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História Mil Acasos - Capítulo 14


Escrita por: MxrningStar

Notas do Autor


Olá, pessoas, tudo certo por aqui?
Gente, seguinte: a fic vai começar a ganhar ritmo de novo. Nesse capítulo teremos algumas respostas, mas não todas.
PS: O título do capítulo contém uma ambiguidade e se aplica tanto às circunstâncias do que acontece aqui, quanto ao que acontece aqui rs. Fiquem atentos.

No mais: boa leitura!

Capítulo 14 - Exposição


- Lica, para de andar de um lado para o outro! Vai abrir um buraco no chão desse jeito! – Tina reclamou pelo que pareceu ser a milésima vez. E pela milésima vez, foi ignorada por Heloísa, que prosseguiu com seu andar para lá e para cá, num gesto visivelmente nervoso. A amiga tentou meios mais amenos – Calma, vai dar tudo certo.

- Na verdade, já deu – Keyla se juntou ao coro –Sua galeria está linda, Lica. Está tudo nos conformes, não tem porque esse nervosismo todo.

- Mas e se...

- E se nada! – Ellen a interrompeu. Heloísa e sua tendência nata a sempre pensar pelo lado negativo – Está tudo perfeito, tudo no ponto... Agora é só pensar positivo e ir pra casa se arrumar. Não tem mais nada pra você fazer aqui – e empurrou Lica pelas costas porta a fora – Tchau.

- Está me expulsando do meu próprio espaço? – Heloísa se fez de ofendida.

- Estou – Ellen foi firme – Vai se arrumar, você precisa estar linda e maravilhosa daqui a pouco. Vai ter imprensa aqui, você não quer sair com essa cara de morta nas fotos.

- Valeu pela parte que me toca – agradeceu em ironia.

- Tchau, Heloísa – Ellen a empurrou porta a fora e Lica não se viu tendo outra opção a não ser entrar no carro e seguir para casa. Mas sua cabeça estava a mil e mentiria se negasse isso.

Em poucas horas, daria por aberta sua galeria de artes. Claro que ficaria nervosa. Trabalhara horrores em cima daquilo, para conseguir chegar até ali. E era mais que uma galeria, na verdade. O espaço que Lica comprara era, em realidade, um pequeno complexo cultural com várias salas para exposição e até um café. Queria dar sua contribuição para a vida artística daquela cidade que, por si só, já fervilhava arte por todos os cantos. Dar cores ao concreto de São Paulo. Mostraria ao público naquela noite suas intenções. Esperava com todas as suas forças que elas fossem bem recebidas.

Chegou em casa e encontrou Marta já terminando de se arrumar. A mulher estava esplendorosa naquela pantalona preta. Monocromática como sempre. Monocromática e linda.

- Lica! – ela se assustou ao ver a filha passar pela porta – Você ainda está assim?

- Está linda, dona Marta – aproximou-se para deixar um beijo carinhoso no resto da mãe – Maior gata – conferiu de cima a baixo a mulher diante de si.

- Ai, obrigada, filha – Marta fez um floreio, mas voltou a assumir a expressão séria quando viu a inércia da filha – Vai se arrumar, também, Heloísa! Você é a estrela da noite, não pode se atrasar! É você que tem que receber os convidados. Anda!

Lica chispou quarto a dentro, quase esbarrando em Luís que vinha no corredor enfiado numa camisa social azul e calça de alfaiataria. Chegou ao quarto e já encontrou a roupa que usaria devidamente dobrada sobre a cama. Trabalho de Keyla e Leide. A mãe de Tonico fez questão de preparar o figurino dela para aquela noite e contara com Leide para que a roupa chegasse limpa e dobradinha ao closet de Lica. É que, segundo a estilista, se deixasse nas mãos da Gutierrez, capaz de ela aparecer para o evento vestindo jeans, jaqueta de couro e tênis.

Levou uns bons minutos no banheiro, saiu de lá já com os cabeços secos e a maquiagem no ponto. Em sua cabeça, repassava mentalmente todos os detalhes da noite, temendo esquecer de algo ou, pior, já ter esquecido. Nada podia dar errado. Nada. Era seu retorno ao Brasil e, bom, Lica não mentiria: adoraria ver as pessoas sendo surpreendidas por ela de uma maneira positiva. Gostaria de ver a admiração e o orgulho nos olhos de quem amava. Massagearia seu ego, claro, mas, acima de tudo, mostraria que sim: ela era capaz. Sempre foi. Elogios e críticas positivas. Não julgamentos. Era disso que precisava.

Estava terminando de abotoar o macacão feito sob medida por Keyla quando ouviu o celular tocar na mesinha de cabeceira. Correu para atender. Alice.

- Ligando para avisar que está tudo nos conformes, comes e bebes... tudo em cima. Agora se apressa que já tem imprensa aqui.

- Ai, valeu, Alice. Brigadão, sério. Daqui a pouco chego aí – agradeceu a fotógrafa rapidamente, desligou e voltou para dar uma última conferida em si no espelho do closet.

Os cabelos lisos e escovados de tal forma que sua franja recaía no contorno do rosto, a maquiagem bem marcada, embora não pesada, a blusa social branca sem mangas impecável sob o macacão social de risca de giz e nos pés um escarpin preto. Eis aí Heloísa Gutierrez. Sorriu satisfeita e pegou a bolsa, colocando-a sobre o ombro, e o celular. Rumou porta a fora.

- Agora sim! – Marta recebeu a filha em um abraço apertado – Está linda, filha! – fez Lica dar uma voltinha, corando ligeiramente – A artista plástica que a gente respeita – brincou.

- Ai, para, mãe. Sério. Sem frases de efeito, pelo amor de Deus – pediu, sorrindo de orelha a orelha, mas em puro deleite com os elogios – Cadê a Leide?

- Aqui! – a mulher apareceu na sala trajando um vestido clarinho. Lica raramente via Leide sem seu uniforme do trabalho ou fora dos jeans e blusas básicas – Pronta.

- Está gatona, hein, Leidoca! – Lica brincou – Ó... eu pegava.

- Que é isso, menina! Para com essas coisas! – a mulher corou feito um pimentão e deixou-se levar pelo ar zombeteiro da Gutierrez – Ó, eu estou muito, muito orgulhosa de você – segurou as mãos da artista – Aquela menina emburrada que corria no meio dessa sala quebrando tudo se tornou uma mulher e tanto!

- Leide, eu não posso borrar minha maquiagem, sério – Lica sentiu os olhos pinicarem – Se eu chegar lá parecendo o Bozo, a Keyla me mata.

- Então é melhor a gente se apressar – foi Luís que interrompeu o momento, trazendo-as de volta à realidade – Bora?

