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História Mil Acasos - Capítulo 1


Escrita por: MxrningStar

Notas do Autor


Olá, pessoas!
Gente, eu resolvi emendar minha terceira fic, a segunda Limantha, porque eu estou me achando desocupada demais. Mentira. É porque não tem como criar meio mundo de teorias com o que sai do spin-off sem fanficar em cima. E como aqui a criação é livre, resolvi escrever essa história. Ela é ambientada sete anos a frente, no tempo do spin-off As Five.
Espero que vocês curtam!

Boa leitura.

Capítulo 1 - Tryp Higienópolis


Ok. Ela poderia começar essa história da forma mais clichê que existe. Mas é que ela não é muito fã de “era uma vez”, então... Bom, na verdade ela não é muito fã de nada que envolva lá muito sentimentalismo, e existe coisa mais sentimental do que “era uma vez”? Você ouve essa frase e já pensa em romantismo, saudosismo... E todos esses “ismos” a faziam correr. Exceto um. O egoísmo. Ah, este sim parecia estar enraizado nela. E seria, talvez, um grande aliado das merdas que ela fez. E olha... como ela fez merda. Fez muita. Demais. Dava para uma vida inteira e mais um pouco de outra.

Mas, como falado lá em cima, a ideia aqui não é condenar ninguém, julgar, apontar erros e acertos. É só contar uma história, e se essa história é construída em cima de erros e acertos... Bom, aí já não se pode fazer muita coisa.

O fato era que lá estava ela. Em seus 25 anos, uma carreira consolidada, muito bem sucedida naquilo que fazia... Fisicamente ainda era a mesma menina de sete anos atrás que convocou um apitaço no pátio da escola e jogou as malas do diretor (e seu pai) pela janela. Ah, e a mesma menina que pulava catracas. Ela adorava pular uma catraca. Fazer o quê? Quando você pula uma e as outras aparecem, isso se tornam meio que um vício.

A mesma silhueta esbelta, o mesmo tom de pele alvo (ela não gostava muito de pegar sol e que se dane o mundo), o mesmo nariz avantajado... Mas o corte de cabelo, este estava diferente. Um pouco mais... sério, pode-se dizer. Mais adulto. Mais mulher talvez fosse a melhor definição. A melhor definição do que ela era... A maquiagem um pouco mais evidente e as roupas... um tanto quanto sérias demais para uma menina que só vestia camisa xadrez, calças coladas (e pretas, de preferência), jaquetas de couro e coturnos nos pés. E a tal da jaqueta verde militar que certa vez se tornara quase que uma extensão de seu corpo.

Não... Hoje ela vestia uma calça colada, mas de uma marca famosa e com o corte feito sob medida. Nos pés, levava uma bota de saltinho que, sozinha, deveria valer o guarda-roupas inteiro de uma pessoa menos abastada. Um terninho preto com as mangas dobradas por cima de uma blusa de tecido fino ligeiramente colada ao corpo. Definitivamente não se tratava mais de uma “marrentinha metida a blackblock”. Se tratava de uma mulher madura, sua figura refletia uma pessoa mais comedida e que prezava pelo diálogo, alguém com quem se podia ter conversas profundas, filosóficas, intelectuais... Não que ela nunca tenha sido isso... Mas agora... Bom, era dona do próprio nariz. As roupas, o jeito de andar, a postura até, refletiam bem isso.

- Eu pensei que você não viria pra casa. Pelos tempos que a reforma aqui acabou... – a mulher de cabelos cacheados, usando um terninho branco e um saltinho nos pés, pontuou.

- Eu até pensei em ficar mais tempo no hotel, pelo menos até achar um apartamento.

- Ficar em hotel, Lica? Pelo amor de Deus! Você tem mãe, tem casa, não precisa de hotel.

- Eu sei disso, dona Marta. Só não queria incomodar.

- E desde quando ter minha filha em casa é um incômodo, hã?

- Desde quando faz sete anos que ela não vem aqui e agora chega de mala e cuia.

- Para de besteira, vem cá!

