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História Mil Acasos - Capítulo 33


Escrita por: MxrningStar

Notas do Autor


Olá, gente, tudo bom?
Bom, voltando com mais um capitulo, pra ver se a angústia de ver a Clara acidentada se ameniza um pouco rs.
Sem mais delongas, sobre o capítulo de hoje: minuto a minuto.

Boa leitura!

Capítulo 33 - A arte da espera


A arte da espera, ela é horrível. E quando você não sabe o que pode acontecer depois dela, ela se torna mais torturante ainda. Fazia umas três horas que o médico havia aparecido para dizer que fariam uma cirurgia de emergência em Clara para tentar conter uma hemorragia interna. Aquilo foi meio que chutar cachorro morto, porque Lica não sabia mais o que fazer. Simplesmente não sabia. Marta, Luís e Juca estavam que dava pena. Leide apareceu para se juntar a eles, Bóris também estava por ali.

As meninas, seguiam cada uma apegadas às suas próprias crenças implorando seja lá a que ser superior fosse (ou em qualquer que elas acreditassem) pela vida de Clara. Samantha se manteve firme o tempo todo por Heloísa. Ela precisava dela, precisava de seu apoio, então ficou ali oferecendo o ombro, abraçando-a forte para lhe mostrar que ela não estava sozinha nem nunca estaria. Mas teve uma hora em que o desespero começou a tomar conta. Ela se afastou, dizendo que iria ao banheiro, deixou um beijo na fronte de Lica e se levantou.

Entrou por um corredor qualquer só para sumir das vista dela e desabou. Samantha chorou tanto, mas tanto que quem quase precisou de atendimento médico ali foi ela. Acabou sendo amparada por Guto, que percebeu ela sair de perto. O rapaz se agarrou a ela com tanta firmeza, tanta força, que parecia querer coloca-la para dentro de si. Apertava Samantha em seus braços como que para garantir que tinha alguém ali por ela.

Em meio ao choro e ao desespero, chegou a questionar o melhor amigo do porquê daquilo estar acontecendo com uma pessoa que não merecia. Sim, porque Clara não merecia nenhum sofrimento por mínimo que ele fosse, ainda mais ter que lutar pela vida como estava lutando, como se ela não lhe fosse digna. Como se não devesse viver. E Clara devia viver. Devia, porque o mundo era melhor com ela, era um lugar mais lindo, mais agradável, mais suportável com a presença dela.

E tinha ela. Meu Deus, tinha ela ali. Clara era mais que amiga, era praticamente sua irmã, sua companheira em tudo. Fora seu porto seguro quando se viu sozinha e desamparada após a partida de Lica. Junto com Laura, fora seu braço direito depois que Marina nasceu, mesmo não entendendo nada sobre ser mãe. Ela lhe dera sua filha para amadrinhar não fora por acaso: se tinha alguém a quem ela confiaria cegamente sua cria, essa pessoa era Clara.

Ela sempre fora uma menina cheia de vida, para cima, alegre, divertida... um tanto cabeça dura às vezes (não tinha como negar o gene), mas a criatura mais companheira e doada que ela já tivera a oportunidade de conhecer. Era justo, meu Deus, que tudo aquilo lhe fosse tirado assim com aquela ferocidade? Do nada? Simplesmente do nada? Não tivera aviso, não tivera como se preparar. Não estava pronta para o pior porque ninguém talvez nunca esteja. E quando a possibilidade dele bate à porta, a gente vacila e se desespera.

Samantha vacilou e se desesperou.

Guto teve que sentá-la em uma cadeira ali perto para tentar acalmá-la. A exemplo do que ela havia feito com Lica, ele pediu à enfermeira que a desse um calmante. Só retornaram para a recepção do hospital depois que ela minimamente conseguia se manter firme. Ocupou de novo a cadeira ao lado de Heloísa, que parecia estar em todo lugar menos ali. Em estado catatônico, a Gutierrez se limitava a mirar o vazio, vez ou outra deixava escapar uma lágrima, mas era como se houvesse uma parte dela inanimada. Inanimada junto com a irmã deitada em uma cama de hospital ligada a meio mundo de aparelho, lutando para viver.

E Clara, ela tinha que lutar, que travar a maior batalha da sua vida. Ou, do contrário, Lica não saberia o que fazer. Não via perspectiva, não via rumo, não via nada. O vazio.

Passaram-se horas que mais pareceram séculos, milênios, até que o médico apareceu pelo corredor, tirando a touca cirúrgica. Imediatamente, eles se aglomeraram ao redor dele em busca de pelo menos uma palavra de esperança.

- A cirurgia foi um sucesso, nós conseguimos estabilizar a hemorragia e a paciente está com a pressão estável – o fiozinho de que precisavam. O suspiro de alívio foi geral – Ela permanece em coma induzido e vai ficar assim até que a pressão no crânio diminua, só depois que poderemos avaliar a extensão dos danos e trabalhar no sentido de revertê-los. Vamos leva-la para a UTI e aguardar a recuperação para iniciarmos a cirurgia no pulmão perfurado.

Mais outro procedimento. Clara ainda tinha um longo caminho a percorrer, mas pelo menos o primeiro obstáculo parecia ter sido vencido.

- A Clara vai ficar bem, Lica – Benê foi que disse, segurando a mão dela firme. Um gesto impensado para ela, diga-se de passagem.

- Qual a probabilidade estatística, Benê? – Tina perguntou algo que a amiga sempre tinha na ponta da língua. Fosse qual fosse a situação, Benedita sempre sabia as chances exatas em números de algo acontecer ou não.

- Não é de estatísticas que estou falando, Tina – ela explicou – É de ter esperança.

(...)

Henrique estava em estado de choque. Duro, estático, congelado. E isso já fazia um bom tempo, talvez horas. No noticiário, os flashes do acidente envolvendo Clara ainda passavam. A polícia isolando a área e dando início à perícia, informações fornecidas pelo hospital davam conta que a diretora do Grupo tinha passado por uma cirurgia delicada, mas precisaria de outra, que seu estado era gravíssimo e que os médicos corriam contra o tempo para estabilizá-la.

