História Meu Querido Alguém - Capítulo 2


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Categorias EXO
Personagens Baekhyun, Chanyeol, D.O, Kris Wu, Personagens Originais
Tags Chanbaek, Drama, Presente Da Tia Fabi
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Palavras 8.600
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Lemon, LGBT, Literatura Feminina, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Drogas, Estupro, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Olá, bebês! Eu estou atualizando todas as fic hoje pq é um dia especial para mim. Inigualável, assim como diz o nome do cap.

Eu espero que vocês gostem. Boa leitura.

Capítulo 2 - Porque você é inigualável


Porque você é inigualável


A vida não é fácil para ninguém, isso é um fato comprovado. Até a pessoa que aparenta ter a vida mais perfeita, enfrenta seus próprios problemas, seus próprios demônios. A diferença é que alguns demônios são internos e enquanto outros externos. Até hoje não se sabe qual o pior deles. Mas, atrevo-me a opinar que o pior é sem dúvidas o interno. Porque não há como fugir de algo que está dentro de você, e em alguns casos particulares, não tem como fugir de algo que você é.


No caso de Park Chanyeol, ele acreditava já ter lidado com todos os seus problemas. Entretanto, existe uma grande diferença entre lidar e ignorar.


Chanyeol não era do tipo que tinha muitos amigos, na verdade, ele sempre dizia ter o necessário para ser feliz e não se estressar. Ele tinha um melhor amigo e alguns colegas para conversar e não se sentir extremamente solitário.


O fato é que Chanyeol não costumava deixar as pessoas entrarem na sua vida com muita facilidade, na verdade ele até deixava, mas a maioria não se mantinha nela.


Interesses diferentes? Talvez.


Chanyeol já estava acostumado a ser abandonado.


Já havia ouvido praticamente todos os tipos de desculpa. E pensado nas que nunca havia ouvido, ele fez uma lista, sempre que ouvia uma nova, ele anotava.


Pouquíssimas pessoas que entravam em sua vida permaneciam nela. Ele costumava dizer para si mesmo: se não acrescenta, também não faz falta. Essa era a forma que ele tinha para se sentir melhor. Porque, mesmo sendo abandonado várias vezes, doía, doía muito.


O jovem sempre achava que talvez aquela pessoa fosse diferente, talvez ela realmente gostasse de si, mas não. Como todos, a pessoa sempre ia embora.


Chanyeol se perguntou vários anos se o problema estava consigo, se era algo que ele estava fazendo que estava errado. Mas no fundo, Chanyeol sabia que o problema não era com o que ele estava fazendo, e sim com o que ele era.


A maioria das pessoas se esconde atrás de uma máscara pela vida toda, reprimindo quem realmente é, o que realmente quer. Cada um tem seus motivos, claro, Chanyeol jamais julgaria qualquer um, ele não tinha motivos para isso. Porém ele não era uma dessas pessoas.


Ele era o que ele era, e simplesmente não conseguia esconder isso. Lamentava se isso afastava as pessoas, mas achava que estava muito melhor cercado de pessoas que gostavam dele pelo que ele realmente era.


Desde muito novo Chanyeol notou algo de peculiar em si. Chanyeol não se sentia deslocado, nem se achava estranho ao olhar no espelho. Ele apenas olhava para outros garotos e sentia coisas estranha, coisas que a maioria dos garotos sentia pelas garotas. Coisas que ele não entendia quando novo e que quando perguntou para a mãe, levou um tapa na cara e uma reclamação.


Ele ainda se lembrava claramente da voz da mãe ecoando pelo quarto, enquanto ele se encolhia no chão.


“Isso é errado, Chanyeol! Eu não quero mais você com esse tipo de pensamento! Acabe com isso agora mesmo!”


Quanto anos ele tinha? Talvez oito, talvez nove. Chanyeol não se lembrava ao certo de sua idade, mas se lembrava do olhar assustado da mãe, da repulsa em sua voz e de ver todo o corpo da mais velha tremer enquanto saia do quarto.


O garoto ficou sentado no chão do quarto, olhando para os pés, tentando achar uma resposta para o que havia ocorrido.


Sua mãe jamais havia o batido, Chanyeol nunca dera motivos para isso. Ele era um bom filho; obediente, tirava boas notas, organizado — na medida do possível — e era dedicado à tudo que lhe pediam para fazer. Chanyeol não era dos mais inteligentes, mas ele se esforçava para tirar as melhores notas, apenas para deixar a família orgulhosa.


Mas naquele momento, com seu rosto ardendo e vermelho, Chanyeol tentava segurar o choro enquanto procurava, em si mesmo, o que estava errado. Ele sabia que seu gosto era um tanto… Fora do padrão imposto pela sociedade. Ele sabia que não era o normal no meio onde ele vivia, mas ele não sabia como evitar.


A criança sabia que gostar do coleguinha de classe não era algo normal para as pessoas, mas ele não conseguia evitar. E seu sentimento não era algo ruim, na verdade, estava longe disso. Chanyeol estava se apaixonando pela primeira vez na vida, era um sentimento puro e inocente, mas ele estava sendo julgado apenas pelo fato do colega ser um garoto também.


Por que era errado ele gostar de um coleguinha? Seus colegas de classe se declaravam o tempo todo! Eles faziam cartas, davam flores roubadas dos jardins dos vizinhos e bombons. E tudo que Chanyeol havia feito fora perguntar para a mãe sobre o que ele estava sentindo.


Se Chanyeol estivesse falando sobre uma menina, a reação da mãe teria sido completamente diferente. Mesmo que ele se sentisse triste, Chanyeol tomou a decisão de que não queria ver aquele olhar nos olhos da mãe novamente, nem queria deixá-la nervosa, por isso ele achou que o melhor era esquecer sobre seus sentimentos e oprimir tudo que dizia respeito a gostar de outro garoto.


Chanyeol não podia gostar de garotos.


Era errado


Deixaria sua mãe nervosa. E se deixava sua mão nervosa daquele jeito, Chanyeol não queria nem imaginar como o seu pai ficaria se imaginasse algo daquele tipo.


[...]


A vida de Chanyeol nunca fora perfeita, ele jamais poderia classificá-la assim, mas costumava ser boa.


Com o passar dos anos, Chanyeol foi aprendendo que não valia a pena vestir uma máscara e fingir ser o que não era, apenas gastava energia e mais cedo ou mais tarde a máscara sempre caía e o seu eu verdadeiro sempre será revelado. A vida se encarrega desse fato.


E Chanyeol também teve seu momento de revelação.


Aos quinze anos, ele parou de tentar reprimir o que sentia, parou de reprimir quem ele era.

Chanyeol era homossexual e nada poderia mudar isso. Ele não queria mudar. Ele não via nada de errado na sua sexualidade, ele se aceitava, então, ele esperava que, no mínimo, aqueles que realmente o amassem como ele era, o aceitariam. Pelo menos foi isso que ele achou quando decidiu revelar para a família.


