História Meu Querido Alguém - Capítulo 1


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Categorias EXO
Personagens Baekhyun, Chanyeol, D.O, Kris Wu
Tags Cartas, Chanbaek, Krisoo, Presente Da Tia Fabi
Visualizações 111
Palavras 8.850
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Lemon, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Estupro, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Eu juro não matar nem o Baek nem o Chan!
PROMETO!

Hoje é o aniversario da minha tia amada! Ela está dormindo? Provavelmente!
Mas eu estava muito animada para postar essa fanfic!
Eu te amo demais, tia Fabi. Faço tudo que posso pela senhora, só lamento não ser muito. A senhora é muito especial para mim. Muito mesmo. Tipo, demais! Eu espero que a senhora goste, pq tá ruim, mas foi feito de coração.

Ela tem algumas semelhanças com Cartas do ano passado? Tem. Mas são propositais, eu queria ajeitar essas coisas, sem mexer na historia do ano passado. Então eu não pretendo cometer os mesmos erros, porém os novos estão aí para isso.

A Luisa estava tão ansiosa para a fic, que acabou me deixando também.
Eu te amo, Lu. Você é incrivel.

Eu ainda não determinei se a fic será shot ou long... Será o que tiver que ser. Na min ha cabeça ela tem uns 20 capítulos, rezando pra diminuir!

Boa leitura para todos

Capítulo 1 - Porque você é especial


Porque você é especial

 

A vida não é fácil para ninguém, isso é um fato comprovado. Até a pessoa que aparenta ter a vida mais perfeita, enfrenta seus próprios problemas, seus próprios demônios. A diferença é que alguns demônios são internos e outros externos. Até hoje não se sabe qual o pior deles. Mas, atrevo-me a opinar que o pior é sem dúvidas o interno. Porque não há como fugir de algo que está dentro de você, e em alguns casos particulares, não tem como fugir de algo que você é.

No caso de Byun Baekhyun, ele ainda não sabia se tinha um demônio dentro de si ou se com o passar do tempo havia se tornado seu próprio demônio.

Baekhyun sempre foi um homem centrado, calado e extremamente recluso. Seria muito fácil dizer que ele não tinha amigos porque era diferente, tinha gostos peculiares ou simplesmente tinha dificuldades para se comunicar e se integrar em determinado ciclo social. Mas tudo não passaria de desculpas esfarrapadas que Baekhyun daria facilmente para qualquer um que perguntasse. Mas, para si mesmo, ele não ousaria mentir. Baekhyun já havia presenciado de perto o quanto as pessoas podem ser cruéis e insensíveis. 

Baekhyun podia contar nos dedos das duas mãos a quantidade de pessoas que deixara entrar na sua vida, e nos dedos dessas mesmas mãos ele contaria quantas pessoas pisaram em si de forma miserável e inescrupulosa.

Nessa lista, não estavam incluídos a mãe e o pai que ele nunca teve a chance de conhecer. Porque eles nunca fizeram parte de sua vida. Nunca lhe deram uma chance para ele mostrar que ele poderia ser muito mais do que um fardo.

Nos primeiros anos de sua vida, Baekhyun aprendeu o que é ser um fardo e entendeu perfeitamente porque era chamado disso.

No orfanato onde crescera, as freiras que tomavam conta de si e das demais crianças eram velhas carrancudas e amargas, sem nenhuma sensibilidade. Diziam que o governo não estava mais pagando os gastos para cuidar deles e que se eles não quisessem virar mendigos teriam que ser algo além de fardos imundos.

Elas usavam exatamente essas palavras.

“Fardos imundos”.

Para algumas pessoas, maiores e com conhecimentos sobre suas próprias habilidades, serem chamadas de “fardos imundos” pode não ser grande coisa.

Mas para uma criança de quatro anos, que lutava para receber o mínimo de carinho que fosse, de qualquer um, aquelas palavras machucavam mais do ferro em brasa.

Naquele imenso prédio velho, que Baekhyun e outras crianças eram obrigadas a limpar enquanto as freiras supervisionavam tudo como se fosse uma ditadura, havia uma janela no último andar. Todas as noites depois do trabalho, Baekhyun ia até aquela janela e encarava a estrada de terra que levava até a sua liberdade.

O pequeno sonhava com um mundo onde as pessoas fossem gentis consigo, e ele acreditava que esse mundo estava além dos muros do orfanato. Muitas crianças entre seus quatro ou cinco anos, sonham em ser príncipes, derrotar dragões ou qualquer coisa assim, Baekhyun sonhava em sair da prisão a qual fora condenado pelos seus próprios pais, ele sonhava em ser amado de verdade por alguém.

Baekhyun aprendeu desde de cedo que para que as pessoas gostassem de você, você teria que fazer algo por elas.

Ele passou muitos anos fazendo tudo pelas pessoas, mas ninguém nunca fez nada por si.

Entretanto, ele não era uma pessoa extremamente amargurada, que havia perdido toda a fé na humanidade. Baekhyun sabia que existiam pessoas boas pelo mundo, ele só nunca teve a oportunidade de conhecê-las. Embora quisesse muito, tinha medo de ser machucado novamente. Então preferia manter distância e impedir que as pessoas entrassem em sua vida para machucá-lo ainda mais.

Amigo?

Baekhyun nunca soube o que era isso.

Para Baekhyun, a solidão machucava muito menos do que as pessoas.

[...]

O dia a dia de Baekhyun, durante uma parte de sua vida, se resumiu em um trabalho medíocre limpando o chão de um prédio empresarial — já que era a única coisa que Baekhyun sabia fazer, limpar. — e a faculdade de Serviço Social. Entretanto, meses depois de ele finalmente conseguir entrar em uma faculdade, Baekhyun começou a frequentar um asilo.

No começo, ele ia apenas uma vez por mês, e apenas ficava observando, até que ele passou a interagir com muitos dos ali presentes e passara a ir todos os dias em que estava livre. Finais de semana, feriados… Qualquer hora de seu dia que estivesse livre, Baekhyun ia até o asilo.

Ali fora o primeiro lugar em que ele se sentira realmente querido, foram as primeiras pessoas que se preocuparam em mostrar um pouco de gentileza para si. Ele sabia que aquelas pessoas estavam tão carentes de carinho quanto ele, e que muitas podiam não ser gentis assim uns com os outros, mas era uma troca justa. Baekhyun conseguia se desligar de suas tristezas durante algumas horas do dia e dava momentos de felicidade para aquelas pobres pessoas, muitas abandonadas pelos próprios filhos.

Baekhyun se perguntou se alguém que estivesse ali não podediam ser seus pais, ou de eles estariam em uma situação semelhante.

Sozinhos. Abandonados.

Como Baekhyun quando tinha apenas alguns dias de vida.

A solidão que Baekhyun sentira durante toda a vida, era levemente amenizada quando ele estava com aquelas pessoas.

Baekhyun contava os dias para poder ir até o asilo e, com a graça de Deus, aquele era um daqueles dias.