A mulher a puxou para um abraço apertado e foi o jeito ela se deixar envolver... Não que não quisesse, pelo contrário. Era sua mãe ali. A pessoa que mais amava no mundo, a que mais admirava, sua inspiração de vida. Suspirou nos braços dela e deixou a cabeça descansar sobre seu colo.

- Eu estava com saudades disso – disse baixinho.

- Eu também, filha. Mas aí a filha desnaturada não lembra que tem mãe! – deu um tapinha de leve no braço de Lica, que se afastou sorrindo.

- Eu sei que a culpa é minha, mas o fuso horário também não ajuda, né?

- Seis horas adiantadas, Lica. Seis horas – a mulher seguiu brigando.

- Lica?

A voz fez Heloísa estacar no caminhar entre a mala e closet.

- Leide?

Não deu tempo nem de a mulher entrar direito no quarto, e a menina/mulher já foi logo se jogando sobre ela, que abriu os braços para recebe-la.

- Meu Deus, quando a Marta falou que você estava aqui, eu juro por Deus que não acreditei – afastou-se para analisar Lica de cima a baixo – Nossa, como você está linda, menina! Toda cheia de classe. Nem parece aquela adolescente rebelde que não podia ver um protesto e já queria se meter.

- Ai, credo! Também não era assim – Lica fez cara feia, mas logo se desarmou, quando foi envolvida novamente pelo abraço aconchegante de Leide.

A mulher trabalhava para sua família desde antes de Lica nascer. Conhecia a menina como a palma de sua mão, todos os seus gostos, vontades, temperamentos e faces. Sabia exatamente quando recuar e quando avançar, quando ela precisava de um ombro amigo e quando queria apenas quebrar tudo... Entendimento era a palavra e olha... Poucas pessoas sabiam como era Heloísa Gutierrez tão bem quanto Leide.

- Eu vou preparar aquele pudim de leite que você adora.

- Ih, nem perde tempo, Leide. A Lica agora está de dieta. Só toma suco detox e come salada.

- Para mãe! – a Leide – Leidoca, eu super como de tudo, você sabe bem. Nunca me incomodei com esse lance de corpo e forma física por estética não. Eu quero meu pudim sim e... – virou-se para Marta – Odeio suco detox, mãe.

Deixou suas coisas arrumadas pela metade e seguiu a funcionária da casa corredor a fora. Seguiam em uma conversa animada, quando foram interrompidas pela campainha. Quando Leide abriu, uma pequena tropa passou por ela. A tropa mais linda do mundo. A melhor tropa de cinco, ou melhor, de quatro que existe.

Lica abriu seu melhor sorriso quando viu aqueles rostos. Keyla, visivelmente mais magra e com os cabelos levemente ondulados. Ellen com o blackpower mais acentuado e sem os óculos de grau. Benê de cabelo curtinho e com os eternos óculos sobre os olhos, mas estes eram de armação preta e retangulares, dando-lhe um ar ainda mais sério. E Tina, já sem os cabelos platinados. Uma franja lhe marcava o cenho, os cabelos trabalhados em ondas sutis também e bem mais longos. Uma maquiagem bem delineada marcava seus traços orientais.

- Mano do céu, a tia não mentiu – Ellen se embasbacou ao ver Lica parada diante dela no meio da sala – Está bonitona hein, patricinha. Nem parece aquela blackblock puladora de catraca.

- Caralho, por que todo mundo fica dizendo isso? – Lica abriu os braços para recebe-las. Tina, Ellen e Keyla vieram imediatamente. Benê permaneceu distante, mas sorriu e estendeu o mindinho para que Lica pegasse.

- Que aliança é essa, ow Benê? – Lica observou uma argolinha reluzindo em dourado na mão direita da amiga.

- O Guto manifestou seu desejo de oficializar nossa união e eu aceitei – respondeu no tom mais formal existente.

- Ah, babado! – Lica até fez menção de abraça-la, mas conhecendo Benedita Ramos como conhecia, sabia que seria um mal feito. Limitou-se a pegar sua mãe, fazer um carinho ali e ser o mais sincera possível – Meus parabéns, Benê. Eu desejo do fundo do meu coração que você seja muito, mas muito feliz com o Guto. Sério, vocês merecem muito. E eu quero meu posto de madrinha do seu lado na igreja.

