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História Michael e a linha do amor - Capítulo 1


Escrita por: e G1_S04R3S


Notas do Autor


Ortografia revisada pela @G1_S04R3S

Capítulo 1 - Perdido


Enquanto ele tomava banho, a água quente descia pelas suas curvas, as curvas que, em sua maioria, ele detestava. Principalmente as mais próximas ao peito. Suas costas queimavam com a água quente demais, mas ele não moveu um único músculo. Sempre teve dúvidas sobre quem era. Por que tudo está tão claro agora? Não deveria ser assim. Não deveria ser fácil. Não faz sentido ser fácil de alguma maneira. Seus pensamentos bonitos não tinham mais nenhum valor agora que sua mente não era mais uma bagunça. Desde quando existe essa calmaria? Nenhuma voz parece sussurrar em seu ouvido.

Muito pior do que louco, ele estava revivendo sua sanidade.

Realmente não sei o que dizer para confortá-lo. Talvez eu apenas devesse dizer para tomar um banho fresco ao invés daquele, que tinha calor o bastante para deixar ele e seus sentimentos dormentes.

“Estar perdido só mais uma vez” É isso que ele pede sempre que sopra seus cílios.

Estava tão frio do outro lado... da sua mente. Por que nunca me contou que estava confuso pela certeza? Ele estava sentindo tanta dor, mas se você perguntar, ele vai dizer que está bem. É verdade. Ele está bem, por isso sofre tanto. Ele está doente agora, mas ele nunca vai confessar. Ele precisa tanto de ajuda, mas jamais pediria.

A capacidade de sentir dor, juntamente com a dor, é o que ainda está o mantendo vivo. O sono e a fome vorazes, que ele causou em si mesmo, são o que o mantém em pé. Curiosamente, quanto mais próximo de estar morto, mas vivo se sente.

Murros na parede fria apenas vão machucar suas mãos. Então por que ele continua? Mesmo que esteja doendo, sangrando, mesmo que ele chore, a dor é uma coisa boa. É quase acolhedora. Dor é a única coisa com a qual ele está familiarizado, pois tudo dentro dele, um dia, já esteve quebrado enquanto ele lutava com a agonia sem dizer uma palavra.

Uma batida na porta o fez se assustar. Duas batidas o trouxeram vagas lembranças de onde estava. Três batidas o fizeram voltar para a monótona realidade.

– Caralho, que susto!

– Vossa Majestade já terminou o banho da beleza real? – Perguntou a voz de Anne em tom debochado no lado oposto da porta

– Não – Ele respondeu no mesmo tom – Ainda faltam meus sais de banho junto com as pétalas de rosas e alguém pra escovar minhas costas. 

– Termina logo esse banho, Michelle – Anne falou

“Meu nome é Michael” Ele teve vontade de responder. Mas não é como se a irmã fosse entender caso ele tentasse explicar. Sua identidade era algo que guardava só para si. Sua vida era uma verdadeira caixa de pandora.

Sem mais ter o que fazer, levantou com cuidado para não escorregar no piso molhado e desligou o chuveiro, cessando o calor ardente que batia em suas costas.

Não se atrevendo a se olhar no espelho enquanto estivesse nu, afinal, sempre odiava o que via, ele apenas vestiu-se de suas roupas mais largas, sentindo-se infantil por ter vergonha de seu corpo. Um corpo que não podia ser chamado de “seu”, afinal em nenhum momento, quis ter nascido com peitos e útero.

– Terminei! – Ele anunciou sem saber se Anne teria ouvido suas palavras

Michael colocou os chinelos (com meias, pois estava frio e ele perdera suas pantufas) e foi até a cozinha.

– Anne! Eu ‘tô com fome! – Ele disse

– Tem comida na geladeira. É só esquentar. Eu tô indo pro trabalho.

– Já? – Michael perguntou deprimido

– Sim. Eu tenho que pagar as contas de luz que estão aumentando por causa de um certo alguém que fica mais de hora no banho.

Anne pegou sua bolsa cor de rosa e saiu. Michael ouviu o carro saindo da garagem e ficou imaginando se deveria cozinhar algo para comer ao invés de pegar o que estava na geladeira. Ele não era o melhor dos cozinheiros, mas era com certeza melhor do que Anne. O problema era que estava sempre com preguiça.

Sem ver muitas boas alternativas, ele pegou suas chaves e foi ao mercado mais próximo de sua casa, talvez para comprar um pacote de macarrão instantâneo. Cogitou ir de bicicleta, mas os pneus estavam furados (malditos cachorros!). As ruas estavam pouco movimentadas, afinal era meio-dia e a maior parte das pessoas estava em casa almoçando. Inclusive, era possível ouvir barulho de talheres batendo nos pratos, panelas de pressão apitando e pessoas conversando animadamente. Michael reparou também que na maioria das casas, passava o mesmo jornal na televisão.

– Bom dia, Michael! – Cumprimentou Rachel, a mulher que estava sempre do lado de fora da casa amarela, aproveitando seu canteiro de flores – Não deveria estar almoçando?

