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História Meu Romeu - Isulio - Capítulo 6


Escrita por:


Capítulo 6 - Elenco corajoso


Por Isabela:


Hoje - Nova York.
Quarto dia de ensaio.


O café está barulhento, mas eles têm wi-fi de graça. Um lugar perfeito para pegar o iPad e me perder durante o horário de almoço. Tenho escrito no meu diário na maioria dos dias. Principalmente porque André continua insistindo que vai me manter sã dentro da loucura da minha situação atual. Como de costume, ele está certo. Claro, nesses dias eu uso um diário online com uma senha criptografada e mais segurança do que um comboio presidencial, mas não é bem o mesmo que escrever em papel de verdade.


Todo dia, Andrea e Julio pedem para eu me juntar a eles para o almoço, mas não tem como. Vou para o trabalho, faço meu serviço e tento ficar o mais longe possível de Julio no tempo em que estamos fora do palco. Ele continua tentando me pegar para uma conversa, mas aprendi a me abaixar e driblar melhor do que um boxeador campeão do mundo. Conversar não vai levar a nada além de um passeio pela Via das Lembranças Dolorosas. Nenhum de nós precisa disso. Estou no meio da minha entrada mais recente no diário quando uma salada Caesar gigante é colocada ao meu lado. Prestes a protestar que não pedi isso, levanto o olhar e dou de cara com Andrea.


— Você está ficando magrela demais — ela comenta, sentando-se ao meu lado com seu próprio almoço. — Uma mulher não pode sobreviver só de cafeína e nicotina, certo?


— Errado. — Sorrio para ela. — Sou um exemplo notável.


— Bem, sua diretora de palco acha que você está começando a parecer uma boneca cabeçuda, então coma isso. Por minha conta. - Olhando para a salada, eu percebo o quão faminta estou.


— Sim, senhora. - Enquanto guardo o tablet reparo em Julio do outro lado do café, sozinho numa mesa. Droga. De todas as lanchonetes em todas as cidades do mundo, ele veio à minha. Isso deveria ser uma zona Julio-free. Como se antecipasse minha próxima pergunta, Andrea anuncia:


— Vou almoçar com você porque estou cheia da companhia dele. Sempre que pergunto como as coisas estão indo entre vocês ele se fecha. - Dou de ombros e continuo comendo. Desisti há muito de tentar descobrir as motivações de Julio. — Vocês mal trocam uma palavra nos ensaios. Você nem olha para ele, mas ele passa o tempo todo te olhando. Quer me dizer o que está rolando? - Dou uma olhadinha para Julio, que está em outro mundo, lendo e petiscando suas batatinhas.


— Não está rolando nada — respondo, tomando um gole da minha bebida. — Só estou trabalhando pesado. - Ela inclina a cabeça e me estuda por vários segundos.


— Está transando com meu irmão? - Tusso e rio ao mesmo tempo. Um filete de coca escorre pelo meu queixo e cato um maço de guardanapos para me limpar. Julio parece alheio à nossa conversa. Graças a Deus.


— Claro que não — cochicho. — Acha que eu tenho zero noção de autopreservação? - Ela lança um olhar para Julio antes de cochichar de volta.


— Acho que, quando se trata do meu irmão, não dá para raciocinar direito. Porque, se ele quisesse te levar para cama, você estaria com as pernas para o ar em menos de três segundos.


— Bobagem.


— Sério?! Porque eu poderia iluminar metade de Nova York com o calor que
vocês dois geram nos ensaios. Os dois parecem culpados. Se não estão transando, então o quê? - Essa não é mesmo uma conversa que eu queria ter hoje. Ou alguma vez na vida. Suspiro e balanço a cabeça.


— Olha, eu estaria mentindo se dissesse que não me sinto mais atraída por ele. Mas, Deus, Andrea, é só isso. Não tenho intenção de voltar com ele. Nunca.


