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História Mil Acasos - Capítulo 20


Escrita por: MxrningStar

Notas do Autor


Olá, gente, tudo bom?
Bom, em primeiro lugar, queria agradecer por todos os comentários que recebo aqui e dizer que fiquei passada que ninguém quer um Remanthinha, gente. Por quê? kkkkkkk
Ah, tem uma ceninha aqui nesse capítulo que casaria muito bem com a música tema da Lica em Malhação, My Own Deceiver, do Ego Kill Talent. Lendo, vocês vão saber em que parte é rsrsrs.
Sobre o capítulo de hoje: "eu não entendo minhas atitudes quando se trata de você".

Bom, no mais, boa leitura!

Capítulo 20 - Visita de cortesia


- Aquele casal... Aquele cara... ele era....

- Meu marido. Com outra mulher. Eu vou matar aquele desgraçado!

 

Mas vocês devem estar se perguntando: ah, mas a Samantha já desconfiava da traição, então nem deveria ficar surpresa assim. Desconfiar, mesmo que seja quase com uma certeza, não é a mesma coisa que ver. Já diz o ditado: o que os olhos não veem, o coração não sente e ali Samantha havia finalmente visto, presenciado a traição de Henrique nua e crua na sua cara. Seu coração sentiu.

Seu coração, seu cérebro, seu corpo por inteiro sendo dominado por uma vontade súbita de cometer um crime e a vítima seria ele, Henrique. Cinco anos, meu Deus, cinco anos casados e acabar tudo assim, desrespeitada e traída pelo cara que disse que amava e que jurou lhe amar e lhe respeitar de volta diante de um juiz. Que porra de respeito era aquele?

Só de pensar em Henrique agarrado a outra nas convulsões do sexo, ou que fosse só um abraço despretensioso mesmo, já lhe dava náuseas e uma ânsia de vômito absurda. Samantha começou a se questionar quanto tempo ele passou dormindo com outra e procurando por ela quando chegava em casa. Quantas vezes transara com Henrique sendo que ele acabara de transar com outra mulher?

Correu para o banheiro. Benê, Renata e até Guto foram atrás. Colocou para fora tudo que havia dentro de si. Vomitou uma, duas, três vezes. Mas não era exatamente físico, era psicológico. E seu psicológico, este estava em frangalhos.

- Samantha, não é melhor procurar um médico? – Guto perguntou preocupado. Nunca vira a amiga daquele jeito.

- Eu acho que não é exatamente mal estar físico, Guto – Benê, como sempre, sendo precisa – A Samantha está abalada emocionalmente e o corpo dela acabou sentindo. Isso é muito comum.

- Verdade, Benê – Renata concordou – Toma um banho, Samantha, deita. Você precisa descansar – sugeriu.

- Descansar é a última coisa que vou conseguir fazer – falou em um fio de voz, mais para si que para ser ouvida. Analisou o próprio reflexo ao espelho e foi só aí que se deu conta de onde estava. Seu apartamento o qual deixara há quase duas semanas com Marina. Seu quarto e de Henrique.  Correção: seu quarto – Eu queria ficar um pouco sozinha.

Aquilo não deveria pegar ninguém de surpresa, só que Guto, Benê e Renata não acharam uma boa ideia. Não com Samantha naquele estado.

- Tem certeza? – a musicista quis se certificar – Desculpa, Samantha, mas você não me parece muito bem. Eu posso ficar aqui com você, se você quiser, é claro.

Samantha se sentiu tocada pelo gesto dela, mas precisava realmente ficar sozinha. Precisava agir com praticidade e não queria ninguém por perto naquele momento.

- Tenho, eu realmente prefiro ficar só pra colocar as ideias no lugar. Obrigada por tudo, gente, vocês foram maravilhosos, mas daqui pra frente é comigo.

- Samantha – Guto se preocupou – O que você vai fazer?

- Nada de mais, Gutoso – ela ainda riu fraquinho – Cuidar da parte burocrática só.

Guto não entendeu muito bem, mas assentiu mesmo assim. Despediu-se dela com um beijo carinhoso na testa pedindo que qualquer coisa que ela precisasse, que ligasse imediatamente. Renata também repetiu o gesto. Odiou ver Samantha naquele estado, mas não podia fazer muito. Pediu para que ela entrasse em contato por mínimo que fosse o motivo e se colocou à disposição caso ela precisasse de algo.

Quando os três saíram e Samantha se viu sozinha, a primeira coisa que fez foi arrancar os lençóis da cama de maneira brusca e nada delicada, juntou uma pilha deles no chão para mandar para a lavanderia. Em seguida, dirigiu-se ao closet, de onde arrancou todas as camisas, calças, peças íntimas, tudo que era de Henrique. Enfiou as peças de qualquer jeito dentro de duas malas. Passou a mão pelos produtos dele no banheiro e os jogou dentro de uma nécessaire sem um pingo de cuidado também. Abriu a janela da varanda para que o ar circulasse dentro do quarto: não queria sentir sequer o cheiro do perfume do marido. Ex-marido.

Depois de juntar tudo, levou as malas para a sala. Não ficaria com aqueles trambolhos dentro de seu quarto. Era seu, seu e só seu. Aquele apartamento era dela, fora comprado com o dinheiro dela, Henrique se quisesse que procurasse outro lugar. Ela voltaria para lá com Marina e ele que se virasse.

Retornou para o banheiro, tomou o banho mais demorado de sua vida inteira. Samantha esfregava aquele sabonete francês pelo corpo como quem tentava se livrar de alguma mancha irremovível. Se sentia suja ao simples lembrar do toque de Henrique, das carícias. Sentiu náuseas novamente, mas dessa vez seu estômago não se revoltou. E foi no banho que deixou escoar em lágrimas toda a raiva, o ódio que estava sentindo do marido – ex-marido – naquele momento. Lágrimas que continuaram depois que ela se deitou e praticamente encharcou o travesseiro.

Gritou contra ele, o socou de pura raiva e se questionou por quê? Primeiro Heloísa indo embora e terminando o que tinham como terminou e agora Henrique lhe traindo. Era tão insuficiente assim para fazer alguém ficar? Samantha se sentiu pequena, insignificante, como se aquilo que ela sentia e dava para as pessoas fosse nada com coisa nenhuma. Chorou tanto a mistura de tristeza com ressentimento com raiva que acabou pegando no sono só pelo cansaço.

Acordou no dia seguinte ouvindo um barulho na sala. Deduzindo ser Henrique, Samantha se pôs de pé, tomou um banho rápido, mas quando saiu, encontrou foi com Maria, sua assistente, dando uma geral na casa.

- Dona Samantha – ela se animou ao ver a patroa – A senhora voltou. O sr. Henrique disse que a senhora tinha viajado com a Marina, eu senti sua falta.

Ele disse que ela tinha viajado? Filho duma mãe!

