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História Mil Acasos - Capítulo 2


Escrita por: MxrningStar

Notas do Autor


Olá, pessoas! Todo mundo feliz com os mimos do spin-off?
Bora fanficar em cima da história e exercer nossa criatividade com esse casalzão da porra?
Partiu capítulo, e sobre o de hoje: porre.

Capítulo 2 - Seu nariz é grande, mas é bonito


- Tudo sim, só um pequeno contratempo com uma hóspede no Tryp, mas já foi resolvido.

- Que hóspede? Alguém importante?

Samantha parou e pensou um pouco, por uma fração de segundo. Era alguém importante?

- Não. Ninguém importante. Vou lá ver a Marina – deixou mais um beijo rápido nos lábios do marido e rumou corredor a dentro para ver o que a filha estava aprontando. Ela estava silenciosa demais... e Marina Lambertini e silêncio definitivamente eram duas coisas que não combinavam.

 

- Traz uma água pra ela. Rápido!

- Gente, ela está ficando roxa.

- Eu diria que ela está branca. Mais do que de costume.

- Ela está hiperventilando. Tira o terninho dela, anda!

Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. Era mais que um movimento involuntário do organismo. Era uma ação de sobrevivência. E, Deus, nunca havia sido tão difícil assim respirar. Parece que o ar estava rarefeito, as coisas começavam a girar, o peito apertava... calafrios... Sintomas já conhecidos de Heloísa Guteirrez.

- Ela está tendo uma crise de ansiedade – Benê foi concisa e a única a falar algo que realmente fizesse sentido.

- E a gente faz o quê? – Tina se desesperou.

- Eu ouvi dizer que dar um tapa resolve – Keyla.

- Eu não vou bater na Lica – Ellen foi condescendente. Graças a Deus.

- Ninguém vai bater em ninguém. Saiam de cima dela! – Benedita alterou a voz e as meninas lhe deram espaço. Sem fazer muito contato, ela pegou a mão de Lica, que ainda respirava com dificuldade – Lica, eu quero que você respire bem lentamente, sinta o ar entrando em seus pulmões e solte bem devagar também. Está me ouvindo?

Lica fez que sim com a cabeça, e ao contar de três de Benê, ela respirou fundo, com uma dificuldade absurda. Quase o ar não passa por seus pulmões. Segurou a respiração por cinco segundos e soltou bem devagar. Repetiu o movimento mais umas cinco vezes até, finalmente, conseguir começar a normalizar as batidas de seu coração.

Quatro pares de olhos lhe fitavam ansiosos e sem nem perceberem, também estava respirando fundo junto com ela. O aperto da mão de Lica na de Benê afrouxou. Sinal de que ela estava melhorando.

- Você tem ansiedade, Lica? – Ellen inquiriu.

- Desenvolvi na faculdade – respondeu, tomando um gole da água que Keyla lhe oferecia.

- Nossa. E você não faz acompanhamento? – Keyla.

- Fiz – bebeu mais um gole – Mas parei desde que voltei. Tenho que ir atrás de um psicólogo, sei lá.

- Com urgência – Tina afirmou.

Lica respirou fundo, bebeu o restante da água e se recostou à poltrona. O silêncio que se seguiu era um prenúncio do óbvio. Ela não se furtaria à pergunta.

- A Samantha casou?

As meninas se entreolharam, como que escolhendo entre si que falaria primeiro. Keyla tomou a palavra.

- Casou, Lica. Dois anos depois que você... que vocês terminaram.

- Dois anos depois que eu fui embora. Pode falar, Key – engoliu em seco, deu uma fungada, virou o rosto para cima no encosto da poltrona e fechou os olhos.

- Ela seguiu a vida dela, já que você seguiu a sua sem ela, Lica.

- Benê! – Ellen ralhou.

- Mas eu não estou mentindo.

- Não, Benê, cê não tá mentindo – Lica suspirou e abriu os olhos, mirando o teto – Eu que fui uma...

- Irresponsável, inconsequente, sem noção e cuzona? – Tina metralhou – Concordo.

- Gente, vocês querem parar? A Lica vai pirar de novo! – Ellen insistiu.

- Pirada ela sempre foi, Ellen – Tina continuou. Se era para dar uns sacodes na Heloísa, pois ela era a primeira da fila – Olha, Lica, você sabe que a gente te ama, você é uma ótima amiga, mas não dá pra te defender quando o assunto é relacionamento, não.

- Você sabe porque eu fiz aquilo – Lica resmungou.

- Não sei não! Aliás, não sei e nem que soubesse eu iria entender – a japonesa ralhou mais ainda – De repente o celular da Samantha tocou e era você dizendo “Oi, Sammy, eu acho melhor a gente terminar porque eu pensei bem e acho que vou ficar aqui mesmo Europa”.

