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História Meu Herói - Capítulo 6


Escrita por:


Notas do Autor


Escritora escreve capítulo escutando cover do Jk e quase morre de tanto chorar, entenda o caso.

Eu estou extremamente sensível com esse capítulo, e é bastante importante porque é a partir daí que acontece muita coisa. Difícil explicar, mas eu já amei o cap 7, que já está escrito e só precisa de uns complementos.

Bjs, boa leitura. <3

Capítulo 6 - O pior lugar do mundo


Fanfic / Fanfiction Meu Herói - Capítulo 6 - O pior lugar do mundo

— Por que esse é o pior lugar do mundo? — perguntou caminhando lado a lado do outro, enquanto Taehyung pegava a carteira de couro marrom e abria tirando de lá um cartão azul.

— Sempre tem muita gente, tem filas infinitas, os atendentes não gostam de ninguém e as pessoas são muito sérias — listou com os dedos os quatro defeitos. Simplesmente não gostava de bancos, preferiria mil vezes conversar com o seu bom amigo que é responsável por trocar as moedas de ouro por dinheiro humano, mas a realidade é que não é tão seguro guardar todo esse dinheiro dentro de casa.

— Parece a sede — torceu o nariz falando isso engolindo a seco e puxando uma mecha escura do seu cabelo para trás a fim de afastá-las do campo de visão. Ao escutar isso achou uma observação muito boa, faria até sentido se isso fosse algumas das razões fortes para não gostar daquele ambiente. Mas naquele momento Jeongguk achava ao contrário, estava entusiasmado com aquele lugar, as paredes eram transparentes pois a entrada era toda de vidro, sem falar o quão tudo aquilo era futurista ao seus olhos, pessoas mexendo em uma pequena maquininha em suas mãos, assim como a do cavaleiro, capaz de acessar toda a informação do mundo e se comunicar com todos os humanos de um planeta tão grande, e o mais impressionante, era que usavam essa incrível tecnologia para ver videos de gatos derrubando coisas de uma superfície plana.

Respirou fundo enchendo os seus pulmões de ar sorrindo e forma genuína, ficando cheio de energia. Taehyung que caminhou até a primeira fila que viu, guardou o celular no bolso e olhou para os lados procurando pela pulguinha entusiasmada que antes caminhava do seu lado, contudo o mesmo não ficaria parado e estava pronto para descobrir mais sobre aquele local. Uma boa noite de sono, comida, banho, roupas limpas e um pouco de sorvete podem até ser coisas sem muitas importância, mas se tornaram de extremo valor para o nobre, dito que teve duvidas demais durante toda a vida e percebeu que só teria as respostas se fosse atrás. Jeongguk tinha uma personalidade inegavelmente curiosa, queria ocupar a mente com o máximo de coisas possíveis.

“O que é isso?” fora uma pergunta redundante, reptida no mínimo uma dúzia de vezes, seja no caminho até o banco ou no próprio banco, o loiro pensava o que iria acontecer assim que chegassem no mercado, e teve sua resposta. Além de já ter visto o príncipe entusiasmado com cartas de papel colorido e com o boca do caixa quando entregou o dinheiro em papel em sua mão, também poderia vê-lo surtando no mercado.

Poderia facilmente tatuar essa frase em seu rosto, pois toda vez que os olhos redondinhos e extasiados de curiosidade lhe dirigiam atenção, sabia que essa frase seria dita logo em seguida. Estava se tornando um marco histórico em sua vida, o dia que teve que explicar para uma criança que acabou de chegar ao mundo a existência de todas as coisas, para o que elas servem e porque existiam.