- Ah, nem a pau. A Benê já disse que quem vai ficar perto dela no altar sou eu, nem vem ow nariguda made in França – Keyla objetou.

A discussão sobre quem seria a madrinha a ficar mais próxima de Benê no altar (porque todas ali seria madrinhas e ponto final) se estendeu até o quarto, onde as meninas se espalharam: Keyla na cama analisando as peças do vestuário de Lica (mal de estilista), Ellen sentada à mesa do laptop onde já ligava o aparelho sem nem pedir permissão (isso era mal de programadora e de amiga com intimidade demais mesmo), Tina se empoleirou perto da estante analisando os discos de Lica (mal de produtora musical), e Benê rumou para os livros (mal de... Bom, era só a Benê mesmo. E ela lia, devorava livros. Do mais diversos assuntos).

Em meio a risadas e interrupções nos momentos mais inoportunos, Heloísa ia contando sobre os últimos dois anos em Paris – é que elas haviam se visto pela último vez há dois anos, quando a Gutierrez esteve pela última vez de passagem pelo Brasil. Mas foi quando abriu sua mala com as coisas de trabalho, que ela estacou. E surtou.

- Cadê meu estojo de tintas? – e começou a tirar um por um os objetos de dentro da mala. Eram telas dobráveis, estojos e mais estojos de lápis e canetas e pincéis de todos os tipos imagináveis... Seus cadernos de desenho, cadernos de anotação, blocos de tipos variados de papéis... – Que inferno!

Ela jogou um bloquinho sobre a cama e foi verificar na outra mala.

- E essas tintas são tão importantes assim? – Ellen questionou.

- São de uma coleção exclusiva da Pantone. Eles criaram os tons mais próximos das cores naturais... Eu definitivamente não posso ter perdido isso – continuou revirando seus pertences, mas nada do estojo de tintas – Merda, só se aquela lesma daquele maleiro do hotel esqueceu de colocar ele no táxi.

É que antes de ir para casa, Lica passou alguns dias hospedada em um hotel ali mesmo em Higienópolis, porque a residência estava em reforma. Morara no Tryp por quase duas semanas, e enquanto fazia o check-out, os funcionários do hotel levaram suas malas para o táxi.

Ah, mas ela acharia seu estojo de tintas. Nem que para isso precisasse revirar o Tryp de cabeça para baixo e sacudir. Seu instrumento de trabalho apareceria. Ah, se apareceria.

Sem titubear, Lica jogou a bolsa sobre o ombro e rumou para a sala, sendo seguida abruptamente por Tina, Ellen, Keyla e Benê. Marta até tentou entender o que estava acontecendo, mas ouviu apenas um “estou indo lavar a minha honra” e o barulho da porta batendo.

Entrou no carro de sua mãe e as meninas continuaram em seu encalço.

- Você se hospedou no Tryp Higienópolis, Lica? – Benê perguntou e ao sinal afirmativo da amiga, emendou – Agora está explicado porque ela não queria vir para casa.

- Benê! – Keyla, Ellen e Tina ralharam. Lica particularmente não entendeu nada e deu a partida. Cerca de vinte minutos depois estavam entrando no hall do Tryp Higienópolis.

Sabe como é essa coisa de hotel caro e chique em bairro nobre... Construção imponente, piscina no mezanino, piso em mármore tão bem limpo que você via seu reflexo no chão... Conjuntos de poltronas ultra confortáveis estrategicamente espalhados... e o enorme balcão de recepção na lateral direita, para onde Lica se dirigiu praticamente fumaçando.

- Bom dia, eu posso saber onde vocês enfiaram meu estojo de tintas? – já foi logo questionando. Ou arrumando briga, entenda como quiser.

- Não tão madura assim – Keyla cantarolou e tentou assumir o controle da situação. Era mãe. Sabia bem como lidar com crianças, mesmo que elas tivessem 25 anos e estivessem dirigindo um Mercedes – Bom dia, ah... – leu o nome no crachá – Lucas. A minha amiga se hospedou até agora pouco aqui e uma das ferramentas de trabalho dela não chegou com ela em casa... Será que você poderia, por favor, dar uma conferida se por acaso tem um estojo de tintas perdido pelo maleiro?