Um silêncio cortante se instalou no ambiente. Lica fungou novamente e continuou mirando o teto.

- Terminar por uma ligação foi covardia. Mas terminar sem nem ao menos explicar direito o motivo foi de uma falta de senso e de sentimento absurda, Lica. Você tem ideia do que a Samantha sofreu?

Lica seguiu mirando o teto sem dizer uma palavra. Tina prosseguiu.

- Ela passou semanas chorando, sem querer sair do quarto, pensando o que tinha feito de errado pra você ir passar três meses na França e os três meses virarem sete anos.

Um belo salto temporal, diga-se de passagem. Depois que Samantha respondeu um “Nenhuma” à pergunta de Lica sobre se ela tinha dúvidas quanto ao relacionamento delas, as duas passaram momentos lindos. O primeiro foi ali mesmo no quarto da Gutierrez, onde se amaram pela primeira vez. Depois o mochilão pelo Brasil. Conheceram praias, museus, galerias de arte, centros históricos... Passaram dias e noites intensos e maravilhosos uma na companhia da outra até que dois meses depois, quando voltaram para São Paulo, Lica recebeu um convite para fazer um curso de artes em uma das escolas mais conceituadas de Paris. Nem pensou duas vezes. Aceitou, tendo como principal incentivadora justamente Samantha.

O curso duraria três meses, ou seja, em doze semanas, noventa dias, se veriam de novo. Passaria rápido. Mas o destino... Ah, ele prega peças nas pessoas. E Heloísa Gutierrez também. E os três meses... bom, eles viraram sete anos.

Lica não voltou depois que o curso acabou. Depois da experiência que tivera de estudar na França, com os melhores mestres, nas melhores instituições e entender que queria aquilo para sua vida, ela decidiu ficar por lá mesmo e continuar seus estudos, investir em sua carreira e fazer seu nome. Só Deus sabe a tortura que foi ligar para Samantha naquele final de agosto e dizer que não se via mais vivendo no Brasil e que seria melhor terminarem para não se machucarem mais lá na frente.

Recebeu o silêncio em resposta. É que, por um momento, a Lambertini achou que a namorada estivesse brincando e logo em seguida diria um “Vem me pegar no aeroporto, Sammy”. Mas ela não o fez. Quando ouviu um “Me perdoa, Sammy”, ela entendeu que ali era o fim da linha para elas e que ela, Samantha, sequer tinha se preparado para aquilo, simplesmente porque tudo levava a crer que elas não teriam um fim da linha. Não tão cedo. Não daquele jeito.

Samantha lembrava como se fosse ontem o quanto teve que dar de si para segurar as lágrimas e manter a voz o mais firme possível. Com um “Eu posso entender pelo menos o por quê?”, recebeu um “Eu preciso focar na minha carreira, Sammy. E aqui eu tenho mais chances que no Brasil. Me perdoa”.

Nem um “Vamos tentar manter um relacionamento à distância” ou um “Vem pra cá pra ficar comigo. Vamos construir nossa vida aqui”. Só um “Me perdoa, eu preciso focar na minha carreira”. E se um dia Samantha lutou, foi atrás, insistiu para ter Heloísa, ela recebeu falta de vontade, zero disposição de tentar e pouco caso do relacionamento delas por parte da Gutierrez. Sim, porque a forma como Lica colocou tudo e como agiu deixou claro: ela, Samantha, não valia à pena, não havia porque tentar, não valia insistir nem lutar por ela. Ela nunca foi, nem seria importante na vida de Lica. Entendeu isso por telefone, numa tarde qualquer, numa ligação de cinco minutos.

Os cinco minutos que definiram o resto de suas vidas. Lica fez o que havia dito que faria: se dedicou aos estudos, à sua formação, se formou com honras na melhor faculdade de Artes de Paris, fez novos amigos, teve novos casos, muitos casos, diga-se de passagem. Se manteve inconstante como era: pegava e não se apegava. Perdeu a conta de quantas e quantos passaram por sua cama e de por quantas camas diferentes ela passou. Amores diferentes, sabores diferentes, perfumes diferentes. Mas a quem queria iludir? Sentia falta de um único amor, de um único sabor, de um único perfume.

Sentiu-se sozinha. Sentia-se sozinha. Mesmo mantendo contato direto com quem ficou aqui, a solidão era sua melhor companhia na Cidade Luz. Mas pior do que se sentir sozinha, é cair no esquecimento de alguém. E ela caiu. No da pessoa que mais amou na vida. Talvez a única que amou de verdade.

- Tina... Você... Tem notícias da Samantha?

- Não, Lica. Já faz um tempo que não vejo a Sam.

- Você sabe se a Samantha tá bem, Keyla?