— Mas você ainda deve ter sentimentos por ele. Achei que você ia fugir milhões de quilômetros quando ficasse sabendo que ele seria o protagonista. Por que não fugiu? - Dou de ombros.


— Não faço ideia. - Isso não é totalmente verdade. Eu tinha de vê-lo. Precisava que ele me dissesse que cometeu um erro e que lamentava, mas estou começando a duvidar de que isso vai acontecer. Agora acho que só estou passando por isso para provar que posso seguir sem ele.


— Bom, você tem colhão, com certeza — Andrea comenta. — Amo meu irmão, mas se alguém tivesse feito comigo o que ele fez com você... — Ela limpa a boca com o guardanapo. — Vamos apenas dizer que entendo por que você parou de atender minhas ligações. Quando Julio disse que você tinha sido escolhida, achei que essa era nossa chance de eu refazer nossos laços.


— Andrea, você nunca desfez nenhum laço. Seu irmão sim.


— Eu sei, mas fico feliz de estarmos conversando de novo. Senti saudade. - Pego a mão dela e aperto.


— Eu também. - Eu não havia notado o quanto até agora.


— Então, Rodrigo vai trabalhar no beijo depois do almoço, hein? — ela informa enquanto passa uma batatinha no ketchup. — Nervosa?


— Não. Essa não é a primeira vez que sou escalada para contracenar com seu irmão e não posso aguentar nem olhar para ele.


— É verdade. Mas da última havia rolado menos coisa entre vocês.


— E eu era bem mais nova e menos capaz de separar a realidade da fantasia. — Encho o garfo de salada, mesmo que eu não esteja mais com fome. Andrea termina o resto do seu queijo quente.


— Então não vai ter problema em beijá-lo? Não vai trazer de volta antigos sentimentos? - Dou de ombros.


— Não há antigos sentimentos para trazer. Morreram há muito tempo. - Ela olha para mim por alguns segundos, então balança a cabeça.


— Claro que morreram. - Continuamos com o papo furado, sem nenhuma das duas mencionar Julio novamente. Nossa amizade orbitou tempo demais em torno dele, quando deveria ser apenas nós duas.


Conforme conversamos, noto um trio de meninas reunido ao redor da mesa do Julio. As fãs dele. Sempre há algumas delas esperando por ele do lado de fora do teatro. Elas parecem ter um sexto sentido sobre onde ele vai estar. É irritante. Elas berram e pedem uma foto e autógrafo. Olham para ele como se ele fosse um presente dos deuses. Empinam seus peitos como se tivessem uma chance com ele. Se ao menos elas soubessem a verdade. Apesar do rosto de anjo, ele é um canalha malvado que abandonou a Isabela. Espeto o resto da minha salada com entusiasmo demais quando um bombardeio de risinhos toma o café. Maldito rostinho de anjo dele. Andrea se despede quando terminamos de comer:


- Te vejo lá de volta. Não se esqueça de passar um brilhinho nos lábios. Julio não se barbeou. Apesar da barba dele ser rala, não quero que você fique arranhada. — Ela me dá um abraço rápido antes de levar a comanda para o caixa. Quando ela se vai, eu solto um longo suspiro.


Tinha quase me esquecido do beijo. Bem, não tanto esquecido quanto bloqueado. Como André pode atestar, meu talento para negação é impressionante. Estou guardando as coisas quando sinto algo nas minhas costas. Não estou surpresa que meu corpo reaja antes de eu ver quem é.


— Então, você conversa com minha irmã, mas não comigo? — ele comenta quando me viro para encará-lo.


— É porque ainda gosto da sua irmã. - Ele está usando sua testa franzida marca registrada.


— Vamos ter de conversar alguma hora, Isa.


— Não vamos mesmo. — Pego minhas coisas e passo por ele rumo à saída. Claro que ele me segue.


— Você acha que conseguiremos fazer essa peça da forma como estamos agora? Que não vai afetar nosso desempenho? - Eu saio na rua e os ruídos do trânsito me fazem elevar a voz.


