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História Mil Acasos - Capítulo 43


Escrita por: MxrningStar

Notas do Autor


Olá, minha gente. Tudo bom com vocês?
Bom, primeiro queria dizer que a pessoa que vos fala se livrou de coronga e agora chegou nos 100% de novo. Estou bem, em casa e recuperada. Obrigada pela força de vocês!
Segundamente, vamos direto pro capítulo de hoje e sobre ele: o livro da vida.

Boa leitura!

Capítulo 43 - Página por página


- Namorar? Você falou namorar?

 

Existe gente sem noção no mundo e existe gente nível Heloísa Gutierrez. Samantha suspeitava, mas ali, teve certeza de que ou a namorada não batia bem da cabeça ou ela não batia. Porque não havia outra opção. Como que Lica, a pessoa com quem ela vivia uma relacionamento sério há meses, lhe pedia em namoro? Ela já não tinha feito isso? Ok, que foi depois de uma transa, a primeira delas depois de anos, mas mesmo assim, havia sido um pedido, certo?

Ou Samantha se enganara tanto e pensou que estava namorando com Lica quando na verdade não estava? Ah, não... não mesmo!

- Namorar? – repetiu – Lica, você falou namorar?

- Sim – e foi Lica quem deu a afirmativa – Eu perguntei se você quer namorar comigo, Sammy – e mostrou novamente as alianças de compromisso.

- E assim, só por curiosidade, o que a gente vinha fazendo esse tempo todo? Tipo... nos último cinco meses?! – externou seu descontentamento.

- Ah, é isso – Lica entendeu e riu, para raiva e enfezamento de Samantha – Bom, é que eu nunca fiz um pedido decente e... agora eu estou fazendo – prendeu a atenção da namorada – Você sempre disse que meu pedido de namoro foi uma imoralidade e se a gente for parar pra pensar, foi mesmo. Eu reconheço. Eu joguei pra você a responsabilidade de entender que estava propondo compromisso. E o segundo... ah, o segundo foi depois de uma transa e mesmo que eu tenho sido sincera e você não tenha levado a sério... ele podia ter sido melhor. Sem contar que você não me disse “sim” em nenhuma das vezes e... eu adoraria te ouvir dizer “sim” pra mim – Samantha riu de canto – Diz “sim” pra mim, Sammy.

- Você é maluca – externou, mas deu-se por vencida – Você quer meu “sim”?

- Umhum – Lica soou em expectativa.

- E você ainda tem dúvida, Heloísa?

- Diz, Sammy... – a namorada praticamente implorou.

- Sim, caramba! Sim, sim, é claro que eu aceito namorar com você, sua... ah! – e puxou Heloísa para um beijo apaixonado – É óbvio que eu aceito ser sua namorada – disse contra a boca dela, antes de apossar-se de seus lábios novamente. Lica riu durante o beijo e tirou as alianças da caixinha com cuidado.

- Te amo, Sammy – disse baixinho e tirou a aliança, pegando a mão dela – E eu prometo que eu vou te fazer a mulher mais feliz desse mundo – encaixou ali, levando a mão dela aos lábios em um beijo casto em cima do anel.

- Eu também te amo, sua maluca – Samantha externou e tirou a segunda aliança, colocando-a em Lica – E sou mais maluca ainda de aceitar namorar com você depois de cinco meses de namoro.

- A gente se entende – Heloísa verbalizou e beijou a namorada novamente. E ficou claro ali que Samantha queria mais. Lica que não se fez de rogada.

Deu exatamente o que ela desejava. Se deu inteira. Amou Samantha ali no chão da sala, depois no quarto, depois no banheiro, no quarto de novo... professaram o que sentiam de todas as formas possíveis e imagináveis, as alianças de compromisso reluzindo, deixando claro que ali havia sim duas mulheres prontas pra darem seguimento a uma vida juntas, unidas, uma vida pautada pelo amor e pela cumplicidade.

(...)

- Marina, filha, vambora! – Samantha apressou pela segunda vez – A gente vai se atrasar assim.

- Cadê a tia Lica, mamãe? – Marina perguntou, surgindo na sala com a fardinha azul escuro do grupo e a mochilinha nas costas.

- Ela teve que correr antes da gente, porque parece que teve um probleminha na galeria. Vocês vão se ver no Grupo. Pronta? Bora?

Assentindo, Marina deu a mão para Samantha e seguiram para a escola onde a deixou aos cuidados de Clara. Passou a manhã numa correria só na Meliã. Se reuniu com investidores, visitou seus hotéis, teve que ralhar com os maleiros do Mercure que simplesmente haviam esquecido de etiquetar uma das malas e causaram um pequeno mal entendido com um dos hóspedes, teve sua cota de estresse do dia e quando deu perto do meio-dia, deu seu turno por encerrado.

Saiu caminhando a passos firmes do saguão da empresa, se despediu de sua recepcionista e rumou de volta para o Grupo para encontrar Marina e Lica. Aliás, por falar na namorada, a despeito da quase lua de mel que haviam vivido naquele fim de semana, ela amanhecera o dia dizendo que precisaria sair quase de madrugada de casa, porque surgiu um imprevisto na galeria e ela precisava resolver. O que Samantha estranhou diga-se de passagem. Que imprevisto poderia ter acontecido? Só se fosse na madrugada e nesse horário, a galeria estava fechada.

Mas não externou sua desconfiança, afinal, era de Lica que estava falando e se tem uma coisa que ela seria incapaz de fazer, essa coisa era alimentar as caraminholas em sua cabeça. Achou por bem parar com aquilo.

Encontrou com Marina no meio do pátio do Grupo brincando com uns coleguinhas. A menina corria de um lado para o outro numa velocidade absurda que a mãe se pegou perguntando como aquelas perninhas permitiam tanta agilidade. Teve que chama-la para se fazer ser vista.

- Oi, mamãe – Marina veio para ela ligeiramente suada e vermelhinha.

- Oi, meu amor – Samantha deixou um beijinho no rosto dela – Bora pra casa? Tomar um banho e se livrar desse suor?

- Eu estava brincando com meus coleguinhas. Ganhei duas vezes no pega-pega.

- É claro que ganhou – Samantha brincou e tirou um cachinho de cabelo que caía sobre a testa dela – Você é a melhor jogadora de pega-pega do mundo! Cadê suas coisas?

- Eu esqueci na sala – explicou no instante em que Clara apareceu por ali – Mamãe, eu posso ir ao banheiro? Quero fazer xixi.

- Vai lá, que eu vou pegar suas coisas. A gente se encontra aqui em dois minutinhos, hum?

- Tá bom – Marina assentiu e correu Grupo a dentro. Quase atropelou Clara.

- É energia demais pra um corpinho desse tamanho – Clara brincou e foi cumprimentar a cunhada – Oi, Sam. Tudo bom?

- Tudo sim, e por aqui?

- O mesmo de sempre. Trabalho, trabalho e mais trabalho.

- E a Lica? Ela não tem te ajudado nisso? – Samantha se interessou.

- Aquela infame nem pisou aqui hoje.

- Oi? – Samantha tomou foi um susto – Como assim a Lica não pisou aqui, Clara? Era aqui que ela deveria estar!

- Hoje não. Disse que teve um imprevisto e que não ia conseguir vir.

- E me avisar, ela não pode? Eu pensei que ia encontrar com ela aqui – Samantha claramente se chateou e pegou o celular. Ligou para Lica, mas foi parar direto na caixa postal – Ah, não, Heloísa, você não vai fazer isso....

- Calma, Sam. Talvez ela esteja em reunião, sei lá – Clara tentou amenizar quando Marina apareceu em seu campo de visão.

- Reunião é meu...  – mas calou a boca quando a filha se aproximou. Respirou fundo e tentou se acalmar – Lavou direitinho essas mãos porquinhas? – Marina acenou positivamente com a cabeça – Muito bem. Eu vou pegar suas coisas. Espera aqui.