Era difícil decidir com o que exatamente Jeongguk havia se impressionado mais, entre elas estava a padaria, os produtos de limpeza e principalmente os alimentos congelados. Ele jamais poderia imaginar  que a comida já poderia vir pronta, bastava clicar em um botão e lá estava. Quando ainda não estavam no caixa, fizeram mais que compras, Jeon parecia extremamente interessado em tomar outro café da manhã depois de ver todos aqueles pães decorados na vidraça e o loiro não lhe negaria esse pequeno prazer, a atendente ficou constrangida em ver um homem estranho vendo e analisando cada um dos seus passos enquanto pegava o salgado decorado e colocava no microondas, e ainda mais quando o mesmo levou um susto e soltou um pequeno grito quando viu o aparelho bipar e desligar. A mulher olhou para Taehyung que esperava do lado definhando em vergonha e pegou o prato em suas mãos, abandonando o carrinho pequeno por alguns segundos para entregar o dinheiro. E nobre continuava parado com as duas mãos sobre o balcão e os olhos dobrados de tamanho, sentindo o cheirinho gostoso. Kim aproveitou para comprar um docinho para si também, e não se importaria de dividir com o moreninho em sua frente.

Momentos depois teve a honra de pilotar o carrinho, mas bastava Taehyung virar as costas para que esse empurrasse o carrinho e ficasse com os pés pendurados indo o mais longe que podia querendo se divertir quando via corredores vazios, isso gerou um problema tão grande que o loiro teve que explicar para o segurança que aquele era o seu primo distante e que não era um delinquente. Como consequência já não podia mais pilotar o carrinho e como resultado, lá estava um biquinho frustrado surgindo em seus lábios, apesar que isso não o fizera desanimar quando chegou na hora de passar as compras e acabou se impressionando com a maquininha que registrava os preços. Estava em êxtase, aquele mundo era impressionante e o mais incrível era que podia andar de lá para cá livremente, ao contrário de como fazia em casa, onde não tinha permissão para sair do quarto por nenhum segundo sequer.

Estava feliz, mas algo em seu coração parecia o adoecer, seus pais eram bem diferentes ao que via ali, pais e filhos juntos fazendo compras. Teve de viver enjaulado dentro do quarto por culpa do seu irmão desaparecido que aflorou o instinto de ditador de sua mãe. Tornou-se protetora mas não martenal, o que fazia o questionar o porquê de eles não terem constatado a sede ainda.

— Você está bem? — o loiro perguntou vendo o contraste gritante entre um jovem que estava feliz a pouco tempo, e agora andava do seu lado suspirando, ele parecia pensar demais. Kim sentia que assim que fizesse o almoço gostoso ele ficaria mais feliz.

— Eu estou sim, só estou pensando em algumas coisas — disse sem olhar o rosto sereno do outro, suspirou mais uma vez jogando uma sacola de pão no carrinho que fora o que Kim pediu.

— Se quiser eu deixo você levar o carrinho de novo, mas você precisa andar com os pés. — Kim falou mas nem isso foi capaz de animá-lo, o moreno recusou a oferta voltando seus olhos para uma pequena humana em miniatura que cantava uma música para sua mãe, e a mesma parecia apreciar tal ato. Sequer lembrava da vez que tinha conversado com sua mãe por mais de alguns minutos.

— Tudo bem... — Kim falou conformado, pegando uma garrafa de refrigerante, aquilo seria divertido para ele, o gosto da mistura corantes, conservantes, açúcar, aroma sintético de fruta e gás carbônico causaria a sensação de pequenas explosões na boca, ele ficaria feliz bebendo isso. — Vamos não fique chateado, você vai encontrar os seus pais, eles mesmo devem estar viajando para a sede agora em busca de você.

— Se eles nao me procuraram enquanto eu estava no buraco, duvido me-... — Jeongguk fora interrompido pela frase do platinado.

— Não diga isso, os pais sempre se importam com os filhos, talvez eles só não saibam onde é a sede — apesar de isso ser impossível, a sede é a coisa mais conhecida em Masulsa, qualquer cidade, vila ou reino tinha ciência daquele lugar, mesmo que o lugar ainda não soubesse de habitações novas. É um trabalho sem fim, sem dúvidas.