— Não vou deixar isso afetar meu desempenho. É o emprego dos meus sonhos. E, apesar de o universo foder comigo colocando você no elenco, vou fazer dar certo. — Eu me viro para ele: — Se você não consegue, então faça um favor a nós dois e vá embora. - Ele se inclina, invadindo de propósito meu espaço só para ferrar comigo.


— Isa, não se engane pensando que pode fazer justiça a esse papel contracenando com outra pessoa, porque sabemos que é bobagem.


— Estou disposta a tentar. — Dou a ele meu sorriso mais doce. Ele está prestes a protestar quando mais fãs aparecem. Estão todas prontas para me empurrar para longe e chegar mais perto dele. Elas podem ficar com ele. Quando me afasto, ele chama meu nome. Eu não paro.


Seis anos antes:


Westchester, Nova York.
Grove - Sexta semana de aula.


Ele está me encarando. Mantenho o foco em Erika e tento me concentrar. É difícil. O olhar dele me dá um arrepio elétrico que começa na minha nuca e se espalha por todo meu corpo. Eu diria a ele para parar com isso, mas seria como reconhecer a existência dele e não há a menor chance de isso acontecer num futuro próximo.


Desde que leu meu diário, uma semana atrás, o evitei a todo custo. Sempre que olho para ele, sou inundada por uma grande onda de humilhação, seguida rapidamente por uma raiva enorme, que acaba numa forte vontade de me esfregar nele. Achei que ele ia me beijar. Parecia que ia. Então ele foi embora, e não tenho ideia do que se passa na cabeça dele. Só de pensar no nosso quase beijo minhas partes íntimas ficam todas excitadas. Não tenho coragem de dizer a elas que vamos morrer sem nunca experimentar um orgasmo. Ficariam muito deprimidas, e não posso me dar ao luxo de ter uma vagina triste.


— Srta. Souza?


— Me desculpe, o quê? - Erika está olhando para mim, assim como todo mundo. Exceto ele. Oh, a ironia.


— Eu te perguntei por que você acha que nos tornamos atores — Erika repete. — O que nos leva a buscar essa profissão? - Tá, fique fria. Responda à questão corretamente. Não dê a ela simplesmente a resposta que você acha que ela quer ouvir. — Srta. Souza, prometo que essa não é uma pegadinha. Por que acha que atuamos?


— Bem, — começo, respirando fundo e tentando ignorar os olhos em mim — acho que é uma forma de comunicar ideias e conceitos. Acho que somos como médiuns. Canalizando diferentes personas e personagens para dar vida ao trabalho dos outros. - Erika assente.


— Você não acha que é colaboradora nesse trabalho? Que as escolhas do seu personagem acrescentam algo à visão original?


— Bem, sim. Mas só se minhas escolhas não forem uma droga. - As pessoas riem. Julio bufa.


— Sr. Peña? Suas reflexões. - Ele se inclina de volta em sua cadeira.


— Somos atores porque queremos atenção. Ficamos por aí dizendo palavras de outras pessoas e tentando não estragar tudo. - Erika sorri.


— Então você não acha que exista algo artístico no que faz? - Ele dá de ombros.


— Não particularmente.


— E quanto ao músico, interpretando a música de outro? Você o considera
um artista?


— Bem, sim...


— E um artista visual? Um pintor que interpreta imagens através de suas
pinceladas? É artístico?


— Claro.


— Mas atores, não.


— Não exatamente. Somos papagaios, não somos? Aprendemos frases e as repetimos.


— Então, se você não acha que interpretar é uma ocupação artística, por que interpreta, sr. Peña? Por que atua, se você é meramente um fantoche e não tem investimento pessoal no que está fazendo? Por que dedicar três anos de sua vida para aprender a fazer isso? Com certeza você pode encontrar algo pelo qual tenha mais paixão.


— Eu não disse que não tinha paixão. Só acho que estamos nos iludindo se achamos que é difícil.