Sentiu mãos em seu peito, foi empurrado para o chão, mas lá mesmo continuou, recostado ao sofá, os olhos vidrados na televisão.

- O QUE FOI QUE VOCÊ FEZ? – Malu berrava em desespero – A MINHA FILHA, SEU DESGRAÇADO! ERA A MINHA FILHA! – e bateu nele com toda a força que conseguiu reunir – A CLARA, MEU DEUS, ERA A CLARA NAQUELE CARRO! SEU INCOMPETENTE! VOCÊ MATOU A MINHA FILHA!

Não... ele não tinha matado ninguém. O médico disse que ela estava no hospital. Em estado muito grave, ok, mas ainda viva e sendo atendida. Ele não era um assassino. Não mesmo. Não podia ser... e... meu Deus, Clara. Não era Lica. Era Clara.

- EU VOU TE MATAR! EU VOU TE MATAR! – Malu continuava berrando – AAAAAAAHHHHH – o grito de desespero dela foi que tirou Henrique daquele torpor momentâneo. Virou-se para ela. Malu estava com o rosto completamente banhado em lágrimas. Ela ainda tinha capacidade de chorar por alguém, pelo visto – A MINHA FILHA... A MINHA FILHA – e avançou nele de novo.

Por mais estranho que possa parecer, por mais impensado que aquela cena pudesse ser, era só uma mãe clamando em desespero pela própria filha sim. Malu poderia ser a foragida da polícia, a bandida, criminosa, ladra, chamem do que for. Mas era mãe. Demonstrava apreço pela filha? Não, não era de seu feitio. Fazia pouco dela e a menosprezava? Sim, com certeza. Movida pelo ódio e pela raiva, pelo sentimento de vingança e pelo ressentimento. Mas, respondam: que mãe quer ver um filho morto? Que mãe quer ver um filho tendo que lutar contra a morte?

E era isso o que estava acontecendo. Sua filha estava entre a vida e a morte. E o responsável estava ali, caído no chão de seu apartamento em estado de choque. Sem nem pensar, ela esticou a mão e pegou Henrique pelo pescoço. Nem resistir ele resistiu.

- Se alguma coisa acontecer com a Clara, eu juro que te mato. Eu acabo com você, seu imprestável. Assassino! VOCÊ É UM ASSASSINO! – e se livrou dele com um safanão – UM INCOMPETENTE QUE NÃO SABE O QUE FAZ E... e... – morreu ali sua voz. Se deixou expressar, passando o braço pela mesinha de centro e derrubando tudo que havia em cima. Saiu andando pelo apartamento completamente transtornada. Perder sua única filha: ela merecia aquilo?

(...)

- Ei – Samantha tentou com a voz mansa – Trouxe pra você – e estendeu para Lica um sanduíche. Sua avó sempre dizia que quando fosse visitar alguém em um hospital, que levasse umas comidinhas e uns casaquinhos. Sua jaqueta já estava em Heloísa. Passara na lanchonete do hospital e comprara um sanduíche e um suco na tentativa de fazê-la comer, mas parece que seria em vão – Lica... você precisa comer alguma coisa. A gente está há horas aqui.

- Não desce, Sammy. Desculpa – foi tudo que disse e se recostou à cadeira. Dando-se por vencida, Samantha deixou o lanche ali de lado e se recostou também, trazendo-a, para si. E de novo, mais uma vez, Lica molhou sua camisa em lágrimas. Limitou-se e apoiar o queixo na cabeça dela, fazendo um carinho em seus cabelos.

- Eu sei que isso tudo aqui é o fim do mundo, mas você tem que se manter forte, meu amor. Não dá pra ficar de pé sem se alimentar. Hum? – e baixou as vistas para olhá-la.

Sem dizer nada, Lica estendeu o braço e pegou o sanduíche sobre a bolsa dela, desembalando-o e tirando um pedaço mínimo. Fez um esforço hercúleo para comer. Devia fazer bem umas seis horas ou mais que estavam ali. O céu lá fora já começava a ganhar tons avermelhados enquanto a claridade se dissipava. Ninguém, simplesmente ninguém havia ido embora. Juca, Tina, Benê, Keyla, Ellen (e Anderson acabou aparecendo depois), MB, Guto, Bóris, Leide... todo mundo continuava ali na espera por notícias e que elas fossem boas.

Lica ainda recebeu uma mensagem de Alice dizendo que soube do acontecido e que passaria no hospital assim que encerrasse um trabalho. E para sua surpresa, Renata também o fizera. Ela franziu o cenho quando viu o número desconhecido, mas ao abrir a conversa, estava lá um “Oi, Heloísa, Renata aqui. Eu soube do que aconteceu e quero que saiba que estou torcendo para que tudo termine bem e sua irmã saia dessa. Qualquer coisa que precisar, pode contar comigo”. Respondeu com um “Obrigado, valeu pela força”. Não tinha muito o que dizer mesmo. Lembraria daquele gesto mais na frente quando tudo estivesse bem. E, Deus, tudo deveria terminar bem.

Era por volta das vinte e uma horas, a noite já caía lá fora, quando o médico retornou pelo corredor e de novo o mesmo balé. Todo mundo correu até ele por notícias.

- Conseguimos contornar a perfuração do pulmão – e mais outro suspiro de alívio – Vamos aguardar o tempo da regeneração do tecido pulmonar para, quem sabe, retirarmos a respiração mecânica. Agora... – a cara dele não era boa. Não mesmo – Encontramos uma leve compressão de uma vértebra, resultado da pancada nas costas – Lica fez uma careta. Conheciam aquela história. E como conheciam. Anderson, irmão de Ellen, tinha passado por situação semelhante há alguns anos. E aquilo fora simplesmente horrível – Estamos aguardando a estabilização da paciente depois dessa segunda cirurgia, mas já contatamos o neurocirurgião para procedermos com a avaliação. Caso seja possível, precisaremos de uma terceira cirurgia.