- Oi, Maria, tudo bom? – ela colocou um sorriso no rosto como pôde – Eu também senti sua falta, principalmente do seu tempero – preferiu não comentar a coisa do “ter viajado com Marina”. Por falar na filha, lembrou-se de pegar o celular e pedir para a mãe que ficasse com ela mais um tempinho. Inventou que teve um imprevisto na empresa em pleno sábado e que precisava resolver. Laura até estranhou o tom de voz da filha, mas assentiu mesmo assim.

Estava tomando café quando ouviu chaves girando na porta. Sabia bem de quem se tratava. Henrique passou pela entrada e estacou quando viu a mulher muito bem acomodada à cabeceira da mesa, saboreando seu desjejum. Ficou mais surpreso ainda quando percebeu as malas no centro da sala. Maria ainda se ofereceu para guardar, achando que eram delas.

- Samantha? – foi tudo que ele falou. Os cabelos ligeiramente desalinhados, a camisa com as mangas dobradas, o paletó no braço, Henrique tinha a expressão de quem não dormira muito e, agora, Samantha sabia exatamente o motivo.

- Não entendi a surpresa, esse apartamento é meu – ela foi um tanto seca e continuou comendo sua salada de frutas – Maria – chamou a assistente, que se materializou na sala – Me faz um favor, passa no mercado e compra umas coisas pra mim. Ó, eu fiz essa lista aqui com uns produtos que vi que estão em falta na geladeira, inclusive os lanchinhos da Marina.

- Claro, sim senhora – a mulher foi eficiente e tirou o avental.

- Senhora está no céu, Maria. Vão passar cem anos e você continua me chamando assim – ela riu, o que causou ainda mais estranheza em Henrique. Ele seguia parado no meio da sala feito um dois de paus.

Maria se desculpou rapidamente e deixou o apartamento, cumprimentando Henrique ao passar por ele. Quando a porta bateu, os dois se viram a sós. Henrique tentaria uma aproximação amigável, afinal se sua mulher tinha voltado para casa...

- Cadê a Marina? – começou.

- Na mamãe – Samantha respondeu displicente – Eu queria ficar um pouco a sós com você.

Falou de propósito só para ver a cara do marido – ex-marido, ela precisava se acostumar com aquilo – e ele sorriu de orelha a orelha. Se soubesse que o estômago dela embrulhou.... Sério que Henrique cogitara sexo bem ali?

- Eu acho ótimo – é, cogitou. Homens – Eu acho que a gente precisa mesmo resolver as coisas de maneira civilizada e tentar de onde paramos, Samantha. Não tem porque essas brigas o tempo todo.

- Concordo – foi tudo que ela disse, enquanto dava atenção à sua salada – Eu também acho que não tem porque continuar com isso.

O que se seguiu foi um silêncio esquisito, como se Samantha esperasse alguma atitude por parte de Henrique. O homem deixou o paletó sobre o sofá e colocou as mãos nos bolsos.

- Eu não lembrava de você ter levado esse monte de coisa quando saiu daqui – comentou, referindo-se às malas – Eu vou colocar essas malas no quarto.

- Não precisa, elas não são minhas – Samantha atalhou e resolveu acabar logo com aquilo, ainda comendo sua salada. Ela estava uma delícia.

- Não são? – Henrique parou no movimento.

- São suas – jogou no ar, o que fez o mari... ex-marido ficar em riste como se tivesse tomado um choque.

- Minhas?

- Umhum – Samantha anuiu novamente em tom displicente, e sem nem olhar para o marido – Eu quero você fora daqui com tudo que é seu.

Henrique riu, mas Samantha reconheceu puro nervosismo ali.

- Oi? Que maluquice é essa, Samantha? – ele parecia não querer acreditar naquilo.

- Não é maluquice, você ouviu – ela seguia comendo seu desjejum sem nem olhar direito para Henrique. Seu café merecia mais atenção do que ele – E eu não vou repetir.

- Olha, isso não faz sentido nenhum – ele começou – De repente eu chego em casa e minhas malas estão na sala com você me expulsando daqui. Você... você bebeu alguma coisa, Samantha? Está bem?

- Nunca estive melhor – ela finalmente se dignou a olhar para ele e se pôs de pé. Caminhou até a cozinha, pegou o interfone e ligou na portaria – Bom dia, seu Getúlio. Samantha, da cobertura. O Jorge e o Paulo estão por aí? O senhor pode pedir pra eles subirem aqui, por favor? Obrigada.

Retornou para a sala, Henrique ainda olhava atônito para as malas e delas para ela, Samantha.

- Que foi? – Samantha inquiriu.

- Você claramente está fora de si.

- Não queira nem me ver fora de mim – Samantha mantinha a calma, mas só Deus sabe o esforço que estava fazendo para aquilo. Não demorou um minuto e a campainha tocou. Ela foi até lá abrir a porta, sendo acompanhada pelo olhar de Henrique. Recebeu os seguranças com um “bom dia” e pediu para que eles levassem as malas de Henrique. Mas o advogado se plantou na frente deles ao perceber o gesto.

- Que porra é essa, Samantha? O quê que está acontecendo?

- Eu falei que quero você fora daqui – ela repetiu – Podem pegar as malas.

- E eu posso saber porquê? O que foi que te deu pra... Ei, pode soltar isso aí! – o advogado tentou impedir um dos seguranças de pegar a mala, mas sem sucesso. O homem era dois dele – Esse apartamento é meu, seus idiotas, eu moro aqui!

- Correção. Esse apartamento é meu e você não mora mais aqui. Podem levar – Samantha foi mais firme e os dois homens seguiram as ordens dela. Conheciam-na desde que ela se mudara, elas sempre os tratara muito bem, diferentemente de muitos dos moradores dali. Diferentemente de Henrique até. E se Samantha lhes dava uma ordem, eles cumpririam sim, mesmo que não estivesse entendendo muita coisa.

- Como eu não moro mais aqui, Samantha? – Henrique praticamente berrou quando Jorge e Paulo passaram pela porta levando as malas dele. Henrique não sabia se corria atrás deles ou se ficava para tirar satisfações com Samantha.

- Não mora porque eu não quero mais vocês aqui – Samantha perdeu as estribeiras e gritou – Não mora porque esse apartamento é meu, fui eu que comprei, está no meu nome e eu não vou permitir traidor vivendo sob o mesmo teto que eu!

- Do que porra você está falando? – ele devolveu tão alterado quanto ela.

- Da mulher na qual você enfiou a língua ontem! Da mulher que você agarrou na porta da porra daquele restaurante, quase engolindo ela! Eu estou, falando, Henrique, de traição – aproximou-se dele – De foder com outra enquanto é casado comigo. Seu filho da puta! – sem nem dar tempo de nada. Samantha ergueu a mão e deixou um tapa tão forte na cara de Henrique que sua mão chegou a arder - Seu filho da puta traidor de merda!

E começou a dar tapas nele descontrolada. Bateu em Henrique onde pôde, no peito, nos ombros, só queria era socar a cara dele.