- Lica, a última notícia que eu soube é que ela estava sim... Mas só sei disso mesmo.

- Clara, você tem estado com a Sammy? Sabe como ela está?

- É muita coragem sua perguntar isso, Heloísa. Nem que eu soubesse eu te diria. Eu prometi pra Sam que não falaria dela com você. Quer saber dela? Se vira. Aliás, quer saber por quê? Há seis anos, você não estava nem aí.

As respostas eram sempre as mesmas. Não só saíra da vida de Samantha. Samantha também lhe tirara dela. Deletara como se nunca tivesse feito parte. Os Lagostins se separaram depois que cada um seguiu um rumo na vida. MB estudou administração para tentar consertar a bagunça que seu pai, JM, fez nas suas empresas. Guto mudou-se para Campinas com Benê, onde cursou música, mas voltara para São Paulo há dois anos. Ele talvez fosse o que mais mantivesse contato com ela, mas não também não falava muito a seu respeito.

E Samantha... Bom, ela cursou Administração na USP, se formou como a melhor da turma, assumiu as empresas de sua família, ampliou os negócios, fez seu nome no meio empresarial de São Paulo, era respeitada, reconhecida, bem sucedida... Casou e teve uma filha. Um futuro um tanto quanto inesperado para quem tinha como lema “pega e solta”. Mas é aquela coisa: uma hora a pessoa tem que parar e decidir o que quer da vida. E ela estava feliz. No fim das contas, a decisão de Lica de ficar na Europa e o rumo que as vidas delas tomaram serviu para lapidar uma Samantha mais madura, mais consciente do que são sentimentos e relacionamentos, mais mulher.

E sete anos depois, lá estava Lica de volta ao Brasil depois de um pedido desesperado de Clara. É que o Colégio Grupo não andava lá muito bem das pernas depois de um episódio envolvendo mais falcatruas por parte de Edgar. Dessa vez, descobriram que a razão social da escola havia sido usada de laranja em um dos esquemas ilícitos do Gutierrez Pai. E lá se foram Marta, Luís e Clara tentar reverter a situação. Mas dessa vez faltava alguém. Alguém que eles sabiam ser a única pessoa capaz de realmente bater de frente com Edgar e colocá-lo no seu lugar.

Foi a quem Clara recorreu. Depois de muito implorar, chantagear até, conseguiu convencer Lica a voltar para o Brasil para, nas próprias palavras da loirinha “salvar o projeto pedagógico do nosso avô e lavar a honra dessa família”. Deu certo. O problema era: Lica no Brasil, Samantha no Brasil... São Paulo era enorme, mas um ovo também, dependendo do referencial. E não deu outra.

- Terminou? – Lica perguntou, ainda encarando o teto, depois do monólogo de Tina? – Eu vou consertar isso.

- Jura? E vai como?

- Eu vou conversar com a Samantha e explicar tudo.

Tina gargalhou.

- Eu acho que você chegou sete anos atrasada pra essa conversa, Lica.

- Tina, para de me julgar! Queria ver se fosse você tendo que escolher entre sua carreira e alguém.

- Se esse alguém fosse a pessoa que eu dizia amar e que eu pedi em namoro, eu não pensaria duas vezes. Eu lutaria por ela. Mas, né... Achou mais fácil abrir mão. Agora não vem dar ataque porque a Samantha tá com outro não, que você nem tem esse direito.

- Chega, Cristina! – Lica explodiu – Caralho, minha cabeça tá explodindo. Será que dá pra parar de me torturar assim?

- Gente, que gritaria é essa? – Clara passou pela porta – Dá pra ouvir lá do elevador.

- A Lica viu a Samantha e teve uma crise porque descobriu que ela está casada e tem uma filha – Benê resumiu.

- Por falar em filha, o que aconteceu com a Marina, Clara? A Samantha saiu feito doida quando recebeu sua ligação – Keyla perguntou.

- Ela caiu na recreação e machucou feio o braço. Mas estava bem e medicada – Clara explicou – E você – apontou para a irmã – Vê se não me arruma confusão. Viu a Samantha, deixa ela quieta. Se cutucar demais, ela avança em você que não sobra nem um centímetro desse narigão aí.

- Eu vou deixar ela quieta, tá? Só pra vocês saberem – Lica ironizou.

- Você acabou de dizer que vai falar com a Samantha e consertar tudo – Benê soltou. Ellen fez uma careta.

- Lica, pelo amor de Deus, não vai piorar a situação toda. Estava tudo tão bem...

- Antes de eu voltar? Só pra constar, foi você que me chamou de volta, irmãzinha – Lica debochou.

- E estou começando a me arrepender – Clara resmungou e foi para a cozinha – Só não se mete com a Samantha nem provoca ela, por favor. A Sam é minha amiga e minha comadre.