– Bom dia, Rachel! – Michael respondeu – Estou indo comprar meu almoço agora!

Rachel apenas sorriu e acenou com a cabeça enquanto o garoto virava a , esquina esperando, secretamente, poder conversar mais com sua vizinha algum dia. Só se falavam rapidamente, se cumprimentando e perguntando “Como vai?”. Tirando isso, Rachel pedia favores a ele vez ou outra (quando Michael capinou o pátio dela, foi quando descobriu que o garoto era transgênero).

Mas nunca haviam conversado de verdade. Ela era uma vizinha realmente gentil e o tratava como a um filho nas poucas ocasiões em que interagiam.

Chegando no mercado, Michael dava passos apressados, tentando evitar ao máximo de contato que pudesse. Não gostava do jeito que as pessoas o olhavam. Ele apenas foi ao corredor de massas e pegou dois pacotes de miojo do mais barato que encontrou.

– Deu três reais e vinte centavos – O atendente falou

Era um atendente novo. Michael sabia disso por três motivos: Um, ele parecia jovem demais para estar trabalhando a muito tempo. Dois, ele não parava de fazer perguntas aos seus colegas. Três, ele errou o cálculo de cabeça, o preço dos dois miojos juntos era na verdade três com quarenta.

– ´Cê devia usar a calculadora – Michael disse entregando cinco reais – Errou a conta por vinte centavos

O rapaz refez a conta, agora na calculadora, e confirmou com a cabeça.

– Verdade… 

Michael recebeu o troco e pegou seu almoço. Mas antes de sair, o atendente o chamou.

– Ei, garoto! Qual seu nome?

– Michael... Michael Taylor Smith. E o seu?

– Gustav Miller. Meu turno tá acabando… Pode me esperar?

Embora fosse uma pergunta incomum para dois desconhecidos, Michael esperou. Afinal, o que de tão ruim um garoto de sua idade poderia fazer? Qualquer coisa, Michael praticava artes marciais. Nada que um bom “Sumi-Otoshi” não resolvesse.

Uma meia hora depois, os dois estavam andando até a casa de Michael.

– Você é trans, né? – Gustav perguntou

– Como sabe? – Michael indagou

– Elementar, meu caro Michael. Eu… já observei você antes. Sempre que você vem sozinho, está de binder. Quando vem acompanhado daquela moça, é possível ver seus seios.

– Seu tarado mongolóide! – Xingou Michael dando uma risada

Gustav corou. 

– N-não é isso, cara. Eu só… Quis… Eu vi sem querer, só isso!

– Tá… – Michael respondeu sem estar realmente convencido

– Mas… Me fala um pouco sobre você…

– Eu não sou uma pessoa interessante – Disse Michael – Aliás, é uma surpresa que tu tenha vindo falar comigo

– Mais auto-estima, por favor – Gustav disse fazendo cócegas em Michael.

Por um momento, Michael se perguntou se não seria melhor ir para casa, almoçar e esquecer que, algum dia, havia se encontrado com Gustav. Por que aquele garoto que mal conhecia estava sendo tão gentil? Ele não tinha motivos para ser legal com alguém tão estranho como Michael. Então… Por quê?

Os olhos de Gustav brilhavam,  Michel sempre tomou aquilo como um sinal de alegria genuína. O cabelos castanhos do garoto à sua frente, tentando lhe fazer cócegas mesmo que Michael não sentisse, eles esvoaçavam com o vento. Os lábios avermelhados estavam curvados em um sorriso. Por algum motivo completamente estranho e curioso, aquilo deixava Michael feliz.

“Estar perdido só mais uma vez”

De repente, ele se sentia extremamente perdido… Perdido nos grandes olhos verdes e expressivos de Gustav. Perdido no toque morno dele. Michael estava completamente perdido, finalmente…

– Michael? – Gustav o chamou fazendo-o cair de cara no mundo real

– Desculpe – Michael disse balançando a cabeça – Eu me distraí

– Você parece viver em um mundo só seu – O garoto de cabelos castanhos brincou

– Às vezes o meu mundo parece melhor do que a realidade

– Nesse caso – Gustav comentou com um sorriso – Eu adoraria fazer parte dele…

“Bum-Bum” Fazia o coração de Michael “Bum-Bum” como se estivesse prestes a explodir “Bum-bum” as palmas de suas mãos estavam suando “Bum-Bum” e ele não entendia “Bum-Bum” o motivo de tanto nervosismo.

– Minha casa é aqui – Disse Michael, decididamente feliz por eles terem finalmente chegado – Tchau…

– Eu posso entrar? – Gustav perguntou – Preciso usar o banheiro

– Tá – Michael disse abrindo a porta – Não repara a bagunça.

Eles entraram. Michael, que estava de binder, foi ao seu quarto tirar aquilo de ao redor dos seios. Afinal, aquilo sufocava um tanto. Mas o costume de estar sempre com a porta aberta, era muito forte, então quando tirou a camisa, ouviu a voz de Gustav:

– Quer ajuda?

– Sua tarado! – Michael falou

– Eu tô falando sério, cara. Quer ajuda para tirar o binder?