- Samantha, para! Para com isso! – ele tentava desviar como podia – Samantha, para com isso! – segurou os punhos dela com força, um brilho de raiva relampejando em seus olhos – Eu não vou permitir que você me...

- Você não permite ou deixa de permitir porra nenhuma, seu merda! – e com isso dito, se livrou do arrocho de Henrique com um safanão, fazendo-o cambalear para trás. O advogado estava era assustado com a reação dela – Vai fazer o quê? Negar? Dizer que não era você? Hein? – ele ficou em silêncio – Fala alguma coisa!

- Eu não vou falar porra nenhuma! Não adianta, você não vai me ouvir!

- Você não vai falar nada porque é um covarde! Um medroso, um pulha! – ela esbravejava – Nem pra assumir seus atos você serve, Henrique! Nem homem pra assumir suas merdas você é!

- Eu fui muito homem pra você todos esses anos e você nunca reclamou – ah, não.... Era sério que ele tocaria naquilo?

- Está falando o quê? Do sexo? Nem pra me dar prazer você servia direito – falou com escárnio colocando uma expressão alarmada no rosto do mar... ex-marido – Até sozinha eu conseguia ter mais prazer que com você – falou para machucar. Queria ver o ego de Henrique ferido mesmo – Me fala, como foi que você conseguiu alguém pra me trair fodendo tão mal assim?

Henrique estava vermelho. Vermelho de ódio, a veia em sua têmpora latejando.

- Você me paga por isso – cuspiu as palavras.

- Vai. Pro. Inferno – Samantha falou pausadamente para ele entender bem – Eu não suporto mais olhar na sua cara, eu não suporto mais ouvir a sua voz, pega esse seu cinismo e some da minha frente antes que eu cometa um crime. Vai embora daqui, Henrique – ele permaneceu onde estava – VAI EMBORA DAQUI!

Samantha avançou sobre ele com tudo, socando seu peito, seus ombros, fazendo Henrique cambalear para trás. Ela abriu a porta e o enxotou apartamento a fora, fechando na cara dele.

- Samantha, abre a porra dessa porta! – ele praticamente socava a madeira – Abre essa porta, caralho! – sem sucesso – Quer saber? – deixou o cinismo de lado – Eu fui atrás de outra porque você que não me satisfazia. A culpa é sua que não sabia me valorizar! Você não passa de uma... – ele não teve tempo de completar. Os dois seguranças que retiraram suas malas do apartamento permaneceram ali por perto, no corredor, ao perceber que se tratava de uma briga e que Samantha claramente estava irritada com o marido. Ficaram por ali para o caso de precisarem intervir. Era a hora. Henrique gritava descontrolado e provavelmente estava incomodaria o prédio inteiro.

Os dois o agarraram e o levaram para o elevador, enquanto ele se debatia em vão. Eram dois contra um.

- Me solta, seus idiotas! É assunto pessoal! Eu estou me resolvendo com a minha mulher! – tentou arrancar o braço do arrocho de Jorge.

- É, mas dona Samantha não quer falar com o senhor. Melhor parar de gracinha se não vai ser pior – o homem avisou e apertou ainda mais o braço do advogado. Foi deixado na recepção do hotel com as malas. Fulo da vida e querendo matar alguém, Henrique rumou para o estacionamento e saiu de lá arrancando com o carro, cantando pneu no asfalto. Na mente um único pensamento: Samantha lhe pagaria por aquela humilhação. Ela lhe pagaria.

(...)

- A Samantha não vem hoje? Nem a Mari? – Lica quis saber no momento em que passou pelos portões da ONG. Ela achou estranho ainda não ter ouvido o “tia Lica” de Marina ecoar pelo meio do pátio. Foi até sua sala, arrumou o material da aula, retornou para a área de convívio e nada delas.

- Pois é, eu liguei pra ela, mas só deu caixa postal – Ellen informou – Estranho, a Samantha não é de faltar sem avisar. Deve ter acontecido alguma coisa.

- Será que está tudo bem com a Mari? – Lica se preocupou e pediu para Ellen tentar de novo. Caixa postal. Tinha alguma coisa de errada acontecendo ali.

- Bom dia – Benê deu as caras – Estamos a cinco minutos do início da aulas, seria bom vocês começarem a se apressar. Hoje eu assumirei a turma da Renata no primeiro tempo, porque ela avisou que vai se atrasar.

- A Renata vai se atrasar? – Ellen estranhou – Gente, o que foi que aconteceu com esse povo? A Samantha não deu sinal, agora a Renata que não chega na hora.

- A Renata pediu para atrasar hoje, porque queria passar na Samantha. Ela não estava bem ontem e nós ficamos preocupados.

- Como assim a Samantha não estava bem? O que foi que aconteceu com ela, Benê? – Lica na mesma hora se interessou, se alarmou, enfim, metralhou as perguntas.

- Eu não sei se deveria falar isso, Lica, é assunto pessoal.

- Desembucha, Benedita! – Heloísa foi incisiva – Por que a Samantha não estava bem?

- Ela pegou o marido a traindo. Ao que consta, ele estava aos beijos com outra mulher em um ambiente público.

- Oi? – Lica tomou foi um susto. Ellen fez uma careta e Keyla e Tina, que se aproximavam na hora, também pegaram o final da frase e ficaram alarmadas – O Henrique... ele... aquele filho duma mãe traiu a Sammy? – a raiva no rosto de Heloísa já era visível.

- Cara, a Samantha deve estar arrasada – Keyla soltou – Trair é a pior coisa que alguém pode fazer.

- E você devia medir as palavras, Benê – Guto apareceu atrás da noiva – Isso não é o tipo de coisa que as pessoas saem falando assim.

- Eu apenas respondi a Lica – Benê se defendeu – E não menti, Guto. A Samantha foi traída pelo marido e não estava bem. Você viu ela vomitando.

- Deve ser de nojo. Imagina você ver o cara que é casado com você agarrado com outra – Tina colocou lenha na fogueira.

- Pelo que a Renata contou, o Henrique estava saindo de um restaurante com outra mulher e a beijou lascivamente. E a Samantha viu. O psicológico dela deve estar muito abalado.

- Gente, coitada. Mas o Henrique também, hein... que cara escroto! – Keyla opinou

- Eu... – Lica só tinha uma coisa em mente – Eu tenho que fazer uma coisa rapidinho – e correu para sua sala, onde avisou rapidamente aos seus alunos que teve um imprevisto e que não poderia dar a aula daquela semana. Mas deixou uma atividade para que eles levassem no sábado seguinte. Em seguida, retornou para o pátio – Benê, eu preciso do endereço da Samantha.

- Ah, não! – Tina interveio – Lica, amor próprio, minha querida, acorda! A Samantha vai te enxotar de lá!

- Me dá o endereço da Samantha, por favor, Benê – Lica insistiu.

- Lica... melhor não – Guto foi que interviu.

- Benê!