- Eu não posso prometer nada – Lica respondeu e se pôs de pé.

- Olha lá. Tão vendo essa cara? – Keyla perguntou – É a cara do problema. A última vez que eu vi essa expressão – e apontou para Lica como se expusesse e anunciasse uma obra de arte – Minha escola terminou pegando fogo.

- A culpa do incêndio foi da Malu, Keyla – Lica rebateu.

- Que seja. Tudo gira em torno de você – a menina respondeu, malcriada.

- Ai, gente, olha... Eu vou me deitar. Sério, minha cabeça está explodindo, eu vou ter um ataque se continuar com vocês falando loucura aqui.

- Será que a gente está sendo expulsa? – Ellen ironizou.

- Beijo, amo vocês. Benê, obrigada pela ajuda, sério. Vocês são incríveis. Mas tchau – e pegando uma almofada, Lica rumou para seu quarto, onde tomou um bom banho e se enterrou na cama. Sua cabeça latejando, parecia que explodiria a qualquer momento.

Em sua mente um único pensamento: teria que falar com Samantha. Sabia que havia se passado tempo demais, mas já diz o ditado: antes tarde do que nunca.

O restante do dia se passou sem mais eventos inesperados. Lica adormeceu, dormiu a tarde inteira, acordou na hora do jantar com Marta lhe chamando. Antes de se sentarem à mesa, a menina contou tudo que havia lhe acontecido até ali. Inquiriu Marta sobre ela não ter lhe falado nada a respeito de Samantha, mas entendeu o lado da mãe quando ela lhe falou que foi a própria Lambertini quem pediu para que não lhe dessem notícias suas.

Lica não negou que ficou magoada com isso, mas também sabia que não tinha esse direito. Machucara Samantha e muito, tinha plena consciência disso e não bancaria a vítima agora. A única culpada de sua situação ela era mesma. O que lhe animou mais foi o pudim de leite que Leide lhe preparou. Soube que no dia seguinte seria aniversário de Luís, então teria que providenciar um presente para ele, já que sairiam para jantar.

Até pediu ajuda de Clara, mas ela lhe disse que uma gravata e um cinto estavam ótimos. Providenciaria isso. No dia seguinte, depois de resolver algumas burocracias a respeito da instalação de sua galeria em São Paulo, Lica resolveu ir almoçar em um shopping ali mesmo em Higienópolis. Aproveitaria para comprar o presente de Luís.

Entrou em uma loja especializada em artigos masculinos e se perdeu andando entre araras e mais araras de gravatas e cintos de todos os tamanhos, cores e estilos. Optaria por algo discreto, já que Luís nunca fora muito de chamar atenção. E graças a Deus ele era fácil de agradar. Perambulou entre as peças, pegava algumas nas mãos para sentir a textura, até que parou em uma arara mais ao fundo e ficou vasculhando ali mesmo, vendo se escolhia alguma.

Sentiu algo se mexendo dentro da arara. Afastou-se um pouco para ver melhor. Mas como a “coisa” parou de se mexer, pensou ter sido só uma impressão e voltou a se dedicar às gravatas e cintos. Até que uma cabeça saiu de dentro do objeto.

- Ah! – liga deu um grito nada discreto ao ver uma criança, uma menininha, sair de dentro da arara. Ela gargalhava e algo naquele sorriso e na sonoridade dele lhe pareceu estranhamente familiar – Garota, cê é louca!

Ela ainda tentava se recuperar do susto, quando a menininha se pôs de pé ao seu lado e ficou lhe analisando de cima a baixo.

- Você está comprando uma gravata pra você? – perguntou, curiosa.

- Não, é pra um amigo.

- Essa que você pegou é feia – disse num tom firme e convencido. Lica fechou a cara – É de bolinha, parece gravata de palhaço. Seu amigo é um palhaço?

Sem reação, Lica limitou-se a encarar a criança. E ela continuou.

- A azul é mais bonita – disse e apontou para uma gravata azul com listas brancas discretas em sua extensão – E combina com esse cinto que você escolheu.

Ela era o quê? Alguma estilista mirim? Lica teve vontade de perguntar, mas preferiu se calar. Vai que a criança se chateava e dava um piti no meio da loja? Logo perto dela, que odiava exposição desnecessária?

- Você gostou da azul?

- Umhum – a menininha respondeu displicente, mexendo nas outras gravatas da arara.

- Eu acho que vou levar ela então – a Gutierrez seguiu o conselho da criança, devolveu a gravata que tinha em mãos e pegou a que ela havia dito – Obrigada pela dica.

- Você podia me dar um picolé por isso – mas que menina descarada, Lica pensou.

- Isso é algum tipo de chantagem?

- Não. O que é chantagem? É algum tipo de picolé?