De novo aquela tortura.

- Doutor – Juca chamou. Esse, coitado, estava destruído – A Clara pode perder algum movimento? – ele só externou a pergunta que todo mundo ali queria fazer.

- Ainda é muito cedo para dizermos isso, mas vamos fazer todo o possível. Só peço que vocês confiem na gente – e se retirou.

A noite foi avançando a passos lentos, lentíssimos. Samantha chegou a falar com a mãe, explicando a situação toda e pedindo que ela ficasse com Marina naquela noite. Ainda falou com a filha, que insistiu tanto em falar com Lica que ou ela passava o celular, ou passava o celular.

- Oi, Mari – conseguiu colocar um sorrisinho mínimo no rosto – Tudo certo por aí?

- Tudo. Tia Lica, a mamãe disse que a tia Clara está dodói, mas que eu não posso visitar ela ainda. Você cuida dela pra mim?

Talvez o mínimo sopro de vida que a Gutierrez precisasse. As duas. Lica sentiu as lágrimas lhe ensopando o rosto.

- Cuido sim, Mari.

- Você promete?

- Prometo – foi tudo que disse – Eu prometo que vou cuidar dela sim.

- Tá bom. Te amo, tia Lica. Eu também amo a tia Clara.

Lica sorriu em meio a choro.

- Eu também te amo, meu amor. E tenho certeza que a tia Clara também. Se cuida, meu pinguinho de gente.

- Tá bom. Tchau, tia Lica.

Devolveu o celular para Samantha, que se despediu da filha com mil e uma recomendações e voltou a abraça-la.

- Você tem a melhor filha do mundo – Lica comentou baixinho, deitando a cabeça sobre o peito dela.

- A melhor filha e a melhor mulher ao meu lado – Samantha respondeu. Lica levantou as vistas para ela.

- A melhor mulher? – repetiu – Olha pra mim agora, Sammy. Olha onde a gente está, olha onde minha irmã está.

Samantha suspirou.

- São fatalidades, Lica. Ninguém pode prever nada. Podia ter sido comigo, com uma das meninas, até com você. A gente só tem que lidar quando isso acontece. Infelizmente.

(...)

- ERA PARA SER A HELOÍSA! – Henrique esbravejou. Saiu de seu estado de choque com um tapa daqueles de Malu – EU NÃO SABIA QUE ERA CLARA NA PORRA DAQUELE CARRO. O VEÍCULO É DA HELOÍSA!

- O CARRO É DA MARTA, SEU INÚTIL! VOCÊ É TÃO BURRO ASSIM A PONTO DE TENTAR MATAR UMA E ACABAR TIRANDO A VIDA DA MINHA PRÓPRIA FILHA? -  e voou para cima dele com tapas e murros.

- EU NÃO SABIA QUE ERA A CLARA! – não era culpa dele, não era!

- A MINHA FILHA, SEU INCOMPETENTE, É A MINHA FILHA! – Malu seguia repetindo, transtornada. Pior que nem no hospital podia se dar ao luxo de aparecer ou sairia de lá presa. Se não morta mesmo.

- EU VOU DAR UM JEITO! – Henrique berrou de volta – TEM QUE TER UM JEITO.

- Reza pra Clara sair dessa, seu filho da mãe, ou quem vai parar em uma cama de hospital entre a vida e a morte aqui é você!

(...)

Heloísa acordou toda doída de ter passado a noite em uma cadeira de hospital. Despertou com a claridade em seus olhos, o movimento de gente indo e vindo. Em cima dela, ligeiramente esparramada, Samantha. Sua namorada tinha uma expressão cansada e extremamente abatida no rosto. Até de olheiras ela estava. Imaginou como que não deveria estar a cabeça dela, afinal Clara era sua melhor amiga e madrinha da sua filha.

- Ei... Sammy – fez um carinho nos cachos revoltos dela, tentando acordá-la – Amor – chamou de novo.

Samantha foi despertando lentamente até se atinar de onde estava. Piscou uma, duas vezes para aprumar a vista. Suspirou e disse um “bom dia, amor” em meio a um bocejo. Esfregou o rosto, deu uma olhadinha ao redor. Com exceção de Keyla e Ellen que haviam saído para comprar alguma coisa para comer, estava todo mundo ali.

- Que horas são? – Samantha quis saber.

- Sete ainda – Lica checou o celular. A bateria estava quase nos finalmente. Samantha viu e tirou de entro da bolsa um carregador portátil, passando para ela.

- Toma, põe pra carregar que eu vou passar uma água no rosto e procurar alguma coisa pra comer.

- Eu adoro esse seu apetite matinal – Lica deu um sorrisinho mais aberto depois do que pareceu ser uma eternidade.

- Eu vou fingir que não vi o duplo sentido dessa frase – Samantha brincou, deixou um selinho nela e se levantou. O celular já estava ao ouvido, provavelmente ligando para a mãe. Lica encarou o teto e ali ficou, de cara para cima tentando desembaralhar seus pensamentos. Não sabia mais nem para que entidade rezar. Parece que já tinha esgotado todo seu estoque de crenças e súplicas.

Samantha retornou com uma sacola em mãos no mesmo momento em que o médico voltou pela terceira vez até eles no corredor.

- Bom dia – cumprimentou.

- Como que está minha filha, doutor? – Luís questiono em desespero.

- Bom, nós passamos boa parte da noite avaliando os danos na coluna e em procedimento cirúrgico para descompressão da vértebra lesionada. Conseguimos reduzir o inchaço e agora é com o corpo dela regenerar o tecido ósseo danificado.

- Isso é bom? – Lica quis saber.

- É sim – o médico deu um sorrisinho – Significa que nossa parte foi cumprida com sucesso e agora depende da resposta da paciente. Eu acredito que tudo corra dentro do esperado, a Clara é jovem, tem muita vida correndo por ela – e foi bastante otimista.