— Talvez não seja difícil para você. Mas para a maioria subir no palco na frente de centenas ou milhares de pessoas seria impossível. - Ele ri. — Sr. Peña — Erika diz pacientemente. — Sabia que, numa pesquisa recente, quase noventa por cento dos participantes disseram que prefeririam entrar num prédio em chamas a falar em público na frente de um grande grupo de pessoas?


— Quê? Isso é ridículo.


— Não quando você olha para os dez maiores medos das pessoas e “medo de falar em público” é o número dois. Outros itens da lista relevantes ao teatro são “medo de fracassar”, “medo de rejeição”, “medo de se comprometer” e “medo de intimidade”.


— Coincidentemente — Luis intervém —, são as razões exatas pelas quais Peña não tem uma namorada. - Julio olha feio para ele.


— Correr para um prédio em chamas requer muito mais coragem do que ser rejeitado ou ter intimidade. - Erika o observa como uma aranha estuda uma mosca.


— Mais coragem, você diz? - Ele concorda, sem perceber que está prestes a ser devorado.


— Acho que é mais certo dizer que é um tipo diferente de coragem, e as escolhas que você faz decidem a profundidade dessa coragem. - Julio não parece convencido. Erika o estuda novamente. — Humm. - Ele revira os olhos. Ele odeia esse som contemplativo. Erika caminha para a frente da sala e escreve algumas palavras na lousa. — Sr. Peña? — Ela o chama para que ele fique ao lado dela. Ele se levanta da cadeira e faz o que ela pede. — Você poderia ler essas duas palavras na lousa?


“Me desculpe”.


— Tá. Sou a dramaturga. Essas palavras são minhas. Qual é minha intenção? - Julio dá de ombros.


— Me diga você.


— Não, sr. Peña, não é meu trabalho. Como uma dramaturga meu trabalho é dar a você as palavras. Como ator, seu trabalho é interpretá-las. Então... - Ela indica que ele repita a frase. Ele coloca a mão na orelha e finge que não a ouviu.


— Me desculpe? - Ela assente.


— Viu? Você fez uma escolha. Uma escolha bem segura e sem graça, mas mesmo assim foi uma escolha.


— Mas não é sempre papel do ator fazer a escolha — ele discute.


— Verdade — Erika concorda. — Diretores frequentemente pressionam os atores para fazer escolhas mais corajosas, arriscadas, então vamos explorar isso. - Ela caminha para o outro lado dele e cruza os braços. — Desta vez quero que você fale como se estivesse falando com alguém importante para você. Alguém da família, ou namorada. - Uma sombra escura passa pelo rosto de Julio.


— Estou me desculpando pelo quê?


— Me diga você. — Erika sorri. Ele solta o ar e esfrega as mãos no rosto.


— Apenas me diga o que fazer e eu faço.


— Não, não é assim que funciona. Seu trabalho é criar algo, uma ideia, uma emoção dentro dos parâmetros que te dou. Os parâmetros são aquelas duas palavras ditas para alguém que significa algo para você. Você tem suas instruções. O que vai fazer com elas? - Ele olha ao redor da sala, perdido e desconfortável. — Sr. Peña?


— Estou pensando — ele retruca.


— Sobre o quê?


— Para quem estou me desculpando.


— Quem vai ser? - Ele olha brevemente para mim antes de dizer.


— Uma amiga.


— E pelo que está se desculpando? - Ele para de se remexer.


— Por que você precisa saber? Isso importa? - Ela balança a cabeça e aponta para ele começar.


— Não preciso. Quando estiver pronto. - Ele fecha os olhos e enche o pulmão de ar antes de soltar num longo e constante exalar. Há uma sensação de expectativa na sala. Quando ele abre os olhos, ele aponta para um ponto no fundo da sala e foca nele. Seu rosto muda. Está mais suave. Arrependido.


— Me desculpe — ele diz, mas ainda não é sincero.


— Não é bom o bastante. Tente novamente. - Ele se mantém focado no mesmo ponto conforme seu rosto se retorce.