“Acho que eles saberiam” Jeongguk sussurrou para si mesmo, estava sentindo uma sensação ruim crescer em si, voltar para casa não parecia agradável, talvez quando estivesse morrendo de fome no buraco tivesse vontade de voltar para seu casulo, mas vendo como o cavaleiro o trata, como uma pessoa normal, talvez estivesse em uma prisão bem maior antes de isso tudo.

O mesmo começou a olhar para o carrinho de compras e contar com os dedos a lista de coisas que tinha em mente, sendo elas leite condensado, açúcar, ovos e leite, além de carne e alface, alguns outros vegetais e frutas também e ambos foram em direção ao caixa, que passava todas as compras com calma, Jeongguk continuava calado e isso deixara o outro meio preocupado, tinha que animá-lo de alguma forma e tinha que fazê-lo lembrar que sua família o amava, pois todo pai e mãe ama os filhos, pelo menos era o que tinha pensado.

No caminho pegaram um ônibus e Jeongguk parecia muito assustado e animado a princípio, afinal ele tinha relacionado o ônibus a uma das coisas mais incríveis que já havia visto na vida, mas ainda sim parecia cabisbaixo.

Kim suspirou, ao tirar a chave dos bolsos e abrir a porta carregando todas as sacolas, o príncipe não tinha se oferecido para carregar absolutamente nada. Estava equilibrando até mesmo uma  das sacolas dentre os dentes e tentando não ter o braço arrancado pelo peso, pois não queria colocar no chão, não se lembrava da última vez que havia limpado o seu jardim ou a entrada da sua casa. De fato parecia um pouco com uma casa mal assombrada.

— Ufa! — disse ao abrir e entrar com as sacolas, podendo enfim, jogá-las no chão. — Que aventura, não é mesmo? — perguntou retoricamente fingindo animação para ver se podia descolar sequer um mínimo sorriso, ou olhar brilhante. Talvez estivesse se acostumando com Jeon um pouco mais animado, ao contrário de traumatizado e pensando no passado a qualquer momento.

Nenhuma resposta veio, ao invés disso Jeongguk tirou o casaco que usava e jogou no chão, indo em direção ao sofá se sentando olhando para nada, ele estava com uma expressão triste e um biquinho entre os lábios, talvez estivesse pensando na sua família. Kim tentou respirar fundo pedindo um pouco de paciência para não reclamar sobre o casaco no chão, afinal tinha que colocar em sua mente que Jeongguk apesar de ser um príncipe, podia ser um pouco mimado.

Se abaixou para juntar o casaco alheio e aproveitou para tirar o seu, dobrando e colocando ao lado de Jeongguk no sofá. — Não vai responder? Hm? — Kim perguntou com simpatia tocando a testa de Jeongguk com a ponta dos dedos que olhou para si e não respondeu nada. Os olhos rapidamente desviaram empurrando a mão que tocava a sua testa e voltando a olhar para o carpete ou pés.

Taehyung se convenceu que precisava dele um pouco mais feliz, só assim poderia continuar aquela conversa que o menor tinha se recusado a continuar. Não era psicólogo e sabia que as pessoas precisavam de um tempo para sofrer, mas Jeongguk não era humano, e até onde conhecia as criaturas de Malsusa, todas se recuperam rápido mesmo depois de passar anos sofrendo. Síndrome da Cinderela, é só casar e ficar rico que passa. Bem Jeongguk já era rico.

Essa teoria era horrível, mas em todos os casos que viu aconteceu exatamente isso. Geralmente após anos sofrendo em Masulsa a pessoa ou se torna um grande vilão em busca de vingança, ou se torna rico e feliz para sempre. Uma coisa era certa, Jeongguk não parecia está desenvolvendo uma personalidade vingativa.

— Vou fazer o almoço, tá bom? — perguntou colocando as mãos no bolso e abaixando a cabeça até ficar na altura do moreno jogado de forma desleixada no sofá. Mas a resposta não veio. — Não está com fome, hm?