O caminho para a galeria foi até rápido perto do que Lica havia calculado. Encontrou um burburinho à porta, carros estacionando, alguns flashes disparados no meio da noite, movimentação de gente indo e vindo e....

- Lica, eu sou capaz de deixar de ser hétero por sua causa! – Tina. Tinha que ser. Lica revirou os olhos – Gente, olhem pra esse mulherão da porra que acabou de chegar! Não basta ser linda e gostosa, ainda tem que ser talentosa e dona de tudo isso aqui.

- Eu adoro a sua discrição, Tina. Valeu aí – Lica se deixou envolver pelo abraço da amiga – Obrigada, minha samurai.

- Você arrasa, Liquinha! – ouviu a voz dela abafada pelo abraço – Me mata de orgulho!

Primeiro ponto da noite.

- Meus parabéns, Lica. Sua galeria está linda – Benê estendeu a mão para ela, que a segurou, sorrindo de orelha a orelha.

- Valeu, Benê. Eu fico feliz que ‘cê tenha gostado.

- Minha roupa está um arraso, viu? – Keyla já chegou se gabando – Sério, eu devia ter aumentado o tamanho dessa etiqueta. Seria um merchan e tanto – puxou Lica para um abraço – Parabéns, Lica! Está tudo lindo e a gente sabe que cada coisinha aqui tem um dedo seu.

- O dedo só não, né? – Ellen entrou no abraço que acabou se tornando um emaranhado de braços ao redor de Heloísa – A mente e o corpo todinho. Parabéns, Lica! – ela quase gritou, feliz a vida – Gente, eu estava morrendo de saudade disso tudo!

Apertaram o abraço, trocaram olhares, sorrisos, na promessa silenciosa (nem tanto, porque elas eram também um tanto barulhentas) de que sim: estariam sempre ali uma pela outra. Juntas. As Five.

Lica se deixou ser envolvida pelo braço de Marta e entrou no espaço. Uma luz fosca iluminava parte do local lançando uma claridade azulada em alguns pontos. Havia um som ambiente tocando ao fundo, obra de Tina, claro. Ou Lica a deixava montar a playlist do evento ou não estaria viva para aquele momento. Telas e mais telas dela nas paredes, espalhadas de maneira estratégica e milimetricamente pensada com a ajuda de Alice. Antes de fotógrafa, ela era curadora, então... E por falar nela. Lica a avistou conversando animada com um carinha que ela pensou ser da organização, já que estava de crachá, e acenou para ser vista também.

- Olha ela! – a fotógrafa se aproximou com um sorriso enorme e lindo no rosto – A estrela da noite, rainha de nós todos – brincou – Heloísa Gutierrez, a própria. Parabéns, Lica! Isso tudo aqui não podia ter ficado mais perfeito.

- Olha, eu acho que eu que tenho que agradecer alguém aqui – a artista brincou e pegou na mão de Alice em um gesto cúmplice – Obrigada, Alice, de verdade. Sem você, sem a sua ajuda, isso aqui não teria saído.

- Ai, que nada – Alice foi modesta – A gente sabe que quem pensou em tudo foi você. Eu só executei uma coisinha e outra. Você que está de parabéns! Aproveita seu momento de glória!

Viu um garçom passando por ali e pegou duas taças de champanhe. Entregou uma a Lica e ficou com a outra.

- Um brinde ao mais novo nome da cena artística de São Paulo – a fotógrafa fez um floreio – A mais mais, a fodona, a super ultra mega power talentosa Heloísa Gutierrez, senhora e senhores – tocaram as taças em meio a uma gargalhada de Lica e beberam o primeiro gole.

Foram interrompidas por um fotógrafo pedindo para que Lica se posicionasse próximo a algumas telas de modo que ele fizesse suas imagens. Alice saiu de perto, dando mais um sorriso de incentivo e disse que ia circular, já que não estava a trabalho. Juntou-se a Tina e ao restante das meninas.

Enquanto isso, Lica lidava com os flashes que disparavam em sua direção quase cegando-a. Ironia que ela trabalhasse com imagens mas não gostasse de se ver retratadas nelas. Fotos em rede social ok, sim, ela se saía muito bem, obrigada, por serem tiradas em momentos de espontaneidade e quando havia riso fácil. Algo totalmente diferente de uma pessoa aleatória pedir para que ela simplesmente ficasse de pé, parada e sorrisse para uma câmera. Fotos com movimentos guiados: Lica odiava. Mas, não reclamaria. Aquela noite era sua, aproveitaria ela como se deveria, mesmo que tivesse que ceder a certas formalidades no começo.

Formalidade essa que não durou praticamente nada. Ela só ouviu um “tia Lica!” estridente sobrepondo-se ao burburinho das vozes e da música ao fundo. Virou-se para a entrada. Aquele amontoadinho de cachos irrompeu entre as pernas para chegar até ela. Lica, na mesma hora, dispensou o fotógrafo e abaixou-se para pega-la.

Marina estava linda enfiada naquele vestidinho azul, com os cachinhos presos em uma trancinha frouxa e cheirando a perfuminho de criança. O melhor perfume do mundo. Se jogou no pescoço de Lica.

- Marina! Você veio! – Lica não quis soar tão surpresa, mas soou. É que estava de fato surpresa. Quando enviara o convite a Samantha com o nome dela e de Marina, torcia realmente para que a Lambertini permitisse à filha que fosse, mas, confessava, suas esperanças eram mínimas. No entanto, em ver Marina ali, só sorrisos, os olhinhos brilhando em pura felicidade, fez sua noite. Samantha deixara. Abrira uma janela. Permitira a Marina ir ao seu encontro. Havia uma centelha de luz no fim do túnel, afinal.

 - Eu vim – a menina confirmou o óbvio – A mamãe me trouxe.

- Ela trouxe? A Samantha veio?

- Eu fui convidada e essa festa é open bar. Claro que eu não perderia – aquela voz fez um arrepio gostoso percorrer a espinha de Lica, indo se instalar na nuca. Heloísa mudou Marina de braço para ver Samantha em toda sua glória e beleza e cachos parada a uns dois passos dela. A Lambertini usava um vestido preto de alças fininhas marcado na cintura e soltinho embaixo Nos pés, um sapato de salto que deixava suas pernas pra lá de torneadas ainda mais destacadas. Os cachos pareciam estar mais revoltos, lhe emoldurando o rosto como se ela fosse uma leoa. Uma leoa linda e perigosa. E, por mais estranho que possa parecer, Samantha sorria. Sorria um sorriso que a Heloísa pareceu sincero. O sorriso mais lindo do mundo.

- Samantha? – perdoem. É que lhe custava acreditar.

