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História Meu Lar - Capítulo 2


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Capítulo 2 - "Sonhos que não havia sentido em alimentar"


Fanfic / Fanfiction Meu Lar - Capítulo 2 - "Sonhos que não havia sentido em alimentar"

Eu tinha acabado de ser contratado para trabalhar no estoque de um loja no centro da cidade do Rio de Janeiro, ela era uma das vendedoras ali. Aquele era o meu primeiro dia, meu superior estava me mostrando o lugar e me explicando como funcionava o trabalho, quando naquele salão de um branco translúcido eu a vi, ela tinha acabado de chegar.

Conforme a observava, percebi que ela havia corrido, estava com os cabelos desalinhados e parecia um tanto ofegante, abraçou as amigas cumprimentando-as e então me olhou. Acredito que as outras vendedoras comentaram que eu era o novo funcionário, ela me lançou um sorriso e um olhar acolhedor.

 Não sei dizer com precisão o que me chamou atenção nela, mas até hoje acredito que foi esse gesto simpático que me fez me sentir encorajado e bem-vindo. Naquele momento, lembro de ter ficado impressionado com sua beleza. Impressionado com sua simpatia. Lembro de ter pensado que havia algo de especial nela, mesmo que eu ainda não soubesse explicar o que era. Precisei acompanhar meu chefe até o segundo andar, dei uma olhada de relance em direção a ela e suas amigas, e o segui tentando me concentrar no que ele dizia, entretanto, no fundo minha mente só conseguia pensar na mulher misteriosa que eu tinha acabado de ver.

Talvez o momento esteja romantizado em minha memória, mas não posso evitar. Em consequência de tudo o que passamos juntos essa lembrança está envolta por carinho.

Voltei ao presente ao vê-la se mover em minha direção. Sua expressão era indecifrável. Eu não sabia o que esperar. Ela tinha todos os motivos do mundo para me ignorar, me bater ou fazer coisa pior.

Congelado, eu ainda não conseguia falar nem fazer nada. Era como se estivesse preso no tempo, naquele milésimo de segundo em que eu me dei conta de que talvez realmente existissem segundas chances.

Ela se aproximou devagar e parou a um metro de mim. Eu quase estendi a mão para tocar seu rosto e ver se era real, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, ela disse: 

― É mesmo você, Tomaz? ―, Ellie me olhou atentamente como se não tivesse certeza do que estava vendo. ― É tão difícil acreditar que você esteja bem na minha frente depois de tanto tempo ― pronunciou cada palavra devagar, como se aquela constatação fosse dolorosa.

― Eu sei ―respondi ainda em choque. ― Também não consigo acreditar.

― Você está tão... ― Ellie hesitou, piscou algumas vezes como se procurasse a palavra ―, diferente ― concluiu com um leve sorriso.

Aquele sorriso singelo reacendeu em minha mente inúmeras lembranças. Todos os momentos que passamos juntos estavam tão vivos naquele instante e traziam consigo uma enxurrada de emoções.

 ― Você não mudou nada Ellie. Assim que te vi, não tive a menor dúvida de que era você.

― Não... Na verdade eu mudei bastante. ― Ela desviou o olhar e soltou um ar de riso, mas percebi que aquele era um assunto que a incomodava. ― Já não sou a mesma.

Eu a analisei de cima a baixo descaradamente. Ela havia engordado um pouco, conclui. Na última vez em que a vi ela tinha o corpo de uma modelo internacional. Agora, ela se enquadraria na categoria plus size, mas a sua beleza ainda era a mesma. Seus cabelos castanhos estavam presos desleixadamente, provavelmente pela praticidade do dia a dia. Ela vestia um vestido simples com flores estampadas e parecia não estar usando maquiagem. Apesar de algumas rugas que começavam a se mostrar, o olhar e o sorriso doce em seu rosto ainda eram os mesmo que permaneceram em meus sonhos durante todo esses anos. Talvez se eu visse essa simplicidade em qualquer outra mulher considerasse desleixamento, mas nela, em Ellie, apenas servia para ressaltar ainda mais a pureza de sua beleza.

― Você continua linda. Está ainda mais linda do que antes ― afirmei sinceramente com olhar direcionado a seus olhos.

Ela corou no mesmo instante e ficou ainda mais adorável.

― Posso ver que você continua o mesmo galanteador, Tomaz. ― Ela sorriu em resposta.

― Eu continuo sincero.

Me lembrei da primeira vez que a elogiei e meu coração se encheu de ternura.

―Você está linda! Maravilhosa! ― Eu havia dito naquele dia quando passei perto dela.