E a passos firmes, Samantha se dirigiu para a sala de aula de Marina. Por coincidência, era a mesma em que ela estudara com Lica quando se conheceram. Foi um pouco nostálgico, ela não mentiria, encontrar aquele ambiente quase do mesmo jeito de quando haviam passado por ali. As mesinhas espalhadas em grupos, as cadeirinhas branquinhas que hoje não caberiam nem uma banda dela direito, os murais repletos de cores, desenhos, formas, letras, avisos... Acabou rindo de canto de boca, lembrando-se de quando Lica e Felipe resolveram criar um mural eles mesmos desejando boas férias aos coleguinhas no final do ano e engoliram o R da expressão, deixando um “Boas Feias” enorme no fundo da sala. Foram alvo da pirraça dela, Samantha, e de MB, até o encerramento das aulas.

Avistou as coisas de Marina no fundo da sala, se encaminhou até lá para pegá-las e quando ergueu a mochilinha, um caderno caiu no chão. Na verdade, não era bem um caderno, mas sim um daqueles livros ilustrados que ela andava para cima e para baixo com os desenhos de Lica. Se abaixou para pegar e quando virou-o para cima, estacou. Em letras floreadas e bem desenhadas na capa havia um “Limantha em: A Saga do Endgame” escrito na parte superior. Ao fundo e embaixo, Samantha viu a si mesma de baixo na mão em uma pose digna de capa de álbum, e uma Lica “armada” com pincéis e um potinho de tinta aberto, derramando uma tonalidade vermelha na área sobre a qual estava escrito o título. Lá embaixo, no canto, um Lica Gutierrez e um Sammy Lambertini gravados menorzinhos dentro de uma plaquinha cheia de arabescos.

Franzindo o cenho sem entender nada e cuiriosa, Samantha abriu-o para encontrar na primeira página, o cenário onde ela estava. Exatamente ali. Reconheceu ao fundo a sala do jardim, os murais desenhados, as cabecinhas dos alunos, dentre elas duas loirinhas que ela deduziu serem Clara e MB, Guto mais pra frente e lá ao fundo... um espaço em branco, como se faltasse algo ali. Como se....

Samantha gargalhou, não teve como. Aquilo era um álbum de figurinhas? Folheou mais para o final e de fato só o que haviam eram quadradinhos a serem preenchidos na “história”, delas. Lhe chamou a atenção a frase escrita dentro do primeiro quadradinho.

“Você desenha? Legal!”

“Sim, eu gosto de desenhar. E você está me atrapalhando. Eu estou tentando aprender a fazer o A”.

Samantha riu e negou a cabeça. Supôs o óbvio: precisava colar uma figurinha ali, mas onde estava essa tal figurinha, ela não fazia menor ideia. Pegou o celular e mandou uma mensagem para Lica.

“Você é a pessoa mais besta do mundo, e eu só me apaixono mais” – enviou.

Fechou o álbum e terminou de juntar as coisas de Marina, quando do estojo de coleções dela, caiu um envelopinho dourado. Samantha franziu o cenho e o pegou. Abriu-o para encontrar dentro a tal figurinha que estava faltando. E ela era basicamente uma Liquinha e uma Samanthinha de cinco anos de idade sentadas lado a lado com dois balõezinhos de fala em cima dizendo exatamente o que ela havia lido no quadradinho do álbum.

Samantha mordeu o lábio para segurar a lágrima teimosa que quis escapar. Atrás da figurinha havia um “dá vontade de colar em você”. Entendeu o que tinha que fazer. Destacou a parte de trás e colou a figurinha no lugar a que ela pertencia, completando a cena da primeira página.

Rindo feito besta, ela terminou de recolher tudo e voltou para o pátio onde encontrou com Clara e Marina em uma conversa animada.

- Clara – chamou a cunhada – Você por acaso sabe alguma coisa sobre isso? – e mostrou o álbum.

A Gutierrez pegou franzindo o cenho, mas não segurou a gargalhada quando leu o diálogo na primeira figurinha.

- Meu Deus, Samantha, eu lembro disso. A Lica ficou uma arara com você.

- Parou, tá? Eu só queria fazer amizades novas. Tinha acabado de chegar no Grupo e me colocaram logo do lado da insuportável da sua irmã.

- Tão insuportável que hoje ela é sua namorada de aliança e tudo – Clara brincou – Achei genial, hein? A Lica é boa no que faz. Eu estou igualzinha – e se localizou na primeira gravura. Samantha tomou o álbum dela.

- Ela tem é que se explicar porque sumiu do mapa hoje. Se a Lica pensa que vai fugir de mim....

Mas Clara não dava ouvidos.

- Será que a outra figurinha está na cantina?

- Hã? – a Lambertini não entendeu.

- É a cantina do Grupo, não é? – a Gutierrez virou o álbum para ela – Bora lá ver.

E sem aviso, saiu puxando a mão de Samantha. A empresária só teve tempo de chamar Marina. Chegando ao balcão de entrega dos lanches, a diretora quase esfregou o álbum na cara da funcionária para perguntar se por acaso Lica tinha passado por ali. Mas nem precisou muito. Samantha viu de longe o envelope douradinho reluzindo em uma mesa mais afastada. Não entendeu bem o motivo, mas correu até lá e o pegou. Clara foi até ela com Marina em seu encalço.

- A Lica deve estar achando que eu tenho cinco anos pra brincar de caça ao tesouro – externou e abriu o envelopinho. Nele, a figurinha com um desenho dela Lica vendendo bolinho na cantina com Samantha e Felipe do lado. Nos balõezinhos:

“Me dá um também”

“Não. Esse aqui é do Felipe”.

Percebeu que a Lica do desenho tinha uma expressão um tanto triste e a Samantha também. E, ao contrário da primeira figurinha, esta estava toda em preto e branco. Na parte inferior dela, em letras pequenas havia escrito um “erros em P&B”. Colo-a onde ela pertencia, completando a cena.

- Eu amei esse joguinho! – Clara vibrava como uma criança pequena – Sam, a gente saltou uma página – ela observou e voltou uma – A sala de música do Grupo. Vem!

- Meu Deus, Clara! Eu preciso ir embora e almoçar! Estou morrendo de fome e a Marina também!

Mas sua filha pelo visto estava contra ela.

- A tia Lica fez um desenho pra você, mamãe? – a menina tinha era curiosidade.

Juntas, as três marcharam para a sala de música do Grupo, onde Samantha costumava ensaiar com os Lagostins. Foi impossível não sorrir feito besta quando encontrou todos aqueles instrumentos intocados espalhados pelo ambiente. E foi igualmente impossível não reviver Guto, MB e Felipe discutindo por besteira, um reclamando que o outro não sabia tocar direito e atribuindo culpas pelo fiasco da performance. No final das contas, era ela, Samantha, com seu baixo, que sempre dava a palavra final.

E por falar em baixo... no braço dele, sob as cordas, mais outro envelopinho dourado. Tirou-o de lá e abriu. O desenho de agora era ela mesma, Samantha, segurando com firmeza seu instrumento musical enquanto cantava alguma coisa ao microfone. No balãozinho de fala um “Você já é meu crush desde o Oitavo B”. Notas musicais ao fundo completavam o cenário. E assim como fez com as outras duas, Samantha destacou a parte de trás cuidadosamente e a colou no espaço em branco, completando a cena.

- A Lica é genial! – Clara brincou – Não fala pra ela que eu disse isso.

- Mamãe, você tá bonita – Marina observou se deleitando com os traços de Heloísa na página – A gente pode brincar de achar todas as figurinhas. Eu posso te ajudar.

Samantha riu querendo desconversar, mas no fundo estava achando aquilo divertido. Tentou ligar de novo para a namorada, mas deu novamente na caixa postal. Então mandou mensagem de áudio.