- Lica – a empresária devolveu em um cumprimento formal.

- Você... – Lica pigarreou para clarear a garganta. Lhe faltaram palavras – Q-que bom que você veio – tinha que gaguejar logo ali? – Eu... – ajeitou a postura, com Marina ainda nos braços – Eu fico feliz que você tenha aceitado meu convite e trazido a Marina também.

- Não agradece – Samantha pediu, ainda sorrindo – Eu não podia deixar de vir te prestigiar – opa! Lica abriu um sorriso preguiçoso e a Lambertini percebeu, porque pigarreou e olhou para a filha, assumindo uma expressão mais séria – E a Marina também. Não é filha?

- Umhum – Marina soou tão dengosa com os bracinhos ao redor do pescoço de Lica – Eu vim ver seus desenhos, tia Lica.

Lica sorriu feliz da vida à sentença dela.

- Que honra saber que você veio só pra ver meus desenhos – brincou e deixou um beijo estalado na bochecha dela, deixando uma marquinha de batom fraquinha ali. Samantha riu baixinho daquela interação – Bora ver? Todos eles?

- Bora – Marina respondeu, animada – Mamãe, eu vou ver os desenhos da tia Lica. Você deixa?

- E tem como dizer “não”? – Samantha brincou e se aproximou da filha, ficando quase que cara a cara com Lica. Ajeitou o vestidinho dela – Cuidado, não toca em nada, essa arte aqui foi feita pra ser vista e não tocada, certo? – a menina anuiu com a cabeça – Eu também vou dar uma circulada e depois ficar com a as meninas ali perto, qualquer coisa que precisar....

- Eu te procuro – Lica a interrompeu, se maldizendo no segundo seguinte – Se a Marina precisar de algo e eu não puder resolver.

- Você vai mesmo ficar de babá da minha filha a noite inteira? Que eu saiba, essa festa é sua. Você devia aproveitar.

Lica negou com a cabeça.

- E eu vou aproveitar na melhor companhia do mundo – olhou para Marina – Partiu ver meus desenhos. Dá tchau pra Sammy, Mari.

- Tchau, mamãe, eu já volto – Marina beijou a mãozinha e jogou o beijo para Samantha. Saiu com Lica, já tagarelando.

Samantha riu baixinho e virou-se para dar uma volta. Era interessante perceber como a arte de Heloísa havia evoluído. Para além de grafites, o que ela via ali eram traços mais firmes, mais decididos, como se a própria artista imprimisse certeza a cada um deles. Rostos ocultos, tons frios, vultos... Samantha se pegou lembrando algo que sempre ouvia Lica repetir: que procurava se retratar no que criava, mostrar a si mesma e o que sentia. Diante daquelas telas onde as sombras predominavam, ficou se questionando se de fato aquela seria a Heloísa do presente. Aquele emaranhado de tons camuflados, algo escondido, por vezes invisível. Algo que simplesmente escapava aos olhos.

Sentiu uma certa inquietude ao mirar uma tela em que se via o contorno de um corpo sendo tomado pelas sombras enquanto a outra parte dele já estava nas trevas. O que aquilo queria dizer exatamente? Renascimento e ressurgimento ou um entrar na escuridão, desaparecimento? Libertação ou prisão? A imagem parecia sair das sombras, ao mesmo tempo que parecia imergir nelas.

Samantha passou uns bons segundos com os olhos vidrados na obra até virar o rosto, os olhos procurando por Lica. Percorreu algumas cabeças até encontrar a artista com Marina ainda nos braços, apontando para uma tela e sorrindo grande enquanto falava algo para sua filha. A menina ouvia tudo atentamente, com um biquinho no rosto. A expressão que Samantha conhecia muito bem: era a carinha de concentrada de Marina.

Se pegou pensando no que Lica estaria sentindo quando criou aquela tela. Ela era escuridão ou luz?

- Sam? – a voz tirou Samantha de seu torpor momentâneo.

- Clara! – virou-se para cumprimentar a comadre.

- Gente, eu estou surpresa de te ver aqui – a loirinha comentou, recebendo o abraço e trocando beijinhos no rosto com a empresária – Surpresa e meio assustada, na verdade – riu-se.

- Eu vim trazer a Marina – Samantha explicou – E aproveitei pra dar uma volta também.

- Ah, tá – Clara estreitou um pouquinho os olhos, gesto que passaria despercebido se não fossem os olhos de águia de Samantha – E está gostando?

Samantha riu, amena.

- Muito – foi sincera – Embora a arte da sua irmã me cause um certa inquietação. Tem hora que eu olho pra isso aqui – apontou para as obras – E não sei muito bem o que pensar.

- Se não causasse inquietação e dúvida, não seria a Lica – Clara pontuou sabiamente. E não podia estar mais certa. Lica costumava causar. Aliás, “causar” devia ser sua palavra preferida no mundo, fosse de modo positivo ou negativo. O fato era que perto de Heloísa Gutierrez, tédio, marasmo e mesmice não tinham vez. Ou era tudo, ou era nada. Alguma coisa você sentiria. A Samantha de sete anos atrás diria “você ficaria marcado”. Era isso. Não tinha como você passar por Lica sem ser marcado.

- Bem assim – foi tudo que Samantha disse e resolveu mudar o foco – Veio só?

- Não, o Juca está ali trocando figurinhas com a Ellen. Os anos passam e a “nerdice” daqueles dois não vai embora. Por falar nisso, cadê o Henrique – Samantha riu sem muito humor, o que não passou despercebido aos olhos de Clara – Tudo bem, Sam?

- Umhum – respondeu tentando transparecer calma – O Henrique disse que tinha um trabalho no escritório, não entendi bem, mas ele ficaria preso lá. Alguma coisa com planilhas.

- As planilhas do Grupo? – Clara quis saber.

- Do Grupo? – Samantha no entanto estava era perdida naquele assunto.

- É, nós encontramos uns errinhos nas planilhas financeiras do Grupo e eu pedi pra ele dar uma olhada.

Samantha franziu o cenho.

- É, ele me falou que encontraria com você hoje. Coisa muito séria? – Samantha era administradora, então se tinha uma coisa que ela entendia bem, muito bem, diga-se de passagem, eram números, contas, planilhas, orçamentos no geral. Suas empresas não seriam o que eram sem ela ali dando conta de tudo e conferindo cada centavo do que entrava e saía. Tinha uma equipe preparada para lidar com esse assunto, mas ela mesma sempre conferia tudo. Mera checagem para saber onde seu dinheiro entrava e onde ele saía.

- Umas quedas nas entradas – Clara minimizou – Deve ter sido um erro do sistema, mas é sempre bom checar. Ainda bem que a Lica viu.