- Nós podemos vê-la? – Juca entrou na conversa – Doutor, eu quero ver minha noiva.

- Bom, no momento ela está na sala de estabilização, de lá nós vamos encaminhá-la para a unidade de tratamento intensiva. Como eu falei, ela sofreu um trauma craniano e o tecido cerebral ainda apresenta um certo inchaço, ela precisa ficar em observação e ser mantida no coma para evitar a sobrecarga do sistema neurológico. Quando ela for para o apartamento, o que deve demorar um pouquinho ainda, aí sim vocês poderão vê-la.

O médico viu a cara que eles fizeram, sobretudo Marta e Luís. Lica estava já tão acabada que nem esboçar mais reação conseguia.

- Olhem, ela está respondendo. Passou por três cirurgias com sucesso, o corpo dela precisa de descanso e mesmo estando inconsciente, visitas no momento podem afetar. Eu sei que a espera é angustiante, mas eu garanto a vocês que já conseguimos passar por boa parte dos problemas. O acidente foi grave, a Clara sentiu muito e precisamos agora só dar tempo a ela para que consiga responder.

Assentindo, foi cada um para um canto.  Keyla anunciou que iria em casa para saber de Tonico que havia ficado aos cuidados de sua vizinha. Tomaria um banho e retornaria assim que se desocupasse. Foi acompanhada por Benê e Ellen. Tina seguiu com Anderson afirmando que voltaria também o mais rápido possível Um a um, eles foram se retirando até que restaram ali apenas Marta, Luís, Lica e Samantha. Leide havia ido na casa da patroa preparar alguma lanchinho que, segundo ela, fosse mais nutritivo que comida de hospital. Retornaria em seguida. Bóris acabou tendo que sair também para tocar a escola. O Grupo não poderia parar. Mas foi pedindo para lhe manterem informado de absolutamente tudo.

- Você devia ir também, Sammy – Lica disse baixinho, sentada com a cabeça apoiada ao ombro dela, o rosto na curva de seu pescoço – Tem a Mari também.

- Eu falei com a mamãe ainda agora, está tudo bem por lá. E ela me mandou isso aqui – abriu o celular e mostrou uma foto para Lica. Era um desenho de Marina. Bonequinhos que, segundo a menininha, eram ela mesma, Heloísa, Samantha e Clara de mãozinhas dadas e sorridentes. O sorriso que se abriu em seu rosto foi involuntário, deu um zoom na tela.

- Eu fiquei parecida – comentou e ganhou um olhar de Samantha. Permaneceu encarando o celular com o desenho ali. Suspirou – Vocês são a melhor coisa que já aconteceu na minha vida. Você, a Mari e as meninas.

- E você foi a melhor coisa que já aconteceu na minha. Você e esse pinguinho de gente aqui – e apontou para o que seria Marina no desenho – Eu amo vocês mais que tudo nesse mundo e a única coisa que quero é que a gente fique bem – deixou um beijinho carinhoso na bochecha de Lica, se demorando ali – Que isso tudo passe e termine bem.

- Te amo – Lica falou baixinho.

- Também te amo – e deixou um beijinho nos cabelos dela.

Chegou uma hora em que simplesmente não tinham o que fazer ali. A muito custo, Samantha conseguiu fazer Lica ir em casa tomar um banho e trocar de roupa. Ela mesma foi junto. Ficou conversando com Leide enquanto a namorada cuidava de si e depois seguiu com ela para seu próprio apartamento, onde se demorou um tantinho no chuveiro. Saiu de lá cheirando a sabonete francês, o que a Lica lhe pareceu quase um sopro de vida. Desceram para pegar o carro com a Gutierrez agarrada a ela, o nariz enfiado na curva do pescoço dela. Seguiram até a casa dos pais de Samantha para verem Marina.

A menina, na hora que viu Lica, correu até ela quase em desespero. Se agarrou à Gutierrez e à mãe que não tinha quem soltasse. Entre beijinhos e carinhos, sentaram-se ao sofá. Laura ofereceu um café, uns bolinhos, mas não descia nada. Não para Heloísa. A mulher fez questão de colocar uns numa vasilhinha para que elas levassem.

Marina perguntou de Clara, Samantha explicou nos melhores termos para que ela entendesse que a situação era séria, no entanto sem assustá-la. Ainda deram um tempinho por lá até anunciarem que retornariam ao hospital. Quer dizer, Lica insistiu horrores para que Samantha ficasse, alegando que não tinham o que fazer lá, mas a Lambertini foi irredutível.

- Eu não vou sair de perto de você, nem adianta – foi decisiva. Quem se agarrou a ela também foi Marina. E pra largar, foi um tanto difícil.

- Mas eu quero ver a tia Clara, mamãe – choramingou.

- Filha, agora não pode – Samantha foi paciente – A tia Clara está dormindo e não pode receber visita, lembra? Depois, quando ela estiver melhor, eu prometo que te levo lá e você mata a saudade, hum?

- Promete?

- Palavra de mãe ninguém contesta – Samantha brincou e jurou de dedinho.

- Tá bom. Te amo, mamãe – e se jogou sobre ela.

- Eu também te amo, meu amor. Mais que tudo no mundo – fechou os olhos, se deleitando com o carinho da filha. Marina repetiu o gesto com Lica e só assim elas conseguiram sair. Retornaram para o hospital em completo silêncio, exceto por Lica, que em determinado momento, se pegou pensando em algo.

- O que foi que aconteceu pra Clara ter capotado o carro, hein? – se perguntou em voz alta. Mirou Samantha – Ela sempre foi tão cuidadosa, nunca ultrapassava o limite de velocidade, sempre respeitou o sinal... eu não consigo entender.

Samantha, que tinha a mão na perna dela, fez um carinho ali.

- Eu confesso que também não entendi nada – respondeu – A polícia que vai dizer o que foi que aconteceu. Já deram algum retorno? Procuraram a Marta? O carro era dela, né?