- Bom dia, senhorita. Qual o nome da hóspede? – o rapaz foi gentil e abriu logo seu melhor sorriso. Lica revirou os olhos e deu seu nome – Vou checar em um instante. Quando foi feito o check-out, senhora?

- Há duas horas – Lica respondeu a contragosto e visivelmente impaciente. O rapaz checou algo no computador e seguiu porta adentro pela recepção. Em questão de menos de um minuto, ele retornou com o costumeiro sorriso no rosto e... de mãos vazias. Ah, mas ela quebraria aquele hotel inteiro. Oh, se quebraria.

- Desculpe, senhorita. Checamos no maleiro e não há nenhum objeto dado como sem etiqueta ou perdido. As duas malas que estão lá estão devidamente etiquetadas com o nome de seus respectivos donos e nenhum se chama Heloísa Gutierrez.

- Olha só – ela colocou seu melhor tom ameaçador na voz – Eu saí dessa espelunca não tem nem duas horas direito, o maleiro que colocou meus pertences no carro não pegou todas as malas, esse estojo só pode estar aqui, porque eu o usei no quarto.

O rapaz engoliu em seco.

- Perdão, senhorita, mas não temos nenhuma estojo de tinta nem estojo nenhum no maleiro. O funcionário que levou as malas para seu táxi com toda a certeza levou tudo. A senhora pode ter perdido em outro lugar, talvez no meio do caminho. Desculpe, mas não podemos fazer nada.

- Ah, não podem? – Lica alteou o tom de voz, já querendo se exaltar. Tina pediu calma e Keyla soltou um “olha o vexame, esse hotel é chique demais”. Benê colocou logo as mãos nos ouvidos – Escuta aqui ow... Lucas – leu o nome no crachá – Eu entrei com esse estojo de tintas aqui e eu saí daqui sem ele, então obviamente ele só pode ter se perdido aqui dentro. Ou vocês dão conta do meu equipamento de trabalho, ou...

O rapaz nem deixou que Lica terminasse.

- Senhorita, nos perdoe, mas se o objeto não está no maleiro, é porque não está aqui. Todo pertence esquecido ou perdido fica no maleiro, e infelizmente ele não está lá.

- Eu quero falar com o gerente dessa espelunca! – Lica perdeu as estribeiras, chamando a atenção inclusive de alguns hóspedes que estavam por ali no saguão – O dono, seja lá quem for! Chama o responsável por essa birosca aqui que eu me entendo direto com ele! Anda, pode chamar!

- Lica, para! – Keyla suplicou, mas a Gutierrez estava impossível.

- Que foi, Key? Perderam um objeto meu, eu não vou deixar por isso mesmo. Chama o gerente, eu faço questão de falar direto com ele e quero ver se não resolvem isso e acham minhas coisas!

- Não é o dono, Lica. É a dona. Você se enganou – Benê corrigiu.

- Que seja! Cadê ela? Eu exijo falar com ela! – algumas pessoas já cochichavam entre si, observando a cena.

- Com licença... Está tudo bem por aqui?

Aquela voz... Ah, aquela voz... Ela tirou o chão de Heloísa, desarmou suas defesas, a despiu de qualquer tentativa de ataque e fez seu sangue fervilhar nas veias. Lhe soou como música e ah, como ela estava com saudades de ouvir aquela melodia...

Virou-se para a origem do som e a encontrou a apenas alguns passos... Linda, esplendorosa, em toda sua glória e cachos e lábios fartos e... Lica até tentou evitar olhar mais para baixo, mas... sabe, era meio impossível.

- Samantha?

Ela era mesma. Samantha Lambertini. Mas não a Samantha do Grupo, muito menos a Lagostosa dos Lagostins. Havia um ar de autoridade nela, uma beleza que emanava poder, decisão, determinação, uma postura firme, mas, ao mesmo tempo, delicada. Enfiada em uma calça social creme e um blazer da mesma cor, ela mirou os olhos de Lica com tamanha intensidade que era como se pudesse lê-la por completo.