Durante aquele sábado, Baekhyun teve que passar boa parte da manhã fazendo um trabalho para a faculdade, mas isso não impediu que ele fosse lá durante a tarde.

[...]

Aos sábados, eles tinham música.

Dá entrada, Baekhyun conseguiu ouvir o som alto tocando.

Eles ficavam reunidos na varanda, onde era mais ventilado nos dias de verão. O terreno era bem grande, tinha muitas árvores grandes e flores, para deixar o ambiente mais animado, com uma piscina na área traseira, para que eles fizessem exercícios. 

Baekhyun chegou na varanda e viu o Sr. e a Sra. Kim dançando lentamente, por mais que a música fosse agitada. O mais jovem observou a cena e sorriu.

O casal em questão eram casados há cinquenta anos, e ambos sofriam do mal de alzheimer. Era triste, mas chegava a ser romântico em certos momentos. Eles se esqueciam de tudo com muita frequência, o Sr. Kim já não sabia mais segurar uma colher — o caso dele era mais avançado —, mas ele nunca se esqueceu de sua esposa. Durante todas as refeições, a Sra. Kim dava comida na boca do marido, por mais que não soubesse mais o porquê.

Eles viviam das memórias do coração, não da cabeça.

— Bom dia, meu jovem. — a Sra. Hyorin o cumprimentou.

— Bom dia. — Baekhyun sorriu.

Já era tarde, mas Baekhyun não gostava de contestá-los, não era saudável para eles.

— Você é o namorado da minha neta? Ela mandou falar alguma coisa?

Baekhyun sorriu triste e se ajoelhou perto da senhora, passando a mãos pelo seu rosto enrugado e pele caída. Ele não gostava de mentir, mas a verdade doeria muito mais.

O jovem sabia que no dia seguinte, quando ele aparecesse para o café da manhã, ela nem se lembraria mais dele e faria a mesma pergunta, como em todos os dias desde que ele entrara naquele lugar pela primeira vez. Depois de um tempo, Baekhyun passou a lhe dar sempre a mesma resposta.

— Sim. Ela disse que está morrendo de saudades da senhora e que vem vê-la logo. — ele deu um beijo na testa da senhora e se levantou para deixar suas coisas na sala para falar com todos ali presentes.

A neta da Sra. Hyorin estava morta. Assassinada durante um tiroteio em um assalto a banco. Baekhyun nunca teve o prazer de conhecê-la, mas ela parecia ser a única pessoa que visitava a Sra. Hyorin depois que ela foi colocada no asilo, e depois de sua morte… Mais ninguém.

— Boa tarde. — desejou para as donas do asilo.

As duas mulheres altas sorriram para Baekhyun e responderam seu cumprimento antes de voltarem ao trabalho.

O jovem deu meia volta e começou pelas pessoas que estavam na sala. Elas sempre eram as mais tristes e debilitadas, muitas amarradas a cadeiras, para que não caíssem ou saíssem andando por aí.

— Olá, senhora. — Baekhyun sorriu e se posicionou ao lado da poltrona da senhora. Mesmo indo lá há um tempo, Baekhyun não fora capaz de decorar todos os nomes.

A senhora em questão tinha lençóis em volta da cintura. Ela tentava desatar os nós, mas quando Baekhyun se aproximou, parou imediatamente o que estava fazendo.

— Olá, meu jovem. Como você vai?

— Eu vou indo. E como foi o dia da senhora?

Ele poderia ter respondido com um “E a senhora?”, mas aquela era uma das perguntas proibidas. Pois eles não iam bem. Estavam confinados com estranhos em um lugar que eles simplesmente não queriam estar, sem poder fazer nada além de ficarem sentados e assistir televisão. Embora tivessem algumas atividades, elas não ajudavam muito.

— Foi horrível! — ela falou e Baekhyun sorriu.

Ele não estava sorrindo porque o dia dela havia sido horrível, mas sim porque ele conhecia a senhora. Ele sabia que ela daria essa resposta. Para ela, nada estava bom o suficiente. Ela estava sempre reclamando e arrumando confusão com outras pessoas. Chegava a ser cômico algumas vezes.

— Essas pessoas ficam me prendendo como se eu fosse uma louca! — ela voltou a puxar os lençóis. — Você pode me ajudar, por favor? Eu preciso fazer xixi e trocar de roupa, o meu namorado deve chegar a qualquer instante! Ele não pode me ver usando pijama.

— Eu vou chamar alguém para ajudar a senhora! — ele faz menção a se levantar, mas a senhora segura seu braço com força.

— Não precisa! Basta você me desamarrar que eu me viro sozinha!

Ela não conseguia andar direito, era preciso no mínimo duas pessoas para levá-la para qualquer lugar, ela podia tudo, menos se virar sozinha.

— Eu vou chamar alguém. — ele respondeu e se levantou.

Baekhyun pediu ajuda para uma enfermeira e ela concordou, indo na direção da senhora. Depois que ele viu que ela estava sendo devidamente ajudada por duas pessoas, prosseguiu.

O Byun foi até o centro da sala, onde ficavam os sofás e a televisão principal.

Ele falou com cada um que estava ali, demorando mais em alguns, pois eles simplesmente não deixavam que Baekhyun se afastasse.

Seguravam-no com força e faziam qualquer pergunta que fosse, apenas para manté-lo durante mais tempo consigo. Baekhyun sempre dava um beijo na testa e prometia voltar para falar com eles. E ele acabava voltado mesmo.

Ele passou pelos quartos, falando com os mais debilitados. Nos quartos ficavam as pessoas depressivas, ou com algum tipo de deficiência ou doença grave. 

Eles saiam, mas apenas em horários específicos, e eles exigiam uma atenção maior e nem sempre tinha pessoal para isso.

Baekhyun e viu o senhor endireitar a coluna.

— Baekhyun? — ele perguntou e o jovem se sentou na beira da cama do Sr. Kim, aproximando o rosto.

— Boa tarde, Sr. Kim. — ele falou e viu o senhor com deficiência visual sorrir e esticar as mãos. — Como sabia que era eu?

— Olá, Baekhyun. Os seus passos são leves como os de um felino, eu sempre sei que é você. — Baekhyun sorriu e concordou. — Como você vai?  — o Sr. Kim passou os dedos por debaixo dos olhos de Baekhyun, como sempre fazia para ter certeza de que ele estava dormindo bem. — Não dormiu noite passada?

— Tive que fazer um trabalho, mas estou bem. — o jovem afirmou.

— Ah, sim. Eu fiz uma coisa para você. Está na gaveta. 

Baekhyun abriu a gaveta e pegou o papel com um desenho.

Por mais estranho que parecesse, Baekhyun achou que era a si mesmo no desenho. Tinha o seu sorriso, isso ele tinha certeza.

— É assim que eu te vejo. — o senhor falou com um sorriso.

— É lindo, Sr. Kim… — Baekhyun passou os dedos pelo papel.