— Me desculpe — ele dá a fala de novo, mas está segurando a emoção.


— Vá mais fundo, sr. Peña — Erika pede. — Você é capaz de mais. Mostre para mim. - Ele pisca e balança a cabeça. Seus olhos cada vez mais vidrados.


— Me desculpe! — Sua voz fica mais alta, mas ele ainda se protege. Faísca sem chamas.


— Não é o suficiente, Julio! — A voz de Erika se eleva com a dele. — Pare de lutar com a emoção. Revele a emoção. Toda. Não importa quão complicado seja. - Ele engole saliva e aperta a mandíbula. Suas mãos se fecham enquanto ele oscila de um pé para o outro. Ele fica em silêncio. — Sr. Peña? - Ele pisca algumas vezes e baixa o olhar para o chão.


— Não — ele sussurra. — Eu... não consigo.


— Pessoal demais? - Ele assente. — Vulnerável demais? - Ele assente novamente. — Muito... assustador? - Ele olha feio para ela. - Não precisa responder. Sente-se, sr. Peña. - Ele segue para seu lugar e se senta pesadamente. — Então, você gostaria de mudar sua opinião de que atuar é fácil e não requer coragem? — Erika pergunta suavemente. - Ele engole em seco.


— Obviamente.- Erika olha para o restante de nós.


— Atuar lida com emoções delicadas. Encontrá-las dentro de nós mesmos e expô-las para os outros verem. Mas, para fazer isso, o ator tem de estar disposto a mostrar partes de si mesmo das quais ele tem vergonha. Partes que não quer que mais ninguém observe. Ele deve ter a coragem de dar luz a cada insegurança aterrorizante e arrependimento vergonhoso. Nada deve ser escondido. Tudo deve ser exposto. Ao contrário do senso comum, a questão não é extrair uma resposta da plateia, é extrair algo de si mesmo e deixar a plateia testemunhar. - Ela aponta para Julio, que está olhando para o chão e mastigando a unha. — O que aconteceu com o sr. Peña hoje vai acontecer com todos vocês em algum ponto. Vai haver momentos em que vocês vão achar que não podem interpretar um personagem ou emoção porque é assustador demais. Mas é trabalho de vocês encontrar a coragem para ser vulnerável e deixar os outros verem essa vulnerabilidade. É isso que faz um bom ator. Nas maravilhosas palavras de Kafka, você tem o poder de “derreter o gelo de dentro para fora, de despertar células dormentes, de nos fazer mais vivos, mais totalmente humanos, ao mesmo tempo mais individuais e mais conectados uns aos outros”. É por isso
que fazemos o que fazemos. - As palavras dela ressoam em mim. Olho para Julio. Ele está olhando para o chão, com os ombros caídos. Ele sabe que ela está certa, e isso o mata de medo. — Agora — Erika muda de assunto e caminha para a mesa, pegando um pedaço de papel —, vocês todos fizeram teste para nossa primeira produção de teatro, uma peça pouco conhecida chamada Romeu e Julieta... - Todos riem. — E fico feliz de dizer que o elenco foi completado.


Nós todos nos endireitamos na cadeira enquanto a empolgação corre pela sala. Achei que meu teste foi bom, e, apesar da minha falta de experiência, quero esse papel. Demais. Erika começa lendo os papéis menores. Há murmúrios e xingamentos e alguns berros de prazer, mas quando chegamos aos papéis principais a sala toda fica em silêncio.


— O papel de Teobaldo vai para... Sebas. - Sebas grita alto e ergue o punho no ar. Posso vê-lo interpretanto um Teobaldo louco de pedra e levemente desajeitado. — Benvólio será interpretado pelo... sr. Giraldo. - Luis assente, orgulhoso.


— Isso aí. Benvólio fodão está na área. - Há risos e comemorações.


— A Ama será interpretada pela srta. Sediki. - Há uma salva de aplausos e Aiy ah parece que vai chorar.