- Você?

A incredulidade pairava entre as duas. Depois de sete anos, se encontrarem ali, no hall de um hotel em São Paulo. A São Paulo onde tudo tinha começado. Fisicamente estavam diferentes, mais maduras, mais mulheres. Mas e por dentro? Eram mesmo duas mulheres decididas ou ainda duas adolescentes envoltas em medos e indefinições e incertezas?

- Nossa... surpresa te encontrar aqui – Lica deu um meio sorriso. Samantha permaneceu impassível – Eu... eu não sabia que você estava hospedada aqui... – pigarreou e ajeitou a postura – É... – as palavras lhe estavam faltando ante a magnitude de tudo que era Samantha diante de si depois de todo aquele tempo – Olha, é bom você ter cuidado, os maleiros aqui são meio desligados.

- Desligados? – Samantha repetiu como que para experimentar a sonoridade da palavra e compreendê-la.

- Bom dia, dona Samantha. Nós tivemos um pequeno contratempo aqui, mas já estamos resolvendo.

Isso fez Lica voltar à Terra.

- Estamos resolvendo nada. Pra mim não tem nada resolvido, eu falei que quero falar com a gerente, a dona, alguém responsável por essa espelunca e até agora nada – objetou, visivelmente contrariada.

- Lica, a Samantha é a dona do hotel – Benê falou e Lica a mirou em uma mistura de incredulidade e... constrangimento? Foi como se tivesse levado um choque.

- Ela é o quê?

- É isso aí, Lica – Ellen completou, enquanto Tina se segurava para não rir – A Samantha é a dona do Tryp. E de mais quatro hotéis aqui em SP, e dois bistrôs também. Sabe a rede de restaurantes e hotéis Meliã? Pois é.

Lica engoliu em seco. Mirou Samantha visivelmente envergonhada. Havia chamado o hotel de espelunca e birosca na frente da dona. E a dona era ela, Samantha Lambertini. Desqualificara o trabalho dela por pura... raiva? Mas, poxa, ela só queria achar seu estojo de tintas. Eram Pantone, caramba! Sem contar que era uma péssima forma de encontrá-la depois de tanto tempo.

- É sério isso? – perguntou à Lambertini em um fio de voz.

Em resposta, obteve um sorrisinho de canto de boca e um balançar de cabeça em negação, como se nem a própria Samantha acreditasse naquilo. Ou estivesse se segurando para não lhe agredir bem ali. A Lambertini soltou um suspiro e dirigiu-se ao recepcionista, em uma postura totalmente profissional.

- Lucas, qual o problema aqui?

- Dona Samantha, a senhorita Heloísa diz que deu falta de um estojo de tintas ao chegar em casa e alega que o objeto foi esquecido por algum de nossos funcionários de ser posto no táxi que a levou.

- Quando o check-out foi feito? – inquiriu.

- Às onze horas e 20 minutos – o rapaz respondeu com eficiência.

- Procure saber quem era o maleiro do horário e entre em contato com ele. Pode me passar a chave da suíte, por favor?

- Claro – o rapaz entregou a Samantha o cartão que Lica usara nos últimos dias para entrar e sair de sua suíte.

Samantha falou com as meninas rapidamente e sumiu pelo elevador.

- Que vexame, viu? Podia ter evitado.

- Ah, vai se catar, Tina – Lica se emburrou e recostou-se ao balcão com os braços cruzados. Alguns hóspedes ainda a olhavam de soslaio – O show acabou. Podem voltar pra suas vidas.

Rapidamente o burburinho no saguão recomeçou à medida que as pessoas desviavam sua atenção dela.

Não demorou nem cinco minutos e Samantha retornou ao hall de entrada com um objeto de madeira em mãos. Um caixa retangular de marfim. O estojo de tintas de Lica.

- Da próxima vez que você se hospedar em algum lugar, olha se pegou tudo antes de sair do quarto e fazer o checkout – Samantha orientou e Lica a olhava embasbacada e agora visivelmente constrangida – E pode se desculpar com meu funcionário.

- Sammy – Lica chamou, mas se corrigiu logo em seguida – Samantha – pigarreou – Desculpa. Sério, eu... fiquei atordoada com medo de ter perdido isso.