Aquilo foi tudo para Baekhyun. Marcou-lhe até o resto de sua vida. Fora o primeiro gesto genuíno de amor e gentileza que ele havia recebido, e tinha vindo de uma pessoa que ele encontrava duas vezes por semana durante alguns minutos, porque Baekhyun não podia passar muito tempo com o Sr. Kim, pois tinha muitos outros quartos para visitar.

Baekhyun não segurou as lágrimas que caíram depois de receber o desenho.

— Não chore, Baekhyun. Eu te desenhei sorrindo porque gosto de te ver assim… — ele passou a mão pelo rosto de Baekhyun.

Diferente de muitos ali, o Sr. Kim tinha as mãos firmes. Não tremiam nem mesmo uma vez.

Durante a juventude, o Sr. Kim fora um desenhista fracassado. Vivia das pinturas que fazia das pessoas nos parques da capital, se casara e tivera uma filha, que estava perdida no mundo àquela altura, o Sr. Kim desenvolveu um problema de visão que acabou culminando com a perda total da mesma. Mas isso não diminuía seu talento. Mesmo sem ter visto Baekhyun uma única vez, fora capaz de desenhar seu rosto. Mesmo que não estivesse exatamente igual, era Baekhyun. Tinha certa semelhança.

— Obrigado, Sr. Kim. Ninguém nunca fez nada assim para mim.

— As pessoas não conseguem enxergar a pessoa maravilhosa que você é. Eu vejo. Pessoas como você, Baekhyun, tem que ser protegidas. — ele pegou a mão do jovem e a apertou.

— Obrigado… — ele respondeu ao dar um beijo na mão enrugada do senhor.

Ambos ouviram um barulho vindo do quarto ao lado, seguindo por um grito alto.

— O Sr. Choi deve ter se soltado. Ele estava muito inquieto essa manhã. Vá lá, Baekhyun, ajude ele. — o Sr. Kim pediu e Baekhyun se levantou.

— Eu já volto.

— Até mais tarde. — ele respondeu, sabendo que seria meio difícil o Byun voltar no seu quarto se não fosse para se despedir.

Baekhyun correu até o quarto ao lado e encontrou o Sr. Choi jogado no chão, se debatendo e rolando.

— Sr. Choi!! — Baekhyun correu até o botão vermelho e o apertou para chamar os enfermeiros. Sempre que o botão do Sr. Choi era apertado, os enfermeiros apareciam o mais rápido possível. E eram sempre homens.

Por conta de seu porte, as enfermeiras não conseguiam controlá-lo, nem segurá-lo.

Baekhyun segurou o homem pelo braço, mas recebeu um soco na cara.

— Merda! — ele xingou quando deu dois passos para trás.

Os enfermeiros apareceram. Logo três. Dois os seguraram e um colocou um tranquilizante no Sr. Choi.

Ele foi ficando mais calmo e os enfermeiros o deitaram na cama antes que ele apagasse completamente.

— O senhor está bem? — um deles perguntou e Baekhyun concordou. — Eu acho melhor o senhor ir colocar gelo.

— Sim… Sim… O Sr. Choi é bem forte. — falou ao tocar o local ferido.

— Mais do que aparenta. — ele concordou e deu um sorriso.

— Bom, eu vou passar na cozinha. Obrigado.

Ele deu as costas e saiu do quarto.

A cozinha ficava há alguns metros de distância do corredor dos quartos; e foi enquanto percorria esse poucos metros que Baekhyun viu o Sr. Park saindo do quarto, se apoiando nas paredes e na sua bengala.

O Sr. Park era sem dúvida alguma o que Baekhyun tinha menos contato. Ele havia chegado há algumas semanas e ainda estava no processo de adaptação, agindo com certa frieza perto de Baekhyun, pelo menos era assim que o mais novo encarava a atitude distante do senhor.

Porém, Baekhyun acelerou seu passo e alcançou o Sr. Park, segurando-o pelo braço.

— Precisa de ajuda? 

O Sr. Park lhe encarou e lhe deu um sorriso.

— Olá, Sr. Byun. Eu seria grato se o senhor me ajudasse a chegar na sala. — ele falou e Baekhyun concordou, surpreso pelo Sr. Park saber seu nome. Só havia falado com ele uma vez, nas outras vezes que Baekhyun aparecera no asilo, o Sr. Park se mantivera distante, apenas observando. Era claro para Baekhyun que o Sr. Park não era nenhum caduca e que tinha suas faculdades mentais intactas.

Ele sentou o Sr. Park em uma das poltronas.

— Obrigado, meu jovem. 

— Disponha. — ele sorriu antes de se afastar.

Baekhyun ainda conseguia sentir o olhar do Sr. Park sobre si conforme se afastava. Ele olhou uma única vez para trás e encontrou o Sr. Park conversando com outra pessoa. Baekhyun franziu o cenho e entrou na cozinha.

Talvez fosse apenas coisa da sua cabeça…

[...] 

No final do dia, Baekhyun chegou no seu pequeno apartamento, acabado.

Ele se jogou no pequeno sofá duro e tentou se acomodar.

Baekhyun não tinha televisão, tivera que vender alguns meses atrás para conseguir pagar as contas atrasadas.

O local que Baekhyun chamava de casa era composto por um banheiro, uma cozinha minúscula e uma sala que só tinha um sofá e uma mesa de centro, separadas pela mesa em que Baekhyun usava para comer e uma cama pequena e dura mais no canto. Durante muitas noites, Baekhyun preferira dormir no chão do que em sua cama suja.

Baekhyun não tinha um único móvel realmente novo. Todos eram de segunda mão e alguns ele havia encontrado no lixo; e era assim que ele iam montando o que ele chamava de casa. O prédio onde ele morava já deveria ter sido condenado pelo governo, pois era possível que desmoronasse a qualquer instante, mas era o que Baekhyun conseguia pagar, era o que ele tinha.

Baekhyun soltou um suspiro cansado e esticou o braço para pegar a bolsa que havia jogado em cima do centro. Ao alcançá-la, Baekhyun a puxou e se sentou de uma forma melhor no sofá, para poder procurar o celular.

— Cadê essa bosta? — perguntou em voz alta enquanto vasculhava a bolsa. Baekhyun começou a tirar uns papéis ali de dentro, papéis esses que ele sabia exatamente o que eram. Contas para pagar.

Entretanto, um deles era diferente.

Os envelopes que ele costumava receber não eram de um papel tão grosso, muito menos azul claro.

— Mas o quê é isso?

Ele pegou o envelope e guardou tudo dentro da bolsa novamente. Procuraria o celular mais tarde.

Não havia nenhuma identificação no envelope, nada que indicasse de quem era, ou até mesmo para quem.

Baekhyun não sabia como aquilo havia ido parar nas suas coisas, podia muito bem não ser para si, mas ele era curioso demais para ignorar algo tão peculiar como uma carta.

Ele abriu o envelope e logo sentiu um cheiro leve de lavanda.

Perfumada.

Já era incomum receber cartas, perfumadas?