- A Lica? – Samantha riu – E agora ela é contadora do Grupo? A Lica nunca se interessou por finanças.

- Nunca, mas do nada resolveu que queria saber sobre o funcionamento da escola. Vai entender – Clara desconversou e olhou por sobre o ombro de Samantha – Toma um drinque? O Juca está chamando lá no bar.

- Uma dose só, que estou dirigindo e com menino pequeno no carro – Samantha avisou, mas deixou-se conduzir por Clara. Antes de ir, no entanto, deu mais uma olhadinha para a direção onde Lica e Marina estavam. Dessa vez, a artista estava agachada, na altura de Marina, explicando alguma coisa diante de um painel. Certificando-se de que a filha estava bem, ela seguiu galeria a dentro.

(...)

- Que bom que você pode vir – Henrique comentou, acomodando-se à mesa do restaurante. Escolhera uma mais afastada do burburinho do ambiente, a conversa ali seria séria e precisava acontecer sem interrupções.

- Com a urgência que você disse que tinha, eu pensei que, sei lá, tinha morrido alguém. Tive que dar uma gorjeta generosa no salão pra me atenderem antes e acho bom você me reembolsar.

Henrique suspirou e levou a mão às têmporas.

- Não é momento pra isso. Nós temos um problema.

- Um bloody-mary, por favor, e um ceviche pra entrada – se dirigiu ao garçom.

- Sério que a comida é mais importante que o que tenho pra falar? – o advogado começou a se irritar.

- Você fala, fala e não diz nada. Quando começar a dizer algo que realmente interessa, eu volto minha atenção a você – seguiu folheando o cardápio.

- Temos problemas – aí sim Henrique conseguiu a atenção que queria, recebendo um olhar firme por sobre o menu – A Clara me ligou hoje pedindo pra que eu checasse uma queda nas entradas do Grupo nos últimos meses.

O advogado recebeu uma risada sonora em resposta.

- Ah, não... eu não acredito.... Mas será que nem pra maquiar uma planilha você serve? Sua única função era essa!

- Você acha que é fácil fazer retiradas daquela monta sem ninguém perceber? – Henrique afrouxou o nó da gravata – Eu falei que devíamos agir em parcelas. Tirar de pouquinho em pouquinho....

- E eu lá sou de viver de pouquinho em pouquinho, Henrique? – o tom era duro – Eu já passei boa parte da minha vida vivendo de pouquinho em pouquinho, de migalhas, até me ver sem praticamente nada. E eu não vou permitir que um erro amador como esse seu – apontou para o advogado – Me prejudique e nos prejudique. É isso que você quer? Ser pego e acabar desmoralizado?

- Justamente sobre isso que eu queria falar com você – Henrique suspirou e tomou um gole de água para conseguir fôlego – Eu acho que já estamos indo longe demais – recebeu em resposta uma gargalhada.

- Indo longe...? Longe demais? – mais risos – Ah, pelo amor de Deus, Henrique... eu te conheci mais decidido. Vai dar para trás agora? Não era assim que você costumava agir... – pegou na mão dele, fazendo um carinho lento e insinuante ali – Aliás, eu estou com saudades de como você agia... Inclusive, adoraria companhia essa noite.

Henrique não queria, mas acabou cedendo ao toque e sorrindo.

- Eu também estou louco por companhia essa noite. Eu disse que ia ficar preso no escritório, a Samantha mandou mensagem dizendo que ia sair com a Marina e sequer perguntou se eu gostaria de acompanha-las. Mais uma vez eu fiquei em segundo plano... – suspirou quando demorou o olhar no decote diante de si – Mas no momento, temos assuntos mais urgentes a tratar. O Grupo.

- É simples. Maquie as contas novamente e tudo fica resolvido. Eu conheço a administração daquela escola. São um bando de paspalhos que acreditam na boa fé das pessoas. É só você voltar com os números certos e não vão nem perceber. Diga que, sei lá, o sistema caiu, a contadora errou. Culpe alguém para eles terem a quem punir e pronto.

- Acontece que dessa vez não é só a diretoria da escola – Henrique pontuou grave – Tem olhos a mais nisso e foram justamente eles que perceberam esse... erro de contabilidade.

- Que olhos? Os da Clara? Ah, pelo amor de Deus, Henrique... aquela menina é uma lesada. Se você usar as palavras certas, enrola ela direitinho. O Bóris? Outro panaca que acredita que educação muda o mundo... Onde já se viu educação valer alguma coisa nesse país? A Marta, que eu saiba, está mais preocupada em viajar e aproveitar a vida ao lado daquele zero à esquerda do Luís...

- Heloísa – Henrique soltou do nada, recebendo um olhar surpreso, de início, mas ligeiramente ensandecido, ao final – Foi ela que analisou as planilhas, foi ela que viu os erros nas contas. Óbvio que não ia ser a Clara, ela confia cegamente em mim. O problema é a irmãzinha dela.

- Ah, não...

- É.... de novo, a Heloísa. Já não basta azedar meu casamento, ainda tem que se meter nos meus negócios.

- Nossos negócios – foi corrigido – Ah, mas eu não acredito.... – Henrique ouviu outra gargalhada sonora, mas essa era de puro escárnio – Ela não tinha uma galeria? Não estava fazendo desenhos? Pintando muro, sei lá? O que diabos ela quer se metendo onde não foi chamada?

- O Grupo também é dela. É só isso que ela sabe dizer – Henrique tomou outro gole da água e imitou Lica em um falsete – “O Grupo é da minha família, foi meu avô que fundou, eu não vou deixar o Edgar acabar com tudo de novo”.

- O Edgar é outro paspalhão imprestável. Passou a vida inteira agindo feito um verme e no final achou que a cadeia era a redenção. Alguém já viu cadeia nesse país servir pra alguma coisa além de piorar o ser humano?

- Esquece o Edgar, quem está com você sou eu – Henrique foi incisivo – Eu quero saber é o que a gente vai fazer sobre essa situação. Sobre a Heloísa. A pedra no sapato não são os desfalques no Grupo terem sido pegos – ele suspirou – É a Lica.

- Lica... Lica... eu mereço – soltou um muxoxo – Tinha que ser ela de novo! – soou exausta e jogou o celular sobre a mesa, voltando a folhear o cardápio – Ai, não, essa menina... sinceramente, Henrique. Eu achei que tinha me livrado dela quando ela mudou de país, mas não... ela volta pra me atormentar.

- Não só você. Acredite – o advogado externou.

(...)

- Com licença... Heloísa? – a voz do repórter tirou Lica da bolha em que ela se encontrava com Marina. Ela virou-se para o homem.