- Umhum, era sim, mas ainda não procuraram não. Devem estar terminando de periciar, sei lá. Não entendo dessas coisas.

- Vai tudo se resolver, amor. É só ter paciência e esperança – entrelaçou a mão na dela e a levou até a boca, deixando um beijo ali – A Clara precisa da gente agora. A gente não pode é desistir por ela.

- Eu estou tentando, Sammy, mas tá difícil – suspirou e se recostou mais ao banco – Está muito, muito difícil – Lica fechou os olhos e assim permaneceu pelo restante do percurso.

Quando chegaram ao hospital, encontraram as meninas lá novamente junto com MB e Guto. Voltaram a praticar a arte da espera e assim permaneceram pelo restante da manhã, entrando pela tarde. Quando foi no comecinho da noite, parece que o fio da esperança começou a se emendar. Ou ao menos deu sinais disso. O médico que chefiava a equipe que cuidava de Clara apareceu por lá, rapidamente sendo cercado por todo mundo de novo.

- Boa noite – cumprimentou – Temos novidades. Repetimos os exames de ontem e o inchaço no tecido cerebral apresentou uma leve regressão. É um começo.

Aí sim o suspiro de alívio pareceu mais genuíno.

- Ela está fora de perigo então? – Marta quis saber. Médicos tinham muitos termos técnicos.

- Está caminhando para isso – ele explicou – É muito importante que esse inchaço reduza, porque significa que o trauma craniano está retrocedendo. O pulmão que havia sido perfurado também apresenta uma boa cicatrização e a expectativa é que até a amanhã nós retiremos a respiração mecânica.

- Aê, Clarinha! – MB vibrou.

- A gente vai poder ver minha filha quando, doutor? – Luís perguntou. Só queria olhar no rosto de Clara e saber que ela estava bem mesmo.

- Se tudo seguir nesse passo, creio que amanhã, quem sabe. Mas como venho pedindo, vamos dar tempo ao tempo. Esperar eu sei que é difícil, mas é o que podemos fazer agora e, acreditem, ela está respondendo.

Lica soltou a respiração que estava prendendo, agradeceu ao médico e virou-se para se sentar de novo.

- Ela vai conseguir, Sammy – foi tudo que disse, dessa vez com mais convicção e firmeza – Ela vai conseguir.

- E você ainda tinha alguma dúvida? – a Lambertini brincou – É da Clara que a gente está falando, amor. E ela não desiste nunca.

Não mesmo. Não desistia nunca. Não desistiu ali. As horas foram se arrastando a passos lentos, quase parando, mas a cada novo boletim, as notícias iam melhorando. No dia seguinte, conforme esperado, os médicos retiraram a respiração mecânica e ela passou a respirar por si mesma. A pressão se manteve ok, as funções vitais ganhando cada vez mais força, o inchaço na região craniana retrocedendo, ainda que devagar, mas retrocedendo. A compressão da vértebra também dava sinais de melhora, mas resultados mais exatos com relação àquilo só poderiam ser dados depois que ela tivesse condições de passar por exames clínicos.

Clara permanecia em coma induzido, mas estável. Dois dias depois, foi transferida da unidade intensiva para um apartamento. Finalmente a família se viu autorizada a vê-la. Marta e Luís foram os primeiros a entrarem, acompanhados de Lica. Samantha disse que ficaria ali pelo corredor para dar privacidade.

Quando viu a irmã cheia de fios ligada àqueles aparelhos esquisitos fazendo uma sequência interminável de bips, seu coração encolheu. Mas se ela estava ali, era porque havia chances, era porque estava dando sinais de que viver valeria à pena. Só pedia aos céus que Clara continuasse lutando mais e mais a cada diazinho que passava.

Estava pálida, a expressão no entanto era serena. Gentilmente, Lica tocou com a ponta dos dedos no braço dela. A pele estava ligeiramente fria e ela quis muito que aquilo fosse só por causa do ar condicionado.

- Ei – disse baixinho – Você me paga por isso, sua tonta – e riu baixinho – Volta logo, pelo amor de Deus. Volta logo, porque eu estou precisando de você – sentiu uma lágrima teimosa descendo pelo rosto – Eu preciso de você, irmãzinha. Mais que tudo agora, eu preciso de você aqui comigo.

Só se ouviam os bips enjoados dos aparelhos.

Lica recostou a cabeça no braço dela e deixou-se derramar em lágrimas. Talvez as lágrimas que havia mantido bem seguras nos últimos dias. Escoaram por seus olhos que ensoparam o braço de Clara e o colchão sob ela. Quanto tempo passou daquele jeito, ela não sabia dizer, mas foi tirada de seu torpor por uma enfermeira que apareceu para trocar algum tubinho e conectá-lo novamente a sua irmã.

Foram longos cinco dias naquilo. Oito após o acidente. Lica, Marta e Luís praticamente dormiam e amanheciam ali, velando a recuperação de Clara. Todo os dias o sinal de um novo progresso: o inchaço na cabeça diminuindo a uma velocidade maior, os sinais vitais cada vez mais fortes e evidentes... a Gutierrez mais nova voltando à vida.

Era uma sexta-feira quando anunciaram que diminuiriam os sedativos. A esperança era que Clara começasse a responder aos estímulos por si mesma a partir dali. Naquela manhã, Lica estava, como sempre, sentada numa cadeira ao lado da maca, com a mente longe e fazendo desenhos aleatórios com o dedo no braço da irmã aguardando algum sinal que fosse. O recebeu em um mexer de dedo. E depois em outros.

Correu porta a fora, quase atropelando Samantha que carregava um suco e um pãozinho de queijo nas mãos. Retornou para o quarto acompanhada dos profissionais que começaram a anotar coisas em pranchetas, observar dados e mais dados indecifráveis naquele aparelhos, enquanto Clara mexia os dedos, depois a mão. Os pés em seguida. O peito subiu e desceu em uma amplitude maior, o que indicou uma lufada de ar entrando ali.

Viva.