Lica se pegou observando a menina atentamente. Que expressão familiar era aquela? De onde a conhecia?

- Chantagem é isso que você está... – mas percebeu que estava falando com uma criança que não devia ter nem um metro de altura direito – Ah, esquece.

- Tudo bem.

E o silêncio voltou a reinar, até que a menina voltou a analisar Lica de cima a baixo e soltou a última coisa que ela esperava ouvir ali. Ou em qualquer lugar. De qualquer pessoa.

- Seu nariz é enorme.

Lica estreitou os olhos em um tom ameaçador e apurou os ouvidos para ter certeza de que ela dissera mesmo aquilo.

- O que foi que você disse?

- Que seu nariz é enorme. Mas é bonito. Eu gosto do seu nariz.

Heloísa já não sabia se ria, se mandava a criança parar de falar ou se lhe dava logo um safanão. Mas que menina atrevida! Bom, ao menos recebera um elogio. Meio ao revés, mas ainda assim, um elogio.

- Ah... Obrigada, eu acho.

- De nada. Você vai me dar meu picolé agora?

Lica já ia perguntar se ela estava era perdida ou algo do tipo, quando ouviu uma voz masculina às suas costas.

- Nina! – o homem estendeu o braço e a menina o segurou pela mão – Filha, não se afasta não! – e dirigiu-se a Lica – Desculpa ela estar atrapalhando, mas é que...

- Não, tudo bem, ela não atrapalhou não – Lica riu, simpática – Ela estava me ajudando com a gravata.

- É papai, ela ia dar uma gravata de palhaço pro amigo dela, mas eu salvei ele – a menina se gabou.

Lica riu, mas dessa vez foi genuíno. O jeito como ela ficou toda convencida foi até fofo e lhe lembrou muito alguém. Como lembrou.

- Que bom que você salvou o dia, filha – o homem pegou a menina nos braços e deixou um beijo na bochecha dela – Bom, vamos indo que sua mãe já deve ter chegado. Até mais – despediu-se de Lica.

- Foi um prazer – Lica foi cordial – Tchau, Nina.

- Tchau – Nina deu um tchauzinho com a mãozinha gordinha e saiu da loja com o pai.

Lica se pegou observando a menininha até ela sumir pelo corredor do shopping, os cabelos cacheadinhos e tagarelando. Involuntariamente, riu. E olha que nem era muito chegada a crianças. Exceto seu afilhado, Tonico, que hoje já tinha sete anos e a quem trouxera ao mundo, não era muito de se dar com serezinhos pequenos. Ao seu ver, eles eram muito burocráticos e dependentes.

Pagou pela gravata e o cinto, pegou a embalagem e saiu caminhando pelo shopping, observando vitrines, o movimento, até que resolveu parar em uma restaurante para almoçar. Sentou-se em um self-service e estava no meio de sua refeição, se deliciando com um excelente creme de camarão, quando viu Samantha do outro lado da praça de alimentação, a algumas mesas de distância. Ela estava de pé, mexendo ao celular.

Foram os segundos que Lica teve para contemplá-la. Os cabelos cacheados estavam ainda mais fartos e lindos, com os fios ligeiramente mais claros. Ela estava enfiada em uma blusa social aberta nos botões de cima com um colete por cima, uma pantalona lhe cobria as pernas, nos pés um escarpin. Simplesmente divina. Lica se pegou sorrindo ante a visão que tinha.

Mas seu sorriso não durou cinco segundos. Samantha levantou a vista e se deixou ser envolvida por um homem alto, de barba cerrada, acompanhado de uma criança. Aquilo fez o estômago de Lica embrulhar. Ela afastou a comida. Reconheceu na hora o serzinho: era uma menininha de cabelos cacheados e sorriso aberto. A criança da loja. Lica tomou um gole de seu suco, mas foi uma péssima ideia, porque engasgou assim que Samantha pegou a criança no colo e a encheu de beijinhos, fazendo-a gargalhar, para em seguida ser beijada pelo homem. Na verdade ele quase engoliu Samantha pela boca e foi aquilo que fez a respiração de Lica acelerar no meio do percurso do suco por sua garganta. O líquido desceu pelo canal errado e a fez ter um acesso de tosse ali mesmo.

Tossiu uma, duas, três, quatro, cinco vezes. Lhe faltou o ar, tentou tomar um gole de água para ajudar e a situação só piorou. Deus, ela morreria justo ali? O funcionário do shopping que recolhia algumas bandejas ali perto foi até lá e lhe deu uns tapinhas nas costas. Foi como ela melhorou.

Ela agradeceu a ele, mas seus olhos continuavam presos em Samantha, atravessando o corredor de mãos dadas com a criança, sendo abraçada pela cintura pelo tal homem e sorrindo feliz. É... ela parecia feliz. E foi nesse momento que Lica entendeu o porquê de ela pedir para não falarem sobre ela. Samantha estava bem sem ela.