Perguntou novamente, dessa vez andando até a cozinha, que não era muito longe, na verdade a sala e a cozinha eram juntas, apenas separadas por uma bancada de mármore e no meio havia uma mesa de jantar redonda e vermelha com três cadeiras. Sua casa poderia ser abandonada do lado de fora, mas por dentro era bem decorada, e alias, um pouco bagunçada, já passava da hora de fazer uma faxina.

“O que você costuma a comer em casa?” questionou em uma última tentativa a fim de estimular o menino deprimido em seu sofá. O seu gato, que se chamava Yepee até mesmo sentou-se no colo do outro, pois estava tão parado quanto uma estátua, o peludinho esticou a sua pata até o rosto daquele o tentara caçá-lo anteriormente e tocou a ponta do nariz chamando para brincar, porém ele continuava parado.

Começou a tirar as compras da sacola e 'matutou' uma forma de animá-lo um pouco, talvez um filme emocionante fizesse sentir saudades da família. Milagre na Cela 7 sempre fazia o vibrar de emoção, fosse de alegria, saudades, curiosidades, ou tristeza. Kim sentia uma dor no peito lembrando de seus pais, sentia tanta saudades deles que daria sua vida para passar mais um dia com ambos, piscou algumas vezes tentando se manter neutro naquela situação, se fosse Jeongguk estaria que nem um louco tentando voltar para a casa.

Não gostava de forma como o moreno acreditava que eles não estavam procurando por ele. Talvez tivesse uma razão para não terem ido atrás, tinha que ter uma razão, Taehyung pensou.

— Quer assistir um filme? — perguntou separando os ingredientes na bancada e colocando o carne na pia sobre uma tábua de madeira para cortá-la. Sabia que não haveria resposta, então começou a falar sozinho. — Nós podemos assistir enquanto comemos e você pode até me ajudar a cozinhar se quiser.

Novamente ele ficou parado sem reação, mas pelo menos a mão acariciava a cabeça de Yepee que balançava a cauda levemente de um lado para o outro. Começou a misturar o ovo e uma quantidade generosa de leite, juntamente com os outros ingredientes do pudim e então colocou tudo na batedeira até pegar a consistência que queria, depois preparou a calda colocando o açúcar e mexendo, e assim que terminou colocou na forma e depois colocou tudo no forno no banho maria, e então começou a limpar a alface, o almoço não seria grande coisa, apenas um pouco de arroz, com carne e alface enrolada. Queria fazer algo simples mas em grande quantidade, comer algo com muito tempero não faria bem para o estômago inexperiente do príncipe.

Começou a preparar a carne e depois colocou para assar, o cheiro do pudim chegava às narinas do moreno, juntamente com o cheiro da carne, Kim sorriu de lado sabendo que estava deixando-o curioso a respeito da comida. Não se achava um grande cozinheiro, mas já que não fazia faculdade, e não tinha um trabalho formal, no seu tempo livre aproveitava para fazer lanches e assistir toneladas e toneladas de filmes e séries, mesmo que ficasse maior parte do tempo ocupado salvando vidas e jóias. Às vezes se perguntava o que faria se não tivesse que viajar de um mundo para o outro toda hora. Possivelmente desejaria se apaixonar, adotar mais um pássaro e cachorro, chamar o pássaro de José e o cachorro de Yeontan, assim teria uma família completa com um gato, um spitz alemão e uma pequena calopsita. O que não seria tão difícil de se tornar realidade, se tivesse tempo para cuidar e dar atenção de ambos, tais animais precisavam de atenção, já o seu fiel gato conseguia se virar sozinho, afinal lembrava que quando criança o gato da vizinha fugia por dois dias inteiros e voltava intacto. Dono de si.

Em pouco tempo o arroz já estava feito e a carne preparada, alface lavada deixou tudo bonitinho na bancada e colocou as mãos sobre o quadril um pouco orgulho por preparar um jantar para mais de uma pessoa. Pois apesar de cozinhar, também tinha pegado o hábito de pedir uma quentinha e aproveitar as suas poucas folgas relaxando.

