Acho que a senhorita também me dava um gay panic danado. Cheguei um pouco tarde, daquela vez que a gente ficou cê já tinha beijado a Juliana, a Victória e até a K1!

- Quem mandou não saber aproveitar as oportunidades? A fila andou, meu bem. - Ellen respondeu com uma piscadinha. 

- Ah, se arrependimento matasse… - Lica comentou fazendo a amiga rir.

- Foi patético, sério. “Você vai me beijar, Heloísa?” - Imitou sua própria fala no dia em que dormiu na casa de Lica pela primeira vez, quando as duas estavam na cama e muito próximas. 

- Vou. 

- O que? - Ellen de repente perguntou muito confusa. 

- Você perguntou se eu vou te beijar e eu disse que sim. Não cometo o mesmo erro duas vezes, nerdzinha. - E então, sem mais nem menos, chegou mais perto de Ellen e a beijou. 

No começo foi um susto, mas depois ela não teve como não aproveitar. Se tinha uma coisa que Lica sabia fazer com maestria na sua vida definitivamente era aquilo. Era causar todas aquelas… sensações. E que sensações, diga-se de passagem. Se separam só quando já era impossível respirar. 

- Wow. Cê continua mandando muito bem. 

- Eu que o diga, né, Lica? - Disse Ellen com um sorrisinho sem graça e as bochechas coradinhas. 

- Eu sei, né, vou sempre continuar sendo a única patricinha desse coração aí. 

- Isso é verdade, ninguém consegue ser uma patricinha tão insuportavelmente incrível quanto você. - Respondeu sorrindo e bebendo um shot. Pensou que aquilo pudesse acalmar as sensações que Lica começou, mas foi só o oposto. Tudo em seu corpo queimava. 

- Ei, vai com calma. Não quero você passando mal, hein? Preciso ir ao banheiro rapidinho, já volto. - Respondeu já saindo dali, mas se deteve por um instante. Girou nos calcanhares e deu um selinho rápido na amiga. - Cê tava suja, sabe? Tinha um pouquinho de tequila aí. - E dessa vez sim deu uma piscadinha, saiu em direção ao banheiro e deixou uma Ellen sorrindo bobo e tentando apagar aquele fogo repentino.

Fila de banheiro de balada é algo que definitivamente poderia ser estudado. Lica estava realmente pensando nas possibilidades de fazer um tcc numa próxima graduação sobre isso, quando se deparou com uma infeliz coincidência. Pela segunda vez no dia. Saindo da cabine, avistou Clarisse, a atual de sua ex, pleníssima em um vestido preto que, Lica precisava admitir, ficava perfeito nela. 

- Ah, oi. Lica, né?

- Uhum. Oi. 

- Que coisa a gente se encontrar tanto por aí. Daqui a pouco vou achar que cê tá querendo azarar meu namoro. - Clarisse disse tentando fazer uma piada que só deixou Lica mais puta da vida. 

- Olha só, não tenho nada contra você e nem contra o seu relacionamento. Pelo contrário, desejo toda felicidade do mundo. Só quero que vocês voltem pra Europa e deixem o meu bebê em paz. 

- Ah, tá falando da Celeste? Ela é uma gracinha mesmo. Obrigada por ter olhado ela esse tempo, mas agora ela vai ter duas mamães que saibam cuidar direito dela, sem se deixarem atrapalhar por… problemas emocionais. A coitada não merece tanto desequilíbrio… - Respondeu olhando fundo nos olhos de Lica, em um claro tom de desafio. 

- Sabe, Clarisse, em uma coisa você acertou. Eu realmente sou desequilibrada. Por isso, acho que você não vai se incomodar… - E então deu um tapa bem na cara dela.  

Depois disso Lica não sabe direito o que aconteceu. Estava muito tonta, tinha realmente exagerado na bebida. Ouviu pessoas gritando e chamando os seguranças. Sentiu que estava sendo levada para outro lugar, e quando recobrou minimamente a consciência já estava do lado de fora da balada. Pegou seu celular para avisar as amigas, mas viu que estava sem bateria. Ótimo. 

Ainda muito confusa e irritada, saiu andando pelas ruas ali perto. Achou um vendedor ambulante de bebidas e comprou uma garrafa de vodka. Continuou vagando até encontrar um terreno baldio com uma única árvore no meio. Se sentou apoiada no tronco e começou a chorar. E a beber. E chorar de novo. E beber mais. Qual a razão das coisas na sua vida serem sempre tão complicadas? Parecia que ela nunca conseguiria ficar realmente bem. Alguma coisa sempre dava errado, um novo problema sempre aparecia. 