Ela anuncia Miranda, Troy, Mariska e Tyler como os pais Capuleto e Montecchio. Então é hora de revelar os protagonistas. Minha boca fica seca e o ácido em meu estômago revira. Fecho os olhos enquanto entoo súplicas silenciosas. Erika pigarreia.


— Nossa Julieta — Deus, por favor, por favor, por favor — é a srta. Souza. - Meu estômago se aperta, meu coração acelera. Acho que nunca fiquei tão feliz. Todos aplaudem e meu peito parece que vai explodir de orgulho. Sou Julieta. Eu. Aquela ninguém que veio do nada sem experiência nenhuma. Diabos, sou eu!


Olho para Julio. Ele não está olhando para mim, mas está sorrindo. Deve estar pensando “eu te disse” e finalmente dando crédito a si por me fazer participar dos testes.


— Por fim — Erika está olhando para todos na sala —, a escolha dos dois papéis masculinos causou uma discussão acalorada na banca, mas acho que tomamos a decisão certa. Não é uma escolha óbvia de elenco, mas às vezes essas são as mais interessantes. - Julio se ajeita na cadeira. Sei que ele quer Mercúcio. Já fez o papel antes, e, pelo que ouvi, ele arrasou. Guido seria perfeito para Romeu, e acho que nós dois trabalharíamos bem juntos. Ele olha para mim e mostra os dedos cruzados. — Na produção deste ano, Mercúcio será interpretado pelo sr. Messina. O papel de Romeu vai para o sr. Peña. - A turma aplaude, mas eu não me junto a eles.


Parece que jogaram chumbo no meu estômago. Pelo olhar no rosto deles, Julio e Guido pensam a mesma coisa. Nós três nos olhamos, sem certeza do que acabou de acontecer. Erika bate palma para marcar o final da aula.


— É isso, gente. Se não receberam papel, então vão estar no coro. Não se preocupem, ainda terão muito a fazer. Por favor, peguem o roteiro e um calendário de ensaios. - As pessoas me parabenizam na saída, mas nem as escuto direito. Guido vem me dar um abraço.


— Parabéns — ele diz, animado. — Você vai ser incrível, tenho certeza.


— Queria que você fosse o Romeu — eu respondo, sabendo que Julio não tinha saído da cadeira.


— Isso teria sido legal, mas, não vou mentir, Mercúcio é um papel foda. Que tal, “danem-se as suas casas”?! Não dá para ser melhor do que isso. - Ele sai, e eu caminho tonta até a mesa da Erika para pegar o roteiro. Tem meu nome ao lado do nome do personagem: Julieta. Vejo o único que sobrou. Romeu: Julio Peña De Alba.


Não.
Não.
Não.


— Srta. Souza? Está tudo bem? - Tento não demonstrar o quão tonta estou.


— Hum... sim, está. - Ela sorri.


— Achei que você ficaria mais feliz em ter seu primeiro papel principal. É um dos clássicos. Pouquíssimas atrizes vão interpretar Julieta na vida.


— Ah, eu sei. Céus, estou empolgada. Sério. Só que... — Erika olha para mim em expectativa.


— Ela não me quer como Romeu — Julio diz, se aproximando. Ele para ao meu lado. — E, bem honestamente, somos dois. Você sabia que eu queria Mercúcio. E sabia o quanto eu odiava a porra do Romeu. Que diabos é essa droga?


— Nas palavras imortais dos Rolling Stones, sr. Peña, você não pode ter sempre o que quer. Você queria Mercúcio porque já fez o papel antes, e ficaria confortável fazendo de novo. Ser um ator não é ficar confortável. É se desafiar. Sei que você odeia Romeu, mas é um dos motivos pelo qual você foi escolhido. Você não é o típico herói romântico. Você é insolente e cínico e, às vezes, completamente mal educado. Você tem uma ousadia que acho que Romeu precisa. Da mesma forma, o sr. Messina tem uma sensibilidade que o tornará um Mercúcio muito cativante. Acredite em mim, não foi fácil tomar esta decisão. Eu sabia que você mostraria resistência, e, considerando que tenho de dirigi-lo, só tornei meu trabalho mais difícil. Acontece que, se puder extrair de você o desempenho de que o acho capaz, vai valer a pena. - Julio olha atravessado para ela e cruza os braços sobre o peito.