- Vocês querem parar? – Benedita alteou um pouco a voz. Odiava embates e claramente estava havendo um ali – Eu acho que você não deveria se envolver nisso, Lica. Você e a Samantha não são mais amigas.

- Benê, por favor. Eu preciso saber se ela está bem – Lica quase suplicou – Lembra daquilo que te falei um dia? Que quando a gente uma dorzinha aqui no peito, só passa quando a gente vê a pessoa?

Benê se lembrava bem daquela conversa. Elas tinham apenas 17 anos: Benê sofria a falta de Guto e Lica sofria a falta de Samantha. E ambas só conseguiram parar aquele incômodo chatinho no peito quando encontraram os dois. Era como se algo sem eles estivesse errado e Benê odiava as coisas erradas. Coisas erradas e fora de lugar não deveriam existir.

- Por favor – pediu novamente.

- Avenida Higienópolis, 983, décimo quinto andar – ela soltou tão rápido que Lica quase não conseguiu anotar mentalmente.

- Obrigada, Benê! Te amo! – e deixou um beijo estalado na bochecha dela, que fez uma careta.

- A Samantha vai te matar, Benê. E me matar junto – Guto alertou.

- Você acha que a Samantha seria capaz de matar alguém? – Benedita, como sempre, levando tudo ao pé da letra.

- Vocês eu acho que não, mas a doida da Lica... está indo pra guilhotina – Tina comentou.

Lica embarcou no carro e saiu da ONG praticamente chispando. Mas que filha da puta aquele cara, meu Deus! Quem em sã consciência teria coragem de trair Samantha? Será mesmo que ele não se sentia satisfeito com o que tinha em casa que foi procurar na rua? E Marina? Como que ficaria a filha do casal? Ele ao menos pensara na menina quando desrespeitara a mãe dela daquele jeito?

- Canalha, filho da mãe! – Lica estava possessa de raiva. E foi no calor do momento que resolveu dar uma paradinha num lugar antes de seguir para o endereço que Benê lhe dera. Digitou no mapa do Google e acionou o GPS. Em questão de vinte minutos, estacionava em frente ao seu destino.

Desceu, respirando fundo, mas era mais raiva do que outra coisa. Passou pelo segurança sem nem falar direito. Se ia encontrar quem queria ali, não sabia, afinal, era fim de semana, mas teria que tentar. Ou descontava o que sentia em algo ou alguém, ou explodiria.

- Bom dia – a moça da recepção a atendeu com um sorriso no rosto – Em que posso ajudar?

- Bom dia... hã... o Mondego se encontra?

- O doutor Henrique não vem ao escritório nos finais de semana – ela informou – Mas eu posso deixar recado se você quiser.

- Ah, não, o que eu tenho pra tratar era diretamente com ele – Lica suspirou, frustrada – Bom, hã... Obrigada – agradeceu e se virou para sair, mas o universo, ele definitivamente estava querendo lhe dar uma mãozinha. Estava na saída do escritório, quando um carrão preto estacionou na frente do seu e dele desceu um Henrique Mondego visivelmente alterado e irritado. Estava bom demais para ser verdade.

- Ah, não! – o homem estacou quando deu de cara com ela – O que você quer aqui, sua...

Não teve tempo de concluir a frase. Lica cerrou o punho e deu seu melhor jab de esquerda na cara dele. O mais certeiro, com toda a força que conseguiu reunir. Fez Henrique cambalear e sair escorado no próprio carro, o nariz sangrando.

- Ficou louca? – ele gritou, vendo o sangue escorrendo em sua mão. Lica imediatamente viu o segurança se aproximando dela, mas ergueu as mãos em defesa.

- Se o senhor soubesse o motivo do soco, não chegaria perto de mim – ela disse, mas o homem a segurou pelo punho – Esse canalha merecia vinte desses! – gritou quando o homem a afastou do advogado e a empurrou com um safanão para o outro lado da rua.

- Vai embora daqui ou eu chamo a polícia! – o homem falou, rude, enquanto a recepcionista, que viu tudo lá de dentro corria para acudir Henrique.

Lica ergueu os braços em defesa e entrou no próprio carro, arrancando dali. Só precisava saber como Samantha estava.

Nunca dirigiu tão rápido na vida. Só obedeceu os semáforos porque o carro não era seu e não queria ouvir a briga que Marta armaria com ela depois. Seguindo o GPS, conseguiu achar com certa facilidade o endereço indicado por Benê. O prédio parecia um espigão de tão alto e tinha uma arquitetura clássica. Estacionou ali na frente e se dirigiu até a portaria.

- Bom dia – cumprimentou o porteiro – A Samantha Lambertini se encontra?

O homem devolveu seu cumprimento com um sorrisinho simpático e disse que sim, ela estava. Endereço correto. Valeu, Benê!

- A quem devo anunciar? – o homem pegou o interfone.

Opa. Lica travou. Se Samantha soubesse que era ela, provavelmente não permitiria que subisse. Daria um nome falso? Inventaria que era Clara, só para não ter que mentir muito no sobrenome? Deixaria para lá? Ou arriscaria dizer a verdade e ouvir um “pode mandar embora” da empresária? Esquecera de planejar aquela parte. O porteiro foi que ficou observando a hesitação dela com um olhar curioso.

- Hã... – gaguejou, buscando as palavras – Qual o seu nome?

- Getúlio – ele respondeu meio sem entender.

- Sr. Getúlio, eu poderia subir sem ser anunciada? – tentou o caminho mais óbvio. Viu o homem abrindo a boca para protestar, mas emendou – Eu sei que é contra a política do prédio, eu moro em um também e acredite, chamam a polícia se alguém insistir em entrar sem se identificar, mas... é que se eu disser que sou eu, talvez não me permitam subir.

O homem franziu o cenho.

- Olha, então se não vão lhe deixar subir se souberem seu nome, por que a senhora veio?

Exatamente. Por que ela havia ido? Agira de novo no impulso, talvez tivesse sido melhor se tivesse ficado na sua, dando sua aula na ONG. Samantha claramente não precisava dela e, pelo que ouvira de Benê, Renata deveria estar lá. O que estava fazendo ali? Seria inconveniente, provavelmente. Samantha já deveria estar passando pelo inferno para ainda ter que lidar com ela. Engoliu em seco.

- Eu não sei por que eu vim – respondeu sincera ao porteiro – Na verdade, eu não entendo as minhas atitudes quando se trata da Samantha – falava agora mais para si que para ser ouvida. Então voltou a olhar para sr. Getúlio – Olha, eu sei que parece maluquice minha, mas eu só achei que deveria estar aqui. Quer dizer, a Samantha deve estar precisando de alguém e, ok que eu seria a última pessoa que ela procuraria, mas eu tinha que tentar, né?

- Então você sabe da confusão no apartamento dela? – o homem a analisou mais atentamente – Porque o sr. Henrique saiu daqui bem raivoso.