Chanyeol não gostava do termo “se assumir”. Sua irmã, Yoora, jamais teve que se assumir heterossexual, então Chanyeol não via porque ele também precisava. Mas ele tomou a decisão de contar para a família, pois ele achava que assim o peso que ele sentia no coração iria diminuir.


Bom… Ele achava.


De todos ali, Chanyeol tinha certeza que Yoora ficaria do seu lado, pois ela jamais havia demonstrado qualquer tipo de aversão a homossexuais, na verdade, ela tinha um amigo gay e eles estavam super bem com isso. Sua mãe, Chanyeol já não tinha tanta certeza, mas sabia que com o passar do tempo ela acabaria aceitando-o como ele realmente era. Mas em relação ao pai de Chanyeol… O mais novo sentia até um arrepio subir pela espinha quando pensava na possível reação do pai.

O Sr. Park sempre foi um homem cabeça dura, nervoso e com problemas para controlar a raiva, isso já não era novidade para ninguém, mas Chanyeol tinha um problema… Seu pai era extremamente homofóbico. E essa era uma das razões para que Chanyeol se mantivesse calado por tanto tempo. Ele tinha medo. Tinha medo por si. Tinha medo por todos que viviam naquela casa.


Porém, Chanyeol havia chegado em uma parte da vida em que ele não conseguia mais se manter calado; ele não conseguia mais ouvir o pai falando de forma vulgar sobre sexo e perguntar quando Chanyeol finalmente levaria uma garota para dentro de casa.


Era extremamente desagradável para si ter o pai folheando uma revista erótica bem na sua frente, mostrando-o como se aquilo fosse a melhor coisa do mundo. Chanyeol não achava, por isso se mantinha calado, mas muitas vezes o pai esfregara a revista em sua face, mandando ele parar de agir igual uma “bichinha” e passar a agir como um homem.


Chanyeol e seu pai, claramente, tinham noções de masculinidade muito diferentes.

Por mais de uma vez, Chanyeol havia se mostrado mais homem do que seu pai jamais fora.


Ele não conseguia mais viver daquela forma, sendo uma pessoa que ele não era.


Chanyeol não queria ser tratado diferente, ou passar a se portar de forma diferente. Ele só esperava que os comentários sexistas e homofóbicos parassem. Ele queria se sentir aceito pela família por completo, e não apenas por uma parte de si. Porque Chanyeol era Chanyeol, sempre foi, mas existia um lado de si que ninguém conhecia, e ele não queria que fosse assim. E depois de se mostrar sem máscara alguma para sua família, Chanyeol descobriu que talvez nunca tivesse sido amado de verdade, pois eles foram os primeiros a abandoná-lo.


[...]


Quando Chanyeol acordou naquela segunda de manhã, a primeira coisa que ele ouviu foi o barulho vindo da sua cozinha para só então sentir o cheiro de algo sendo preparado.


Chanyeol se virou na cama e olhou para o relógio posto em cima do seu criado mudo.


Sete horas.


O que Kyungsoo estava fazendo na sua casa às sete da manhã?


Chanyeol havia chegado duas horas antes, tudo que ele queria era dormir um pouco mais antes de acordar e começar a trabalhar.

Chanyeol trabalhava como DJ, e era um dos mais famosos em Seul. Ele tocava em boates, festas particulares ou onde estivessem pagando bem. Chanyeol também tinha uma boate fixa, a Lux. De quinta a domingo, Chanyeol estava ocupado. Nos outros dias da semana ele poderia até tentar ir para uma festa ou algo assim.


Ele sempre sonhou em trabalhar com música, sempre. Chanyeol não conseguia se imaginar fazendo outra coisa, por isso ele batalhou, ficou sem comer, mas não deixou de estudar. Nunca. Pois ele sabia onde queria chegar e não descansaria até estar lá.


O seu emprego na Lux aconteceu de forma bem casual. Chanyeol ainda estava na faculdade e havia saído com uns colegas. Bem no meio da noite, o DJ surtou e começou a brigar com uns clientes. Ele estava bêbado, praticamente incapaz de ficar em pé, e acabou sendo expulso. O jovem Park sempre foi muito bom no que fazia, e alguns amigos falaram que ele deveria assumir, tudo não passou de uma brincadeira, mas o homem perto deles — o dono da boate — não estava de brincadeira. Ele perguntou se Chanyeol era realmente bom e o levou para testar.


O resultado foi mais do que satisfatório.


Chanyeol deixou seu número e sempre que precisavam, Chanyeol ia. Até que ele se tornou o único DJ que tocava ali. Não houve nenhum sinal de reprova do público, na verdade, o público aumentava a cada dia.


O dono da Lux, Kim Jonghyun, confiava cegamente em Chanyeol, pois sabia que ele era um dos melhores na área. Além de DJ, Chanyeol também era um metido a produtor. Metido porque ele só produzia para si e mais ninguém. Chanyeol vivia enfurnado no seu estúdio, que ficava em um quarto reformado em seu apartamento, compondo e produzindo suas músicas.


O jovem já havia se arriscado a tocar suas próprias músicas lá e Jonghyun não se opunha de forma alguma, a maioria das pessoas, principalmente os clientes fixos que estavam lá quase toda semana, adoravam as músicas de Chanyeol.


Em geral, Chanyeol costumava trabalhar até às cinco da manhã, mas no dia anterior, a festa havia acabado mais cedo, então Chanyeol estava contando com mais algumas horas de sono, que foram destruídas com a invasão de Kyungsoo.


O amigo sempre ia para a casa de Chanyeol naquele horário, mas ele costumava ser bem mais discreto e fazer bem menos barulho, principalmente por saber que Chanyeol precisava dormir bem para que conseguisse ter um bom desempenho no trabalho.  


Depois de ouvir o barulho de mais uma panela caindo no chão, seguindo um por um palavrão de Kyungsoo, Chanyeol resolveu se levantar e ver o que estava acontecendo. O jovem tropeçou nas próprias roupas, jogadas no chão horas antes, logo quando ele havia chegado em casa e se dirigindo direto para a cama.


Ao olhar para si, lembrou-se que não usava nada além de uma cueca, então pegou um roupão que estava em cima de uma cadeira perto da escrivaninha. Chanyeol colocou a peça de roupa e saiu do quarto, se arrastando pelo corredor de seu apartamento e pegando o seu óculos jogado em uma mesa qualquer.


Chanyeol mal sabia das coisas da sua própria casa, um dos motivos era que a mesma havia sido inteiramente decorada por Kyungsoo, com exceção do estúdio, claro. Aquele, Chanyeol fizera questão de supervisionar e decorar. Outro motivo muito relevante era que Chanyeol passava maior parte do seu tempo no estúdio ou no quarto. Ele não conseguia aproveitar muito de sua casa, mas também não tinha nem porque.