Foi complicado abrir os olhos, parecia tudo um mero borrão branco. Que de branco, foi se tornando meio esverdeado... depois branco com verde... depois cores indistintas que pareciam se movimentar em torno dela. Suas pálpebras pesavam uma tonelada, seu corpo... havia corpo ainda? Ela não sentia quase nada, até que alguém fez o favor de lhe enfiar uma agulha na pele. Ah, ela sentiu. Em um ato reflexo, olhou para seu braço. Havia alguém segurando-o, mas estava se sentindo tão entorpecida e dormente que nem força para protestar, tinha.

- Batimentos, ok. Pressão, ok. Temperatura corporal, ok – alguém ia enumerando. Eram dela que estavam falando?

Quando finalmente conseguiu abrir os olhos e focar em alguma coisa, foram em figuras indo e vindo ao redor dela. Uns se movimentavam rápido, mas havia alguém parado ao lado de sua cama. Ela se ateve àquele rosto. Não fazia a menor ideia de quem se tratava.

- Olá – a voz grave soou quase lhe estourando os tímpanos até que o volume começou a se normalizar e ela pudesse distinguir o que ela dizia – Como se sente?

- C-com sono – respondeu meio grogue.

- Normal. Você vai despertar aos poucos.

Clara voltou a fechar os olhos e respirou fundo de novo. Seu peito doeu e incomodou, como se não estivesse mais acostumado a fazer aquilo.

Depois do que lhe pareceu uma eternidade, o movimento de gente começou a cessar e ela distinguiu mais vultos ali. Mas esses não trajavam roupas brancas. Aprumou a vista tentando se situar. Reconheceu cinco pares de olhos.

- Filha... – aquela voz lhe era muito, muito familiar.

- Meu amor... – aquela ali então lhe deu um sopro de vida.

Quando sua vista finalmente focou, reconheceu Luís, Marta, Juca, Lica e Samantha.

- Vocês estão com umas caras péssimas, gente – foi tudo que disse. Sem nem pensar, Heloísa se jogou sobre a irmã, indo contra todas as regras estabelecidas para a situação. Foda-se os médicos e seus protocolos, sua irmã estava viva. Clara estava viva. Não disse nada, apenas chorou, mas dessa vez as lágrimas eram de felicidade e do mais puro alívio – Lica, eu sei que você me ama, mas para que tá feio – Clara tinha voz ainda instável.

E pela primeira vez em dias, alguém ali soube o que era sorrir.

- Eu te odeio, sua idiota. Como que você fez isso com a gente? – Lica se revoltou, mas voltou a enterrar a cabeça no peito da irmã, apertando-a contra si.

- Escolhe, sua tonta. Ou você me odeia ou me ama, os dois não dá.

- Cala a boca – Lica ordenou, rindo em meio às lágrimas.

A loirinha ainda teve que passar por uma bateria de exames para que os médicos tivessem certeza de que ela estava bem e em pleno estado de consciência como se esperava.

- Seu nome completo?

- Clara Becker Gutierrez.

- Idade?

- Vinte e cinco anos, com cara de quinze – arrancou uma risada geral.

- Gostei do seu bom humor, Clara – o médico entrou na dela – Isso é ótimo pra sua recuperação. Uma mente leve ajuda o corpo. Ah... – olhou para a própria prancheta – Quem o presidente do Brasil?

- Eu preciso mesmo me lembrar desse inferno? – e que aquele médico não fosse apoiador, porque se fosse, ela iria embora de soro na veia e tudo.

- Infelizmente precisa – que bom que não era.

- Eu me recuso a dizer o nome daquela desgraça, doutor, desculpa.

- Tudo bem, eu entendo – ele riu e virou a prancheta para ela – É esse aqui?

- Infelizmente – e se recostou à cama, suspirando.

- Sente alguma dificuldade para respirar, reconhecer objetos ou rostos?

- Não. Só minha perna que está doendo. Tem algum remédio pra dor aí?

- Sua perna dói? – ele se interessou por aquilo. O ocupantes do quarto na mesma hora ficaram atentos.

- Dói. As duas. É normal?

O rosto do médico se suavizou e se iluminou em um sorriso.

- Normalíssimo e uma excelente notícia. Posso? – e fez menção de tocar – Você sente meu toque?

- Sinto – ela respondeu – Formiga um pouco, mas sinto.

- E aqui? – foi testando e tocando toda a extensão das duas pernas dela, recebendo sempre respostas positivas – Movimenta pra mim.

Clara ergueu primeiro a perna esquerda e a dobrou. Retorceu o pé e mexeu os dados. Repetiu o movimento com a direita. Por fim, o médico pediu que ela se sentasse, o que ela fez com extrema cautela. Se pôs ereta, sentiu uma vertigem, sua visão embaralhou, mas se manteve firme.

- É normal a tontura? – quis saber.

- Sim, você passou quase quinze dias na horizontal, normal que o corpo sinta a mudança brusca de direção. Consegue ficar de pé?

Ela assentiu e tocou o chão gelado do quarto do hospital. Seus pés também formigaram, mas ela sentiu a superfície dura e firme e se levantou com ajuda do médico. Cambaleou, quase perdeu o equilíbrio, mas quando ele a soltou, lá mesmo ela permaneceu.

- Te cansa ficar assim?

- De pé? Não muito – ela respondeu.

- Consegue dar um passo?

Clara colocou um pé diante do outro, se desequilibrou e foi rapidamente segura por ele. Voltou à posição normal e repetiu o movimento, dessa vez, o fez com mais firmeza. Conseguiu dar três passos para frente e retornar para a cama.

- Perfeito – ele anotou algo na prancheta – Mas só por precaução, Clara, vou precisar de uma raio x da coluna, hum? Seus movimentos parecem firmes, mas todo cuidado é pouco, você acabou de sair de um coma, de um traumatismo... vai precisar de acompanhamento clínico e fisioterapia só pra garantir firmeza

Ela assentiu e voltou a se deitar.