A carta também era escrita a mão.

Baekhyun não conseguiu parar de se perguntar quem escreveria uma carta naqueles tempos, muito mais escrita a mão.

Ele começou a ler e se espantou ao ver seu nome ali.

 

“Olá, Baekhyun.

 

Você não sabe quem eu sou, mas eu sei quem você é.

Eu estou sempre te vendo. Eu vejo seus sorrisos tristes e muitas vezes forçados, vejo seus olhos tristes e expressivos que contam mais histórias do que muitos livros.

Não sou capaz de dizer o que acontece na sua vida, pois tenho um campo de visão limitado, mas eu espero que, apesar de todas as rasteiras que a vida insiste em lhe dar, você seja capaz de olhar para frente e ver um futuro feliz e próspero.

As coisas estão em constante movimento, sempre mudando e se reinventado, seja para algo bom ou para algo ruim. A vida não é fácil para ninguém, todos temos nossos próprios problemas e sei que eles fazem parecer que a vida não tem sentido e eu também sei que é muito mais fácil deixar que eles nos tampem a visão. Mas eu espero que você nunca se esqueça do que realmente é importante e precioso na sua vida.

E principalmente, lembre-se sempre de fazer algo que seja por você, pela sua felicidade, ou até mesmo por um desejo fútil e sem fundamentos. Muitas vezes, são essas pequenas coisas que nos dão razão para viver. 

Mas você é jovem e tem um mundo todo para desbravar. E principalmente para a juventude, deslumbrada com esse mundo, é fácil se perder e esquecer o que realmente é importante. Eu não me refiro à família, valores éticos ou coisas do gênero. Embora essas coisas também sejam importantes, eu me refiro a algo bem mais pessoal de cada um de nós. Que é o porquê de estarmos aqui.

Ninguém veio ao mundo apenas por vir, acredito que todos fazemos a diferença até  em nossas pequenas ações. Seja em alguém que joga o papel no lixo ao invés de jogar na rua ou um policial que salva vidas diariamente.

Todos nós somos importantes da nossa forma.

Lembre-se sempre que você é muito bonito, tanto por dentro quanto por fora, e que tem um propósito singular nesse mundo.

Quando você duvidar disso, olhe ao seu redor, sempre terá algo ou alguém que te mostrará como a vida é preciosa e te fará lembrar de como é bom estar vivo. Basta procurar com os olhos certos. A sociedade atual está tão pessimista e centrada em seus próprios mundos, que deixa passar diariamente sinais de Deus, ou do que você acredite, de como a vida é bela e de que, mesmo com seus pesares, é muito bom estar vivo.

Eu espero que você abra seus olhos e coração para as verdades e belezas do mundo, Baekhyun. 

Sabe, o que realmente importa não é o quão grande é a sua atitude, mas sim o impacto que ela tem nas vidas das pessoas.

Você pode ser um organizador de festas e proporcionar momentos inesquecíveis para as pessoas, ou pode visitar pessoas carentes de atenção e carinho.

Existem pessoas boas boas pelo mundo, basta procurar com os olhos certos e deixar o coração pronto para ser amado. 

Embora o ser humano esteja fadado ao erro e sempre nos machuque, é preciso perdoar quem nos fez mal no passado para aproveitar quem nos fará bem no futuro.

Espero que sabia que você é meu exemplo. Sua presença e essência me inspiram e me animam. E é por isso que eu fiz essa carta.

Eu quero que você saiba  que, mesmo com suas cicatrizes, seu espírito brilha e ilumina qualquer lugar. 

Porque você é especial.

 

- De seu querido alguém.”

 

Baekhyun não consegue se lembrar exatamente de seus atos depois de terminar a carta, mas ele se lembra de ter chorado. Chorado até o dia raiar e depois ter se levantado para fechar as cortinas e tentar dormir.

Ele chorou enquanto dormia, sonhou com as palavras ainda ecoando em sua mente.

Baekhyun chorou porque ele não se sentia especial. Ele não fazia nada por si mesmo… Baekhyun olhava para a sua vida e não conseguia enxergar qualquer sentido.

Qual era o sentido de estar vivo?

Baekhyun não sabia. E ele não tinha ninguém para se apegar e quando olhou ao seu redor, tudo que viu foi restos de coisas dos outros e uma vida medíocre.

[...]

Ao acordar, Baekhyun não fazia ideia de que horas eram. Mas ele também não sentia a mínima vontade de levantar da cama onde estava deitado.

Baekhyun nunca desejou tanto ter alguém para quem ligar, ter alguém com quem conversar. Ele nunca desejou tanto não estar sozinho.

O sentimento de vazio que ele tinha dentro de si era muito maior do que tudo.

“Perdoe quem te fez mal no passado para aproveitar quem te fará bem no futuro.”

Perdão… Baekhyun já havia pensado nessa história de perdão. Mas não se achava humano o suficiente para isso.

As cicatrizes de Baekhyun jamais cicatrizaram realmente. Por mais que ele as escondesse e fingisse que tudo estava bem, ele sabia que não estava. Ele sentia isso. Todos os dias que ele era obrigado a viver, até a noite, quando ele desmaiava pelo cansaço, ele sentia sua pele queimar, marcada por todos os maus tratos e ele sentia sua alma chorar sangue, desolada por toda humilhação que ele passou nessa vida fúnebre.

E enquanto tudo isso acontecia dentro de si, ele colocava um sorriso e varria o chão, passando pelos corredores daquele prédio como um verdadeiro fantasma.

[...]

Baekhyun não fez absolutamente nada durante aquele dia. 

O dia foi embora, a tarde veio e a noite caíra sem que ele se desse conta. A única coisa que ele fez foi encarar a sua parede cheia de mofo e reler a carta escrita especialmente para si.

Ele não sabia o que faria. Sua vida não tinha mais sentido, ou nunca teve e Baekhyun apenas não tinha ciência disso.

Durante aquele dia ele não falou uma única palavra, nem mesmo chorou. Ele apenas pensou… Pensou no que faria a partir daquele momento.

E a única resposta que lhe deu ânimo para acordar no dia seguinte foi descobrir quem havia escrito a carta para si, e além disso, Baekhyun queria buscar algo a mais. 

Ele queria saber o porquê de ele estar ali, e sabia que só podia fazer isso buscando em si mesmo, e era isso que ele faria. Ele buscaria em si mesmo um sentido para viver, caso tudo falhasse, ele pediria ajuda à pessoa que lhe escrevera a carta. Ela era a única que parecia realmente conhecer Baekhyun, mais até do que ele próprio.

Baekhyun olharia mais para si mesmo, em busca de quem ele realmente era.

[...]

A segunda começou, Baekhyun acordou com o barulho do despertador rompendo o seu sono tranquilo. Era de fato raro as vezes em que Baekhyun tinha uma noite de sono tranquila e ele já não gostava de acordar cedo por natureza, quando o sono estava bom, o jovem praticamente precisava se expulsar da cama.