- Sim?

- Lucas Guimarães, repórter da Revista Tempo. Você poderia dar uma palavrinha? Estou interrompendo?

Ele olhou de Lica para Marina ao seu lado.

- Não, não, tudo bem, eu... – agachou-se para Marina – Mari, eu preciso falar com ele rapidinho. Você se incomoda? É uma entrevista – fez uma careta engraçada.

- Você vai sair na televisão, tia Lica? – Marina arregalou os olhinhos em pura expectativa.

- Na TV não, mas acho que é em uma revista – ela falava de um jeito displicente que arrancou uma risadinha da menina.

- Que legal – viu animação nos olhos da criança e teve a melhor das ideias que poderia ter tido naquele momento.

- Mari... eu estava pensando... não gosto muito de fazer foto pra revista... Você... – ajeitou o vestidinho dela – Você quer sair comigo? Na foto?

- Eu posso?

- Ela pode? – virou-se para o repórter.

- Quem é ela? – o tal Lucas olhou para Marina, sorrindo.

- Ela é minha pupila. Uma aprendiz – Lica soou extremamente profissional – A melhor de todas. Um dia vocês ainda vão ouvir falar bastante dela no mundo das artes, não é Mari?

Marina inchou de contentamento ao ouvir aquilo e acabou ganhando Lucas.

- Perfeito – o homem sorriu de orelha a orelha – A mestra e sua discípula – brincou. Lica pegou Marina nos braços – Heloísa... me fala um pouco sobre o seu amadurecimento como artista plástica. A gente sabe que você começou grafitando muros aqui em São Paulo, depois levou sua arte para a França onde se aperfeiçoou... O que mudou de lá para cá no que nós vemos nos traços de Heloísa Gutierrez?

Lica começou a dar suas declarações seríssima para Lucas. Falava, ria... a entrevista se tornara praticamente uma conversa informal, o que ela deu graças a Deus. Se tinha uma coisa que Heloísa não curtia nem um pouco era o distanciamento e o quanto suas entrevistas pareciam monótonas e automáticas quando concedidas a alguns repórteres franceses. A tal formalidade europeia. Ao menos ali, em sua terra, em sua cidade, sentia que aquele diálogo com a imprensa não era meramente pergunta-resposta. Era uma troca de figurinhas.

E Marina estava ali o tempo todo, quietinha, só observando. Isso surpreendeu um pouco Lica, na verdade. Quer dizer, era normal que uma criança de cinco anos ficasse maluca ao ver uma câmera, naquela ânsia de aparecer e até mesmo roubar o microfone – no caso, o gravador – do repórter. Mas Marina não. Ela permanecia quietinha em seus braços, ora brincando com a gola de sua camisa, ora observando-a atentamente falar com Lucas. Educação em nível máximo. Tinha que bater palmas para os pais daquela menininha... Para a mãe. Bater palmas só para a mãe.

- Heloísa, e essa mocinha? – Lucas se interessou ao final da entrevista.

- Essa aqui... – ajeitou Mari em seu braço – É a Marina. É filha de uma... – ah, aquela dúvida cruel de novo sobre que definição dar a Samantha – Filha de uma colega – explicou – E louca pra aprender sobre desenho, não é Mari?

- É sim – a menininha confirmou sob o olhar atento e admirado do repórter – A tia Lica vai me ensinar a desenhar bonito que nem ela – arrancou uma gargalhada gostosa do rapaz.

- Maravilha, Marina! Bom, eu posso fazer uma imagem de vocês duas?

- Claro, claro – Lica se posicionou perto de um painel ali perto, com Marina nos braços – Olha pra câmera, Mari. Dá aquele sorriso de comercial de pasta de dente.

Marina obedeceu direitinho e deu seu melhor sorriso, agarrada a uma Heloísa não muito diferente dela. Quando saíram da pose, ainda se olharam felizes da vida e Marina envolveu os bracinhos no pescoço da artista. O fotógrafo, com os olhos de águia que tinha, aproveitou aquele movimento espontâneo e o capturou novamente.

Lucas se despediu de Heloísa com um aperto de mão, agradecendo a disponibilidade, parabenizou-a pela exposição, pela galeria e despediu-se de Marina.

- Está com fome, Mari? Porque minha barriga já quer roncar aqui.

- Tem coxinha com milk-shake?

Lica não queria, mas gargalhou gostoso com aquilo. Aquela menina lhe conhecia bem.

- Infelizmente não, mas tem uns canapés super sem graça que não enchem a barriga de ninguém, mas que é chique servir nesses eventos. A gente pega assim uns 20 que dá pra comer bem – Lica saiu com Marina já tagarelando.

Do outro lado da exposição, Keyla já fazia sua oitava selfie para escolher uma que ficasse boa. Não que nenhuma ficasse, mas a estilista parecia estar mesmo à procura da imagem perfeita.

- Benê, vê essa aqui – pediu, mostrando o celular para Benedita.

- Keyla, já é a oitava vez que você me mostra a mesma foto. Minha resposta continuará sendo a mesma. Está linda e igual à primeira que você tirou.

- Sério que essa ficou boa? Não gostei muito não... – Keyla fez biquinho – Vou tentar outra. Espera.

- Gente, essa galeria da Lica ficou linda, viu? – Ellen comentou – Outra coisa eu não sei, mas bom gosto ela tem.

- A Lica sempre teve o bom gosto apurado mesmo – Benê comentou enquanto Clara, Juca e Samantha se juntavam ao grupo – Eu gostava das roupas da Lica, ela se vestia muito bem – isso arrancou uma risadinha de Ellen. Benê e suas interpretações – E ela também sabia escolher namorados. Minha única ressalva era o Felipe, eu não gostava muito dele. Mas o MB é muito bonito e a Samantha também.

- Benê! – Ellen tentou chamar atenção quando viu que Samantha virou-se para olhá-las. Ela tinha ouvido?

- Ah, mas a Benêzinha está certa, né Benê? – MB entrou na dela – A Liquinha sempre foi doida, meio noiadinha, mas sabia escolher bem... O tio MB aqui nunca deixou a desejar e a Samanthinha....

- O que tem eu? – Samantha entrou na conversa. Ellen se exasperou.

- Nada não, Samantha. Só a Benê falando coisas demais – e lançou um olhar incisivo para a amiga.

- Eu não falei nada demais – Benê retrucou. Ai, não... Ellen queria passar uma fita isolante na boca da amiga. Amava Benedita, mas tinha hora que ela simplesmente perdia completamente o filtro – Só disse que a Lica tem bom gosto e sabe escolher namorados e namoradas bonitos. Por exemplo, você e o MB.