“Eu não acredito que você vai me fazer agir como uma criança, Lica. Eu quero te matar, mas eu te amo” – enviou e se virou para a filha – É melhor a gente correr ou ninguém almoça hoje. Faltam quantas?

Marina bateu palminhas animada. Clara virou a página.

- Tem um pebolim aqui. Eu não sei onde é esse – entregou para ela.

- Chapa do Romano. Ainda funciona? – Samantha quis saber.

- Não sei, mas você pode tratar de descobrir. É aqui pertinho, do outro lado da rua. Vai lá e me mantém atualizada sobre seu progresso – Clara praticamente a expulsou. E assim Samantha o fez. Seguiu com Marina para o local onde funcionava a Chapa do Romano, o restaurante do pai de Keyla, à época da escola. Foi folheando o álbum até chegar lá e acabou encontrando algumas páginas sem figurinhas. Ilustrações de eventos que, querendo ou não, marcaram a história das duas: o nascimento de Tonico, por exemplo, e a reforma da lanchonete e do galpão.

E foi lá que ela parou. Como imaginava, o local estava fechado e posto para aluguel. Com a reforma que havia feito, Keyla havia fechado o acesso da lanchonete para a casa que hoje ocupava com Tonico, mantendo apenas o galpão dentro de sua propriedade. Sem ter outra forma de entrar ali se não com a ajuda da amiga de Lica, ela foi bater na casa de Keyla.

E por sorte, a encontrou lá.

- Surpresa boa! – a mãe de Tonico a recebeu com festa – O que foi que a Lica já fez?

Samantha acabou rindo alto daquilo. Claro que ela esperaria alguma coisa com sua namorada. Se bem que na realidade, aquilo ali era bem culpa de Lica mesmo.

- Dessa vez, nada de errado, pelo visto – ela explicou e cumprimentou a amiga – Quer me ajudar nesse desafio de menino de cinco anos que a Lica me deu?

Keyla pegou o álbum das mãos delas e folheou-o cuidadosamente.

- Gente, a Lica é muito fofa... eu sempre soube que por trás daquela carcaça de rebelde sem causa marrenta, tinha uma menina romântica. Ela te ama, Samantha – externou o óbvio.

- Ama me fazer de besta, isso sim. E a minha esperança é conseguir completar esse álbum todo antes do meu almoço, porque ou eu faço isso, ou largo de mão. Tenho menino pequeno comigo, não dá pra ficar rodando assim.

- Ai, para, vai! – Keyla brincou, mas deu as ordens – Almoça aqui comigo e o Tonico. Eu fiz um salpicão que está uma delícia e adoraria ter companhia.

Samantha ficou foi sem jeito.

- Não, Key, sério...

- Ah, Samantha, pelo amor de Deus! Ó, faz assim: deixa a Marina aqui comigo e vai ver se completa esse álbum. Nem é tão grande assim. E pelo visto... é tudo aqui perto.

- Sério que você me dar essa mão? – Samantha quis se certificar.

- Não precisa nem perguntar, né? – e devolveu o álbum pra ela – Eu vou abrir a Chapa, que pelo visto a Lica andou invadindo meu imóvel.

Marina correu casa a dentro para encontrar Tonico e Samantha seguiu com Keyla para a antiga chapa do Romano. O local, apesar de fechado, estava limpo. Pelo visto, os donos daquele espaço zelavam bem por ele. E assim como na ilustração de Lica, havia o pebolim exatamente onde devia estar. Foi impossível não se lembrar da primeira balada que haviam feito ali, com Guto e Benê se enfrentando no jogo e o rapaz perdendo. E ela, Samantha, entregando vinte reais de mão beijada para Tina. Era essa a ilustração do fundo da cena.

E a figurinha que faltava estava justo no pebolim. O envelope dourado reluziu. Samantha foi até lá, abriu-o para encontrar o desenho das turmas das duas escolas, uma Lica encarando Guto e Samantha com sangue nos olhos e uma Samantha encarando Lica com sua melhor cara de deboche. Nos balõezinhos de fala:

“Você se acha, né, Samantha? A Benê vai acabar com vocês!”

“Eu não me acho, Lica, eu sou! E para de enrolar, manda logo sua amiga começar esse jogo!”.

No canto inferior em letras menores: “Você é sim. E eu sou completamente rendida”.

Colou a figura no álbum com um sorriso bobo no rosto. Keyla observava aquela cena com um risinho de canto de boca e a sobrancelha arqueada. Aquelas duas....

- Próxima parada? – a mãe de Tonico perguntou.

- Eu acho que isso aqui é o galpão.

- Partiu galpão – Keyla a seguiu, mas não concluiu o caminho – Eu vou ver a Marina e o Tonico. Quando encontrar, me chama que eu quero ver.

Samantha seguiu para o lugar que tinha se tornado meio que sua segunda casa. Fora ali que vivera alguns dos momentos mais marcantes de sua vida. O que será que Lica tinha reservado para ele? Teve sua resposta ao olhar para a página em mãos: claramente uma balada e ela, Heloísa, em todos os cantos beijando gente. Gargalhou quando se lembrou da Balada Anos 80, em que sua namorada saiu louca agarrando todo mundo só para dar um troco nela e em MB. Lica sendo Lica e nenhuma novidade nisso.

Esquadrinhou o local com os olhos até encontrar o envelopinho sobre as caixas de som de Ellen e Anderson. Dentro dele, a figurinha com o desenho de uma Lica e uma Samantha agarradas em um beijo meio desajeitado. O primeiro delas. Nos balõezinhos de pensamento:

“E aí Lica? Quem beija melhor? Eu ou o MB?”

“Eu tô muito louca, mas caralho, que boca gostosa”.

Samantha riu que gargalhou, se sacudi. Foi aquilo mesmo que Heloísa pensou quando lhe beijou pela primeira vez? Anotou mentalmente o lembrete de pergunta-la depois.

Mas acabou sendo pega por outro envelopinho, desta vez jogado sobre o sofá do galpão. Caminhou até lá, mudando a página do álbum para encontrar a ilustração de Lica e dela mesma sentadas naquele mesmo cenário, de celular em mãos e expressões risonhas. Claro que não poderia faltar aquilo. Samantha pegou o envelope para achar dentro a figurinha com o desenho dela e da namorada se olhando nos olhos com dois balõezinhos de fala:

“A gente deu match”

“Estranho seria se a gente não desse. Bora se jogar?”

No desenho de baixo, no álbum, haviam as duas trocando um selinho. Em palavras floreadas no canto inferior da página, uma frase: “Bendito seja o Shippow”.

Samantha riu sem acreditar no quão bocó era sua namorada, mas entendeu na página seguinte que deveria mudar de locação.

Saiu de lá para o Cora Coralina, cenário da página seguinte. Claramente aquilo ali era a feira cultural que juntou os alunos das duas escolas. Ainda bem que teve só que passar a rua e andar alguns passos, mas estacou quando deu de cara com o porteiro. Naquele horário, as turmas da tarde estavam entrando em aula e os alunos do turno da manhã já deixavam o prédio.

- Boa tarde, hã... meu nome é Samantha – ela o cumprimentou – Eu queria saber se...

- Samantha? – a voz de Ellen soou lá do meio do pátio – Ei!

A programadora foi até ela e liberou sua entrada.

- Você por aqui? – a empresária estranhou. Pelo visto só o que tinha era rostinhos conhecidos nos lugares para onde Lica lhe mandaria naquele dia – Por acaso a Lica tá aqui?

- Eu estou ajudando a Dóris numa turma de programação pros alunos do Ensino Médio – Ellen explicou – E não, Samantha, a Lica não está aqui não. Veio procurar por ela? Acho que você errou de escola – ela brincou.

- Não, na verdade, eu... pode parecer maluquice e criancice, mas a Lica me entregou isso hoje e...