Kyungsoo cozinhava para si e sempre deixava sobras na geladeira, Chanyeol, quando não estava trabalhando, estava assistindo anime ou algum filme, fora isso, ele saía, ia ao cinema, fazia qualquer coisa, mas ficar em casa e vasculhar seu apartamento não estava na lista de coisas mais interessantes para se fazer.


— Caralho! — o jovem ouviu e negou com a cabeça. Kyungsoo havia acordado com a boca podre.


Ao entrar na cozinha, Chanyeol se sentou em uma cadeira alta e esperou que o amigo notasse sua presença.


O baixinho estava tão inerte no que estava fazendo que demorou muito para notar a presença do outro, que ficara impaciente depois de alguns poucos segundos. Quando Kyungsoo deixou mais uma tampa cair no chão, Chanyeol resolveu se pronunciar.


— Eu agradeceria se você não destruisse a minha cozinha. Eu posso não usar, mas gosto dela. — ele comentou e Kyungsoo se virou rapidamente, assustado. O mais alto entre eles agradeceu pelo amigo não estar com nada na mão, pois teria deixado cair também.


— Que susto, Chanyeol! — reclamou. — Desde quando você está aí?


Kyungsoo voltou a se movimentar antes mesmo de ouvir a resposta de Chanyeol. O jovem Do pegou a xícara preferida do amigo — uma com desenho de Star Wars — e serviu um pouco de café.


— Alguns segundos. O que você tem? — Chanyeol perguntou ao pegar a xícara. Kyungsoo soltou um suspiro e se sentou em uma cadeira mais baixa do que a de Chanyeol.


— Eu sou um fracasso, Chanyeol. — ele falou por fim. — Estou com medo. Hoje é o dia em que a minha vida será arruinada.


— Kyungsoo, eu acabei de acordar, estou lento ainda. Essa é a minha primeira xícara de café, vai levar pelo menos duas horas para eu começar a tentar adivinhar as coisas que você fala. — o mais novo falou. — Explica, por favor.


— Chanyeol, hoje o crítico mais importante de Seoul vai lá no restaurante, se eu não fizer o melhor prato da minha vida, eu posso dar adeus ao meu emprego.


— Então esse é o seu problema? É por isso que você está quase destruindo a minha cozinha?


— Por que você está tão calmo? Eu estou surtando! É o emprego da minha vida, Chanyeol. Eu batalhei para consegui-lo, passei noites sem dormir. Eu não posso perdê-lo! — Kyungsoo já estava ficando vermelho e seu tom de voz estava aumentando consideravelmente.


Ele se levantou para colocar uma xícara de café para si e a bebeu de uma vez.


— Kyungsoo, você é o melhor cozinheiro que eu conheço! — Chanyeol falou para acalmar o amigo.


— Eu sou o único cozinheiro que você conhece, Chanyeol. — ele contrapõe.


— Quem é esse monstro?


— Eu não sei ao certo. Eles falaram o nome dele, e eu já ouvi falar dele muitas vezes. O pessoal do restaurante tava dizendo que se ele decidir, ele acaba com a vida de um cozinheiro. Sabe o que é isso? Eu vou morrer, Chanyeol! Minha vida acabou! — Kyungsoo respirou fundo, sentindo todo o seu corpo tremer de nervoso. — Eu preciso me acalmar… Que horas são?


— Sete horas, por aí. — Chanyeol respondeu de forma automática, tocando-se logo me seguida do motivo que o amigo queria saber as horas.


— Está na hora.


— Não, Kyungsoo. Você não vai fazer isso! — Chanyeol se levantou, mas Kyungsoo foi mais rápido e correu até a porta, respirando fundo antes de abri-la.


O mais baixo deveria ter algum tipo de sensor, Chanyeol não sabia ao certo, mas ele sempre abria a porta quase no momento exato em que seu vizinho da frente estava saindo de casa.


Chanyeol se sentou de forma estratégica no sofá para que conseguiu ver Kyungsoo abrir a porta e se abaixar para pegar o jornal — que ele poderia muito bem ter pego antes de entrar, mas que ele sempre deixava para pegar depois — e o cara que morava no apartamento de frente ao de Chanyeol abrir a porta e sair.


— Bom dia. — Kyungsoo desejou com um sorriso.


— Bom dia, Kyungsoo. Como vai o seu namorado? — Kris respondeu de forma educada.


Namorado?


— Namorado? — Kyungsoo se perguntou em voz alta.


— Ah. Oi, Chanyeol. — ele acenou para Chanyeol sentado no sofá. O Park acenou de volta e mordeu o lábio inferior.


— Até logo. — Kris falou e Kyungsoo concordou, perdido em seus próprios pensamentos enquanto o mais alto ia embora.


Ele pensou em chamar Kris, mas ele já estava no final do corredor, esperando o elevador.


Kyungsoo se virou para Chanyeol, sentindo o coração acelerado e o rosto continha uma expressão confusa. Chanyeol estava se segurando para não rir da cara do amigo, mas estava meio difícil.


— Chanyeol… Por que o seu vizinho perguntou sobre o meu namorado? — Chanyeol comprimiu os lábios, para conter o riso, e negou com a cabeça. — Chanyeol…


— Sei lá, Kyungsoo… Eu nem converso com ele…


— Alguma coisa você disse. — o mais baixo afirmou. — Que cara é essa? Hm? Que cara é essa, Park Chanyeol? O que foi que você falou para o Kris?


Kyungsoo se aproximou de Chanyeol a passos rápidos e o maior se encolheu no sofá.


— Eu não falei nada, eu juro! — ele garantiu já levando os braços até a cabeça, para protegê-la. — Ele que tirou as próprias conclusões!


— Que conclusões? — Kyungsoo perguntou ao parar do lado do sofá.


— Um dia eu o encontrei no elevador e ele perguntou pelo meu namorado. Mas eu não tenho namorado, Kyungsoo, e você é a única pessoa que entra e sai desse apartamento livremente, e você aparece todos os dias na frente dele, com a desculpa ridícula do jornal. Ele…


— Ele acha que eu sou seu namorado. — Kyungsoo concluiu e se sentou no sofá. Chanyeol tirou suas pernas longas rapidamente, pois quase que o amigo se sentava em cima das mesmas. — Eu vou chorar…


— Calma, Soo… Você pode chegar para ele e falar que tudo não passa de um mal entendido. Fala que somos apenas amigos.


— E por que você não falou isso para ele, seu afetado?


— Porque foi tudo muito rápido! — Chanyeol respondeu. — Estávamos com um clima super estranho, ele só queria puxar conversa, só que ele desceu no térreo e eu ia até a garagem… Antes que eu pudesse desmentir, ele já havia ido. Eu lamento, Kyungsoo.


— Ele mora na sua frente, Chanyeol, não ia cair as suas pernas bater na porta dele para desmentir essa história ridícula. Com que cara eu vou olhar para ele agora?


— Com a mesma que você olha todos os dias! O episódio do elevador já faz uns dias…


— E você me deixou flertar com ele todo esse tempo?