A barriga dele roncava insistentemente, mostrando que ele precisava se alimentar de algo, o problema era do quê.

Baekhyun só tinha ovo, arroz e leite em casa, se ele catasse em algum lugar, acharia um pacote de bolacha vencida há três meses atrás. Baekhyun sempre esperava pelas promoções relâmpagos nos supermercados, porque eram quando os produtos estavam mais baratos, porém, geralmente a maioria deles venceria com um prazo de uma semana.

Quando a vida chega nesse nível, é mais do que óbvio que precisa-se repensar algumas coisas. Baekhyun pegou um dos copos e colocou um pouco de leite, que ainda não estava azedo, embora o gosto já estivesse começando a mudar.

Talvez ele fritasse um ovo antes de sair de casa, mas o que ele estava mesmo precisando era de um banho para acordar. Baekhyun seria obrigado a passar em um supermercado depois do expediente, um pouco antes de ir para a faculdade, assim poderia comprar algumas coisas para comer. 

Ele estava pensando seriamente em comprar danones. Eles sempre estavam pela metade do preço naquela época do mês e isso contava muito para si. Querendo ou não, Baekhyun sabia das coisas que estragavam rápido e daquilo que, se ele deixasse na geladeira, poderia render mais alguns dias.

Um coisa que nunca faltava na casa do Byun era arroz. Pois era algo que durava bastante na geladeira. O máximo que o arroz já demorara para azedar fora sete dias, e isso era comida demais para o Baekhyun. Para quem passou fome, jogado pelas ruelas de Seoul, sete dias seguidos com arroz em boas condições era praticamente uma dádiva de Deus.

Comparado ao que Baekhyun passara em seu passado, as condições às quais ele estava condenado naquele momento, não eram tão ruins, ele tinha que admitir isso.

A vida já fora mais cruel consigo. 

Muito mais cruel.

[...]

Baekhyun simplesmente não conseguiu evitar de ser um bisbilhoteiro enchirido. Os corredores e salas que ele limpou durante aquela semana, ele praticamente desarrumou mais do que arrumou. Ele viveu a procura de algo escrito a mão por qualquer pessoa que pudesse tê-lo notado. Ele comparou as letras, mas eram completamente opostas. Todas. Nenhuma letra que Baekhyun comparou batia com a letra que estava em sua carta. 

Ele também estava sempre espiando a letra das pessoas na sua sala de aula na faculdade, mas também nenhuma delas batia.

Baekhyun começou a pensar que a carta fora escrita de forma aleatória, sem um destinatário certo, mas então lembrou de seu nome nela. A pessoa conhecia Baekhyun e a carta falava de coisas tão profundas, que tinha que ser alguém próximo.  Alguém que pelo menos soubesse como Baekhyun vivia, porque falar sobre o que ele havia passado Baekhyun jamais havia falado para alguém. Mas sua solidão poderia chegar a ser óbvia para certas pessoas.

[...]

Baekhyun não conseguira comprar muitas coisas no supermercado na segunda, então guardou mais da metade do dinheiro e esperou até a sexta, quando juntou uma quantidade de dinheiro considerável para comprar comida para um mês, e para sau felicidade, a maioria delas com um prazo de validade decente.

[...]

A aula na faculdade havia sido cancelada, então Baekhyun foi fazer suas compras em paz, sem se preocupar com o tempo que gastaria ou com o tamanho das filas.

O pequeno nunca foi de acreditar em destino, na verdade ele era completamente desprovido de fé em qualquer coisa. Ele não acreditava nem no ser humano, quanto mais em algo ou alguém que nunca demonstrou piedade por si.

Mas ele nunca conseguiu explicar o porquê de ele estar ali naquele dia.

Baekhyun não costumava ir aquele supermercado, pois ele era bem caro e longe de seus padrões, mas ele vira em uma revista que tinham vários produtos em promoções, e como ele estava com dinheiro, não custava dar uma olhada. Caso não comprasse nada, passaria no supermercado que ficava perto de sua casa.

Seus olhos praticamente se iluminaram ao ver uma bandeja de carne pela metade do preço, ele poderia não comprar muitas coisas, mas ele levaria aquela bandeja. Baekhyun não comia carne há tanto tempo que se perguntou se ainda lembrava de seu sabor, e mesmo não se lembrando com exatidão, sua boca se encheu d’água.

Eles pegou a bandeja e ela foi a primeira coisa que ele adicionou ao carrinho.

Era em momentos como esses, por essas pequenas coisas, que Baekhyun se sentia feliz.

A carne fora adicionada, em compensação, o macarrão e alguns legumes tiveram que ser cortados. Baekhyun não precisava comprar arroz, pois já havia comprado no início da semana. Ele se limitou a pegar algumas maçãs pequenas, pois não pesariam tanto, e então se direcionou até a seção dos frios.

Depois de recolher as últimas bandejas de danones marcadas com o papelzinho de desconto, Baekhyun se sentia a pessoa mais sortuda do mundo. Ele deu alguns passos para trás, para poder fechar a porta do freezer. Mas algo dera errado em seus cálculos, pois ele sentiu seu corpo se chocar em um objeto não calculado e em puro reflexo, ele abriu seus braços, largando tudo no chão.

Baekhyun percebeu que não havia esbarrado em um objeto e sim em uma pessoa quando sentiu uma mão forte segurando seu braço e o puxando para trás.

Baekhyun não pensou duas vezes, na verdade, ele nem pensou. Ele passou por um dos momentos em que sua mente se desligava e suas atitudes seguintes já eram pré-programadas por seu cérebro.

Ele gritou.

O homem puxou Baekhyun para trás, tentando fazer com que ele não se sujasse muito com o danone estourado no chão, mas no minuto em que Baekhyun começou a gritar sem motivo aparente, ele o soltou.

O Byun não conseguiu se manter de pé, ele nem mesmo estava enxergando direito, sua visão estava embaçada por conta das lágrimas que surgiram sem aviso, tudo que ele fez foi cair no chão e rastejar até um canto perto das freezers.

— Não me toca… Não encosta em mim… — ele implorava enquanto abraçava as próprias pernas.

O homem que havia segurado Baekhyun pelo braço começou a se afastar lentamente, até finalmente estar o mais longe possível daquele que atraía tantos olhares de reprovação.

Mas nem mesmo Baekhyun sabia o que estava acontecendo. Seu corpo havia se desligado da sua mente e tudo que ele sentia era desespero. Um imenso desespero que se alastrava por cada célula presente em seu corpo.

Um desconhecido que por ali passava, parou e encarou Baekhyun por alguns milésimos — que para ele pareceram horas — antes de correr ao seu encontro.

— Moço. — Baekhyun ouviu uma voz desconhecida lhe chamar. Ele se encolheu ainda mais, tentando se esconder. Tentando se proteger.

Ele sentiu novamente alguém lhe tocar e foi como se do toque saísse um raio congelante que fez Baekhyun petrificar exatamente onde estava.