Ellen pegou o álbum e riu grande quando viu.

- A Lica desenhou isso tudo? – Samantha a viu inchar de orgulho – ‘Mó talentosa aquela patricinha, viu? O Cora está igualzinho.

- Pois é e... bom, eu queria saber se...

- Ó, a caverna do futuro! – Ellen externou – Gente, foi o ponto alto da nossa feirinha cultural. Ainda bem que a Lica aceitou fazer outra pra desse ano.

Samantha se assustou.

- Vai ter outra?

- Umhum. Ela não te contou? A Lica vem trabalhando nesse projeto há meses – e sem aviso, pegou Samantha pela mão e a guiou Cora Coralina a dentro. Pararam do outro lado do pátio, onde Samantha encontrou uma caverna quase da sua altura levantada no meio do espaço. Um letreiro colorido sinalizava um “Proibido preconceito” com uma seta apontando para a entrada.

- Vai lá. Faz uma foto e manda pra Lica. Ela vai gostar – Ellen incentivou e Samantha o fez. Só não teve como tirar foto nenhuma, porque quase cedeu nas próprias pernas quando entrou. Era sua voz ao fundo. Sua voz cantando Gente Aberta, as luzinhas dentro piscando no ritmo da música e meio mundo de colagens e stickers cobrindo a parede do lado de dentro.

E naquele momento, a Caverna do Futuro de Lica virou uma Caverna do Passado. Samantha fechou os olhos e pôde se ver ali naquele mesmo lugar com a namorada do seu lado lhe mostrando que independentemente de seus esforços, ela deu sua contribuição para a arte dela: sua voz, sua música, sua mensagem. Sentiu o toque sutil dela em sua mão, o carinho com o polegar, a segurança e a firmeza com que ela lhe conduziu ali para dentro. O coração batendo feito louco no peito ante a proximidade e iminência do óbvio: foi ali que Samantha entendeu que não tinha mais dúvidas e que Lica era sua na mesma intensidade em que ela era dela. E embora tenham tentado usar de uma demonstração sincera de afeto, como foi o beijo que deram ali, para construir mentiras, nem assim o que tinham arrefeceu. Pelo contrário: lutar juntas contra o preconceito de gente mesquinha e maldosa só as tornou mais fortes e unidas.

Na parede da caverna ainda estavam ali as duas bonequinhas de mãos dadas, mas dessa vez havia uma terceira menorzinha entre elas. Samantha riu, enxugando a lágrima teimosa que quis escapar. E nos stickers, ela identificou a caligrafia de Lica com dizeres como “toda maneira de amor vale amar”, “sou dela e sem ela, não sou”, “eu gosto tanto de você, mas não prefiro esconder não”... “se o amor me chamar, eu vou”. E uma sequência de “eu vou” formando corações. Keyla tinha razão: sua namorada sabia ser romântica quando queria.

E ali, no meio dos stickers, um envelopinho dourado que ela puxou e abriu com mãos trêmulas.  No desenho, Lica e Samantha de mãos dadas, se olhando nos olhos com sorrisos no rosto e dois balõezinhos de fala:

“Quê que eu tô fazendo cantando na sua caverna?”

“Essa é a sua contribuição pra caverna do futuro. E essa sou eu te mostrando meu mundo e dizendo que te quero”.

Samantha encontrou mais dois envelopinhos ali dentro, um com a figurinha delas de mãos dadas assistindo Benê e Guto se apresentarem, e outro com as duas se beijando. Sem balõezinhos de fala, porque ali, palavras meio que eram dispensáveis.

Foi folheando o álbum para encontrar a ilustração do pedido de namoro com o diálogo que tiveram naquele dia escrito em letras floreadas por toda a cena. O desenho das duas emboladas na cama com coraçõezinhos saindo delas e tomando de conta do ambiente... cenas do mochilão que haviam feito pouco depois e...

Uma sequência de páginas construídas toda em preto e branco. Aquela sequência, Lica chamou de “imprevistos do meio do caminho em P&B”. Havia a figura solitária de Heloisa andando pelas ruas de Paris, Samantha abraçada com o contorno de uma figura que ela sabia se tratar do pai de sua filha, mão dadas envoltas em sombras, a expressão de Lica triste e abatida em todas as páginas daquela sessão e a de Samantha radiante, mas sem aquele brilho nos olhos característico. A única ilustração colorida daquela parte era ela, Lambertini, com uma figurinha pequena nos braços. Havia cor em cada trechinho que a menininha aparecia, mas somente neles. O resto era tudo escala de cinza.

Até que o serzinho colorido encontra com ela, Lica, em meio a uma arara de roupas e a cor volta à totalidade das páginas. Aos poucos, os tons de cinza vão dando lugar à vivacidade do vermelho, do azul, do amarelo... à vida. Sequências de ilustrações de Marina e Lica comendo coxinha com milk-shake cheias de balõezinhos de fala, duas páginas inteiras dedicadas à menina desenhando, tocando seu violãozinho, chamando sempre um “Mamãe!” e um “Tia Lica!”.... E chegando ao final, a última sessão.

Samantha reconheceu ali o galpão novamente. Estranhou, porque tinha certeza que aquelas cenas ali deveriam vir antes da caverna do futuro, mas enfim, seguiu o que havia ilustrado. Despediu-se de Ellen, agradeceu pela ajuda com a caverna e retornou para o galpão.

Na primeira ilustração, havia Lica desenhando em uma tela enorme e Samantha ao lado conversando. O envelopinho com a figurinha desta cena, ela encontrou próximo a um cavalete que havia por ali. No desenho, Lica e Samantha frente à frente com dois balõezinhos de fala:

“Eu sou só uma cópia melhoradinha do meu pai”.

“Você é de verdade, se joga, luta pelo que quer. Você é totalmente o oposto do seu pai, Lica”.

Na ilustração seguinte, Samantha e Lica estavam ajoelhadas em frente a um painel, pintando. A página era repleta de splashes de tinta, gotas de vermelho, azul, verde, preto... por todo o lado. A figurinha daquela página, ela encontrou no meio do estojo de tintas de Heloísa. No desenho: Lica e Samantha toda meladas de tinta em uma guerrinha, com dois balõezinhos de fala:

“Eu te chamei pra você me ajudar. Você é minha assistente”.

“E se eu disser que prefiro ser sua musa?”.

Samantha riu com aquela lembrança e pulou para a página seguinte, do dia em que ela e Lica finalmente se entenderam naquele mesmo lugar, naquela mesma situação. As duas cobertas de tintas em uma guerrinha. A figurinha desta página estava escondida entre os pincéis da Gutierrez. No desenho, ela e Lica abraçadas com as falinhas:

“E se eu disser que te amo?”

“Eu vou dizer que o que eu sinto é três vezes maior que todo o amor do mundo”.

Samantha riu e chorou ao mesmo tempo. O rosto completamente banhado em lágrimas. Virou para a penúltima página. E o cenário do fundo continuava sendo o galpão, mas dessa vez, havia elas duas deitadas ao sofá se olhando. Ambas com um sorriso bobo no rosto e mais coraçõezinhos espalhados em volta delas. Samantha se pegou analisando cada detalhe daquela cena e lembrando de cada gesto como se fosse ontem. Aquela noite tinha sido uma das melhores de sua vida inteira. Talvez só não entendesse ainda a seriedade e profundidade da situação.

Absorta que estava, Samantha se sobressaltou quando ouviu o barulho do toca discos ressoando pelo ambiente. Pensou que estava sozinha ali, mas pelo visto não. A trilha sonora: Novos Baianos. A mesma música que Lica colocara para embalar o momento que tiveram naquela noite do aniversário de Tonico. Mas o que chamou a atenção, e o coração da empresária ribombou dentro do peito com isso, foi caixinha de veludo vermelho em cima do disco, girando lentamente à medida que a música tocava.