―Tomaz! Já disse para não falar essas coisas aqui ― ela me repreendeu, mas sorriu. ―O pessoal tá logo ali ― acenou com a cabeça em direção aos nossos colegas que estavam em uma bancada pegando café.

―Mas eu não posso me conter. Não venha tão linda, se não quer elogios ―pisquei para ela e segui para o estoque.

Mas, na verdade, essa não foi a primeira vez que a elogiei, nesse tempo já estávamos namorando. A primeira vez que lhe fiz menção a sua beleza foi algumas semanas após eu ter ingressado no trabalho. Foi em um dia de chuva, eu estava arrumando as coisas na loja, nós que éramos do estoque chegávamos mais cedo para deixar tudo pronto para o novo dia de serviço, as vendedoras entravam as oito. Ellie chegou toda molhada.

― Não acredito que esqueci meu guarda-chuva justo hoje! ― reclamou enquanto tentava se limpar com uma toalhinha que tirou da bolsa. ― Eu estou horrível, como vou trabalhar assim?

O cabelo dela estava um pouco bagunçado e molhado, havia respingos de chuva em sua roupa e sua maquiagem estava borrada, mas ela estava longe de estar horrível, muito pelo contrário, a achei ainda mais atraente daquela forma, como se tivesse acabado de sair de um filme romântico.

― Você está linda! ―declarei sem nem ao menos hesitar.

Ela me olhou surpresa, abriu um sorriso e com um olhar desconfiado, disse:

―Você está caçoando de mim! Não se faz isso com uma mulher, ainda mais uma no meu estado.

―Não. Falo sério, você está linda! Ainda mais do que nos outros dias, se é que isso é possível ― finalizei com carinho.

Ela me encarou por alguns segundos analisando se eu estava mesmo sendo sincero, quando pareceu perceber que minhas palavras eram verdadeiras, desviou o olhar e enrubesceu na hora.

― Eu... Ah... Muito obrigada... ― Sorriu sem jeito. ― Eu acho... Hum... Eu preciso entrar.  

Foi rapidamente em direção ao interior da loja, me virei para admirá-la e pude vê-la entrando no banheiro ainda com um sorriso no rosto.

A forma como ela ficava encabulada ainda era a mesma.

Eu divagava enquanto a observava em silêncio.

― Mas... O que... O que você está fazendo aqui? ― Ellie quebrou a quietude, desviando o olhar do meu, desconfortável pela forma intensa como eu a fitava.

― Na verdade, eu comprei esse apartamento. ―Apontei para a porta atrás de mim.

― Oh! Então seremos vizinhos, ― ela pareceu surpresa. ― Quem poderia imaginar uma coisa dessas! ― Pude detectar seu desconforto, mas ela tentou disfarçar. ― Se é assim, seja bem-vindo ― completou.

― Não precisa se preocupar, eu quase não fico em casa. Meu trabalho exige muito de mim.

― Eu não...

― Você me conhece, não sou hipócrita, Ellie. Eu entendo sua preocupação. Eu sei que nós tivemos uma história... Quando comprei esse lugar, eu jamais imaginei que você morasse aqui. 

Seu modo inquieto fez com que eu percebesse a aliança que pairava em sua mão esquerda. O baque foi forte, mas disfarcei o melhor que pude.

 ― Eu sei que você tem uma família agora e não quero que pense que eu vim importuná-los ― falei contemplando suas mãos. Ela percebeu meu olhar e pareceu  constrangida.

― Eu não estava imaginando isso Tomaz, eu sei que você não...  ― Ellie direcionou seu olhar ao chão por alguns segundos. ― Eu nunca imaginaria isso... Eu... Eu só estou surpresa.

Acenei concordando, eu também mal podia conceber aquela situação.

― Aliás, sua filha é adorável. Ela se parece muito com você.

― Obrigada. É muita gentileza da sua parte, Anna é muito mais bonita.

― Quem pode contradizer uma mãe? ― perguntei sorrindo. ― Mas ela teve a quem puxar.

Aquela frase me fez lembrar da figura do marido e o silêncio caiu novamente sobre nós. Eu não conseguia parar de fitá-la. Sabia que era inconveniente o que eu estava fazendo, ainda mais quando Ellie desviava o olhar toda vez que o meu encontrava o seu, entretanto, não conseguia me impedir de aproveitar aquele momento, de tentar gravar na memória todos os detalhes daquele reencontro. Eu sabia que era tudo o que teria de Ellie, agora ela estava casada e tinha uma filha.