— Não… — ele implorou, já com a voz cansada. — Eu não aguento mais…

As coisas que Baekhyun falava não havia nenhum sentido. Ninguém estava o forçando a fazer nada. Chanyeol, o homem até então desconhecido para Baekhyun, vira a cena que acontecera segundos antes e não entendia ao certo o porquê do homem ter ficado daquele jeito, mas para ele não importavam os motivos, se Baekhyun precisava de ajuda, ele daria.

— Eu não vou te fazer mal. Eu vou te ajudar… — ele garantiu e pegou Baekhyun nos braços.

Ele estranhou quando não houve relutância, mas àquela altura Baekhyun já estava desacordado.

Sua mente o enviara para uma parte tão obscura de seu passado que, mesmo sem ter feito nada, ele sentia como se tivesse feito tudo. Ele sentia que tinha passado por tudo novamente, até que, como em muitas ocasiões, seu corpo apagara.

Chanyeol segurou o corpo pequeno e magro entre seus braços e o segurou com força, chamando o homem para que ele acordasse, mas nada parecia surtir efeito.

Então ele parou por cinco minutos, e mesmo que tudo estivesse um caos, Chanyeol não conseguiu evitar de parar por cinco segundos e admirar a beleza presente na face daquele homem. Eram traços delicados, que ele não encontrava em qualquer um. O rosto fino, pele branquinha e lisinha como a de um bebê. Os lábios dele estavam completamente brancos, desprovido de qualquer sinal de saúde, assim como seu tom de pele.

Baekhyun parecia um doente.

E ele realmente estava. Mas a doença que ele tinha não poderia ser cuidada com remédios. Na verdade, duvidava-se que realmente poderia ser tratada.

[...]

Quando Baekhyun acordou algumas horas depois, ele sentiu um colchão confortável embaixo de si, o que fez com que ele estranhasse imediatamente.

Definitivamente ele não estava em casa.

Ele começou a ter controle de seus membros novamente e tomar consciência de onde estava. As pessoas de branco andando de um lado para o outro fez com que Baekhyun compreendesse onde estava. Isso e o fato de estar deitado em uma cama de hospital com dois lençóis brancos separando-o de outro possível paciente.

Baekhyun não estava ligado a nenhum tipo de máquina, nem havia nenhum tipo de agulha enfiada em si. Ele apenas dormiu.

Dormiu um tanto demais.

O jovem olhou de um lado para o outro, tentando achar algo que o fizesse se lembrar do que havia acontecido. Tudo que ele se lembrava era de estar no supermercado, as bandejas de danone e…

— Merda! — ele xingou baixo.

Ele se lembrava de ter começado a gritar, mas depois disso eram apenas borrões, nada nítido. Mas Baekhyun imaginava o que tinha acontecido. 

Não fora a primeira vez nem seria a última, Baekhyun apenas não costumava acordar em um hospital, as pessoas costumavam deixá-lo deitado onde estava, achando que ele era algum tipo de drogado, ou então na sala de algum gerente de algum lugar público.

— Senhor? — ele ouviu uma voz feminina lhe chamar.

Baekhyun olhou na direção da enfermeira sorridente.

— Oi…

— O senhor está bem? — ela se aproximou para checar os batimentos cardíacos de Baekhyun. — O seu amigo teve que ir embora, mas ele deixou as suas coisas. — ela apontou para um monte de sacolas reunidas em um canto.

— Amigo? — Baekhyun perguntou e a mulher confirmou.

— Ele foi embora alegando ter algo para fazer, mas disse que deveríamos assegurar que você não esquecesse de levar as coisas para casa. Antes que o senhor vá embora, eu preciso que assine alguns documentos, certo?

Ele concordou ainda com os olhos fixos nas sacolas.

Amigo?

Baekhyun não tinha amigos.

E ele certamente não havia comprado todas aquelas coisas… Então, quem havia?

[...]

Baekhyun não sabia quem era essa tal pessoa, mas era grato a ela. Ele até mesmo pensou que poderia ser a mesma pessoa que lhe escrevera a carta, mas seria muita coincidência, não?

Coincidência ou não, Baekhyun estava comendo carne temperada com macarrão refogado naquele exato momento, e tudo por conta da pessoa misteriosa do supermercado.

Ele havia comprado mais coisas do que Baekhyun compraria em dois meses.

O jovem nunca se permitiu comer tanto de uma vez. Ele guardou grande parte e separou as coisas que ele teria que comer logo, pois estragariam mais rápido, das coisas que ele poderia guardar para comer em “ocasiões especiais”.

Biscoito com recheio de chocolate… Baekhyun nunca havia comido biscoito com recheio de chocolate…

Depois da refeição, Baekhyun se jogou no sofá e respirou fundo.

Ele se sentia melhor.

Pelo menos se sentiria assim até fazer digestão.

Enquanto ele encarava o teto e refletia sobre as atitudes bondosas que ele havia recebido nos últimos dias, as lágrimas escorriam pelo seu rosto.

Tudo começou com o desenho inesperado do Sr. Kim, seguido pela carta e depois as compras… Baekhyun não sabia o que tinha dado nas pessoas nos últimos dias, mas ele desejava que não passasse nunca.

Baekhyun nunca havia sentido aquilo… Então era aquilo que se sentia quando as pessoas eram gentis consigo?

Ele não sabia ao certo, pois ninguém nunca o explicara o que realmente era gentileza, nem como é o sentimento de gratidão por algo. 

Apenas lhe diziam que ele deveria agir daquela forma caso quisesse que as pessoas gostassem de si.

Nunca fale com ninguém caso não falem com você, ninguém gosta de um enxerido.

Fique quieto e não fale alto, ninguém gosta de pessoas escandalosas.

Faça tudo que lhe pedirem, ninguém gosta de pessoas desobedientes.

Baekhyun seguiu esses três tópicos durante muitos anos. Mas, depois de um tempo, ele não queria ser o tipo de pessoa de quem todos gostavam, mas também não queria ser o tipo de pessoa que todos odiavam… Ele apenas não queria existir. Ter zero relevância. E se esforçara muito para isso. Pois chegara a conclusão de que não importava se ele fosse o tipo de pessoa que todos gostassem ou odiassem, ninguém o trataria com o mínimo de gentileza… Pelo menos ele achou que não.

Mas Baekhyun estava aprendendo que a gentileza genuína podia vir de onde menos se espera, no momento em que menos se está preparado. E… Sinceramente?

Ele gostava daquilo.

E se sentia grato pela primeira vez na vida.

Grato ao Sr. Kim que desenhara seu rosto. Grato a pessoa que lhe escrevera a carta. E grato ao homem misterioso do supermercado que havia lhe proporcionado comida para comer como nunca havia comido na vida.

Pequenos detalhes, mas que preencheram o pequeno de uma felicidade plena.

Baekhyun era tão fácil de agradar, mas as pessoas insistiam em lhe fazer mal, como se fosse o único sentimento que ele conseguisse despertar no próximo, e ele, mesmo sem culpa, se martirizava por isso.