- Eu sei, encontrei com ele agora há pouco – e soquei aquela fuça cínica, quis acrescentar – Foi muito feio? – e ficaria mesmo de fofoca com o porteiro? Quer dizer, talvez ele seria o máximo de contato que pudesse ter com Samantha naquele momento – O senhor sabe dizer se a Marina estava em casa? Ela não devia ver os pais brigando.

- Não devia mesmo, mas não estava não – o homem a respondeu. Lica respirou em alívio – Dona Samantha chegou com uma moça ontem de noite....

- Chegou com uma moça? – Renata, claro. Então Benê talvez estivesse errada. Ela não “dera uma passada”. Ela dormira lá. Nem queria, mas pensou besteira.

- Sim. Depois de um tempo chegaram o seu Augusto e dona Benedita e aí um tempo depois os três saíram. Ele, dona Benê e a moça com quem ela chegou.

Menos mal, pensou Heloísa. Já lhe doía saber da presença constante de Renata na vida de Samantha, lhe torturou cogitar ela dormindo lá com a empresária.

Acenou brevemente com a cabeça.

- Certo, hã... obrigada, sr. Getúlio – já ia se virando para sair quando o homem lhe chamou de volta. Perscrutou o rosto dela e deu-se por vencido.

- Último andar, cobertura – ele informou e destravou a porta para ela – Se dona Samantha perguntar porque não anunciei, diga que eu havia deixado a portaria para ajudar alguém com as compras e que você aproveitou e entrou. Depois eu me entendo com ela.

Lica sorriu grande.

- Valeu, sr. Getúlio, eu.... – estava tão atarentada em expectativa que mal sabia o que fazer – Eu vou lá. Valeu! – e entrou correndo no prédio.

Seguiu no elevador o tempo todo repassando o que diabos diria a Samantha quando a visse. Esperava que ela estivesse sozinha e que essa “passadinha” de Renata já tivesse acabado. Rezou aos céus para isso, mas suas expectativas foram por terra quando ela estendeu a mão para tocar a campainha e a porta se abriu sozinha, com Renata estacando ante o susto de vê-la ali na soleira.

- Heloísa! – exclamou, o que chamou a atenção de alguém lá dentro. Samantha apareceu atrás da musicista, os cabelos molhados, trajando uma camiseta branca e um shortinho jeans claro, desfiado nas pontas, uma chinela nos pés. Não lembrava mais como era vê-la tão à vontade.

Cabelos molhados... Renata... aquilo invadiu sua mente com tudo e ela respirou acelerado, tentando se livrar daquilo. Não, não, não!

- Lica? – Samantha proferiu, visivelmente surpresa por vê-la ali.

- Hã... – abriu a boca, não saiu nada de conexo – Eu... – nada – É... – nada com coisa nenhuma – Eu... – pigarreou – Eu não devia ter vindo – falou baixinho mais para si que para ser ouvida, olhando para qualquer coisa que não fosse Renata e Samantha paradas ali. As duas esperavam alguma reação por parte dela – Eu acho melhor ir embora – atropelou as palavras, só querendo fugir dali. Virou-se para chamar o elevador.

- Ah, não, pode ficar, eu já estou de saída – Renata anunciou, com um sorriso de orelha a orelha – É bom que faz companhia pra Samantha. Eu não sabia que vocês eram amigas – ela gracejou – Você nunca comentou nada, Sam.

Sam? Ah, fala sério, já tinha até apelido?

- Pois é.... – Samantha riu, visivelmente sem graça. Que situação esquisita, meu Deus! – Fazia um tempo que a gente não se falava.

Lica quase socou o botão do elevador, cogitando inclusive sair dali fugida pela escada de emergência.

- Então coloquem o papo em dia. Vai te fazer bem ter alguém pra conversar – a mulher definitivamente não havia percebido o clima que havia se instalado ali. E Lica teve vontade de dizer que conversar com ela não faria bem para Samantha. Deus! Onde estava com a cabeça quando resolveu ir até ali?

- Umhum – foi tudo que Samantha disse. E aquela merda de elevador parecia estar empacado!

- Bom, eu vou indo – Renata anunciou – Qualquer coisa, me liga, tá? Seja o que for. Se cuida – abraçou Samantha e deixou um beijinho carinhoso (e demorado demais e próximo demais da boca também) no rosto dela. Certificou-se de que ela estava bem e passou por Lica. Bastou ela parar ao lado da artista, o elevador resolveu chegar com o click. As portas se abriram, Renata passou por elas, Lica fez menção de fazer o mesmo, mas foi puxada de volta por uma voz.

Era Samantha.

- Fica, Lica – a Gutierrez congelou. Engoliu em seco – Faz dias que você tenta falar comigo e não consegue. É a sua chance.

Se Samantha soubesse o tanto de possibilidade que aquele “é a sua chance” tinha.... E se ela ao menos imaginasse o que passou pela cabeça de Lica ou ouvi-lo.... Definitivamente não repetiria.

Renata segurou as portas do elevador.

- Vai entrar ou ficar aí feito um dois de paus? – Samantha de novo.

Sem dizer nada, Lica virou-se para ela. Foi a deixa para Renata dizer mais um “tchauzinho” e as portas do elevador se fecharem na cara da artista. Ela ficou ali parada, limitando-se a encarar Samantha. O que diabos tinha sido aquilo?

A Lambertini revirou os olhos e sumiu das vistas dela, apartamento a dentro.

- Se eu fechar essa porta, não abro mais! – a ouviu exclamar lá dentro e resolveu se mexer. Passou pela soleira, encontrando Samantha ajeitando umas almofadas no sofá. Ficou meio sem jeito ali. Tímida era a melhor palavra.

O apartamento de Samantha era lindo e a cara dela. Os móveis retos, a decoração em tons de pastel dava um ar rústico ao lugar. Porta-retratos e mais porta-retratos dela com Marina. E mais uma foto de Marina, e mais outra... com ela, Samantha, sozinha, com os avós... não encontrou uma fotografia de Henrique. É... tinha sido sério mesmo.

Só percebeu que estava parada de pé no meio da sala quando viu Samantha se jogando no sofá, em meio a algumas almofadas. Sentiu o olhar dela queimar sobre si. Esperava que não tivesse corado.

- O sofá não tem espinho não, Lica. Pode sentar – a empresária brincou. Lica assentiu e tomou lugar quase diante dela, sem saber onde colocava as mãos. Fora de lugar, totalmente fora de lugar – Você quer beber alguma coisa? Prometo não envenenar nada – riu. Samantha queria era fazer Lica relaxar. Percebeu o quão tensa ela estava.

- Não, não, obrigada – recusou gentilmente – Não quero correr o risco – entrou na dela. O clima pesou um pouco menos.

- Vai me contar como você conseguiu subir sem ser anunciada? – Samantha dobrou as pernas no sofá e apoiou a cabeça na mão. Os cabelos molhados começando a secar e a formar umas ondas.

- O porteiro tinha saído pra ajudar uma senhora com as compras. Aproveitei a deixa.