Jeongguk continuava parado, pois havia cochilado no sofá com a boca aberta e a cabeça apoiada na almofada, realmente sua casa não era a mais luxuosa do mundo, mas tinha dinheiro o bastante para isso, então fazia ao menos questão de ter o sofá mais confortável do mundo, pois passava muito tempo ali. Tinha o estofado claro e era bem espaçoso, cobria quase que toda a sala, que tinha o outro restante coberto por um tapete escuro marrom e a estante onde ficava o televisor.

Cortou os pedaços de carne em pequeno retângulos e enrolou na alface, separou uma tigela com arroz e levou até o sofá. O pudim ainda estava cozinhando, deixaria ali por um pouco mais de tempo. — Vossa alteza? — o garoto perguntou sentado já equilibrando as duas tigelas que carregava entre as pernas, e os hashis havia deixado no sofá mesmo. Yepee que dormia também, acordou e esticou as costas quando Kim chamou pelo moreno e lambeu a pequena pata logo depois saindo de suas coxas e indo em direção ao seu potinho de ração.

— Príncipe Jeonggukie? — perguntou novamente vendo que esse tinha se remexido um pouco no sofá. Não tinha intimidade nenhuma para chamá-lo no diminutivo mas era irresistível devido a forma fofa que dormia ali, tinha dormindo segurando a própria blusa e os joelhos estavam encolhidos perto do seu dorso. Colocou o prato com a carne em cima da mesinha de centro de vidro, tocou seu ombro e viu o garoto se assustar e empurrar sua mão.

— Você está bem? — o menino em sua frente parecia confuso, ainda mais com a boca um pouco aberta olhando para todos os lados como se estivesse lembrando que estava em segurança.

— Sim — disse com a voz meiga e arrastada por ter cochilado, o cheiro da comida estava muito bom, mesmo que tivesse comido muito bem de manhã, estava faminto só por sentir o cheiro, viu a mão do maior ir até as mechas de cabelos que cobriam seus olhos e arrastar para o lado tentando emaranhar os fios para trás. “Tem certeza?” perguntou olhando em seus olhos, era intenso a forma como o mesmo agia, Jeon limpou a garganta abaixando os olhos, se sentindo um pouco encabulado ao toque e cuidado alheio e maneou a cabeça de forma positiva fechando os lábios e vendo ele lhe entregar rashis e um prato de comida que parecia muito apetitoso, por mais simples que parecesse. Aquilo não era nada comparado ao que comia no castelo, afinal geralmente tinha uma mesa cheia de comida de chefs incríveis em seu próprio quarto, mas era feito com carinho. Kim recebia o salário de um cavaleiro, mas não tinha um servo para lhe preparar comida, sendo feito pelas suas próprias mãos demonstrava muita minúcia.

Não se lembrava da última vez que havia comido ao lado de alguém, e mesmo que não ligasse muito para aquilo sentia o seu coração bombear com uma melancolia mesclada de gratidão. Era um sentimento bom, porém com um receio de que tudo fosse mentira e logo estivesse fora daquele sofá macio, solitário novamente. Afinal aquele herói estava do seu lado almoçando consigo e tendo todo o cuidado de preparar uma boa comida e o ajudar no banho. Algo totalmente distinto da cultura que ele vivia, aquilo era passível de admiração.

— Vamos comer então, estou com muita fome! — disse sorrindo genuinamente pegando um pouco de arroz na mesa e colocando a boca, sorrindo meio sem jeito, coisa que fez o moreno imitar a ação, não porque estava feliz, mas porque Taehyung tinha um sorriso estranhamente contagiante.