[...]

O sábado já estava finalmente chegando ao fim, e Baekhyun não via a hora de chegar em casa. 

Mesmo que adorasse passar suas horas no asilo, Baekhyun precisava admitir quando necessitava urgentemente descansar.

A semana havia sido muito cansativa. Como se sua jornada já não fosse bem exaustiva, sua mente ainda estava presa na carta que recebera uma semana antes e ele se encontrava ainda mais intrigado por não ter encontrado o escritor.

— Sr. Byun, venha me ajudar com a senhora Shin, por favor. — Baekhyun terminou de limpar a boca de uma das idosas e deu um sorriso antes de se levantar para ajudar.

A hora do jantar costumava ser bastante agitada. Por serem muitos para comer e poucos para dar a comida, e como grande parte já nem conseguia pegar na colher, cada um ajudava na hora das refeições. Não importava a função que exercesse lá dentro, todos tinham que ajudar.

A Sra. Shin sofria de pequenos lapsos de memória, mais a paranoia. Ela costumava se esquecer de onde estava e isso somado à paranoia só piorava as coisas. Eram raras as vezes em que ela apenas perguntava onde estava e tentava conversar com as pessoas, geralmente ela gritava e se debatia, acusando todos ali de serem membros de algum órgão do governo.

Ele chegou até a mulher que estava encostada na parede, com um garfo de plástico nas mãos.

— Sra. Shin, está tudo bem. — ele garantiu com uma voz calma. A Sra. Shin sempre teve um carinho muito grande pelo Byun, ela já havia dito, mais de uma vez, que Baekhyun se parecia muito com o neto que jamais tivera a chance de conhecer.

Baekhyun nunca perguntou porque ela nunca ter conhecido o neto, não achou que seria bom fazê-la lembrar, ela já falava com muita melancolia e tristeza sempre que lembrava sobre neto.

— Baekhyun, eles querem me matar. Não deixe! — ela implorou com um olhar desesperado.

— Não vou. Prometo. Vou levar a senhora para um lugar seguro.

Ele se aproximou e tirou o garfo da mão dela, abraçando-a rapidamente. Depois ele fez sinal para que todos se afastassem e a levou até o quarto. 

— A senhora vai ter que tomar isso aqui. — ele falou ao pegar o remédio e o copo de água.

A senhora negou com a cabeça e comprimiu ainda mais os lábios. — Confie em mim, Sra. Shin. Eu jamais faria mal a senhora. Vamos.

Ele ajudou a senhora a se sentar e a tomar o comprimido. 

A Sra. Shin não demorou a pegar no sono, então Baekhyun a amarrou na cama. Por mais que doesse em Baekhyun fazer aquilo, era necessário para que ela não se levantasse durante a noite sem ajuda. Ele a olhou uma última vez, tendo certeza de que ela estava bem, e somente depois a deixou sozinha no quarto.

Depois do jantar, Baekhyun ajudou a colocar todos na cama.

— Baekhyun, só falta o Sr. Park. Você pode ajudá-lo, por favor? Eu termino de ajeitar eles. — um enfermeiro falou e Baekhyun concordou antes de sair do quarto.

Da última vez em que vira o Sr. Park, ele estava na sala. Baekhyun o procurou, mas não o achou.

Baekhyun entrou onde era a sala das donas, mas ele também não estava lá. Na varanda e no jardim ele não estava, todas as portas já estavam trancadas. E as chaves só seriam liberadas depois que todos estivessem na cama.

Baekhyun foi no único lugar onde não havia procurado ainda, que era o quarto onde as pessoas guardavam as bolsas.

O jovem ficou surpreso ao encontrar o senhor ali, apoiado em sua bengala e colocando uma carta dentro de uma das bolsas.

— Sr. Park? — Baekhyun perguntou e o homem se virou meio assustado.

O mais velho sorriu gentil e terminou de colocar a carta na bolsa para depois fechá-la devidamente.

— Olá, meu jovem. — ele falou ao se aproximar de Baekhyun. — Vamos manter em segredo o que você viu, certo? 

Ele piscou para Baekhyun e caminhou a passos lentos para sair do cômodo.

— Então foi o senhor? Foi o senhor que me escreveu a carta? — Baekhyun perguntou meio sem entender.

Como o Sr. Park havia lhe escrito aquela carta?

O Sr. Park nunca havia conversado com Baekhyun, como ele conseguira escrever tal carta.

Algo tão pessoal.

— Podemos conversar no meu quarto? Eu estou bem cansado… — ele falou enquanto andava com certa dificuldade.

Baekhyun se aproximou do senhor e o levou até o quarto.

Ele esperou pacientemente o homem se deitar e se ajeitar na cama.

— Por que o senhor me escreveu a carta? — Baekhyun perguntou por fim, quase não conseguindo manter as palavras dentro da boca.

— Por quê? — ele perguntou com um tom de voz calmo. — Você não gostou?

— Não… Não é isso. É que… O senhor escreveu a mesma carta para outra pessoa também?

No fundo era aquilo que realmente estava incomodando Baekhyun. Ele se sentira realmente especial pela primeira vez na vida ao receber a carta, e então ele descobrira que a carta não havia sido escrita unicamente para si e que, provavelmente, muitas outras pessoas recebiam cartas iguais as suas.

Novamente, Baekhyun se sentiu como apenas mais um na multidão, mas não como a maioria, muitas pessoas se sentem assim na vida. Baekhyun se sentia deitado no chão, como um verdadeiro tapete, e todos que passavam pisavam em si, como se fossem mais importantes.

O Sr. Park encarou a expressão decepcionada de Baekhyun com um certo peso no coração. Ele não queria ver o jovem daquela forma, mas sabia que o poder de mudar aquilo em estava em suas mãos. 

— Eu escrevo muitas cartas, Sr. Byun. — ele falou por fim. — Todos os dias são mais de cinquenta cartas que saem desse quarto mundo a fora.

— Por quê?

— Porque eu sou velho, oras. Estou confinado a esse lugar e preciso me ocupar de algo. Agora me responda, existe algo melhor do que deixar as pessoas felizes?

Baekhyun não sabia a resposta. Não sabia como era deixar uma pessoa feliz, em toda sua vida, sua presença nunca pareceu proporcionar real felicidade.

— Eu gosto de pensar que as pessoas ficam felizes e se sentem especiais ao receber as minhas cartas. Você não gostou?

— Gostei… Gostei muito. — ele responde com um tom de voz meio baixo. Baekhyun estava decepcionado.

Talvez com o escritor, que ele achava que o conhecia melhor do que muita gente, quando na verdade Baekhyun não passava de mais um em sua lista. Talvez consigo mesmo, por ter criado expectativas de que realmente podia ser especial para alguém.

Certas pessoas só aprendem caindo.

Baekhyun já estava com seus joelhos em carne viva, mas ainda parecia não ter entendido… Ele jamais seria amado ou considerado especial. Por qualquer um que fosse.