- Eu vi, Heloísa – a forma como ela falou seu nome lhe soou tão impessoal. Não foi agradável de ouvir – Aliás, você sempre foi esquecida. Com tudo – Lica teve a impressão que não era só do estojo de tintas que Samantha falava – Mas por favor, não me arruma mais confusão aqui.

Disse e virou-se para se despedir de Keyla, Tina, Ellen e Benê. Lica até esperou receber um abraço, e se atreveu a iniciar o gesto, mas quando foi em direção a Samantha, o celular dela tocou.

- Oi, Clara – assumiu uma expressão preocupada – Como foi isso? Mas ela está bem? – deu uma pausa – Liga, pode ligar sim. Estou correndo pra aí!

E desligou o aparelho rapidamente. Falou para o recepcionista que precisaria sair, disse alguma coisa com “A Marina se acidentou e eu tenho que ir vê-la agora” e saiu quase correndo do hotel em direção a uma BMW preta estacionada próxima à saída.

- Será que está tudo bem com a Mari? – Ellen perguntou.

- Deve ter acontecido alguma coisa séria pra Samantha sair assim – Keyla comentou.

- Quem é Mari? – Lica perguntou.

- Lica... sabe o que é? É que faz sete anos que vocês não pisa em São Paulo e... – Tina começou a explicar de maneira calma e paciente, mas, como sempre, Benê foi mais rápida e concisa.

- Marina é a filha da Samantha, Lica. Filha dela com o Henrique. E antes que você pergunte, Henrique é o marido da Samantha.

Lembra a sensação de perder o chão? Pois é. Foi bem isso mesmo.

(...)

Samantha entrou pelos portões do Colégio Grupo praticamente correndo. Para uma mãe, receber a notícia de que a filha estava machucada era a pior coisa do mundo. Não queria que sua menina sofresse, se pudesse, pegaria toda a dor do mundo para si própria, para isentar Marina de qualquer incômodo.

Invadiu a enfermaria da escola, onde encontrou Clara, dois professores e uma enfermeira ao redor da cama.

- Filha! – exclamou e já foi logo se adiantando – O que foi que aconteceu?

Se enfiou entre os dois professores e sentou-se na beirada da cama para analisar Marina. Ela estava deitada quietinha, com um curativo no antebraço. O bracinho preso em uma tipoia para evitar movimentos bruscos.

- Eu caí, mamãe. Mas ganhei o joguinho, não foi tia Clara? – a menina disse e perguntou orgulhosa para a loirinha de pé do outro lado da cama.

Clara sorriu de leve.

- O que foi isso, Clara? – Samantha inquiriu, visivelmente preocupada, passando os dedos carinhosamente pelo machucado da filha.

- Foi na recreação, Samantha. Eles estavam brincando de pega-pega e a Marina acabou caindo enquanto corria. A enfermeira já olhou e está tudo bem com ela. Só machucou o braço mesmo.

- Filha... – virou-se para a menininha, que brincava distraída com a tipoia – Quantas vezes eu já falei pra não correr rápido demais, hum? Assim você se machuca, meu amor.

- Eu sei, mamãe, mas é que a outra sala estava ganhando e eu tinha que resolver isso. Se eu não pegasse o Olavinho, o jogo acabava. Mas aí eu corri bem ligeiro e consegui pegar ele pelo braço, e aí eu caí. Mas eu ganhei o jogo, não foi tio César?

César, o professor de Educação Física e Recreação do Grupo riu-se da fala da criança.

- Ganhou sim, Mari. Aliás, meus parabéns. Você foi a melhor da sua sala hoje – o homem disse.

- Viu mamãe? Eu fui a melhor.

O jeito como ela falou arrancou uma risadinha dos presentes. Samantha agradeceu aos professores, à enfermeira que havia cuidado dela, perguntou se poderia levar sua filha pra casa e recebeu um sinal afirmativa de Clara. Sentou-se na cama, ajeitando a mochilinha de Marina, quando a porta da enfermaria se abriu novamente.