— Flertar? — Chanyeol quase soltou uma gargalhada. — Kyungsoo, você pega o jornal todos os dias na mesma hora só para falar com ele e tudo que você fala é “bom dia”, quando você está legal ainda sai um “tudo bem”, mas nada além disso. Eu não chamaria isso de flertar, no máximo de educação.


Kyungsoo encostou as costas no sofá e esfregou o rosto com as duas mãos.


Kris era vizinho de Chanyeol há uns três meses, levou algumas semanas para que Kyungsoo o visse pela primeira vez, e quando isso aconteceu, de acordo com o próprio Do, foi como se o mundo parasse. O jovem não era muito de se apaixonar, nem sair com muitas pessoas, Chanyeol sabia bem disso. Kyungsoo só havia tido um namorado durante a vida, e fora apenas depois de terminar a faculdade. Kyungsoo realmente tentara manter uma relação com ele, mas seu namorado não estava muito interessado em crescer na vida. E, como os dois amigos sempre diziam, quem não acrescenta também não faz falta. Kyungsoo terminou com ele e pouco tempo depois conseguiu um emprego em um bom restaurante como auxiliar de cozinha.


Chanyeol se lembrava muito bem de quando o amigo ligara para si, super feliz, dizendo “Eu te falei que aquele menino era um karma na minha vida! Foi só eu me livrar dele que as coisas foram pros trilhos!”. Depois dele… mais ninguém. Kyungsoo nunca havia se apaixonado, até ver Kris pela primeira vez.


Kyungsoo o descrevia como o bolo mais perfeito do mundo, que ele sentia pena de cortar e não queria que ninguém tocasse.

Coisa de cozinheiro comparar tudo com comida!


Chanyeol era outro com pouquissimas experiências no amor, então nem podia ajudar muito o amigo. Mas, Chanyeol achava que, para começo de conversa, Kyungsoo tinha que dizer algo além de “bom dia” e perguntar algo, tipo o número de telefone quem sabe. Mas Kyungsoo tinha vergonha, um homem de trinta e três agindo como um adolescente de treze. O que a paixão não faz, não é mesmo? Kyungsoo apaixonado preocupava Chanyeol, pois o amigo era a pessoa mais madura que conhecia e sempre tomava conta de si, se Kyungsoo estava besta daquele jeito… Chanyeol não queria nem imaginar como ele mesmo ficaria quando se apaixonasse de verdade.


— Chanyeol, o que eu faço agora? — Kyungsoo não queria uma resposta, na verdade, ele já sabia a resposta de Chanyeol, por isso que quando o amigo abriu a boca para falar, ele o interrompeu. — Pensa no garoto do supermercado, o que você faria se o visse de novo? — Kyungsoo perguntou animado, achando que o garoto do supermercado era o Kris de Chanyeol.

E poderia até ser, mas Chanyeol não admitiria isso.


— Eu não sei. Podia falar com ele, mas ele provavelmente nem me reconheceria, ele estava desacordado quando eu o levei para o hospital.


— Mas você não gostaria de falar para ele que foi você? Que você comprou as coisas para ele?


— Eu não sei. Depende da forma como eu me sentiria perto dele novamente.


— Você falou que o achou bonito e que ficou intrigado com ele.


— Ele era muito bonito, não nego. Mas todo mundo ali ficou intrigado com ele, Kyungsoo. Ele gritava com tanto desespero, tanta dor… Parecia que estavam fazendo muito mal a ele… — o olhar de Chanyeol começou a ficar distante e ele simplesmente parou de falar.


Ele se viu novamente naquele supermercado, com o homem desconhecido em seus braços. Mas dessa vez, tudo acontecia em câmera lenta, ele podia parar e olhar mais calmamente para o rosto sem expressão do pobre homem, mas que continuava sendo encantador aos olhos de Chanyeol. O Park sentia uma sensação estranha toda vez que ele pensava no garoto, por isso ele preferia simplesmente não pensar muito sobre o ocorrido, mas isso havia se mostrado um pouco difícil. Já ia fazer uma semana e por mais de uma vez, Chanyeol se pegara sentado na cadeira do seu estúdio, revivendo a cena em sua cabeça.


— Você realmente não sabe o nome dele? — Chanyeol ouviu o amigo perguntar.


— Não…


— Ele mexeu muito com você, Chanyeol. — Kyungsoo afirmou. — Eu nunca te vi assim por ninguém, nem pelo Sehun.


Chanyeol recuou ao ouvir o nome do ex.


— Não, o Sehun foi muito diferente. — Chanyeol falou meio sem pensar. Era muito mais fácil para si falar sobre o ex agora, e ele agradecia muito por isso, estava trabalhando duro para lidar com o ocorrido e estava dando certo. — Eu tinha uma dependência dele. Eu não teria nem porque ter uma dependência do garoto do supermercado. É apenas uma pessoa que eu ajudei.


— E você não quer saber como ele está agora? Se ele está bem, ou algo assim?


— Quero, mas não é algo que esteja tirando meu sono. Se eu encontrá-lo de novo… Legal. Talvez eu pergunte, ou passe direto. — Chanyeol parou e pensou por alguns instantes, mas logo desistiu. Não valia ficar pensando em alguém que provavelmente nunca veria novamente. — Por que isso agora, Kyungsoo?


— Não, nada. É que esse acontecimento me deixou intrigado. Você não está nem um pouco curioso para saber sobre o homem?


— Estou, mas você está demais! Eu vou tomar o meu café, que já deve ter esfriado!


O Park se levantou e foi pegar a sua xícara de café. Ele não estava necessariamente frio, mas também não estava quente… Dava para tomar. Ele tomou o restante e se serviu de mais uma xícara e encarou o amigo.


— Você vai fazer o que hoje, Chanyeol?


— Eu vou tentar terminar a minha música e talvez eu jogue um pouco.


— Vai me encontrar na cidade depois da aula?


Chanyeol sempre se esquecia que Kyungsoo dava aulas de culinária para amadores. Pois é. As contas precisavam ser pagas e por mais que Kyungsoo trabalhasse em um restaurante muito bem conceituado, ele era novato no ramo.


— Claro. Eu te pego às duas horas? Podemos almoçar juntos. — Kyungsoo concordou.


— Eu fiz o seu café da manhã, coma alguma coisa antes de trabalhar.


— Eu ouvi você fazendo ele. — Chanyeol falou enquanto se virava para olhar o que o amigo havia preparado para si.


— Desculpa pelo barulho, eu ainda estou meio nervoso. — Chanyeol ouvia as lamúrias e inseguranças do amigo enquanto colocava o seu café da manhã.


— Você pode se acalmar, Kyungsoo. Você é o melhor! — ele afirmou ao voltar pra sala e se sentar no sofá, ao lado do amigo, e começar a comer.


— Você tem certeza? — Kyungsoo perguntou e Chanyeol o olhou. Seus olhos estavam brilhando e sua boca tão cheia que suas bochechas estavam salientes. O maior concordou com a cabeça e voltou a mastigar.