Começaram ambos a comer e Kim pegou o controle enterrado embaixo de uma das almofadas e abriu a netflix colocando lá O Milagre na Cela 7. Aquele era um filme incrível sobre um pai com deficiência intelectual que foi preso injustamente e fez de tudo para ver a filha de novo, e mesmo que seus esforços não fossem o suficiente para isso, pessoas ao seu redor se emocionaram e ajudaram para que ambos pudessem se reencontrar. Taehyung havia chorado horrores assistindo esse filme e toda vez que assistia sentia aquele peso no peito, misturado com uma saudades gostosa. Sem dúvidas, assim que Jeon assistisse esse filme sentiria vontade de abraçar seus pais.

O filme começou e Jeongguk estava curioso sobre as pessoas dentro da caixa, mas preferiu não falar nada já que estava focado na trama, de início estava se concentrando só na comida, mas em poucos minutos já havia acabado tudo, e o outro tinha pausado o filme para tirar o pudim do forno e colocar na geladeira, o cheiro era delicioso e fazia o seu cérebro vibrar. O filme era interessante, Taehyung parecia mais concentrado do que nunca, era um dos seus roteiros prediletos, com um final feliz digno, mas não podia assistir muitas vezes, acabaria desidratando se assistisse sempre.

Taehyung voltou e despausou o filme, olhou para o moreno e ele estava com uma expressão séria, vez ou outra fazia uma careta. Já o outro não conseguiu se segurar, já estava chorando como um bebê e com o nariz entupido quando viu a garotinha entrar dentro da prisão para ver seu pai, e todos os outros detentos a trataram com carinho, dizendo que estavam doentes. A menina não sabia o que acontecia, não sabia porque não podia ver o seu pai, mas não desistia por nada. E quando o final chegou o loiro já não tinha mais lágrimas para chorar, Jeongguk ainda não tinha falado nenhuma palavra desde que o filme tinha começado, aquele filme doía no seu coração, percebia como a família era carinhosa e importante na vida da criança, muito diferente da criação que teve.

Ficava trancafiado no quarto todas as horas do dia, e foi assim por décadas, sua mãe dizia que era para sua proteção, mas agora percebia que talvez sua mãe só quisesse se livrar de si e não olhar na sua cara. Não era normal uma mãe prender o filho dentro do quarto sem ninguém para conversar durante 30 anos.

Jeongguk suspirou sentindo uma gota descer por toda a sua bochecha e cair a partir do seu queixo, deixou o corpo pender para o lado apoiando a cabeça no ombro do cavaleiro, sentia como se sua garganta estivesse tapada por um sapo, poderia se sentir feliz pela menina reencontrar seu pai no final, como Taehyung ficou, mas a realidade era que estava profundamente triste.

O filme acabou e Kim suspirou com um pequeno sorriso adornando seus lábios, sentindo algumas mechas escutas fazerem cócegas em seu pescoço e o cheiro bom do shampoo sair da li. Era muito mais emocionante assistir um filme ao lado de alguém, fez um carinho no topo da sua cabeça e com o mesmo sorriso preso em sua face se afastou um pouco secando as lágrimas do rosto e indo em direção a cozinha, onde pegou dois pratos e colocou duas fatias de pudim, para cada um, e voltou para o sofá entregando um para o moreno, sentia como se sua alma estivesse limpa depois de chorar tanto, muito divergente do outro que sentia como se sua alma estivesse mais pesada do que nunca.

Jeongguk pegou a colher e mexeu um pouco no pudim nem um pouco entusiasmado.

— E aí? O que achou? — Kim disse com certa animação, colocando uma porção generosa de pudim na sua boca. Jeongguk permaneceu calado por alguns segundos olhando com melancolia para o prato em sua frente. Sua barriga embrulhava. Queria chorar como um bebê por ter os pais mais inumanos do mundo, mas não conseguia. Sabia que não podia mudar uma cultura inteira por vontade de ser amado. Sentia-se como se tivesse sido enganado pelos seus pais durante os 30 anos que viveu preso. Depois de ver famílias no mercado humano e o filme emocionante sobre família, teve a certeza, nunca mais queria ver o rosto de seus pais novamente.