Samantha prendeu a respiração e foi até lá. Pregado na caixinha, havia o envelopinho dourado. Ela o pegou e abriu para encontrar a figurinha com o desenho dela mesma e Lica deitadas de frente uma para outra naquele mesmo sofá se olhando nos olhos. No balão de fala de Lica havia um:

“Eu adoro cantar música brega dos anos 80”.

No de Samantha:

“Eu adoro Luan Santana”.

E dentro de uma balãozinho formado por notas musicais:

“Amar não é pecado e se eu estiver errado, que se dane o mundo, eu só quero você”.

Bom, não era Luan Santana tocando, mas aquela música definitivamente lembrava um dos momentos mais lindos que elas já viveram juntas. E com mãos trêmulas, Samantha estendeu o braço para pegar a caixinha que ainda rodopiava sobre o disco. Abriu-a lentamente como se esperasse algo sair dali de dentro como um gênio surgir de uma lâmpada.

Mas ela estava vazia.

- Você achou mesmo que seria assim tão fácil?

Aquela voz rouca e cadenciada fez os pelinhos de Samantha se eriçarem, um arrepio gostoso percorrer sua espinha, seu corpo inteiro amolecer e seu coração quase querer sair do peito. Virou para encontrar sua namorada parada a apenas alguns passos, a expressão displicente, mas risonha. Lica trajava uma calça marrom e sua eterna jaqueta verde limitar.

- Lica? – foi o que Samantha conseguiu verbalizar. Então suspirou e ajeitou a postura – Onde você estava? ‘Cê me fez rodar um bocado hoje.

Lica sorriu e se aproximou lentamente.

- Bom, se consola, eu também rodei um bocado hoje. Inclusive, acho que passei pelos menos lugares que você. Pra você ver como a gente dá match até nisso – ainda displicente, a namorada se aproximou mais até ficar cara a cara com ela – No final das contas, todos os caminhos nos levam uma pra outra.

Samantha estremeceu com o tom rouco que ela usou. Quis abraça-la e beijá-la, mas se refreou. Tinha perguntas a serem respondidas.

- Por que você sumiu o dia inteiro?

- Eu estava resolvendo umas coisinhas – e então, Lica tirou um livro de ilustrações de dentro da jaqueta – Eu adorei esse álbum. Será que alguém quer fazer um filme dessa saga?

A boca de Samantha se abriu em um O perfeito ao ver nas mãos dela o mesmo álbum que ela mesma segurava.

- Você...?

- Ou uma novela – Lica seguiu em suas divagações – Qual seria o nome? O Endgame? Limantha, o começo? Já sei, já sei! Viva a Diferença. É legal, né? É que o nosso amor, ele é diferente das outras formas de amar, mas mesmo assim merece ser celebrado. ‘Cê gosta desse título? Viva a Diferença? Eu adorei.

- Viva a Diferença é ótimo – Samantha assentiu sorrindo. E já querendo chorar – Como você conseguiu pensar em tudo isso?

- Ah... não foi tão difícil. Nossa história tem muito material, né? Foram alguns meses com um hiato de sete anos, mas a gente deu continuidade de onde parou e nossa série pode ter até uma segunda temporada.

- Segunda temporada?

- Umhum, mas pra isso... eu preciso saber se você aceita – Lica tirou a mão que estava enfiada no bolso da jaqueta e abriu a, revelando uma aliança fininha em outro branco com uma pedrinha de brilhante em cima. A joia reluzia em sua palma.

- Lica...? – Samantha não conseguia falar mais nada além disso. Lica, por sua vez, fechou novamente a mão e guardou-a de novo na jaqueta.

- Lembra quando a gente se conheceu? Que você não calou a boca a aula inteira e eu perdi como se fazia a perninha do A? – Samantha franziu o cenho – Eu te odiei de primeira e tive vontade de te matar depois. Mas aí quando você faltou à aula, eu fiquei maluca pra saber o que tinha acontecido. Você chamou minha atenção ali – Lica respirou fundo – E lembra quando eu expulsei aquele garoto que queria ficar com você na sua barraca no acampamento da escola? – Samantha assentiu ainda sem entender – Eu senti ciúmes e vontade de estar no lugar dele. Você me fez questionar o que eu sentia por você naquele momento.

- Jura?

- Umhum – Heloísa assentiu – E tem também aquela vez em que o carinha que você ficou na festa no oitavo ano tentou ficar contigo de novo e você me puxou e inventou que a gente era namoradas só pra ele sair de perto. ‘Cê lembra disso? – Samantha acenou com a cabeça – Eu quis que aquilo fosse verdade e naquele dia você me fez entender que existia uma coisa no mundo chamada paixão. Você, Samantha, também era meu crush desde o oitavo B.

A namorada gargalhou. Foi sua deixa.

- Lembra do nosso beijo na Balada Anos 80? – Samantha mordeu o lábio – Foi o melhor beijo de todos os cem que eu dei naquela noite. Melhor que o do MB. E eu quis muito repetir. Mas eu tinha medo. E eu tive medo até o último segundo. Até você dizer pra mim que também tinha, mas que enfrentava. Nesse dia, Samantha, você me mostrou o que é ter coragem e se jogar. Agora lembra o meu primeiro pedido de namoro? Aquele imoral que eu fiz aos dezessete anos? – Samantha assentiu – Naquele dia, você me mostrou o que era amar apesar de tudo. Apesar de todos os defeitos, de todas as falhas e percalços. E... – Lica mirou os próprios pés – Mesmo não demonstrando como devia, eu nunca deixei de te amar, o que eu sentia por você nunca mudou e foi só por causa disso que eu suportei. Durante sete anos, Samantha, você me mostrou o que é não desistir.

Samantha buscou os olhos dela, ainda vidrados no chão. Ergueu o rosto de Heloísa com a pontinha dos dedos.

- E quando eu voltei e te encontrei mais forte do que nunca... você me mostrou o que era perdão e acolhimento – Lica respirou fundo – Você, Samantha, construiu a melhor parte de mim. Com cinco anos, eu te notei. Com treze, eu te quis. Com dezessete, eu te amei e agora... – estendeu de novo a mão, com a aliança em riste e outra na palma, se ajoelhando. A boca de Samantha formou um O perfeito – Bom, com vinte e cinco eu queria poder ter a honra de te chamar de minha e completar nosso álbum de figurinhas – o brilhante na aliança reluziu – E se você deixar, eu prometo ser o melhor de nós duas. Exatamente como você me ensinou que eu posso ser – respirou fundo – Samantha Nogueira Lambertini, você aceita casar comigo?

Os olhos da empresária pinicaram, o coração batendo a mil dentro do peito, as mãos suando, Novos Baianos soando ao fundo....

- Lica...?

- Eu sei que foi tudo meio rápido demais, eu te pedi em namoro tem dois dias só, mas... eu não queria mais esperar Sammy. E se você quiser responder, já pode. Meu joelho não tá legal aqui não.

- Não tira o romantismo da coisa, Heloísa!

- Eu só preciso de um sim! – ela exclamou – Ajuda aí e responde logo, amor. Esse chão aqui é duro. Sério.

- Caralho, mas será que até um pedido de casamento...

- Samantha, eu te amo, eu te quero, você é a razão da minha vida, minha paixão correspondida, a figurinha premiada do álbum, só me dá seu “sim” de novo, por favor, ou eu vou ficar por aqui mesmo.

- Sim! Caralho, sim! – ela soltou do nada – E tem como eu te dizer outra coisa que não seja “sim”, sua idiota?

E sem avisou, puxou Lica para um beijo desesperado. Mas aquele ali tinha um gostinho um tanto diferente. Talvez o primeiro da vida delas.

- Eu sempre vou te dizer sim – sussurrou baixinho contra os lábios dela – Eu te amo, Lica, e é claro que eu aceito ser sua mulher, sua tonta!