Doeu constatar aquilo. Não que quisesse ver Samantha sofrendo. Tinha ciência do quão mal fizera a ela, mas sabe aquele fio de esperança a que as pessoas se apegam, esperando que no fundo as coisas possam ser melhores e mais fáceis? O fio de Lica acabara de ser picotado em mil pedaços. Nunca que Samantha lhe permitiria chegar perto. Não permitiu nem mesmo quando ela era apenas um nome na boca dos outros, imagine agora, que era uma presença física.

Engoliu em seco, se permitiu reconhecer o quão burra havia sido.

- Fazendo merda de novo pra surpreender quem, Heloísa? – resmungou para si mesma. Afastou a refeição de vez, levantou-se e foi para uma choperia ali do lado. Sentou-se na mesa mais afastada e pediu logo uma torre. Nem que precisasse torcer o objeto ao final da cerveja até sair a última gota, mas daria um jeito de anestesiar aquela dor. E o álcool seria um santo remédio.

Quando chegou em casa, por volta das 21 horas, estava... Bom, não precisou de muitas explicações.

- Eu não acredito que você bebeu, Heloísa – Leide ralhou – A Marta já te ligou mil vezes, a Clara... elas saíram pro restaurante porque cansaram de te esperar. Onde que você estava menina?

- Me deixa, Leide – foi um tanto agressiva, jogou o presente de Luís sobre o sofá e rumou para o quarto. A mulher foi atrás.

- Lica, volta aqui! Sua mãe não vai gostar nada de te ver assim. Ela disse que ia te esperar lá no restaurante.

- Dane-se esse jantar, eu não tô a fim de ver gente. Nem de gente eu gosto – Lica se jogou na cama e enterrou a cabeça no travesseiro.

- Lica... – Leide se aproximou e sentiu o cheiro forte de bebida exalar do corpo dela – Meu Deus... O que foi que você fez?

Leide tinha pleno conhecimento dos problemas de Lica com álcool. A menina já passara por maus bocados na época da escola, quando descobriu a traição de Edgar acompanhada do bônus de que Clara era sua meia irmã. Encontrou refúgio nas piores companhias possíveis: álcool e drogas... e um MB ligeiramente fora de controle. Marta teve que manda-la passar um tempo fora do país para ver se ela saía dessa loucura que virou sua vida em São Paulo e conseguia se manter sóbria.

Felizmente deu certo, Lica voltou praticamente outra pessoa da França. Mas o turbilhão de confusões continuou mesmo depois de tudo, especialmente por causa de Malu e Edgar. Se não fosse Samantha e suas amigas, ela nem sabe como teria acabado. E foi ao pensar em Samantha, que seu coração voltou a se encolher. Chorou feito uma criança em posição fetal, por mais clichê que isso possa parecer.

- Lica... – Leide se sentou na beirada da cama e fez um carinho nos fios lisos e negros, agora mais curtos e com algumas luzes – O que foi que aconteceu, minha menina, me fala.

- Eu vi a Sammy, Leide – choramingou – Agarrada com um brucutu de dois metros no shopping. E uma miniSammy.

Leide tentou processar a informação e entendeu na hora.

- A Samantha com o marido e a filha.

Lica chorou mais ao ouvir aquela palavras.

- Eu sou uma merda, Leide. Eu fiz merda, eu faço merda e sempre vou fazer, eu sou um cocô ambulante. Eu... a Sammy e o brucutu, eles...

- Eles são casados, Lica.

Lica chorou mais.

- Não me lembra disso – pediu e enfiou a cara no travesseiro – Ela tá casada e eu tô solteira, Leide. Tem alguma coisa errada nisso...

- Não foi você quem terminou com ela por telefone?

O choro de Lica se tornou quase um lamento.

- Eu sou um cocô, Leide... Como a Samantha pôde namorar alguém como eu, Leide? Eu sou pior que o Edgar. Eu... Eu não tenho sentimentos, Leide... Eu machuquei a Sammy e agora ela tem uma miniSammy... c-com o brucutu...

Chorou alto.

Leide se compadeceu e sem saber muito o que fazer, ligou para o primeiro número que encontrou no celular de Lica. Arrastou a menina para o banheiro, deu-lhe um banho como pôde (ela era mais alta e mais forte também), a enrolou em um roupão e a deitou na cama. Saiu só para preparar um chá e quando voltou, encontrou Heloísa atravessada na cama, com o celular nas mãos, a imagem congelada em uma foto de Samantha.