Kyungsoo sorriu para o amigo e sentiu seu coração se acalmar apenas ao vê-lo comer com tanta vontade. Chanyeol amava comer.

De verdade.


Ele dava muito valor a comida, pois sabia como era uma coisa boa e sabia muito bem como era não tê-la. O jovem já havia passado por suas piores fases, e ele sabia muito bem como era passar fome, ele sabia como era ter pouco ou quase nada, e justamente por isso, ele dava muito valor a tudo que tinha, e o que mais ele valorizava era comida.


E Kyungsoo sabia disso, era uma das razões por amar cozinhar para o amigo. Ele se sentia feliz ao deixar Chanyeol feliz, ver o amigo comendo com tanto gosto era muito prazeroso para si.


— Eu vou te deixar sozinho, tá bom? — ele concordou enquanto comia.


Chanyeol sabia que Kyungsoo ia lá apenas para fazer o café da manhã e, depois de um tempo, para ver Kris.


Kyungsoo se levantou e pegou o casaco grosso marrom e as chaves do apartamento de Chanyeol antes de sair.


Quando o maior finalmente ficou sozinho em casa, ele esticou as pernas no sofá e soltou um suspiro, olhando para o seu prato pela metade.


Existiam alguns momentos na vida de Chanyeol que — Kyungsoo precisava o perdoar — parecia que faltava algo. Ou alguém.


Chanyeol sempre falou que Kyungsoo era tudo que ele precisava para ser feliz e que ele não queria outra pessoa em sua vida, mas tinha momentos em que Chanyeol olhava ao redor, olhava para o seu apartamento, grande demais para uma única pessoa, e se sentia sozinho.


Kyungsoo ia dar aula, depois ia cuidar de sua própria vida antes de trabalhar, enquanto Chanyeol passava praticamente quatro dias inteiros no apartamento. Quando ele estava em seus dias produtivos, ele nem mesmo sentia as horas passarem, mas quando ele não conseguia trabalhar e tudo que tinha era o sossego do apartamento, naqueles momentos mais do que em qualquer outro, Chanyeol desejava ter alguém para compartilhar alguma coisa de sua vida.

Alguém para quem ligar, ou chegar em casa e conversar, alguém para passar as férias de verão e os dias frios de inverno.


Chanyeol desejava alguém que ele nunca havia conhecido, mas já amava. Alguém que não podia ser Kyungsoo. Ele amava o amigo. Kyungsoo era a prova que alguém no mundo poderia realmente gostar de Chanyeol, mas o maior temia que fosse o único.


A ideia de solidão lhe parecia tão amedrontadora, porém tão real. Ele conseguia se imaginar velho e sozinho, completamente isolado em um asilo ou qualquer coisa assim. Sem ninguém para lhe dar carinho ou para compartilhar os últimos dias. Kyungsoo seguiria a sua vida, por mais que o menor gostasse de dizer, ele não morreria solteiro, jogando ovos em moleques nojentos junto com Chanyeol. Mais cedo ou mais tarde, Kyungsoo encontraria alguém e seguiria sua vida, construiria uma família e novos hábitos, por mais que nunca deixasse de ser amigo de Chanyeol, essa era a realidade dos fatos. Kyungsoo iria continuar construindo a sua vida. E Chanyeol temia continuar parado no mesmo lugar.


O mais novo costumava achar que se sentiria completamente realizado quando atingisse o que sempre desejou profissionalmente. Bom, ele tinha um emprego bom, fazia o que amava, tinha dinheiro e era profissionalmente realizado. Mas ainda assim, Chanyeol sentia que faltava algo. Ele ainda não havia se realizado de fato. Faltava algo que ele achava que sabia, mas não tinha certeza.


Chanyeol fechou seus olhos, ele estava tão cansado. Precisava voltar a dormir.


Então, mesmo que estivesse muito cansado, Chanyeol terminou de comer o que havia servido para si e guardou todas as sobras na geladeira.


Chanyeol não tinha muitos limites, então ele poderia dormir até o dia seguinte sem perceber, mas mesmo assim ele tomou a decisão de desligar o despertador, aproveitando que era segunda e não tinha nada marcado. Dormiria até uma hora da tarde, acordando apenas porque precisava se encontrar com o amigo.


Como ele acordaria a tempo? Kyungsoo o ligaria. Ele sempre ligava, pois tinha medo de Chanyeol ter se esquecido, então ele ligava uma hora, ou duas horas antes, apenas para ter certeza que Chanyeol ainda compareceria.


Por isso Chanyeol deitou tranquilo em sua cama, se livrando do roupão e o jogando no chão antes de se cobrir com o lençol grosso.


Dormir… Era isso que ele estava precisando.

Entretanto, ao fechar os olhos, Chanyeol não conseguiu pegar no sono. Ele virou de um lado para o outro, embora se sentisse muito cansado, não conseguia cair em um sono profundo.


Por mais que ele quisesse desligar sua mente e simplesmente adormecer, Chanyeol estava com uma sensação estranha no peito. Sensação que fez com que o jovem soltasse vários gemidos frustrados e até mesmo irritados.


Ele não suportava não entender o que ele estava sentindo.


Era algo que estava ocorrendo dentro de si, se ele não entendesse, quem entenderia?

Chanyeol olhou para o relógio em cima da cabeceira e viu que marcava nove e meia.

O jovem já havia  passado por momentos como aquele, a insônia não era uma amiga muito próxima, mas vez ou outra dava um alô, estressando o jovem Park que não suportava ter seu sono privado.


Ele se levantou de forma preguiçosa e esticou os longos braços para frente e depois para cima. Chanyeol sabia o que fazer, mas temia pegar no sono e dormir apenas algumas — poucas — horas. Porém, ele preferiu fazer a ficar rolando na cama.


[...]


Ao entrar em seu estúdio, Chanyeol passou por cada um de seus instrumentos — como se estivesse cumprimentando-os — para só depois sentar-se à frente da bateria.


Chanyeol passou a mão pelo instrumento e sorriu alegre. A melhor coisa que ele havia feito naquele apartamento fora reformar um dos quartos e transformá-lo em um estúdio,completamente a prova de sons. Não importava o que ele fizesse ali, ninguém do meio externo ouviria.


Ele se acomodou no banquinho e pegou as baquetas. Até aquele momento, ele ainda não sabia o que ia tocar, mas se sentiu calmo assim que começou a tocar as primeiras melodias.


Chanyeol tocou até seus braços doerem, seu corpo grande começou a suar e seu rosto assumiu um tom vermelho, mas mesmo respirando ofegante e sentindo seus braços fraquejarem, o jovem estava com um sorriso feliz no rosto. A cada nova nota que ecoava na sala era uma batida do coração de Chanyeol. Ele se sentia tão bem enquanto balançava a cabeça e ouvia a música alta.

Era o que lhe acalmava. Ele se sentia pleno… Chanyeol se sentia vivo de verdade.