A única explicação para eles não terem entrado em contato a sede sobre seu desaparecimento é óbvia, eles não se importavam com a sua falta. Era a única opção plausível e sabia que era verdade, afinal os mesmos nunca demonstraram amor.

— Uma merda. —  Jeongguk respondeu depois de um tempo cortando uma parte bem pequena do pudim e tocou a ponta dos lábios, como se a sua boca não tivesse energia o bastante para abrir. Mas abriu e sentiu o gosto doce, era bom, mas se misturava com a sua tristeza naquele momento, então tudo parecia muito agridoce e sem sabor na sua mente.

— Uma merda?? — se espantou com a resposta, e colocou o prato delicioso de pudim na mesa de centro, não havia entendido. Aquele filme havia o deixado pior? — Por quê? Vai me dizer que esse filme não te deixou com vontade de ir atrás dos seus pais? 

— Pelo contrário. — Jeon resmungou soltando um lufo de ar e colocando o prato sobre a mesa assim com o outro. Abraçou o próprio corpo encolhendo as pernas no sofá, podia sentir a expressão confusa do cavaleiro. — Eu não quero ver eles nunca mais.

— Não diga isso… — sussurrou olhando para seu rosto, um cenho irritado se formou no rosto do mesmo, e até mesmo se levantou do sofá tentando fugir daquela conversa, mas Taehyung o puxou pela mão para que ele continuasse ali e então se levantou também. — Não diga isso, Jeongguk. Você não sabe como é bom ter pais.

— Você não sabe como são meus pais! — puxou a própria mão, olhando em seu rosto, o olhar de Kim era pesado, mas não era o bastante para fazer o moreno se acanhar, estava mais decidido do que nunca, não voltaria para casa e nem para aquele inferno por mais que estivesse perto de receber a coroa. — Eles nem mesmo me procuraram, se tivessem enviado qualquer carta para sede, eles já teriam me achado. Mas ninguém ali se importa comigo!

— É claro que eles se importam com você! Eles devem ter uma razão para não mandar uma carta para sede! — Taehyung rebateu, mas isso só deixava o nobre mais irritado.

— Você não entende, cavaleiro idiota! — gritou o empurrando para longe, já não aguentava mais aquela conversa, não queria falar para ele que vivia como um rato prisioneiro em sua própria casa. — Eu não quero, eu não os amo! Eles não me amam, e não se importam se eu sumi! Entende droga!

Taehyung ao ser empurrado partiu os lábios em uma expressão surpresa, e mesmo que não quisesse sentiu ódio e inveja, Jeongguk tinha pais esperando por ele em casa e mesmo assim achava que eles não o tratavam bem o bastante. E tudo o que queria era ter suas pais vivos.

— Você não sabe o que você está falando! — ralhou vendo o outro indo em direção a porta, estava farto daquilo, sua cabeça iria explodir se ficasse ali por mais um segundo, já estava com os sentimentos aflorados por conta do filme que assistiu. — O que eu acho é que você é um ingrato.

O moreno escutou, mas pouco se importou, fugiria de qualquer lugar se fosse preciso para não voltar a viver trancafiado, Taehyung o seguiu inconformado. “Para onde diabos você está indo?!” perguntou segurando seu pulso, apesar da raiva que sentia, não podia deixar o moreno se perder sem saber como voltar para casa. — Para fora desse maldito lugar, já que você quer tanto que eu vá para a casa, deve ser porque não me quer aqui. Eu prefiro morar no sol, do que voltar para a casa dos meus pais.

— Se o que te irrita sou eu, então pode ficar, quem sai sou eu. Pelo menos eu sei que tenho que voltar para a casa! — Taehyung vociferou e saiu na frente do outro indo em direção a rua, antes escutando o outro gritar e os vizinhos que estavam do lado assistir tudo chocados com a briga de ambos.

— Você não sabe como são meus pais! — disse por último da porta de casa, vendo o outro andar rápido passando por cima da grama mal cuidada.