Por mais que repetisse isso na sua cabeça, seu coração apenas fingia se convencer, mas era apenas uma questão de tempo para que cedesse novamente e se iludisse.

— Você… — ele negou com a cabeça e reformulou a frase. — Sobre o que são suas cartas?

— Você quer saber se a sua carta foi igual às outras? — Baekhyun não teve coragem de concordar, embora fosse verdade. — Eu escrevo cartas todos os dias, entrego para muitas pessoas que eu nunca vi, nem conversei, mas acho que todo mundo precisa de uma palavra amiga, e quando vem de algum lugar inesperado, algumas vezes, parece fazer mais efeito. Mas, Baekhyun, a sua carta em especial, eu a escrevi especialmente para você.

— Está falando isso só para me agradar?

— Eu não tenho motivos para isso. — alegou. — Cada palavra presente naquele pedaço de papel foi escrita especialmente para você.

— Por que eu?

— Por que não você?

— Porque eu não sou uma pessoa interessante. Ninguém nunca tem nada a falar a meu respeito!

— Bom, eu tive. E tenho muito mais.

— Tem?

— E por que não teria? Baekhyun, você fala mais com seus olhos do que muitas pessoas chegaram a falar durante toda a vida. O problema é que muitas pessoas apenas não estão dispostas a ouvir.

— Por que a minha carta foi diferente das outras?

— Todas as minhas cartas são diferentes, mas para você eu tinha coisas mais específicas para dizer.

— Como você sabia daquelas coisas? Como você sabe tanto sobre mim? — a voz de Baekhyun saia meio sem tom definido. Algumas vezes ele falava em um tom audível, mas algumas vezes, por conta do nó em sua garganta, as palavras mal conseguiam sair direito.

— Baekhyun, sua história está explícita nos seus olhos. Todas as vezes em que eu olho neles, eu vejo uma pessoa que já passou por muitas provações na vida, que tem tantas cicatrizes que nem mesmo o tempo consegue dar conta. Eu vejo uma pessoa solitária, com medo de tudo e de todos, fechada dentro de si mesma, mas que tenta se libertar das amarras criadas pelo próprio medo de insegurança. Insegurança de si mesmo, medo de não ser amado, de ser machucado novamente. Mas que anseia por carinho, por amor, como todos nós. — Baekhyun encarava o Sr. Park com os olhos inundado por lágrimas, que saiam de si sem nenhum controle.

Ele se sentia nu em frente ao senhor.

Nu de corpo, de alma… Nu de coração.

— Mas eu também vejo uma pessoa muito boa. — ele continua. — Eu vejo alguém que tem muito para mostrar, mas é consumido pela multidão que grita e não diz nada. E da sua forma, Baekhyun, eu sei que você procura o seu lugar no mundo. 

— Eu nem sei mais o que eu estou fazendo da minha vida. — ele informa e ri triste. — Na sua carta, o senhor falou do “Porquê de estarmos aqui”. Eu pensei nisso por muito tempo e eu cheguei a conclusão de que acordo todos os dias para limpar o chão de pessoas que nem se importam comigo.

— Mas o seu papel é importante. Tenho certeza que se você sumir, aquele lugar virará uma bagunça.

— Sejamos sinceros, é isso que as pessoas repetem para si mesmas todos os dias para se sentirem especiais. Mas se eu sumir, eles têm uma imensa lista de pessoas que podem me substituir. Eu não farei falta…

— Não diga isso. Você fará muita falta aqui.

— Pessoas que nem mesmo se lembram de mim…

— A mente falha, Baekhyun, mas o coração não. Eles podem não se lembrar do seu rosto, ou do seu nome, mas a sua presença e o sentimento que você desperta neles é mais forte que qualquer memória. Você fará falta para a Sra. Shin, é o único rosto que a tranquiliza de verdade, fará falta ao Sr. Kim, o homem cego que se esforçou para desenhar seu rosto. Você é importante, Baekhyun. Demais. Apenas não se dá conta disso.

Baekhyun olhou para os próprios sapatos surrados e soltou um suspiro. O jovem levantou os olhos e passou rapidamente pela mesa do senhor. A mesa estava cheia de papéis de diferentes cores.

Ele se aproximou calmamente e pegou uma carta na mão. Ele não teve realmente coragem de analisar o conteúdo, pois tinha medo de descobrir que as palavras do Sr. Park não passavam de meras cordialidades para fazê-lo se sentir melhor.

— Às vezes eu acho que Deus esqueceu de dar um propósito para a minha existência.

— Todos temos nosso propósito na vida. Você apenas ainda não descobriu o seu.

— Esse é o seu propósito? Escrever cartas? — Baekhyun perguntou ao olhar para o lado, voltando a encarar o Sr. Park.

— Essa é a minha redenção. Eu não sou nenhum anjo, como todos, já cometi meus erros e fiz pessoas sofrerem. Escrever as cartas e tentar, mesmo que de forma insignificante, fazer as pessoas felizes, é a minha forma de me redimir com o mundo.

— E como tem ido?

— Não alivia a minha culpa, mas faz com que eu me sinta bem mais pleno, pois sei que pago pelos meus pecados, mas também tento fazer a diferença. — Baekhyun voltou a olhar para a carta na sua mão.

Ele sentia algo dentro de si.

Sentia que algo estava diferente.

Mas não conseguia identificar o quê.

Ele estava sentindo uma pequena chama queimar dentro de si durante toda a semana. Receber aquela carta despertou algo, até então, adormecido dentro de Baekhyun.

A forma como ele enxergava o mundo estava diferente.

Pessoas como o Sr. Park realmente existiam e estavam espalhadas pelo mundo, dedicadas a fazer a felicidade dos outros.

A carta já não parecia apenas uma carta qualquer.

Baekhyun viu aquilo como uma forma de tocar as pessoas como ele havia sido tocado.

Por que fazer aquilo pelos outros?

Baekhyun não sabia porque tinha esse desejo em si. A humanidade jamais havia feito nada por si, mas Baekhyun tinha certeza que, assim como ele, muitas pessoas também precisavam de uma palavra amiga.

E enquanto ele não encontrava uma razão para estar naquele mundo, que ele fizesse algo além de limpar o chão.

Que ele fizesse a diferença na vida de alguém, como o Sr. Park havia feito na dele.

— Eu quero achar o meu propósito, Sr. Park… — ele falou antes de olhar para o senhor que sorriu para si com os olhos brilhando. 

Baekhyun gostou de ver aquele brilho, era algo que ele jamais tinha visto nos olhos de alguém para si.

Também, ninguém jamais havia sentido orgulho de si.


Notas Finais


E então?
Terrivelmente horrível? Ou horrivelmente terrível?

Eu não faço a menor ideia de quando vou att, mas será breve.
O proximo capitulo será sobre o Chanyeol!
EU TÔ MUITO ANIMADA!
AMO ESSE PLOT
TENHO DESDE O ANIVERSARIO DELA DO ANO PASSADO!

Até logo, bebês
EXO EXO


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