Enquanto ele tocava, algum pensamento ruins passavam por sua cabeça.


Família.


Amigos.


Trabalho.


Estudo.


Sacrifícios.


Eram apenas alguns tópicos que rondavam a sua cabeça e isso fazia com que ele tocasse com mais força, quase com raiva. Era a forma como ele achava para extravasar.


O Park sentiu uma gotícula de suor escorrer pelo seu rosto, quase caindo em seus olhos, e foi quando de distraiu e deixou que uma das baquetas escapasse de sua mão.


— Merda! — ele xingou quando viu o objeto de madeira se chocar contra a parede.

Chanyeol passou o dorso da mão na testa e respirou fundo.


Chanyeol estava cansado, mas se sentia bem mais leve. Tocar bateria sempre fazia isso consigo. Algumas pessoas lutavam, Chanyeol tocava bateria. Quando ele estava muito irritado ou estressado, não havia solução melhor para si.


Depois de pegar a baqueta do chão e guardá-la junto com a outra, ele decidiu que estava na hora de tomar um banho. O suor escorria pelo seu corpo, deixando-o todo molhado, parecia que ele tinha acabado de sair do banho. Chanyeol gostava dessa sensação. Ele não conseguia explicar ao certo qual era, mas fazia-o se sentir relaxado, completo. Pelo menos por algum tempo.


[...]


Depois do banho, Chanyeol colocou outra cueca e se deitou na cama. Por mais que não tivesse parecido, ele passara duas horas lá dentro.


Onze e quarenta.


O jovem soltou um suspiro e caminhou até o computador e o pegou. Ele não conseguiria dormir de qualquer forma, então trabalharia até que Kyungsoo ligasse.


Chanyeol colocou os fones de ouvido e deu play na música em que estava trabalhando. Ele havia travado em um arranjo e não conseguia pensar em nenhuma maneira para seguir dali.


O jovem sempre trabalhava primeiro no arranjo para depois pensar na letra, se fosse ter letra. Como DJ, Chanyeol não usava muito músicas com letras, no máximo um remix legal ou algo assim. Suas próprias composições, com letras que falavam sobre seus mais profundos medos e pensamentos que ele não tinha coragem de externar, ele guardava para si, pensando que ninguém gostaria de saber sobre suas próprias dores ou a forma como ele enxergava o mundo.

Chanyeol simplesmente achava que as pessoas tinham algo melhor para fazer.


No final das contas, Chanyeol ajustou algumas coisas, mas não conseguiu terminar a música. Aquilo não estava ajudando.


Compor geralmente deixava Chanyeol calmo, mas compor aquela música em especial estava deixando ele cada vez mais nervoso. Ele não conseguia começar outra, pois tudo em que conseguia pensar era em como terminaria a que estava incompleta.


Chanyeol esperou o tempo passar enquanto tocava algumas músicas na guitarra e pensava em coisas inúteis, como quem determinara que dois mais dois era igual a quatro e não a seis. Ou quem havia dado o nome às coisas e porquê.


Quando ele ouviu o celular apitar, demorou um pouco para sair de seus próprios pensamentos e pegar o aparelho. Ele jurava que seria uma mensagem de Kyungsoo, mas não era… Era da sua irmã.


Chanyeol nem mesmo se preocupou em ver de que se tratava, olhou a hora é decidiu que já estava na hora de se arrumar para encontrar o amigo. Responderia Yoora depois. Ou talvez nem mesmo respondesse.


[...]


Chanyeol estava escorado no carro, esperando Kyungsoo sair do prédio onde dava aulas.


Ele havia chegado cedo, talvez um pouco demais. Mas usaria aquilo para passar na cara do amigo, que estava sempre reclamando que Chanyeol se atrasava para tudo. Chanyeol não apenas havia chegado cedo, como Kyungsoo o havia deixado esperando cinco minutos. Chanyeol sabia que não era muita coisa, mas era alguma coisa.


Quando Kyungsoo finalmente desceu e chegou ao lado de fora da construção monumental e com paredes espelhadas, ele encarou o amigo dos pés a cabeça.

— Por que você está usando essa roupa? — Chanyeol encarou suas vestes e deu de ombros.


— Eu gosto dessa calça. É confortável. — falou e colocou as mãos nos bolsos de sua calça da Adidas.


— Eu sei. Eu te dei. — Kyungsoo falou. — Mas eu quero saber porque você está usando aqui.


— Preferiria que eu viesse pelado?


— Eu iria preferir que você não estivesse vestido como um mendigo. — eles começaram a andar na direção do restaurante ali perto. — Eu te dei essa calça há uns dois anos, você usa ela como se não tivesse outra coisa pra usar.


— Significa que eu gostei do seu presente. — Chanyeol argumentou.


— Mas você tem roupas mais legais pra usar, principalmente comigo no meio da rua. — Kyungsoo respondeu olhando o amigo pelo canto dos olhos. Chanyeol usava chinelos e uma blusa preta com branco. A blusa até que era legal, mas estava escondida pelo casaco escuro de Chanyeol. — Se você vier me encontrar com essa roupa de novo, eu te deixo no meio da rua.


Avisou e andou um pouco mais rápido. Chanyeol riu de forma contida antes de andar um pouco mais rápido e alcançar o amigo.


O menor estava sempre muito bem vestido, cabelo penteado e roupa impecável. Prevenido e pronto pra tudo que pudesse ocorrer. As roupas de Kyungsoo estavam sempre combinando e ele tinha uma calça para combinar com cada tipo de blusa e suéter, não apenas em questão de cor, mas também de tecido. Chanyeol nem mesmo sabia que tecidos podiam não combinar entre si até conhecer Kyungsoo. Ele não comprava uma calça se a mesma não combinasse com uma blusa ou um suéter, se combinasse com os dois era até melhor.


Para Chanyeol, um jeans combinava com tudo, no máximo ele tinha um escuro e um mais claro, a calça da Adidas — que não podia faltar — e casacos, Chanyeol gostava de usar casacos grandes e pesados, mas ele não tinha mais de cinco.


— Kyungsoo, o que você me diz—

Chanyeol parou de falar quando sentiu um corpo se chocando contra o seu.


— Desculpa… — ele ouviu pedirem.


Chanyeol olhou para baixo e reconheceu o homem quase que de imediato. Era o mesmo do supermercado! Ele parou no meio da rua enquanto observava o homem baixo se afastar cada vez mais de si.


Chanyeol sentiu um aperto no seu coração. Ele tinha quase certeza de que o homem desconhecido estava chorando. Seu tom de voz estava trêmulo e o mais alto conseguiu ouvir um fungado enquanto o homem de cabelos cor de mel se afastava de si.


— Chanyeol. — Kyungsoo segurou o braço do amigo. — O que foi?


— Hã? — Chanyeol se virou.


— O que foi? Ele te machucou?


— Não… — Chanyeol negou com a voz baixa. — É que… Nada. Vamos almoçar. — ele falou por fim e sorriu para o amigo. — Eu estou morrendo de fome.