Suspirando, a mulher lhe deu a xícara de chá, mas ela dispensou. Disse que queria algo mais forte e pediu um Bloody Mary. Levou um tapa de Leide no braço, mas estava tão entorpecida que nem sentiu direito. Só viu quando a porta do quarto se abriu e por ela passaram Ellen e Tina.

- Missão resgate chegou – a morena anunciou – Qual o BO da vez? Samantha ou bebida?

- Os dois – Leide respondeu.

- É pior do que a gente pensou.

- Eu vou deixar vocês a sós. Meninas, se puderem, façam ela beber esse chá. Vai ajudar a melhorar. Vou preparar um lanchinho pra vocês.

Tina suspirou e sentou na beirada da cama, apoiando a cabeça de Lica nas pernas. Iniciou um cafuné gostoso, enquanto Ellen deitou-se apoiada em um braço para observá-la melhor.

- Lica? – chamou Ellen.

- Ela é linda, né? – a menina seguia olhando para a foto de Samantha – Como ela casou com aquele brucutu? Eu era muito melhor.

- Você mandou ela pastar por telefone do outro lado do mundo, Heloísa.

- Tina, para! – Ellen pediu.

Mas era tarde. Lica abriu um verdadeiro chororô. Chorava que se sacudia, enquanto Ellen e Tina se olhavam sem saber o que fazer.

- Tá vendo? Eu falei pra parar! Agora ela deu defeito de vez – Ellen ralhou.

- Mas eu não estava mentindo. E a Lica nasceu com defeito. Isso é de fábrica.

A menina continuava a soluçar. Até que Tina começou a cantar uma canção para ver se ela se acalmava. Foi o que ajudou. Mais tranquila, ela voltou a encarar o teto e ficar em silêncio. Ellen tratou de tirar o celular das mãos dela antes que fizesse alguma besteira. Já foi logo checando a agenda.

- Ainda bem que ela não tem o número da Samantha – rolou as últimas chamadas efetuadas – Mas ela ligou pro Tryp.

- Mentira – Tina pegou o celular das mãos de Ellen para conferir. E lá estavam quatro ligações com 40 segundos cada, para o Tryp Higienópolis – Meu Deus, Lica, você só me dá desgosto.

- Tina, cala essa boca, se ela começar a chorar de novo, eu vou ser obrigada a te bater – Ellen ameaçou.

- E você quer o quê? Que eu chame ela de docinho de coco?

- Não é côco – Lica resmungou – É cocô. Eu sou um cocô.

- Ainda bem que você reconhece – Tina soltou e levou um safanão de Ellen – Mas tudo tem um jeito, Lica, e esse cocô pode virar um docinho de côco sim, é só a gente tentar. A gente te ama, tá?

- Eu vi a Samantha com o marido e a filha e ela parecia... feliz – foi a primeira vez que Lica falou algo com sentido ali. Isso calou Ellen e Tina – No shopping. E eu falei com a filha dela... e o marido, sem saber que eram eles.

- Falou como? – Ellen quis saber.

- Ela me ajudou a escolher o presente do Luís. E disse que meu nariz é enorme, mas que gosta dele – riu-se, lembrando da pirraça da menina. Era mesmo filha de Samantha.

- A Marina é ótima – Tina também riu – E sim, Lica... A gente sente te dizer isso, mas a Samantha tá feliz sim. O Henrique, ele gosta de verdade dela e a faz bem... Então...

- Então zero chance de eu me aproximar de novo – Lica concluiu.

- E você queria se aproximar? – Ellen questionou – Coragem, viu? Eu diria que um pouco de falta de noção também.

- Eu gosto da Sammy, vocês sabem disso – engoliu em seco – Terminar com ela e ficar na França foi um gesto impensado de uma pessoa imatura e zero preparada pra lidar com um relacionamento sério. Eu estava morrendo de medo de me entregar de vez pra Samantha e... agi por impulso, fiz besteira.

- Mas vocês já não namoravam? – Tina perguntou – Então tecnicamente você já estava meio que entregue. Não faz sentido isso, Lica.

- Ela disse que me amava, Tina – confessou. Era algo que Lica nunca havia dito a ninguém, nem mesmo à sua mãe – Quando eu me despedi dela no aeroporto pra ir pro curso na França, ela disse que me amava e eu não consegui responder de volta. E isso ficou martelando na minha cabeça e quando eu vi que talvez nosso relacionamento fosse mais sério do que eu pensei e que eu não ia conseguir ser pra Sammy o que ela era pra mim, eu buguei e... O resto vocês já sabem.

As meninas se calaram.

- Você terminou com a Samantha porque ela disse que te amava? – Tina concluiu.

- Não – Lica corrigiu – Foi por medo de não corresponder a esse amor. Vocês sabem como eu sou. Eu só faço merda. Fazer merda com alguém que gosta de você, que te curte, é uma coisa. Agora fazer merda com alguém que te ama de verdade é...