- E foi batendo de porta em porta até chegar aqui?

- A Benê me passou o endereço – explicou – Depois de muita insistência, na verdade.

- Entendi. E a ONG ficou abandonada? A Renata me disse que daria o segundo tempo das aulas, mas você, pela hora... não deu nem o primeiro. E nem vai dar o segundo, pelo visto.

Ela estava chamando sua atenção. Com certeza estava.

- Eu deixei um trabalho pra eles fazerem – explicou – Desculpa, mas eu precisava te ver – permitiu que a frase saísse como se tirasse uma tonelada de suas costas.

- Então São Paulo inteira já sabe que eu sou uma mulher traída – comentou despretensiosa, o que arrancou uma careta de Lica.

- São Paulo inteira já sabe que seu marido é um boçal, idiota e o cara mais burro do mundo – corrigiu, recebendo um olhar mais atento de Samantha.

- Ex-marido – Samantha corrigiu. Já estava se acostumando com aquilo.

- Ex-marido – Lica repetiu como se provasse a textura daquelas palavras. Lhe soaram tão bem – Eu sinto muito, Samantha – foi sincera – E não vim aqui na esperança de nada, caso você pense isso. Só fiquei preocupada com você e com a Marina. E mesmo não sendo da minha conta, achei que deveria saber como vocês estavam, porque eu gosto de vocês. Quer dizer, eu me importo com vocês, é isso. Não quero um filho da puta fodido como o Henrique fazendo mal nem a você nem a ela.

Samantha teve certa dificuldade em acompanhar a metralhadora que Lica havia se tornado. Acabou rindo de leve.

- Boçal, idiota, burro, filho da puta fodido... Quer fazer um vodu pra ele? – nem queria, mas Samantha acabou fazendo Lica rir –Eu ajudo. Já tenho tudo no ponto.

- Sério? – Lica brincou – Bora lá. Você alfineta primeiro.

As duas acabaram rindo com os olhares presos. Heloísa pensou que encontraria Samantha pior, mas ela parecia estar lidando bem com aquilo. Definitivamente ela não mentira quando dissera há sete anos naquela Balada Paz e Amor que não entregava os pontos e que nada a derrubava fácil. Não mesmo.

- A Marina não estava aqui – ela explicou – Eu saí ontem com a Renata e deixei ela na mamãe. Ela dormiu lá. Deve chegar mais tarde. Pedi pra dona Laura passar o dia com ela hoje.

“Eu saí ontem com a Renata”. Aquilo não deveria surpreender Lica, afinal ela e Samantha andavam muito próximas mesmo, mas parece que ouvir fez o incômodo em seu peito piorar. Engoliu em seco e desviou o olhar do de Samantha. Não queria mostrar vulnerabilidade e ali estava vulnerável. E muito.

- Claro. Que bom que ela não estava – tentou ignorar a parte do “saí com a Renata” e focar no que interessava – A Marina andava bem amuada esses dias. Era sobre isso que eu queria falar com você.

- Eu sei, Lica. Conheço minha filha – falou séria – Eu tentei, juro que tentei não deixar chegar nela toda essa carga emocional minha e do Henrique, mas tem hora que foge do meu controle. Ele quase derrubou a porta do quarto dela outro dia.

- Ela me contou que vocês brigaram e que ele estava com raiva – Lica entrou em terreno espinhoso – E que você brigaram por minha causa.

Samantha suspirou e deixou a cabeça pender para trás, no encosto do sofá, encarando o teto. A pintinha que ela tinha no pescoço à mostra e, Deus, Lica não queria mas fantasiou horrores ali. Samantha largada naquele sofá, o pescoço dela exposto daquele jeito... Era errado, Heloísa sabia, mas não pôde se furtar de imaginar sua boca beijando gostosa e lentamente o pescoço de Samantha enquanto ela se deleitava ao seu gesto. Fechou os olhos com força para se livrar daquilo.

A Lambertini falou ainda encarando o teto.

- Eu já repeti mil vezes pra Marina, mas parece que entra por um ouvido e sai pelo outro: eu e o Henrique não brigávamos por sua causa, mas por causa das inseguranças e dos pitis dele.

Ah, as inseguranças do Henrique... Lica as conhecia bem. Bem demais, por sinal. O último ataque lhe fizera cair feito uma jaca mole no meio do Grupo.

- As inseguranças dele por minha causa – Lica seguiu se colocando na história.

- Talvez – Samantha voltou a encará-la – Na verdade não só com você. Ok, que contigo parece que era um nível ou dois acima, mas era meio que com todo mundo.

- Você se importa em explicar?

- Lica, o Henrique tinha ciúmes até do MB – Samantha soltou – Foi preciso ele ver o Michel com uma namorada pra poder desencanar. Os dois não se bicam até hoje.

- Sério? – Lica nunca podia ter imaginado aquilo.

- Umhum. Azar do Henrique, porque eu nunca abriria mão da amizade do MB. Nunca. Ele é um dos meus melhores amigos e uma das pessoa mais incríveis que eu já conheci na vida.

- Ter ciúmes do MB é foda mesmo – Lica anuiu – Ok, que ele é lindo e tem aquele jeitão meio moleque que conquista fácil, mas é como se fosse um irmão pra gente.

- Se você conseguisse enfiar isso na cabeça do Henrique, eu te dava um prêmio.

- Então era isso? O Henrique sempre foi meio ciumento?

- É. Não era de hoje que eu lidava com as inseguranças dele. Acontece que a gente sempre se resolvia no final... Mas com você... parece que com você era pior, sabe? Era mais que ciúmes, eu diria. Hoje eu sei que era só hipocrisia mesmo: ele pode trair, mas eu pensar demais em você, nem pensar.

- Você pensa demais em mim? – Lica pegou no ar.

Samantha abriu a boca, mas não saiu som nenhum. Pega no pulo, Lambertini.

- Penso. Sempre pensei em como te matar lentamente, te torturar até a morte até você implorar pra eu dar um fim no seu sofrimento – Samantha debochou. Não era bem isso, Lica, mas nem a pau que ela admitiria.

- Certo – Heloísa não soou nem um pouco convencida. A boca dela se estreitou em um leve sorriso de canto, quase imperceptível – Mas você já parou pra pensar que o Henrique pode só ter surtado em cima de mim porque eu era sua ex? Quer dizer, você e o MB nunca namoraram. Já nós duas....

- Talvez, não sei. Mas poxa, ele estava casado comigo e foi há ele que eu jurei fidelidade e o meu amor diante de um juiz. E você... bom, você estava longe, eu nem tinha mais notícias suas, ele podia só ter deixado pra lá e vivido nossa vida como eu fazia.

- Mas você pensava demais em mim.

Lica sorriu que nem disfarçou e recebeu de resposta de Samantha um “vai se foder” e uma almofadada na cara.

- Sendo sincera? – Samantha começou – Talvez eu tenha tentado fazer do meu plano B meu plano A e falhei miseravelmente.