Por ela, passou um homem alto, cabelos pretos e lisos, cortados em topete, a barba serrada no rosto anguloso e olhos de um castanho profundo. Henrique Mondego correu em direção à esposa.

- Samantha! – deixou um beijo rápido nos lábios dela – Eu vim correndo o mais rápido que pude. Ow filha... – ajoelhou-se ao lado da cama de Marina – O que foi que aconteceu, meu amor?

- Eu caí no pega-pega, papai, mas eu ganhei e fui a melhor da sala – a menina voltou a se gabar, fazendo o pai sorrir.

- Que bom que você ganhou e foi a melhor, filha, mas cuidado nessa correria... Podia ter se machucado mais sério... Está doendo muito? – ele fez um carinho no bracinho machucado de Marina.

- Um pouco, mas eu sou forte e aguento.

Mais risadas. Aliás, era impressionante como Marina não se deixava abater. Mesmo com apenas cinco aninhos, era bastante determinada, principalmente quando o assunto era ganhar os joguinhos da aula de recreação da escola. Aliás, essa determinação era característica herdada da Lambertini sentada ali do lado. Marina tinha muito da mãe em seu comportamento, atitudes, falas... E fisicamente então, nem se falava. Era quase uma cópia em tamanho menor de Samantha.

Os cabelos cacheadinhos e castanhos, os olhos, a gargalhada gostosa... não deixavam mentir de quem ela era filha. Marina era fruto do relacionamento de seis anos de Samantha e Henrique. Os dois haviam se conhecido na faculdade, ambos calouros: ela de Administração e ele de Direito. Pagaram algumas disciplinas juntos, começaram a ficar depois de uns meses de faculdade e para engatarem o namoro também não demorou muito.

Henrique sempre foi muito gentil, atencioso, amoroso e dedicado a Samantha e apareceu em um momento de fragilidade e conflitos emocionais e sentimentais dela. Foi recebido de braços abertos, Samantha nunca recusou tudo que Henrique tinha para dar, e não era pouca coisa. Podia sim dizer que havia amor ali. Poderia, talvez, não ser aquele amor arrasador, abrasante, desesperador que dizem só se sentir por uma única pessoa na vida. Mas havia respeito, um enorme carinho, cumplicidade, entendimento sexual e compreensão.

Estavam há seis anos juntos e Samantha poderia dizer com tranquilidade que fora sim, e ainda estava sendo, uma das melhores épocas de sua vida. Engravidara aos 19 anos, tivera Marina aos 20, terminando a faculdade e assumindo os negócios de sua família. Recebera todo o apoio de Miguel e Laura Lambertini quando contara que estava gestando uma criança. E um detalhe importante: o fizera com Henrique do lado. Em momento algum ele deixou de apoiá-la e estar ali para ela. Casaram meses antes de Marina nascer.

Foram rápido demais? Era muitos novos? Talvez, mas não tinham errado não. Haviam tomado todas as decisões juntos e de comum acordo. Sem pressões de nenhum dos lados, sem cobranças. Juntos, construíram uma família linda. Disso eles tinham certeza. Marina eram sua maior certeza na vida.

Samantha recolheu a mochilinha com os pertences de Marina, enquanto Henrique a pegava nos braços.

- Papai, o braço está dodói, não a perna. Eu posso andar – a menina disse, do nada, o que arrancou uma gargalhada de Clara.

- Gente, essa menina é muito sua filha, Sam. Olha, me desculpa, Henrique, mas tem hora que eu penso que a Mari é tipo uma Samantha em miniatura. Esperta é pouco – a loirinha comentou.

- Você quer ir pro chão? – o homem perguntou.

- Não, aqui tá bom – ela respondeu, manhosa e se aconchegou mais ao pescoço do pai.

- Vai entender... – Samantha brincou, despediu-se de Clara e seguiu Grupo afora com Marina e Henrique. Na saída eles acabaram se dividindo, já que cada um estava em um carro. Marina foi com Samantha, e Henrique foi seguindo a mulher até o apartamento onde moravam, em Perdizes.

O bairro era considerado nobre. Prédios luxuosos se erguiam do asfalto, parecendo competir em tamanho e altura, as ruas eram tão limpas e organizadas... seria lindo se a administração pública olhasse para a cidade inteira como olhava para aquela região.