Samantha riu, meio sem graça. Era isso que Ellen queria evitar.

- Que conversa estranha... eu hein, Benê – Samantha riu-se, mas Ellen viu que as bochechas dela assumiram um ligeiro tom rosado. Espera... Samantha Lambertini corando? Não podia ser real aquilo. Ela geralmente era a primeira a se empertigar quando recebia um elogio ou era bajulada de alguma forma. O centro das atenções. Mas ali, parecia meio... encabulada?

Mas também... Ellen notou na hora o motivo do constrangimento da empresária.

- Que conversa que é estranha? – Lica se aproximou com Marina ao seu lado. Tinha uma bandeja de canapés nas mãos. Havia pelo menos uns trinta salgadinhos ali.

- Opa! Comida! – MB tentou afanar um, mas Lica afastou a bandeja.

- Tira a mão. São meus e da Marina. Mas que conversa que é estranha? – insistiu.

- Nada não, Lica... – Ellen tentou amenizar, mas a Gutierrez estava implacável.

- Filha... – Samantha tentou chamar Marina para desviar o foco mas Benê foi mais rápida.

- Eu estava dizendo que a Lica sabe escolher namorados bonitos porque tem bom gosto. O MB e a Samantha são a prova.

Lica se engasgou com um canapé e desatou a tossir. Precisou ser acudida por Ellen, enquanto MB ria feito um condenado e Samantha corava mais que um pimentão, puxando a filha para si.

- Filha, mas vamos dar uma voltinha com a mamãe? – chamou, vendo Marina completamente alheia a tudo, brincando com a gola da camisa de Lica. Graças a Deus ela parecia não ter ouvido nada do que falaram.

- Mas eu já dei voltinha com a tia Lica, mamãe – a menina argumentou – E estou comendo – mostrou o canapézinho mordido que tinha nas mãos.

Samantha suspirou.

- Eu fico com ela, se você quiser dar mais uma volta, Samantha – Clara assumiu a dianteira, querendo segurar o riso – Pode ir circular tranquila que eu cuido da Mari aqui – então pegou Marina dos braços de Lica e se virou com ela no colo para conversar com Guto e entreter a menina.

Samantha agradeceu com o olhar a comadre, despediu-se de Marina e se retirou... não sem antes pegar uma taça de champanhe de um garçom que passava por ali e virar o líquido praticamente em um gole.

- Benê, pelo amor de Deus! – Ellen aproveitou a deixa e brigou com a maestrina.

- Deixa, Ellen – Lica amenizou, voltando finalmente a respirar e se recompondo – Eu concordo com a Benê. Realmente tenho muito bom gosto – se empertigou toda – Para namoradas, principalmente – assumiu uma pose convencida e jogou um canapé para dentro.

- Tia Lica – a voz de Marina a chamou, lá de onde Clara estava – A mamãe já foi sua namorada?

Mas Marina havia sim entendido o que haviam falado antes.

O canapé desceu pelo lado errado. De novo. E de novo, Lica voltou a se engasgar, só que dessa vez, ficou vermelha. Clara tentou tirar Marina dali e Ellen voltou a dar tapinhas nas costas de Heloísa, enquanto MB a abanava e Guto levantava os braços dela.

- Marina, vamos dar uma voltinha – Clara anunciou, levando a menina dali.

- Mas eu já dei – ela reclamou.

- Toma uns canapés, toma – e praticamente arrancou a bandeja das mãos de Lica, equilibrando-a diante de Marina, saindo dali o mais rápido possível.

Lica tossiu mais umas cinco vezes antes de conseguir se recompor.

- Eita, meu... – Ellen passou a mão pela testa.

- Eu – ofegou – Eu esqueci completamente da Marina aqui. Merda!

- Relaxa, Lica – MB pediu – Todo mundo esqueceu. E a Marina não entendeu nada, mesmo.

- Jura? – ela encarou bem o amigo – Ela perguntou se a Samantha foi minha namorada, MB. Acorda! É óbvio que ela entendeu. A Marina tem cinco anos e um QI de Einstein. Pega tudo no ar.

- Isso é verdade – Benê constatou – Mas qual o problema de a Marina saber que você a Samantha já foram namoradas?

- É a mãe dela, Benê – Lica explicou, tomando um gole de água que Keyla trouxera – E eu acho que ela deveria saber pela própria Samantha, não assim....

- Faz sentido – Benedita concordou.

Do outro lado da galeria, Samantha dava voltinhas, seus olhos percorriam atentos as cores e formas nos quadros de Lica, mas sua mente estava longe dali. Benê e seus comentários sem filtro e fora de hora. Ela tinha que lembrar justo ali de seu romance com Heloísa? Era algo que ela, Samantha, vinha tentando deixar quieto, guardar no fundo. Esquecer não poderia, jamais. Mas ao menos manter em um local seguro onde as lembranças não lhe atingissem tanto.

- Ela intriga, não é? – Samantha respirou fundo antes de se virar para a dona daquela voz. Alice estava ali, parada ao lado dela, olhando exatamente para o mesmo quadro onde seus olhos estavam segundos antes. Ah, não... Não precisava daquilo.

- A especialidade da Heloísa é intrigar. Confundir é a palavra certa – Samantha adoraria estar se referindo à arte, mas não. Talvez aquele “confundir” se referisse a outras coisas. Sentimentos, talvez.

- Ela costuma jogar na tinta o que sente, então...

- Concordo. Ela é extremamente confusa – o tom de Samantha foi um tanto ácido. No entanto, arrancou um sorriso de Alice. Franziu o cenho, estranhando aquela reação.

- Eu também tenho que concordar com isso. Confusão e Heloísa Gutierrez andam juntas, como amigas de infância. Quase irmãs, eu diria – Samantha se absteve de fazer comentários e limitou-se ao silêncio. Foi a deixa para Alice – Sabe, Samantha... dizem que as pessoas confusas – fez aspas com as mãos – São as mais complexas. E que as pessoas mais complexas são as mais intensas. Intensidade eu diria que é o segundo nome da Lica.

- Bota intensidade nisso – Samantha quis soar irônica, mas não conseguiu. Heloísa de fato era extremamente intensa. Sentia demais, agia demais, se jogava demais e... pensava de menos – Talvez se ela usasse a cabeça mais um pouco, soubesse dosar.

E aí estava de volta a acidez. Aliás, Samantha se reprovou no segundo seguinte por ter dito aquilo. Não acreditava que estava discutindo Heloísa com Alice, com a atual namorada dela. Era definitivamente o fundo do poço. E o pior: tinha certeza que havia deixado transparecer ressentimento na voz. Mas era só o que lhe faltava se deixar ver para Alice.

Mas mais uma vez, a fotógrafa riu.