- Exatamente o que você fez com a Samantha – Ellen – Errou feio por medo de errar. Pode parecer redundante, mas é bem isso.

Mais silêncio. E ninguém precisou dizer mais nada ali. Lica acabou adormecendo no colo de Tina, elas desligaram a luz e saíram se certificando de que a menina estava bem. Despediram-se de Leide na sala e acabaram encontrando com Marta, Clara e Luís no elevador.

- Tina, Ellen, vocês por aqui? – a mulher estranhou – O que houve com a Lica?

- Nada tia... Ela só... – Tina pesou as palavras – Ela tomou um porre – Marta se enfureceu – Mas ela tá bem, tá inteira, tá viva, banhada, cheirosinha e dormindo.

- Meu Deus, o que a Lica pensa que está fazendo? Mal volta e já me traz problema atrás de problema?

- Calma tia – Ellen pediu.

- Calma, Marta, ouve as meninas – Luís pediu.

- Ela teve um motivo pra beber assim – Ellen fez aspas com as mãos – Não que nada justifique, mas ela viu a Samantha com a família no shopping.

Marta murchou. Clara fez uma careta e Luís suspirou.

- Tudo bem, meninas, obrigada por terem vindo e ajudado... Eu vou... Vou falar com ela amanhã. Boa noite.

Marta deixou o elevador acompanhada de Luís, mas Clara ficou para trás.

- Vocês sabem se ela chegou a falar com a Sam? – quis saber.

- Não, Clara... parece que não. Por quê?

- Porque eu realmente não queria atritos com a Sam e nem com a minha afilhada – disse, despediu-se das meninas e rumou apartamento a dentro.

Em silêncio, as duas desceram no elevador e quando chegaram à portaria, Ellen não segurou a vontade de perguntar.

- Tina, você acha que a gente devia falar com a Samantha?

Tina ficou reflexiva.

- Olha, eu realmente não queria me meter nisso, mas pelo visto vai ser o jeito... – a japonesa suspirou – Mas tô aqui pensando como a gente vai tocar no assunto com ela, porque só de ouvir o nome da Lica, a Samantha fica arredia.

- E com razão – Ellen atestou – Bom, deixa eu ir, a gente vai se falando. Beijo.

Despediram-se, foi cada uma para seu carro e seguiram rumos diferentes. Ellen foi pra Vila Mariana, Tina, para Pinheiros. Uma Lica dormia atravessada na cama de seu quarto em Higienópolis e em Perdizes, ali do lado, uma Samantha colocava Marina para dormir.

- Mamãe... hoje eu ajudei uma moça na loja. Ela queria dar uma gravata de palhaço pra um amigo e eu não deixei – Marina se gabou.

- É mesmo, filha? E quem era a moça?

- Eu não sei, ela não disse o nome. Mas tinha um nariz enorme. Mas era bonito – Samanta riu.

- Você não falou nada do nariz dela não, né?

Marina riu, travessa.

- Desculpa.

- Essa história de nariz grande... A mamãe tinha uma amiga na época da escola, e ela tinha um nariz grande assim e odiava que a gente chamasse ela de nariguda – lembrou-se da cara que Heloísa fazia quando Tina iniciava frases com “Essa nariguda”, ou então com “Ow nariz de nós todos...”. Riu.

- Qual o nome dela? – Marina perguntou, curiosa.

Samantha se deu conta de por onde estava enveredando e encerrou o assunto bem ali.

- Vai dormir que você ganha mais – embrulhou a filha nas cobertas – Boa noite, meu amor – deixou um beijo carinhoso na testa da criança.

- Boa noite, mamãe – Marina suspirou e fechou os olhinhos. Samantha ainda ficou um tempinho ali observando sua cria.

- Te amo, minha vida – disse baixinho, antes de sair e desligar a luz. Seu dia tinha sido longo e amanhã teria mais. Só queria conseguir sobreviver ao teste de resistência que a vida estava lhe impondo. E ele tinha um nariz enorme... mas era bonito.


Notas Finais


E aqui entendemos o que aconteceu pra Samantha não querer ver a Lica nem pintada de ouro. A nariguda terminou com ela por telefone por motivos de: ficou com medo de não ser pra Sammy tudo que a Sammy era pra ela. Samantha se declarou e ela bugou. Não julguem, tem gente que realmente não consegue lidar muito bem com sentimentos e tem dificuldades enormes de se expressar e dizer o que sente. A menina Gutierrez é bem assim. Vamos ver no que vai dar essa ideia dela de falar com a Samantha e se explicar. Eu aposto em uma voadora com os dois pés no meio da fuça dela. Mais alguém?
PS: Guardem a Marina num potinho.
Beijos e nos vemos no próximo capítulo.


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