- Que foi, Lica? Eu hein, parece que nunca me viu?

Heloísa ria feito uma abestada para a irmã.

- Eu nunca fiquei tão feliz de ouvir seus resmungos, irmãzinha.

Sem nem pensar, Clara ergueu o dedo do meio para ela arrancando uma gargalhada do médico, de Marta e Luís.

- Ow, você quer parar de tentar seduzir minha namorada? – Samantha entrou na história – Ela é sua irmã, olha o respeito.

- Meu Deus, vocês são nojentas – foi tudo que ela disse antes de desatar a gargalhar também.

Tinham sentido falta daquilo. E como tinham.

(...)

Apesar de melhor, Clara ainda não podia deixar o hospital. Como ela havia passado por traumas físicos, seu corpo havia sentido muito, os médicos preferiram por bem mantê-la ali por mais alguns dias em meio a exames clínicos, testes de resposta, só para ter certeza de que ela sairia dali no cem por cento de novo.

Lica estava lá todos os dias, se deixasse na verdade ficaria o tempo todo, mas não podia, porque também tinha sua vida para tocar, inclusive as coisas do Grupo. É que como estava acamada, Clara achou de colocar Heloísa como sua representante na escola e embora ela tivesse contando com a ajuda de Bóris, tinha que admitir: administrar uma escola não era fácil. Não mesmo. Na tarde daquela quinta-feira, saiu do Grupo acompanhada de Samantha e com Marina nos braços.

- Vem cá, essas perninhas aí ninguém quer usar né? – Samantha brincou e fez cócegas nas filha, que se chacoalhou e se encolheu todo agarrada a Lica.

- A tia Lica me leva, mamãe – Marina respondeu faceira.

- É, né? Vai nessa... daqui a pouco ela não consegue mais te carregar não, hein? Olha seu tamanho.

- Ih, Sammy, que foi? – Lica brincou – Eu sou forte, tá ok? Consigo carregar a Marina e mais duas dela. Dá uma olhada aqui no meu muque – e elevou o braço em uma contração do bíceps.

- Eu sou forte, consigo carregar duas Marinas – Samantha tirou sarro imitando a namorada em falsete – Sabe o que é bom pros músculos? Varrer casa. E é isso que a senhorita vai fazer quando a gente chegar. Não pensa que eu esqueci a bagunça que vocês duas fizeram na minha sala. Eu pensei que fosse morrer afogada em papel picado.

- Aquilo se chama colagem, Sammy – Lica corrigiu – A gente estava montando o painel da feirinha cultural, né Mari?

- É mamãe. A gente vai construir um beeem grandão, não é, tia Lica?

- Vamos sim, mozinho – e deixou um beijinho estalado no rosto dela antes de se virar para Samantha – Mozão, arte é expressão. A gente não pode impedir a Mari de se expressar.

- Tá, mas ela pode se expressar sem destruir minha sala? Hum? – e seguiram andando para o carro.

Seguiram para o apartamento de Samantha com Marina tagarelando sobre as aulinhas daquele dia. E era impressionante como tinha hora que a Lambertini parecia estar lidando com duas crianças. Lica e sua filha tinham uma sintonia absurda, mas ela sentia que ainda passaria por poucas e boas por causa disso. Oh se sentia!

Heloísa andava passando mais tempo na casa da namorada que na da mãe. Depois que Clara tivera melhoras significativas, o clima pesou menos, as coisas começaram a voltar à sua normalidade, ela sentiu que não haveria problema em se dividir entre Marta e Samantha. Até porque estaria lá quase vinte e quatro horas por dia quando Clara tivesse alta. Era para lá que sua irmã iria, mesmo sob os protestos de Juca... mas, bom, até ele sabia que sua noiva estaria muito mais bem aparelhada lá que com ele sozinho, a começar pela comida. Nunca que Clara dispensaria o tempero de Leide em sua recuperação e Juca mesmo era um completo desastre na cozinha.

- Lica, me traz a toalha, por favor. Eu esqueci – Samantha alteou a voz para se fazer ser ouvida. A artista estava colocando a mesma do almoço e foi correndo até ela. Pegou a toalha no cabideiro e se dirigiu até o banheiro, tirando os sapatos, a camisa, a calça...a roupa toda no caminho. Ainda tinham um tempinho antes da torta terminar de dourar e Marina sair do banho.

- Toalha na mão, mademoiselle – Lica entoou seu melhor francês, pegando Samantha de surpresa toda cheia de mãos.

- Eu não acredito que você... – não teve tempo de terminar. Teve a boca tomada pela de Lica em um beijo lascivo. Separou-se para buscar ar – Vem cá, eu queria a toalha, não a camareira junto.

- Eu venho de bônus – Lica respondeu e virou Samantha com decisão, deixando beijos afoitos pela nuca dela. Com ela nua daquele jeito, deixar só a toalha era sub-aproveitamento de oportunidades – ‘Cê tá tão cheirosa, Sammy.

- Porque eu acabei de tomar banho e você está me melecando toda – Samantha bem que tentou se livrar dela, mas... ah, foda-se. Não tinha como resistir a Lica daquele jeito. Nem a pau. Virou-se em um átimo e a empurrou contra a parede do boxe, arrancando-lhe um gemidinho – Só tenta se controlar.

- Hã? – Lica realmente não entendeu, mas quando a namorada levou a mão até sua intimidade, massageando a carne ali, ela foi ao céu e voltou – Sammy... – soltou em súplica.

- Só um agradecimento pela toalha – a Lambertini disse ao ouvido dela e foi descendo, descendo, descendo... até abocanhar o sexo de Lica com tudo. Chupou, lambeu, beijou, fez tudo o que queria ali embaixo arrancando gemidos sôfregos dela. Sentiu as mãos de Heloísa se fincarem seus cabelos, guiando-a até leva-la ao ápice. Lica se derramou nos lábios de Samantha em um gemido baixinho e arrastado. Quase caiu quando lhe faltou forças. A mente entorpeceu e ela se viu ligeiramente sem noção nem de onde estava por alguns breves segundos, até que a empresária retornou com beijos afoitos para sua boca.