- Plano B?

- Eu precisava seguir a minha vida, Lica. Como você já tinha feito com a sua.

- Eu não segui com a minha vida, Samantha.

- Mas eu pensei que sim – a empresária pontuou – E saber que você estava bem – fez aspas com as mãos – Do outro lado do mundo, depois de ter feito o que fez, fez eu me agarrar com todas as forças na primeira chance que eu tive de ser feliz de verdade.

- Aí você pegou e casou com o primeiro cara que apareceu? Podia ter escolhido melhor, hein? Desculpa aí.

- Eu gostava do Henrique, Lica. Ele me deu tudo que eu mais queria naquele momento: amor, carinho, cumplicidade, estabilidade emocional... era tudo que eu precisava. Como que eu não me apegaria a ele? Depois veio a Marina pra coroar tudo... mas foi só meu passado dar sinal de vida que meu castelo de areia desmoronou todo.

Lica permaneceu em silêncio.

- Sabe qual o maior motivo pra eu ter de ignorado de todo jeito depois que você voltou? – Lica negou – Eu tinha medo da sua proximidade, de baixar minha guarda e me ver presa a você de novo. Eu não queria e nem podia admitir pra mim mesma, Lica, que mesmo depois de tudo que você fez, eu ainda gostava de você.

Lica sentiu um lampejo de esperança se acender em seu peito.

- Tudo que eu fiz esses anos todos – Samantha prosseguiu – Foi tentar te tirar de dentro de mim a qualquer custo, mas olha aqui onde eu vim parar. Olha só quem que está diante de mim agora.

- Eu também tentei de tirar de mim a qualquer custo e falhei em todas as tentativas, se serve de consolo – Lica admitiu – No fim das contas eu acho que nós somos duas idiotas nadando contra a maré. A gente tenta, tenta e nunca sai do lugar.

- Você é mais idiota do que eu – Samantha jogou – E mesmo assim eu...

Se calou. Lica daria tudo para ouvir a continuação daquela frase. E mesmo assim o quê, Samantha? Teve vontade de perguntar.

- Você acha que o Henrique se sentiu usado? Por isso surtou quando eu voltei? – Lica tentou.

- Talvez – Samantha realmente não sabia – Mas isso não justifica ele me trair desse jeito. Se nós não estávamos bem, era só chegar, conversar, colocar em pratos limpos e tentar resolver. Não precisava ir pra cama com outra mulher e me fazer de idiota. Querendo ou não, foi com ele que eu construí uma família, não merecia esses desrespeito. E eu sei que talvez não o tenha respeitado quando me pegava pensando em você, mas agir feito canalha? Trair? Isso eu nunca fiz. Eu posso não ter me entregado totalmente a ele, mas ser desumana como ele foi, isso eu seria incapaz.

Lica estava era para sair gritando e pulando de alegria no meio daquela sala. Em uma conversa de poucos minutos já havia ouvido de Samantha que ela “pensava nela demais”, que “não se entregara completamente a Henrique”, que “tentara transformar seu plano B em plano A”. Lica era seu plano A. Sempre fora. Nem suas merdas havia mudado aquilo. Seu coração batia louco descontrolado no peito.

- Você é bem maior e melhor que ele, Samantha – a Gutierrez disse por fim – No fim das contas, aquele canalha não te merece e talvez nunca tenha merecido. Desculpa aí, mas que carinha mequetrefe você foi arrumar.

- Eu acho que tenho é que ficar sozinha. Decididamente eu não sei escolher ninguém – a animação de Lica caiu por terra. E Samantha percebeu a cara que ela fez – Quem eu escolho só faz merda – era um recado claro a ela, Heloísa.

- Seu ex-marido fez pior – Lica rebateu. Aquilo soaria cômico, se não fosse trágico – Sério, Samantha, onde diabos você encontrou ele? Não tinha nenhuma peça melhor nesse lugar não?

Samantha nem queria, mas acabou rindo da forma como Lica falou.

- Mas o Henrique era o melhor cara do mundo. Inteligente, bem articulado, lindo... eu achava aquela barba cerrada dele um charme.

Lica fez uma careta.

- Ele só é branco – soltou, arrancando mais um sorriso aberto de Samantha. Ao menos estava conseguindo fazê-la espairecer um pouco, nem que fosse com birra – Sério, ele não tem nada de mais. Sou muito mais eu – um segundo de silêncio – Se ele aparentava isso tudo aí que você disse, escondeu bem o filho da puta que era.

- Eu não acho que o Henrique sempre foi um filho da puta – e vendo a cara de Lica – E não estou defendendo. Só estou dizendo que o tempo, ele muda as pessoas e à medida que as relações se desgastam, o que a gente é vai se moldando junto com ela.

- Pois eu acho que as pessoas são o que são, mas quando a gente gosta não enxerga. E só depois que começa a desgastar é que o encantamento se perde e as máscaras caem. Dizem também que a convivência mata qualquer relacionamento.

Samantha se pegou pensando naquilo.

- Mas quando se gosta de verdade, quando o sentimento é verdadeiro mesmo, o encantamento não se perde. Ele só aumenta.

Fitou Lica, que encarava o tapete, o cenho meio franzido, tentando processar aquilo.

- O encantamento se perdeu? – quis saber. Era óbvio o que ela estava perguntando.

Samantha olhou no fundo dos olhos dela antes de abrir a boca. Eles eram tão profundos, tão negros. Um convite ao mistério e ao desconhecido.

- Sim – foi clara. Viu a expressão de Lica morrer e os ombros dela caírem – Tudo que eu sentia pelo Henrique virou pó.

A Gutierrez ergueu a cabeça de repente, um sorriso lindo começando a se esboçar no rosto. Teve sua resposta pelo olhar de Samantha. Não, o encantamento definitivamente não tinha se perdido.

Mas de repente algo veio em sua mente.

- Samantha, ele não... – como perguntar aquilo? – Ele não te machucou não, né?

- Um-hum – Samantha negou – Mas tentou.

- Oi? – Lica sentiu o sangue ferver – Aquele canalha tentou te bater?

Só de imaginar Henrique sendo agressivo com ela, a garganta de Lica fechava e seu estômago embrulhava. E sua força parecia triplicar.

- Levantou a mão pra mim uma vez, mas não foi a diante. Foi naquele dia depois da galeria. Na hora que eu falei que te beijei.

O queixo de Lica caiu.

- Você... – engoliu em seco, procurando ar – Você falou pra ele que... que a gente...

- Falei, ué. Eu já tinha certeza que ele me traía, só precisava ver pra assinar o atestado de maior galhada de São Paulo. Se ele traiu, eu também podia fazer o mesmo. Se o Henrique não me respeitou, por que eu respeitaria ele?

- Então a Marina tinha mesmo razão. Vocês brigaram e se separaram por minha causa.

- Ele traiu antes, Lica.