Perdeu completamente a noção do tempo, e sua garrafa já estava pela metade. Quando ela pensou em fazer um esforço para se levantar e ir embora, uma luz a impediu. Uma luz muito forte bem do seu lado, que fez com que ela fechasse os olhos. Um segundo depois, passou. Ela olhou em volta e tudo estava exatamente igual. Será que estava começando a alucinar?

De repente, ouviu passos atrás de si. Se levantou em um salto, já preparada para correr, quando a viu. 

Ali, bem na sua frente, estava parada uma menina jovem, provavelmente com a idade próxima a de Lica, vestida em roupas… em roupas muito esquisitas. Sua expressão era de puro terror e confusão.

- Hã… Oi. Tá… tudo bem com você?

- O-olá. - A voz da menina tremeu - Onde estamos?

- Pra ser bem sincera, eu também não sei. Acabei de sair de uma festa muito louca, e não foi nada legal, daí fiquei andando até achar esse lugar. E você, como chegou aqui?

A menina a encarou por alguns instantes. Parecia analisar se Lica seria alguém confiável.

- Eu… eu não faço ideia. Estava no jardim de casa, quando de repente veio aquela luz e…

- Você também viu a luz?? - Lica perguntou feliz por ver que não tinha sido coisa da sua cabeça.

- Sim, eu vi. E então, quando abri os olhos novamente, apareci aqui. Nesse lugar escuro e provavelmente pouco seguro, com você. 

- Ei, relaxa, não vou te fazer mal nenhum. Eu só estava curtindo minha bad vibe.

- Bad vibe… - Repetiu as palavras de Lica como se nunca tivesse experimentado aquilo antes. - Me parece ser uma expressão da língua inglesa. Seria algo como estar em um momento triste?

- É, é isso mesmo. - Lica riu. Que menina estranha. 

- Entendi. Mamãe me ensinou inglês desde pequena, fico feliz em ter acertado.

- Certo. E vem cá, cadê sua mãe? Cês tavam numa festa fantasia ou algo assim? - Perguntou encarando aquele vestido vermelho longo com manguinhas estufadas, muitos detalhes, e algo parecido com… com um espartilho??

- Festa? Oh, não, nós estávamos em casa mesmo. Quer dizer, eu estava. Ela saiu cedinho e ainda não retornou. - A menina respondeu parecendo um pouco frustrada. 

- Saquei. E então qual foi a dessa roupa aí? 

- O que há de errado? - Perguntou olhando para si mesma - Não me diga que o vestido rasgou! 

- Não, não é isso! O vestido é lindo, e parece estar em perfeitas condições. - A menina sorriu ao ouvir o elogio - É só que… não é uma roupa muito comum, vamo combinar. 

- Eu ia dizer a mesma coisa sobre a senhorita. Perdão, ainda não sei seu nome, e esqueci de me apresentar. Me chamo Samantha, muito prazer. Samantha Lambertini. - Disse fazendo uma reverência formal demais.

Lica sentiu sua cabeça levar uma pontada. Parecia que queria se lembrar de algo. Algo importante. 

- Samantha Lambertini… hm… nome legal. Tenho a impressão que já ouvi antes em algum lugar… Vem cá, a gente já ficou? 

- Ficamos o que?

- Ficamos, ué. A gente já se beijou?

- B-BEIJAR? - A menina exclamou assustada. - Está insinuando que eu já lhe beijei? 

- Tô insinuando nada não, ô fofinha. Foi só uma pergunta, não surta.

- Não, é claro que não nos beijamos. - Ela respondeu com a voz firme.

- Uau, eu sou tão desprezível e feia pra você falar assim? - Lica provocou arqueando a sobrancelha. 

- A senhorita não é feia. - Respondeu rapidamente, e Lica pensou ter visto suas bochechas ficarem levemente vermelhas. - E esse não é o ponto da questão! Não nos beijamos e sequer nos conhecemos. Você ainda não me disse seu nome.

- Ah, é, foi mal. Heloísa Gutierrez, ao seu dispor. - Imitou a reverência de Samantha. - Pode me chamar só de Lica. 