E apesar de consciente disso, eu me sentia completamente enternecido por sua beleza, eu queria abraçá-la, queria conversar com ela... Eu tinha sentido tanta saudade. As lembranças não paravam de surgir em minha cabeça, a primeira vez que a vi, nosso primeiro beijo, nossas conversas infinitas, todas as vezes que a levei de volta para casa. Tudo vinha misturado, tudo ao mesmo tempo, e ainda assim, de alguma forma tudo muito claro, muito vívido.

― Quero sair com você.

Aquela tinha sido a primeira vez que ficamos sozinhos em três meses, havíamos trocados alguns olhares e conversado sobre coisas cotidianas, mas eu nunca tive a oportunidade de direcionar a conversa para aquele objetivo. Há alguns instantes atrás, Marcela, outra vendedora da loja, estava sentada conosco na cozinha, havíamos acabado de almoçar. A mulher tinha se levantado dizendo que iria ao banheiro e já voltava, e eu, com medo de que não tivesse outra oportunidade tão cedo, resolvi ser direto.

―O quê? ― Ellie piscou duas vezes e desviou o olhar. Simultaneamente seu rosto se coloriu de um tom vermelho.

― Eu disse que quero sair com você ―, respondi procurando seu olhar com o coração acelerado. ― Sei que nos conhecemos há pouco tempo e quase não conversamos direito, mas eu realmente estou encantado... ― Sorri com carinho. ― Eu me sinto atraído por você. ― Pensei por um segundo e achei que aquela frase poderia deixar muito espaço para duplo sentido. ― Não de uma forma carnal... quer dizer... É claro que eu te acho linda, mas não é apenas isso. Você tem uma alegria tão genuína, um sorriso que me deixa fascinado e uma bondade que me faz querer estar perto de você. Ellie, você é uma daquelas pessoas que a gente pode ver apenas uma vez na vida, mas a gente tem certeza que é gente boa de verdade. Por tudo isso, preciso que você me dê uma chance e vá a um encontro comigo.

Por alguns segundos ela não respondeu, pude vê-la engolindo em seco. Parecia nervosa, assustada até. E o vermelho de seu rosto se tornou ainda mais marcante. Tive receio de que ela estivesse com medo de mim, mas no canto de sua boca surgiu um sorriso doce.

― Não quero te assustar ―, remediei apressado. ― Fui muito direto, eu sei. ― Olhei para as minhas mãos suadas, nervoso. Já tinha namorado antes, mas Ellie parecia especial e eu não queria estragar tudo. ― Me desculpe. É que estava com medo de perder essa oportunidade, sempre tem alguém perto de você, eu nunca consigo me aproximar.

Ela ainda não olhava para mim, mas disse:

― Acho... Acho que.... Quer dizer... ―, ela me olhou rapidamente e logo virou o rosto, claramente envergonhada. ― Eu... Eu preciso voltar ao trabalho.  Me desculpe ― respondeu se levantado apressada.

― Eu não sou maluco. Por favor, não fique com medo de mim ― implorei gritando em direção a ela, que já havia alcançado a porta.

― Não estou com medo ― respondeu virando-se para mim por um segundo e depois saiu, me deixando sem resposta, mas com alguma esperança.

Naturalmente, nós não éramos mais aqueles dois jovens do passado, e ciente disso, eu sentia um forte desejo de conhecer aquela Ellie que estava em minha frente. De súbito, me senti como se estivesse em um primeiro encontro, quando tudo é novo e instigante, e você se sente fascinado e atraído por aquela pessoa, querendo saber tudo sobre ela. Essa é a mais perfeita descrição do meu estado.

Como um segundo pode mudar tudo? Eu queria apenas um tempo completamente monótono na minha vida, mas no momento em que pus meus olhos nela foi como se algo tivesse acordado dentro de mim... Uma chama estava acesa, mas eu sabia que precisava sufocá-la.

  ― Estou muito feliz de ter te reencontrado, Ellie. ―Sorri com carinho para ela. ― Sei que pode parecer estranho, mas será que a gente poderia tomar um café? Reparei que tem uma cafeteria aqui embaixo, bem pertinho ― disse buscando seus olhos.

Eu queria passar mais tempo com ela, apenas um encontro não seria suficiente diante do tempo que estivemos separados e da nossa história. Além disso, eu queria conversar livremente sobre o que houve entre nós, algumas coisas precisavam ser esclarecidas.

— Não posso. Preciso arrumar o almoço, tenho muita... muita coisa para fazer. Desculpe.

— E que tal mais tarde? Você pode me encontrar hoje à tarde? Tenho algumas coisas que gostaria de te falar.