- Mas você pensava demais em mim. E nem adianta negar, Samantha, foi você mesma que falou isso ainda agora. Querendo ou não, parece que eu sempre fui uma presença constante na vida de vocês sem nem estar por perto.

Samantha se calou. Até que fazia sentido. Ok, poderia admitir enfim: sempre sentira a falta de Lica, mas mais pela indefinição como tudo terminou do que pelo que ela significava. Samantha só queria ter as respostas que precisava, não era exatamente por Heloísa, certo? Ela esperava que fosse.

- E agora que você voltou, desandou tudo.

- O fantasma do passado que sempre rondou vocês, agora em carne e osso. Qualquer um surtaria.

- Ow! Agora você está justificando as atitudes do Henrique? Ah, porque a ex da minha mulher voltou, eu posso surtar, trair e levantar a mão pra ela? Que porra é essa, Lica?

- Não! – Lica se apressou – Não foi isso que eu quis dizer, você entendeu errado!

- Jura? – debochou.

- Samantha, pelo amor de Deus, não coloca palavras na minha boca! O que eu quis dizer foi que realmente foi por minha causa. Não justificar as atitudes dele, isso nunca, o que aquele canalha fez é imperdoável. Só estou falando que no fim das contas, era eu. Sempre eu azedando os relacionamentos de alguém. Quando não são os meus, são os dos outros.

- Lica, o errado aqui foi o Henrique de dar importância pra uma coisa que não tinha mais importância nenhuma. Era com ele que eu estava casada. O mínimo que ele me devia era confiança.

- É, mas você disse que pensava demais em mim. Ter alguém que você ama e convive, pensando demais em outra pessoa deve ser de foder o juízo de qualquer um.

- Ah, então agora a culpa é minha.

- Meu Deus, Samantha, não! – Lica se desesperou – Caralho, olha aí, está vendo? Eu não sei me expressar. Eu sou um desastre pra falar de sentimento. O que eu quero dizer é que é complicado você começar uma nova história se a anterior ficou mal resolvida, porque sempre vai ter algo dela voltando pra te atormentar. E a forma como a gente teve um fim não foi um fechamento completo, fui eu surtando do outro lado do mundo. Eu fui uma escrota e te deixei aqui tentando reconstruir sua vida com mil perguntas na cabeça e sem resposta nenhuma. E quando a gente não tem respostas, a gente conjectura e quando a gente conjectura, a gente não vive o agora, porque não está totalmente nele, entendeu? – a cabeça de Samantha já estava dando um nó – Eu te deixei sem respostas e não te permiti viver sua vida aqui direito e aí o Henrique, sua relação com ele, foi construída em cima de uma coisa indefinida, o que não permitiu a vocês viverem ela direito.

Um segundo de silêncio para Samantha processar tudo. Fazia sentido sim. Fazia muito sentido. Não conseguir viver uma nova relação porque a anterior ficou mal resolvida. O clichê mais clichê do mundo.

- Dava pra ter resumido tudo isso numa frase menor? – Samantha acabou ganhando um sorriso encabulado de Lica. Ela corou e abaixou o olhar.

- Desculpa, eu falo demais.

- E olha que quem era a matraca era eu – Samantha lembrou e não conseguiu se furtar. Entonou um falsete à la Lambertini de seis anos de idade – Como assim você não sabe fazer a perninha do A?

- Ai, vai se catar – Lica devolveu, com pirraça – Mas falando sério, Samantha. Nossa situação ficou muito mal resolvida e se tornou meio que um peso na relação de vocês.

- Isso explica o ciúmes do MB? Ou do Renan, meu personal? No fim das contas, Lica, o Henrique sempre foi um menino birrento, mimado, que não sabe levar um “não” e que jogava as inseguranças dele pra cima de mim na tentativa de justificar as atitudes erradas. Um cara abusivo, isso sim. Às vezes eu sentia como se fosse uma espécie de prêmio pra ele, sei lá. Uma mulher independente, bem resolvida, bem estabelecida financeiramente... o troféu perfeito.

- Linda, você esqueceu de dizer que é...  – a voz de Lica foi morrendo à medida que entendeu o que tinha dito e terminou quase em um sussurro – Um mulherão da porra – corou – Desculpa.

- Isso eu já sabia, não precisava mencionar – Samantha riu. A leoa mais leonina que o mundo já conheceu se manifestando – Mas eu agradeço o elogio.

- E o Henrique parecia real gostar de você. Quer dizer, eu vi vocês passeando no shopping uma vez e via como ele te olhava. Tinha um sentimento ali no fundo. Vocês formavam uma família muito bonita.

Samantha se surpreendeu com aquela sentença. Realmente não esperava por aquilo.

- Obrigada? – não sabia nem o que dizer – Pena que a embalagem escondia que um produto estragado.

- Esse cara deve me odiar – Lica soltou e riu sem humor – Quer dizer, mesmo sem querer eu parecia estar aqui o tempo todo infernizando vocês, eu virei amiga da filha de vocês... Não era intencional, mas vai saber o que se passa na cabeça dele.

- Já traiu por insegurança, vai saber o que um cara como aquele não é capaz de fazer movido pela raiva – Samantha soltou despretensiosa, mas algo relampejou de novo mente de Lica. As planilhas do Grupo.

Riu, sem humor algum, recebendo um olhar inquisidor de Samantha.

- Se o lance for vingança, o interesse dele não vai ser você, Samantha. Vai ser eu. Tecnicamente, eu que apareci e feri o orgulho dele.

- Como assim?

Lica respirou fundo. Não conseguiria guardar mais aquilo para si. E esperava por Deus que Samantha não a taxasse de maluca e paranoica com mania de perseguição. Acabou encontrando alento no olhar dela.

- O Henrique está roubando o Grupo.


Notas Finais


Gancho pro próximo capítulo: Samantha vai ou não acreditar na Lica? Aceito palpites.
Sobre a Renata, se ela estiver mesmo interessada na Samantha, acabou de dar um tiro no próprio pé kkkkkkkk.
Henrique: não bastou ser posto pra fora de casa e perder o mulherão da porra que é Samantha Lambertini, ainda foi humilhado por ela. Sendo sincera? Achei foi pouco.
Mas e aí, o que vocês acharam sobre essas observações da Lica? De achar que interferiu, mesmo que indiretamente, no relacionamento da Sam? Tem rumo?
E gente... a Samantha admitindo que pensava demais na Lica (emoji de coração aqui) kkkkk. Admitindo que ela era o plano A dela (mais emoji de coração). E a Lica toda felizinha, sorrindo feito boba com o Mozão falando essas coisas (emoji de coração mil vezes).
Ah, uma última pergunta: soco bem dado sim ou com certeza no embuste? Pra mim que a Lica devia era ter socado mais.

Bom, me resta saber o que vocês esperam do restante dessa conversa e como ela vai terminar (onde vai terminar, em que circunstância e vou calar a boca por spoiler demais).

Nos vemos no próximo capítulo!


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