- Te amo, Sammy. Te amo mais que tudo! – e mergulhou na boca dela de novo. Mas tiveram que se interromper para a parte burocrática da coisa, claro. Lica tomou a mão de Samantha e ela franziu o cenho quando viu as duas alianças se encaixando perfeitamente bem – Nem tão idiota assim – riu contra os lábios da empresária e deixou mais um beijinho, antes de levar a mão dela à própria boca em um beijo casto sobre o anel.

E Samantha repetiu o gesto e colocou a aliança na mão direita de Lica encaixando-a na de namoro. E foi então que percebeu um detalhe que tinha passado despercebido da primeira vez. Enrugando a testa, ela virou a mão de Heloísa para olhar melhor o anel.

- Se o amor me chamar... – foi girando.

- Eu vou – Lica completou – E você, vai comigo? – e riu grande.

- E você ainda tem dúvida? – era o clichê delas.

- Nenhuma – a Gutierrez entoou no tom mais seguro e feliz que conseguiu impor e tomou Samantha nos braços. Beijaram-se como se não houvesse amanhã até que... – Sammy... nós somos noivas.

E desatou a rir feito uma criança que acabara de ganhar o melhor presente da vida.

- Tem um gostinho diferente, né?

- É bem bom – Lica resumiu e voltou a beijá-la – Minha noiva... – beijo – Minha mulher... – beijo – Minha vida inteira! Eu te amo, Samantha Lambertini, futura Gutierrez!

- Eu também te amo, Heloísa Gutierrez, futura... – mas parou – Vai querer meu sobrenome?

- De você, meu amor, eu quero tudo! – e aí sim tomou-a para si como devia e como o momento pedia. E teriam continuado naquele beijo ainda por um bom tempo se não fosse Samantha ter interrompido. Mas só o fez, porque sentiu mãozinhas puxando a barra de sua blusa. Olhou para baixo para encontrar Marina com um sorrisão do tamanho do mundo.

- Oi, mamãe – ela ria faceira.

- Oi, filhota – Samantha acabou rindo junto e se agachou para ficar da altura dela. Não viu a piscadela que Lica jogou para Marina. A menininha apontou para a golinha de sua blusa onde havia um envelopinho dourado pregado.

- A tia Lica disse que eu sou a figurinha premiada.

Samantha virou o rosto para a noiva, e ainda era esquisito referir-se a ela assim, com um olhar curioso. A Gutierrez acenou positivamente e Samantha puxou o envelopinho. E quando o abriu, quase que seu coração saiu pela boca de tão acelerado que ficou. Na figurinha de bordas douradas havia o desenho dela, Samantha, Lica e Marina em algo que à empresária pareceu um porta-retratos de família. As duas sorriam grande com uma Marina igualmente sorridente ao meio. Na borda, em letras floreadas havia um “Limantha quase Endgame”

- Quase? – a Lambertini virou-se para a noiva.

- Claro – Lica externou o óbvio – Ainda faltam duas páginas pra completar.

- Duas? – Samantha realmente não entendeu.

- Umhum – e a Gutierrez a envolveu pela cintura, deixando um beijinho em seus lábios – Nosso casamento e nossa segunda Limanthinha.

A empresária riu baixinho enquanto Lica se agachava para pegar Marina no colo. Dali a pouco não conseguiria mais, parecia que a menina andava comento fermento.

- E se for um Limanthinho? – Samantha brincou e deixou um cheirinho no pescoço da filha.

- Pode ser os dois, mamãe. Eu não me importo de ter dois irmãozinhos.

Lica gargalhou.

- Nem vem – mas Samantha tratou de cortar o embalo – Se quiser dois, vai ser seu departamento, Heloísa. A produção aqui para em mais um e acabou.

- Podiam ser mais cinco. Seria uma homenagem às suas amigas, Lica – a voz de Benê soou da entrada do galpão – E nós poderíamos ter cada uma um afilhado.

- Já pensou? Os Fives! – Tina entrou na onda – E o bônus da Six com a Mari.

Lica particularmente adorou a ideia. Mas parecia ser a única. Samantha mesmo fez foi rir de nervosa.

- Ainda bem que você usa os dedos – disse em meio ao sorriso para disfarçar – Que do jeito que a sua mira é boa, capaz de vir cinco duma vez.

- Se for menino, vai se chamar Lagostinho!  MB invadiu o galpão com tudo. Carregava um isopor junto com Anderson. E Samantha, vendo aquele monte de gente chegando, começou a se questionar até onde aquilo fora combinado – E vai ser educado no padrão Tio MB aqui.

- Deus me livre! – Samantha ralhou – Mas nem a pau que meu filho vai ser Padrão MB. Isso devia ser era proibido.

- Parece ser mais sensato que o Padrão Lica – Benê soltou do nada, o que arrancou um esgar da empresária.

- Chega, eu não vou ficar aqui sendo humilhada. Mari, Tonico? Bora armar a piscina?

Samantha se virou para ela. Definitivamente aquilo era armado.

- Virou almoço de sábado agora? – quis saber.

- Virou nossa festa de noivado, Mozão! – Lica explicou, deixou um beijinho nos lábios dela e se afastou tagarelando com Marina.

E de fato, virou mesmo. Em questão de minutos, MB havia preparado a churrasqueira com Anderson, Clara chegou com Juca e Guto, Benê, Tina e Keyla montavam uma mesa farta e enorme enquanto Ellen cuidava do som e Samantha... bom, ela assistia àquilo feito um dois de paus sem saber muito bem como que seu dia, que começara da forma mais normal e monótona do mundo, terminara em um churrasco de meio de semana, com ela noiva e vendo sua filha e sua futura esposa entretidas em encher uma piscina de plástico e molhando tudo que viam pela frente.

- Samantha, vai trocar de roupa – Tina sugeriu – A Lica trouxe uma sacola com uma muda pra você.

- Ai, graças a Deus. Churrasco com roupa social não rola – e correu para dentro da casa de Keyla entoando um “te amo, mozão” no meio do caminho. E quando voltou, quase deu em MB pelo susto. O rapaz estourou uma garrafa de champanhe que ele havia tirado só Deus sabia de onde (e MB tinha o dom de fazer bebida brotar do nada), para brindar a futura união de suas melhores amigas. E foi taxativo: ou subiria ao altar como padrinho, ou se recusaria a ir para a festa.

- Que cara de idiota é essa, Lica? – Tina foi que perguntou. Não pôde deixar de perceber o sorriso bobo que não deixava o rosto da amiga de jeito nenhum. Juntava ele mais a expressão aérea, a receita era clara: havia paixão ali. Era a cara que pessoas apaixonadas fazem. Óbvio que ela não perderia a oportunidade de implicar.

- Cara de quem está feliz – a Gutierrez respondeu simplesmente e se acomodou em uma espreguiçadeira trajando nada além de um shortinho curto e um biquíni. Ellen e Benê sentaram diante dela. Tina e Keyla, ao seu lado.

- E isso tudo é porque essa noite vai ter? – a mãe de Tonico tirou sarro.

- Essa noite vai ter o quê? – Benê se interessou.

- Nada, Benê. Não dá ouvidos pra essas três aí não que não é saudável – Ellen parou a amiga.

Lica não respondeu mais nada. Estendeu a mão, a aliança reluzindo no anelar direito. Tina segurou o braço da amiga analisando a pedrinha de brilhante com a atenção de um detetive periciando a cena de um crime.

- Um anel de noivado – Ellen também puxou a mão dela para ver direito – Ainda não dá pra acreditar, patricinha – e riu radiante.

- É, gente... a maior pegadora do Grupo vai mesmo virar mãe de família – Keyla puxou a mão para si. Lica terminaria sem braço – Que lindo, Lica! Anelzão, hein?

- Eu não entendi uma coisa. Como você pode ter ficado noiva da Samantha se ela ainda é casada com o Henrique? – Benê foi mais direta – Eles se separaram? Ou vocês vão viver um poliamor?