– Hmmm… Pra ser sincero, eu quero… Mas não fica encarando! – Alertou Michael lançando seu melhor olhar ameaçador

– Tá bem…

Gustav o ajudou com o binder. Michael reparou no cuidado que ele tomava para não encostar nos seus seios enquanto tirava. 

Droga! Aquele maldito cavalheirismo fez com que o peito de Michael batesse como um tambor. 

Suas mãos começaram a tremer involuntariamente, ele ficava cada vez mais nervoso. Finalmente, Gustav terminou de retirar o binder e Michael, além de conseguir respirar, pôde baixar a camisa e se sentir um tanto mais calmo.

– Sabe – Gustav disse – Mesmo sem o binder, eu não vejo você como uma garota.

Ele não soube descrever o quão feliz ficou ao ouvir aquelas palavras. Era incrível a sensação de ser reconhecido por quem era e não por como ele se parecia. 

– Obrigado – Ele falou simplesmente, mas aquela palavra parecia tão pouco em relação à verdadeira gratidão que estava sentindo – Bom, Já que ‘cê tá aqui de qualquer jeito… Vai ficar pra almoçar?

– Pode ser – Gustav respondeu – Vou mandar mensagem pra minha mãe avisando. O que tem pro “rango”?

– Miojo…

– Ah, verdade! Foi o que você comprou lá no mercado. – Ele se recordou – Miojo de legumes da “Turma da Mônica”

– Idiota – Michael murmurou sozinho

O miojo foi colocado na água quente. Em poucos minutos estava pronto. 

Michel ainda se perguntava o que levara Gustav a ser uma pessoa tão legal com ele. Mesmo se considerando bonito, Michael não era do tipo social por natureza. Ele era fechado, quieto, sempre na dele. O que será que despertara a curiosidade de Gustav?

As curvas que ele odiava, levariam qualquer um a crer que ele era mulher. Porém, um garoto de cabelos iguais ao chocolate, sorrira e enxergara um homem. De modo que, independente de sua aparência, ele nunca mudaria aos olhos de Gustav. Aquilo era o que o deixava perdido. O modo como Gustav era diferente de todas as pessoas ao seu redor. Ele sorria de verdade para Michael, assim, até mesmo seus olhos sorriam. 

Seus dedos formigavam, em um desejo incontrolável de tocar o rosto de Gustav, por um motivo que o próprio rapaz de cabelos loiros não sabia qual era. Queria apenas tocá-lo.

Eles desfrutaram do miojo, embora Gustav reclamasse que aquilo não iria o alimentar direito.

– Só come isso antes que eu enfie na sua garganta – Michael ameaçou

– Quero só ver – Gustav desafiou pousando o garfo no prato e empurrando na direção de Michael

O loiro corou fervorosamente. Já estava arrependido de ter dito aquilo.

Contra sua vontade, ele pegou o garfo do acastanhado e o deu uma garfada do macarrão como se este fosse um bebê incapaz de fazer as coisas sozinho. Mas depois de receber a comida, os lábios de Gustav formaram um novo sorriso que, mais uma vez, acelerou os batimentos de Michael.

Era… Curioso.

Tão curioso o modo como um gesto tão simples e natural causava essa reação nele. Realmente, algo curioso e definitivamente anormal.

A refeição continuou normalmente. Gustav voltou a assumir o seu garfo. Michael comia, mas não prestava atenção no gosto, estando mergulhado em pensamentos.

Perdido, nunca esteve tão tão perdido. Algumas horas atrás, tinha tanta certeza do geral, mas agora não tinha certeza de mais nada. Seus passos, sua respiração, nada parecia certo. E algo lhe dizia que a culpa da sua completa incapacidade de se organizar, era de Gustav.

De repente, aquele garoto aparecera em sua vida. 

E estava destinado a fazer ainda mais estragos…

– Gostei de você – Gustav comentou – Agora somos melhores amigos

Michael simplesmente não resistiu e soltou uma risada. 

– Do que caralhos ‘cê tá rindo?

– Como assim, do nada, tu decidiu que eu sou teu melhor amigo? – Michael perguntou

– Por que não? É a primeira vez que eu almoço na casa de alguém  – O acastanhado respondeu – Isso faz de nós os melhores amigos.

“Merda” Michael pensou “Ele é tão idiota, mas tão fofo”

– Tenho que ir, agora. – Gustav anunciou depois de terminar seu prato – Tchau!

– Tchau...

Então, Gustav fez algo inesperado; pegou a mão de Michael e lhe deu um beijo na bochecha. Depois, apenas saiu sem dizer mais nada.

Aquilo fez Michael chegar à uma conclusão que mudaria tudo: Gustav era um pessoa irritantemente fofa, amigável e atraente e estava prestes a estragar sua vida. 

Quando Anne chegou em casa, a primeira coisa que disse foi:

– Oi Michelle! Teve um dia interessante?

– Interessante não é bem a palavra – O garoto falou, pela primeira vez, sem se irritar ao ser chamado pelo nome feminino

 


Notas Finais


Michael se pronuncia "maikou"
Pfvr, não vem ngm falando "mixaél"


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