- E quem disse que ela não usou? – algo naquela frase fez Samantha finalmente olhar para a fotógrafa, no exato momento em que ela fez o mesmo gesto. Foi um átimo de segundo em que elas procuravam entendimento, até Alice abrir a boca novamente – Sabe, Samantha... às vezes ser ouvido é tudo que a gente quer e permitir que o outro fale é um gesto lindo.

- Eu deveria entender isso? – a empresária questionou, mantendo a altivez.

- Ah, com certeza deveria – Alice riu-se – É só um conselho.

- E eu posso saber porque eu aceitaria seus conselhos?

Apesar do tom incisivo de Samantha, Alice manteve a leveza, o que intrigou a Lambertini mais ainda.

- Eu não tenho nada com a Lica, Samantha – foi curta e clara – Eu sou só uma pessoa de fora vendo o quão complicada são as relações de vocês. E acredite, quem está de fora, enxerga melhor.

O que diabos foi que Lica andou falando para ela? Samantha respirou fundo, anotando mentalmente o lembrete de matar Heloísa depois.

- Por acaso ela andou te contando algo ou...? – tinha que perguntar. Não admitiria sua vida ser enredo da conversa de estranhos. Sim, porque a ela, Alice ainda era uma completa estranha. Podia não ser para Lica, mas para ela, era.

- Não precisou nem ela contar, acredita? – Alice brincou e pegou um coquetel de um garçom que se aproximou das duas. Samantha recusou a bebida, sua cota daquela noite já estava extrapolando – Foi só olhar nos olhos dela. A Lica é cristalina – Samantha engoliu em seco. E Alice aproveitou sua deixa – E ela é péssima em esconder os próprios sentimentos – a Lambertini estreitou os olhos – Ela não é pra mim, Samantha. Nem nunca vai ser. A Heloísa tem destinatário como uma correspondência que você manda pelos Correios: enquanto ela não chegar ao lugar que pertence de verdade, vai sempre ter algo errado e quem se atrever a abrir, pode até tentar, mas nunca vai entender o conteúdo direito. Não até a verdadeira dona fazê-lo.

Deu uma piscadela e saiu tomando seu drinque de um jeito displicente. E Samantha permaneceu atônita, mas tão atônita que, dessa vez, nem o quadro diante de si lhe capturou a atenção. Parecia estar completamente fora do ar. O que diabos era aquilo que Alice lhe dissera? Que metáfora ridícula de carta era aquela? E, espera... ela dissera mesmo com todas as letras que não tinha nada com Lica? Bom, há alguns dias, elas estavam praticamente se engolindo na ONG. E não fora a própria Heloísa que a apresentara como sua namorada na casa de Keyla? Ou Lica tinha sérios problemas na cabeça, ou talvez ela que estivesse perdendo algo. Quem sabe, as duas coisas.

Foi tirada de seu torpor momentâneo por Clara, que apareceu com Marina em um braço e uma bandeja de canapés do outro.

- Samantha – a loirinha já começou – Eu trouxe a Marina pra você. Não dá pra ela ficar perto da gente.

- O quê, o que foi que houve? – Samantha ligou seu sinal de alerta máximo. Era preocupação de mãe diante de sua cria – Aconteceu alguma coisa, meu amor, está tudo bem? – temeu pelo fato de Benê ter mencionado as palavras “namorada”, “Lica” e “Samantha” na mesma frase perto de sua filha. Marina não era tonta. Podia ter só cinco anos, mas uma perspicácia absurda.

- Tudo bem, mamãe – a menininha respondeu, quando Clara passou Marina para os braços da mãe – Eu estava conversando com a tia Lica e as amigas dela. Elas são legais.

- E malucas – Clara acrescentou, chamando a atenção de Samantha. Começou a comer canapés, um atrás do outro.

- O que foi que aconteceu, Clara? – Samantha quis saber. Sua comadre sempre desatava a comer quando estava nervosa.

- Ah, nada de mais, Sam... Foi só um... – mas ela nunca concluiu aquela frase. Lica apareceu atrás dela, com o rosto ligeiramente tenso. Fofa, até. Ai, não, Samantha.

- Oi, tudo bem aqui? – quis saber. Samantha estreitou os olhos.

- Vem cá, qual o problema? – por que claro que havia um problema ali.

Mas a pergunta de Samantha ficou pra depois, porque chamaram Heloísa. A cerimonialista da noite chamou Lica para subir a um pequeno palco que havia ali e fazer um breve discurso para os convidados, apresentando sua galeria.

- Eu... eu posso conversar com você depois? – pediu. Na verdade havia um tom de súplica em sua voz – É importante.

- O que foi que aconteceu, Heloísa? – Samantha foi mais dura – Foi algo com a Marina?

- Não.

- Sim.

Clara e Lica responderam ao mesmo tempo.

- Vocês querem que eu mate quem primeiro, hum? – Havia impaciência na voz da Lambertini. Marina, ao contrário, parecia absorta em comer canapés e brincar com os cachos da mãe.

- A Clara – Lica empurrou a irmã para frente e recebeu um “Ai, Heloísa!” de resposta – Eu tenho um discurso a fazer – e saiu chispando dali.

Samantha bem que tentou arrancar algo de Clara, mas a loirinha pegou Marina do colo da mãe, deu para ela a bandeja de canapés no lugar, e saiu dizendo um “Vamos ver a tia Lica, Mari” e saiu apressada dali. Samantha revirou os olhos e as seguiu.

- Senhora e senhores, Heloísa Gutierrez – a cerimonialista anunciou Lica, que subiu ao palco ligeiramente sem jeito. Samantha não queria, mas seus lábios se estreitaram em um sorriso fácil quando a viu sob os flashes. MB soltou logo um assobio e gritou um “arrasa, Liquinha”.

Lica riu mais confiante quando encontrou com os olhar de suas amigas e do loiro. Mas foi quando seus olhos cruzaram com os de Samantha, que ela tomou fôlego e se dirigiu aos convidados.