Mas nem aquilo abalou Heloísa. E não. Deus a livrasse de poliamor com Samantha, ainda mais com um embuste como Henrique. Não queria nem iria dividir sua Sammy com ninguém, muito menos com aquele filhote de cruz credo que era aquele homem.

- Não, Benê, eles ainda não se separaram. Mas é só uma questão de tempo, viu? E quando a Sammy se livrar dele, a gente casa no dia seguinte – entoou com firmeza – Eu não quero e nem vou mais perder tempo com a mulher que eu amo. A gente já passou sete anos longe uma da outra que qualquer segundo agora é ouro.

- Eu achei fofo seu pedido. Toda romântica... nem parece aquele poço de desapego que a gente conhecia. Parabéns, amiga! – Tina a envolveu em um abraço apertado e um tanto desajeitado.

- Parabéns, Licaaaaa! – Keyla entoou e repetiu o gesto, sendo seguida por Ellen. E em segundos, Heloísa estava debaixo de um monte de braços. Exceto por Benê, claro. Ela se limitou a deixar tapinhas em seu ombro e dizer um:

- Eu desejo muita sorte e paciência para vocês duas. Em especial, para a Samantha, Lica. Casamento não é uma coisa fácil, e com você eu imagino que deva ser menos fácil ainda.

- Benedita! – a Gutierrez se ofendeu – Olha, valeu, tá? Eu agradeço as felicitações, mas a Sammy e eu, a gente se entende como ninguém. A vida de casadas não deve ser coisa de outro mundo.

Ela esperava mesmo que não fosse.

- Não é, Lica. E você e a Samantha já moram juntas, né? A única diferença agora vão ser as alianças e os papéis do casamento – Ellen se fez ouvir.

- Eu vou providenciar os vestidos – Keyla se manifestou. É claro que ela providenciaria – Vai ser meu presente de casamento pra vocês os vestidos das duas!

- Eu fico com a playlist da festa. Meu presente – Tina anunciou, erguendo o braço.

- Eu posso tocar a valsa para vocês dançarem – Benê anunciou. Lica riu grande.

- Eu ainda não sei o que vou dar, então vou esperar a lista mesmo – Ellen explicou. Lica envolveu a amiga em um abraço, trazendo-a para si, o que arrancou uma cara feia dela.

- Você vai subir no altar com as minhas outras madrinhas e me fazer a noiva mais feliz do mundo – Lica apertou Ellen contra si.

- Ai, Lica, para! – e a menina se emburrou – Eu vou sim, mas não precisa ficar me agarrando desse jeito. Sua noiva pode sentir ciúmes e eu não quero treta com a Samantha, que ela tem cara de quem vem pra cima como um rolo compressor.

Lica gargalhou, mas viu naquela oportunidade o momento perfeito.

- Ellen, ‘cê sabia que eu tinha um crush em você?

- Oi? – a programadora se alarmou e então riu sem jeito – Que é isso, Lica? Eu hein!

- Sério. Eu te achava a maior gata e esse seu jeito marrento de quem não está nem aí me atraía. Eu morria de vontade de te dar uns beijos. Quase fiz isso na vez que ‘cê foi dormir lá em casa.

- Opa, opa, opa! Revelações aqui – Tina gargalhou – Pode continuar, Lica. Bora lá.

- Eu shipparia hein? Ellica ia ser um casalzão da porra – Keyla fez festa.

- Nós somos amigas quase irmãs. Isso seria quase incesto – Benê foi pela voz da razão – E a Ellen gostava do Jota, Lica. Você não podia competir com ele.

- Uma pena – a Gutierrez deu de ombros – Eu super toparia se a Ellen me quisesse. Inclusive, você era crânio pra umas coisas, mas pra outras... Mais de uma vez eu deixei no ar que estava a fim.

- D-deixou? – Ellen até se engasgou.

 Umhum – Lica foi despretensiosa – Quando você falou que não quis transar com o Fio, eu fiquei pê da vida, mas não era pela situação. É que eu fiquei enciumada. Queria eu estar no lugar do Fio.

- Lica, para! – Ellen gemeu.

- Gente! – Tina desatou a gargalhar.

- Ah, vai, Ellen, ‘cê é a maior gostosa. Eu já te achava um tremendo de um mulherão naquela época e ó... o tempo te fez muito bem, viu? – e deu uma conferida descarada na amiga de cima a baixo com um olhar sugestivo.

- Mano, eu vou embora! – Ellen se pôs de pé, completamente sem jeito – Pra sua informação, eu gosto de homens, Lica. Infelizmente, porque às vezes eles são bem complicados, mas eu gosto.

- Uma pena mesmo – a Gutierrez seguiu provocando – Eu super toparia um poliamor assim eu, você e a Samantha. Imaginem aí o trisalzão da porra.

- Licaaaaa! – Ellen deixou um tapa no braço da amiga, que se encolheu gargalhando – Para, não tem graça nenhuma!

- Pra mim tem – e deu de ombros de novo.

- E essa panelinha aqui? – foi Samantha quem se aproximou.

- Nada não, Samantha – Ellen explicou rápido demais.

- A Lica estava fazendo confissões, Samantha – Benê explicou bem explicadinho – Nós acabamos de saber que ela gostava da Ellen quando éramos adolescentes e que queria beijá-la. E que ficou com ciúmes do Fio ter tentado fazer sexo com ela, porque queria estar no lugar dele.

- Benê! – Ellen exclamou em desespero.

- Fogo no parquinho – Tina colocou lenha na fogueira e Keyla soltou um esgar para conter uma risada.

- É sério isso? – Samantha inquiriu para a noiva, a mão na cintura, a expressão debochada e a sobrancelha arqueada.

- É brincadeira, Samantha – Ellen se apressou de novo – Fala pra ela, Lica.

- Não era não – a Gutierrez soltou, para desespero da amiga – Eu te achava a maior gata e queria sim ficar com você.

- Mano, sério, já deu – Ellen jogou a bolsa sobre o ombro – E Samantha, eu acho melhor você controlar sua noiva. Ela está fora de si.

- Ué, mas você sempre foi a maior gata, Ellen. Aliás, você e o Anderson são meu conceito de bissexualidade. Eu pegaria os dois. Com todo o respeito, Tina – Samantha soltou para colocar lenha na fogueira.

- E o quê? – e Ellen se alarmou. Lica levou a mão ao rosto, se sacudindo toda em uma gargalhada sonora. Foi acompanhada por Keyla e Tina. Benê parecia ainda processar tudo.

- Eu acho que a Samantha também quer beijar você, Ellen – a maestrina explicou.

- Sério? – e então Ellen resolveu dar o troco. Não ficaria ali sendo motivo de brincadeirinhas por parte delas. Não mesmo. Lica que começou, pois ela que aguentasse – Eu também te acho a maior gata, Samantha. Quando o MB propôs de ter um lance ele, a Lica e você, eu fiquei morrendo de inveja dos dois só por sua causa. Se você quisesse, eu toparia de boa.

O sorriso de Lica morreu. O de Samantha, no entanto, se alargou e ela relanceou a noiva antes de jogar a pá de cal.

- Se você tivesse dito, eu largaria essa história poliamor com a Lica de mão e... – e no melhor estilo Samantha Lambertini, mordeu o lábio, meneou a cabeça e lançou um olhar sugestivo para Ellen. Lica conhecia aquele movimento: ela o fizera exatamente assim quando falou aos dezessete anos que queria ser a musa dela. E sendo sincera, não gostou nada daquilo ali. Não mesmo.

- Chega – foi Lica quem interrompeu e levantou da espreguiçadeira em um pulo, parando entre Samantha e Ellen – A brincadeira perdeu a graça já. Ninguém aqui vai ficar com ninguém, e você, Ellen, pode ir tirando o olho da minha noiva, que ela não tem uma aliança na mão por nada, beleza?