― Eu... ― ela hesitou e desviou o olhar novamente. ―  Eu não sei se essa é uma boa ideia. Já faz muito tempo, Tomaz. Nós não deveríamos remexer o passado.

― El, eu só... ― A forma como eu a chamava durante nosso namoro, saiu naturalmente de meus lábios. ― Talvez, essa seja a última vez que a gente se fale. Mesmo morando de frente um para o outro, eu sei que não vamos ser exatamente “amigos”. Eu não quero atrapalhar sua vida. ― Fiz uma pausa. Como eu poderia fazê-la entender? ― Eu só queria falar com você, Ellie. Você sabe que foi uma parte muito importante da minha vida e eu sinto que preciso fazer isso.

― Tomaz...

― Desculpe se estou sendo importuno, mas eu apenas quero conversar com você uma última vez ― afirmei sério. ― Por muito tempo eu pensei em te procurar, mas nunca o fiz porque sabia que não tinha esse direito... ― As lembrança dolorosas mais um vez se remexiam dentro de mim. Elas eram nítidas. ― Só que aqui estamos nós: a vida me deu uma nova chance e eu não quero desperdiçá-la. Eu preciso esclarecer tudo entre nós, não vou conseguir viver sem te pedir perdão, sem saber que está tudo bem com você... Se eu deixar essa oportunidade passar, eu vou me martirizar pelo resto da minha vida. ― Fixei meus olhos nela. ― Ellie, eu sei que não mereço, mas em consideração ao que vivemos, vamos encerrar nossa história da forma correta. Se você ainda é a Ellie que eu conheci, eu sei que vai entender o que estou falando.

Ela fechou os olhos e soltou um longo suspiro. Por alguns segundos o silêncio permaneceu. Quando voltou a me olhar, eu sabia que sentia o mesmo que eu. Ela também queria uma conclusão.

― Tudo bem ― concordou. ― Vamos fazer isso. Hoje à tarde, eu passo em seu apartamento. Acho que é o melhor lugar para nos encontrarmos. Não posso correr o risco de sermos vistos juntos, Tomaz... Eu moro aqui. Os vizinhos, os conhecidos podem ter a impressão errada. Essa... Essa conversa precisa ficar entre nós ― concluiu apreensiva.

― É claro. Eu entendo.

― Preciso ir agora ― Ellie sentenciou, mas permaneceu parada por um momento, como se ainda não acreditasse no que tinha acabado de acontecer.

― Claro ― assenti.

Ela me olhou uma última vez e se foi, entrando rapidamente em seu apartamento sem olhar para trás. Por alguns segundo eu ainda permaneci ali parado tentando absorver tudo o que havia acontecido, passei as mãos pelo cabelos, bagunçando-os, me virei e entrei em meu apartamento.

Me joguei no sofá ainda confuso. Durante os últimos anos, Ellie sempre esteve presente em meus pensamentos, mas em nenhum deles eu imaginei que a encontraria numa situação como aquela e, principalmente, que ela estaria casada e com uma filha.

Era ridículo estar chateado com aquilo. Era óbvio que ela tinha seguido em frente. Era natural ela ter constituído uma família e ser feliz. Eu até queria... queria muito ficar feliz por ela, mas eu era um maldito egoísta: me perguntava se eu não tinha sido tão importante para ela quanto ela foi para mim? Pensamentos idiotas. Fui eu quem foi embora, eu a abandonei, que direito eu tinha de fazer questionamentos como aqueles?  

Resolvi tomar um banho para tentar clarear minha cabeça. Não me preocupei em desfazer minhas malas, o máximo que fiz foi abrir as janelas, para deixar um pouco de ar entrar. Peguei uma roupa qualquer e fui direto para o banheiro. Enquanto eu me despia, tentei em vão afastar os pensamentos pecaminosos que vinham a minha mente. Toda vez que eu fechava os olhos, minha imaginação fértil tentava desenhar o contorno do corpo de Ellie nu em minha frente. Ela havia dito que havia mudado com um ar triste, mas era justamente essa mudança que me deixou ainda mais interessado, seus seios e quadril estavam maiores, ainda mais desejáveis. Eu queria tocar aquela pele macia novamente, descobrir todos os lugares que a faziam... Chacoalhei minha cabeça embaixo da água fria do chuveiro. O que eu estava fazendo? Eu precisava me controlar, eu precisava respeitá-la. Ela era uma mulher casada, não era mais a minha Ellie. Era uma mãe de família agora. Se eu nunca poderia realizar esses sonhos, não havia sentido em alimentá-los.

 


Notas Finais


O que vocês acham desse encontro? O que será que vai rolar?


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