- Bom, eu já fui melhor com palavras, mas prometo tentar não passar vergonha nem entediar muito vocês – arrancou risos – É... eu poderia dizer que essa galeria, esse espaço aqui, é a realização de um sonho, e é. Mas não só. Sou só eu voltando às minhas raízes – engoliu e tomou ar novamente. Benê filmava o discurso – Foi aqui nessa São Paulo que eu comecei grafitando alguns muros, deixando minha marca no meio do concreto... Foi nessa cidade que eu recebi os primeiros “nãos”, mas também os primeiros “sim”. É o lugar que primeiro me inspirou, mas também aquele que vai me inspirar sempre, não importa quantos Senas eu visite, quantas escolas europeias eu frequente... Eu costumo dizer que a Europa aperfeiçoou a Heloísa que São Paulo criou. Foi daqui que eu saí e é para cá que eu retorno e pra onde eu sempre vou retornar, e essa galeria é isso. É só a Lica voltando pra ser a Lica de novo, esperando ser acolhida, esperando encontrar casa de novo – olhou para as meninas ao fundo – Eu espero que vocês aproveitem esse espaço, essa noite. Agradeço cada um que veio tirar um tempinho pra me ver e, acima de tudo, celebrar a nossa arte. Celebrem nossa arte, é só o que eu peço. Definitivamente é o que a gente precisa. Conseguir enxergar a beleza e a cor quando tudo ao nosso redor parece treva e escuridão talvez nos ajude a encontrar aquela luz no fim do túnel e acreditar que nem tudo está perdido. Obrigada.

Sob aplausos e mais uma série de assobios e gritinhos animados por parte de MB, Lica desceu do palco, sendo recebida por Marta, Clara com Marina, e pelas meninas. Samantha se manteve mais afastada um pouco, esperando o emaranhado de braços ao redor dela se dissolver. Foi só quando as meninas deram passagem, que Lica se dirigiu até ela.

- A Lica voltando pra casa pra ser a Lica de novo... – Samantha repetiu o que ouvira Heloísa dizer.

- Uma versão melhorada, eu acho – a Gutierrez riu-se e ficou ligeiramente vermelha – Discurso improvisado nunca dá certo.

- Ah, mas deu sim – pela primeira vez, Samantha concordou em algo com ela desde que Lica colocara os pés de volta no Brasil – Você foi ótima ali em cima. E parabéns mais uma vez pela galeria e pelo seu trabalho. Isso aqui ficou lindo.

- Obrigada, Samantha. De verdade – Lica manteve preso seu olhar ao da empresária. Não vacilou por um único segundo – E que bom que você veio. Eu... – pigarreou – Eu achei realmente que você não viesse – riu, sem graça.

- Eu já falei que isso aqui é open bar e eu não perderia por nada – a Lambertini brincou, ainda sustentando o olhar de Lica.

- Mas você não está nem bebendo – Heloísa pontuou sabiamente. Mas para sua surpresa, Samantha chamou o garçom que estava parado ali perto e retirou da bandeja dele duas taças, entregando uma a Lica.

- Não seja por isso – ergueu a taça, sendo seguida por Lica – Ao seu trabalho e que ele continue rendendo bons frutos.

Aquilo surpreendeu Lica de um jeito que, por um momento, uma fração de segundo, se viu sem reação, sem resposta. Samantha estava brindando a ela? Meu Deus, tinha algo de muito errado no mundo.

No automático, seguiu o gesto da Lambertini e ergueu a taça também, em seguida virando uma parte do conteúdo, com os olhos grudados nos dela. Ah, aquelas íris castanhas lhe diziam tanto... e pela primeira vez não parecia haver aquela névoa instalada sobre delas. Lica podia ler Samantha claramente só pela intensidade do olhar dela e ele continha algo entre leveza e uma pontinha de admiração. Suspirou, satisfeita.

- É melhor eu parar por aqui. Terceira taça da noite e eu estou dirigindo – Samantha comentou e Lica assentiu, pegando o objeto da mão dela. Os dedos se tocaram levemente, mas ela sentiu como se uma corrente elétrica tivesse percorrido seu corpo. Por outro lado, a pele de Samantha começou a formigar onde Lica tocara, mesmo que sendo um toque por acidente. Começou a formigar e a esquentar. Sentiu seu rosto corar. Ah, justo ali?

- Tudo bem? – Lica perguntou. Ah, que ótimo!

- Umhum, tudo – Samantha assentiu e tratou desviar do assunto e sair dali o mais rápido possível – Eu vou... – mas o olhar de Lica sobre o dela, sobre ela, a prendia de uma forma quase incontrolável – Vou procurar a Marina.

Lica assentiu, mas Samantha nem precisou andar muito. Clara apareceu com Marina nos braços, tagarelando.

- Vem cá, você vai ficar a noite toda de braço em braço, é? Bora botar esses pezinhos no chão? Olha seu tamanho pra ficar sendo carregada – fingiu ralhar com a filha quando a viu. Marina abriu um sorriso matreiro e foi posta no chão por Clara.

- Uma taça só não é suficiente não, Lica? – Clara comentou, vendo a irmã segurando duas taças de champanhe.

- Ah, essa outra é da Samantha.

- Oi? – Clara piscou duas vezes para ver se voltava à realidade. Sim, porque ver o nome de Samantha sair tão calmamente da boca de Lica e com ela, a própria, ali do lado, só podia ser alucinação.

- Só um brinde, Clara – a Lambertini alertou para evitar pensamentos inoportunos e equivocados na cabeça da loirinha – E eu estou dirigindo, nada de álcool mais por hoje.

- Ah tá – Clara pareceu processar aquilo.

- Mamãe – Marina chamou, atraindo a atenção de Samantha.

- Oi, meu amor – virou-se para a filha.

- Você já foi namorada da tia Lica?

- Quê? – Samantha se retesou. Clara deixou escapar uma risada nervosa e disse um “que merda” no meio, quase imperceptível.

- Hã... eu vou... – Lica, por sua vez, só queria fugir dali – Pegar mais... mais dois desse – virou sua taça e a taça de Samantha na boca e fez menção de sair, mas foi interrompida.

- Fica onde está, Heloísa – a Lambertini ordenou.

- Quem vai sair sou eu. Tchau, Sam. Tchau, Mari – Clara disse e saiu chispando.

Lica, no entanto, se viu encurralada ali sob o olhar atento e completamente inocente de Marina e diante de uma Samantha Lambertini lhe fuzilando com os olhos. Literalmente jogada aos leões. Ou melhor, a uma leoa.


Notas Finais


Agora a minha pergunta é: ficou claro quem é quem nesse capítulo? kkkkkkk
Espero que vocês tenham começado a entender: o buraco é mais embaixo.
E tivemos aí a primeira interação do nosso shipp sem mortes ou tentativas de homicídio. A curiosidade aqui é: teremos bandeira branca?
PS: amei a Benê como sempre expondo tudo. Benedita, te amo! kkkkkk
PS2: Marina fazendo perguntas capciosas... E aí? Ela vai ter respostas ou não?
PS3: Sobre a Lica.... melhor ela correr da Samantha ou ficar onde está pra levar aquela jantada? rs.
No mais: teorias na minha mesa. Eu adoro ler o que vocês pensam e esperam pra história.

Obrigada, beijos e até o próximo capítulo.


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