- Você podia pedir a toalha mais vezes – foi tudo que conseguiu dizer, ganhando um sorrisinho arteiro da namorada.

- Safada – Samantha devolveu e beijou uma vez mais antes de... bom, Lica queria mais. Aumentou o aperto na cintura dela, fez menção de virá-la já levando a mão para onde queria, mas ouviram uma vozinha ao fundo.

- Mamãe? – estacaram como se tivessem levado um choque – Mamãe – Marina repetiu mais arrastado, a vozinha se aproximando.

- Puta que pariu, Heloísa! – Samantha se voltou foi contra ela, vê se pode. Deu um tapa no braço dela para se desvencilhar.

- Sammy, a Marina – foi tudo que Lica disse – Como que você faz isso comigo com a menina no outro quarto?

- Foi você que entrou aqui me agarrando! – e empurrou Lica para o chuveiro, abrindo a porta do boxe – Oi, filha! – pegou a toalha e enrolou no corpo bem no exato momento em que Marina apareceu na porta – Mamãe estava terminando o banho. Bora? – e saiu guiando a filha de volta para o quarto.

- Cadê a tia Lica? – Heloísa ainda a ouviu perguntar.

- Deve estar tomando banho também – foi tudo que Samantha disse deixou Marina sentadinha na cama esperando por ela e retornou para o closet, se desfazendo da toalha e se enxugando direito.

Ouviu um assobio vindo de dentro do boxe.

- Gata você, hein? Vem sempre aqui? – virou-se para ver Lica com a cabeça para fora, os cabelos pingando e um sorriso absurdamente lindo no rosto.

- Abusada – Samantha respondeu, mas sorriu também – Anda, apressa aí que a gente quer almoçar.

- A torta está no forno, no ponto já – mas quando Samantha fez menção de sair... – Sammy? – a Lambertini se virou – Traz uma toalha pra mim, amor.

Samantha pegou uma qualquer no armário sob a pia e jogou para ela.

- Você não vale nada.

- E você me ama.

Saiu dali com Marina em seu encalço. Almoçaram em meio a conversas, troca de olhares... Lica se viu sem receios de demonstrar seu afeto para com Samantha diante de Marina, o que era ótimo: significava que havia mais que aceitação ali. Havia acolhimento.

Foram deixar a miniLambertini na aulinha de violão e de lá seguiram para o hospital para ver Clara. Assim que desceram no estacionamento, a Gutierrez se pegou relanceando uma figura que a ela lhe pareceu estranhamente familiar. Estacou onde estava. Samantha percebeu a inércia e foi lá. A mulher entrou em um táxi e saiu dali, mas Lica seguiu o veículo até ele desaparecer de suas vistas.

- Ei, que foi? – Samantha quis saber?

- Eu tive a impressão de que... – e balançou a cabeça ante a possibilidade de ser realmente o que pensara. Com certeza não. Malu não seria doida àquele ponto – Ah, deixa pra lá.

Samantha olhou para onde ela olhava.

- Tem certeza que é pra deixar pra lá?

- Eu tive a impressão de ver a Malu entrando num táxi.

- A Malu? – Samantha repetiu – Lica, a gente está num hospital, ninguém entra aqui sem se identificar, ela correria esse risco?

- Não, né? – ela olhou para a Lambertini – Vai ver foi coisa da minha cabeça – deixou um selinho nos lábios dela e seguiram de mãos dadas (só andavam assim agora) hospital a dentro.

Marta tinha saído para pegar um café, Luís passaria lá assim que saísse da agência de modo que naquele momento no quarto só haviam Clara, Lica e Samantha.

- Cara, eu não aguento mais. Quero ir embora. Eu já estou ótima e ninguém entende isso.

- Calma, amiga, estão só checando tudo. Não vão te liberar se não tiverem certeza que você está realmente bem. Aguenta só mais uns diazinhos.

- Que saco – Clara resmungou e suspirou derrotada – Tudo certo lá na escola, Lica?

- Tudo. O Bóris está tocando tudo, eu só vou pra fazer figuração mesmo.

- Como se você já não fizesse isso todo dia.

- Vai se catar.

- Meu Deus, eu queria entender essa relação de amor e ódio de vocês. Sério – Samantha entrou na história.

- Ela que implica comigo – Clara rebateu.

- Implico mesmo, você também provoca – e Lica foi mais birrenta ainda.

A porta atrás de Heloísa e Samantha se abriu lentamente. Em um gesto automático, a Lambertini se virou e estacou feito um dois de paus. Clara mirou por onde ela estava e arregalou os olhos. Lica percebeu.

- Que foi, Clara? Está sentindo alguma coisa?

- Não importa quanto tempo passe, vocês vão sempre ficar de birra uma com a outra. Estranho seria se não fosse assim - aquela voz fez Lica se retesar. Ela se virou em um átimo, o coração martelando nos ouvidos.

- Eu não acredito nisso.


Notas Finais


Porque drama pouco é bobagem. Precisa ser algum gênio pra saber quem que resolveu ir visitar a Clara? kkkk
Bom, o importante que a menina Gutierrez saiu dessa e agora talvez passemos às coisas práticas.
PS: Amei a Marina apoiando a Lica e amei mais ainda elas destruindo a sala da Samantha com as artes da feirinha cultural kkkkk. A pobre da Sammy vai penar, viu?
E sobre as toalhas... será que se eu pedir uma, a Lica vem deixar? Ou a Samantha? E a Marina, meu Deus, que quase entrou no banheiro na hora errada? kkkkkkkkkk Essas duas precisam controlar o fogo.
No mais, teorias sobre seu Ed aparecendo de volta?
E teorias, claro, sobre o que vem por aí com os embustes? Um plano já deu errado. Qual deve ser o próximo passo deles?

No mais, obrigada pela leitura e nos vemos no próximo capítulo!


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