- Ficou com medo, patricinha? Eu também sei jogar, viu? – a programadora provocou.

- Bora almoçar? – Lica entrelaçou os dedos aos de Samantha – Eu estou morrendo de fome. E, ah, Sammy, só uma coisinha: esquece essa coisa de poliamor, tá? A gente aqui, eu e você, somos monoamor. Você é minha e eu sou sua. Suficiente e sem espaço pra mais ninguém – ela acentuou o final da frase e olhou incisivamente para Ellen.

- Vocês são muito bestas, mano – a amiga brincou e amoleceu a expressão – E Lica. Ainda bem que você não me beijou. Teria estragado nossa amizade.

- Teria mesmo – Heloísa concordou rindo e passou o braço pelos ombros de Ellen – E estou muito bem obrigada com a minha lagostosa aqui.

Acabaram se acomodando perto da piscininha quando Marina se juntou a elas tagarelando como de costume. A Gutierrez a ouvia atentamente com a menina sentada no colo de uma Samantha quase deitada no banco com as pernas sobre as de Lica. Era o momento família delas. Nem perceberam quando Tina fez uma foto e mandou no grupo d’As Five com a legenda: “Ninguém sabe por quem essa bocó é mais bocó. Se pela mãe ou pela filha”.

Cômico foi como a menina correu toda serelepe até MB quando ele anunciou que a primeira leva de carne estava saindo. E enquanto ele e Anderson operavam os espetos, ela se esbaldava na piscininha de plástico de Tonico, aproveitando que Lica tinha levado sua roupinha de banho. E foi impossível não rir horrores de Marina de chapeuzinho, óculos escuros com armação de estrela, um biquinizinho rosa de florzinhas e sua garrafinha em formato de abacaxi tomando suquinho de laranja num canudinho.

- Mas é muito folgada mesmo, viu? – Samantha se aproximou por trás equilibrando um prato cheio de pedacinhos de carne assada e colocando-a diante da filha. Os olhos de Marina brilharam – Virou madame agora?

Lica foi que não resistiu. Aquele calor e aquela água fresquinha da piscininha lhe foram convidativas demais. Acabou entrando para se molhar um pouco também. E quando Samantha viu a noiva naquele biquíni azul com as curvas à mostra, agradeceu aos céus pela mulher que tinha.

- A piscina é pras crianças, Lica! Olha seu tamanho! – Tina ralhou enquanto a Gutierrez buscava um espaço por ali.

- Vai se catar! – Lica devolveu e se sentou com água do meio da barriga para baixo, esticando as pernas. Não demorou nada e Marina foi se sentar perto dela. Tonico se aproximou pelo outro lado montando uma fileirinhas com seus bonequinhos. E foi ao assistir aquela interação de sua noiva com o afilhado e sua filha, que ela percebeu o óbvio: Lica tinha um jeito absurdo com criança. Não era só por Marina ser sua cria. Os olhos dela brilhavam enquanto travava uma guerrinha de água com Tonico.

Definitivamente ela seria uma mãezona e tanto.

- Vai ficar aí parada no meio do tempo, Samantha? – Guto parou ao lado dela, sorrindo de covinhas e tudo, acompanhando para onde ela olhava.

- Meu útero está coçando – admitiu, ainda assistindo àquela cena.

- Vem outro lagostinho por aí? – ele brincou.

- Não sei, mas que deu vontade, deu.

E sem dizer nada, Guto se afastou sorrindo e negando com a cabeça.

- Sammy! – a voz de Lica a trouxe de volta à realidade – Coloca um biquíni, amor. Cabe nós duas aqui dentro.

- Vem mamãe! – Marina chamou, ainda bebendo seu suquinho – Vem brincar com a gente.

- Eu hidratei meu cabeço hoje, então sem chance. Mas na próxima, prometo que entro – ela garantiu, caminhou até Marina deixando um beijinho na cabecinha dela e uma piscadela para Lica.

Só saíram dali quando Keyla anunciou que quem estivesse na piscina não comeria seus bolinhos de chuva. Retornaram para casa quando a noite começava a cair. Samantha teve que ficar vigiando Marina tomar banho para ter certeza de que ela havia lavado os cabelos direitinho. Quando terminou, a menina praticamente capotou.

(...)

Lica saía da cozinha com um copo de água em mãos quando passou pelo escritório e encontrou Samantha com o rosto iluminado pela claridade do notebook. Ela vinha usando o da Gutierrez para trabalhar enquanto a polícia não lhe devolvia o seu.

Silenciosamente, Heloísa se aproximou e parou à porta, se recostando no batente.

- Trabalhando num sábado de noite? – se fez anunciar. Samantha levantou a vista para ela. Usava seus óculos de grau e Lica admitia: eles a deixavam fraca.

- Só respondendo uns e-mails meio urgentes que apareceram aqui.

- Problemas? – ela caminhou até lá, se colocando atrás da cadeira dela, massageando-lhe os ombros.

- Não. Investidores – atenta à tela, Samantha digitou alguma coisa. Lica aprumou a vista. Era inglês.

- Gente de fora?

- Vai ficar espiando meus e-mails agora? – Samantha brincou e virou o rosto para cima, recebendo um beijinho de sua noiva.

- Desculpa, mas não tem como não ver – Lica desconversou e se concentrou em sua massagem. Samantha relaxou mais e suspirou – ‘Cê tá meio tensa. Tem certeza que está tudo bem?

Samantha assentiu e abriu outro e-mail. Aquele era de Gabriel, Lica viu. E no anexo, quando a empresária abriu, havia um documento em PDF.

“O juiz marcou sua audiência pra quarta, Samantha. Foi publicada ontem de noite no Diário. Essa semana a gente se reúne pra acertar uns pontos”.


Notas Finais


E aí, meu povo? Demorou, mas finalmente rolou, hein? Será que agora esse casamento sai? Pelo visto, parece estar mais perto que longe. Não sei muito o que esperar sobre uma audiência de divórcio da Samantha e do Henrique, mas de uma coisa eu sei: é pra esperar algo rsrs.
E esse pedido de casamento aí? Foi fofo, fofo ou fofo? Sim, porque a Lica é meio bocó e marrenta, mas a bichinha tem sentimentos, gente, e sabe ser romântica rsrs. Eu, particularmente, pensei em um pedido de casamento que fosse bem a cara da Lica e que nos relembrasse um pouco dos momentos importantes da história delas do ponto de vista da Lica: confesso que achei lindo ela ter expressado pelo desenho tudo que elas viveram e como ela se sentiu em cada momento. O que vocês acharam? Boiola ou boiola? rsrs. Fora que fica aí a lembrança física da história delas, né? Sem contar a possibilidade desse álbum de figurinhas aí poder ter outras edições depois rsrs. Não percam de vista que Limantha planeja filhos. Aliás, a Lica se referiu ao filho delas como "nosso segundo Limanthinho". Significa que elas já tem um primeiro? rsrsrs. Achei fofo rs.
Eu apoio os Five a Marina de Six rsrsrs. E vocês?
PS: Momento Ellica e... qual é mesmo o shipper da Ellen e da Samantha? Ellemantha? Samellen? Bom, seja qual for, teve nariguda que não gostou kkkkk. Vocês acharam mesmo que Ellica ia passar batido nesta fic? Mas nem a pau! Eu amo mencionar episódios que o fandom comenta e que se passaram na novela. Quem sabe venham outros rsrs.
Agora, aos avisos: vai ter embuste no próximo capítulo sim, porque eu já estou com saudades do Henrique, da Malu e do Fernando. Meu trio caveirinha vai voltar e com força total. E acho que teremos uma grata surpresa, hein? Mas acho, só estou cogitando ainda rs.

Bom, no mais, gostaria de agradecer a leitura e nos vemos no próximo capítulo!


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