Kyungsoo concordou e eles voltaram a andar.

Chanyeol conseguia ouvir a voz do amigo ao fundo, mas estava muito perdido em seus próprios pensamentos sobre o homem desconhecido que havia encontrado pela segunda vez e nem mesmo sabia o nome. Ele conseguiu resistir a vontade que tinha de correr atrás do homem e perguntar o que havia acontecido, fora difícil apenas observar enquanto o corpo pequeno e magro se perdia na multidão, mas ele resistiu ao instinto protetor que crescia dentro de si.


Era realmente difícil para ele entender o porquê de cada vez que ele encontrava o homem, um desejo de ajudá-lo crescia dentro de si.


Chanyeol não sabia nada sobre ele, mas sempre que lembrava da cena do supermercado, sentia pena, sentia uma imensa vontade de entender o que havia acontecido e mudar essa realidade.


— Você está me ouvindo, Chanyeol? — Kyungsoo perguntou e o amigo concordou com a cabeça.


— Sim, o seu aluno queimou o bolo. — Chanyeol ressaltou a última coisa que havia entendido.


— Você ficou estranho de repente. O que foi que aconteceu? — Chanyeol negou com a cabeça e sinalizou para o restaurante logo a frente.


— Eu estou apenas com muita fome.


— Conseguiu trabalhar hoje? — o maior negou. — O bloqueio está bem forte dessa vez, não é?


— Eu estou fazendo errado. Tem alguma coisa ali que não está se encaixando. — Chanyeol passou para frente do amigo e abriu a porta do restaurante para que ele entrasse. Kyungsoo agradeceu e esperou que Chanyeol estivesse junto a si para falar novamente.


— Eu já ouvi, eu achei muito boa! — Kyungsoo falou com um sorriso.


— Sim, ela está boa. Mas não é o que eu quero. Não foi o que eu imaginei. Está tão errado que eu nem consigo entender por onde devo começar a consertar.


Os dois amigos tiraram seus casacos e se sentaram em uma mesa com apenas duas cadeiras, uma de frente para a outra.


— Eu já troquei arranjo — Chanyeol continuou seu discurso de frustração. —, criei novos, fiz das tripas coração, mas aquilo continua errado.


— Você quer que eu escute de novo depois?


— Tudo bem.


Embora Kyungsoo não entendesse muito de música, Chanyeol não via mal em Kyungsoo ouvir a música e dar sua opinião.


— Eu estou com uma vontade de comer um hambúrguer com milk shake. — Chanyeol comentou ao olhar para o cardápio. Ele já estava esperando o discurso de Kyungsoo sobre isso não ser uma refeição e que Chanyeol morreria se continuasse se entupindo de besteiras. Mas, depois de alguns segundos, ele ouviu a resposta do amigo:


— Tudo bem. Eu acho que vou pedir uma salada com peixe.


Chanyeol olhou discretamente por cima do cardápio e viu o amigo encarar o seu próprio de forma apreensiva.


— Você está bem, Kyungsoo?


— Estou. — afirmou e olhou para Chanyeol.


— Tem algo te incomodando não?


Tinha.


Kyungsoo chamara Chanyeol para almoçar consigo porque pretendia fazer-lhe um pedido muito importante e achava que em um lugar público era menos provável do amigo dar um chilique. Mas ainda não era o momento para isso.


— Não. — ele respondeu. Chanyeol deu de ombros e fechou o cardápio, fazendo sinal para o garçom. — Mas, sabe, Chanyeol…


— Estava demorando. — ele falou enquanto o garçom servia um copo de água para cada um pegava o bloquinho para anotar os pedidos.


Depois que Chanyeol fez os pedidos, Kyungsoo esperou o homem desconhecido por eles se afastar para voltar a falar.


— Não é nada demais. — ele garantiu olhando para as mãos e o guardanapo em seu colo. Kyungsoo não consegui olhar nos olhos de Chanyeol quando estava mentindo, e o maior sabia disso. — É que eu estava pensando na minha mãe hoje.


— Sua mãe? — Chanyeol franziu o cenho.

Ao ouvir a palavra “mãe”, Chanyeol sentiu um arrepio subir pela espinha. Tinha algo errado.


Mãe… Mãe… Ele estava se esquecendo de algo, sabia disso.


— É. Você sabe que ela está viajando… E… Eu sinto muita saudade dela… — Kyungsoo começou a mexer no guardanapo e logo ele já estava puxando uns fiapos do tecido.


— Kyungsoo, você não sabe mentir. — Chanyeol falou de uma vez, com uma expressão séria.


Kyungsoo não mentia para si, apenas em algumas raras ocasiões, e elas sempre tinham algo em comum: A família Park.


O mais velho soltou um suspiro e finalmente olhou para Chanyeol.


— Você sabe, não sabe?


— Não. E estou muito bem sem saber. — ele pegou o copo de água e bebeu um pouco.


— A Yoora disse que ia falar com você.


— Então você falou com ela? Eu não sabia que você falava ‘vaquês, Kyungsoo. — o Do revirou os olhos.


— Não seja debochado, Chanyeol. Ela quer que você faça um discurso na cerimônia da sua mãe. É o aniversário de 10 anos da morte dela.


Chanyeol guardou o comentário maldoso para si, achando melhor não exteriorizar, pois corria o risco de Kyungsoo partir para cima de si. Kyungsoo não admitia que se falasse mal da família, Chanyeol já havia levado várias broncas e cascudos por causa das coisas maldosas que ele costumava dizer, mas o menor até que entendia o lado do amigo, só não podia demonstrar isso, pois o Park jamais pararia se soubesse. Kyungsoo acreditava que sempre se deve respeitar e honrar a família, colocando-a sempre em primeiro lugar.


Bom, os dois discordavam nesse aspecto, mas até que eles conseguiam viver bem.


— Eu não vou. — Chanyeol respondeu por fim.


— É a sua mãe! Você precisa ir e pelo menos falar algumas palavras honrosas para ela.


— Eu tenho certeza que ninguém ali quer ouvir como ela abandonou o filho sozinho no meio da rua, ou sobre como ela me batia, dizendo que não aturaria aquele tipo de safadeza na casa dela.


— Chanyeol…


— Kyungsoo, eu não tenho mãe, eu não tenho pai, eu não tenho irmã. A minha família é você e acabou. Eu me reconstruí sem ajuda de nenhum deles. Quem não acrescenta, também não faz falta, não é mesmo? — ele repetiu a frase e Kyungsoo negou com a cabeça.


Chanyeol estava ficando com raiva. Odiava falar sobre aquilo.


Sabia que estava esquecendo de algo e era do aniversário de morte da mulher que havia lhe dado a luz. Chanyeol sempre se sentia desconfortável naquela época do ano. Mesmo que ele não se lembrasse, seu subconsciente lembrava.


— Eles são a sua família, é claro que acrescentam.