— Você não sabe como é bom ter pais! — Kim gritou repetindo o que havia dito antes, aquela frase havia sido um pouco doloroso de falar. Havia abdicado de tudo por seu pai depois que perdeu a sua mãe muito novo. Assim como ela, ele também trabalhava como cavaleiro e herói, trabalhava por dias e deixava o pequeno sozinho em casa, claro que era cansativo a dupla jornada sem ajuda alguma, cuidar de uma criança e proteger um mundo não era fácil.

Portanto Taehyung aprendeu desde cedo a cozinhar, limpar, deixou de ir para a escola durante a adolescência, ao completar 14 anos, pois sabia que a partir dos dezesseis já teria que ajudar o seu pai a derrotar monstros. Apesar da solidão de não ter amigos e da solitude de nunca poder se apaixonar por outro humano comum, ainda era feliz. Tinha seu pai quase todos os dias, para lhe dá um beijo de boa noite e contar sobre histórias de coisas que fazia.

E essas histórias eram incríveis, era solitário ficar na casa sozinho, mas em dois anos começou a ir em missões com ele, assim como tal, também era especialista em trolls, lutavam juntos. Kim se machucava muito e quebrou sua perna mais vezes do que qualquer adolescente comum, se tornou forte e chegou até a sua maturidade, mas um dia se distraiu e perdeu o seu parceiro de luta, seu pai para um demônio que estava devorando pequenos trolls ingan. Uma espécie de troll com porte de humanos e habilidades de construção.

Toda vez que lembrava disso, sabia que o seu pai agiu com honra, morrer em uma batalha é morrer com glória, significa morrer pelo que acredita. Isso era algo de orgulho, mas para o Kim era apenas uma idiotice e sabia que um dia iria morrer da mesma forma, pois são poucos os cavaleiros que são fortes o bastante para conter qualquer tipo de criatura.

Taehyung suspirou, estava longe e sequer sabia aonde estava indo, parecia estar seguindo para o banco novamente, como se estivesse com o caminho gravado na sua cabeça, pois não costumava a ir em outros lugares. Mas uma coisa era certeza, o restante das lágrimas que não havia despejado durante o filme, agora estavam transbordando de seus olhos numa velocidade inimaginável. Sentia tanta amargura em seu peito que não sabia o que fazer para parar de senti-la, não era justo.

Não era justo consigo, e também não era justo com Jeongguk, ambos eram apenas jovens querendo ser amados. Não podia se apegar a imaginação onde o príncipe voltaria para sua família e seriam felizes para sempre, afinal eles podiam ser até mesmo cruéis, mas não podia evitar em todas as vezes que pensava nisso era egoísta ao ponto de comparar a sua família.

Estava farto desse mundo, farto de Malsusa também. A dor o seguia por todos os lados, a lembrança dos únicos laços familiares que tinha haviam partido para um terceiro mundo, o espiritual, às vezes Kim queria acreditar que eles viviam como anjos, provavelmente arcanjos, que são guerreiros e médicos do ser celestial. Talvez lá encontrasse a paz. Se encolheu no chão entre as pessoas que passavam por lá, que não deram a mínima para o garoto se desmanchando em lágrimas no meio da calçada. Ou quase ninguém.

Um homem com uma barba enorme e grisalha perguntou tocando seu ombro, ele estava agachado em sua altura, usando uma touca e uma roupa surrada com alguns rasgos, seu cheiro não era o dos melhores, principalmente pelo cigarro que tinha na boca, mas havia sido a primeira pessoa a lhe perguntar tal coisa em anos.

— Garoto, você está bem?


Notas Finais


Af gente, esses nenens só sofrem. Só querem ser amados e a vida é injusta com eles.

Eu juro que o próximo capítulo não tem sofrimento, eu secretamente como uma soft stan adoro os personagens pulando de felicidade. Só na paciência pra fazer esses dois se amarem, talvez seja hora de um cupido aparecer já que o nosso Hoseok tá preso… Sem mais spoilers. Até próxima sexta!!! <3


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