— E se eu me recusar a fazer? — ele pergunta. — Porque, mesmo que fosse
possível para mim compreender e interpretar um merda desses, o que não consigo, duvido que a Souza aqui ficaria empolgada de me ver nesse papel. - Erika olha para mim, questionando.


— É verdade. Ele é um cuzão. - Ela coloca a mão na mesa e abaixa a cabeça.


— Viu? — Julio diz. — Seria um puta desastre.


— E o que sugere? Que você interprete Mercúcio e o sr. Messina interprete Romeu?


— Sim! Ele seria ótimo naquele troço cafona de amorzinho. Eu poderia apenas morrer espalhafatosamente e dar o assunto por encerrado. Todo mundo sai ganhando.


— Não, não sai, sr. Peña, porque você não vai conquistar nada em seu desenvolvimento como ator, e vai deixar de explorar a incrível química que testemunhei entre você e a srta. Souza nos testes. - Julio para na hora.


— Aquilo foi um puta acaso! Foi por isso que me escolheu para esse papel? Por causa daquela porcaria de exercício de espelho? Jesus, Erika!


— Não é a única razão, mas é parte disso. Acha que esse tipo de química aparece todo dia? Porque estou aqui para te dizer que não, não aparece.


— Mas isso não é algo que eu... não consigo apenas...


— Julio — Erika diz. — Entendo que lidar com esse tipo de conexão é assustador, mas é exatamente o que você precisa para crescer. Você é tão talentoso de várias formas, mas qualquer coisa que demande de você abertura e vulnerabilidade em relação ao outro é seu calcanhar de aquiles. E acredite em mim quando digo que você não vai muito longe no trabalho ou neste curso ou na vida se isso continuar a ser um problema. - Ela respira fundo e solta o ar. — Agora, vocês dois foram escolhidos para os papéis principais numa das maiores tragédias românticas da história do mundo, então parem de reclamar e sejam gratos. Vão interpretar os papéis que foram dados, ou ambos vão receber a pior nota no semestre e vão correr o risco de serem expulsos do curso. Não me importa como vão fazer, mas precisam encontrar uma forma de trabalhar juntos. Apareçam na segunda dispostos e com as falas decoradas, porque vou fazer com que pareçam que estão apaixonados nem que seja a última coisa que eu faça. Não vou tolerar nenhum tipo de baboseira. Estamos conversados? - Julio e eu murmuramos um “sim, Erika”, e eu olho para o chão. Erika suspira e pega suas coisas. — Não se esqueçam dos roteiros — e sai. Julio e eu permanecemos lá, simplesmente sem olhar um para o outro, sem falar. Eu deveria ficar feliz em ser escolhida, mas não estou. Julio pega o roteiro e o calendário de ensaios e enfia na mochila.


— Isso é uma merda — murmura para si mesmo.


— O que foi aquilo? — pergunto, esperando que ele me dê uma desculpa para gritar com ele. Ele se vira.


— Isso. É. Uma. Merda. — Pronuncia cada palavra bem no meu rosto. — Este ano todo vai ser uma merda, e é tudo sua culpa.


— Minha culpa?! Como pode ser minha culpa que você foi escolhido como Romeu? Você não pode ficar sempre interpretando o rebelde carrancudo e intocável, sabia? Em algum ponto vai ter de interpretar um protagonista romântico.


— Nem todo ator precisa ser o protagonista. Samuel L. Jackson, Steve Buscemi, John Turturro, John Goodman. Todos têm carreiras incríveis e não fazem merdas românticas.


— Não leve pro lado errado, Peña, porque não quero mesmo te fazer um elogio, mas você não parece nada com esses caras. Você é alto, lindo e tem um cabelo irritantemente legal. As pessoas vão te escolher como protagonista, quer você queira ou não.