Encontraram-se novamente no elevador, subiram com Marina tagarelando sobre como o Olavinho da outra turma na escola era lerdo e ela era muito mais rápida que ele. É... aquele pega-pega da recreação ainda renderia muito...

- Bora tomar um banho – ah... mas foi a essas palavras da mãe que toda a coragem de Marina se esvaiu.

- Eu não, mamãe, vai doer o dodói – a menina objetou e escondeu o braço como se pudesse assim se livrar de Samantha.

- Ué, mas não era você que estava dizendo que era mega corajosa e tal? Cadê a coragem? É um banho, vai arder um pouquinho, mas a gente passa um remédio e logo fica bom de novo.

- Eu sei, mamãe, mas até ficar bom de novo, vai doer. Eu posso banhar só as pernas que já tá bom.

Henrique gargalhou lá da cozinha.

- Banhar só as pernas? E como vai ser? Você vai andar limpinha da cintura pra baixo e sujinha da cintura pra cima?

- Eu passo perfume – Marina teve a melhor das ideias.

- Eu prefiro passar sabonete e um bom bactericida pra limpar direitinho esse machucado e te deixar toda limpinha e fresquinha. Bora pro banho! – Samantha mandou.

- Mas mamãe...

- Mas mamãe nada, Marina Lambertini. Pro banho. Vai indo, que eu ajudo a tirar a roupa.

A menina fez um bico e saiu caminhando a passos pesados corredor a dentro.

- Ela não gostou muito não – Henrique apareceu na sala. Estava cuidando do almoço. Era sempre assim. Eles se revezavam na cozinha. Tinham funcionários em casa durante a semana, mas procuravam deixar o mínimo de trabalho possível para eles. Não era porque pagavam que iriam explorar até a última gota de suor de quem trabalhasse com eles na arrumação da casa.

- Vai gostar ainda menos quando entrar no chuveiro – Samantha respondeu e deixou-se envolver pelo abraço do marido – Eu vou ficar por aqui mesmo. Fazer companhia pra Mari e cuidar dela. Ela caiu feio, daqui a pouco quando passar esse frenesi de ter ganhado o jogo, vai sentir dor pelo corpo todo.

- Eu vou ficar também com vocês – Henrique anunciou e deixou um beijo casto nos lábios da esposa – Vou cancelar tudo que tenho pra tarde e ficar aqui.

- Não precisa, amor – Samantha respondeu e envolveu os braços no pescoço do marido. Ele era uns centímetros mais alto que ela – Eu vou trocar o curativo, dar um remedinho pra dor e ela num instante se aquieta. Não precisa ficar.

- Samantha... Eu vou ficar mais tranquilo aqui.

- Tudo bem, você que sabe. Se quiser ficar, eu não vou achar ruim – deixou um beijo mais demorado na boca de Henrique – Mas também não é por necessidade. Eu vou ficar com a Mari. É bom que descanso um pouco e coloco a cabeça no lugar.

Henrique percebeu a expressão cansada no rosto da esposa. Analisou-a mais a fundo e não se furtou à pergunta.

- Foi tudo bem hoje de manhã? Você parece um pouquinho abatida demais – preocupou-se.

Samantha suspirou.

- Tudo sim, só um pequeno contratempo com uma hóspede no Tryp, mas já foi resolvido.

- Que hóspede? Alguém importante?

Samantha parou e pensou um pouco, por uma fração de segundo. Era alguém importante?

- Não. Ninguém importante. Vou lá ver a Marina – deixou mais um beijo rápido nos lábios do marido e rumou corredor a dentro para ver o que a filha estava aprontando. Ela estava silenciosa demais... e Marina Lambertini e silêncio definitivamente eram duas coisas que não combinavam.


Notas Finais


Será que a Sammy ficou feliz de ver a Lica?
E o que será que a Heloísa já fez pra Samantha ficar radiante assim de tê-la encontrado? kkkkk

Nos vemos no próximo capítulo (vou postar mesmo que ninguém leia, por motivos de: adoro escrever mesmo rsrsrs).


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