— Eles não são a minha família, Kyungsoo. — Chanyeol proferiu de forma lenta, falando tudo quase que entredentes, com medo de rosnar as palavras e chamar muito a atenção. — Família é quem fica ao seu lado em todos os momentos, te ajuda e te aceita como você é. Família não liga para quem você gosta, ela te ama… — os olhos de Chanyeol já estavam brilhando por causa das lágrimas que se aproximavam, mas ele respirou fundo e prometeu para si mesmo que não choraria. Não ali. — Isso é o mínimo que se espera de uma família. E aqueles que você diz serem a minha, ninguém, ninguém, fez nada disso por mim. Ser família não significa ter o mesmo sangue.


— Então você não vai? A sua irmã e o seu pai estão preparando tudo…


— Vão preparar e comemorar sozinhos.


— Eles estão celebrando uma passagem.


— Daquela mulher direto pro inferno! — Chanyeol deixou escapar.


Ele sentia que aqueles comentários e toda aquela raiva que ele tinha dentro de si não fazia bem para ele, mas ele não conseguia evitar. Ele passou por muitas dificuldades durante a vida, mesmo muito novo, ele havia enfrentado campos e barrancos, apenas porque sua família fora incapaz de aceitar quem ele era. Chanyeol sabia que a raiva era algo que matava de dentro para fora, mas ele não conseguia evitar aquele sentimento. Sempre que pensava naquelas pessoas, Chanyeol só conseguia sentir rancor.


— Chanyeol, não fale isso! Que feio!


— Vamos acabar com esse assunto. Eu não quero discutir com você. Eu não vou fazer discurso nenhum, não vou para cerimônia nenhuma.


Kyungsoo encostou as costas na cadeira e fechou os olhos, derrotado. Depois de abrir, ele analisou o amigo de forma atenciosa. Ele odiava vê-lo com aquela cara. Triste, com raiva, angustiado. Mas ele sabia que Chanyeol jamais seria realmente feliz e seguiria em frente se não perdoasse aqueles que lhe fizeram tanto mal.


Perdão. Era isso que ele precisava.


Perdoar quem lhe fez mal no passado para aproveitar quem poderia fazê-lo bem no futuro.


— Você nunca irá perdoá-los, né? — Kyungsoo perguntou.


— Eu até poderia… Mas, acho que todo mundo tem um limite do quanto consegue ser cruel com o próximo, e eles passaram esse limite. Eu não vou perdoá-los, porque eu já fiz isso uma vez, e eles não mudaram, continuaram me humilhando e me fazendo mal. Eu não sou idiota pra ficar dando a minha cara se eu já sei que vão bater nela sem pensar se vai doer ou não.


— Tudo bem… — Kyungsoo falou. — Eu lamento ter tocado nesse assunto, Chanyeol.


Chanyeol cruzou os braços e encarou o amigo com um olhar quase raivoso.


— Eu não sei… — ele falou. O garçom chegou e colocou os pratos na frente dos meninos. — Eu te perdoo, Kyungsoo. Mas você vai ter que pagar o meu almoço.


Kyungsoo sorriu e soltou um suspiro aliviado.


— Tudo bem. Eu pago, mas essa vai ser a única vez que eu vou pagar pra você comer essa coisa horrenda. Isso vai te matar, Chanyeol.


— Tô cagando. — ele falou antes de pegar o hambúrguer e começar a comer. — Você precisa comer. É muito bom.


— Eu sei. — Kyungsoo falou. — Eu já comi essa bomba antes. Mas eu sei o mal que ela faz dentro de mim.


— Você é insuportável, Kyungsoo. — Chanyeol engoliu e bebeu um pouco do milk shake. — Hm. Está mais calmo sobre hoje?


— Não. Sinto que meu coração vai parar a qualquer momento. Você bem que poderia ir lá no restaurante hoje.


— Kyungsoo, um prato no restaurante que você trabalha é o preço do meu casaco.


— Você paga tão barato assim em um casaco? — Kyungsoo arqueou uma sobrancelha.


Chanyeol riu e negou com a cabeça.


— Você acha que eu pagaria quase cem mil wons em um prato de cem gramas? Você vai pagar seis mil no que eu estou comendo agora. Você sabe disso, não é?


— Ah, Chanyeol. Só dessa vez. Você pode pagar mesmo, não vai ser pela comida, vai ser por mim. Apoio moral. Sem falar que o que eu preparo é muito mais saudável do que isso que você está comendo.


— A gente faz uma video chamada, vai parecer que eu estou lá. — Chanyeol falou. — Você prepara comida saudável pra mim todos os dias. O meu jantar está na minha geladeira.


Kyungsoo soltou um suspiro, desistindo.


— Você é um amigo horrível. — Chanyeol soltou uma risada soprada e olhou para o amigo que comia com uma expressão carrancuda.


Ele ficou calado enquanto ria internamente do amigo com raiva.


Era uma noite muito importante para Kyungsoo, Chanyeol jamais o deixaria sozinho.


[...]


O jovem encarou seu reflexo no espelho e sorriu orgulhoso de si mesmo. Kyungsoo nem acreditaria quando o visse.


Na hora do almoço, o mais baixo nem se despediu de Chanyeol, pagando a conta e indo embora sem dizer nem mesmo um “tchau”.


Chanyeol olhou de relance para o celular em cima da mesa e soltou um suspiro, cedendo, como fazia todo ano.


Quando ele achou o número da floricultura, ligou. Sabia que já estava um pouco tarde, mas ele apenas faria um pedido.


Floricultura da família Choi. — ele ouviu a voz suave da Sra. Choi do outro lado.


— Olá, é Park Chanyeol. — ele se identificou.


Olá, Sr. Park! Estávamos falando do senhor hoje, achamos que não iria fazer o pedido esse ano.


Ele realmente não ia.


Todos os anos Chanyeol dizia para si mesmo que não iria mandar nenhum flor sequer para sua mãe, mas ele não aguentava.


O mesmo de todos os anos?ela perguntou.


— Sim… No mesmo lugar.


Faremos um buquê bem bonito para ela.


— Obrigado. Eu depositarei o dinheiro logo cedo. — avisou.


Muito obrigada. Boa noite, Sr. Park.


— Boa noite. — ele falou, antes de desligar.


Chanyeol apertou o aparelho com força e passou o dorso da mão para enxugar a lágrima solitária que escapara de um de seus olhos. Chanyeol voltou a encarar seu reflexo.

Ele já não era mais um menino. Já era um homem feito, mas sempre que o assunto “Família Park” se tornava algo presente, e não apenas uma coisa que o atormentava em sua cabeça, Chanyeol se sentia como uma criança indefesa, sem ninguém para protegê-lo. Ele se sentia como anos antes, quando ele fora obrigado a sair de casa e enfrentar o mundo lá fora sem qualquer tipo de ajuda ou preparação.


Notas Finais


Prontinho. Um cap mais leve, mais bunitinho... espero que tenham gostado, bebês.

Até logo,
EXO EXO
🔥☄


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