— Então, você quer que eu seja seu Romeu? É isso que está dizendo? Porque da última vez em que conferi você não suportava nem olhar para mim.


— Não. Você não seria minha primeira escolha para Romeu, basicamente porque você é um tremendo babaca que sai por aí lendo o diário dos outros!


— Que se foda. — Ele pega a mochila. Avança em direção à porta, mas eu o
seguro pelo braço.


— Peña, que diabos há de errado com você? Faz duas semanas e você nem tentou melhorar as coisas entre nós. Peça desculpas de uma vez, seu imbecil invasor de diários! - Ele se volta para me encarar e seus olhos estão cheios de faíscas. Dou alguns passos para trás, mas ele me acompanha. Só quando minhas costas acertam a parede é que nós dois paramos.


— Foi um puta erro ler seu diário, admito. Queria poder desfazer isso, porque tornaria minha vida muito mais fácil não saber toda essa merda que você sente por mim. Mas, para começar, em que porra você estava pensando ao escrever tudo aquilo? Claro que a pessoa sobre quem você está escrevendo vai acabar lendo, e isso vai aterrorizar os dois e foder com tudo!


— Ah, não! — O sangue ferve no meu rosto. — Você não está me culpando por você ter lido meu diário!


— Estou, sim. Exatamente.


— Você é inacreditável! — Levo as mãos ao alto, exasperada. — Chega! Cansei de te dar chances. Nem quero mais suas desculpas. Apenas fique longe de mim. - Passo por ele, mas ele me segue.


— Como propõe que eu fique longe de você se teremos de fazer incontáveis cenas de amor nessa pecinha idiota, hein? Acredite, eu adoraria não passar por essa puta tortura, mas não tenho escolha. - Caminho mais rápido.


— Prefiro enfiar agulhas nos olhos a fingir estar apaixonada por você, mas vou fazer isso porque essa produção conta como quarenta por cento da nossa nota de atuação este semestre, e você não vai foder com o meu boletim!


— Eu não sonharia com isso, princesa. No fim das contas, você provavelmente acabaria reclamando disso no seu diariozinho.


— É! Acabaria sim!


— Sabe — ele avança facilmente a passos largos para ficar ao meu lado e das minhas pernas trêmulas — milhões de pessoas sobrevivem sem escrever sobre suas fantasias sexuais e pensamentos mais íntimos num livro que qualquer um pode encontrar e ler. É incrível. Você deveria tentar!


— Logo que você viu o que era, deveria ter parado de ler! — Tento em vão caminhar para longe dele.


— Ah, certo, como se fosse possível pra caralho parar de ler quando vi que você estava escrevendo sobre o meu pau! - Eu paro na hora e dou um soco no braço dele. — Ai, Souza! Porra!


— Não é minha culpa! Vai se foder! - Ele agarra meu braço e me puxa para ele.


— Bem, de acordo com seu diário é exatamente disso que você precisa. É
daí que vem sua agressividade? Precisa cavalgar em cima de mim?


— Céus, você é um escroto!


— Acho que isso não foi um “não”. - Instintivamente tento bater nele, mas ele agarra meu pulso e segura firme. — Parte errada do corpo para colocar as mãos, docinho. Não quer aliviar a minha parte que está dura pra caralho desde que eu li o seu diário idiota? Não quer sentir o inferno que estou passando? Você quer pegar em mim tanto assim? Vá em frente. Coloca a mão em mim e me livra desse sofrimento. - Eu solto meu punho dele.


— Você é nojento. — E me afasto.


— Então é um não? - Eu me afasto o mais rápido possível e, quando viro, ainda o vejo parado onde o deixei, a cabeça abaixada e as mãos no cabelo. Ando para casa com as pernas ainda trêmulas, só quando eu entro no quarto e bato a porta é que percebo que meus olhos estão cheios d’água.


Meu Romeu.




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