- Certo, Lica. Você tem um nome bonito. 

- Obrigada - Lica respondeu sorrindo. Era a primeira vez que ouvia um elogio em relação ao seu nome em muito tempo. Geralmente as pessoas achavam que era nome de velho.

- Senhorita Lica, será que poderia me ajudar a voltar para minha casa? Já está muito tarde, se mamãe voltar e eu não estiver ela ficará muito descontente.

- Cara, cê tem um vocabulário animal! Ninguém concorda os verbos tão bonitinho assim, sabia?

- Animal? Que animal? 

- Esquece - Lica comentou rindo. Essa menina era realmente de outro mundo. - Te ajudo, sim! Qual que é o endereço? 

- Endereço? Oh, minha casa é bem perto da residência da família real, apesar de nunca podermos vê-los. 

- Oi??? Residência da família real? Cê tá fazendo alguma crítica à burguesia de São Paulo e eu não percebi? 

- São Paulo? Não estamos no Rio de Janeiro?

- Não, a gente tá na Augusta mesmo. São Paulo capital. 

- Meu deus, estou muito longe de casa! Jamais voltarei a tempo! - Respondeu Samantha caindo no choro.

- Ei, calma, não chora. Eu vou te ajudar. 

- Sabe o meio mais rápido de chegar ao Rio? Tem alguma carruagem aqui por perto? 

- Carruagem?? Garota, cê parece ter saído diretamente do século XIX!! - Respondeu rindo.

- Isso, que bom! Pelo menos estamos mesmo em 1810, certo? 

Puta que pariu. Lica teve certeza de que estava falando com uma pessoa esquizofrênica, ou com uma menina que devia estar drogada em níveis muito altos. 

- É… Olha só, foi mal, mas eu preciso ir. Tenho que voltar pra casa e cuidar da minha gata. 

- Por favor, senhorita Heloísa, não me deixe sozinha. Eu lhe imploro. Você foi muito gentil, e não sei se encontrarei mais pessoas assim. - Pediu Samantha com os olhinhos marejados e uma carinha extremamente fofa. Oh, céus. 

Lica olhou ao redor. A rua estava muito escura, e já era muito tarde. Fosse quem fosse, essa menina não merecia ficar largada ali. O pior realmente podia acontecer. Por deus, Lica estava mesmo considerando ajudar uma completa lunática que acha que veio do passado?

- Tá, o que eu posso fazer por você? 

- Teria algum tipo de informação sobre a família real? O imperador? 

- D. Pedro, no caso?

- Isso, exatamente! - A menina quase começou a chorar de novo de felicidade. Meu deus, o que estava acontecendo ali? Lica só podia estar muito louca também, porque fez uma proposta arriscada. 

- Vem comigo, tem um lugar com informações sobre ele sim, mas você precisa me prometer que depois de pegar o que precisa, vai embora, ok?

- Combinado! Serei eternamente grata. 

E de que exatamente aquela doida precisava? Um mapa? Um livro? Foi com essas dúvidas que uma Lica muito bêbada conduziu uma Samantha Lambertini muito falante (sério, ela dava gritinhos pela rua cada vez que um carro passava) até o prédio do Grupo, que ficava ali perto. Com essas dúvidas também que levou ela até sua sala e a deixou mexer em sua pesquisa, em plena madrugada de sexta-feira. Foi ainda com as mesmas dúvidas que o mundo se tornou apenas um borrão e ela caiu em um sono profundo.

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O sol bateu levemente em seu rosto, e, quando tentava abrir os olhos, uma voz rasgante e irada irrompeu em sua sala:

- O QUE SIGNIFICA ISSO, HELOÍSA? - Exclamou JM com uma cara de poucos amigos - VOCÊ TÁ ACHANDO QUE O GRUPO VIROU UM MOTEL PRA TRAZER SUAS PEGUETES PRA CÁ????

E foi então que ela viu. Deitada ao seu lado, no sofá de sua sala, estava uma menina linda de cachinhos castanhos, com uma expressão muito assustada. Pelo amor de deus, quem era ela? O que elas estavam fazendo no Grupo em pleno sábado de manhã? QUE PORRA TINHA ACONTECIDO NOITE PASSADA?????????

 


Notas Finais


AAAAAAAAAAAAAAAA VOU NEM FALAR NADA KKKKKKKK

Me contem o que acharam!!! Muitos mimos pra vocês, hein???


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